Há 50 anos cuidando da saúde dos povos indígenas

Iniciativa pioneira implementada pela Escola Paulista de Medicina reduziu o alto índice de mortalidade decorrente das grandes epidemias na região e celebra o aumento populacional das etnias

Da Redação
Com colaboração de Ana Cristina Cocolo

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Criança Kamaiura na Lagoa Ipavu, no Alto Xingu

Pouco mais de cinco décadas atrás, em 1954, um surto de sarampo vitimou 20% dos índios de várias etnias do Alto Xingu. O índice de mortalidade dos povos da região, em decorrência da precariedade da saúde e da alta transmissão da malária, era assustador. Havia alto risco da varíola, altamente letal e ainda não erradicada no Brasil à época. Para essas novas doenças, introduzidas pelo contato com o homem branco, os métodos de cura adotados pelos pajés muitas vezes eram impotentes. A falta de assistência sanitária regular acentuava o risco de extinção dos cerca de 1.500 índios, distribuídos em 16 etnias que habitavam os 28 mil km2 da região. As epidemias, como as citadas, tiveram efeito muito mais letal e intenso que as grandes guerras ocorridas entre diferentes grupos indígenas e a ação predatória dos colonizadores.

O cenário devastador representava um desafio para médicos, antropólogos, sociólogos, historiadores e cientistas sociais que se preocupavam com o destino das comunidades xinguanas. Uma das respostas foi dada pela Escola Paulista de Medicina (EPM) que, a convite do sertanista e então diretor do Parque Indígena do Xingu (PIX), Orlando Villas Bôas, iniciou a implantação de uma atividade pioneira: um programa intitulado Projeto Xingu, que agora completa cinco décadas de existência. Hoje, sob coordenação da médica sanitarista Sofia Mendonça, a iniciativa conta com uma equipe multidisciplinar formada por 17 pessoas entre médicos, enfermeiros, nutricionista, cirurgião dentista e educador, além de historiador, fotógrafo e o corpo administrativo, que visa levar melhores condições de saúde aos índios do parque. Ao todo, mais de 500 pessoas já participaram das atividades de campo desde a criação do programa.

Dentre as principais conquistas do programa, estão o aumento da expectativa de vida dos índios, queda da mortalidade infantil e a erradicação de doenças como sarampo, catapora, poliomielite e difteria. Além disso, os casos de malária, que era a principal epidemia que assolava esses povos, são muito raros e, quando ocorrem, não evoluem para o óbito. 

Atualmente, a maioria dos povos superou as epidemias e o risco de extinção. No entanto, todo cuidado ainda é pouco e os índios já esboçam o que esperam dos próximos 50 anos do programa. 

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Equipe de vacinação no posto indígena Pavuru

Saúde do índio

Pesquisadores do projeto atuam intensamente na questão da saúde indígena, principalmente em relação às doenças advindas do contato com o homem branco. Essa é a principal ameaça aos xinguanos, porque estão muito vulneráveis, tanto do ponto de vista biológico, quanto do social e cultural. A equipe realiza campanhas frequentes de imunização e vigilância em saúde, em colaboração com o Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu, a Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena e o Ministério da Saúde (Sesai/MS).

O contato cada vez mais frequente com a nossa sociedade trouxe também alterações alimentares e, consequentemente, novas doenças às aldeias. A entrada de alimentos industrializados, como açúcar refinado, sal, biscoitos, enlatados, bebidas alcoólicas e refrigerantes, contribuíram para o surgimento de um número cada vez maior de índios com sobrepeso, algo que praticamente inexistia. Começaram também a aparecer casos de alterações na pressão arterial e de diabetes. Além do uso abusivo de bebidas alcoólicas.

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Criança indígena recebe vacina no posto indígena Diauarum (Onça Preta)

Atualmente são realizadas, pelo menos, seis viagens anuais com duração de 15 a 35 dias. Além da equipe, alunos e docentes da universidade participam dos trabalhos. Nessas idas a campo, além da imunização que é realizada desde o início do programa, é feita a avaliação das gestantes, dos menores de 5 anos de idade, dos pacientes portadores de doenças crônicas como diabetes e hipertensão arterial, coleta de citologia cervico-vaginal para controle do câncer do colo uterino, acompanhamento de pacientes com tuberculose, bem como a capacitação da equipe local. Há também as oficinas de saúde, nutrição e culinária que são realizadas com os diferentes povos do PIX. Nelas são promovidas ações conjuntas para melhorar a oferta de alimentos e o acompanhamento das crianças desnutridas, além da promoção e valorização da culinária tradicional indígena. Como os alimentos industrializados já são uma realidade cada vez mais latente nas aldeias, regras de preparo e consumo para uma dieta equilibrada também são abordadas. 

