Quinta, 18 Outubro 2018 12:55

Faca de dois gumes

Uso de tablets e celulares por crianças quase dobra o risco do consumo excessivo de alimentos ultraprocessados

Ana Cristina Cocolo

p033 Entreteses porAndreaPelogi

Imagem: Andrea Pelogi

As mudanças no padrão alimentar da população, com maior consumo de alimentos ultraprocessados – incluindo os sucos artificiais, que em alguns casos possuem até 70% mais açúcar que um refrigerante de guaraná –, de Fast-Foods e de lanches açucarados, estão entre os principais vilões que ajudam a engrossar os números de doenças crônicas e da obesidade, inclusive entre crianças.

O cenário fica ainda mais perigoso quando a tecnologia entra de forma negativa no comportamento das pessoas, conforme apontam duas pesquisas apresentadas como tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Pediatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo.

De acordo com os trabalhos, que avaliaram as práticas parentais de alimentação entre pré-escolares e escolares brasileiros e resultaram em um artigo publicado na revista Public Health Nutrition, o uso de celulares e tablets durante as refeições aumenta em 1,61 vezes o risco de crianças entre 2 e 9 anos de idade consumirem excessivamente alimentos ultraprocessados.

Para as nutricionistas Sarah Warkentin e Laís Amaral Mais, autoras das teses, esse comportamento pode ser parcialmente atribuído à exposição a anúncios televisivos de alimentos ricos em gorduras, açúcares e sal, e pobres em fibras e micronutrientes. “Os dados também põem em evidência o pouco incentivo às práticas de mais atividades físicas e lúdicas que tirem as crianças da frente das telas”, afirma Warkentin.

Para Mais, o problema vai além. “O uso excessivo de dispositivos de tela durante as refeições pode ser um indicador da falta de interação dos pais com a criança durante refeições – que poderia refletir uma falta mais geral de estrutura do agregado familiar – e que demonstrou ser um fator risco para má qualidade da dieta“, afirma. “Os pais são importantes exemplos para as práticas alimentares, já que as crianças dependem deles para o acesso e a preparação dos alimentos”.

As pesquisas também mostraram que crianças cujas mães têm menor nível de escolaridade e que têm excesso de peso tiveram um risco duas vezes maior e 1,43 vezes maior, respectivamente, de consumirexcessivamente alimentos ultraprocessados. Já para os pais que relataram baixa percepção de responsabilidade quanto à alimentação de seus filhos, esse risco foi 2,41 vezes maior.

Poucos vegetais

De acordo com o relato dos pais, cerca de 67% das 929 crianças avaliadas ingeriam uma alta quantidade de alimentos ultraprocessados. Trinta e dois por cento bebiam leite achocolatado e 20% suco artificial todos os dias. Quase um quarto do total eram consumidoras frequentes de carnes processadas e, mais de um terço, de salgadinhos. Em contrapartida, com relação aos vegetais, menos da metade da amostra os consumia diariamente.

Já a ingestão de frutas e leite e laticínios, de três ou mais dias, foi alta: 60% e 75%, respectivamente. “Muitos pais associam o achocolatado e os sucos artificiais a uma dieta saudável por derivarem de leite e frutas, o que é um engano, pois possuem uma elevada concentração de açúcares”, alerta Warkentin.

“É preciso concentrar ainda mais esforços na intervenção para grupos de alto risco, como famílias com excesso de peso e mães com menos escolaridade”, diz Mais. “É necessário também a promoção de uma educação nutricional aos pais que os incentivem a assumir a responsabilidade de promover uma alimentação mais saudável para seus filhos”.

hamburguer e batata

Cerca de 67% das crianças avaliadas ingeriam alta quantidade de alimentos ultraprocessados, como hambúrgueres e batata frita (imagem: Andrea Pelogi)

professoras

Laís Amaral Mais e Sarah Warkentin (imagem: Alex Reipert)

Metodologia

Participaram da pesquisa, por meio de dois questionários, 929 pais de pré-escolares e escolares (idades de 2 a 9 anos) de 14 escolas privadas das cidades de Campinas e São Paulo. A maioria dos respondentes eram as mães (92%). Foram excluídos estudantes com doenças relacionadas à nutrição e irmãos mais velhos para evitar duplicidades nos dados. O estudo é o primeiro a avaliar associações entre padrões alimentares entre crianças pré-escolares e escolares no Brasil e as práticas de alimentação dos pais, avaliadas por um questionário abrangente que foi traduzido e validado para essa população específica.

Para a pesquisa foram adaptados dois questionários: o Comprehensive Feeding Practices Questionnaire (CFPQ), de autoria de Dara R. Musher-Eizenman, professora de Psicologia da Universidade Estadual Bowling Green, Ohio (EUA), e Shayla Holub, professora assistente em Ciências Psicológicas na Universidade do Texas, em Dallas (EUA), e de um Questionário de Frequência Alimentar (QFA), desenvolvido especialmente para esse trabalho, uma vez que não existia um instrumento na literatura que incluísse um grande número de alimentos ultraprocessados consumidos por essa faixa etária, bem como fosse breve e específico para estas idades.

