SAÚDE MENTAL

Estresse, isolamento social e falta de diálogo podem estar na origem das tentaivas de pôr fim à pròpria vida.

Tentativas de suicidio entre estudantes de Medicina rompem silência sobre o tema

 
A questão do suicídio ainda é considerada tabu em diferentes culturas e grupos sociais, incluindo a Medicina. O silêncio sobre o tema foi interrompido recentemente, quando tentativas de suicídio por parte de estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) – e de outras instituições – chegaram ao noticiário, mobilizando escolas, professores, estudantes e entidades médicas. Apenas no Estado de São Paulo, ocorreram pelo menos 20 tentativas, no mês de abril, em faculdades de São Paulo, segundo levantamento do Cremesp.

Como forma de prevenção, é preciso falar sobre o tema. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por exemplo, elegeu o tema da depressão para sua campanha de 2017, sob o lema “Vamos conversar sobre suicídio”. 
 
Fatores de risco
Para o médico psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-HCFMUSP), Arthur Danila, entre os fatores que podem ter desencadeado esses eventos com estudantes estão as mudanças nas relações interpessoais na sociedade  – mais frágeis e transitórias – e a falta de diálogo entre direção, professores, alunos e a própria família. “Estamos numa sociedade em transformação. As relações humanas são mais precárias e geram certa fragilidade no contato pessoal, o que leva as pessoas a se sentirem mais solitárias”, pondera. Segundo ele, se por um lado a internet e as redes sociais aproximam as pessoas, por outro, as afastam. 

Na opinião do psiquiatra José Manoel Bertolote, autor do livro O suicídio e sua prevenção – publicado pela editora Edunesp –, existe um aumento acentuado de tentativas de suicídio em São Paulo, particularmente entre jovens do sexo masculino, de 15 a 30 anos. “Muitas vezes, a imprensa aborda o tema de forma sensacionalista, confundindo causas predisponentes – como transtornos mentais e alcoolismo – com precipitantes, mais imediatas e decorrentes de dificuldades no cotidiano”, alerta. 
 
 Vulnerabilidade
“Espera-se que o estudante de Medicina não esteja vulnerável ao suicídio, mas o que se vê é o contrário”, observa a coordenadora da Câmara Temática Interdisciplinar sobre Violência nas Escolas Médicas (Camtivem) do Cremesp, a conselheira e psiquiatra Katia Burle. Segundo ela, diferentes fatores contribuem para que o índice de suicídio esteja crescendo entre essa população. “Os estudantes de Medicina e os médicos têm acesso a meios de suicídio mais eficazes e ao alcance das mãos, incluindo seus conhecimentos farmacológicos. Há uma grande tendência entre os estudantes de negação do estresse e desconforto psicológico. Eles elaboram uma defesa muito maior para acobertar seus problemas, e as famílias tendem a subestimar a questão, negligenciando o cuidado e a atenção necessários para detectar o risco”, explica. 
 
Para o também psiquiatra e presidente do Cremesp, Mauro Aranha, “é importante que a sociedade veja o médico como um profissional interessado, competente e acolhedor, mas não infalível, porque as idealizações excessivas implicam sobrecarga emocional ao profissional e, no mais das vezes, não resultam em benefício ao paciente”.
 

Principal fator de risco é a dificuldade em lidar com o cotidiano

.    O suicídio é responsável por 1 morte a cada 40 segundos no mundo;
.    A tentativa prévia é o fator de risco mais importante a ser considerado, segundo a OMS; 
.    Embora a relação entre distúrbios suicidas e mentais (depressão e abuso de álcool, principalmente) esteja bem estabelecida em países de alta renda, vários suicídios ocorrem de forma impulsiva em momentos de crise;
.    Colapso na capacidade de lidar com os estresses da vida, como diagnosticado entre os estudantes de Medicina, estão entre as principais causas; 
.    Houve 4,2 mortes por 100 mil médicos inscritos no Cremesp, entre 2000 e 2009, segundo estudo da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad)/Unifesp.

As Câmaras Temáticas do Cremesp – Camtivem, Jovem Médico e Psiquiatria – estão mobilizadas para tentar oferecer aos médicos, estudantes de Medicina e às escolas a orientação e suporte necessários para a prevenção do risco de suicídio, incluindo a elaboração de uma cartilha sobre saú-
de mental.

Suicídio entre médicos

Entre os médicos registrados no Cremesp que faleceram entre 2000 e 2009, foram identificados 50 casos de suicídio, nos quais as mortes ocorreram 20 anos mais cedo
do que os óbitos por outras causas. 

Em comparação com a população em idade ativa, os médicos têm uma frequência 2,45 vezes maior de morte por suicídio, segundo estudo da Unifesp.

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