Segunda, 17 Julho 2023 11:08

Brasil enfrenta dupla carga de adoecimento, mas quadro é reversível com políticas públicas, ciência e mobilização

Altos índices de excesso de peso concomitante com o aumento da fome mostram o tamanho da crise alimentar no país

Por Denis Dana

Mãos brancas entregando uma marmita de plástico para mãos pardas de um morador de rua 

O recorte nacional registrado no relatório global Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo, divulgado nesta quarta, 12, pela Organização das Nações Unidas (ONU), mostra o crescimento do número de pessoas em situação de insegurança alimentar no Brasil nos últimos anos, e é mais um sinal claro da crise que o país enfrenta no tema alimentação.

De acordo com os dados, nos últimos três anos (2020-2022), 1,5 milhão de brasileiros entraram para as estatísticas da fome. Hoje, são 21 milhões de pessoas que não têm o que comer todos os dias, 70,3 milhões em insegurança alimentar e 10 milhões de pessoas desnutridas no país. Tanto no Brasil quanto no mundo, a ONU cita como motivos para a alta fatores como a pandemia de covid-19 e a guerra na Ucrânia.

“Os dados só reforçam o cenário de preocupação. É verdade que os fatores citados pela ONU influenciaram, mas, no Brasil, temos outros agravantes, decorrentes do abismo social, já que o país figura entre os países mais desiguais do mundo, apesar de termos uma economia forte. Há uma parcela muito grande da população sem acesso aos bens e serviços que o país promove. Então, a perpetuação da pobreza, a alta da inflação, especialmente a dos alimentos, o desemprego e a queda da renda afetam dramaticamente as pessoas, especialmente as mais vulnerabilizadas”, destaca Semíramis Domene, nutricionista e professora do Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A docente da Unifesp lembra ainda que o Brasil vive uma dupla carga de adoecimento, uma vez que, ao lado da desnutrição causada pela falta de alimentos, temos também efeitos da má alimentação manifestados pelo excesso de peso e obesidade, “em grande medida associados ao consumo de produtos ultraprocessados, que não promovem saúde”. Segundo dados recentes do IBGE, seis em cada dez brasileiros estão com sobrepeso no Brasil.

Políticas públicas e maior conscientização

Apesar do cenário preocupante de crise, Semíramis aponta caminhos para frear a insegurança alimentar, erradicar o país do mapa da fome e incentivar uma alimentação mais saudável.

“O enfrentamento da fome é histórico no Brasil, mas no início dos anos 2000 até 2013 conseguimos reverter este quadro com uma série de medidas. Sabemos que o conjunto de ações que incluem a proteção social, como o fortalecimento do emprego e da renda, a ampliação de políticas de saúde e de habitação, acesso à água tratada e coleta de esgoto, associada ao financiamento de produção de alimentos, em especial a agricultura familiar, são iniciativas públicas fundamentais para nos tirar novamente do mapa da fome”, diz Semíramis.

A docente da Unifesp cita ainda a criação de políticas de tributação mais justas para itens básicos, com revisão das cestas-básicas, como pontos adicionais para reverter essa situação. “Nesse contexto, o governo pode inclusive estudar e aprovar cestas regionais, que possam privilegiar alimentos da nossa rica biodiversidade. Tudo isso, além de iniciativas de caráter emergencial que têm prestado um grande serviço, como os bancos de alimentos, restaurantes populares, cozinhas comunitárias, entre tantas contribuições”.

“Quando conseguirmos, mais uma vez, unir a esfera pública, com seu papel na regulação de políticas, com a sociedade e a conscientização de cada cidadão no consumo saudável, teremos mais agricultor produzindo comida de verdade e mais gente com comida na mesa, combatendo ambas as frentes; neste sentido, a universidade tem uma grande contribuição a oferecer, gerando dados, fortalecendo o monitoramento e sistematizando conhecimento acadêmico e popular sobre boa alimentação”, conclui Semíramis.

Lido 918 vezes Última modificação em Terça, 05 Dezembro 2023 13:54

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