Entre os ultraprocessados, foram incluídos nos questionários os Fast-Foods (hambúrgueres, batata frita, nuggets, pizza), os macarrões instantâneos, os refrigerantes, os sucos artificiais (em pó, de caixinha, concentrado), os salgadinhos de pacote, as guloseimas (bala, chiclete, pirulito, chocolate), os cereais matinais, os achocolatados (em pó, pronto para beber), os biscoitos e os bolos sem e com recheios, os sorvetes (de massa, picolé), as sobremesas lácteas (pudim, petit suisse) e os embutidos (salsicha, linguiça, presunto, peito de peru). Além deles, também foram avaliados os alimentos tradicionais – carnes (bovina, suína, frango, peixe) e ovos, cereais (arroz, farinha, batata, mandioca, macarrão, pão), leguminosas (feijão, lentilha, soja, grão de bico, ervilha), leite e derivados (queijo, iogurte), vegetais (crus e cozidos), frutas (in natura e suco natural) – e fatores sociodemográficos (idade materna e infantil, sexo, grau de escolaridade e renda familiar).

Já a avaliação sobre a responsabilidade percebida pelos pais na alimentação infantil foi realizada por meio do Child Feeding Questionnaire (CFQ), desenvolvido por Leann L. Birch, professora da Faculdade de Saúde e Desenvolvimento Humano da Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA) e colaboradores em 2001.

Consumo alimentar da criança nos sete dias que antecederam à pesquisa, autorreferido por 929 pais, por meio de um Questionário de Frequência Alimentar (QFA), em uma amostra de crianças de 2 a 9 anos. Campinas e São Paulo, Brasil.

Frequência de consumo alimentar (%)

Alimentos

Não consumiu

1-2 vezes

3-4 vezes

5-6 vezes

Consumiu todos os dias

Leite e derivados

2,80%

6,14%

8,50%

7,53%

75,03%

Cereais

0,43%

2,58%

6,67%

16,58%

73,74%

Carnes e ovos

0,43%

2,48%

11,63%

20,67%

64,80%

Frutas

2,69%

5,38%

13,56%

17,76%

60,60%

Leguminosas

4,63%

5,49%

13,78%

18,73%

57,37%

Hortaliças

8,93%

12,70%

16,68%

14,96%

46,76%

Achocolatado

39,61%

12,27%

8,61%

7,86%

31,65%

Sucos artificiais

25,19%

19,27%

18,73%

17,12%

19,70%

Biscoitos e bolos sem recheio

27,23%

34,77%

24,97%

7,32%

5,71%

Cereal matinal

56,19%

21,42%

12,70%

4,31%

5,38%

Sobremesas lácteas

44,03%

31,32%

16,90%

4,31%

3,44%

Guloseimas

18,30%

50,70%

21,96%

5,71%

3,34%

Embutidos

34,77%

42,30%

16,79%

3,66%

2,48%

Refrigerantes

51,67%

37,24%

7,75%

1,40%

1,94%

Biscoitos e bolos com recheio

56,30%

30,14%

10,98%

1,51%

1,08%

Salgadinho de pacote

62,33%

33,80%

3,44%

0,11%

0,32%

Fast-Food

38,54%

59,20%

1,83%

0,32%

0,11%

Macarrão instantâneo

78,15%

20,67%

1,08%

0,11%

0,00%

Sorvetes

62,65%

32,51%

4,41%

0,43%

0,00%

Fonte: Sociodemographic, anthropometric and behavioural risk factors for ultra-processed food consumption in a sample of 2-9-year-olds in Brazil. Public Health Nutrition 2018

Padrões alimentares identificados pelo Questionário de Frequência Alimentar (QFA) em uma amostra de crianças de 2 a 9 anos (n. 929). Campinas e São Paulo, Brasil.

Padrão Alimentar Tradicional Carnes e ovos

Cereais

Leguminosas

Leite e derivados

Hortaliças

Frutas

Padrão Alimentar Ultraprocessado

Fast-Food

Sucos artificiais

Salgadinho de pacote

Guloseimas

Biscoitos e bolos com recheio

Fonte: Sociodemographic, anthropometric and behavioural risk factors for ultra-processed food consumption in a sample of 2-9-year-olds in Brazil. Public Health Nutrition 2018

Teses relacionadas:

MAIS, Laís Amaral. Estudo das práticas parentais de alimentação entre escolares brasileiros. 2017. 188f. Tese (Doutorado em Ciências) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2017.

WARKENTIN, Sarah. Estudo das práticas parentais de alimentação entre pré-escolares brasileiros. 2017. 188f. Tese (Doutorado em Ciências) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2017.

Artigos Relacionados:

MAIS, Laís Amaral; WARKENTIN, Sarah; VEGA, Juliana Bergamo; LATORRE, Maria do Rosário Dias de Oliveira; CARNELL, Susan; TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Sociodemographic, anthropometric and behavioural risk factors for ultra-processed food consumption in a sample of 2-9-year-olds in Brazil. Public Health Nutrition, v. 21, n. 1, p. 77-86, jan. 2018. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28988543>. Acesso em: 7 jun. 2018.

MAIS, Laís Amaral; WARKENTIN, Sarah; LATORRE, Maria do Rosário Dias de Oliveira; CARNELL, Susan; TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Validation of the comprehensive feeding practices questionnaire among Brazilian families of school-aged children. Frontiers in Nutrition, v. 2, nov. 2015. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4630658/pdf/fnut-02-00035.pdf>. Acesso em: 7 jun. 2018.

