Quarta, 25 Maio 2016 15:02

Na ciência, é preciso ser anarquista

Denunciado como subversivo durante a ditadura militar, o hematologista Michel Rabinovitch estuda há 70 anos, entre outros temas, células cancerígenas e, atualmente, foca sua atenção em moléculas com efeito antitumoral. Sempre bem-humorado, afirma: “se você não brincar, não descobre ciência”

Ana Cristina Cocolo

Fotografia de Michel Rabinovich, ele olha para a câmera, tem cabelos brancos e usa uma camisa xadrez

Infância feliz

Michel Rabinovitch não se arrepende de não ter seguido a profissão do pai russo, Betzabel Rabinovitch, engenheiro civil, do qual fala com orgulho sobre a vinda da Suíça, onde se formou, para o Brasil em 1923, e dos prédios que ainda existem no sul do país e em São Paulo construídos pela empresa de engenharia Monteiro, Heinsfurter e Rabinovitch, da qual o pai era sócio. “Um dos prédios mais antigos da Santa Casa de Misericórdia foi construído por eles”, conta.

Foi em São Paulo, que Betzabel conheceu a ucraniana Anita Zlatopolsky. Da união, nasceram três filhos: Kelly Cecília (falecida em 2015) e os gêmeos Michel e Gregório Benjamin.

Rabinovitch lembra das brincadeiras na casa onde morava e do suntuoso palacete dos tios Jacob e Eugenia Zlatopolsky (irmã da sua mãe), ambos localizados na rua Piauí, em Higienópolis; das aulas no Colégio Rio Branco e das viagens ao litoral do Guarujá, pela Estrada Velha de Santos.

Os tios maternos também eram donos de uma tipografia, no bairro do Brás, e de uma papelaria na Rua São Bento, junto da Praça do Patriarca, no centro da cidade. No entanto, a morte de Jacob e o encolhimento econômico do país, em 1932, obrigou a tia a mudar-se para um bairro mais humilde, no centro da cidade, onde montou um ateliê de costura.

Com a morte do pai, em 1940, e da mãe, em 1941, Rabinovich e os irmãos foram morar com Eugenia Zlatopolsky, da qual ele fala com admiração. “Ela foi maravilhosa conosco. Mulher forte, inteligente e culta. Morreu com mais de 90 anos. Lia e falava seis idiomas, sem nunca ter pisado em uma universidade”.

Cinco fotos da infância de Michel

As várias fases da infância do pesquisador em São Paulo

A escolha pela área de Hematologia não surgiu por acaso na vida do médico e pesquisador Michel Pinkus Rabinovitch, 90 anos. Aos 15 anos, quando estava se preparando para ingressar na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), no curso de Engenharia Civil, profissão do falecido pai Betzabel, mudou radicalmente a área escolhida ao perder a mãe Anita, então com 46 anos, para uma leucemia aguda. Entre o diagnóstico e sua morte foram apenas três semanas. Um ano antes, o pai, de 47 anos, havia morrido em decorrência de um tumor no rim.

Um dos seus primeiros artigos científicos, uma revisão da literatura, trata justamente dos aspectos citoquímicos da célula leucêmica. Depois, inúmeros outros vieram em sequência, como resultado de uma dedicação de mais de 70 anos à Ciência, iniciada em 1946 na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). “Eu já sabia que queria ser pesquisador. Cabulava as aulas de clínica para trabalhar no laboratório e, ainda no quarto ano da graduação, publiquei meu primeiro trabalho”, conta ele, que se especializou na área de Ciências Biomédicas e teve como guru o eternizado amigo Michel Abujamra. “Nunca fiz um parto em toda a minha vida, pois sabia que não era a área clínica que eu queria seguir”. 

Antes de entrar em Medicina, Rabinovitch encarou o curso preparatório, chamado de pré-médico, que ocorria no quarto andar do prédio da FMUSP. Lá, tinha aulas de Matemática, Português, Biologia, Botânica, Latim, entre outras. Na época, também fazia algumas traduções do inglês para o jornal Crônicas Israelitas, órgão informativo da Congregação Israelita Paulista.

Logo no início do curso médico, conheceu o professor José Oria, um dos precursores da Hematologia Morfológica, médico interessado em música e literatura no Brasil, que lhe abriu as portas do Laboratório de Histologia e Embriologia da FMUSP. No quinto ano da graduação já dava aulas de laboratório para alunos do segundo.

Em 1949, o pesquisador concluiu o curso médico e dois anos depois o doutorado. No ano seguinte, casou-se com Íria Mariani, técnica de laboratório de Hematologia do Hospital das Clínicas da FMUSP. A docência em Histologia e Embriologia aconteceu em 1953, mesmo ano em que se separou de Íria e partiu para os Estados Unidos como bolsista da Fundação Rockefeller por dois anos. Nesse período passou pelo Departamento de Anatomia da Universidade de Chicago, fez um curso no Marine Biological Laboratory (Woods Hole) e trabalhou junto com Walter Plaut – no Laboratório do respeitável professor, biólogo celular e humanista Daniel Mazia –, no Departamento de Zoologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Antes de voltar para o Brasil no começo de 1955, Rabinovitch visitou o Instituto Rockefeller, em Nova Iorque, e, lá, demonstrou que havia nucléolos nas células hepáticas, contrariando a opinião de Alfred Mirsky, importante membro do instituto. “Esse episódio me ajudou a ser aceito na instituição em 1964, quando tive que sair do país devido ao regime militar. Mirsky não havia me esquecido”, lembra.

Em 1959, foi nomeado professor adjunto de Histologia e Embriologia da FMUSP, onde permaneceu trabalhando por 15 anos, e ajudou a despertar ainda mais o gosto da pesquisa em estudantes que, anos mais tarde, tiveram seus nomes reconhecidos dentro e fora do país, como é o caso de Ricardo Renzo Brentani – um dos principais nomes no mundo em pesquisas sobre câncer –, Thomas Maack – importante pesquisador na área de rime peptídeos, com mais de 100 artigos publicados e cerca de 7 mil citações na literatura científica –, Sergio Ryuzo Dohi, Jacob Kipnis, Nelson Fausto, Azzo Widman, Bernardo Liberman, José Gonzales, Sergio Henrique Ferreira, José F. Terzian, Mauricio Rocha e Silva Filho e Waltraut Helene Lay. “Posso dizer que esses 12 pesquisadores foram meus filhos e tenho muito orgulho disso”. Nessa época, Rabinovitch também colaborou com Itamar Vugman, antes dele ir para a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP). 

Uma de suas descobertas ocorreu em 1961, dentro do Departamento de Zoologia da Universidade da Califórnia, Campus São Francisco, nos EUA. Lá, desvendou um simbionte responsável pela incorporação de precursores radioativos no DNA do citoplasma da Amoeba proteus; simbionte jocosamente conhecido no laboratório como “rabinossoma”, em referência ao seu apelido “Rabino” que os colegas utilizam na FMUSP.

Ameaçado pelo regime militar em 1964, Rabinovitch não chegou a ocupar a cadeira de professor de Biologia na Universidade de Brasília (UnB), para a qual se candidatou e foi nomeado no dia 1º de abril de 1964. Deixou o Brasil por 33 anos, passando pelos Estados Unidos e pela França, países que o acolheram e nos quais contribuiu com importantes pesquisas em várias instituições. Nelas, também, treinou vários brasileiros. “No mesmo dia em que fui convidado pela UnB, em 1º de abril, começou a ditadura. Foi uma coincidência incrível. Devo minha carreira internacional aos militares”, afirma ele, que atuava muito pouco politicamente. “Nunca fui comunista. Sou anarquista da subespécie pacifista. No entanto, tive alunos ativos, trotskistas, comunistas, e fui acusado de ser mentor desses estudantes pelo professor Geraldo de Campos Freire, que era o principal repressor dentro da FMUSP”. 

Ele conta que chegou a questionar Freire do que estava sendo acusado. “O professor me respondeu que minha consciência devia saber”.

Foto em preto e branco mostra Michel Rabinovitch ao lado dos pesquisadores, dois homens e uma mulher

Aos 30 anos, como professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), recebe pesquisadores poloneses (centro) no campus

Denunciado por Luiz Carlos Uchôa Junqueira, como perigoso, à agência federal de investigação estadunidense, FBI (Federal Bureau of Investigation) e à polícia brasileira, o médico conta que vários de seus colegas foram presos, como Thomas Maack e Luiz Hildebrando Pereira da Silva. “Fui levado de Ribeirão Preto para São Paulo no fusca do amigo Mauricio Rocha e Silva Filho, para refugiar-me na casa do meu primo José Mindlin por cerca de uma semana”, lembra. “Foi nesse período que recebi uma proposta de emprego, por parte do Walter Plaut, em Madison, capital do Estado de Wisconsin. Mas, optei pela Universidade de Rockefeller, onde dois pesquisadores, James Gerald Hirsch e Zanvil A. Cohn (ambos falecidos), desenvolviam uma importante linha de estudo de pinocitose e lisossomas”. Os lisossomas são organelas celulares responsáveis pela digestão de partículas externas e pela renovação de estruturas celulares. 

Lá, Rabinovitch trabalhou com Hirsch e Cohn. A recepção fraterna do professor pelos pesquisadores e a parceria de cinco anos selou uma amizade que continuou por décadas. Rolin D. Hotchkiss (falecido em 2004) é outro grande amigo que o pesquisador fez em Rockefeller.

Em 1968, Rabinovitch casou-se com a suíça Odile Levrat, então técnica de laboratório da Universidade Rockefeller, em Nova Iorque, onde o pesquisador trabalhou até 1969, como associado de pesquisa no Laboratório de Fisiologia Celular e Imunologia. Assumiu, ainda em 1969, o cargo de professor associado de Biologia Celular da Escola de Medicina da Universidade de Nova Iorque, passando a titular quatro anos depois. Lá teve a oportunidade de reencontrar Victor e Ruth Nussenzweig e seus filhos, companheiros e amigos para sempre. 

Fotografia em preto e branco de Michel com suas filhas pequenas

Com as filhas, Miriam e Caroline (amparada com as mãos), durante sua estada nos EUA, há 43 anos

Da relação com Odile, que durou oito anos, teve duas filhas estadunidenses: Miriam, que se mudou para Paris e mais tarde casou-se com o francês Serge Hascoet, e Caroline, que continuou no Brooklyn (Nova Iorque), ambas formadas em Literatura. Miriam, que faleceu no ano retrasado, aos 46 anos, tem uma filha, Eleanor, da qual o avô fala com muito orgulho, apesar de vê-la pouco, devido à distância. Caroline, 46 anos, é uma escritora reconhecida no seu país de origem. 

