Terça, 29 Março 2016 13:25

“É um orgulho ser considerada ‘patrimônio’ do Hospital São Paulo”

 

A Unifesp relembra, no mês de março, entrevistas anteriores com mulheres de muitas histórias e realizações. Acompanhe!

 

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Por Juliana Narimatsu e Daniel Patini

 

“Quando Frei Damião deu entrada aqui foi uma loucura. Ele chegou de ambulância, passando mal. Foi internado na ala particular do hospital, com um segurança na porta, devido à curiosidade das pessoas. Porém, todos os dias eu conseguia vê-lo. Além do enfisema pulmonar, o quadro foi-se complicando. Os rins foram afetados, por ficar muito tempo deitado, e ele foi ficando fraquinho. A gente conversava com ele, que nos encarava com aquele olhar... às vezes, saía uma lágrima. No início, apertava a nossa mão. Ficou uns 15 dias no hospital”.

Quem conta essa história é Maria Catarina dos Santos Pereira, 63 anos, mais conhecida como Catarina. Pernambucana de Garanhuns, ela trabalha no Pronto- -Socorro do Hospital São Paulo/Hospital Universitário desde o dia 2 de setembro de 1979. Sua função: anotar a placa do carro, a data, o horário e o nome de todo paciente que dá entrada por acidente. A impressão do primeiro dia de trabalho foi péssima, pois não estava acostumada com sangue. Ficou apavorada quando recebeu o primeiro acidentado, que acabou morrendo. “Tenho lembrança dessa sensação até hoje. Foi horrível. Pedi muita força a Deus para continuar”.

Na manhã da nossa conversa, atípica devido à tranquilidade do local, chegou um senhor de camisa vermelha e barba por fazer, estirado no banco de trás de uma viatura. “Acho que foi mal súbito”, disse Catarina, já com a caneta na mão, fazendo as anotações. Um japonês de cabelos grisalhos, que acompanhava a vítima, era interrogado pela enfermeira. “Eu não o conheço. Estava tomando café na padaria, quando começou a passar mal. Pediram apenas para eu acompanhar”, explicou o oriental. Quando o caso é muito grave, Catarina aciona a equipe médica por meio de uma campainha, instalada logo atrás da bancada onde fica. “O número de toques significa uma ala: enfermagem, clínica e trauma”, aponta.

A vida em Pernambuco

Catarina nasceu em uma família de cinco irmãos, sendo duas mulheres e três homens. Foi para o Recife, com a mãe e os irmãos, quando tinha somente um ano de idade. Passaram a morar em uma casa bem pequena, no bairro do Pina. “Eram dois quartos, sala, cozinha e um banheiro. A região era pobre, mas muito boa para se morar”, relembra. O pai, Valdemar, era ferroviário, e a mãe, Maria Soares, doméstica. “Apesar de separados, minha mãe sempre foi apaixonada por ele. Nunca mais se casou”.

Começou a trabalhar muito cedo, aos 13 anos, como vendedora em uma loja de confecções. A rotina era puxada. “Trabalhava o dia todo e estudava à noite”. Com o salário, ajudava a família. Cheia de energia, adorava todas as atividades. Saía para dançar e divertir-se em um clube aos finais de semana. E disso ela gosta até hoje: “No salão, só dá eu!”, gaba-se. Dentre os estilos preferidos, cita o forró, o tango e o bolero.

Bastante vaidosa a e elegante, está sempre de salto alto. Possui cabelos caramelo, ajeitados até os ombros e enrolados nas pontas, e é dona de um sorriso largo. As marcas da idade ainda não chegaram para o seu rosto jovial. Comunicativa, gosta de ajudar e conversar com todo o mundo. A entrevista, aliás, foi interrompida várias vezes por pessoas que precisavam de alguma orientação. Foram prontamente atendidas, com muita atenção.

A vinda para São Paulo

Um momento feliz de sua vida foi a mudança para São Paulo, aos 29 anos. Sozinha, veio para “crescer e ficar rica” e em busca de um ex-namorado. Reencontrou-o, mas sofreu bastante. Apesar de terem tido um filho, Amauri, o relacionamento não deu certo. “Ele não gostava de trabalhar”. O pensamento dela era vir para cá, para comprar uma casa e um carro. “Queria voltar para o Recife ‘por cima de carne seca’, como dizem”, diz sorrindo.

A vida profissional de Catarina se entrelaça com a pessoal. No trabalho, conheceu seu atual marido, José Adeon, que trabalhava em uma padaria na mesma rua do hospital. Adeon ia jogar bola com os colegas de trabalho, que se machucavam e eram levados por ele até a emergência. Foi “paixão à primeira vista”. Porém, ela ainda morava com o pai de seu primeiro filho naquela época. Quando se separou, sentiu-se livre para conhecer um novo amor.

Foi tudo muito rápido. Em janeiro de 1982 começaram a sair e, em março daquele mesmo ano, já estavam morando juntos. “Será que vai dar certo? Vamos tentar”. Casaram-se no civil no dia 25 de setembro de 1982 e tiveram um filho, Adeon Pereira, que nasceu em outubro de 1983 no próprio hospital. “Dei entrada em um domingo, às 7 horas da manhã. Ele veio ao mundo às 10 horas, de parto normal”. Catarina trabalhou até a sexta-feira anterior ao nascimento do filho. Há 10 anos, mora perto do hospital, na rua Onze de “É um orgulho ser considerada ‘patrimônio’ do Hospital São Paulo” Junho, de onde caminha todo dia por alguns minutos até o trabalho.

Histórias para contar

Da vivência no hospital, ela tem lembrança das festas juninas que aconteciam no estacionamento. Cada funcionário ficava responsável por uma barraca. “A minha, chamada ‘Delícias da Catarina’, tinha pamonha, feita com milho doado, cachorro-quente, caldo de mocotó e bolo”. Todo o dinheiro ia para a diretoria do hospital.

Das amizades feitas no trabalho, ela conta o caso de um paciente conterrâneo, que conheceu há seis anos. Ele chegou com a esposa, com muita dor abdominal, “de rolar no chão”. Diagnosticado com uma doença rara, sem cura, ele faz atualmente acupuntura para aliviar a dor. “Até hoje, em dezembro, recebo cartão e presentes pelo correio”. Pelo reconhecimento à sua disposição para ajudar as pessoas, Catarina já ganhou vários prêmios do Corpo de Bombeiros, inclusive um jantar. “Este ano, recebi uma medalha e um troféu com a forma de um bombeiro”.

Faz cinco anos que ela doa cobertores para o Pronto-Socorro. Certa vez, chegou a doar 92 unidades, sempre com a ajuda das pessoas, que trazem o dinheiro ou compram em uma loja e depois apresentam a nota fiscal. São cobertores de casal, que cobrem toda a maca. “Fico muito feliz, me realizo. É um orgulho ser considerada patrimônio do Hospital São Paulo”. Hoje, só de “bater o olho” no paciente Catarina diz que já sabe o que ele tem. “Não sei se é algo meu ou se é a minha experiência”.

Sobre sua importância no trabalho, ela desconversa: “Quem deve responder isso é a chefia. Mas nunca recebi reclamação ou fui repreendida”. Já aposentada, só está à espera de que seu marido pare de trabalhar para fazer o mesmo. “A gente quer sair um pouco, passear... viver a vida”. Ela resume tudo o que viveu no hospital em uma só palavra: saudade. “Se pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo. Acho que nasci para isso”.

Jornal Entrementes - Ano 1 - número 3 - outubro 2013

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