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Tudo em seu lugar

Daniel Araki Ribeiro conta parte de sua trajetória e realização pessoal de quase 15 anos na Unifesp

Daniel Araki

(Arquivo pessoal)

 

O primeiro contato com Daniel foi feito por meio de e-mail. Convidado para ser um dos perfilados da nova edição da revista por causa do ranking internacional que indicou seu nome como um dos destaques, ele logo mostrou ser bastante prestativo e disse que poderia escrever um textinho e encaminhar sem demora! O que, na realidade, foi uma falha de comunicação. E quantas não devem ter acontecido desde que estamos diante desse cenário distópico que nos submete à comunicação por meio do ciberespaço? Para esclarecer: era necessário existir uma conversa (mesmo à distância) para construir algo um pouco diferente dos resumos biográficos dos currículos on-line. Restabelecida a comunicação, foi marcado um encontro por meio de videochamada.

Daniel é pontual. Encaminha um e-mail de confirmação às 13h59 e avisa: “Já estou on-line.” A câmera de seu computador está posicionada de maneira que seu rosto e parte dos ombros ficam quase perfeitamente centralizados. Ele usa uma camiseta cinza clara e, mesmo passando a maior parte do tempo em casa desde o início da pandemia, sua barba está bem feita e os cabelos alinhados. É possível observar paredes brancas, imãs na geladeira distante, alguns recipientes com álcool em gel e uma cruz em tom marrom escuro pendurada acima da porta de entrada do apartamento. “Essa cruz significa muito pra mim. Tem gente que não entende, mas, apesar de ser um pesquisador, eu sou uma pessoa religiosa. Acredito em Deus e ele está presente na minha casa, na minha vida. Por isso essa cruz na porta.” Ele expressa um sorriso tímido, quase translúcido, enquanto responde sobre o símbolo carregado de significados que, sem querer, acaba revelando parte de si, antes que ele possa dizer algo.

Nascido em 1978 no mesmo município onde seus pais cresceram e se conheceram anos antes, Penápolis, interior de São Paulo, Daniel foi ensinado sobre princípios e sobre a importância dos estudos desde criança. Alice e Adirson o instruíram a carregar valores como caráter, honestidade e respeito, e cobravam excelência na escola. Apesar da educação ressoar por vezes rigorosa, os pais também valorizavam ideais como os sonhos que os dois filhos almejavam alcançar. “Se sou quem eu sou hoje é graças aos meus pais. Não só pela minha educação de base, mas por terem investido muito em mim. E eles, também, sempre me apoiaram e valorizaram o pensamento de que ‘você tem que correr atrás dos seus sonhos, conquistar suas coisas’, nunca furtando minha responsabilidade de batalhar para conseguir meu próprio espaço. Eles me inspiram bastante até hoje.”

Aos 17 anos decidiu partir de sua cidade natal por não haver uma grande universidade pública que pudesse conhecer ou fosse pessoalmente interessante para o que gostaria de realizar. Ele, então, prestou e passou no vestibular da Fuvest e logo foi estudar na Faculdade de Odontologia de Bauru, outro município no interior de São Paulo.

Na Universidade de São Paulo (USP) foi onde conheceu mais sobre o que chama de “mundo da ciência.” Depois de começar a participar do programa de Iniciação Científica no Departamento de Ciências Biológicas e trabalhar com projetos no laboratório, seu interesse por microscopia despertou. Foi como o estopim para sua carreira como pesquisador. “Eu conhecia microscopia apenas das aulas do Ensino Médio, mas nunca tinha visto, por exemplo, um tecido no microscópio. Fui conhecer, de verdade, na USP. Aí me apaixonei! Pedi para fazer um estágio e acho que foi isso que deu um start para que eu seguisse carreira.”

Até hoje Daniel trabalha essencialmente com microscopia. É pesquisador e, por sempre ter identificado o desejo de ser um professor universitário, ingressou na Unifesp em 2006 e se tornou docente do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista - que, na época, ainda estava no início de sua construção. “Eu tive a honra de poder participar da formação do campus. Cheguei há 15 anos. Tudo o que tem ali, o que construímos, montamos, os laboratórios, tudo faz parte da minha história. Quando chego lá, sinto motivo de orgulho e de honra.” O campus traz uma sensação de acolhimento e até de certo afeto que o fazem sentir emocionado enquanto relembra de como era tudo no início e da saudade de estar todos os dias em seu posto de trabalho.

Apesar de não sentir que o trabalho remoto o prejudicou, sob o ponto de vista de condições para realizar as atividades em casa, desde o início da quarentena sente muita dificuldade em não poder ir à universidade, por ser um lugar onde realmente gosta de estar e por sentir falta do convívio e da possibilidade de estabelecer diálogos menos impessoais com seus/suas alunos(as). A falta se tornou tão grande que, mesmo com a ausência deles(as), ele decidiu voltar a visitar o campus duas vezes por semana.

Diante da pandemia, depois de ter sido necessário fechar o laboratório e ver os(as) estudantes com vontade de trabalhar e não poderem, ou poderem minimamente, com os prazos expirando, e diversas outras circunstâncias complicadas advindas da crise sanitária, o rapaz centrado procurou fazer o máximo ao seu alcance: se organizou para que os(as) estudantes não fossem prejudicados, continuou dando aulas (on-line) e organizou questões do laboratório para que teses mais urgentes pudessem caminhar.

A notícia sobre o ranking, divulgada no final de 2020, além de ser um reconhecimento por seu trabalho, trouxe uma espécie de energia de renovação e motivação. “Esse reconhecimento me motivou bastante. Foi um prêmio importante; não só pela minha vaidade pessoal, mas pela motivação, porque foi um ano terrível, difícil para todo mundo.” Além disso, o ano de 2019, no qual Daniel foi indicado como um dos pesquisadores de maior impacto no ranking internacional, foi pessoalmente difícil. No entanto, isso fez com que se dedicasse integralmente ao laboratório - o que, consequentemente, rendeu frutos. No final, apesar da questão de saúde, acredita ter sido um ano importante em sua carreira. “Ver meu nome lá foi uma grande surpresa. Eu nem achava que poderia estar naquela lista, principalmente considerando meus companheiros(as), pesquisadores(as) muito mais renomados(as), muito mais antigos(as). Foi uma grande alegria e uma grande surpresa!”

Daniel é bastante reservado, mas conta que se sente privilegiado, contente e um tanto envaidecido com o reconhecimento recebido; também revela considerar seu cargo como professor universitário há quase 15 anos como uma de suas maiores realizações. E, enquanto continua o trabalho remoto, espera avidamente pela possibilidade de voltar à alegria de compartilhar os dias com seus/suas estudantes no campus pelo qual sente tanto carinho.