“Em tempos de comemoração do Projeto Xingu, é importante lembrar que ainda temos o privilégio de compartilhar com esses povos indígenas, sociedades mais igualitárias, ideias e ideais sobre as relações entre as pessoas, sobre a natureza e sobre a vida. Quero aproveitar e fazer um alerta para as ameaças crescentes aos direitos e à vida da população originária do nosso País”, observa Douglas Rodrigues, que já coordenou a iniciativa e hoje atua como chefe da Unidade de Saúde e Meio Ambiente, onde está o programa de extensão desenvolvido pelo Departamento de Medicina Preventiva da EPM/Unifesp.  “Os pactos de governabilidade com a bancada ruralista e da mineração e com a estratégia de desenvolvimento focada em um modelo primário exportador, que lembra os tempos coloniais, além de impactar a maioria dos povos e territórios indígenas, fomenta o discurso de ‘muita terra para poucos índios’, retomando o argumento de que os índios são empecilhos ao desenvolvimento do país e que são obstáculos a serem removidos”

Necessidade de institucionalizar 

Apesar dos ganhos à saúde da população do Xingu, no sentido de diminuir os casos de mortes em razão das grandes epidemias que assolavam a região, ainda há necessidade de muitos progressos. Os indicadores médios de mortalidade infantil e materna, assim como as taxas médias de incidência de tuberculose e outras doenças infectocontagiosas são duas a três vezes maiores entre os indígenas do que na população brasileira como um todo. Os recursos para a manutenção do programa ainda são insuficientes. Embora existam parcerias com o Ministério da Saúde, o Instituto Socioambiental, o Instituto Caititu, as organizações sociais (OS) e várias associações indígenas, o objetivo delas é auxiliar no trabalho de campo, mas não no sentido de viabilizar o programa economicamente.

A ampliação de recursos é necessária devido à expansão do programa, que hoje não se restringe apenas ao atendimento aos xinguanos. O trabalho também vem sendo desenvolvido com populações ribeirinhas e comunidades tradicionais. Ou seja, o leque de atividades foi expandido para atender a diversos conjuntos de povos que constituem a grande diversidade da sociedade brasileira.

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Imagens aéreas da aldeia Nacepotiti, povo Panará

Pioneira na formação especializada

Desde 2007, a Unifesp oferece cursos de especialização em saúde indígena. É pioneira na América Latina e uma das poucas instituições que possuem no currículo de graduação médica e de enfermagem essa temática. Na especialização, já formou 350 profissionais e outros 400 estão em processo. 

Devido à dimensão do programa, o Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp) também atua em várias frentes, desde a atenção hospitalar no Ambulatório do Índio, do próprio hospital, para os casos de maior complexidade, até o trabalho de campo no Xingu, com a ida de alunos e residentes, além de toda atividade de pesquisa e extensão.

A Unifesp também promove, desde a década de 1990, a formação de indígenas como agentes de saúde e auxiliares de enfermagem. A primeira turma de agentes de saúde se formou em 1996 e, em 2001, outros 16 auxiliares de diferentes etnias xinguanas receberam o diploma. Essa formação de auxiliares de enfermagem indígenas foi um processo inédito, desenvolvido quase inteiramente no interior do PIX, com reconhecimento da Secretaria Estadual de Saúde do Mato Grosso, Estado com grande população indígena. Embora o projeto inicial contemplasse apenas o Xingu, o governo estadual decidiu ampliar para todas as áreas indígenas da unidade da federação. Dessa forma a universidade ajudou a montar os cursos em outras áreas, nas quais vivem os povos Xavante, Bororo e Pareci. Conhecido como Projeto Xamã, a iniciativa profissionalizou 120 indígenas que estão em atividade.

No entanto, o programa de formação de agentes de saúde está parado há três anos por falta de investimento e articulação governamental com outros centros formadores. A última turma formou-se em 2012, contemplando 55 agentes das etnias Ikpeng, Kĩsêdjê, Yudjá, Trumai, Kawaiwete, Kamaiurá e Wauja, no Polo Pavuru, do Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu, no PIX.