WARKENTIN, Sarah; MAIS, Laís Amaral; LATORRE, Maria do Rosário Dias de Oliveira; CARNELL, Susan; TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Validation of the comprehensive feeding practices questionnaire in parents of preschool children in Brazil. BMC Public Health, v. 16, jul. 2016. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4952239/>. Acesso em: 7 jun. 2018. 

MAIS, Laís Amaral; WARKENTIN, Sarah; LATORRE, Maria do Rosário Dias de Oliveira; CARNELL, Susan; TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Parental feeding practices among Brazilian school-aged children: associations with parent and child characteristics. Frontiers in Nutrition, v. 4, mar. 2017. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28377921>. Acesso em: 7 jun. 2018.

WARKENTIN, Sarah; MAIS, Laís Amaral; LATORRE, Maria do Rosário Dias de Oliveira; CARNELL, Susan; TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Factors associated with parental underestimation of child's weight status. Jornal de Pediatria, v. 94, n. 2, p. 162-169, mar./abr. 2018. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S002175571630300X?via%3Dihub>. Acesso em: 7 jun. 2018.

FREITAS, Fabrícia R.; MORAES, Denise E.B.; WARKENTIN, Sarah; MAIS, Laís Amaral; IVERS, Júlia F.; TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Maternal restrictive feeding practices for child weight control and associated characteristics. Jornal de Pediatria, fev. 2018. [on-line] Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0021755717305004?via%3Dihub>. Acesso em: 7 jun. 2018.

Publicado em Edição 10
Quinta, 11 Outubro 2018 10:25

O lado obscuro da beleza

Mais de 90% das certidões de óbito de pessoas que faleceram após passarem por lipoaspiração não trazem informações precisas. O preenchimento incorreto dificulta estabelecer a real causa da morte

Ana Cristina Cocolo

Imagem do abdomen de uma mulher medindo a circunferência com uma fita métrica

(Imagem: Andrea Pelogi)

Em 93% das certidões de óbito de pessoas que morreram após se submeterem a cirurgia de lipoaspiração há falhas no preenchimento, afirma o dermatologista e pesquisador Érico Pampado Di Santis. Em cerca de 64% dos documentos examinados as informações são imprecisas, ou seja, foram colocadas fora dos padrões preconizados pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e do Ministério da Saúde (MS), e em 29% as causas estabelecidas estão como indeterminadas ou a esclarecer. Apenas 7% das certidões estavam preenchidas corretamente. 

“A falta de informações dificulta não só estabelecer a causa da morte, como pode também mascarar eventuais erros médicos e impedir a adoção de medidas que poderiam poupar vidas”, explica o pesquisador. 

Os dados fazem parte da tese de doutorado de Di Santis, defendida no Programa de Pós-Graduação em Saúde Baseada em Evidências, na Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo. O trabalho reacendeu, entre os especialistas, um antigo debate para a criação de um projeto de lei que torne obrigatória a notificação de casos de complicações e mortes por lipoaspiração em todo o território nacional. 

O Brasil é o segundo país que mais realiza procedimentos estéticos cirúrgicos – perdendo somente para os Estados Unidos – e o pesquisador analisou apenas o universo de 102 casos que foram noticiados na imprensa brasileira, entre janeiro de 1987 e setembro de 2015. A pesquisa foi documental, descritiva e quantitativa e utilizou como fontes a mídia impressa – que forneceu o nome e a cidade de ocorrência da morte – e as certidões de óbito levantadas em cartórios de registro civil pelo país.

O apontamento referente à necessidade de notificação compulsória nos casos de mortes ou complicações não fatais em cirurgias estéticas foi consenso entre representantes do Conselho Federal de Medicina (CFM), sociedades brasileiras de Dermatologia (SBD) e de Cirurgia Plástica (SBCP) e do Centro Cochrane do Brasil, em audiência pública realizada no Congresso Nacional, em dezembro de 2017. Também opinaram a favor da mudança representantes e convidados das comissões de Seguridade Social e Família (CSSF) e de Defesa dos Direitos da Mulher (CMulher). 

Di Santis esclarece que essa discussão se arrasta há anos. “Apesar do empenho do próprio CFM na conscientização para o correto preenchimento da declaração de óbito e do questionamento, há quase dez anos, pela atual deputada federal Luiza Erundina, junto ao Ministério da Saúde, questionando não só o número de óbitos relacionados à lipoaspiração, como suas causas e outras questões, nada mudou”, diz. “Não sei explicar o porquê essa obrigatoriedade não foi levada em conta até o momento. A notificação, hoje, é um projeto de lei da deputada federal Pollyana Gama (PL 9.602/2018), está protocolado e, agora, depende de ser pautado pelo presidente da Câmara dos Deputados”.

Buraco que não fecha

pesquisador

Érico Pampado Di Santis, autor da pesquisa (Imagem: Arquivo pessoal)

O preenchimento incorreto ou incompleto das certidões de óbito no estudo do médico contou com a colaboração de Marcos Roberto Martins, professor de Patologia Médica da Universidade de Taubaté e especialista em exames necroscópicos, com mais de vinte anos de experiência. Martins encontrou várias lacunas no preenchimento. Entre elas: não citar o ato operatório e não obedecer ao raciocínio fisiopatológico – desde o evento inicial que desencadeou as causas que culminaram na morte, até o relato de várias hipóteses diagnósticas distintas –, na tentativa de justificar a morte da vítima.

