A reitora, Soraya Smaili, faz um balanço dos 25 anos da universidade e fala sobre as perspectivas para o futuro

Texto: José Luiz Guerra

Uma universidade jovem, mas que traz consigo a responsabilidade de passar para os cursos das demais áreas do conhecimento a qualidade e a tradição da área da saúde, de onde a Unifesp se originou. 

Ao longo desses 25 anos, pouco mais de 10 deles como uma universidade plena, abrangendo cursos de vários campos do saber, a instituição já obteve algumas conquistas, dentre as quais pode-se destacar o recredenciamento com nota máxima e as avaliações feitas por rankings internacionais, como o Times Higher Education (THE), que colocou a Unifesp entre as melhores instituições da América Latina e a melhor universidade federal do país por mais de uma vez. Já em relação aos desafios, pode-se destacar o da consolidação, em especial da infraestrutura dos campi da expansão. 

Entrevistamos a reitora da Unifesp, Soraya Smaili, que traçou um panorama da universidade ao longo desse período e indicou os caminhos pelos quais a instituição pode trilhar para se manter sempre entre as melhores. Confira!

Retrato Soraya Smaili

Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

Entreteses • Em qual situação a Unifesp chega aos 25 anos?

Soraya Smaili • A Unifesp chega aos 25 anos na condição de uma universidade que é jovem e que ao mesmo tempo tem uma tradição muito grande da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), que completou 85 anos, e de onde a Unifesp se originou. Temos o privilégio e a sorte de termos a tradição junto com a juventude e a força do novo, do que podemos fazer e projetar com um futuro bastante promissor. É uma universidade que traz muitas coisas e ao mesmo tempo tem muitos desafios, porque essa juvenilidade também requer muita estrutura e muito conhecimento para que possa traçar direções e diretrizes mais firmes para a prospecção do futuro que temos pela frente. 

E. Quais foram as maiores contribuições da universidade para a sociedade e para o desenvolvimento científico do país?

S.S. São muitas. Nos campi São Paulo, Baixada Santista e Diadema desenvolvemos pesquisas nas áreas de saúde e de ciências da vida. Podemos citar conquistas recentes, como, por exemplo, as contribuições para o diagnóstico do Zika vírus, na área de células tronco, no diagnóstico, tratamento e novas terapias da Aids, em métodos cirúrgicos, na área de queimados e em duas áreas estratégicas, não só para o Brasil, como para o mundo, que são o envelhecimento e a Oncologia. Na pesquisa básica temos contribuições na Bioquímica, Farmacologia, Microbiologia, Imunologia e Parasitologia, áreas nas quais cientistas estudam experimentalmente novas terapias para doenças negligenciadas. Também temos uma série de pesquisadores estudando mecanismos da célula importantes para o tratamento de diversas doenças, como as neurodegenerativas. 

Em outras áreas, podemos destacar a Ciência da Computação, que faz simulações, trabalhando com estratégias de estudos que envolvam aeronáutica, devido à proximidade que temos com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, as Engenharias de Materiais, Química e Biomédica, produzindo conhecimento na área de grandes equipamentos para diagnóstico por imagem, tratamento do câncer, promoção do bem-estar para o ser humano e aprimoramento na busca por novos materiais para indústria brasileira como um todo, como a impressão 3D, produzindo próteses. 

As engenharias Ambiental e do Mar trabalham para melhoria da pesca e da qualidade da água, para identificação de poluentes e para tratamento da água do mar, já com bastante resultados. Nas licenciaturas, podemos destacar as áreas de Ciências, Física, Matemática, Biologia, além da área das Ciências Humanas Aplicadas, como é o caso de Osasco. No Campus Guarulhos, os cursos de humanidades trabalham tanto no contexto da formação de professores quanto na produção do conhecimento. 

Soraya Smaili falando à frente da platéia

II Oficina para discussão do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) 2016-2020 / Imagem: José Luiz Guerra

Mais pesquisa, melhor ensino e mais democracia

E. A sua gestão foi eleita, em 2012, com uma proposta de assegurar a pluralidade e a democracia universitária. Essas propostas, é claro, foram resultado de uma avaliação sobre a Unifesp. Que avaliação era essa? Hoje, decorridos cinco anos, mudou o panorama?