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Imagem maior: Thais Santos, médica da equipe de Saúde da Família do Projeto Xingu em atendimento na aldeia Aweti
Imagem acima, à esquerda: Ação de Saúde da Mulher na aldeia Pyulaga, do povo Wauja
Imagem acima, à direita: Agente indígena de saúde em atendimento na unidade básica de saúde, polo base Pavuru

Respeito à cultura

O perfil epidemiológico entre os povos indígenas muda muito rapidamente no país. Em consequência disso, o programa precisa de adaptação constante. As atividades desenvolvidas e os cuidados precisam ser adequados e ampliados para que o objetivo de colaborar com a atenção, saúde e qualidade de vida dos povos originários do Brasil seja alcançado. Nesse contexto, as viagens também têm por objetivo a capacitação da equipe local de saúde, realização de encontro de mulheres, oficinas de culinária, encontro de jovens, etc. Também são desenvolvidas pesquisas sobre problemas de saúde relevantes para a população.

Um dos principais papéis da equipe é levar atenção médica aos índios, procurando interferir minimamente na cultura. Eles desenvolveram seus próprios sistemas tradicionais de saúde, constituídos por diferentes atores e práticas, como a pajelança, plantas medicinais, rezas e cantos de cura. Isso está ligado ao modo como compreendem o mundo e, consequentemente, o processo de adoecimento. Por essas razões, o desafio consiste em desenvolver a escuta, para entender o outro e o que é diferente da nossa cultura.

“Nós mesmos, como profissionais de saúde, temos que nos despir de nosso olhar etnocêntrico, que nos leva a achar que apenas o conhecimento científico e biomédico tem valor. É estratégico entender e valorizar o conhecimento tradicional, para que os modos de ver possam dialogar e as práticas possam ser articuladas, em benefício daqueles que procuram tanto a nós, médicos científicos, quanto aos médicos tradicionais”, comenta Sofia Mendonça, coordenadora do programa.

Por vezes é mais difícil conseguir essa articulação, especialmente em casos mais graves ou naqueles cuja etiologia, para os indígenas, envolve a dimensão espiritual e para a qual eles sabem que a Biomedicina tem menor eficácia. Esses momentos são difíceis, mas sempre é possível o diálogo e o trabalho articulado. Além disso, a maior parte das mortes que ocorrem, especialmente nas crianças, são mortes evitáveis. São situações nas quais uma boa atenção básica pode diminuir significativamente, reduzindo assim as chances de ocorrerem essas situações mais difíceis. Nas raras situações em que não há entendimento, prevalece a decisão da família, que pode seguir uma ou outra orientação, como é de direito.

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Terceiro Encontro de Mulheres Indígenas Xinguanas sobre gestação e parto no polo base de Diauarum

Coleta de exame Preventivo do Câncer de Colo de Útero (PCCU)
Aldeia Pop. total Pop. Fem. ≥19 anos e vida sexual N. de Exames PCCU coletados Cobertura PCCU
Waura 349 68 44 64,7%
Kamayura 335 81 69 85,2%
Yawalapiti 174 42 34 81,0%
Pólo Leonardo 76 17 10 58,8%
Aldeia Velha 21 4 3 75,0%
Saúva (Saidão) 79 13 9 69,2%
Base do Jacaré 24 7 7 100,0%
Fazendinha 8 1 0 0,0%
Nafukua 95 23 17 73,9%
Kalapalo 215 40 36 90,0%
Matipu 113 25 17 68,0%
Kuikuro 278 64 49 76,6%
Buritizal 10 3 0 0,0%
Aweti/Salve Jorge 88 21 19 90,5%
Mehinako 89 23 18 78,3%
Yaramã 48 11 8 72,7%
Kurisevo 31 9 8 88,9%
Utawana 94 21 14 66,7%
Aturua 17 4 2 50,0%
Total 2136 477 364 76,3%
Entre as causas da porcentagem de mulheres que não realizaram o exame estão: recusa, ausência da aldeia, regra menstrual, puérperas, etc. Fonte: Projeto Xingu / Alto Xingu (2014)

Ultrapassando fronteiras

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Imagem acima, à esquerda: Reunião com alunos com o cineasta Hermano Penna na sede do Projeto Xingu, em São Paulo
Imagem abaixo, à esquerda: Equipe do Projeto reunida em frente à sede em São Paulo
Imagem acima, à direita: Alunos do 5º ano de Medicina em visita à aldeia Tekoha Pyaú no Pico do Jaraguá, em São Paulo
Imagem abaixo, à direita: Douglas Rodrigues em viagem junto aos índios isolados do Acre (povo Korubo)

Os profissionais do Projeto Xingu atuam além das fronteiras do PIX e tentam acompanhar povos em condição de semi-isolamento, ou seja, etnias nas quais as relações com a sociedade do entorno ocorrem de forma intermitente.