Desgostoso com os acontecimentos no Brasil e com família formada no exterior, Rabinovitch não voltou, em 1979, quando foi promulgada a lei da anistia, pelo presidente João Batista Figueiredo. “O assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, me deixou tão revoltado que não tive dúvida. Entreguei meu passaporte no consulado brasileiro, em Nova Iorque, e fiquei dois anos sem nacionalidade, não podendo sair dos EUA, até conseguir me tornar um cidadão americano”, conta ele, que chegou a ser questionado pelo FBI se tinha escrito algum artigo no jornal O Bisturi, publicação do Centro Acadêmico da FMUSP. “Quando voltei ao Brasil, em 1997, o presidente Fernando Henrique Cardoso me devolveu a cidadania brasileira e o reitor da USP, José Goldemberg, me aposentou. Hoje, tenho orgulho de ser professor emérito de lá”. 

Em 1980, o pesquisador passou pela Unidade de Parasitologia Experimental do Instituto Pasteur, onde trabalhou com Leishmania junto a Jean Pierre Debet, e manteve bastante contato com o amigo Luiz Hildebrando Pereira da Silva. Apesar de diversos colegas o chamarem para voltar a atuar no Brasil, um convite para trabalhar como mestre de pesquisas no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), no Instituto Pasteur, em Paris, quatro anos depois, marcou uma nova fase na vida do pesquisador. Na instituição, passou a chefiar o laboratório da unidade de Imunoparasitologia, onde se aposentou em 1994. 

Desde 1997, Rabinovitch é professor colaborador na Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), onde recebeu um laboratório e foi orientador de diversos alunos da pós-graduação. Sua última orientação ocorreu em 2007. Hoje, o pesquisador, que continua acolhido na instituição, dedica seu tempo à revisão de trabalhos científicos sobre várias drogas não convencionais (disponíveis no mercado) com efeitos antitumorais, como Metfornima, Propranolol, Resveratrol, entre outras.

É preciso fortalecer as cadeiras de Oncologia Experimental no país

Fotografia atual de Michel, ele está olhando em um microscópio

Apesar de aposentado, Rabinovitch não cessou as pesquisas

Michel Rabinovitch está debruçado no estudo de drogas antitumorais reposicionadas, ditas não convencionais, entre as quais várias aprovadas no tratamento de outras condições e doenças, como a aspirina, o propranolol, a metformina, o resveratrol e a cloroquina. 

”Há uma série de moléculas. Tenho uma lista de cerca de 90 delas com atividade antitumoral comprovada em animais, mas que infelizmente não despertaram o interesse de investidores e indústrias farmacêuticas, por não terem sido canonizadas pelo Food and Drug Administration (FDA), dos EUA, e continuam ignoradas nos tratados recentes de quimioterapia do câncer”, afirma. “Estas drogas não convencionais, que não fazem parte do armamento oncológico oficial, podem cooperar com os quimioterápicos convencionais, aumentando a atividade desses medicamentos, sem onerar a toxicidade ao paciente”. 

De acordo com ele, em todo o mundo dito livre, os custos para o tratamento de câncer pelas moléculas convencionais são muito altos e o desenvolvimento e aprovação de novas drogas pelo FDA pode custar centenas de milhões de dólares e levar até 17 anos para elas entrarem no mercado. Rabinovitch espera, no entanto, despertar o interesse de outros pesquisadores para levar adiante a proposta de associar drogas auxiliares da quimioterapia, duas a duas ou três a três, em estudos pré-clínicos, avaliando seus efeitos em culturas celulares em embriões normais de galinha ou enxertados com tumores humanos”, explica. “A julgar pela literatura, as drogas auxiliares foram geralmente utilizadas uma a uma, raramente em combinações de duas e quase nunca em combinações de três”.

Algumas das drogas não convencionais, com atividade antitumoral, que recebem mais atenção do pesquisador

Droga

Nº de Referências Bibliográficas

Aspirina

3.152

Cloroquina

971

Metformina

2.460

Propranolol

1.057

Resveratrol

1.685

Dicloroacetato

151

 

Em contraste, referências às combinações de duas moléculas adjuvantes no tratamento de câncer são extremamente raras (citados os dados de seis fármacos, mas, de acordo com o pesquisador, há muitos outros disponíveis)

Droga

Nº de Referências Bibliográficas

Aspirina / cloroquina

4

Aspirina / metformina

37

Aspirina / propranolol

8

Aspirina / resveratrol

11

Cloroquina / resveratrol

4

Cloroquina / Dicloroacetato

1

Metformina / cloroquina

10

Metformina / resveratrol

13

Metformina / Dicloroacetato

4

Propranolol / cloroquina

1

Fonte: Michel Rabinovitch

Para o pesquisador, esse protocolo, com as drogas auxiliares sós ou combinadas às drogas convencionais, além de gerar economia aos cofres públicos, abre a possibilidade de reduzir as doses de drogas tóxicas comumente utilizadas para o tratamento do câncer. 

Rabinovitch pretende concluir essa análise e submeter um artigo para publicação. “O Brasil precisa ser mais participativo, não somente em Oncologia Clínica, mas também na Experimental”, diz. “É preciso fortalecer cadeiras de Oncologia Experimental nas universidades de Ciências Básicas e investir não apenas em novas drogas, mas também em combinações de drogas já existentes (o que talvez dê menos prestígio, mas seja útil), com ação comprovada em animais, para podermos baratear os medicamentos contra câncer e torná-los mais acessíveis”.

 

Publicado em Edição 06
Quarta, 25 Maio 2016 09:34

Contágio, miasmas e microrganismos

Uma visão retrospectiva das principais concepções sobre a origem das doenças transmissíveis até o estabelecimento da teoria microbiana em meados do século XIX

Celina M. Brunieri

Agradecemos a Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, professora doutora do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo, pelas sugestões e críticas apresentadas, as quais foram essenciais à elaboração deste artigo. A referida docente é especialista em História da Ciência e doutora em Ciências Biológicas na área de Genética pela Universidade Estadual de Campinas, tendo cumprido programa de estudos (doutorado sandwich) no Departamento de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Cambridge (Inglaterra). Obteve ainda o título de pós-doutorado no Grupo de História e Teoria da Ciência, vinculado à Unicamp.

Quadro O Triunfo da Morte, onde são retratados esqueletos e corpos, em dezenas de tipos de morte

O Triunfo da Morte (cerca de 1562). Pieter Bruegel, o Velho

No início deste ano, o Instituto Butantan implantou a fase III dos testes clínicos relativos à avaliação da eficácia da vacina contra a dengue, que utiliza vírus geneticamente modificados e é produzida em parceria com o National Institutes of Health (NIH). Essa notícia – divulgada pelos meios de comunicação – não causou surpresa porque nos habituamos a conviver com as conquistas da ciência atual – no caso, a produção de imunobiológicos. Todavia, a construção da ciência e de seu corpo teórico foi um processo gradativo, que demandou a contribuição de vários agentes e a constante superação de desafios. É útil relembrar que, de forma empírica, o médico inglês Edward Jenner (1749-1823) obteve êxito na imunização contra a varíola, mediante o emprego de um método semelhante ao da variolização, porém mais seguro: inoculou em indivíduos a secreção de pústulas que surgiam nos portadores da “varíola das vacas” (cowpox), pois esta doença, quando adquirida pelos ordenhadores, tornava-os resistentes à varíola humana. 

Na história da Medicina sucederam-se várias explicações sobre a causa das doenças transmissíveis até a identificação dos microrganismos como agentes patogênicos, o que ocorreu na segunda metade do século 19. A partir daí, pôde-se estabelecer a teoria microbiana, fundamentada em evidências empíricas. Para a elaboração desse amplo painel consultamos, entre outras fontes, as obras: Contágio: história da prevenção das doenças transmissíveis, de Roberto de Andrade Martins e colaboradores, e Divided legacy: a history of the schism in medical thought, de Harris L. Coulter.

Antiguidade

Os antigos povos da Mesopotâmia acreditavam que os deuses infligiam doenças aos homens quando estes transgrediam as regras morais ou descumpriam as obrigações religiosas. Embora predominasse o caráter religioso na Medicina praticada por esses povos, reconhecia-se que várias doenças tinham causas naturais, para as quais se empregavam medicamentos extraídos de plantas. 

A Medicina religiosa indiana considerava que as orações e práticas mágicas tinham o poder de expulsar entidades vivas e invisíveis, que penetravam nos corpos, provocando o adoecimento. Eram também comuns os rituais de purificação, que deveriam ser cumpridos caso fossem cometidas ofensas contra os deuses ou ocorresse o contato com matérias impuras, como os corpos cadavéricos.

Grécia

No início, a Medicina na Grécia Antiga era uma mescla de concepções mágicas e religiosas e de receitas práticas para o tratamento das doenças. Em geral, atribuíam-se aos deuses tanto a origem quanto a cura de doenças que atingiam muitos indivíduos ao mesmo tempo, como as epidemias. 

Por volta do século 6º a. C., o mundo grego passou por profundas transformações, que se estenderam também à Medicina. Houve um enfraquecimento das crenças mitológicas – não abandonadas completamente –, buscando-se explicar as enfermidades com base no raciocínio humano. Nessa época, alguns médicos sugeriram que a saúde seria o resultado do equilíbrio entre determinados poderes do corpo (úmido, seco, frio, quente, amargo e doce) e que a doença seria o resultado do excesso ou da desarmonia entre eles. Concepções semelhantes apareceram nos tratados que constituem a Coleção Hipocrática, cuja autoria é apenas parcialmente atribuída a Hipócrates (460-370 a. C.). Em alguns desses tratados, a saúde é relacionada à proporção correta entre os quatro tipos de humor ou líquido que constituíam o corpo humano: o sangue, a fleuma (fluidos transparentes), a bílis amarela e a bílis negra.

Hipócrates adotava uma conduta empírica em relação às doenças e, de modo geral, não procurava explicar suas causas. Baseava-se na observação e registro dos sintomas, na previsão dos estágios evolutivos e na prescrição de tratamento – este incluía um regime alimentar adequado, atividade física e uso de medicamentos ou tratamentos que eliminassem os humores em excesso, como os diuréticos e laxativos.

Aristóteles (384-322 a. C.), filósofo da Antiguidade que não deixou obras específicas sobre Medicina, contribuiu com suas reflexões para que a doutrina existente nessa área fosse organizada em um sistema racional. Contrariamente à posição hipocrática, a filosofia de Aristóteles recomendava o estudo das causas dos fenômenos e a obtenção de um conhecimento seguro do mundo material, o que foi aplicado à Medicina racionalista grega.

