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Publicado em Notícias Arquivadas
Segunda, 24 Junho 2019 10:33

Prova de fogo

Aplicação de uma superterapia deixou não detectável o HIV nas células e tecidos dos corpos de pacientes, como mostram análises do sangue e biópsias do intestino - um dos órgãos onde as drogas pouco agem contra o vírus; o próximo passo é retirar os medicamentos e acompanhar a reincidência ou não da moléstia

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Imagem: pixabay

 

Texto: Ana Cristina Cocolo

O primeiro estudo – em escala global, a testar um supertratamento em indivíduos cronicamente infectados pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) entra em sua fase mais importante – antes de se falar em cura.

O supertratamento, que consistiu na administração de cinco medicamentos diferentes e três doses de uma vacina personalizada – fabricada com células do próprio paciente – foi capaz de tornar não detectável o vírus em dois dos cinco voluntários do subgrupo de estudo que recebeu essa abordagem terapêutica. A comprovação do feito ocorreu por meio de exames de sangue e biópsias do intestino reto, um dos órgãos considerados “santuários” do HIV. Assim como o intestino, também são considerados “santuários” o cérebro, os ovários e os testículos, uma vez que os antirretrovirais não chegam até esses locais ou, quando chegam, atuam de forma muito modesta sobre o vírus. 

“O desafio final é suspender todos os medicamentos dos pacientes e monitorar como o organismo de cada um irá reagir ao longo das semanas, meses ou, até mesmo, anos”, afirma o infectologista Ricardo Sobhie Diaz, que coordena a atividade científica em questão e é uma das referências mundiais no assunto. “Caso o tempo nos mostre que o vírus não voltou, poderemos, então, falar em cura.”

Diaz é diretor do Laboratório de Retrovirologia do Departamento de Medicina da Escola Paulista de Medicina (EPM/ Unifesp) - Campus São Paulo e há mais de dez anos vem trabalhando com sua equipe, em duas frentes, para a cura da doença. Uma delas utiliza medicamentos e substâncias que matam o vírus no momento da replicação e eliminam as células em que o HIV fica adormecido (latência); a outra desenvolve uma vacina que leva o sistema imunológico a reagir e eliminar as células infectadas às quais o fármaco não é capaz de chegar.

Como foi realizado o estudo

A pesquisa envolveu 30 voluntários com HIV e carga viral indetectável no plasma sanguíneo há mais de dois anos, mantidos sob tratamento padrão, conforme o que é atualmente preconizado: a combinação de três tipos de antirretrovirais, mais conhecida como “coquetel”. Esses voluntários foram divididos em seis subgrupos, recebendo – cada um deles – diferentes combinações de remédios, além do próprio “coquetel”, pelo período de um ano.

Para os integrantes do subgrupo de número seis (G6), que apresentou os melhores resultados até o momento, foram administrados mais dois antirretrovirais: o dolutegravir, a droga mais forte atualmente disponível no mercado; e o maraviroc, que força o vírus, antes escondido, a aparecer. 

Os voluntários também receberam duas outras substâncias que potencializaram o efeito desses dois medicamentos: a nicotinamida – uma das duas formas da vitamina B3 –, que mostrou ser capaz de impedir que o HIV se escondesse nas células; e a auranofina – um antirreumático, também conhecido como sal de ouro, que deixou de ser utilizado há muitos anos para tratar a artrite reumatoide e outras doenças reumatológicas. A auranofina revelou potencial para encontrar a célula infectada e levá-la, literalmente, ao suicídio.

“Um dos motivos pelos quais não conseguimos curar o HIV é que o vírus consegue desligar a célula (latência), e o remédio de que dispomos atualmente só age na hora em que o vírus se está multiplicando”, explica o infectologista. “No entanto, as células que o HIV é capaz de fazer adormecer sempre irão acordar. Quando tratamos uma pessoa e retiramos o remédio, dois meses depois, em média, o vírus volta porque uma das células acorda. ” 

Diaz acrescenta que os testes anteriores in vitro e, agora, em humanos, realizados de forma inédita por sua equipe, confirmam que a nicotinamida é mais eficiente contra a latência quando comparada ao potencial de dois medicamentos administrados para esse fim e testados conjuntamente.

