Estudos da Contemporaneidade

As ciências humanas têm por objeto as questões das culturas que hoje se manifestam na mundialização, homogeneizados oriente e ocidente pela economia, pela ciência e pela técnica que aceleram as informações e mudanças. Um dos modos de examinar o problema é considerar o aumento da mobilidade ao longo do planeta e suas consequências, tais como as transformações nos mecanismos de sociabilidade, na constituição das identidades e na construção da cidadania. A cidadania moderna se constrói com base num conjunto de pressupostos: a homogeneidade dos espaços sociais, a comunidade linguística, a ideia de um estado-nação e a cultura escrita. A mobilidade e os processos migratórios levantam importantes questões sobre as identidades: a cidadania construída sobre identidades nacionais, e os direitos a ela vinculados; o surgimento de nacionalismos e a reivindicação de particularismos e identidades fechadas. O tema se justifica porque esses desafios impõem a necessidade de se pensar novas formas de coexistência, de construção de identidades e de direitos de forma mais ampla e democrática. Por outro lado, a redução dos direitos, imposta pela globalização e pela expansão das prerrogativas das grandes corporações, amplia as desigualdades socioeconômicas e políticas e as formas políticas autoritárias. O amplo leque de problemas postos pela contemporaneidade exprime os objetivos específicos dos estudos pertinentes ao projeto: elucidar as novas configurações adquiridas pelas relações entre imagem e conceito, espaço público e espaço da intimidade, ciência e técnica; compreender os processos históricos da produção das identidades e das desigualdades políticas e sociais à luz das demandas de respeito à dignidade humana e de direito à vida; as mudanças substanciais nas configurações societárias em disputa face às exigências impostas pelos “mercados”; elucidar os mecanismos de funcionamento de fenômenos vinculados ao caráter impessoal adquirido pelas relações sociais, com as mudanças impostas pelas novas tecnologias e os processos pelos quais se dá a escassez de recursos morais das sociedades em contraposição à formalização do pensamento das democracias. Espera-se, ainda, promover e aprofundar o intercâmbio científico entre os participantes; garantir os indicadores de desempenho; a extensão do intercâmbio no âmbito da docência; e, por fim, a apresentação dos resultados da pesquisa à comunidade científica, de modo a fortalecer os vínculos das equipes das instituições envolvidas.

Linhas de Pesquisa

  • Mobilidade (Migrações), identidades e cidadania

Uma das características do mundo contemporâneo é o aumento da mobilidade ao longo do planeta; mobilidade tanto de pessoas, como de objetos e, também, de ideias. Este aumento da mobilidade tem como umas de suas consequências importantes transformações nos processos de sociabilidade contemporâneos, na constituição das identidades e a na construção da cidadania. A cidadania moderna foi construída com base um conjunto de pressupostos: espaços sociais relativamente homogêneos, a existência de uma língua comum e um espaço político articulado na ideia de um Estado-nação, tomando a cultura escrita como um de seus referentes. As representações da importância da cultura letrada como instrumento do desenvolvimento da civilização associaram os saberes elementares à instituição escolar e as práticas de leitura difundidas e controladas por essa instituição. Essa articulação implicou a valorização social do alfabetismo vinculado à escolarização, redimensionando as relações entre cultura escrita e cultura oral, prescrevendo determinados saberes e práticas, para grupos cada vez mais amplos da sociedade. Mas também exigiu da escola a instituição de exercícios de poder específicos, cujo cerne está na submissão às regras impessoais. Ainda que dual, a escola ganhou matizes múltiplas, à medida que foi se ampliando a exigência de participação das camadas populares na escolarização. A mobilidade e os processos migratórios na Europa e nos Estados Unidos, especialmente nos últimos anos, têm levado a questionamentos importantes sobre essas identidades nacionais, com a assimilação, ainda que problemática, de migrantes com outras histórias, religiões e culturas. A cidadania construída sobre identidades nacionais, e os direitos a ela vinculados, também foram colocados em questão. Uma das reações frente a estes desafios tem sido o surgimento de nacionalismos e a reivindicação de particularismos e identidades fechadas. Os desafios atuais colocam a necessidade de pensar novos modos de coexistência e a construção de identidades e de direitos de uma forma mais ampla e democrática. Hoje, importantes instituições acadêmicas do mundo grupos de pesquisa que discutem estes temas. O presente projeto busca, desta forma, construir uma rede internacional de pesquisadores, que permita analisar as transformações das formas contemporâneas de sociabilidade e seus desdobramentos, em termos de identidades e de cidadania.

  • Desigualdades, autoritarismos e direitos

Sob o impulso de uma globalização que reduz direitos e aumenta as prerrogativas das grandes corporações, as desigualdades socioeconômicas e políticas tendem a se expandir, juntamente com as formas políticas autoritárias. Estes processos são decorrência das mudanças substanciais nas configurações societárias em disputa, face ao imperativo de atender às necessidades dos “mercados”. A democracia, enquanto esfera de expressão e processamento dos conflitos, tornou-se nas últimas décadas o modelo discursivo hegemônico de regime político. O novo modelo socioeconômico e político gerou muitas e variadas insatisfações, bem como resistências diversas e formas alternativas aos processos de reestruturação das sociabilidades. Se por um lado, a fórmula do estado democrático de direito sofre com as limitações próprias para lidar com processos históricos de produção das desigualdades, por outro, as relações sociais têm sido cada vez mais moduladas pelas demandas de respeito à dignidade humana e de direito à vida. A articulação das desigualdades com as estratégias autoritárias decorre de procedimentos contraditórios, mas extremamente funcionais para o eclipsamento das proposições alternativas. Não haveria um processo unívoco, trata-se de interrogar as técnicas e tecnologias de poder e suas formações históricas, as quais são marcadas mais pelo dinamismo das rupturas e descontinuidades, do que pela sinergia do percurso encadeado de eventos e estruturas. A ocorrência simultânea de diversos processos contraditórios, bem como as variadas defasagens entre discursos e práticas, suscita o entendimento de como e porque o encadeamento de tais acontecimentos vem ocorrendo em diferentes contextos. Como lidar com as estruturas autoritárias e de desigualdades, de modo a produzir saídas cujo ponto de partida fosse a ideia de igualdade? Como seria possível experimentar políticas de diminuição das disparidades sociais e econômicas, sob a égide do respeito às diferenças e aos experimentos de novos laços sociais? Neste contexto, o presente projeto de pesquisa visa compreender os modos decorrentes da produção das profundas diferenças políticas e sociais, considerando inclusive as variadas formas de resistência e de criação de novos interesses comuns, que tencionam ou se contrapõem ao paradigma neoliberal de governo das vidas. Objetivamos chegar às formulações sobre como poderíamos reestruturar os laços sociais se desfazendo das desigualdades sem perder as conquistas que o contemporâneo propiciou.

Países envolvidos
Itália; Moçambique; Chile; Espanha; Argentina; Líbano; México; Portugal; Reino Unido; Alemanha; França; África do Sul.

Coordenador
Prof. Dr. Javier Amadeo

 

Pró-Reitorias

Unidades universitárias

Campi

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