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Quinta, 11 Agosto 2022 11:00

Prática de Mindfulness pode mudar padrão de comportamento impulsivo para uso de substância

Protocolo pode restabelecer manejo cognitivo e mudar padrão automatizado de comportamentos aditivos

Por Lauren Steffen

Mindfulness portal
(Imagem ilustrativa)

A pesquisa desenvolvida pela psicóloga Ana Paula Donate durante o mestrado em Psicobiologia da Unifesp, concluída em 2021, analisou o efeito da Prevenção de Recaída Baseado em Mindfulness (MBRP) na impulsividade de pessoas que estavam em comunidades terapêuticas em tratamento para transtorno por uso de substância. O estudo foi financiado pela Fapesp e contou com a orientação da professora Ana Regina Noto (EPM/Unifesp). Durante o mestrado, Ana Paula integrou o Núcleo de Pesquisa em Saúde e Uso de Substâncias (NEPSIS), localizado no Departamento de Psicobiologia da Unifesp, que conduz diversos estudos sobre o MBRP.

Desenvolvido por Marlatt em 1985, o MBRP é um protocolo de Mindfulness para transtorno de uso de substâncias. Originado de práticas contemplativas do Budismo, Mindfulness significa atenção plena para o momento presente e sem julgamentos, uma habilidade que pode ser desenvolvida com a prática de meditação. Segundo Ana Paula, “existem diferentes protocolos de Mindfulness no mundo, os quais podem ser agrupados em Intervenções baseadas em Mindfulness, sendo que cada um dos protocolos tem práticas específicas, como o MBRP, que foi desenvolvido para pessoas com transtorno por uso de substância”.

Do ponto de vista neural, acredita-se que as práticas de meditação para dependência podem ser vistas como estratégias comportamentais que contribuem para o desenvolvimento de funções cognitivas mediadas pelo córtex pré-frontal. Estudos mostraram que a região pré-frontal do córtex é prejudicada pelo uso crônico de substância, o que contribui para a manutenção do comportamento compulsivo e impulsivo. Pesquisadores evidenciaram que à medida que o manejo cognitivo é restabelecido através das práticas de meditação, há um aumento da conectividade entre os sistemas top-down do córtex pré-frontal e bottom-up dos circuitos límbicos-estriatais, envolvidos no processamento da recompensa e do comportamento motivado, respectivamente. “O aumento da conexão entre os sistemas top-down e bottom-up oferece subsídio para a mudança do padrão automatizado dos comportamentos em direção ao uso de substância, como reavaliação da recompensa, reatividade a pistas, assim como reorganização das funções executivas e, portanto, controle da impulsividade”, afirma a pesquisadora.

Existem diversos estudos sobre Mindfulness conduzidos ao redor do mundo, considerando grupos clínicos e não-clínicos. Essas pesquisas mostraram que a prática de Mindfulness pode auxiliar na redução não só do estresse e da ansiedade, mas também da depressão e da fissura. Ana Paula explica que existem dois tipos de práticas de meditação: as formais e as informais. As práticas informais são exercícios que podem ser realizados durante atividades rotineiras, como lavar as mãos, comer ou caminhar, sem necessariamente estar em postura de meditação, como ocorre nas práticas formais. “Do ponto de vista prático, praticar Mindfulness envolve prestar atenção nas etapas que envolvem determinada atividade ou ação, além de escolher ter uma atitude de abertura para observar as sensações, pensamentos e emoções. Nesse caso, o convite é levar a qualidade de atenção, consciência e abertura para uma atividade do dia a dia”.

Na pesquisa, foram incluídas pessoas com transtorno por uso de substância, incluindo álcool, cocaína, maconha e crack, que estavam em tratamento em uma comunidade terapêutica na cidade de Campinas. A participação foi voluntária e aconteceu enquanto estavam dentro da instituição. Antes de iniciar o estudo, as pessoas foram entrevistadas a fim de verificar se atendiam os critérios de inclusão, como estarem ao menos 15 dias sem consumo de substância, falarem português e não apresentarem quadro neurológico grave. Ao final da entrevista inicial, 86 pessoas foram selecionadas para integrarem o estudo, sendo que 45 receberam a intervenção de meditação.

Foram realizadas, pelo menos, cinco diferentes práticas de meditação formal, como meditação dos sons, meditação dos pensamentos e meditação da respiração. As práticas foram conduzidas ao longo de oito semanas consecutivas por dois facilitadores que possuem formação no protocolo do MBRP. Os encontros ocorreram uma vez por semana, com duração de duas horas. O grupo foi composto por um número fixo de pessoas do início ao fim, não sendo permitida a entrada de novos(as) participantes. Os(As) demais participantes receberam a intervenção controle, isto é, os(as) colaboradores(as) da comunidade terapêutica ofereciam atividades que incluíam técnicas dos 12 passos de prevenção de recaída, que são intervenções geralmente oferecidas em comunidades terapêuticas no Brasil.

Os resultados do estudo mostraram uma discreta diminuição da impulsividade entre as pessoas que receberam a meditação em comparação com aquelas que receberam a intervenção controle. Segundo Ana Paula, este foi o primeiro estudo que investigou os efeitos do MBRP por oito semanas em comunidade terapêutica no Brasil, até onde se tem conhecimento. A experiência apontou a necessidade de adaptações do protocolo para essa população, incluindo o fluxo de entrada de novos participantes no grupo e a duração da sessão de meditação. “Discutimos a possibilidade de adaptar para um protocolo que seja contínuo e que permita que novos integrantes participem mesmo após o início do grupo, bem como a diminuição do tempo da sessão, que passaria a ser de, no máximo, uma hora, prolongando-se assim a quantidade de encontros. Do ponto de vista prático, isso parece fazer sentido para o nosso ambiente e para as características da nossa população. Resta saber se, do ponto de vista neurobiológico, cognitivo e comportamental, também terá impacto na impulsividade. Dessa forma, novos estudos precisam ser elaborados”, sinaliza.

 

Lido 1036 vezes Última modificação em Segunda, 17 Outubro 2022 11:10

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