Atualmente, a equipe acompanha os Panará – oficialmente o primeiro contato ocorreu em 1973 –, no Mato Grosso; os Txapanawa, que residem no alto do rio Elvira, no Acre; os Zo’é, na Serra do Cuminapanema, no Pará; e os Korubo, no vale do rio Javari, no Amazonas.

De acordo com Douglas Rodrigues, o primeiro contato sempre é uma situação tensa, tanto para a equipe quanto para os indígenas. “Pouco sabemos uns dos outros e por isso não sabemos exatamente como vão reagir”, afirma. “Nem mesmo os índios, pois na maioria das vezes recordam-se de encontros pouco amistosos com os ‘brancos’”.

O médico sanitarista também explica que, desde o final dos anos 1980, a Fundação Nacional do Índio (Funai) está revendo sua política de proteção com relação aos grupos indígenas isolados e, a partir de 2000, houve uma mudança radical nesse sentido. “Antes, acreditava-se que era preciso o primeiro contato para protegê-los. Hoje, é preconizada a interdição da área e as Frentes de Proteção Etnoambiental, de responsabilidade da Funai, sendo feitas incursões cuidadosas no território para obter o máximo de informações sobre esses povos e identificando potenciais ameaças, bem como estabelecendo estratégias de proteção”.

Os contatos, nesses casos, ocorrem quando os indígenas buscam aproximação por vontade própria, aparecendo nos arredores das aldeias indígenas já contatadas ou em vilarejos no interior da Amazônia, ou quando é preciso a intervenção do Estado em virtude das ameaças à integridade dessa população em consequência de invasões de seus territórios por madeireiros, narcotraficantes, grileiros ou garimpeiros.

Um dos últimos povos a serem contatados, mais especificamente em julho de 2014, sete jovens (duas mulheres e cinco homens) da etnia Txapanawa – atualmente reduzidos a pouco mais de 50 pessoas – apareceram em uma aldeia dos Ashaninka, povo que vive próximo ao rio Elvira (AC). Todos estavam doentes, com infecção respiratória aguda, febre, tosse e dor de garganta. A mais nova do grupo, com aproximadamente 13 anos, apresentava uma conjuntivite severa. “Os sintomas nos índios isolados são sempre exacerbados, já que essas doenças são desconhecidas para eles. Nossos analgésicos são mágicos para eles, pois aliviam os sintomas rapidamente. É preciso delicadeza, cuidado, uma vez que nossa assimetria tecnológica pode, ainda que não intencionalmente, afogar os sistemas tradicionais indígenas de cura. Na maioria dos contatos, o grupo ou está doente ou adoece com o contágio e é aí que a assistência médica pode fazer toda a diferença”, afirma Rodrigues.

mapa xingu

Para a equipe, o maior entrave reside na comunicação, que é minimizada com a ajuda de intérpretes indígenas. No entanto, outros obstáculos precisam ser superados, além do estranhamento inicial e a língua. É preciso ter boa formação clínica para encarar as condições de trabalho e as dificuldades impostas pela floresta, como a falta de tecnologia para diagnósticos mais precisos e a administração de medicamentos que necessitam de horários específicos para aplicação.

Muitos grupos isolados estão localizados nas regiões fronteiriças com a Colômbia, Peru, Equador, Venezuela, Bolívia e Paraguai e, segundo Douglas Rodrigues, existe um grupo no Itamaraty que trabalha por marcos legais para a cooperação entre os países. “Há pouca estrutura tanto na Funai quanto na Sesai/MS, especialmente nas regiões mais remotas, onde estão essas etnias”, afirma. “Ainda assim, o esforço de alguns técnicos tem garantido um mínimo de assistência e o Projeto Xingu tem colaborado nas situações de contato, na capacitação de equipes do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) e na elaboração de planos de contingência”.

