Implantação da ferramenta é fruto de parceria entre o órgão e a Agência de Inovação da UFSCar

Publicado em Notícias Arquivadas
Sábado, 10 Outubro 2015 14:04

Unifesp conquista primeira Carta Patente

Invento confere propriedade intelectual aos pesquisadores da universidade e reacende a discussão sobre a importância das patentes

Valquíria Carnaúba

Entretesses05 p050 carta patente

A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) obteve esse ano, com o apoio do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), sua primeira Carta Patente de Propriedade Intelectual, concedida pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI). Em cotitularidade com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o documento confere propriedade de invenção aos pesquisadores da Unifesp, que desenvolveram um sistema de monitoramento da atividade da enzima conversora da angiotensina I (ECA), à base de substratos (compostos sujeitos à atividade enzimática) com supressão intramolecular de fluorescência. 

Sob a coordenação da professora do Departamento de Biofísica Adriana Karaoglanovic Carmona, o projeto teve início em 1995, mas o requerimento de proteção legal junto ao INPI foi efetuado apenas em 2002. Na ocasião, a docente trabalhava ao lado dos professores Luiz Juliano Neto e Maria Aparecida Juliano e dos estudantes Marcio Alves, Robson Melo e Maurício Araújo, em busca de um método sensível e rápido para a dosagem da ECA.

Existem diversos substratos descritos para a dosagem da atividade da ECA, mas possuem limitações por serem pouco sensíveis ou envolverem metodologias que dificultam os ensaios enzimáticos. Um deles é o Hipuril-His-Leu, utilizado em um método que demanda mais etapas: após a hidrólise pela enzima, o substrato libera o His-Leu. Esse, por sua vez, é acoplado ao reagente fluorescente orto-ftaldialdeido (por ter sido exposto à radiação ultravioleta - UV), para que seja posteriormente quantificado pela medida de emissão de luz.

Uma das enzimas do sistema hipertensor renal, a ECA tem um importante papel na manutenção da homeostasia circulatória, sendo encontrada em fluídos biológicos e no endotélio vascular de vários órgãos. Quando a enzima cliva a angiotensina I, gera o vaso constritor angiotensina II, que se liga a receptores específicos, promovendo a vasoconstrição – liberação do hormônio aldosterona –, que controla a absorção de sódio e potássio, e outros eventos que culminam no aumento da pressão arterial. Também é responsável pela inativação da bradicinina, um vasodilatador do endotélio.

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Adriana Carmona no Edifício de Pesquisas II da Unifesp, onde estuda a atividade da ECA desde meados de 1995

Carmona defende que a inovação traz rapidez e especificidade, permitindo que o monitoramento contínuo da atividade enzimática seja feito em fluorímetro de cubeta e a mensuração da velocidade de hidrólise, em fluorímetro de placa. Isso é possível graças aos substratos aplicados: todos possuem os grupos Abz (ácido ortoaminobenzoico) e Dnp (dinitrofenil) como sonda fluorescente e supressor de fluorescência, respectivamente. Quando esses agrupamentos estão próximos, a intensidade de luminosidade é baixa; porém, com a quebra das ligações peptídicas pela enzima, ela aumenta na solução em função do número de moléculas hidrolisadas. 

Além disso, diferentemente dos compostos rotineiramente usados na dosagem da ECA, os patenteados permitem distinguir a atividade catalítica dos seus dois domínios. Essa característica é particularmente relevante devido a uma descoberta da década de 1990 que reavivou o interesse da indústria farmacêutica pelo desenvolvimento de novos inibidores. 

Foi demonstrado na época que a ECA é composta de duas isoformas: a somática, de aproximadamente 150 kDa (unidade de massa atômica), e uma menor, de aproximadamente 90 kDa. A primeira é formada por dois sítios cataliticamente ativos, domínio N e domínio C, enquanto que a segunda tem apenas um sítio ativo correspondente ao domínio C da ECA somática. O domínio N está mais envolvido na hematopoese e o C relacionado à hipertensão. Com base nisso, começaram a ser buscados inibidores específicos para cada um dos domínios catalíticos. 