S.S. Esse era um dos eixos da nossa proposta para a Reitoria, quando nos candidatamos, e continuou na primeira e na segunda gestão. Nesses quase 6 anos, a democracia e a pluralidade foram eixos centrais. Em termos práticos, entendo que nós passamos a um processo de organização interna, inclusive refletido nos estatutos da Unifesp, e em regramentos internos que possibilitaram maior participação dos TAEs, estudantes e docentes. Temos hoje processos internos melhores estabelecidos, mais claros e mais transparentes, na minha avaliação, obviamente. Consolidamos processos internos de participação, de consulta pública. 

O Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) e o Projeto Pedagógico Institucional (PPI) foram participativos. Como estratégias de gestão, promovemos audiências públicas, plenárias, congregações abertas e temos feito esforços para tornar os conselhos muito mais condizentes com as representações. O Conselho de Assuntos Estudantis (CAE), por exemplo, é composto por mais estudantes do que antes, assim como o Conselho de Planejamento e Administração (Coplad), que hoje conta com maior participação de TAEs. Eles têm que estar envolvidos com a administração da universidade, com o planejamento. 

No caso do Conpessoas, é um conselho paritário, pois envolve boa parte do pessoal permanente. Nós procuramos fazer conselhos que sejam mais condizentes, para além de estabelecer percentuais de 70/30 ou paritários, que fossem inteligentes, apropriados para a atividade daquela pró-reitoria ou com a atividade daquele conselho ou área, no caso do ensino, pesquisa e extensão. Além disso, entendo que tivemos um processo que não tem mais volta, que é a transparência dos orçamentos. É algo muito positivo, pois nós passamos a dar clareza a todos os procedimentos orçamentários. As pessoas foram se apropriando do que é o orçamento, como ele é executado, quais são as nossas dificuldades, e isso foi bom, pois elas compreendem mais. 

É uma área muito técnica, mas não está desacoplada da política. Essa parte técnica é muito importante para nós entendermos como está o financiamento da universidade como um todo, porque nós tivemos cortes, porque tivemos que adequar estruturas à nova realidade nos últimos dois anos. Vejo como muito positiva toda transparência que nós demos aos procedimentos de orçamento e de administração. Além disso, nós também passamos a ter processos de criação dos projetos pedagógicos muito mais discutidos e abertos; o mesmo ocorre com os projetos de pesquisas, por exemplo.

Criamos as grandes áreas de pesquisas e passamos a fazer chamamentos aos pesquisadores para que eles pudessem se juntar mais às diferentes áreas para desenvolverem grandes temas, como o próprio tema da oncologia, que eu citei aqui, mas também o tema das cidades, dos estudos contemporâneos, da formação de professores, de análises ambientais e da sustentabilidade e do meio ambiente, o tema da tecnologia e da inovação tecnológica. 

Nós já temos uma política de inovação tecnológica e isso é um grande feito para todos nós na Unifesp e vamos dar muitos saltos ainda nessa área, muito desenvolvimento no decorrer desses próximos anos de 2019 e 2020, até o final da nossa gestão e daí por diante. São feitos realmente que complementam toda essa parte dos processos democráticos. Na verdade, nós aprimoramos esses processos e a pluralidade, a escuta dos diversos setores, de diversos atores de nossa comunidade para fazermos melhor o ensino, a pesquisa e a extensão. 

Esse é o objetivo final, e não simplesmente tornar a universidade mais democrática para termos a democracia, que por si só já se justifica, mas o processo de democratização interna e externa e de pluralidade das ideias e dos projetos. O objetivo maior é sempre a melhor formação do estudante, a melhor pesquisa e produção de conhecimento e a melhor possibilidade de transferir isso para a sociedade, que é o que a gente faz com a extensão.

E. Quais os principais desafios enfrentados pela universidade durante o processo de instalação dos novos campi? 

S.S. Passamos por uma grande expansão, na qual crescemos 800% em um período de 8 anos. Atualmente estamos em um período de consolidação. O primeiro desafio foi crescer tanto em tão pouco tempo. O segundo foi solidar a ampliação. E isso significa ter bons professores, bons TAEs, um quadro permanente de muita qualidade, equipamentos, infraestrutura e bibliotecas. Os primeiros campi da expansão tiveram uma primeira parte da estrutura em Santos, Guarulhos e São José dos Campos e estamos finalizando a fase de infraestrutura básica de Diadema e de Osasco. 

Além disso, precisávamos pensar no Campus São Paulo, onde estão a EPM/Unifesp e Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp), e tem a ligação com o Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp) e com o Hospital Universitário 2 (HU2/Unifesp), para não deixarmos de ter a qualidade que sempre as caracterizou. Trabalhamos com o Plano Diretor de Infraestrutura no Campus São Paulo para consolidação de um campus que tem tradição, mas que precisa de condições para manter a qualidade dos nossos cursos, da pesquisa e da extensão.