Nos atestados de óbito analisados, os médicos que assinaram os documentos classificaram apenas 44,2% das mortes como causas indeterminadas – contra 64% do pesquisador –, 17,4% por tromboembolismo pulmonar (bloqueio de uma ou mais artérias dos pulmões causada por coágulo de sangue) e 14% por perfuração. 

Segundo o dermatologista, não há dados oficiais sobre mortes por cirurgias estéticas no país. “No Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, essas mortes são registradas como ‘causas externas’ que, em sua lista, incluem desde acidentes e agressões até complicações de assistência médica e cirúrgica”, afirma. “Nossa fonte foi a imprensa e é muito nítido que há subnotificação, já que outros casos ocorreram e não foram noticiados pela mídia, não sendo, dessa forma, possíveis de serem contabilizados nessa pesquisa”.

Protecionismo? 

Outro agravante apontado no estudo é que 13,64% dos médicos ligados às mortes estudadas estão envolvidos em mais de um caso e um deles em cinco. Das 86 certidões de óbito resgatadas nos cartórios, em 33% delas não havia a especialidade do médico que atestou a morte e 11,62% o óbito foi atestado pelo mesmo médico que realizou a cirurgia. 

Para Di Santis, tanto o Ministério Público quanto os conselhos de classe são extremamente atuantes perante as denúncias, com exemplos reais de condenações e prisões de médicos envolvidos, além da cassação da licença do exercício profissional. “Toda morte de causa externa, ou seja, não natural, deve ser avaliada pelo perito médico. O problema novamente é quando não há ciência do caso. Com o atestado preenchido, a família aceita aquilo que foi declarado e não questiona. O caso não chega ao conhecimento das autoridades policiais, o corpo é enterrado e o caso se encerra“, afirma. “A notificação permitirá que se analise a complicação que levou ao óbito e se tente chegar à sua causa”.

O médico sugere ainda que seja instituído protocolo baseado em evidências, assim como é realizado na Força Aérea Brasileira. “No Brasil, o Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Sipaer) e o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) foram fundamentais para colocar a aviação como um dos meios de transportes mais seguros que temos”, afirma. “A prevenção é fundamental. E para prevenir é necessário conhecer o conjunto de eventos que coincidiram para culminar no acidente”.

Casadas são maioria

Entre as vítimas, 98% eram mulheres, a maioria casadas e com idades entre 21 e 50 anos. Apesar de mais da metade dos procedimentos terem sido feitos dentro de hospitais (54%), cerca de 45% das mortes ocorreram no mesmo dia da cirurgia e 83% na primeira semana. Em quase 62% do total de mortes (102), a lipoaspiração foi realizada de maneira isolada e não associada a outros procedimentos cirúrgicos. 

As mortes ocorreram, principalmente, em hospitais (72%). A justificativa para isso, ainda segundo o autor do estudo, é o encaminhamento dos pacientes a essas instituições quando há complicações em local fora do recinto hospitalar (clínicas) e também pela procura do paciente, após alta das clínicas de estética. Cerca de 54% das cirurgias que terminaram em óbito ocorreram em hospitais e 46% em clínicas. “Existem correntes que afirmam que a lipoaspiração deve ser realizada em hospitais pela estrutura que eles apresentam, como existência de UTI e banco de sangue, além da disponibilidade de outros profissionais no local”, explica. “Outras, falam dos riscos de infecção hospitalar. Não há evidências científicas que mostrem qual o local ideal é mais seguro para realização de lipoaspiração”. 

O médico reforça que a indicação do profissional e as avaliações pré-operatórias, que incluem não apenas exames, mas conhecer os hábitos e os históricos pessoal e familiar, são fundamentais para diminuir o risco de complicações. 

Brasil é vice em número de procedimentos

Para se ter uma ideia do montante desse tipo de procedimento ao redor do mundo, um levantamento da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica (Isaps) aponta que, em 2015, foram realizadas 9,6 milhões de cirurgias estéticas. A lipoaspiração entra como a segunda no ranking desse tipo de intervenção, correspondendo a 14,5% do total (1,4 milhão), desbancada apenas para a colocação de próteses de mama (quase 1,5 milhão ou 15,4% do total). 

Também conhecida como lipoescultura, a lipoaspiração pode ser indicada para a retirada do acúmulo de gordura em várias regiões do corpo e ser realizada isoladamente ou conciliada a outros procedimentos cirúrgicos, como a abdominoplastia e a redução de mamas. Há risco de complicações como em qualquer outra cirurgia e a pessoa interessada em passar pelo procedimento deve gozar de boa saúde e não estar com seu peso corporal acima de 30% do considerado ideal para a estatura. 

De acordo com Di Santis, estudos consagrados apontam que a taxa de mortalidade para lipoaspiração é de 19 mortes para cada 100.000 cirurgias realizadas. 

No Brasil, o artigo 9º da resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) nº 1.711, de 10 de dezembro de 2003, estabelece que os volumes aspirados de gordura não devem ultrapassar 7% do peso corporal quando se usar a técnica infiltrativa – preferida pelos cirurgiões, na qual é precedida pela injeção de solução composta por soro, substâncias vasoconstritoras e anestésicos que ajudam a contrair veias e artérias, diminuindo o sangramento – ou 5% quando se usar a técnica não infiltrativa (sem injeção de soluções). No entanto, independentemente da técnica escolhida pelo profissional, a norma também institui que o procedimento não deve ultrapassar 40% da área corporal.