A dosagem de inibidores mais específicos pode auxiliar, por exemplo, no diagnóstico e avaliação de diversas patologias, como sarcoidose, asbestose, silicose, trombose e disfunções endoteliais. Portanto, o desafio de Carmona e sua equipe será, de hoje em diante, a busca de parcerias para exploração do invento. Já a Unifesp deve ter como meta, após a notícia, reacender as discussões acerca da importância da inovação, seus impactos socioeconômicos e o papel da universidade nesse contexto.

Desafios nacionais

Em nível internacional, as normas de proteção às invenções são hoje discutidas por meio da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), criada em 1967. Agência especializada da ONU que conta hoje com 188 Estados-membros, a OMPI defende que países em desenvolvimento e países em vias de desenvolvimento consigam integrar o sistema de propriedade intelectual, assim promovendo o desenvolvimento econômico, social e cultural.

Essa política de incentivo adotada pela organização decorre da evidente relação entre inovação tecnológica e crescimento econômico de um país. Nesse quesito, a OMPI revela que o Brasil ainda precisa avançar. Em ranking divulgado no ano de 2013, a organização mostra o país na 19ª posição entre os países que mais registram patentes, com 41.453 registros em 2012, número inferior ao dos Estados Unidos (2,2 milhões), do Japão (1,6 milhões) e da China (857 mil) — respectivamente, o primeiro, o segundo e o terceiro colocados no ranking. 

Para Jair Chagas, diretor do NIT/Unifesp, o baixo desempenho nacional se deve à legislação e ao perfil do empresariado brasileiro. “A burocracia é um dos entraves. O inventor leva, em média, de 9 a 11 anos para conseguir uma patente; considerando que a mesma é válida por 20 anos, a partir da data do depósito, resta pouco tempo para que a invenção possa ser explorada comercialmente, motivando os pesquisadores a buscarem patentear suas ideias em outros países onde o processo é mais simples. O outro problema é a aversão das empresas e das indústrias ao risco, o que se deve ao desconhecimento do meio sobre as vantagens competitivas de se investir em inovação”.

Um ativo valioso 

Desde a federalização da Escola Paulista de Medicina (EPM) até os dias atuais, a Unifesp registrou 42 pedidos de patentes cujo depositante do pedido ao INPI é a própria universidade. A maior parte dessa estatística se deve, no entanto, à publicação da portaria n° 662/2002, que define a proteção dos direitos decorrentes das atividades de criação intelectual da instituição e de entidades vinculadas.

O resultado da política é expresso em números: entre os anos de 1933 e 2002, os pedidos de patentes somavam 6; após a norma, esse número saltou para 27 (entre 2002 e 2008). Somente em 2014, os valores pagos pela universidade para registro de marcas e patentes somaram R$14.017 mil. 

A norma define que a distribuição dos ganhos econômicos resultantes da exploração das invenções deve ser de 70% à Unifesp e de 30% aos desenvolvedores. A empresa, por sua vez, embute o valor dos royalties que paga no preço de comercialização da tecnologia. No entanto, essas porcentagens são hoje amplamente discutidas pela universidade para adaptação à Lei de Inovação (10.973/2004), que assegura a cada uma das partes envolvidas participação de até um terço dos ganhos econômicos resultantes da exploração da criação. Essa adaptação corresponde à ampliação das políticas de financiamento pelas agências de fomento. 

Patentes garantem retorno à universidade e à sociedade do valor investido em pesquisas, além de propiciar o interesse da iniciativa privada em apostar na execução de novos projetos envolvendo o resultado gerado. A conclusão é de Cristina Assimakopoulos, coordenadora do Núcleo de Propriedade Intelectual da Unifesp entre os anos 2000 e 2007 e atualmente analista da Vale S.A. “Contudo, deve-se priorizar os resultados mais consistentes, para que o documento de propriedade atenda aos requisitos de novidade, atividade inventiva e aplicação industrial, não dando margem à denegação da patente”.