E. Em termos amplos e gerais, como a senhora caracterizaria as políticas públicas do governo para as universidades federais nos últimos 25 anos? É possível perceber algum padrão, alguma tendência geral?

S.S. Quando a Unifesp foi criada, em 1994, eu era conselheira do Conselho Universitário (Consu), participei da elaboração do primeiro estatuto da universidade e também dos seguintes. Percebo que internamente a tendência foi de construir processos e organizar a instituição como uma universidade de fato. Ela veio de uma escola departamental, grande e bastante complexa, mas que não tinha outras áreas do conhecimento no seu plano pedagógico. 

Tivemos que ter um projeto pedagógico mais amplo, dando um caráter universitário à EPM/Unifesp, que naquele momento era uma escola de ensino superior na área da saúde. Expandimos, inicialmente na graduação, ainda na área de saúde, na pesquisa, que já era de qualidade e tínhamos como objetivo continuar a ampliação da pós-graduação, da pesquisa e da assistência, que é muito forte desde o início da Unifesp. Depois percebemos um movimento claro e importante de expansão das universidades federais pelo país, que triplicaram a sua capacidade, passando de 400 mil para 1,2 milhão de estudantes. 

A Unifesp foi o reflexo dessa política nacional. Ela aceitou o desafio de fazer uma expansão a partir de 2005. Nesse período, passamos de 1,3 mil para 13 mil estudantes de graduação e de 2,5 mil para 5 mil de pós-graduação. Na extensão temos mais de 160 projetos sociais em toda a universidade, programas de extensão e especialização que já eram muitos e foram ampliados para todas as áreas do conhecimento. Passamos a ter projetos muito fortes e bem estruturados nas áreas de humanidades, na Pedagogia, na História, na Antropologia, que depois deu origem à Antropologia Forense, área na qual somos pioneiros devido ao trabalho que fazemos aqui na Unifesp. 

Além disso, estamos acrescentando o curso de Direito, que estamos aguardando a autorização para a abertura, tendo pesquisadores e professores que já estão contribuindo muito com a nossa instituição. A tendência atual é de transição. Não estamos vislumbrando que a expansão terá continuidade nesse momento, mas lutamos e estamos trabalhando para que ela se consolide cada vez mais e que as universidades permaneçam fortes nos seus projetos acadêmicos.

Soraya Smaili está com um microfone na mão

Cerimônia de entrega da primeira fase do Hospital Universitário 2 (HU2), na capital paulista / Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

“Temos que interagir mais com a sociedade”

E. De que forma as comunidades interna e externa podem contribuir para o fortalecimento da instituição?

S.S. A universidade é muito apoiada pela sociedade, pela sua qualidade e pelo caráter de suas pesquisas, voltadas para o bem-estar da população, por exemplo, na área da saúde pública. Quando você pergunta para a comunidade externa se ela apoia a universidade pública, ela diz que sim. Pesquisas de opinião já demonstraram isso. 90% da população, segundo a Idea Big Data (http://www.andifes.org.br/wp-content/uploads/2018/06/IDEIA-UniversidadesPublicas.pdf), apoiam a universidade pública e entendem ser um patrimônio do país. Ela sabe que nós fazemos coisas de qualidade e que são voltadas para o benefício da vida da pessoa humana e da sociedade brasileira. Temos muito apoio. O que precisamos fazer mais é nos comunicar mais com essa sociedade. 

Quando você pega os rankings das instituições públicas que são apoiadas pela população, os bombeiros estão em primeiro lugar e a educação pública está em quinto. Não estamos mal colocados. E esse prestígio junto à sociedade só tem aumentado nos últimos anos, só que nós podemos fazer mais. Podemos continuar nos comunicando mais, mostrando para a sociedade que o que fazemos com os recursos que são públicos é em prol da sociedade e que essa universidade é dela e está aqui para servi-la. Essa relação com a comunidade externa deve ser mais fortalecida e aprimorada. 

Em relação à comunidade interna, o que eu vejo é que nós temos que continuar promovendo a integração cada vez maior entre as diferentes áreas e entre as diferentes atividades de ensino, pesquisa e extensão, porque isso fortalece os profissionais que estamos formando, e também favorece a produção de conhecimento. A produção de uma pesquisa de um diagnóstico de um vírus, ou uma análise de uma água contaminada ou mesmo a formulação de uma política pública pelas Ciências Sociais, tudo isso pode contribuir enormemente para a sociedade, mas para que isso aconteça, é necessário que a nossa comunidade interaja cada vez mais para promover projetos e estudos que se transformem em benefícios maiores, ou seja, que gere mais conhecimento. Internamente, integrar mais. 