Em todos os momentos históricos descritos, não havia a noção de que a doença pudesse transferir-se de uma pessoa a outra. Prevalecia a crença de que o odor fétido do ar, o tipo de alimentação e as condições climáticas poderiam afetar o equilíbrio dos humores e, assim, provocar as doenças.

Roma

Durante o Império Romano, os médicos romanos apropriaram-se de grande parte do conhecimento produzido pelos gregos, embora tivessem oferecido contribuições originais como o interesse pela transmissão das doenças e o estudo dos venenos. Nessa época, aceitava-se que a saúde e a doença dependiam das condições climáticas e da alimentação como no mundo grego. As epidemias, porém, eram atribuídas aos fenômenos celestes – os quais, segundo a concepção vigente, estavam relacionados às condições climáticas - e à passagem dos cometas. 

Galeno de Pérgamo (129 - c. 200 d. C.), médico da corte imperial e autor de extensa obra, adotou a ideia dos humores, presente nas obras da Coleção Hipocrática. Introduziu a concepção dos temperamentos, que estariam ligados à predominância de um tipo de humor, o que afetaria os aspectos físicos e psicológicos do indivíduo. 

Motivadas pela crença de que o ar dos pântanos e o mau odor de lugares fechados podiam produzir doenças, as autoridades romanas instalaram sistemas de coleta de esgotos e de fornecimento de água à população, por meio de aquedutos. Tais medidas, juntamente com os banhos públicos, tiveram impacto positivo sobre a saúde pública.

Idade Média

Litografia, que mostra uma carroça com corpos em meio a uma cidade / Accusing the anointers in the great plague of Milan in 1630; a scene from Manzoni's 'I promessi sposi'. Lithograph by G. Gallina after A. Manzoni

As epidemias de peste ceifavam milhares de vidas e causavam pavor nas populações. Como não havia tratamento para a doença, adotavam-se medidas – pouco eficazes – como a aspersão de perfumes no ambiente, a restrição no contato com os enfermos e a quarentena. Somente em 1894 foi descoberto o bacilo da peste (Yersinia pestis), inoculado por meio da picada de pulga

Com a queda do Império Romano, ressurgiu a crença de que as doenças resultariam da punição divina, da intervenção demoníaca ou da manipulação de poderes ocultos por bruxas e feiticeiros. A incidência da lepra ou hanseníase – cuja transmissão por contágio era intuitivamente admitida – aumentou nos séculos 12 e 13. Excluídos do convívio social, os leprosos eram vistos com medo e desconfiança, pois as deformidades físicas eram, segundo a concepção vigente, sinais exteriores da corrupção das almas.

As epidemias de peste causavam horror e pânico nas populações, que reconheciam seu caráter contagioso. Irrompiam em surtos periódicos e eram atribuídas às conjunções planetárias e a outros fatores. De 1347 a 1351, a peste negra (ou bubônica) – cujo nome está relacionado às manchas negras que surgiam na pele, resultantes do sangramento subcutâneo – vitimou um terço da população da Europa. A extensão desse flagelo só foi comparável ao que ocorreu no período de 542 a 750, quando a doença atingiu os países do entorno da bacia do Mediterrâneo, dizimando cerca de 40% de seus habitantes. 

Como hoje se sabe, a peste é principalmente transmitida pela pulga, que se abriga na pelagem dos ratos e pode transferir-se para o homem. Descrita nas formas bubônica, septicêmica e pneumônica é combatida pelo uso de antibióticos. As precárias condições de higiene existentes nas cidades medievais favoreciam a proliferação de roedores, que – transportados por navios – alcançavam os portos de outras cidades.

Período renascentista

No século 16, Andreas Vesalius (1514-1564) realizou estudos de anatomia humana com base na dissecação de corpos, contrapondo-se às descrições de Galeno. William Harvey (1578-1657) propôs o modelo circular e contínuo para a circulação sanguínea.

O termo contágio foi empregado pelo médico italiano Girolamo Fracastoro (1478-1553), que formulou uma nova tese sobre a transmissão de doenças. Os agentes de enfermidades como a lepra, peste bubônica e varíola seriam germes vivos ou sementes, que poderiam contaminar pessoas saudáveis. Invisíveis a olho nu, penetrariam nos corpos e neles se reproduziriam. Haveria três formas de contágio: pelo ar, contato direto entre pessoas e meios materiais que transportariam os germes.

Século 17

A invenção do microscópio permitiu desvendar o universo dos seres invisíveis por sua dimensão reduzida, os quais não eram ainda identificados como agentes de enfermidades. Anton van Leeuwenhoek (1632-1723), comerciante e naturalista holandês, que – à época – foi um dos construtores desses aparelhos, registrou suas observações e descreveu com precisão os “animálculos” que se moviam em meio aquoso.

Thomas Sydenham (1624-1689) estudou as enfermidades epidêmicas provenientes dos pântanos, designadas por “febres”, associando-as a diferentes partículas infecciosas. Por sua vez, Giovanni Maria Lancisi (1654-1720) designou por miasmas as emanações dessas áreas alagadiças, as quais eram resultantes da putrefação de matéria orgânica. Tais emanações poderiam produzir diferentes tipos de doenças, ressalvando-se o caso da malária ("mau ar"), que seria causada por pequenos animais que penetrariam no corpo e passariam à corrente sanguínea.

Século 18

A causa das doenças era, então, atribuída aos miasmas – relacionados a qualquer matéria orgânica em decomposição – e aos odores fétidos que exalavam. As medidas de higiene adotadas nas residências justificavam-se pela necessidade de afastar o mau odor gerado por resíduos e dejetos.

Século 19

No início desse século, admitia-se que o contágio ocorria por meio de um “veneno” – também chamado “vírus” – e sempre de uma pessoa a outra. A possibilidade de transmissão de doença pela água – como no caso da cólera – ou por vetores não era cogitada.

Entre 1835 e 1855, vários estudiosos – como Agostino Bassi, Antoine Donné e Félix Pouchet – associaram o aparecimento de doenças a seres microscópicos ou parasitas, gerando conhecimentos ainda isolados, que prefiguravam uma teoria microbiana das doenças, capaz de explicar e prever os fenômenos. Registre-se, entretanto, que o termo micróbio não era ainda utilizado. 

Na década de 1860, as principais contribuições para o estabelecimento dessa teoria originaram-se das investigações sobre o antraz e a pebrina. Casimir Davaine (1812-1882) – que, em parceria com Pierre Rayer (1793-1867), descobrira corpúsculos filiformes no sangue de carneiros mortos pelo antraz – efetuara testes de transmissão da doença por inoculação de sangue contaminado em animais sadios. Os novos experimentos forneceram provas conclusivas, embora não aceitas de forma unânime, de que os corpúsculos ou bactérias eram a causa e não o produto da doença. 

O estudo da pebrina – doença que dizimava as criações do bicho-da-seda – foi desenvolvido paralelamente por Louis Pasteur (vide box) e Antoine Béchamp (1816-1908). Coube a este último elucidar a questão relativa ao corpúsculo que causava a infecção das lagartas: tratava-se, na verdade, de um microrganismo parasita e não de um grânulo tóxico. 

A consolidação da teoria microbiana ocorreu na década de 1870 com os trabalhos de Robert Koch (vide box), nos quais foram estabelecidas as regras para a determinação do papel de um microrganismo como agente específico de uma doença, após sua correta identificação e crescimento em meio de cultura. 

Diante do exposto, pôde-se perceber que – até a concepção dessa teoria – houve um longo percurso histórico de mais de 20 séculos, durante os quais a origem das doenças foi associada ao desequilíbrio dos humores, às condições atmosféricas e à má qualidade do ar.

Louis Pasteur (1822-1895)

Desenho de Louis Pasteur em um laboratório

Pasteur solucionou problemas oriundos da fermentação do leite e do vinho e foi o responsável pela elaboração da vacina humana contra a raiva, a primeira produzida em laboratório. Com doações particulares, criou em 1888 o Instituto Pasteur, que formou gerações de cientistas e hoje se dedica ao estudo de doenças infecciosas

Em 1847 doutorou-se em Física e Química pela Escola Normal Superior de Paris e, em 1854, foi nomeado decano da Faculdade de Ciências de Lille. Integrou os colegiados da Academia de Ciências e da Academia de Medicina, em Paris.

Seus primeiros trabalhos, na área de cristalografia, focalizaram o dimorfismo e as propriedades ópticas dos cristais do ácido tartárico. Os estudos que efetuou sobre a fermentação láctica, alcoólica e butírica mostraram que esse processo resultava da ação de microrganismos sobre a composição química do meio, com a formação de novas moléculas. Solucionou a questão relativa à acidificação do vinho, propondo o aquecimento do líquido à temperatura de 55ºC, medida esta que originou o método de pasteurização.

Pasteur desenvolveu vários experimentos que traziam evidências favoráveis à existência de microrganismos em determinadas regiões da atmosfera (panspermia limitada), os quais contaminavam líquidos nutrientes, previamente fervidos. Travou uma célebre polêmica com Félix Pouchet (1800-1872), médico e naturalista, cujos testes experimentais corroboravam a geração espontânea de seres microscópicos, a partir da matéria orgânica em decomposição. A disputa foi arbitrada pela Academia de Ciências, que se inclinou para o lado de Pasteur.

Com base no amplo espectro de pesquisas que desenvolveu para identificação de patógenos que atuam sobre o organismo do homem e de alguns animais superiores, Pasteur sustentou que a causa das doenças infecciosas eram microrganismos, que deveriam ser combatidos por medidas profiláticas.

Embora, na época, os mecanismos de imunização não fossem bem conhecidos, Pasteur guiou-se por suas hipóteses e produziu vacinas contra a cólera de galinhas e o antraz em carneiros, atenuando a virulência dos agentes etiológicos. Utilizando-se da medula espinal extraída de coelhos infectados, desenvolveu a vacina humana contra a raiva, cuja eficácia e segurança foram gradativamente aprimoradas.

Robert Koch (1843-1910)

Imagem em preto e branco de Robert Kock

Para o estudo dos microrganismos, Koch testou novos meios de cultura, utilizou corantes que permitiam distinguir as estruturas internas e aperfeiçoou técnicas de fotografia microscópica

De 1862 a 1866, estudou Medicina na Universidade de Göttingen, tendo sido aluno de Jacob Henle, patologista e anatomista. Trabalhou como assistente no Hospital Geral de Hamburgo, foi médico voluntário na guerra franco-prussiana e assumiu o cargo de médico distrital em Wollstein (Alemanha). Em 1876 publicou um estudo sobre os experimentos com o antraz, no qual foram descritos os postulados que deveriam ser atendidos para a validação da pesquisa bacteriológica.