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Para Jair Chagas, diretor do NIT, inovar é uma das melhores formas de a universidade fazer extensão, beneficiando toda a sociedade

Para o diretor do NIT, Jair Ribeiro Chagas, advém desse cenário a pertinência das incubadoras de empresas nas universidades. “As agências de inovação possuem equipe capacitada para avaliação de patentes e avaliação de mercado. Além disso, são uma excelente oportunidade para pesquisadores em início de carreira. Tratam-se de espaços que as instituições de ensino, cobrando ou não um pequeno aluguel, oferecem a pesquisadores que desejam empreender”, explica.

Livre acesso

Ainda é difícil o acesso ao conhecimento produzido com dinheiro público, geralmente confinado a publicações caras e disponíveis apenas ao meio acadêmico. Preenchendo essa lacuna, surgiu a iniciativa Open Access (OAI), que se pauta no aproveitamento livre, direto, permanente e gratuito de documentos completos da literatura científica e de pesquisa pela internet - desde que respeitado o reconhecimento da autoria (copyright). Movimento que visa remover barreiras comuns das tradicionais formas de comunicação científica, a OAI é regida por três declarações internacionais, a de Budapeste (2002), de Bethesda (2003) e a de Berlim (2003). 

Na Unifesp, a medida está prestes a se materializar com a criação de seu repositório oficial. A expectativa é que o espaço contenha, inicialmente, mais de 30 mil documentos, incluindo teses, artigos, relatórios anuais e resumos das mais diversas áreas do conhecimento da universidade. “Os repositórios institucionais são instrumentos capazes de tornar acessível toda a produção intelectual universitária; ao colocar a criação da Coordenadoria da Rede de Bibliotecas entre suas 10 primeiras ações em sua gestão, a Reitoria toma a decisão política de valorizar aquilo de mais precioso que nossa instituição possui: a informação”, afirma Maria Eduarda Puga, bibliotecária-chefe da Coordenadoria da Rede de Bibliotecas da Unifesp, responsável pelo projeto.

O diretor do NIT também vê a iniciativa como positiva. “A popularização das inovações impede sua apropriação exclusiva, promove uma mudança nas relações de produção e impulsiona os processos criativos; portanto, mostra-se cada vez mais o melhor caminho para devolver à sociedade o que ela mesma paga”, pontua. Além disso, segundo ele, motiva os pesquisadores a buscarem as patentes como forma de resguardar seus direitos sobre as invenções, cuja divulgação é ampliada com a OAI.

Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT): http://www.nit.unifesp.br

EAP oferece apoio administrativo a projetos de pesquisa da Unifesp

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Conhecer os trâmites exigidos pelas agências de fomento é importante para o sucesso na obtenção de financiamentos a projetos de pesquisa, bem como para sua gestão e administração. O setor responsável pela assessoria aos pesquisadores sobre o assunto na instituição é o Escritório de Apoio à Pesquisa (EAP), vinculado à Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Unifesp. Formado por servidores da universidade e por membros da Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo (FAP/Unifesp), com treinamento específico pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o EAP oferece suporte para a gestão e administração de projetos, desde sua elaboração e encaminhamento até sua execução e prestação de contas junto aos principais financiadores.

Eliane Beraldi Ribeiro, coordenadora do EAP, afirma que o escritório prioriza atualmente o apoio direto a projetos novos desenvolvidos com recursos da Fapesp. Ela ainda acrescenta que essa assessoria será ampliada para demais agências de fomento consolidadas na instituição e outras identificadas por busca de editais de fomento. “Visando dar suporte à carga burocrática de responsabilidade dos pesquisadores quanto à gestão e administração de projetos, colocamo-nos à disposição para consultoria, favorecendo uma maior dedicação às atividades de pesquisa e orientação”, explica. Porém, há mais novidades: o EAP selecionou esse ano projetos Fapesp que receberão apoio administrativo integral.

