Publicação tem como objetivo explicar a doença de forma clara e incentivar portadores e familiares a procurarem ajuda

Publicado em Notícias Arquivadas
Segunda, 10 Julho 2017 15:10

Meio século de história

Marília de Arruda Cardoso Smith – professora titular do Departamento de Morfologia e Genética da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo

foto antiga das duas professoras

Professoras Joyce A. D. Andrade (1938-2009)e Heleneide Resende de Souza Nazareth (1937-1981)

O impacto das conquistas científicas e tecnológicas, especialmente nas décadas de 1940 e 1950 do século XX, abrangeu todas as áreas biológicas e médicas. Esses avanços fomentaram a idealização, em 1950, do curso de Ciências Biomédicas na Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) e sua posterior implantação, em 1966, por José Leal Prado de Carvalho, então professor titular do departamento de Bioquímica da EPM/Unifesp.

Para essa tarefa contou com o apoio de diversos docentes e pesquisadores da EPM/Unifesp, entre os quais estão José Ribeiro do Valle, Antonio C. M. Paiva e Nylceo Marques de Castro, que visualizaram nessa iniciativa pioneira, uma via de desenvolvimento para o país, de formação de recursos humanos destinados à pesquisa e à docência, meta inédita e ousada para a época. 

Em função do novo curso, esta instituição convidou docentes e pesquisadores de diversas formações para fundar novas áreas, ampliando muitíssimo sua abrangência científica. Entre estas novas áreas, podemos destacar a de Genética e Evolução e da Genética Humana e Médica.

No final dos anos 1950 emergiu uma nova área, a Citogenética Humana e Médica, que veio caracterizar o cariótipo humano em 1956 por Tjio e Levan e a definir cromossomicamente a Síndrome de Down, decifrando a sua, até então, desconhecida etiologia (Lejeune et al., 1959).

As aplicações inovadoras desta área na Medicina nortearam Nylceo Marques de Castro, docente titular de Histologia, a convidar duas biólogas citogeneticistas, Heleneide Resende de Souza Nazareth e Joyce Anderson Duffles Andrade, para instalar nessa disciplina um setor de Citogenética Humana e Médica, bem como para ministrar aulas de Genética e Evolução. 

A elaboração das bases conceituais e técnicas da Genética Molecular, fundadas no modelo da dupla hélice do DNA de Watson & Crick (1953), possibilitou a compreensão dos atributos da hereditariedade, materializados anteriormente nos cromossomos e a seguir na molécula do DNA, paradigma atual de toda a Ciência Biológica.

O setor de Genética da disciplina de Histologia tornou-se rapidamente um núcleo difusor de conhecimento na área da Genética e Citogenética Médica para toda a EPM/Unifesp, bem como para a formação de recursos humanos na área. Marilia de A. C. Smith, da primeira turma do curso biomédico, ligou-se a esse setor ainda estudante e, a seguir, como bolsista de mestrado Fapesp, foi contratada, em 1971. Esse setor desenvolveu atividades de ensino de graduação, pesquisa e extensão, atendeu à crescente demanda de casos do Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp), especialmente às do departamento de Pediatria e disciplina de Endocrinologia da EPM/Unifesp, diretamente interessadas no diagnóstico de síndromes cromossômicas e na descrição de novas síndromes.

Em 1969, o curso de Genética foi incorporado ao currículo do 1º ano de Medicina, por suas professoras, e a partir de 1970 foi introduzido a todos os demais cursos da EPM/Unifesp. Sob a liderança de Heleneide Nazareth, em 1972, o setor transformou-se na disciplina de Genética, a qual, a seguir, inaugurou um Ambulatório de Genética Clínica sob a condução de Antonio J. B. da Cunha, com apoio do então chefe do departamento José Carlos Prates.