Síntese do trabalho em saúde com povos indígenas por região (1965-2015)
Região Centro-Oeste
Parque Indígena do Xingu- MT (16 etnias) Formação de indígenas de nível técnico para o trabalho em saúde; apoio à gestão local de saúde e participação social; ações matriciais em saúde da mulher, imunização, oftalmologia, dermatologia, controle da tuberculose; encontros de mulheres indígenas; oficinas de culinária e rastreamento de doenças metabólicas e capacitações de profissionais universitários e apoio técnico
Kayapó - Mato Grosso Capacitações em imunização, tuberculose e apoio técnico
Bororo - Mato Grosso Capacitações de equipe técnica e oficina sobre saúde e sobre a vida: perspectivas para o futuro
Xavante- Mato Grosso Capacitações da equipe técnica, vigilância nutricional e prevenção de diabetes
Panará- Mato Grosso Abordagem inicial para grupo isolado, vigilância à saúde e saúde da mulher e controle de tuberculose
Região Norte
Korubo - Vale do Javari no Acre Capacitação de profissionais de saúde e indigenistas na elaboração de plano de contingência para situações de contato com grupos isolados e trabalho de saúde com grupos indígenas de recente contato
Alto Rio Negro - AM (21 etnias) Supervisão de campo do trabalho de profissionais de saúde e formação de técnicos de enfermagem indígenas
Txapanawa - Acre Abordagem inicial para grupo isolado e vigilância à saúde
Kayapó - Pará Capacitação de profissionais em imunização e apoio técnico e em tuberculose
Wajãpi - Amapá Apoio para formação de agentes indígenas de saúde
Zo’é - Pará Abordagem inicial de saúde para grupo indígena isolado
Região Sudeste
Município de Guarulhos Etnias: Tupi, Pankararé, Wassu Cocal, Kaimbé, Pankararu, Xucuru, Xavante, Pataxó, Fulni-ô e Guajajara Apoio matricial e capacitação de profissionais para atendimento de indígenas em atenção primária de saúde e na organização de serviço de referência para indígenas moradores da cidade
Município de São Paulo Aldeias Guarani (Tenondé Porã, Tekoa Ity, Tekoá Pyau Acompanhamento de pacientes e famílias segundo grupos de risco, oficinas e atividades de promoção da saúde nas aldeias, capacitação de equipes de saúde e preparação de agentes indígenas de saúde, além de apoio às lideranças nas demandas sociais e de saúde
Município de Bertioga - Aldeia Rio Silveiras Capacitação de equipes de saúde e preparação de agentes indígenas de saúde, viagens de intercâmbio cultural ao Parque do Xingu e Sul da Bahia (etnia Tupinambá) e apoio às lideranças nas demandas sociais e de saúde
Município de Aracruz (ES) Etnias Guarani e Tupi Capacitação de profissionais para atendimento de indígenas em atenção primária de saúde
Ambulatório do Índio do HSP\HU\Unifesp Referência nacional em atendimento médico terciário para indígenas; capacitações de equipes, estágios de graduação em Medicina e Enfermagem, residência em saúde da família; acolhimento de pacientes indígenas e famílias na cidade de São Paulo
CASAI- SP (Casa de Saúde do Indio da SESAI- Secretaria Especial de Saúde Indígena- MS) Capacitação profissional das equipes de saúde, promoção da saúde com indígenas e acolhimento de pacientes indígenas e famílias
Região Sul
Tríplice Fronteira (ARG- BRA- PAR) Guarani Capacitação de profissionais da gestão e das equipes locais em saúde indígena e apoio matricial para organização local de serviços de atenção primária
Outros
Ministério da Saúde – FUNASA e SESAI (Brasília) Assessoria para elaboração de material didático para formação profissional de agentes indígenas de saúde; oficinas de trabalho em linhas de cuidado, antropologia da saúde, saúde bucal, assessoria para elaboração de planos de contingência para situações de contato com grupos isolados e para epidemias em grupos de recente contato
Universidade Aberta do Brasil (UAB) e Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Parceria para oferta de curso de especialização em saúde indígena à distância, com formação de 350 especialistas e 400 alunos, em curso, em todas as regiões do Brasil: Amazonas: Manaus, Maués, Lábrea, Coari • Pará: Belém, Marabá • Tocantins: Palmas • Pernambuco: Recife • Paraíba: João Pessoa • Mato Grosso: São Félix do Araguaia, Juara, Cuiabá, Lucas do Rio Verde • São Paulo: São Paulo e Cubatão.

