Segunda, 11 Julho 2016 15:56

Sangues raros: um universo em uma hemácia

Classificações sanguíneas ultrapassam os sistemas tradicionais ABO e fator Rh e definem cadastro personalizado de doadores do Hemocentro da Unifesp

Por Valquíria Carnaúba

Os bancos de sangue de todo o país frequentemente alertam para os baixos estoques. Quando os hemocentros se encontram literalmente no vermelho, faz-se necessário mobilizar mídia e sociedade para a importância da doação, visando abastecer estes serviços de hemoterapia. Mas quando você, cidadão, sente-se motivado por estas campanhas, sabe exatamente o que fazer? Conhecer um pouco mais as classificações sanguíneas adotadas atualmente pelos hemocentros, bem como os procedimentos para doação de sangue, certamente contribui para uma participação mais efetiva.

Fernando Lupinacci e Melca Oliveira, coordenadores do Hemocentro da Unifesp, explicam que a classificação sanguínea de cada indivíduo obedece a uma lógica da Biologia conhecida como fenótipo, ou seja, o conjunto de características externas condicionadas à carga genética. “No caso do sangue, os fenótipos são instituídos de acordo com as proteínas encontradas nas paredes das hemácias (ou glóbulos vermelhos), células desprovidas de núcleo e responsáveis pelo transporte de oxigênio aos tecidos”, afirma Lupinacci.

Segundo ele, os fenótipos sanguíneos mais amplamente conhecidos hoje em dia são os delimitados pelos sistemas ABO e fator Rh, que consideram a presença ou não de determinadas proteínas nas hemácias (ou antígenos). Melca detalha. “O sangue tipo O, por exemplo, é caracterizado pela ausência dos antígenos A e B, por isso pode ser doado para indivíduos com sagues tipo A, B e AB. Mas se o doador for tipo O mas Rh positivo (possuir os antígenos do grupo Rh em suas hemácias), não poderá doar a pacientes cujo fator Rh seja negativo”.

Entretanto, Melca comenta as constantes descobertas de proteínas nas hemácias, o que amplia a gama de classificações. “De acordo com a Sociedade Internacional de Transfusão Sanguínea (ISBT), há 36 sistemas que descrevem mais 341 antígenos diferentes, número que pode aumentar”. Ela explica que o sistema Rh, por exemplo, já ultrapassa o limite da simples tipificação em Rh Positivo e Rh negativo – que se referia somente à presença ou não do antígeno Rho (D). “Atualmente, a tipagem sanguínea (procedimento laboratorial) é capaz de identificar também, no sangue do doador, os antígenos Rh´ (C) e Rh´´ (E)”.

Novas classificações

Mas por que as diferentes classificações seriam tão importantes? “Os antígenos podem provocar a formação de anticorpos nos receptores (em quem recebe o sangue), o que leva a reações graves em uma segunda transfusão, acarretando inclusive em óbito. No Hemocentro, cerca de 10% dos receptores precisam receber sangues especiais, ditos raros, cuja classificação vai muito além da classificação ABO amplamente conhecida”.

A princípio, existe uma demanda específica para o sistema ABO, confirma Lupinacci. “Recebemos, em média, 12 mil doadores por mês. Desses, em torno de 50% deveriam possuir sangue tipo O, 35% sangue tipo A e 20% sangue tipo B. Os números refletem o perfil dos receptores, já que 90% da população brasileira tem sangues A ou O”.

Porém, Melca pontua que, apesar de haver muitos doadores com sangue tipo O, é essencial que todos os outros tipos sanguíneos continuem chegando aos estoques. “Efetuamos a separação de glóbulos vermelhos e plasma, mas os glóbulos vermelhos vêm com uma certa quantidade desse plasma, onde há anticorpos contra os outros tipos de sangue. “Se fizermos apenas doação de sangue O, existem grandes chances de o número de reações começar a crescer”.

Quanto aos demais antígenos, a coordenadora do Hemocentro vai além: “A grande maioria da população brasileira não expressa o antígeno Kell (K). Ainda assim, existe a possibilidade de o doador possuir a proteína e seu sangue provocar reação após a transfusão”. Para solucionar a questão, Lupinacci traz boas notícias: o Hemocentro em breve deve finalizar cadastro de doadores com fenótipos específicos pelo sistema Rh e pelo sistema Kell (que lista outros antígenos, como o K), e o mais importante deles baseia-se na combinação C-E-K- (ausência dos três antígenos).

Assista também à entrevista com a coordenadora do Hemocentro da Unifesp, Melca Oliveira, e saiba o que é preciso para realizar sua doação:

 

Lido 5226 vezes Última modificação em Terça, 08 Novembro 2016 18:40

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