Raio X do estudo

98% eram mulheres

43% eram casadas e 38% solteiras

Maioria das mortes ocorreram na faixa etária dos 21 aos 50 anos

45% das mortes ocorreram no mesmo dia do procedimento; 83% na primeira semana 

24,4% das mortes ocorreram no Estado de São Paulo, seguido por Goiás e Rio de Janeiro com 11%

54% das cirurgias que terminaram em óbito ocorreram em hospitais e 46% em clínicas

12% dos médicos estão envolvidos em mais de uma cirurgia que culminou na morte do paciente

61,8% das mortes ocorreram devido a somente lipoaspiração e 38,2% foram associadas a mais de um procedimento

77% dos médicos responsáveis pelas cirurgias que resultaram em óbito tiveram a especialidade identificada: 73% eram cirurgiões plásticos, 23% não tinham registro de especialidade (Registro de Qualificação de Especialista – RQE) no Conselho Federal de Medicina (CFM) e 2,3% eram ortopedistas e 1,7% cirurgiões gerais

11,62% dos óbitos foram atestados pelo mesmo médico que realizou o procedimento estético, contrariando a norma legal


Fonte: Mortes relacionadas à lipoaspiração no Brasil entre 1987 e 2015 - Érico Pampado Di Santis

Tese relacionada:
DI SANTIS, Érico Pampado. Mortes relacionadas à lipoaspiração no Brasil entre 1987 e 2015. 2017. 215 f. Tese (Doutorado em Ciências) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2017.

Publicado em Edição 10
Terça, 09 Outubro 2018 13:31

Deserto alimentar faz soar alarme no Brasil

Comida ultraprocessada, desperdício, desigualdade econômica e modelo de produção e consumo estimulado pelo agronegócio criam um quadro de crise que afeta negativamente os indivíduos

Valquiria Carnaúba

p022 Entreteses porValquiriaCarnauba

Consumidora e nutricionista, Hildizânia defende que o Brasil tem uma diversidade de alimentos frescos e com todos os nutrientes necessários e preços acessíveis (imagem: Valquíria Carnaúba)

Hildizânia Machado, mãe da pequena Francesca, com 11 meses, não perde a feira livre que acontece aos sábados a algumas quadras de sua residência, no bairro paulistano da Vila Mariana. Ela visita o mercado de seu bairro de duas a três vezes por semana e a zona cerealista de São Paulo pelo menos uma vez por mês, sempre em busca dos alimentos mais frescos para prepará-los em casa. Maria Helena, moradora do município de Santos e responsável pela alimentação da família de três filhos e cinco netos, toma o ônibus um sábado por mês em direção a um mercado atacadista para adquirir frutas e hortaliças; para voltar com as compras, paga pelo serviço de van. Aproveita as promoções de alimentos frescos no supermercado mais próximo e, durante a semana, complementa a dispensa, principalmente, com produtos ultraprocessados.

Comparando os dois casos, é possível deduzir a dificuldade de encontrar alimentos frescos a preços acessíveis e qualidade adequada em regiões periféricas de cidades brasileiras. O problema vem sendo cada vez mais documentado e caracteriza a expansão dos desertos alimentares no país, áreas em que é difícil o acesso a alimentos saudáveis, como frutas e verduras. Sua ocorrência está associada à desigualdade social e segregação espacial: nas áreas de nível socioeconômico mais baixo, verifica-se que a menor disponibilidade de frutas e hortaliças e grande oferta de itens ultraprocessados tem alterado significativamente os padrões alimentares dos moradores.

Esse processo foi observado por Paula Andrea Martins, docente do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista, que examinou a associação entre o ambiente alimentar local e o consumo de alimentos ultraprocessados por mães de todas as idades e crianças de 0 a 10 anos, valendo-se da seleção aleatória de famílias provenientes de 36 setores censitários da cidade de Santos, município do litoral paulista com população total de 420 mil habitantes (IBGE, 2010). Nos Estados Unidos, um determinado local é considerado deserto alimentar caso agrupe 500 pessoas que precisem se deslocar mais de 1,5 km para ter acesso a estabelecimentos de comida saudável e nutritiva, como hortifrútis e supermercados. Já o pântano alimentar refere-se a uma área de 4 km², onde 90% dos comércios oferecem comida barata e calórica, como redes de fast-food, lojas de conveniência e pequenos mercados conhecidos por vender produtos de menor qualidade. O Brasil não possui uma definição de parâmetros para caracterização dos dois conceitos, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS).

Sua constatação principal foi que o fenômeno já dá sinais naquela cidade, onde estabelecimentos comerciais facilitadores da alimentação saudável são mais encontrados em regiões de maior poder aquisitivo. “Essa diferença teve impacto no consumo alimentar das crianças. Aquelas que moravam em áreas onde o acesso a produtos ultraprocessados era maior que o acesso a frutas e hortaliças tinham um consumo maior desses produtos na alimentação”, explica a pesquisadora.

corredor mercado

Oferta abundante de alimentos ultraprocessados nos mercados  a preços mais acessíveis que a alimentação in natura preocupam especialistas (imagem: Valquíria Carnaúba)

alimentos

Alimentos minimamente processados são encontrados em açougues e peixarias (imagem: Alex Reipert)

Índices alarmantes

Martins e os demais colaboradores encontraram associações significativas entre o consumo de alimentos e seu grau de processamento. Publicações anteriores, com resultados da mesma pesquisa, já haviam observado índices alarmantes de sobrepeso e obesidade nas crianças e que o consumo de itens minimamente processados liga-se a três aspectos: uso frequente de mercados especializados para comprar frutas e vegetais, hábito de caminhar durante as compras e o acesso a produtos frescos no bairro dos participantes (conforme tabela abaixo).