Mediante testes sucessivos de inoculação sanguínea, Koch confirmou a transmissão do antraz entre camundongos e a presença de corpúsculos filiformes no sangue dos roedores mortos. Decidiu isolá-los do organismo doente, inserindo-os em diversos meios de cultura. A observação das lâminas ao microscópio revelou que eram microrganismos que podiam reproduzir-se. Por fim, verificou que induziam a doença em animais saudáveis.

Em 1878 mostrou que as infecções sépticas tinham origem bacteriana, relatando os achados em uma monografia. Em 1882 identificou – por meio de corante especial – o bacilo causador da tuberculose, cuja transmissão fora verificada por Julios Cohnheim (1839-1884). Utilizou soro de sangue bovino coagulado como meio de cultivo e inoculou vários animais, que adoeceram. Elaborou a tuberculina, a partir da cultura do bacilo em caldo glicerinado, que não demonstrou eficácia na cura da doença.

Em 1885 foi nomeado professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Berlim e, em 1891, tornou-se diretor do Instituto de Doenças Infecciosas, criado na mesma cidade para o prosseguimento de seus trabalhos. Foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Águia Alemã e, em 1905, recebeu o prêmio Nobel de Medicina.

Livros e artigos relacionados:

COULTER, Harris L. Divided legacy: a history of the schism in medical thought. Washington, D.C.: Wehawken Book Co., 1977. 3 v.

CZERESNIA, Dina. Do contágio à transmissão: ciência e cultura na gênese do conhecimento epidemiológico. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1997. Disponível em: <http://static.scielo.org/scielobooks/knm4c/pdf/czeresnia-9788575412565.pdf>. Acesso em: 14 dez. 2015.

DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

FERNANDES, Antonio Tadeu (Ed.). Infecção hospitalar e suas interfaces na área da saúde. São Paulo: Atheneu, 2000.

FREITAS, Celso Arcoverde de. Peste. In: VERONESI, Ricardo; FOCACCIA, Roberto (Ed.). Tratado de infectologia. São Paulo: Atheneu, 1996.

HEMPEL, Carl G. Filosofia da ciência natural. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. (Curso moderno de filosofia).

HOUAISS, Antônio (Ed.). Enciclopédia Mirador Internacional. São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil, 1992.

MARTINS, Roberto de Andrade. Contágio: história da prevenção das doenças transmissíveis. Colaboração: Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, Maria Cristina Ferraz de Toledo e Renata Rivera Ferreira. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1997. (Col. Polêmica).

MORGENBESSER, Sidney (Org.). Filosofia da ciência. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1979.

OLIVEIRA, J. Cândido de. Em louvor de Koch: a propósito da descoberta do bacilo da tuberculose. Acta Médica Portuguesa, Lisboa, v. 4, n. 3, p. 195-199, 1983. Disponível em: <http://www.actamedicaportuguesa.com/revista/index.php/amp/article/viewFile/3789/3047>.Acesso em: 3 fev. 2016.

PINTO, Paulo G. Hilu da Rocha. O estigma do pecado: a lepra durante a Idade Média. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, 1995. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/physis/v5n1/07.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2016.

PORTER, Roy. Cambridge: história ilustrada da medicina. Rio de Janeiro: Revinter, 2001.

ROBERT Koch - Biographical. Nobel Lectures, Physiology or Medicine 1901-1921. Amsterdã: Elsevier, 1967. Disponível em: <http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1905/koch-bio.html>. Acesso em: 12 mar. 2016.

ROONEY, Anne. A história da medicina: das primeiras curas aos milagres da medicina moderna. São Paulo: M. Books do Brasil, 2013.

SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL. História da ciência. Os grandes erros da ciência. São Paulo: Segmento-Duetto/ Ediouro, [s.d.]. Edição especial nº 6.

TERENZI, Hernán. Golpe fatal na geração espontânea. Ciência Hoje, Rio de Janeiro, v. 39, n. 234, jan.-fev. 2007. Disponível em: <http://cienciahoje.uol.com.br/banco-de-imagens/lg/protected/ch/234/memoria.pdf/at_download/file>. Acesso em: 15 fev. 2016.

VERGARA, Moema de Rezende. Os cadernos de laboratório de Pasteur: uma reflexão sobre o público e o particular nas biografias de cientistas. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 445-448, maio-ago. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v11n2/14.pdf>. Acesso em: 4 fev. 2016.

Publicado em Edição 06

Especialista em ciência e tecnologia, ex-diretor acadêmico do ICT da Unifesp – Campus São José dos Campos e atual secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCTI, Armando Milioni fala sobre os desafios para o desenvolvimento da indústria brasileira no cenário mundial

Ana Cristina Cocolo

Fotografia do professor Armando Milioni, ele está em frente a uma quadro cheio de anotações - gráficos e fórmulas matemáticas

Ajudar a estabelecer estratégias para alavancar a inovação tecnológica no Brasil e reposicionar a indústria nacional, de acordo com sua relevância e competitividade, dentro e fora do país, são as principais tarefas assumidas pelo engenheiro mecânico Armando Zeferino Milioni, nomeado, em agosto, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Setec) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O atual secretário é pesquisador e professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) – onde também se graduou e concluiu o mestrado – e doutor em Engenharia Industrial e Ciências de Gestão pela Universidade Northwestern, em Illinois, nos Estados Unidos. Atua nas áreas de pesquisa operacional e Estatística Aplicada, com ênfase em análise de envoltória de dados (DEA) e modelos de previsão. 

Milioni participou da equipe pro tempore que implantou a Universidade Federal do ABC, em 2005, com uma nova proposta acadêmica: os bacharelados interdisciplinares (BIs). Nos cinco anos em que permaneceu na UFABC, ocupou as funções de pró-reitor de pós-graduação, vice-reitor e chefe de gabinete. Em 2010, foi convidado a trazer os BIs para o Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Unifesp – Campus São José dos Campos, onde exerceu o cargo de diretor acadêmico até dezembro de 2012. 

Segundo ele, os dados referentes ao período de 2008 - 2011 da Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam para uma queda da taxa de inovação na indústria. O secretário pondera, entretanto, que esses dados devem ser analisados com cuidado, pois no mesmo intervalo cresceram as taxas de emprego no setor, bem como o número de indústrias que apostaram no desenvolvimento de novas tecnologias.

 

Entreteses - A UFABC foi pioneira na implantação do bacharelado interdisciplinar (BI) nas universidades federais do país. Quantas universidades federais brasileiras, além da Unifesp, já adotam esse novo sistema de ensino?

Armando Milioni - O número vem crescendo rapidamente. Já eram 12 em 2010 e são 16 em 2014. E também há iniciativas fora do sistema federal, como é o caso do ProFIS, da Unicamp. Mas é importante esclarecer que a terminologia BI é usada de forma genérica para iniciativas que não são idênticas entre si.

E. Quais são as vantagens desse novo modelo de ensino para os estudantes e para as empresas?

A.M. Há várias. Para o aluno, por exemplo, retarda a decisão de escolha da carreira, despertando vocações mais autênticas. Esse é um velho problema da educação superior no Brasil. Em nosso país, apenas 1/3 daqueles que se graduaram em um curso superior trabalha em atividades ligadas à área de sua formação. Os BIs também estimulam o aluno a fazer escolhas e arcar com suas consequências. Ainda, induzem à autoaprendizagem, de grande valor na sociedade do conhecimento, na qual já vivemos. Esta última é um benefício também para o empregador, é claro, que terá um funcionário com capacidade autodidata, diplomado em menos tempo, com uma formação mais plural e mais abrangente, com possibilidades indefinidas de educação continuada e sem prejuízo da especialização aguda.

E. É possível dizer que a evasão nas universidades diminuiu com o BI?

A.M. Não creio, mas os BIs estão longe de ter atingido a maturidade necessária para que seus resultados possam ser medidos. Temo pela exigência de resultados de curto prazo em iniciativas dessa natureza.

E. O BI é uma tendência no Brasil? Como ele é visto em outros países?

A.M. Acredito que os BIs sejam uma tendência no Brasil. Em outros países, especialmente no mundo mais desenvolvido, já não há mais razão para se falar em tendência, pois eles são uma realidade. Há mais de dez anos transformaram-se no modelo comum de educação superior em praticamente toda a Europa. Nos Estados Unidos, existem há muitas décadas.

E. Quais foram as experiências adquiridas no exterior que o levaram a trazer essa nova proposta de educação superior?

A.M. No meu caso particular, nenhuma. Conheci o assunto quando compus a equipe pro tempore que implantou a UFABC. Foi lá que tomei conhecimento do bacharelado interdisciplinar em Ciência e Tecnologia, concebido por uma equipe de educadores, muitos deles da Academia Brasileira de Ciências, que era liderada pelo professor Luiz Bevilacqua. E lembro-me com clareza que reagi mal à novidade, ao tomar conhecimento dela. Gosto de me lembrar disso, pois me condiciona a controlar a natural rejeição ao novo, uma tendência que talvez se justifique do ponto de vista evolutivo, mas que pode ser muito negativa.

E. Houve resistência à implantação do BI no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Unifesp – Campus São José dos Campos? Em caso positivo, por quê?

A.M. Sim, houve. É verdade que os estudantes já estavam descontentes com as dificuldades iniciais do campus, a falta de professores e de boas condições de infraestrutura, por exemplo. Creio que a implantação dos BIs acabou servindo como catalisador desse descontentamento que se materializou numa greve – felizmente nem longa nem violenta. Os próprios grevistas escreveram um documento deixando claro que não se opunham aos BIs e reconheciam seus bons fundamentos. Concluí, portanto, que faltaram mais debate e mais explicações. Em uma reunião do Conselho Universitário, reconheci esse fato e fiz questão de assumir minha parcela de responsabilidade por ele.

E. Os cursos de BI realmente colocam em prática a interdisciplinaridade? Há quem acredite que o modelo é um conjunto de disciplinas com conteúdos rebaixados.

A.M. É certo que os BIs podem ser melhorados e há grandes desafios a serem suplantados. Alguns deles vão demorar um pouco, como a geração de material bibliográfico novo e de qualidade, que leva tempo, ou a necessidade de convencer os docentes a ensinar de um jeito diferente do que eles aprenderam. Mas entendo que o balanço geral é positivo. Os BIs representam a desejável modernização de um projeto pedagógico bastante arcaico, que ainda é majoritariamente praticado no Brasil. Quanto ao conteúdo, creio ser o oposto. O conhecimento aprofundado faz parte da lógica dos BIs, mas ele não é imposto ao aluno, e é sim uma decorrência das escolhas e das aptidões naturais que o próprio aluno é estimulado a identificar.

