MEDICINA BASEADA NEM EVIDÊNCIAS

“O tratamento com base na melhor evidência científica é libertador”

“Julgar o tratamento mais caro e novo como o melhor nem sempre é verdadeiro”

Nascida originalmente como um projeto para mapear o conhecimento em todas as áreas da Medicina, a Fundação Cochrane tem como missão difundir o uso de evidências científicas para decisões em Saúde. No Brasil, o Centro Cochrane foi fundado, em 1996, pelo médico clínico geral e nefrologista Álvaro Nagib Atallah e professor titular da EPM/Unifesp. Em um trabalho “de formiguinha”, ele dissemina o ideal da Cochrane junto a profissionais de saúde e do Direito. Conseguiu, inclusive, influenciar a legislação nacional e que os conceitos sobre as práticas em Saúde – como segurança, eficácia e efetividade – estivessem previstos em lei, nas elaborações de diretrizes em saúde e na avaliação de novas tecnologias para o Sistema Único de Saúde (SUS).

 

O Brasil é um dos 14 centros de colaboração do Centro Cochrane no mundo, desde 1996. Quais são as principais contribuições do Brasil? 

Apesar de ser uma ciência nova, o Brasil está na vanguarda da Medicina Ba­sea­da em Evidência, do ponto de vista dos marcos legais. Somos modelo porque interagimos com o Ministério da Saúde (a ponto de inspirarmos uma lei) e com o Ministério da Justiça, e elaboramos artigos, cursos e demais treinamentos, como em nenhum outro país em que a fundação está presente. Promovemos mestrado, doutorado e pós-doutorado, já tendo formado 250 profissionais. Treinamos profissionais de todas as áreas do SUS há dez anos. Mesmo com baixos orçamentos atuamos levando conhecimento também  à população de baixa renda. E ainda produzimos conteúdos científicos.
 

Como analisa o movimento Medicina em Evidência no Brasil?

Formamos uma comunidade que objetiva a tomada de decisão baseada na melhor comprovação científica. E buscamos que cada vez mais a sociedade se engaje nessa ideia. Realizamos cursos trilíngues, por teleconferência, como o Saúde Baseada em Evidência, para profissionais da Saúde, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, e o de Direito à Saúde Baseada em Evidência, para subsidiar as decisões de profissionais do Direito, em parceria com o Ministério da Saúde. Também participamos da Colaboração Cochrane (Cochrane Collaboration), que faz revisões sistemáticas de ensaios controlados aleatórios de intervenções médicas e publica suas conclusões na Biblioteca Cochrane. É obrigatório que haja textos que os leigos compreendam. Das mais de 10 mil perguntas relevantes da Medicina, a Cochrane já respondeu 6 mil delas,  como “ácido acetilsalicílico realmente é bom para o coração?” ou “as vacinas funcionam?”, entre muitas outras. Quando temos o conhecimento, é nossa obrigação disseminá-lo pelo mundo. Se há dúvidas, encaminhamos aos cientistas para pesquisa. E, eticamente, não podemos ter relação com laboratórios.
 

De que maneira a Cochrane contribui para que os médicos, em geral, tenham conhecimento e baseiem suas condutas em tratamentos consagrados cientificamente?

Desde 1995, antes da criação do centro, já investíamos em divulgação, inclusive com programas de televisão. Atualmente, o programa Medicina Baseada em Evidência está no ar pela TV Aberta São Paulo (canal 9 da Net) e em mais 27 canais no Brasil. Participamos ainda de congressos e outros eventos, levando os conceitos de eficácia (“o exame funciona em condições ideais?”), efetividade (“funciona no mundo real?”), eficiência (“é simples e barato?”) e segurança (“a utilização é segura?”). A sociedade tem como ferramenta de defesa o questionamento se o tratamento indicado por quem prescreve tem base na melhor evidência científica existente. É uma ferramenta de libertação das pessoas com poucos recursos. Trabalhamos ainda para que as escolas médicas tenham a disciplina Medicina Baseada em Evidência no currículo da graduação, sendo que apenas 20% delas já possuem esse curso.
 

Quando é válido utilizar tratamentos inovadores, ainda não consagrados cientificamente?

Novidades são bem-vindas, mas se não esperarmos a análise científica, estaremos fazendo experiências com humanos, o que eticamente não é aceito. Quando há evidência de maior chance de dar certo utilizando determinado tratamento, recomendamos adotá-lo. Mas o último item da evidência é a opinião do médico especialista.
 

E as indicações off label? O que é eticamente aceito?

Não existe Medicina baseada em bula. Na revisão sistemática feita pelo Centro Cochrane do Brasil sobre o tratamento para degeneração macular, concluímos que o bevacizumabe intraocular, em pequenas doses, funcionava melhor que o tratamento convencional, que custava R$ 20 mil há vinte anos. Além disso, o off label reduzia o custo para R$ 5 mil. O ideal é que a indicação do off label passe por pesquisa, mas acima de tudo está o Código de Ética Médica, que recomenda fazer o máximo pelo paciente.
 

Há inúmeras solicitações ao Judiciário por medicamentos de alto custo sem evidência científica. O que pensa sobre a judicialização da saúde em nosso País nesta situação?

Em 2011, o governo federal aprovou a lei 12.401 que diz que a implementação de tecnologia no SUS deve ser baseada em evidências científicas. As demandas para recursos na saúde são finitas e a Medicina Baseada em Evidência pode contribuir para a redução de custos. A Cochrane procura ajudar na tomada de decisões judiciais na medida em que treina profissionais da área do Direito. Nesse sentido, o Tribunal de Justiça de Brasília lançará, no final de agosto, um portal de evidências para juízes tomarem decisões com base na melhor ciência, apoiadas pela Cochrane e outras instituições. Sem orientação, esses profissionais podem tender a julgar o tratamento mais caro e novo como o melhor, o que nem sempre é verdadeiro.
 

Como deve o médico regulador no serviço público ou privado se comportar frente a solicitações médicas sem sustentação em evidências?

Eles devem ser orientados. Todos os nossos cursos visam também aos gestores. Eles têm de saber se o que vão comprar tem eficiência e segurança. A abertura de portas junto ao Hospital Sírio-Libanês e ao Ministério da Saúde permitiu que os gestores tomassem ciência da necessidade desse conhecimento. Além disso, o MS criou o portal Saúde Baseada em Evidências, em que todos os profissionais podem ter acesso às informações.

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