Já os consumidores mais propensos a adquirir ultraprocessados dificilmente encontraram pontos de venda de produtos in natura e relataram utilizar táxis para deslocamento até os estabelecimentos comerciais.

No estudo mais recente, diferentes modelos mostraram a associação de três variáveis utilizadas para caracterizar o ambiente alimentar: a proporção de comércios classificados como tendo predominantemente produtos ultraprocessados para venda na região de moradia das crianças, o número de produtos ultraprocessados vendidos nesses comércios e a proporção de ultraprocessados em relação ao total de alimentos.

A constatação dos pesquisadores foi que esses alimentos são encontrados em abundância e de forma predominante em diferentes tipos de comércio: 60,6% deles ofertam predominantemente produtos prontos para consumo (RCP) ao consumidor. Além disso, o maior consumo de RCP foi fortemente associado à maior densidade de lojas focadas no comércio de itens prontos para o consumo.

Embora os tipos mais comuns de lojas de alimentos em Santos sejam mercados de agricultores, barracas de comida fresca, confeitarias, lojas de conveniência, padarias e supermercados, foram avaliados também estabelecimentos como açougues, aviários e peixarias. As lojas de alimentos que tiveram a maior proporção de RCP foram padarias, mercearias, supermercados, confeitarias, lojas de conveniência e barracas de comida de rua. Por outro lado, os grandes responsáveis pela oferta de alimentos não processados ou minimamente processados (UF-MPF) foram mercados de produtores, barracas de alimentos frescos, açougues, aviários e peixarias, com uma maior proporção desses itens em suas prateleiras em relação aos RCPs. (conforme tabela abaixo). O resultado mais importante consiste na associação entre a disponibilidade de produtos ultraprocessados e seu consumo por crianças menores de 10 anos, avaliada por meio de modelos de análise de regressão multinível. Variáveis, como uma proporção maior de lojas focadas no comércio de alimentos industrializados (10%) e média de itens industrializados vendidos em cada estabelecimento (10%), diminuíram em aproximadamente 1,7% as chances de consumo de produtos naturais ou minimamente processados pelas crianças pesquisadas.

“Os resultados da pesquisa apontam para uma questão importante na discussão recente sobre o impacto do ambiente alimentar, pois ainda não sabemos bem em que medida o aumento da oferta de frutas e hortaliças em lojas varejistas afetam o perfil de consumo. Embora o processamento seja importante para garantir a segurança e a qualidade alimentar, sua grande oferta tem dominado o abastecimento de países desenvolvidos e em desenvolvimento, influenciando negativamente a disponibilidade de produtos frescos em lojas locais. O Censo IBGE (2010) confirma essa tendência, mostrando que os padrões de consumo das famílias são cada vez mais caracterizados pela compra frequente de alimentos pré-embalados e pré-preparados, bem como alimentos altamente processados", pondera a pesquisadora.

Alguns estudos mostram que a desigualdade socioeconômica é o fator mais determinante no consumo alimentar, considerando que as estratégias de marketing são hoje particularmente voltadas à população mais pobre e configuram uma barreira para alimentação saudável. “A questão dos desertos alimentares é mais complexa do que a simples existência de equipamentos de varejo. Algumas intervenções para promover acesso a alimentos saudáveis utilizadas em países desenvolvidos têm proposto a alocação de supermercados em áreas de desertos alimentares e essa pode não ser uma boa solução, uma vez que a presença desses estabelecimentos pode favorecer ainda mais o consumo de ultraprocessados”, discorre.

Com base nessas informações, Martins conclui que o alto consumo de industrializados deve ser tratado como um problema de saúde pública. Seu alerta confirma a crescente importância do tema, que vai ao encontro da questão da segurança alimentar. Um estudo, publicado em 2016 pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), revelou que a produção mundial de alimentos é suficiente para suprir a demanda das 7,3 bilhões de pessoas que habitam a Terra.

Apesar disso, aproximadamente uma em cada nove dessas pessoas ainda vive a realidade da fome. Entretanto, a população com acesso à comida está sujeita a uma alimentação pobre em nutrientes devido à preferência pelos ultraprocessados. O custo dessa opção (ou da falta dela) é alto: estima-se que o baixo consumo de frutas e verduras cause cerca de 2,7 milhões de mortes a cada ano e está entre os 10 maiores fatores de risco que contribuem para a mortalidade, segundo o World Health Report 2002. O anúncio foi feito no Rio de Janeiro, durante a reunião anual do Fórum Global da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre Prevenção e Controle de Doenças Não Transmissíveis.