Milioni, em frente a um avião. Ele está em um gramado e o dia está muito ensolarado, com o céu azul

Milioni e o BEM-120, também conhecido como Brasília, primeiro avião comercial pressurizado construído pela Embraer. Nos anos 1980, o engenheiro trabalhou em dois projetos relacionados a essa aeronave

E. Dado o fato de que as empresas, em grande parte, ainda não absorveram o significado do novo bacharelado, não existe o risco de que os formandos acabem enfrentando uma situação de desqualificação no mercado por conta da formação generalista? Como resolver isso?

A.M. Sim, esse risco existe e entendo que a forma de combatê-lo é a contínua divulgação do conceito, com paciência e perseverança. Mas acho também que o combate deve começar dentro de casa, digamos assim, e, nesse contexto, acho que a Unifesp tem uma lição de casa a fazer. Em inúmeras ocasiões, em reuniões do Conselho Universitário, lutei contra editais de concursos públicos para contratação de docentes que exigiam que os candidatos tivessem graduação em uma área específica. Admito que haja casos em que isso possa ser apropriado, mas presumo que eles sejam a exceção, não a regra. A exigência do título de bacharel em Matemática, por exemplo, como condição para que alguém se candidate a uma vaga de professor de Matemática, impede que todos os graduados com BIs concorram a essa vaga. E eu não vejo razão pela qual o graduado com determinado BI, que tenha concluído o doutorado em Matemática ou área afim, não possa competir por essa vaga.

E. Na qualidade de secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Setec) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MTCI), como o senhor definiria as principais áreas de pesquisa em que o Brasil necessita investir, da graduação à pós-graduação, e que são foco prioritário para o desenvolvimento do país?

A.M. Precisamos investir na formação de engenheiros e cientistas. Dos 876 mil brasileiros que em 2012 receberam diploma de educação superior, 424 mil, ou quase 50%, graduaram-se em Administração, Direito ou Educação. Para cada bacharel em Matemática foram graduados 245 em Direito. Para cada bacharel em Física, 281 em Administração. Nada contra essas áreas em que graduamos muita gente, mas os números pequenos nas áreas técnicas preocupam. Nada tenho contra a iniciativa privada e sempre pensei nas instituições de ensino superior privadas como parceiras das públicas na missão de educar o povo brasileiro. É certo, todavia, que a enorme concentração de vagas no ensino superior privado no Brasil é em parte responsável pelos números citados. Isso é fácil de demonstrar. Para cada bacharel em Física graduado na rede pública em 2012, foram graduados 29 bacharéis em Direito. Na rede privada essa proporção foi de um para 1.848! Cabe repetir: 1.848 advogados para cada físico formado na rede privada. Aliás, a concentração do ensino superior privado no Brasil nos coloca na contramão do mundo desenvolvido, notadamente dos EUA e da Europa, onde o ensino superior público é absolutamente majoritário. Defendo a expansão da rede pública de ensino superior com ênfase – que não significa exclusividade – na oferta de vagas para a graduação e a pós-graduação de engenheiros e cientistas.

E. Qual a situação do país no cenário geral da ciência e tecnologia mundiais?

A.M. É sabido que a nossa ciência vai melhor do que a nossa tecnologia. Na primeira, os ganhos das últimas décadas foram notáveis. A National Defense University (NDU), do Departamento de Defesa Norte-Americano, publicou um estudo em que o Brasil aparece em 2020 como o 6º maior gerador de artigos científicos do mundo. Em 2040, seria o 4º, atrás apenas da China, EUA e Índia, nessa ordem. Como professor de Estatística, reluto diante de previsões de longo prazo, mas acho interessante que a NDU tenha publicado o estudo. Não estamos, todavia, conseguindo os mesmos resultados na geração de tecnologia, haja vista a lenta evolução na quantidade de patentes depositadas por brasileiros. Mas não creio que isso seja por deixarmos de fazer algo essencial. Construímos uma economia relutante em enfrentar as dificuldades técnicas por duvidar da nossa capacidade de resolvê-las. Aprendemos a nos satisfazer em exportar minério de ferro, borracha e café e a importar aço, pneus e café industrializado – o que, aliás, continuamos fazendo. Acredito que há que perseverar nas iniciativas em curso, aperfeiçoando-as continuamente, é claro, mas sem esmorecer.

E. O MCTI vem buscando parcerias de cooperação científica e tecnológica com diferentes nações. Como está esse “namoro” com outros países e quais as parcerias mais recentes que vislumbram bons frutos?

A.M. Vai bem. Logo nos primeiros dias de minha chegada ao MCTI, em fevereiro deste ano, tive a oportunidade de me reunir com uma delegação alemã do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), que trazia uma proposta muito interessante. Eles abriram um edital chamando propostas sobre terras-raras, que, aliás, é uma das áreas que o MCTI considera estratégica. Então, escolheram dez países e montaram uma delegação que visitou cada um deles, divulgando o edital. A ideia era estimular que grupos de pesquisa desses países se juntassem aos alemães na elaboração de propostas. A condição era que houvesse contrapartida das agências de fomento desses países. É uma ideia astuta, pois atinge dois objetivos simultaneamente desejáveis: alavanca o valor do edital que eles lançaram e estimula a internacionalização das pesquisas. Fiquei feliz em saber que o Brasil foi um dos dez países escolhidos, uma demonstração de confiança em nossos cientistas e em nossas agências de fomento.

E. A política de desenvolvimento científico e tecnológico no país assume uma orientação adequada ao nosso perfil social?

A.M. Como professor de Estatística, costumo dizer que a melhor expressão que descreve o Brasil é “variância enorme”. E isso costuma ser verdade em qualquer indicador que você escolher. A renda, que é a mais citada, é apenas um deles, mas as consequências se manifestam na educação, saúde, habitação, enfim, na qualidade de vida. Eu diria, contudo, que desde a redemocratização, e com maior ênfase nos últimos 20 anos, as políticas públicas nacionais passaram a ser orientadas no sentido de diminuir nossas enormes desigualdades. Entendo que a política de desenvolvimento científico e tecnológico segue no mesmo caminho. Agora, nossa desigualdade é um trabalho de muitos séculos. Corrigi-la será tarefa para várias décadas. Estamos apenas começando a fazê-lo.

Milioni sentado em seu escritório

Em sua sala no ITA, Milioni faz questão de manter algumas recordações e “tesouros”: a coleção, iniciada em 2003, de crachás de identificação em congressos dos quais participou pelo mundo; e os desenhos da neta mais velha, Isabela

A jornalista e o professor Milioni na área externa do MAB, o céu está muito azul e há uma réplica de foguete ao fundo

Em visita ao Memorial Aeroespacial Brasileiro (MAB), em São José dos Campos, o engenheiro se entusiasma ao contar a história de cada avião exposto. Ao fundo, uma réplica em tamanho real do VLS (Veículo Lançador de Satélites) do Programa Espacial Brasileiro

E. Qual é o seu maior desafio como secretário da Setec/MCTI?

A.M. Tenho tentado contribuir com uma visão construtivamente crítica das ações das quais tomo conhecimento e também com reflexões oriundas da minha área de atuação. Quando foram divulgados os resultados da Pesquisa de Inovação Tecnológica 2011 (Pintec), por exemplo, no início deste ano, muito se falou na queda da taxa de inovação da indústria, que era de 0,38 em 2008 e caiu um pouco abaixo de 0,36 em 2011. Essa redução não foi bem recebida nem deveria ter sido, é fato, mas é interessante notar que ela é consequência de duas expansões desejáveis. A taxa de inovação é a razão entre o número de indústrias inovadoras e o de indústrias que satisfazem as condições para compor o universo da pesquisa – elas têm de ter um número mínimo de empregados, por exemplo. De 2008 para 2011 esse universo, que é o denominador da razão, cresceu 16%, o que é uma coisa boa, enquanto o número de indústrias inovadoras, que é o numerador, também cresceu, mas menos, algo acima de 8%. Então, é possível dizer que a queda na taxa de inovação foi o resultado de duas coisas boas, não sendo a maior das melhoras a que implicaria o crescimento da taxa de inovação. As políticas de fomento podem e devem ser continuamente aprimoradas, mas acho interessante mostrar que os mesmos números podem receber outro olhar, que desaconselha mudanças precipitadas.

E. Qual a sua participação no Programa Espacial Brasileiro?

A.M. É muito modesta. Orientei diversos trabalhos de graduação e teses de mestrado de alunos que trabalhavam no IAE, que é o Instituto de Aeronáutica e Espaço, responsável pelo projeto do veículo espacial brasileiro. Também dei alguma assessoria em análises estatísticas de confiabilidade de componentes, mas só isso. Como fiz isso em diferentes momentos nos últimos 30 anos, contudo, acabei tendo a oportunidade de acompanhar a evolução do programa todo. Sempre torci muito por ele.

E. Qual é a sua maior frustração como engenheiro mecânico aeronáutico?

A.M. Já que falamos do programa espacial, ocorre-me citar o desastre do VLS (Veículo Lançador de Satélites), em 2003. Até então, o Programa Espacial Brasileiro ia bem, atingindo todas as metas estabelecidas para os foguetes da família Sonda, que precede o VLS. Mas o salto de patamar para o VLS nunca foi atingido com sucesso. Houve duas tentativas de lançamento que não lograram êxito. Na primeira delas, o foguete precisou ser destruído logo após o lançamento, por falha evidente de trajetória. Na segunda, tudo parecia ter corrido bem, mas, novamente, o foguete precisou ser destruído por falhas detectadas quando ele já atingira uma altitude considerável. A terceira tentativa seria no dia 23 de agosto de 2003. Nesse dia, contudo, por razões que nunca foram totalmente esclarecidas, um dos foguetes que compunha o cluster entrou em combustão enquanto os técnicos estavam ao seu redor, completando as instalações que precedem o lançamento. Morreram 21 pessoas. Entrei no ITA em 1974, como aluno, e pouco depois disso comecei a ouvir falar na Missão Espacial Completa Brasileira (MECB), que incluía a produção de satélites e do veículo que os lançaria. É frustrante ter de admitir, 40 anos depois, que não fomos capazes de cumprir a missão. O programa nunca se recuperou inteiramente da tragédia de 2003 e nunca houve uma nova tentativa de lançamento.

Publicado em Edição 03
Segunda, 02 Junho 2014 16:20

“A ciência não sabe para onde vai”

Olgária Matos critica a fragmentação do saber científico, cada vez mais subordinado aos interesses das indústrias que financiam pesquisas

Rosa Donnangelo

Fotografia em close da professora Olgária Matos

As novas tecnologias, como a internet, fazem com que os conhecimentos tornem-se mais voláteis, de acordo com a avaliação de Olgária Chain Féres Matos, titular da Universidade de São Paulo (USP) e professora visitante do curso de Filosofia da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Unifesp – Campus Guarulhos.