Três pesquisadores, dos campi São Paulo, Baixada Santista e São José dos Campos, responderam ao edital EAP e já recebem esse suporte. “Pretendemos prestar o serviço a um número maior de pesquisadores; além disso, estamos trabalhando para a criação de polos de apoio em cada campus, organizados pelas câmaras de pós-graduação e com pessoas treinadas. Acreditamos que o amparo local e direcionado às áreas específicas de cada unidade universitária será mais eficaz. A Fapesp nos visitou esse ano para avaliar nossa estrutura e nos comprometemos com a expansão do escritório”, finaliza.

Escritório de Apoio à Pesquisa (EAP)
https://www.unifesp.br/reitoria/eap
Tel: (11)3369-4080
E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Publicado em Edição 05
Quinta, 15 Outubro 2015 09:53

Edição 5 - Entreteses

banner entreteses 05 -Médico e indígena retratados de perfil com o texto projeto xingu 50 anos

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Novembro 2015

Há 50 anos, a Unifesp cuida da saúde dos povos que vivem no Parque Indígena do Xingu (PIX). Graças ao Projeto Xingu, iniciativa pioneira implementada pela Escola Paulista de Medicina (EPM), o alto índice de mortalidade dessa população, decorrente das grandes epidemias na região, foi reduzido e houve um significativo aumento populacional das etnias.

Encabeçado pelo Prof. Roberto Baruzzi, após o convite do sertanista e então diretor do PIX Orlando Villas Bôas, o Projeto Xingu já levou mais de 500 profissionais da área da saúde (entre professores, médicos, enfermeiros e estudantes) ao local para prestar assistência e, por meio da pesquisa científica, ajudar a melhorar a saúde desses povos. Trata-se de uma história construída a partir de um delicado processo de aprendizado e respeito às culturas – tão diferentes – e que é contada em 30 páginas dessa edição.

Ainda nesse número, apresentamos, pesquisas na área de Nutrição e Informação em Saúde, uma entrevista exclusiva com a secretária especial de Políticas para as Mulheres do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, Eleonora Menicucci de Oliveira, na qual ela fala, entre outros temas, sobre feminicídio e atenção humanizada aos casos de abortamento no Brasil.

No perfil, trazemos um dos mais antigos e renomados pesquisadores da Cannabis sativa do país, o diretor do Centro Brasileiro sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e professor emérito da Unifesp, Elisaldo Carlini.


Outras edições da Entreteses:

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Publicado em Entreteses

Especialista em ciência e tecnologia, ex-diretor acadêmico do ICT da Unifesp – Campus São José dos Campos e atual secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCTI, Armando Milioni fala sobre os desafios para o desenvolvimento da indústria brasileira no cenário mundial

Ana Cristina Cocolo

Fotografia do professor Armando Milioni, ele está em frente a uma quadro cheio de anotações - gráficos e fórmulas matemáticas

Ajudar a estabelecer estratégias para alavancar a inovação tecnológica no Brasil e reposicionar a indústria nacional, de acordo com sua relevância e competitividade, dentro e fora do país, são as principais tarefas assumidas pelo engenheiro mecânico Armando Zeferino Milioni, nomeado, em agosto, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Setec) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O atual secretário é pesquisador e professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) – onde também se graduou e concluiu o mestrado – e doutor em Engenharia Industrial e Ciências de Gestão pela Universidade Northwestern, em Illinois, nos Estados Unidos. Atua nas áreas de pesquisa operacional e Estatística Aplicada, com ênfase em análise de envoltória de dados (DEA) e modelos de previsão. 