Apesar da descoberta da nicotinamida e da auranofina para a redução expressiva da quantidade de vírus presentes nas células humanas, ainda seria preciso algo estratégico que ajudasse a imunidade do paciente contra o vírus. Para isso, os pesquisadores desenvolveram uma vacina de células dendríticas (DCs), que conseguiu “ensinar” o organismo do paciente a encontrar as células infectadas e destruir uma a uma, eliminando completamente o vírus HIV.

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Ricardo Diaz  explica que o supertratamento foi capaz de diminuir o processo inflamatório desencadeado pelo HIV no organismo (Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp)

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As vacinas foram personalizadas – fabricadas com células do próprio paciente – e aplicadas em três doses distintas, ou seja, uma dose a cada duas semanas (Imagens: Alex Reipert/DCI-Unifesp)

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A vacina

A vacina de DCs é extremamente personalizada já que é fabricada a partir de monócitos (células de defesa) e peptídeos (biomoléculas formadas pela ligação de dois ou mais aminoácidos) do vírus do próprio paciente.

Diaz ressalta que as DCs são importantes unidades funcionais do sistema imunológico cuja tarefa é capturar microrganismos prejudiciais ao organismo para, em seguida, apresentá-los aos linfócitos T CD4 e T CD8. Uma vez apresentados, esses linfócitos, que participam do controle de infecções, aprendem a encontrar e matar as células que albergam o HIV em regiões do corpo aonde os antirretrovirais não chegam ou nas quais pouco atuam. 

“Como essas pessoas estão há muito tempo com a carga viral indetectável, o corpo perde aos poucos a capacidade de eliminar as células infectadas pelo HIV”, relata o pesquisador. “Precisamos realizar citafereses com a passagem de seis volemias (volume total de sangue que circula no corpo) em cada uma delas para conseguir retirar monócitos suficientes para transformá-los em DCs.”

A citaferese é uma espécie de filtragem de todo o sangue do corpo, efetuada por uma máquina que seleciona células específicas. Ao mesmo tempo em que o sangue é retirado de um dos braços, por meio de um cateter, é devolvido ao outro por meio da corrente sanguínea, após passar por aquele equipamento.

Depois de transformar os monócitos em DCs, Diaz e sua equipe analisaram o perfil genético de cada paciente, tendo desenvolvido um software que identificava quais peptídeos dos vírus reagiriam de acordo com os sistemas imunes específicos. “Com as células dendríticas preparadas e os peptídeos dos vírus de cada paciente, preparamos a vacina personalizada, que foi aplicada em três doses, sendo uma dose a cada duas semanas”, prossegue o expositor. “Para sabermos se a vacina funcionaria, ou seja, se ela estimularia as células CD4 e CD8 do paciente a reconhecer o vírus, fizemos os testes in vitro. O procedimento, considerado um sucesso, mostrou que a vacina foi imunogênica nessas condições.” 

De acordo com Diaz, o supertratamento também foi capaz de diminuir o processo inflamatório desencadeado pelo HIV no organismo. “Esse foi outro grande achado do estudo, uma vez que a inflamação provoca degeneração de órgãos e tecidos e o envelhecimento precoce nessas pessoas.” 

O “paciente de Berlim”

Supostos casos de cura do HIV rodam pelo mundo e ainda são temas de estudo e controvérsia entre especialistas. Entretanto, a primeira e única experiência de cura do HIV foi a do americano Timothy Ray Brown, hoje com 52 anos, conhecido como o “paciente de Berlim”. 

Em 2007, Brown, que era HIV positivo e morava na Alemanha, foi diagnosticado com leucemia e submetido a dois transplantes de células-tronco. Além da compatibilidade, os médicos escolheram um doador que possuía uma mutação capaz de inibir as células de expressarem a molécula CCR5. De acordo com especialistas, essa rara condição genética – herdada por apenas 1% das pessoas com ascendência europeia e ainda mais rara em outras populações – impede o vírus de infiltrar-se nas células, conferindo a seu portador resistência à infecção pelo HIV. 