Vasto material histórico

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Prof. Baruzzi recebe grupo de alunos holandeses no antigo local do Museu do Projeto Xingu  (2007)

Cinquenta anos de atuação do programa junto ao Parque Indígena do Xingu (PIX) rendeu à Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) um acervo histórico de valor incalculável. Por iniciativa do Prof. Roberto Baruzzi e apoio de lideranças xinguanas, de professores e da fotógrafa Maureen Bisilliat, um museu foi inaugurado em 1991 em um anexo da antiga Reitoria da universidade, onde permaneceu aberto até 2013. Devido à necessidade de adequação de espaço, o local, hoje, é ocupado pela Diretoria da EPM.

A antiga Sala Prof. Roberto Baruzzi – EPM – Xingu abrigava mais de 500 peças produzidas por todos os povos do PIX, entre elas: cestarias, cerâmicas, arcos, flechas, pedras usadas em trabalhos diários e machados usados antes da introdução do metal, além de redes, adornos e outros artefatos.

De acordo com Lavínia Oliveira, coordenadora de recursos humanos do Projeto Xingu, esse acervo permite demonstrar que a cultura material dos povos xinguanos tem sido preservada por gerações ao se fazer a comparação com exemplares coletados por Karl von den Steinen, em 1887, e demonstrado em livro por ele publicado em 1894 e traduzido por Egon Schaden, em 1940.

O programa também possui cerca de 10 mil fichas médicas das diferentes etnias que permitem conhecer o padrão de saúde/doença dos índios do PIX em diferentes períodos, desde 1965; há aproximadamente 600 livros e publicações em Antropologia, Demografia, Estudos de Povos Nativos, Saúde Pública e Medicina Tropical, além de um grande número de documentos e teses relacionadas ao Projeto Xingu, política indigenista e à trajetória da EPM/Unifesp na atenção à saúde dos índios; mais de 65 mil fotografias e slides e um vasto número de VHS, DVDs e fitas cassete do trabalho em campo que mostram além das atividades desenvolvidas pelas equipes, o dia a dia das aldeias, o preparo dos alimentos, as festas e rituais, como o Quarup e a reclusão pubertária de ambos os sexos. 

O local era aberto à visitação pública e recebia alunos de escolas de ensino fundamental e médio, além de visitantes brasileiros, estrangeiros e indígenas. Principalmente no mês de abril, quando comemoramos o Mês do Índio, o museu também realizava exposições itinerantes.

Atualmente, a equipe aguarda a definição de um novo espaço físico para o museu na Diretoria do Campus São Paulo, que abriga a EPM/Unifesp. Enquanto isso, algumas peças encontram-se expostas na casa que abriga o Projeto Xingu, na Vila Clementino.

Os próximos 50 anos

Lideranças indígenas e toda a comunidade indígena têm reivindicado tanto ao Projeto Xingu quanto à EPM/Unifesp que não somente deem continuidade ao programa, assim como a sua expansão. Várias sementes estão sendo plantadas nesse sentido.

Além da proposta, junto às secretarias da Saúde e da Educação do Estado de Mato Grosso, de formação profissional técnica nas áreas de Enfermagem, vigilância em saúde, saúde bucal e gestão em saúde indígena, a Unifesp também está discutindo a reserva de vagas para indígenas em todos os cursos ofertados pela instituição. “Para isso, estamos montando uma equipe de apoio a esses estudantes para minimizar os obstáculos da língua, as dificuldades do próprio aprendizado e o preconceito”, afirma Sofia Mendonça.

A coordenadora do projeto explica que a ideia para as próximas décadas é ampliar a presença da temática saúde indígena na graduação e pós-graduação, com visitas às aldeias localizadas em São Paulo e no Xingu, com a residência médica em saúde da família, com uma área de concentração em saúde indígena, bem como com ampliação na oferta de cursos na modalidade do ensino à distância. “Estamos na quinta turma de especialização em Saúde Indígena e temos a perspectiva de ampliar as ofertas para públicos mais específicos com o curso de aperfeiçoamento e posterior especialização em saúde mental, sofrimento psíquico e povos indígenas. Esse último ainda está em fase de concepção”.