Entreteses tabela
 

ESTABELECIMENTO
[ TOTAL 672 ]

PRODUTOS PARA CONSUMO

PRODUTOS MINIMAMENTE PROCESSADOS

Categoria de loja de alimento

% do total

% do total

% do total

Açougue, avicultura e pesca

10,7

30,6

69,4

Loja de massas frescas

1,5

90

10

Pequena loja de serviço completo, delicatessen

9,2

75,8

24,2

Padaria

17,6

100

0

Carrinho de comida de rua

0,7

100

0

Mercearia, supermercado

16,2

93,6

6,4

Loja de conveniência

4,9

100

0

Loja de produção

1,3

11,1

88,9

Mercado de agricultores, barraca de comida fresca

28,3

3,2

96,8

Loja de doces

9,5

100

0

Novos sistemas alimentares

Para Martins, ainda que a disponibilidade de alimentos saudáveis seja significativa em um contexto de fornecimento e preço ideais, as decisões dos consumidores estão frequentemente condicionadas à influência da propaganda e até à forma como os alimentos são comercializados, uma consequência de nosso modelo produtivo (da produção à distribuição). “O debate sobre a promoção de hábitos alimentares saudáveis deve passar obrigatoriamente pela questão da regulação da mídia, particularmente da propaganda direcionada às crianças e de um sistema de rotulagem que proteja os interesses dos consumidores.

Porém, a discussão sobre o acesso a alimentos saudáveis não pode estar desconectada da necessidade de rever o modelo atual, centrado no agronegócio e monocultura, no uso intensivo de fertilizantes químicos e pesticidas. Existe extensa documentação sobre as consequências que esse modelo produz sobre o meio ambiente, a saúde e o agravamento da desigualdade social. Mas temos também muitas evidências sobre modelos baseados na agricultura familiar, agroecologia e agricultura urbana e periurbana que podem sustentar mudanças estruturais importantes”, discorre Martins.

Porém, a discussão sobre o acesso a alimentos saudáveis não pode estar desconectada da necessidade de rever o modelo atual, centrado no agronegócio e monocultura, no uso intensivo de fertilizantes químicos e pesticidas. Existe extensa documentação sobre as consequências que esse modelo produz sobre o meio ambiente, a saúde e o agravamento da desigualdade social. Mas temos também muitas evidências sobre modelos baseados na agricultura familiar, agroecologia e agricultura urbana e periurbana que podem sustentar mudanças estruturais importantes”, discorre Martins.

Outra questão que a pesquisadora coloca é o peso das decisões políticas que desencadeiam problemas de abastecimento. “A implementação de subsídios agrícolas, por exemplo, pode favorecer o aumento da produção de monoculturas, como o milho e a soja, diminuindo muito o custo de matrizes utilizadas pela indústria alimentícia na produção de alimentos ultraprocessados. Esses, por sua vez, acabam chegando ao consumidor a um preço final falsamente barato em comparação ao de alimentos frescos, pois os baixos preços de muitos desses produtos não incluem as externalidades negativas, como os custos ambientais da sua produção ou os custos para a saúde de seu consumo habitual.

Cachos de bananas

Imagem: Alex Reipert

feira

A agricultura familiar responde a 70% dos alimentos consumidos no Brasil e favorece a expansão das feiras livres (imagem: Valquíria Carnaúba)

Sacos de arroz

Alimentos como arroz, feijão, leite, especiarias e farinhas enquadram-se no grupo de alimentos minimamente processados (imagem: Valquíria Carnaúba)

MODELO DO AGRONEGÓCIO ESTIMULA ABANDONO DE HÁBITOS SAUDÁVEIS

No Brasil, o surgimento dos desertos alimentares é ainda mais complexo, pois está ligado às mudanças na produção e abastecimento de alimentos. De um lado, a expressiva agropecuária brasileira e o desperdício de alimentos destoam de um suposto cenário de escassez. De outro, publicidade, mudanças na cultura alimentar, ritmo de vida e até a “indústria do saudável” – alimentos falsamente naturais, como barras dietéticas – são fatores diretamente atrelados ao abandono de hábitos alimentares saudáveis.

Segundo a pesquisadora Paula Andrea Martins, as intervenções destinadas a promover a aquisição de alimentos menos processados, em ambientes como o de Santos, devem passar por mudanças na forma como estão organizados os sistemas alimentares atualmente, envolvendo questões como o modelo de produção, distribuição e transporte e comercialização dos alimentos.

O tema começa a receber maior atenção dos órgãos da administração pública federal, mas carece de dados atualizados para uma avaliação precisa sobre a desertificação alimentar no Brasil. Os levantamentos mais recentes que apresentam os dados do cenário alimentício brasileiro, realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), datam de 10 anos, a exemplo da Pesquisa de Orçamentos Familiares e do Censo Agropecuário. Um obtém informações gerais sobre hábitos de consumo e despesas, gerando bases de dados e estudos sobre o perfil nutricional da população, o outro permite conhecer, entre outros pontos, o nível de produção da atividade agropecuária brasileira.

Entretanto, uma Análise do Consumo Alimentar Pessoal no Brasil, divulgada em 2011 pelo órgão, baseada na Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2009, fornece pistas sobre o fenômeno no país ao apontar que as zonas urbanas brasileiras consomem mais alimentos processados. Os dados mostram que a população na zona rural consome diariamente mais arroz (181,2 g contra 156,2 g), feijão (208,1 g contra 177,9 g), peixes frescos (53,5 g contra 17,5 g) e farinha de mandioca (19,1 g contra 4,7 g), manga (10,7 g contra 3,5 g), açaí (6,8 g contra 2,2 g) e batata-doce (4,3 g contra 2,1 g). Já na área urbana destacam-se refrigerantes (105 g contra 42,7 g), pão de sal (56,9 contra 33,4 g), cerveja (33,8 g contra 17,5 g) e sanduíches (13,5 g contra 2,2 g).