Olgária, que é doutora em Filosofia pela USP e mestre na mesma área pela  Universidade Paris 1, concentra suas pesquisas no campo da história da Filosofia. Opõe-se à instrumentalização da ciência pela indústria, preocupada com produtividade e lucro, e propõe a construção de uma prática capaz de integrar saberes e disciplinas científicas. Em sua visão, a ciência teria que recuperar o respeito ao tempo e à duração própria dos fenômenos que ela pretende observar e explicar.

Entreteses • O que significam os termos interdisciplinaridade, multidisciplinaridade e transdisciplinaridade?

Olgária Matos • Há um ponto de convergência entre a interdisciplinaridade, a multidisciplinaridade e a transdisciplinaridade. Os saberes não são compartimentados, não existem alas ou áreas específicas que não transitem entre outras, há uma semelhança de objetivos ou de modos de trabalho entre diversas disciplinas. Por exemplo, entre a Física e a Química existe a Físico-Química, entre a Matemática e a Biologia existe a Biomatemática. A ideia é que os saberes, na atualidade, demandam a colaboração simultânea de vários campos do conhecimento para se desenvolverem.

 

Três fotos de Olgária Matos, mostrando momentos em que ela falava durante a entrevista

E. • O conhecimento se modificou ao longo do tempo e as formas de obtê-lo também. Como a senhora enxerga essas mudanças?

O.M. • A ciência depende das mudanças culturais. Até o século XVIII, havia uma relação com o conhecimento que não era pragmático. Por várias razões, na Grécia Antiga, a ciência era contemplativa, aquela em que o elemento teórico, o elemento de busca do conhecimento pelo próprio conhecimento, predominava. O conhecimento era público e só tinha valor quando compartilhado por todos. A privatização dos saberes, os direitos autorais e toda forma de contenção da partilha do conhecimento não existiam. Partia-se da ideia de que tudo o que existe destina-se a realizar uma finalidade que lhe é própria: nada existe por acaso ou de maneira arbitrária. A ciência buscava sempre a excelência. Não era uma cultura do excesso como a nossa, da aceleração e intensificação dos estímulos nervosos. Hoje, nos esportes, como nas corridas ou levantamento de peso, não se trata de correr bem, mas de correr cada vez mais depressa, de levantar objetos cada vez mais pesados. A ciência medieval era voltada para conhecer as maravilhas da natureza e o homem, os fenômenos da natureza, mas como criação divina. Isso chega até o século XVIII, quando a perda da ideia de transcendência do divino se estabelece, e se firma o fenômeno da secularização, portanto sem referências, levando em consideração uma ideia de verdade objetiva, seja ela garantida pela própria natureza ou por um Deus, ou deuses. Significa que a ciência vai buscar, por ela mesma, critérios para sua própria fundamentação. A partir daí, você tem o homem sendo a medida de todas as coisas. Essa ideia de que a ciência pode se desenvolver infinitamente, cada vez mais e em qualquer direção, fez com que ela perdesse sua finalidade. A ciência, hoje, não sabe para onde vai, pode tanto orientar-se para a emancipação da humanidade quanto para a destruição do planeta. A técnica moderna é interventiva, ela contraria a causalidade natural das coisas. Então é um fenômeno cultural. Há um problema de princípio, uma circularidade que oblitera a crítica, impede-nos de pensar criticamente o que a ciência faz hoje. Se não é a linguagem da ciência que se fala, não há legitimidade. Há uma multiplicidade de dispositivos científicos que dão uma legitimidade para coisas que a ciência, às vezes, não tem. Não se fala mais em infância, mas em “pedagogia”; em natureza, mas em “ecologia”; em desejo, mas em “sexologia”.

 

E. • Por que a senhora escolheu Filosofia?

O.M. • Na época de meus estudos escolares, na década de 1960, havia algo muito mais razoável do que se tem hoje, que eram os cursos clássico e científico. No clássico, prevaleciam as Humanidades e Ciências Sociais; no científico, Engenharia e Ciências Médicas e Biológicas. Todas as áreas tinham todas as disciplinas. Eu gostava mais das Ciências Humanas. Comecei os cursos de Psicologia e Filosofia, optando por manter somente o último. A Filosofia pretendia elaborar, em pensamento, apesar de isso estar mudando, aquilo que os homens vivem dispersamente no cotidiano. A impressão que se tem é a de que a Filosofia está muito longe da vida, que é um saber muito abstrato, teórico, por não ter aplicação imediata. Mas, conforme você vai aprofundando o conhecimento, percebe que aquilo de que ela fala é a vida, e na Filosofia a complexidade dos fenômenos exige um rigor homólogo ao rigor que se tem nas ciências da natureza. Escolhi Filosofia, em parte, pelos professores que tive. O professor que você é capaz de admirar desperta o desejo de conhecer aquilo que ele conhece.

 

E. • Qual deve ser o papel do professor para que o conhecimento interdisciplinar se realize?

O.M. O professor precisa ser competente na sua área, ser muito bem formado na complexidade do saber que vai transmitir. O difícil é transformar o complexo em simples sem banalizá-lo ou empobrecê-lo. Por isso que, quanto mais intimidade se tem com o conhecimento que será desenvolvido, mais habilidade haverá para transmiti-lo. Você estuda História no ensino fundamental e médio, e depois volta a estudá-la na universidade. Primeiro, o professor explica o essencial, aquilo que faz com que os estudantes pensem no objeto que foi dado; posteriormente, eles recebem explicações sobre as diversas interpretações sobre determinado fato. O esforço é tentar contar a história do que aconteceu naqueles tempos, à luz do que podemos saber deles hoje. Mas atualmente os professores não sabem muito bem como ensinar e o que ensinar, porque não há mais conteúdo fixo nas disciplinas. Acho que existe uma grande desorientação. Se não houver uma sequência progressiva do ensino, o estudante lê um pouco de cada coisa e cria-se a desinformação, a fragmentação. A transdisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a multidisciplinaridade tentam, inclusive, corrigir esse processo.

 

E. • Como se dá a interdisciplinaridade tal como praticada hoje e como ela se relaciona com o legado humanista?

O.M. • A escola dos humanistas tenta unir conhecimento e vida. Os humanistas do Renascimento queriam transmitir pela escola todos os saberes que dignificavam a natureza e o homem. O conhecimento técnico era o conhecimento do saber fazer, uma técnica inteligente. Por exemplo, na Grécia clássica, um artesão de sela de cavalo não era julgado por outro artesão de sela de cavalo e sim por um usuário. Hoje, a competência é medida assim: um economista fala de outro economista. O saber fazer não estava separado do prazer do conhecimento e hoje está. Claro que, atualmente, diante da complexidade dos saberes e da sua conversão em especialidade, as competências não poderiam ser medidas pelo usuário. Por exemplo, o que eu posso falar para um piloto de avião? Nada. Então, são questões de competência. E esse é um dos problemas da sociedade hoje: o que se entende por democracia na sociedade e democracia nas instituições, como se todo o mundo pudesse opinar sobre tudo. A questão da especialidade ou da perda da especialidade pode ser muito comprometedora quando se confunde democracia nas instituições com democracia política, na qual cada cabeça expressa um voto.

 

E. • A ciência e a tecnologia ainda deslumbram a sociedade?

O.M. • Existe uma duplicidade. Ao mesmo tempo, há uma espécie de sentimento pós-moderno de desencorajamento, desânimo, desconfiança e descrença de tudo, mas há também a ideia de que a ciência explica o mundo e vai mudar a vida dos homens. E é verdade. A autonomia das pesquisas está cada vez mais comprometida, porque os investimentos econômicos acabam sendo privados e determinam o rumo dessas pesquisas segundo os seus próprios interesses. A indústria farmacêutica investe naquilo que ela julga ser interessante do ponto de vista econômico, não naquilo que a ciência gostaria de pesquisar e necessitaria fazê-lo. Hoje, existe o peso de as pesquisas serem ideologizadas de um lado e, de outro, há uma aceleração do conhecimento e o fetiche da inovação. É necessário saber se é preciso inovar, aprofundar ou mudar a direção das pesquisas. A tecnologia é caríssima e os interesses são enormes. Está muito difícil dissociar o poder econômico das pesquisas científicas.

 

E. • Como a senhora enxerga o conhecimento especializado?

O.M. • O conhecimento especializado não é um absurdo no sentido da competência, mas sim quando ele compartimenta o saber. A pesquisa perde o sentido, sua única referência é ele mesmo. É o problema, por exemplo, da Bioética. Não existe uma prateleira dividida em várias éticas. A ideia de ética supõe a ideia de limites e valores estáveis. Mas, em um mundo no qual a ciência e a sociedade não têm limites, no qual os valores mudam no curto tempo de uma mesma geração, como se pode ter valor ético? Ética demanda duração; como hoje tudo muda muito rápido, não se pode ter ética. Impor limites éticos à ciência está fadado ao fracasso. A ciência não pensa, ela faz.

 

E. • Unir o saber tecnológico ao conhecimento abstrato é uma proposta do ensino interdisciplinar?

O.M. • Acho que não diretamente. A técnica era auxiliar da ciência. Para realizar certas pesquisas e desenvolver conhecimento teórico, a ciência necessitava de algumas técnicas. Mas com o desenvolvimento do capitalismo, o aumento da produção e otimização dos recursos, a ciência se associou à técnica, e a tecnociência foi criada. O aumento da produção e da produtividade, próprio à racionalidade do mercado, acabou por abranger a ciência e a técnica, instaurando-se uma tecnociência a serviço do mercado e das inovações científicas e tecnológicas. Não se pensa mais na natureza e para onde vai esse conhecimento. Acho que ensinar a ciência e a técnica com os saberes formadores deve ser feito sem perder o rumo até onde se pode chegar, beneficiando o desenvolvimento da ciência.

 

Fotografia de Olgaria Matos e a jornalista que a entrevistou

E. • Qual o papel que a universidade exerce na produção do conhecimento interdisciplinar?

O.M. • No Brasil nós praticamente não temos centros de pesquisa fora das universidades, em particular as públicas. Como as pesquisas são feitas nas universidades, é de sua responsabilidade desenvolvê-las da maneira mais rigorosa e especializada, para que possam presidir à tradução disso nos vários campos da aplicação prática na sociedade. Acredito que é uma responsabilidade grande o saber da competência, entendida não só como a especialidade isolada, mas também como uma especialidade que se pergunte pelo sentido daquilo que ela pesquisa e da destinação daquilo que ela faz. A tendência é a especialização precoce, que deve existir mesmo, mas que não deveria estar separada da formação com as disciplinas que pensam aquilo que a ciência faz, como a Filosofia e as Humanidades em geral, em especial a Literatura.