Atualmente a disciplina conta com seis docentes e seis técnicos administrativos médicos do Centro de Genética Médica, fundado em 1995 por Décio Brunoni. A disciplina ministra aulas a todos os cursos de graduação e pós-graduação, orienta teses de pós-graduação em expressivo número, atua no atendimento de pacientes e formação de residentes na área e desenvolve exames citogenéticos diagnósticos. Ela possui laboratório moderno e atualizado que dispõe de equipamentos para Sequenciamento de Nova Geração, Sistema de Imagem Digitalizado para estudo Citogenético-Molecular e todos os equipamentos necessários para uso em Genética Molecular. Esse laboratório permite o desenvolvimento das inúmeras linhas de pesquisa básica e clínica na EPM/Unifesp.

Publicado em Edição 08

Marcadores genéticos e anticorpos no sangue de doadores da cidade de São Paulo foram encontrados em 2,7% da população estudada

Da Redação
Com a colaboração de Rosa Donnangelo

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Boa parte da população brasileira demonstra predisposição genética ao desenvolvimento da doença celíaca (DC), que se caracteriza pela intolerância permanente ao glúten – principal componente proteico do trigo, centeio e cevada. Essa foi a conclusão do estudo denominado Prevalência da Predisposição Genética para Doença Celíaca nos Doadores de Sangue em São Paulo - Brasil, realizado pela biomédica Janaína Guilhem Muniz Yoshida e apresentado em 2014 para obtenção do título de mestre em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Janaína constatou que 49% das amostras de sangue coletadas de 404 doadores residentes em São Paulo apresentaram o marcador genético que indica predisposição para a intolerância ao glúten, enquanto 2,7% - além de apresentarem predisposição genética – também possuíam o anticorpo antitransglutaminase tissular humana (anti-tTG), que é o primeiro indicativo para o diagnóstico. 

A pesquisa – orientada pelo médico e, na época, professor da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) Ulysses Fagundes Neto – é inovadora por ser um dos poucos trabalhos que têm como objetivo traçar o panorama da predisposição genética à DC no país. 

A DC tornou-se mais conhecida nos últimos anos, mas – ainda assim – seus sintomas são pouco percebidos pelos pacientes, que somente procuram atendimento médico em casos mais extremos. Os mais comuns estão associados ao trato digestivo (diarreia crônica e outros distúrbios) ou podem ser descritos pela anemia crônica, apatia, perda de peso, fracasso no crescimento (no caso de crianças), osteoporose e convulsões. Além disso, existem as formas silentes da doença, que acontecem, por exemplo, quando o paciente tem um irmão ou parente próximo já diagnosticado com DC, mas não apresenta os sinais comuns. “Nós sabemos que cerca de 10% dos parentes de primeiro grau de um celíaco são também celíacos”, assegura Fagundes Neto.

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Janaína Yoshida

Embora antigamente fosse difundida a ideia de que a doença estava associada à infância, hoje se sabe que ela pode manifestar-se e ser diagnosticada em qualquer idade. No caso de preexistência da suscetibilidade genética, a afecção pode não se revelar por determinado tempo ou nunca vir a instalar-se. “O indivíduo ingere alimentos com glúten, mas nunca teve sintomas; entretanto, por algum fator que pode estar relacionado à imunidade, a doença é deflagrada”, explica o orientador responsável.

Quase metade das amostras de sangue analisadas por Janaína apresentaram os marcadores genéticos HLA DQ2 e DQ8 positivos – no caso, isso indica que tais doadores têm predisposição genética para DC, embora não determine obrigatoriamente seu surgimento. “Os marcadores genéticos possuem alto valor preditivo negativo, o que significa que a chance de aparecimento da doença para um indivíduo que não seja portador de HLA DQ2 e/ou DQ8 é quase nula”, explica a autora. “Os doadores são pessoas saudáveis – temos isso como pressuposto. E nós poderíamos traçar o perfil do genótipo nessa população saudável.” 