Três anos após o primeiro procedimento e sem a terapia antirretroviral, Brown não apresentava o vírus HIV no sangue e nos fragmentos de tecidos, conforme as várias biópsias realizadas. No entanto, ele teve duas sérias complicações decorrentes dos transplantes. Uma delas foi a doença do enxerto contra o hospedeiro (Dech) – síndrome sistêmica que ocorre em pacientes que recebem linfócitos imunocompetentes. A outra denominou-se leucoencefalopatia multifocal progressiva, que corresponde a uma doença neurológica rara que lesiona as bainhas de mielina – estruturas formadas por proteínas e gorduras que recobrem os axônios e ajudam na condução dos impulsos nervosos no sistema nervoso central. Tais fatos levaram os pesquisadores a questionar se a cura do HIV em Brown deveu-se ao transplante das células resistentes ou à doença do enxerto contra o hospedeiro que o acometeu. 

Alerta ligado, sempre!

Dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) mostraram que 36,7 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com HIV em 2016 e quase dois milhões seriam infectados no mesmo ano. No Brasil, o Ministério da Saúde contabilizou, até junho de 2016, quase 843 mil casos da doença, cuja maioria era constituída por homens (65,1%); o país é o que mais concentra novos casos de infecções (49%) na América Latina, segundo a Unaids. Um terço das novas infecções ocorre em jovens de 15 a 24 anos.

A síndrome da imunodeficiência adquirida (aids) é uma doença do sistema imunológico, causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), que torna uma pessoa mais propensa às doenças oportunistas – e, até mesmo, ao câncer – do que outra cujo sistema imunológico esteja saudável. As principais vias de transmissão do HIV são as relações sexuais desprotegidas, as transfusões com sangue contaminado, o compartilhamento de seringas entre usuários de drogas injetáveis e a disseminação de mãe para filho, durante a gravidez, parto ou amamentação.

“Apesar da evolução no tratamento com antirretrovirais e das campanhas preventivas, os números atuais sobre a doença apontam que a aids ainda é um grave problema de saúde pública global”, resume Diaz.  “A infecção por esse vírus ainda é a pior notícia que podemos dar ao paciente em termos de doenças sexualmente transmissíveis, já que a pessoa com HIV, mesmo com carga viral indetectável, passa por inúmeros processos inflamatórios decorrentes dos efeitos colaterais dos medicamentos."

O uso de preservativos durante a relação sexual garante a proteção contra o HIV e outras doenças graves para quem não tem o vírus e principalmente para quem já o tem. “Atualmente, o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos afirma que pessoas com carga viral indetectável não transmitem HIV. A falta de proteção pode, porém, acarretar ao indivíduo com o vírus controlado a reinfecção (superinfecção) por um tipo diferente de vírus HIV ou por outro mais resistente”, conclui o pesquisador.

“Nossa” vacina de células dendríticas personalizada

1 - Citaferese para retirada de monócitos

2 - Transformação in vitro de monócitos em células dendríticas (DCs)

3 - Exposição, in vitro, das DCs aos peptídeos sequenciados do genoma do vírus HIV

4 - Três doses de vacina

Artigo relacionado:
SAMER, Sadia; NAMIYAMA, Gislene; OSHIRO, Telma; ARIF, Muhammad Shoaib; SILVA, Wanessa Cardoso da; SUCUPIRA, Maria Cecilia Araripe; JANINI, Luiz Mario; DIAZ, Ricardo Sobhie. Evidence of noncompetent HIV after ex vivo purging among ART-suppressed individuals. Aids Research and Human Retroviruses, New Rochelle, NY: Mary Ann Liebert, Inc., v. 33, n. 10, p. 993-994, out. 2017. Disponível em: <https://doi.org/10.1089/aid.2017.0036 >. Acesso em: 6 jun. 2018.

 
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