Milioni participou da equipe pro tempore que implantou a Universidade Federal do ABC, em 2005, com uma nova proposta acadêmica: os bacharelados interdisciplinares (BIs). Nos cinco anos em que permaneceu na UFABC, ocupou as funções de pró-reitor de pós-graduação, vice-reitor e chefe de gabinete. Em 2010, foi convidado a trazer os BIs para o Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Unifesp – Campus São José dos Campos, onde exerceu o cargo de diretor acadêmico até dezembro de 2012. 

Segundo ele, os dados referentes ao período de 2008 - 2011 da Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam para uma queda da taxa de inovação na indústria. O secretário pondera, entretanto, que esses dados devem ser analisados com cuidado, pois no mesmo intervalo cresceram as taxas de emprego no setor, bem como o número de indústrias que apostaram no desenvolvimento de novas tecnologias.

 

Entreteses - A UFABC foi pioneira na implantação do bacharelado interdisciplinar (BI) nas universidades federais do país. Quantas universidades federais brasileiras, além da Unifesp, já adotam esse novo sistema de ensino?

Armando Milioni - O número vem crescendo rapidamente. Já eram 12 em 2010 e são 16 em 2014. E também há iniciativas fora do sistema federal, como é o caso do ProFIS, da Unicamp. Mas é importante esclarecer que a terminologia BI é usada de forma genérica para iniciativas que não são idênticas entre si.

E. Quais são as vantagens desse novo modelo de ensino para os estudantes e para as empresas?

A.M. Há várias. Para o aluno, por exemplo, retarda a decisão de escolha da carreira, despertando vocações mais autênticas. Esse é um velho problema da educação superior no Brasil. Em nosso país, apenas 1/3 daqueles que se graduaram em um curso superior trabalha em atividades ligadas à área de sua formação. Os BIs também estimulam o aluno a fazer escolhas e arcar com suas consequências. Ainda, induzem à autoaprendizagem, de grande valor na sociedade do conhecimento, na qual já vivemos. Esta última é um benefício também para o empregador, é claro, que terá um funcionário com capacidade autodidata, diplomado em menos tempo, com uma formação mais plural e mais abrangente, com possibilidades indefinidas de educação continuada e sem prejuízo da especialização aguda.

E. É possível dizer que a evasão nas universidades diminuiu com o BI?

A.M. Não creio, mas os BIs estão longe de ter atingido a maturidade necessária para que seus resultados possam ser medidos. Temo pela exigência de resultados de curto prazo em iniciativas dessa natureza.

E. O BI é uma tendência no Brasil? Como ele é visto em outros países?

A.M. Acredito que os BIs sejam uma tendência no Brasil. Em outros países, especialmente no mundo mais desenvolvido, já não há mais razão para se falar em tendência, pois eles são uma realidade. Há mais de dez anos transformaram-se no modelo comum de educação superior em praticamente toda a Europa. Nos Estados Unidos, existem há muitas décadas.

E. Quais foram as experiências adquiridas no exterior que o levaram a trazer essa nova proposta de educação superior?

A.M. No meu caso particular, nenhuma. Conheci o assunto quando compus a equipe pro tempore que implantou a UFABC. Foi lá que tomei conhecimento do bacharelado interdisciplinar em Ciência e Tecnologia, concebido por uma equipe de educadores, muitos deles da Academia Brasileira de Ciências, que era liderada pelo professor Luiz Bevilacqua. E lembro-me com clareza que reagi mal à novidade, ao tomar conhecimento dela. Gosto de me lembrar disso, pois me condiciona a controlar a natural rejeição ao novo, uma tendência que talvez se justifique do ponto de vista evolutivo, mas que pode ser muito negativa.

E. Houve resistência à implantação do BI no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Unifesp – Campus São José dos Campos? Em caso positivo, por quê?