De acordo com a pesquisadora, em São Paulo utiliza-se o teste dos marcadores pelo sistema Luminex, que é uma tecnologia mais cara e de difícil acesso para a população atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Resolvemos experimentar um kit novo, da Itália, chamado DQ-CD Typing Plus, que é de fácil manuseio e vem pronto para a extração e amplificação do DNA, com aumento exponencial das moléculas de DNA por reação em cadeia da polimerase. Em seguida, analisamos as bandas referentes ao DQ2 e ao DQ8 (marcadores genéticos).”

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À esquerda: Parede do intestino delgado normal
À direita: Parede do intestino delgado com doença celíaca: o glúten agride e danifica as vilosidades (dobras) do intestino e prejudica a absorção dos alimentos

Janaína afirma que o novo dispositivo tem ainda um custo alto para o SUS, embora sua adoção seja fundamental para evitar exames como a biopsia do intestino delgado, frequentemente utilizada para estabelecer o diagnóstico final para a DC. “Segundo a nova conduta da Sociedade Europeia de Gastroenterologia Pediátrica, Hepatologia e Nutrição (ESPGHAN), todos os doadores que possuíssem HLA DQ2 e/ou DQ8 positivos, tivessem o anticorpo antitransglutaminase (anti-tTG) maior que dez vezes o valor de referência e apresentassem sintomas da doença não precisariam realizar a biopsia do intestino delgado, que atualmente é o padrão ouro para o diagnóstico no Brasil. Mas essa ainda não é a realidade a ser considerada em nosso país”, comenta Janaína. Diante dos resultados obtidos no estudo, a pesquisadora e seu orientador decidiram enviar cartas aos doadores que apresentavam marcadores genéticos positivos, com a finalidade de convidá-los para a realização da biopsia do intestino delgado.

No passado, acreditava-se que a doença celíaca era uma reação à toxicidade do trigo ou até mesmo um tipo de alergia. Hoje se sabe que sua origem é genética, e a visão sobre ela mudou totalmente. “A prevalência da DC é de 1 para 100 na Europa. Se antes era considerada rara, hoje é bastante frequente, principalmente no mundo ocidental, onde o trigo faz parte da dieta de forma disseminada”, analisa Fagundes Neto. De fato, a Itália é um dos países referência nos estudos sobre a doença devido à alimentação baseada em massas – 1% dos italianos são celíacos.

Como não há remédios que possam combater essa afecção, o recurso terapêutico mais eficaz é a dieta sem a presença de glúten, adotada de forma permanente. A resistência do paciente aos alimentos com essa característica é, entretanto, o grande obstáculo para a continuidade do tratamento. Além disso, os produtos sem glúten – cuja demanda pode ser suprida pela indústria alimentícia – são mais caros e o regime prescrito é mais oneroso que o convencional. “O indivíduo que cumpre a dieta tem uma vida absolutamente normal”, finaliza Janaína.

Números sobre a doença celíaca

• Afeta em torno de 2 milhões de pessoas no Brasil, embora a maioria delas não tenha o diagnóstico de sua situação.

• Os estudos amostrais realizados em São Paulo, Ribeirão Preto e Brasília permitem estimar a incidência da doença em 1:214, 1:273 e 1:681, respectivamente. Essa constatação coloca o Brasil ao nível da população europeia – a mais afetada.

• A doença celíaca pode aparecer em qualquer fase da vida; atualmente, estima-se que um entre 400 brasileiros seja celíaco.

• De cada oito pessoas que possuem a doença, apenas uma tem o diagnóstico.

• A doença celíaca é cosmopolita e afeta pessoas de todas as classes sociais. No Brasil é diagnosticada entre os afrodescendentes e os povos indígenas, uma vez que a miscigenação vem rompendo a barreira étnico-racial.

Fonte: Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (FENACELBRA)

Artigo relacionado:
YOSHIDA, Janaína G. Muniz. Prevalência de predisposição genética para doença celíaca nos doadores de sangue em São Paulo-Brasil. 2014. 80 f. Dissertação (Mestrado em Pediatria e Ciências Aplicadas à Pediatria) - Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo.

Publicado em Edição 04