 

E. • Como fica o aluno perante o conhecimento fragmentado, em face da possibilidade de, futuramente, ser ele próprio um pesquisador?

O.M. • Acho que existe uma preocupação, sobretudo nos anos de formação no ensino médio, de todos os saberes serem integrados. Eles não são integrados porque, propositadamente, se produz a integração, integram-se “espontaneamente”. É o tempo e a maturidade no conhecimento que propicia compreender as relações da pintura impressionista com a Física corpuscular, dos contos de Machado de Assis com a filosofia de Schopenhauer. Não se pode fazer um professor falar de Física, Química, Geografia, História etc, cada um em sua disciplina, “integradamente” de maneira forçada. É a maturidade que faz convergir esses saberes. Cada conhecimento em uma determinada área deve ser desenvolvido ao máximo de sua complexidade pelo professor para poder ser transmitido, o contrário de acreditar que uma apostila e um caderno de respostas podem permitir ao professor transmitir o conhecimento. A interdisciplinaridade surge da maturidade dos vários anos de formação.

 

E. • Pesquisar exige tempo. No entanto, os pesquisadores são guiados pelos prazos determinados pelas necessidades do mercado. Essa lógica de tempo versus conhecimento prejudica o conhecimento interdisciplinar?

O.M. • Prejudica o conhecimento e o conhecimento interdisciplinar. Há uma aceleração do tempo que é industrial. Novas tecnologias, como a internet, fazem com que os conhecimentos sejam muito voláteis. Eles são fragmentados, aleatórios e dispersos. Nós abrimos uma janela cá, outra acolá, no computador – e não se reúne mais nada. A incidência da aceleração do tempo, as novas tecnologias e as revoluções tecnológicas muito rápidas acabam incidindo na universidade, que exige um tempo mais lento, fora dos padrões de produção. A universidade, a escola e as instituições de pesquisa são dominadas heteronomamente, ou seja, é de fora que vem a designação do que as universidades devem fazer e em quanto tempo. Tudo acaba tendo um tempo, e respeitá-lo é fundamental para garantir o financiamento. Muitas vezes, resultados são maquiados só para pedir novo financiamento e dar continuidade à pesquisa. Algumas recebem financiamento para dois anos ou quatro anos e, às vezes, elas precisam de quinze anos para a conclusão. Aumenta-se a quantidade de pesquisa, mas não a qualidade, porque esta permanece ligada ao tempo.

 

E. • Qual o espaço que o conhecimento interdisciplinar ganha na lógica de ensino atual?

O.M.A interdisciplinaridade vem quando cada especialista, compreendendo a complexidade do seu conhecimento, estabelece relações entre os diferentes campos do saber. O professor de História está falando sobre a Revolução Francesa – dos fatos, das causas – e, enquanto explica, já pode fazer relações e comentar sobre a filosofia dessa revolução, do estatuto das artes em relação ao passado etc. Quando esse percurso já está feito é que pode haver áreas de pesquisa transdisciplinares. É uma questão de tempo, mas é também de formação. Como rompemos com a ideia de tradição e de história, hoje se tem ideia de que o cientista inventa o saber que ele está produzindo, ao passo que – se houvesse, junto com a formação, a história desse saber – a interdisciplinaridade já se faria presente. O pragmatismo levou ao desconhecimento do desenvolvimento das potencialidades humanas, o prazer que o conhecimento poderia trazer. Produz-se um conhecimento isolado nele mesmo e excluído de sua história. O que seria da Filosofia sem a história da Filosofia? O que seria da Literatura sem a história da literatura? Essa “história”, hoje, está se perdendo.

Publicado em Edição 02
Segunda, 11 Novembro 2013 15:01

Helena Nader

“Não há limites para o que podemos fazer”, ensina a professora titular da Unifesp que tem dedicado a vida à ciência, à pesquisa e ao Brasil

Flavia Kassinoff

Reeleita, em 2013, à presidência da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC); professora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pesquisadora nível 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e condecorada com a Ordem Nacional do Mérito Científico. A professora Helena Bonciani Nader acumula prêmios e reconhecimento por toda uma vida dedicada à pesquisa e à ciência.

EntreTeses 01 p25 HelenaNader

Sua intensa carreira acadêmica ganhou impulso em 1967 quando, ao voltar dos Estados Unidos – onde cursou o último ano do antigo colegial (atual ensino médio) –, ingressou no curso de Ciências Biológica/modalidade médica na Unifesp. “Voltei ao Brasil e entrei nessa instituição, onde fui contaminada irreversivelmente pelo vírus da pesquisa e da ciência. Não há vacina, nem medicação”, conta Helena.

Quatro anos depois, já graduada, começou a se envolver com a pesquisa para a pós-graduação. Conheceu, então, seu professor e orientador, Carl Von Peter Dietrich, que posteriormente se tornaria seu marido, um companheiro de vida e de profissão. Os dois tiveram uma filha, Júlia, que atualmente trabalha com pesquisa na área de educação.

Professora titular da Unifesp desde 1989, Helena mantém com a universidade uma relação que combina, de forma intensa, compromisso profissional e afeto. O vínculo é tão forte que provoca o ciúme da filha Júlia, para quem a Escola Paulista de Medicina ocupa o lugar de irmã mais velha.

Na avaliação da própria professora, a vida dedicada à pesquisa cobrou seu preço, em termos de realizações pessoais: “Deixei de tirar algumas férias. Deixei de fazer algumas viagens. Mas se pudesse fazer tudo de novo, faria sem pestanejar. Eu não me arrependo.”

Um traço característico de sua carreira foi, desde os anos de juventude, a rejeição à ideia de que há um muro, uma barreira entre ciência e sociedade. A militância política, sempre em defesa do desenvolvimento da ciência e da tecnologia na perspectiva dos interesses nacionais, levou-a a filiar-se à SBPC, em 1969. Na condição de associada à entidade, participou da resistência à ditadura militar, implantada no país em 1964. Atualmente, como presidente da sociedade, continua firme em suas propostas e defende com afinco a ciência e a educação de qualidade.

Durante a vida, Helena teve várias oportunidades de estudar e realizar pesquisas fora do país. Sempre optou por permanecer no Brasil, e hoje se orgulha disso. “Talvez lá fora eu fosse mais uma. Aqui eu pude ajudar a construir algo significativo.”

Com a agenda cheia de compromissos – com a academia e com a presidência da SBPC –, a professora afirma ser hoje difícil encontrar tempo para desenvolver atividades criativas na vida pessoal, das quais tanto gosta. Isso inclui a culinária, atividade que pratica sem seguir “receitinhas”, pois gosta de inovar. “A cozinha é um grande laboratório. Adoro experimentar novos temperos, ver no que dá.” Antes cozinhava com mais frequência, “quando Pedro (como chamava Dietrich) era vivo.”

Com uma carreira invejável e as posições importantíssimas que ocupa, não perde a simplicidade e a honestidade nas falas e no modo de ser. Diz que chegou aonde chegou por ser privilegiada pela família e pelos professores que teve, e sempre divide o mérito de suas conquistas com eles. “Meus pais me ensinaram que devemos buscar tudo que almejamos com ética e que não há limites para o que nós podemos fazer. E isso é verdade, nós é que colocamos nosso próprio limite”, conclui Helena.

EntreTeses 01 p26 HelenaNader

Entreteses - Qual a sua avaliação sobre a pesquisa no Brasil hoje e quais foram os principais avanços nesse setor?
Helena Nader - A pesquisa no Brasil avançou muito. Na década de 70, nós éramos realmente periféricos. Havia pouca ciência, embora de boa qualidade, porém em um número baixo. Hoje, nós estamos, segundo informação que tive, na 14ª posição no ranking mundial de produção científica. Estávamos em 13ª, porém foram computados alguns resumos de congresso, e a Holanda nos ultrapassou.  Mas, em termos de ranking mundial, estamos muito bem. É importante situar que a pesquisa institucionalizada no Brasil é recente. Ela começa na universidade, com a carreira docente deixando de ser algo esporádico e quando se cria a dedicação exclusiva. Isso faz diferença no impacto da ciência. A nossa ciência tem início no final do século XIX, em institutos, quando não havia universidades. A primeira é da década de 20 e, portanto, essa instituição não tem nem cem anos. Se compararmos com a Europa, onde as instituições de ensino mais novas têm quinhentos anos, onde há universidades de quase mil anos de existência, é fantástico ver aonde chegamos. Eu vejo a pesquisa no Brasil crescendo para patamares cada vez melhores. A qualidade da produção científica pode ser aferida pelo número de citações e pelo impacto das revistas onde os trabalhos são publicados. Então, de 70 para cá houve uma evolução, não só no número, mas também nos periódicos em que o Brasil passa a publicar. Isso prova que a ciência feita aqui tem mérito, tem qualidade. Agora, o Brasil “corre atrás” porque o resto do mundo não está parado. A China está crescendo bastante em produção científica e optou por construir universidades internacionais, algumas fortemente centradas em produção de ciência. Esse país tem uma vantagem com relação a nós porque investiu pesado em educação básica.  Outra coisa é que os chineses hoje falam inglês. Nós ainda possuímos uma dificuldade nessa língua. Mas se o Brasil quiser, e isso é uma opção de nação, insisto nisso, ocupar o ranking mundial de ciência, fazer parte de um clube restrito, tem que passar a investir nisso. E também tem que mudar a legislação, porque hoje o maior gargalo para o pesquisador brasileiro é a lei vigente.

E. - Como presidente da SBPC, a senhora defende a proposta de destinação de parte dos royalties do petróleo para ciência e tecnologia.  O projeto de lei aprovado pela presidente Dilma destina a maior parte dos royalties para educação. Como nós sabemos, educação e ciência são duas áreas complementares, mas no momento atual do país qual área carece de maior investimento?
H. N. - As duas. Educação básica não é só investimento financeiro, mas também o acompanhamento de um projeto real por parte do governo. A área da educação básica é um gargalo total. No Brasil aconteceu o seguinte: na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, começou-se a matricular obrigatoriamente toda criança na escola. Esse projeto iniciou-se naquela época com um ministro que propôs a descentralização de verbas para educação básica. Porém, com isso ele deixou a universidade à míngua. Foi péssimo. Então, não adianta apenas investir em um setor para depois investir em outro. É uma cadeia de investimentos. A proposta da SBPC, com relação aos royalties do petróleo, é dedicar 70% ao ensino básico, 20% para ao ensino universitário e 10% à ciência e tecnologia.  O governo mudou e colocou 75% para a educação e 25% para a saúde. Então, o que estamos sugerindo é que destes 75% se faça essa repartição. Porque sem ciência e tecnologia não há inovação. O governo do presidente Lula e o da presidente Dilma primam pela inclusão. A expansão do Bolsa Família foi dramática, no sentido de trazer uma população que não tinha capacidade de compra para a sociedade de consumo.  Isso significa que é preciso ter produto para essas pessoas. E esse produto, essa tecnologia, só será gerado com a ciência, ou continuaremos importando pacotes. O Brasil precisa decidir o que quer. Se quer de fato pautar a economia mundial, precisa fazer ciência. Porque sem ciência, não há tecnologia nem inovação.