A.M. Sim, houve. É verdade que os estudantes já estavam descontentes com as dificuldades iniciais do campus, a falta de professores e de boas condições de infraestrutura, por exemplo. Creio que a implantação dos BIs acabou servindo como catalisador desse descontentamento que se materializou numa greve – felizmente nem longa nem violenta. Os próprios grevistas escreveram um documento deixando claro que não se opunham aos BIs e reconheciam seus bons fundamentos. Concluí, portanto, que faltaram mais debate e mais explicações. Em uma reunião do Conselho Universitário, reconheci esse fato e fiz questão de assumir minha parcela de responsabilidade por ele.

E. Os cursos de BI realmente colocam em prática a interdisciplinaridade? Há quem acredite que o modelo é um conjunto de disciplinas com conteúdos rebaixados.

A.M. É certo que os BIs podem ser melhorados e há grandes desafios a serem suplantados. Alguns deles vão demorar um pouco, como a geração de material bibliográfico novo e de qualidade, que leva tempo, ou a necessidade de convencer os docentes a ensinar de um jeito diferente do que eles aprenderam. Mas entendo que o balanço geral é positivo. Os BIs representam a desejável modernização de um projeto pedagógico bastante arcaico, que ainda é majoritariamente praticado no Brasil. Quanto ao conteúdo, creio ser o oposto. O conhecimento aprofundado faz parte da lógica dos BIs, mas ele não é imposto ao aluno, e é sim uma decorrência das escolhas e das aptidões naturais que o próprio aluno é estimulado a identificar.

Milioni, em frente a um avião. Ele está em um gramado e o dia está muito ensolarado, com o céu azul

Milioni e o BEM-120, também conhecido como Brasília, primeiro avião comercial pressurizado construído pela Embraer. Nos anos 1980, o engenheiro trabalhou em dois projetos relacionados a essa aeronave

E. Dado o fato de que as empresas, em grande parte, ainda não absorveram o significado do novo bacharelado, não existe o risco de que os formandos acabem enfrentando uma situação de desqualificação no mercado por conta da formação generalista? Como resolver isso?

A.M. Sim, esse risco existe e entendo que a forma de combatê-lo é a contínua divulgação do conceito, com paciência e perseverança. Mas acho também que o combate deve começar dentro de casa, digamos assim, e, nesse contexto, acho que a Unifesp tem uma lição de casa a fazer. Em inúmeras ocasiões, em reuniões do Conselho Universitário, lutei contra editais de concursos públicos para contratação de docentes que exigiam que os candidatos tivessem graduação em uma área específica. Admito que haja casos em que isso possa ser apropriado, mas presumo que eles sejam a exceção, não a regra. A exigência do título de bacharel em Matemática, por exemplo, como condição para que alguém se candidate a uma vaga de professor de Matemática, impede que todos os graduados com BIs concorram a essa vaga. E eu não vejo razão pela qual o graduado com determinado BI, que tenha concluído o doutorado em Matemática ou área afim, não possa competir por essa vaga.

E. Na qualidade de secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Setec) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MTCI), como o senhor definiria as principais áreas de pesquisa em que o Brasil necessita investir, da graduação à pós-graduação, e que são foco prioritário para o desenvolvimento do país?

A.M. Precisamos investir na formação de engenheiros e cientistas. Dos 876 mil brasileiros que em 2012 receberam diploma de educação superior, 424 mil, ou quase 50%, graduaram-se em Administração, Direito ou Educação. Para cada bacharel em Matemática foram graduados 245 em Direito. Para cada bacharel em Física, 281 em Administração. Nada contra essas áreas em que graduamos muita gente, mas os números pequenos nas áreas técnicas preocupam. Nada tenho contra a iniciativa privada e sempre pensei nas instituições de ensino superior privadas como parceiras das públicas na missão de educar o povo brasileiro. É certo, todavia, que a enorme concentração de vagas no ensino superior privado no Brasil é em parte responsável pelos números citados. Isso é fácil de demonstrar. Para cada bacharel em Física graduado na rede pública em 2012, foram graduados 29 bacharéis em Direito. Na rede privada essa proporção foi de um para 1.848! Cabe repetir: 1.848 advogados para cada físico formado na rede privada. Aliás, a concentração do ensino superior privado no Brasil nos coloca na contramão do mundo desenvolvido, notadamente dos EUA e da Europa, onde o ensino superior público é absolutamente majoritário. Defendo a expansão da rede pública de ensino superior com ênfase – que não significa exclusividade – na oferta de vagas para a graduação e a pós-graduação de engenheiros e cientistas.

