Segunda, 02 Maio 2016 15:24

Merenda escolar inapropriada prejudica crianças e estudantes indígenas

Professor do Centro de Diabetes da Unifesp conclui que incidência de diabetes tipo 2 em populações indígenas está atrelada ao abandono de dietas tradicionais

Por Daniel Patini e Valquíria Carnaúba

As populações indígenas da América apresentam as maiores taxas mundiais de incidência e prevalência de diabetes mellitus tipo 2, quando mudam suas dietas alimentares tradicionais para a dieta ocidental, industrial com alto consumo de açúcar cristalizado ou sacarose. A conclusão é do professor do Centro de Diabetes da Unifesp, João Paulo Botelho, que estuda o tema há mais de 40 anos.

Segundo seus estudos, os grupos indígenas brasileiros com maior abandono da dieta tradicional e que aderiram à dieta industrial ou ocidental estão apresentando diabetes após passarem pela obesidade com acúmulo visceral ou abdômen aumentado, com complicações mais graves de amputações de membros e insuficiências renais.

Ele lista os alimentos inapropriados oferecidos na merenda escolar dos alunos das escolas fundamentais das quatro aldeias dos índios Parakanã - Apyterewa do rio Xingu: açúcar cristalizado (sacarose), sucos de goiaba e caju com açúcar, goiabada, mingau de leite e milho branco com muito açúcar (canjica), leite com achocolatado em pó, mingau de milharina com leite e açúcar, bolachas doces, bolo com chocolate, charque e salsichas (contém nitritos cancerígenos), extrato de tomate em saquinhos plásticos, caldo de galinha, carne de boi em latas de conservas, sopa industrializada.

Em contrapartida, os índios fornecem carne de caça para as merendas. Segundo Botelho, a dieta ameríndia forneceu alimentos valiosos ao mundo, como o milho, mais de 4 mil variedades de batatas na América do Sul, mais de 60 variedades de mandiocas na América do Sul, feijão, cará, abóbora, amendoim, abacaxi, cacau, maracujá, abacate, tomate, pimenta, quinoa e muitíssimos outros.

“Existem populações com polimorfismos de genes favorecedores de obesidade e diabetes, como é o caso índios e descendentes”, afirma Botelho. Ele ressalta inclusive que um grupo de pesquisadores multinacionais, com a participação da Unifesp e da UFRGS representando o Brasil, mostrou a presença de poliformismo do gene ABCA1 exclusivamente entre populações indígenas das Américas, ausente em outros continentes, que condiciona obesidade e diabetes mellitus tipo 2 quando a dieta tradicional é substituída pela ocidental, dislipidemia à custa de diminuição do bom colesterol (protetor cardíaco) compensado pela atividade física.

O professor acredita que seja necessária uma mudança na política alimentar governamental para contornar o problema. Para uma solução ao problema, ele sugere que o ideal seria que os próprios índios fornecessem alimentos de suas roças orgânicas, comprados pelas Prefeituras, o que incentivaria as roças indígenas e estimularia a economia das aldeias.

“Se o governo insiste em dar açúcar aos índios, cristalizado de absorção rápida, deveria ter conhecimento do adoçante estévia, descoberto pelos índios Tupi-Guarani do Paraguai”, indica.

 

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