Com o público externo, comunicar mais. Dizer o que estamos fazendo e trazê-los para a universidade. Não é só ir lá e dizer, pois isso acaba sendo alguma coisa um tanto que autoritária. Só a gente dizer que professores vão em algum lugar e dão aula. Temos que trazer a população, porque nós também aprendemos com eles. Essa interação é muito rica e promove mais conhecimento.

E. A expansão da Unifesp enfrenta desafios para o acolhimento e a permanência de estudantes oriundos de outras regiões e com menor poder aquisitivo. Como a universidade os enfrentou até agora?

S.S. Tivemos uma política pública desenvolvida pelo governo federal que é o Programa Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes). Temos também uma lei tramitando e gostaríamos que ela fosse aprovada, pois isso o fundamenta. Não são auxílios aleatórios, é um programa que dá apoio aos estudantes de baixíssima renda. Há uma análise socioeconômica e, por meio de editais transparentes e bastante democráticos, avaliados por profissionais altamente gabaritados, temos um sistema bastante sofisticado para apoiar aqueles que têm alta vulnerabilidade. 

Oferecemos diversos tipos de auxílios e aqueles que têm mais necessidades recebem auxílio maior. A Unifesp tem uma política de permanência muito bem consolidada. Nós soubemos desenvolver essa política em paralelo com a expansão e hoje podemos dizer que, com os recursos que temos do Pnaes, podemos dar conta, pelo menos, da parcela mais vulnerável que está na nossa comunidade hoje. Estamos nos esforçando muito para isso. 

Além disso, temos sistemas de núcleo de apoio aos estudantes em cada campus, vinculados a essa política e para além dos auxílios econômicos e financeiros, principalmente no que diz respeito ao serviço social, à psicologia e até mesmo à parte médica. Eles têm atendimento de especialidades no Serviço de Saúde do Corpo Discente (SSCD/Unifesp). Ademais, fazemos exames, com a colaboração preciosa que temos do Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp) e dos hospitais afiliados da SPDM.

E. Em comparação com outras universidades federais, como a senhora avalia o ensino e a pesquisa na Unifesp?

S.S. Avalio como de enorme qualidade. Quando nós vemos os nossos programas pelos sistemas oficiais do Ministério da Educação (MEC), tanto o e-MEC como o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), vemos que nossos programas têm melhorado os seus conceitos. Praticamente todos os cursos de graduação têm conceitos 4 e 5, que são os mais altos. Obtivemos, em 2017, conceito máximo (5) no recredenciamento da universidade, o que foi um feito importante, por ter sido o primeiro depois da criação da Unifesp. Apenas 14 universidades federais no país têm esse conceito. É um feito fantástico. Além disso, a maioria dos nossos programas de pós-graduação têm conceitos 4 e 5 e uma parcela considerável tem conceito 6 e 7, que é o grupo de excelência, dos programas mais tradicionais, consolidados e antigos, alguns deles com quase 50 anos, criados junto com a pós-graduação no país, como os de Farmacologia e Bioquímica. Temos uma tradição muito grande na pesquisa que nos dá destaque, não só na área da saúde. Estamos muito bem colocados em áreas como Ciências Sociais e Engenharias.

Conseguimos, com tudo isso, alcançar o primeiro lugar em citações por docente. Isso é um feito fantástico, considerando a expansão que fizemos, o que significa que fizemos um crescimento com qualidade e somos a segunda em pesquisas, dependendo do sistema de classificação e ranqueamento. A expansão foi muito significativa em tão pouco tempo, mas ao mesmo tempo teve qualidade e se colocou entre as maiores universidades do nosso país. É importante salientar que antes da criação da Unifesp, nós não aparecíamos em nenhum sistema de avaliação, porque não éramos uma universidade. Sempre que avaliava a EPM, ela não conseguia atingir os critérios e parâmetros de universidade, pois era uma escola de uma área específica. A partir da criação da Unifesp, começamos a figurar como universidade e passamos, inicialmente, para o grupo das 10 primeiras e, agora, para o das 5, porque expandimos.