E. Qual a situação do país no cenário geral da ciência e tecnologia mundiais?

A.M. É sabido que a nossa ciência vai melhor do que a nossa tecnologia. Na primeira, os ganhos das últimas décadas foram notáveis. A National Defense University (NDU), do Departamento de Defesa Norte-Americano, publicou um estudo em que o Brasil aparece em 2020 como o 6º maior gerador de artigos científicos do mundo. Em 2040, seria o 4º, atrás apenas da China, EUA e Índia, nessa ordem. Como professor de Estatística, reluto diante de previsões de longo prazo, mas acho interessante que a NDU tenha publicado o estudo. Não estamos, todavia, conseguindo os mesmos resultados na geração de tecnologia, haja vista a lenta evolução na quantidade de patentes depositadas por brasileiros. Mas não creio que isso seja por deixarmos de fazer algo essencial. Construímos uma economia relutante em enfrentar as dificuldades técnicas por duvidar da nossa capacidade de resolvê-las. Aprendemos a nos satisfazer em exportar minério de ferro, borracha e café e a importar aço, pneus e café industrializado – o que, aliás, continuamos fazendo. Acredito que há que perseverar nas iniciativas em curso, aperfeiçoando-as continuamente, é claro, mas sem esmorecer.

E. O MCTI vem buscando parcerias de cooperação científica e tecnológica com diferentes nações. Como está esse “namoro” com outros países e quais as parcerias mais recentes que vislumbram bons frutos?

A.M. Vai bem. Logo nos primeiros dias de minha chegada ao MCTI, em fevereiro deste ano, tive a oportunidade de me reunir com uma delegação alemã do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), que trazia uma proposta muito interessante. Eles abriram um edital chamando propostas sobre terras-raras, que, aliás, é uma das áreas que o MCTI considera estratégica. Então, escolheram dez países e montaram uma delegação que visitou cada um deles, divulgando o edital. A ideia era estimular que grupos de pesquisa desses países se juntassem aos alemães na elaboração de propostas. A condição era que houvesse contrapartida das agências de fomento desses países. É uma ideia astuta, pois atinge dois objetivos simultaneamente desejáveis: alavanca o valor do edital que eles lançaram e estimula a internacionalização das pesquisas. Fiquei feliz em saber que o Brasil foi um dos dez países escolhidos, uma demonstração de confiança em nossos cientistas e em nossas agências de fomento.

E. A política de desenvolvimento científico e tecnológico no país assume uma orientação adequada ao nosso perfil social?

A.M. Como professor de Estatística, costumo dizer que a melhor expressão que descreve o Brasil é “variância enorme”. E isso costuma ser verdade em qualquer indicador que você escolher. A renda, que é a mais citada, é apenas um deles, mas as consequências se manifestam na educação, saúde, habitação, enfim, na qualidade de vida. Eu diria, contudo, que desde a redemocratização, e com maior ênfase nos últimos 20 anos, as políticas públicas nacionais passaram a ser orientadas no sentido de diminuir nossas enormes desigualdades. Entendo que a política de desenvolvimento científico e tecnológico segue no mesmo caminho. Agora, nossa desigualdade é um trabalho de muitos séculos. Corrigi-la será tarefa para várias décadas. Estamos apenas começando a fazê-lo.