E. - O que falta para o país avançar nesse sentido?
H. N. - São muitas coisas. Faltam leis, não no sentido de banalizar a legislação e a fiscalização da ciência. A fiscalização é muito importante, porém, não pode travar todo o resto do processo. Veja o caso da Unifesp: tivemos que devolver dinheiro à Finep e à Capes, pois a legislação inviabilizou o gasto. Então, uma instituição que faz ciência de qualidade e precisa devolver recursos,  porque a legislação representou uma barreira, está no caminho errado.  Temos uma legislação muito arcaica. A lei nº 8.666 (lei das licitações) não é adequada para quem faz pesquisa. O pregão pode até servir para comprar caneta, papel, mas não serve para comprar reagente para pesquisa, por exemplo. São esses impasses que estamos tentando mostrar ao Ministério Público e à Procuradoria Geral da União. Estamos conseguindo dialogar. Outro debate do qual venho participando bastante refere-se à instituição do RDC (regime diferenciado de contratações) para ciência e tecnologia, como foi feito para a Copa do Mundo e Olimpíadas. Se foi feito para construir estádios, por que não pode ser feito para educação e ciência? Agora, na minha visão (tenho insistido nesse aspecto e talvez seja por isso que cheguei a esse cargo na SBPC) educação e C&T são programas de Estado e não programas de governo.  Independente de qual partido esteja no poder, esses programas devem continuar.

E. - E como o governo atual está tratando a questão da ciência?
H. N. - No primeiro ano de gestão, a presidente Dilma fez alguns cortes em ciência e tecnologia e nós questionamos. Agora, ela decretou que ciência e tecnologia são prioridades em seu governo. Tanto é que criou um projeto gigantesco, denominado Ciência sem Fronteiras para enviar estudantes de todos os níveis, do ensino médio, graduação, pós-graduação e pós-doutorado, para estudar no exterior. É um programa fantástico, mas infelizmente a mídia só ressalta o lado negativo. Todo projeto está sujeito a acertos e erros, mas, nesse caso o balanço para o lado positivo é muitas vezes maior do que o lado negativo. O projeto foi muito criticado por não englobar as ciências humanas e sociais, mas bolsas de estudos para essas áreas já existem. É um projeto com começo, meio e fim, feito para quatro anos. Neste ano atingirá 50 mil bolsas. Na SBPC fiz uma reunião trazendo estudantes de diferentes regiões do Brasil, que voltaram da graduação e da pós, em diferentes áreas. Foi fantástico, estava lotado, havia gente sentada no chão. É incrível ver os depoimentos desses jovens, principalmente os de graduação, que têm uma experiência bem diferente no exterior. A graduação brasileira é muito arcaica. O sistema de graduação não se atualizou, continuou o mesmo desde o século XIX. Não tem flexibilidade. Então, temos que nos posicionar dentro de um mundo que hoje é globalizado, e isso está acontecendo. Esses jovens vão chegar trazendo ideias para o país.

E. - Como a senhora avalia a produção científica da Unifesp atualmente e qual é seu impacto dentro e fora do país?
H. N. - A produção científica é muito boa. Recentemente foi lançado um livro intitulado A pós-graduação e a evolução da produção científica brasileira, que provém de uma tese de Elenara Almeida, sob a orientação de Jorge Almeida Guimarães (presidente da Capes). No levantamento efetuado, dois pesquisadores da instituição ocupam o primeiro e o segundo lugar no ranking de publicações científicas entre 2000 e 2009 no país. Então, nós estamos “muito bem na foto”, vamos dizer assim. Mas isso é porque temos uma tradição, e essa tradição não se pode perder. A Unifesp, que hoje tem praticamente todas as áreas do conhecimento, começou como uma escola de Medicina privada, mas desde sempre acreditou na ciência. Os professores José Leal Prado e José Ribeiro do Valle, faziam pesquisa no porão do Hospital São Paulo, no segundo subsolo. E aquilo foi contaminando o ambiente acadêmico. Então, o diferencial do estudante da Escola Paulista de Medicina era o envolvimento com a pesquisa. Depois, foi criada a universidade e outros programas de pós foram inaugurados. É óbvio que os programas mais recentes demoram um tempo para se firmar. Não se pode esperar programas com nota 7 nos campi que ainda não têm dez anos de existência. É paulatino. Mas foram contratados professores altamente qualificados para coordenar esses cursos. Essa foi outra matéria pela qual nós brigamos na SPBC, quando o governo propôs uma lei que tirava a obrigatoriedade do doutorado para ser docente de universidade federal. Nós aqui estamos contratando só pós-doutores. A ideia da lei ia na contramão, mas a SBPC reverteu isso. Nossa pós-graduação é muito boa. Alguns programas têm avaliação média, com notas 3 e 4, outros têm nota 5 e há os de excelência, com notas 6 e 7, atribuídas pela Capes. A ciência que é produzida na instituição é reconhecida internacionalmente.

E. - E a senhora acompanhou pessoalmente a história da pós-graduação na universidade...
H. N. - Sim, eu pertenci às primeiras turmas. O programa de pós começou em 1970, defendi o doutorado em dezembro de 1974. Quem criou esse programa foi meu esposo, já falecido, professor Dietrich. Ele criou a pós-graduação com todas as regras e, depois do programa de Biologia Molecular, nasceram os outros. Surgiram os de áreas clínicas, o de Microbiologia e Imunologia, entre outros. Mas o primeiro foi o de Biologia Molecular. E o primeiro doutor em Bioquímica foi Jorge Almeida Guimarães, que hoje é o presidente da Capes.

E. - Como está a participação das mulheres no setor da pesquisa? É uma participação expressiva? Aumentou nos últimos anos?
H. N. - As feministas não vão gostar muito. Por um lado, a participação das mulheres na universidade representa maioria absoluta, já ultrapassou a dos homens. Mesmo nas engenharias, elas também os estão alcançando. Porém, o que ainda não há é um número elevado de mulheres em posições de comando. Na universidade, inclusive, são as que menos desistem dos cursos. A evasão masculina é muito maior que a evasão feminina. Isso é um dado. Na pós-graduação, há muitas mulheres, mas nos cargos de comando e de chefia elas são minoria. Isso é uma situação que precisa ser revertida, mas leva tempo. Os índices brasileiros são melhores que os norte-americanos. Na Academia Brasileira de Ciências, a participação de mulheres está por volta dos 15%. Na instituição americana é de 9%. Mas ainda estamos aquém do ideal. Acho que as mulheres têm de ir à luta, porque ninguém irá trazer essa conquista numa bandeja. Acredito sinceramente que a adoção de cotas não seria bom. Sou a favor de ações afirmativas. Quando pró-reitora de graduação, criei o programa da Unifesp de ações afirmativas, para negros e índios, oriundos de escola pública. Era um programa incrível. Não sou contra as cotas, mas creio que para nós, mulheres, chegarmos aos cargos de chefia, não terá que ser por esse caminho. Temos que lutar e mudar esse paradigma.

E. - A senhora é a terceira mulher que ocupa a presidência da SBPC. Durante sua trajetória profissional, chegou a deparar-se com alguma situação na qual teve que lidar com o machismo?
Nader - Não senti essa discriminação. Agora, sou privilegiada pela família que tive, pela EPM, pelos meus professores, que sempre me colocaram que podia fazer o que quisesse, era só me dedicar a determinado objetivo. Talvez por isso não tenha sentido.

E. - Como foi citada a questão das cotas, gostaria de saber qual modelo a senhora avalia como ideal?
H. N. - Eu vejo da seguinte forma: o que foi implantado no Brasil, foi de cima para baixo, sem uma análise de todos os projetos que já estavam em andamento no país. Como se as universidades federais estivessem isoladas em um “castelinho”, não vendo o problema da inclusão pela renda e pela cor. Que há necessidade de garantir cotas pela questão da cor, não há dúvidas. O Brasil foi o último a libertar seus escravos e nunca admitiu isso. Mas destinar 50% das vagas a alunos específicos não é a resposta. Porque varia, depende muito do ambiente onde a universidade está inserida. Esperava que o governo tivesse acompanhado os projetos que estavam sendo avaliados. Houve resultados incríveis. Nós, aqui na Unifesp, não tivemos nenhum problema na implantação das ações afirmativas. E fomos a primeira em nível federal.

E. - Já que estamos falando de ações do governo, temos atualmente a questão do programa Mais Médicos que está causando uma polêmica na comunidade médica...
H. N. - Eu até já escrevi sobre isso – o texto foi publicado no Correio Braziliense. A SBPC já se posicionou contrária, porque passou por cima de todo um contingente de pessoas dedicadas ao estudo de como deve ser a graduação de Medicina. O tema não foi discutido. É um absurdo total. Porque existe a Associação Brasileira de Educação Médica, extremamente ativa, e o sindicato, que não foram consultados. Mas o mais sério é o fato de o Conselho Nacional de Educação, que é o responsável por pensar a graduação, também não ter sido consultado. Então temos um problema grande.

E. - Ainda com relação a questões polêmicas, há tempos existe o debate sobre certas tendências religiosas que visam impedir o ensino do evolucionismo e promover o ensino do criacionismo nas escolas. Qual é a sua posição?
H. N. - Não é polêmica, não. A SPBC tem uma posição bem clara a respeito. Religião é religião, e ciência é ciência. A ciência não vai interferir na religião, mas a religião não pode interferir na ciência. Cada indivíduo tem em seu foro íntimo, a religião ou a não religião que vai seguir. Agora, o que não pode ocorrer é a religião intervir no dado científico. Criacionismo, nós somos frontalmente contra. Com relação a isso, o Brasil é um país laico. Sendo um país laico, o ensino da religião teria que ser optativo, e deveriam ser oferecidas aulas para todas as religiões. Por que não entrariam, por exemplo, as religiões africanas? Não se pode privilegiar um grupo em detrimento do outro. Mas a religião tentar escrever a história da ciência, isso não é permitido. A religião existe de per si e depende de uma crença. A ciência não é fé, não é crença, são dados. Não dá para negar a evolução. Criacionismo não é aceito. Essa é uma posição muito clara.

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