“A política de cotas garante a diversidade sem prejudicar a qualidade”

E. Que balanço a senhora faz da adoção do sistema de cotas raciais?

S.S. Nosso balanço é muito positivo, lembrando que a Unifesp foi uma das primeiras universidades públicas a adotar o sistema de cotas antes da lei federal, ofertando 10% das vagas nos cursos de graduação da época. Hoje, após a adoção da lei de cotas, vemos que elas nos possibilitaram que nós tivéssemos uma representação maior da sociedade brasileira, paulista e paulistana. O perfil socioeconômico dos nossos estudantes é parecido com o da própria sociedade do Estado de São Paulo: as faixas de renda, bem como os grupos raciais e os oriundos de escolas públicas. 

As cotas não foram simplesmente cotas, mas atreladas à escola pública. Depois disso, nós fizemos um processo de avaliação e verificamos que os cotistas foram muito bem avaliados e não há perda de qualidade do ensino e dos formandos, na comparação com os não cotistas. Outro aspecto bastante interessante é que hoje temos uma diversidade que traz uma riqueza e faz com que a universidade pública cumpra o seu papel social perante os grupos que tem ou tiveram menos favorecimento na sociedade.
Lembrando que os cotistas também passam pelos mesmos processos de ingressos que os demais. Muitas vezes as pessoas acham que são processos separados e que as vagas estão garantidas só por serem cotistas e isso não é verdade. Há avaliação tanto no ingresso quanto no egresso, quando os indivíduos saem da graduação.

 
Publicado em Edição 11

EntreTeses7 p06 SorayaSmaili

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

“A coisa mais importante para nós, brasileiros, é inventar o Brasil que queremos”, dizia Darcy Ribeiro. Com essa expressão, simples e objetiva, temos um pouco do que a universidade pública sintetiza ou deveria sintetizar: o lugar da educação e do conhecimento. Transposta a frase inicial – simples e objetiva – para o domínio da universidade pública, teríamos que essa instituição, mediante a invenção contínua e contemporânea, cumpre o seu papel social, que é também estratégico para o desenvolvimento da condição humana, a partir de preceitos de autoavaliação e crítica intelectual permanente. A universidade pública sintetiza o lugar da educação e do conhecimento e tem, portanto, uma responsabilidade crescente.

Atenta a essa necessidade e considerando o objetivo de integração interdisciplinar a que se propõe, a Unifesp – uma instituição ao mesmo tempo tradicional e jovem – apresenta um projeto inovador. Sob a coordenação do professor visitante Renato Janine Ribeiro, a Unifesp formou um grupo de trabalho destinado a criar e implantar o Instituto de Estudos Avançados (IEA), com a dupla vocação de estimular e ajudar a viabilizar tanto a realização de pesquisas situadas na fronteira do conhecimento como a formulação de políticas públicas capazes de superar alguns dos grandes desafios enfrentados pelo Brasil.

O instituto será um instrumento estratégico para a universidade, uma vez que adotará o diálogo interdisciplinar como princípio e método, possibilitando avanços revolucionários por meio da colaboração entre especialidades, as quais – de outra forma – permaneceriam circunscritas à própria área de conhecimento.

O convite feito pela Unifesp a Renato Janine Ribeiro não é fortuito. Professor titular da USP, foi ministro da Educação (2015) e diretor da Capes (2004 - 2008), órgão no qual promoveu as avaliações trienais de mais de 2.500 cursos de mestrado e doutorado. Além disso, preside o Conselho de Ética da USP e a Comissão de Ética do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb), integra o Conselho Superior de Estudos Avançados da Fiesp e participa do Conselho Consultivo do Instituto Inhotim,em Minas Gerais, que abriga um dos mais importantes acervos de arte contemporânea da América Latina.

O diálogo interdisciplinar – como foi dito – fornece uma chave indispensável ao desenvolvimento da pesquisa, em um contexto no qual o grau de especialização atinge níveis cada vez mais elevados. A interlocução permitirá, no caso, que os paradigmas de uma área do conhecimento iluminem outras áreas, provoquem indagações e apontem caminhos inéditos de investigação, como demonstra o exemplo histórico do estudo da geometria, fundamental para o desenvolvimento das ciências no início do período moderno. O espaço dos estudos avançados e convergentes reafirmará e possibilitará a integração entre as diferentes áreas do conhecimento, além de alavancar um outro campo de ação, o da formulação de propostas de políticas públicas, potencializando um caminho que já é percorrido pela Unifesp.