Milioni sentado em seu escritório

Em sua sala no ITA, Milioni faz questão de manter algumas recordações e “tesouros”: a coleção, iniciada em 2003, de crachás de identificação em congressos dos quais participou pelo mundo; e os desenhos da neta mais velha, Isabela

A jornalista e o professor Milioni na área externa do MAB, o céu está muito azul e há uma réplica de foguete ao fundo

Em visita ao Memorial Aeroespacial Brasileiro (MAB), em São José dos Campos, o engenheiro se entusiasma ao contar a história de cada avião exposto. Ao fundo, uma réplica em tamanho real do VLS (Veículo Lançador de Satélites) do Programa Espacial Brasileiro

E. Qual é o seu maior desafio como secretário da Setec/MCTI?

A.M. Tenho tentado contribuir com uma visão construtivamente crítica das ações das quais tomo conhecimento e também com reflexões oriundas da minha área de atuação. Quando foram divulgados os resultados da Pesquisa de Inovação Tecnológica 2011 (Pintec), por exemplo, no início deste ano, muito se falou na queda da taxa de inovação da indústria, que era de 0,38 em 2008 e caiu um pouco abaixo de 0,36 em 2011. Essa redução não foi bem recebida nem deveria ter sido, é fato, mas é interessante notar que ela é consequência de duas expansões desejáveis. A taxa de inovação é a razão entre o número de indústrias inovadoras e o de indústrias que satisfazem as condições para compor o universo da pesquisa – elas têm de ter um número mínimo de empregados, por exemplo. De 2008 para 2011 esse universo, que é o denominador da razão, cresceu 16%, o que é uma coisa boa, enquanto o número de indústrias inovadoras, que é o numerador, também cresceu, mas menos, algo acima de 8%. Então, é possível dizer que a queda na taxa de inovação foi o resultado de duas coisas boas, não sendo a maior das melhoras a que implicaria o crescimento da taxa de inovação. As políticas de fomento podem e devem ser continuamente aprimoradas, mas acho interessante mostrar que os mesmos números podem receber outro olhar, que desaconselha mudanças precipitadas.

E. Qual a sua participação no Programa Espacial Brasileiro?

A.M. É muito modesta. Orientei diversos trabalhos de graduação e teses de mestrado de alunos que trabalhavam no IAE, que é o Instituto de Aeronáutica e Espaço, responsável pelo projeto do veículo espacial brasileiro. Também dei alguma assessoria em análises estatísticas de confiabilidade de componentes, mas só isso. Como fiz isso em diferentes momentos nos últimos 30 anos, contudo, acabei tendo a oportunidade de acompanhar a evolução do programa todo. Sempre torci muito por ele.

E. Qual é a sua maior frustração como engenheiro mecânico aeronáutico?

A.M. Já que falamos do programa espacial, ocorre-me citar o desastre do VLS (Veículo Lançador de Satélites), em 2003. Até então, o Programa Espacial Brasileiro ia bem, atingindo todas as metas estabelecidas para os foguetes da família Sonda, que precede o VLS. Mas o salto de patamar para o VLS nunca foi atingido com sucesso. Houve duas tentativas de lançamento que não lograram êxito. Na primeira delas, o foguete precisou ser destruído logo após o lançamento, por falha evidente de trajetória. Na segunda, tudo parecia ter corrido bem, mas, novamente, o foguete precisou ser destruído por falhas detectadas quando ele já atingira uma altitude considerável. A terceira tentativa seria no dia 23 de agosto de 2003. Nesse dia, contudo, por razões que nunca foram totalmente esclarecidas, um dos foguetes que compunha o cluster entrou em combustão enquanto os técnicos estavam ao seu redor, completando as instalações que precedem o lançamento. Morreram 21 pessoas. Entrei no ITA em 1974, como aluno, e pouco depois disso comecei a ouvir falar na Missão Espacial Completa Brasileira (MECB), que incluía a produção de satélites e do veículo que os lançaria. É frustrante ter de admitir, 40 anos depois, que não fomos capazes de cumprir a missão. O programa nunca se recuperou inteiramente da tragédia de 2003 e nunca houve uma nova tentativa de lançamento.

Publicado em Edição 03
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