In loco, a equipe de saúde está com um projeto de investigação de doenças metabólicas, controle do câncer do útero e oficinas de culinária para o resgate da alimentação tradicional indígena que deve abranger vários povos do Xingu.

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Montagem com várias gerações de mulheres de diferentes povos do PIX

Histórias de um chefe Kaiabi

Ana Cristina Cocolo

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Índio Mairawê com aproximadamente 20 anos de idade

Mairawê Kaiabi, 64 anos, um dos líderes do povo indígena Kawaiwete (Kaiabi), acompanha, desde os 14, as idas dos profissionais da área da saúde da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) ao Parque Indígena do Xingu (PIX).

Descendente de um povo com uma história marcada por conflitos de invasão de terra por seringueiros no século XIX, Mairawê lembra bem quando chegou ao PIX, após a área onde vivia ser ocupada gradualmente e os índios induzidos ao trabalho para extração de látex. A chegada da Expedição Roncador-Xingu, comandada pelos irmãos Villas Bôas, ajudou a garantir a sobrevivência cultural desse povo com a proposta de levar os Kaiabi para o Parque do Xingu.

Atualmente, algumas famílias do povo Kawaiwete (Kaiabi) habita o PIX e constitui a etnia mais populosa do local. A língua original desse povo é da família do tupi-guarani. No entanto, quase todos que habitam o parque são bilíngues e dominam bem o português. Outras famílias dos Kaiabi vivem na terra indígena próxima ao rio Teles Pires, que é a região natal dessa etnia, e lá muitas já não falam a língua nativa. São denominados também como Cajahis, Cajabis, Kajabi, Caiabis, Cayabi, Kayabi.

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Mairawê durante encontro na Unifesp com lideranças do Projeto Xingu e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde (2011)

Casado, pai de dez filhos, Mairawê sempre atuou como braço direito da equipe do Projeto Xingu, seja como tradutor intérprete, orientando a equipe, negociando tratamentos, encaminhamentos ou mesmo dirigindo os barcos que levavam os profissionais da saúde para imunizar as populações indígenas de diversas aldeias do PIX.

Histórias não faltam a ele. A remissão às lembranças faz com que o olhar do líder Kaiabi vá de sombrio – ao lembrar das perdas de integrantes do seu povo devido às doenças – à maroto, quando relembra as peripécias e aventuras no rio Xingu e seus afluentes diante das falhas dos motores dos barcos, as boas risadas e os improvisos para manter as vacinas conservadas e cumprir os prazos estipulados pelo Prof. Baruzzi. “Ficava horas segurando um guarda-chuva para minimizar o calor sob o isopor com gelo”, sorri ao falar. “Era tudo muito seguro e organizado e o professor sempre tinha pressa para atender o máximo de pessoas possível”.

Mairawê conta que a princípio custou para ele entender quem era e o que queria exatamente a equipe do Prof. Baruzzi. “Os Villas Bôas traziam muita gente para conhecer os índios. Mas eles eram diferentes. Isso ficou claro quando começaram o trabalho de vacinação contra o sarampo, a coqueluche e tantas outras doenças ruins. Tudo começou a melhorar para nós”, afirma. “O que mais víamos e ainda vemos como dificuldade é a demora para a chegada de medicamento para que a equipe faça um trabalho ainda mais completo”.

Para ele a Medicina do “branco” veio para complementar a do índio. A confiança no trabalho desenvolvido se resumiu a uma frase ao final da entrevista: “Mais que profissionais e amigos, eles são nossa família”.

Produções acadêmicas e de pesquisas do Projeto Xingu (1966-2015)
Projetos de pesquisa financiados 16
Projetos de iniciação científica 12
Teses de livre docência 2
Teses de doutorado 20
Dissertações de mestrado 18
Projetos de mestrado em andamento 6
Projetos de doutorado em andamento 1
Artigos publicados em revistas indexadas 102
Publicações em outras modalidades 22
Livros publicados 8
Capítulos de livros 27
Trabalhos apresentados em congressos e publicados em anais 111
Totalidade de apresentações de trabalhos em congressos 157
Trabalhos de conclusão de curso de graduação 4
Monografias de conclusão de curso de especialização 350
Fonte: Projeto Xingu, 2015
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Pró-Reitorias

Unidades universitárias

Campi

Links de interesse