Tampouco é um acaso a criação de grupos de trabalho como método para construir o IEA. É um caminho que reflete a experiência democrática da atual gestão da Unifesp, por meio da qual a voz da comunidade é ouvida e acatada. Assim tem sido na formulação do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), obtido depois de um ano de consultas públicas e discussões com a comunidade; na escolha dos temas transversais de pesquisa; e no processo de construção participativa do Plano Pedagógico Institucional (PPI), atualmente em curso.

Somamos, assim, todas essas experiências recentes, além das imensas contribuições que os nossos próprios pesquisadores e professores têm a oferecer, para atender às demandas oriundas da Unifesp e da sociedade. Numa época de indagações sobre o futuro do país, marcada por cortes gigantescos nos orçamentos destinados à educação, à pesquisa e ao desenvolvimento da ciência e tecnologia, das artes e da cultura, vislumbramos um caminho que pode dar novo fôlego à Unifesp, fortalecendo o projeto de uma universidade mais participativa e inclusiva, que busca sua integração com o propósito de também contribuir para “a invenção do país que queremos”.

Publicado em Edição 10

Dia 27 de novembro, às 17h, Anfiteatro Leitão da Cunha

Publicado em Eventos Arquivados
Segunda, 10 Julho 2017 09:43

Pesquisar com real autonomia

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

Imagem da reitora Soraya Smaili

A instituição universitária reflete os dilemas, contradições e correntes de opinião da sociedade na qual se insere, mas o faz de forma muito particular: ela não é apenas uma imagem especular de seu tempo – estática, muda e inexpressiva. Ao contrário, constitui um espaço de elaboração, experimentação, crítica e reflexão que a torna uma instituição indispensável ao desenvolvimento das ideias, das técnicas e da ciência. 

A universidade pública, na sua forma mais plena e realizada de funcionamento republicano, cumpre o papel de oferecer as possibilidades necessárias ao processo de elaboração do pensamento crítico e ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia em consonância com as demandas sociais. E pode fazê-lo por não ser acossada pelo ritmo de produção imposto pelo mercado, nem medir seu tempo por índices de produtividade e pelo lucro. 

Nesse sentido, a instituição pública de ensino superior opõe-se à “universidade de resultados”, subordinada à concepção segundo a qual o mercado é portador da racionalidade necessária e suficiente à organização da sociedade. Para a “universidade de resultados”, a lógica do mercado, não o interesse público, orienta o ensino, a pesquisa e a extensão. E é no setor de produção de pesquisas que o embate entre as duas concepções aparece de forma mais clara. A razão é bem simples e imediata: pesquisar para quem? Com que fim? Com qual financiamento? 

Para a “universidade de resultados”, trata-se de pesquisar em nome de interesses privados, com o objetivo de elevar a produtividade e gerar lucro, assegurando-se financiamento por meio de recursos privados e/ou públicos, sempre orientados para o mercado. Segundo essa concepção, a autonomia universitária reduz-se a um simples método de gerenciamento empresarial. “Produtividade” e “eficácia” são as palavras-chave.

A universidade pública acata uma lógica integralmente diversa. A instituição está vinculada ao Estado, ente responsável pela dotação de verbas e pelo estabelecimento de normas de funcionamento. Na medida em que os recursos advindos do Estado são oriundos da receita de impostos, a universidade pública deve submeter-se prioritariamente às demandas da sociedade. E justamente por isso sua existência é tão necessária: ela oferece a possibilidade de elaborar projetos de interesse público.

Para cumprir sua missão, a universidade pública deve, entretanto, afirmar-se como espaço autônomo, plural e democrático de construção do saber e da crítica, não subordinado à lógica do mercado, nem submetido aos jogos políticos e partidários daqueles que controlam e administram o Estado. Do ponto de vista da universidade pública, portanto, a autonomia universitária, longe de constituir um mero processo de gerenciamento de recursos, consiste na garantia de abertura ao livre embate das ideias como pressuposto da construção do saber. É a realização mais elevada da vocação que se atribui à instituição pública de ensino de nível superior.

Na Unifesp, defendemos uma concepção republicana de universidade pública. Para nós, o desenvolvimento de pesquisas voltadas à inovação tecnológica deve, como consequência, atender às demandas da sociedade e priorizar a melhoria das condições de vida dos setores mais necessitados da população. Às vezes conseguimos, outras vezes, nem tanto. Em qualquer hipótese, nunca perdemos de vista o princípio que nos norteia, e que fundamenta e justifica a nossa própria existência.

Publicado em Edição 08

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

Fotografia da reitora Soraya Smaili

Há pouco menos de dez anos, os programas de pós-graduação consolidados na Unifesp eram quase que totalmente concentrados nas áreas de Medicina, Biomedicina, Enfermagem e Fonoaudiologia. Nossa universidade tornou-se referência de qualidade em pesquisa nacional e contribuiu com a formação de egressos que nuclearam diversos outros programas em diferentes instituições do território nacional. A qualidade foi construída ao longo dos oitenta anos de existência da Escola Paulista de Medicina (EPM), célula mater da Unifesp, que este ano completa o seu 20º aniversário.

Nos últimos sete anos, o cenário mudou como decorrência da expansão dos cursos de graduação e da ampliação dos programas de pós-graduação (PPG) stricto sensu. A expansão trouxe a contratação de 100% de doutores e um crescimento de 30% no número de PPGs. Entretanto, esse processo não foi propriamente planejado pelo Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que não destinou os recursos necessários e suficientes para manter o funcionamento da pós – o que inclui os laboratórios de pesquisa –, apesar de ter garantido bolsas.

O que fazer, então, com o sistema que agora demanda a abertura de novos PPGs e um ambiente adequado à pesquisa? Como atender a tantos doutores, agora vinculados às universidades públicas, que formam um contingente extremamente valioso para o país? Vivemos a difícil situação de manter o caminho pelo qual a Unifesp se consolidou no cenário nacional como instituição de qualidade no ensino de graduação e, ao mesmo tempo, garantir condições equivalentes para as atividades de pós-graduação.

Esse contexto impõe a necessidade de redimensionar os critérios de avaliação dos PPGs adotados pelo MEC. Em que pese o sistema de avaliação desse nível de ensino ter-se aprimorado, o corpo de mestres e doutores já produziu massa crítica que permite uma reflexão mais aprofundada sobre o tema. É necessário rever a lógica do processo e o quanto ela deixou de ser discutida, passando a ser simplesmente imposta.

Presenciamos, hoje, uma corrida pela obtenção de coeficientes e parâmetros numéricos supostamente indicativos de produtividade e qualidade. Em muitos casos, as pesquisas que geraram tais coeficientes têm pouca ou nenhuma repercussão no âmbito social e – especialmente – para a expansão do conhecimento. Alguns desses parâmetros e sistemas de classificação promovem, muitas vezes, distorções de viés produtivista. Por essa razão, é chegada a hora de fazermos uma pausa e repensarmos o sistema em seu conjunto.

Essa reflexão é ainda mais premente para a Unifesp, dadas as suas características específicas: de um lado, é uma universidade tradicional e consolidada; de outro, encontra-se em processo de ebulição. Antes do início da expansão, a Unifesp agregava cerca de 500 professores; hoje, possui cerca de 1.400 docentes doutores, dentre os quais 14% são livres-docentes. Há também um número elevado de técnicos administrativos com doutorado, que assumiram funções de pesquisa e pós-graduação em grande escala. São doutores oriundos de diferentes áreas, sedentos por um ambiente de acolhimento e crescimento acadêmico. Mas a falta de condições plenas de infraestrutura, aliada à demanda de recursos originada pelo ingresso de novos professores e pesquisadores, criam uma enorme pressão no sistema. 

O sistema de avaliação deveria refletir esse desafio, mas isso não ocorre. De um lado, os programas consolidados são julgados segundo regras que privilegiam uma análise prioritariamente quantitativa. De outro lado, aplicam-se aos novos PPGs as regras próprias aos programas já consolidados. O método tende a criar um círculo vicioso por determinar que os recursos ofertados pelas agências de fomento à instituição e aos pesquisadores premiem o produtivismo. Uma avaliação mais justa teria de assegurar visibilidade ao grande número de programas que foram implantados pela Unifesp em diferentes áreas e que estão ainda em fase de consolidação. 

A complexidade do tema e a necessidade de reflexão não param por aqui. Precisamos ainda discutir o sistema de avaliação em si mesmo. Seria esse o melhor sistema? Como torná-lo mais justo, menos quantitativo e mais qualitativo? Os parâmetros adotados são os mais adequados à realidade brasileira e à diversidade de pesquisa aqui desenvolvida? 

Em qualquer hipótese, cumpre-nos proporcionar maior apoio à pós-graduação e pesquisa – fundamentais para a formação de novos profissionais – e promover o estímulo à criatividade intelectual e ao debate de ideias, além do compartilhamento dos saberes com a sociedade em seu conjunto. Afinal, é disso que vivemos e é nisso que devemos investir nossos esforços.

Publicado em Edição 02

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ao longo de sua história e desde os tempos da Escola Paulista de Medicina (EPM), dedicou-se às atividades de pesquisa – nas quais sempre se destacou – e ao desenvolvimento dos cursos de pós-graduação. Na segunda metade da última década, a Unifesp partiu para um crescimento de grandes dimensões, no contexto do programa de expansão do MEC. O número de estudantes na graduação foi multiplicado por oito em apenas seis anos – de 1.200 para quase 10 mil. Cerca de 1.400 docentes atuam em diferentes áreas, nos seis campi situados na Grande São Paulo, na Baixada Santista e em São José dos Campos. Por outro lado, houve pouco ou quase nenhum aumento no número de técnicos administrativos. Como resultado, a estrutura ficou deficiente.

Apesar de não receber recursos específicos de custeio para o desenvolvimento da pós-graduação e extensão, a Unifesp enfrentou positivamente o desafio, em especial na pós-graduação. Criamos 16 novos programas credenciados pela Capes, vários deles em áreas nas quais a Unifesp não tinha tradição de pesquisa ou mesmo pesquisadores formados. O número de pós-graduandos stricto sensu (mestrado e doutorado) passou de 2.700 para 3.111 em julho de 2013. Entre os 51 programas oferecidos, além de alguns novos em fase de credenciamento, há 12 classificados em níveis 6 e 7, com forte inserção internacional e potencial de nucleação em outras universidades e institutos em todo o país.

Fotografia da reitora da Unifesp

Soraya Smaili - Reitora da Unifesp

As razões para essa forte expansão, apesar das carências estruturais, devem-se a fatores que incluem a atuação de um corpo docente com praticamente 100% de doutores e cerca de 25% de livre-docentes, o apoio das agências financiadoras e a tradição de pesquisa. O resultado pode ser visto não apenas na ampliação dos programas de pós-graduação ou na elevação do número e da qualidade dos trabalhos publicados, mas também na qualidade dos cursos de graduação que alcançaram posição de destaque em recentes “rankeamentos”. Esse conjunto de fatores certamente explica por que um curso de graduação atinge avaliação de alto nível, apesar de não ter infraestrutura – de laboratórios ou quadras de esporte – adequada ao desenvolvimento das atividades.

Durante o programa de expansão da graduação, verificamos que o MEC concedeu apoio para bolsas de pós-graduação e algumas linhas de fomento para aquisição de equipamentos. No entanto, a acelerada ampliação do sistema não contou com recursos específicos para custeio, programas de desenvolvimento de infraestrutura e concursos de servidores técnico-administrativos. Com efeito, são insuficientes os espaços adequados à pesquisa e ao convívio e discussão, elementos tão necessários para a criação do ambiente acadêmico.

Por outro lado, há muito o que celebrar pelas conquistas, boa parte das quais deve ser creditada ao corpo docente, técnico e discente altamente qualificado, que pressionou o sistema a dar continuidade à atividade universitária. Ao mesmo tempo, nos perguntamos quanto tempo essa ação, baseada no limite das condições de trabalho, poderá resistir sem que haja consequências para a criatividade, a produção e a troca de conhecimento e de saberes.

É momento, pois, de clamar por mais investimentos, não só para a consolidação da expansão, mas principalmente para a modelagem de uma instituição que permita o debate acadêmico, ofereça condições adequadas de trabalho e assegure um ambiente que possibilite a livre interação e a formação permanente. Para isso, serão necessários laboratórios, espaços físicos, equipamentos, custeio para pesquisa e, principalmente, recursos humanos altamente qualificados para o trabalho técnico-administrativo.

Queremos convocar especialmente a sociedade a formar uma frente de atuação pela universidade pública, reunindo, no caso, todas as demais universidades federais e suas entidades representativas, como a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições do Ensino Superior (Andifes). Também queremos envolver as agências financiadoras, sociedades científicas e os Poderes Executivo e Legislativo, por meio de seus representantes, todos engajados na melhoria da educação em nosso país. Queremos, de fato, incluir a sociedade brasileira e sensibilizar nossos governantes. Sabemos que a caminhada é longa e deve ser impulsionada por todos os que desejam o desenvolvimento das instituições universitárias e reconheçam seu valor estratégico para a nação e seu povo. A Unifesp, por sua trajetória de serviços prestados à coletividade, saberá cumprir o seu papel neste cenário.

Publicado em Edição 01