Mais recentemente, órgãos como o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) começam a se antecipar na discussão do assunto. Em 2017, o MDS realizou a primeira oficina de trabalho Desertos Alimentares no Brasil, com a finalidade de construir uma metodologia que permita mapear os desertos alimentares e oferecer informações que subsidiem a adoção de políticas públicas de promoção do direito à alimentação adequada e saudável e de prevenção ao sobrepeso e à obesidade.

Todas essas ações serão importantes para compreender e combater o fenômeno e como atinge o país. Além de ser considerado o terceiro maior exportador de produtos agrícolas do mundo, de acordo com a Organização Mundial do Comércio (2015), o Brasil assumiria a liderança das exportações mundiais do setor agrícola em 2024, segundo projeções da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A produção, no entanto, é voltada ao agronegócio mundial, com destaque para soja, milho, laranja, cana-de-açúcar, algodão, mandioca e café. Uma alimentação balanceada é composta por muito mais ingredientes, lacuna preenchida atualmente pela agricultura familiar.

A categoria, na qual se inserem os produtores rurais assentados, responde por 70% dos alimentos consumidos no Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), entram nesse montante itens como mandioca (87%), feijão (70%), carne suína (59%), leite (58%), carne de aves (50%) e milho (46%). Por isso, a percepção do órgão é que a oferta de alimentos à população é mais impactada onde há grande concentração de famílias assentadas.

"Há municípios que cresceram e se desenvolveram graças à reforma agrária. Podemos citar como exemplos os paulistas Promissão (834 famílias assentadas), Castilho (966 famílias assentadas) e Andradina (559 famílias assentadas). Tais cidades se inserem em regiões que se caracterizavam por pecuária extensiva e os assentamentos proporcionaram a diversificação da produção agropecuária. Em muitos casos, a reforma agrária possibilitou o ressurgimento das feiras livres, que é uma forma de venda direta ao consumidor, sem atravessadores e, portanto, a preços mais justos para ambas as partes", afirma a Assessoria de Imprensa do Incra.

A importância da proximidade entre centros produtores e consumidores é realçada pelo gargalo que os produtores rurais enfrentam hoje ao distribuir sua produção. Nos centros urbanos, por exemplo, os alimentos chegam principalmente pelas rodovias, etapa que impõe muitos desafios relativos à melhoria do escoamento da safra, processamento e transporte dos alimentos até o varejo.

A importância da proximidade entre centros produtores e consumidores é realçada pelo gargalo que os produtores rurais enfrentam hoje ao distribuir sua produção. Nos centros urbanos, por exemplo, os alimentos chegam principalmente pelas rodovias, etapa que impõe muitos desafios relativos à melhoria do escoamento da safra, processamento e transporte dos alimentos até o varejo.

Quando o produtor perpassa essa fase e os alimentos alcançam as regiões mais distantes, são os entrepostos comerciais que assumem o papel estratégico no escoamento de alimentos para a população. A Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), maior entreposto de frutas e verduras da América Latina, representa um importante elo na cadeia de abastecimento de produtos hortícolas, possibilitando que a produção do campo, proveniente de vários estados brasileiros e de outros países, chegue à mesa do consumidor final.

“O produtor/fornecedor entra pelas portarias com a nota fiscal destinada ao permissionário Entreposto Terminal São Paulo (ETSP), que vende seus produtos aos respectivos clientes, como supermercados e quitandas”, explica a Assessoria de Imprensa da companhia.

O espaço destinado à produção rural familiar e as vias de escoamento desses alimentos podem ter sido determinantes no contexto do avanço da desertificação alimentar. Não obstante, o fenômeno avança paralelamente à desaceleração da reforma agrária, que teve seu pico entre os anos de 1996 e 2006 (conforme gráfico abaixo fornecido pelo Incra). "A estrutura fundiária brasileira pouco se alterou ou mesmo manteve uma tendência concentracionista". O órgão alega que, nos últimos 10 anos os investimentos federais se concentraram no desenvolvimento dos assentamentos e aumento da produção, com destaque para os programas de compras institucionais que favorecem o escoamento, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

No entanto, considerando que a população brasileira aumentou em 23,7 milhões nos últimos 10 anos, passando de um total de 183,9 milhões para 207,6 milhões (IBGE 2017), é possível deduzir que para o abastecimento da mesa dos brasileiros se manter no mesmo ritmo, a produção do campo deveria acompanhar esse crescimento ou pelo aumento das áreas de produção familiar ou pelo avanço da reforma agrária.

p030 Entreteses tabela

REDUÇÃO DO DESPERDÍCIO É UM GRANDE DESAFIO

Segundo a Embrapa, a escassez de alimentos pode ser atenuada com a adoção de medidas de combate ao desperdício de alimentos, à infraestrutura inadequada na etapa de produção e com medidas educativas para mudar o comportamento do consumidor brasileiro.

“Sabemos que as perdas começam ainda nas propriedades rurais por fatores diversos, desde o ataque de pragas até a questões comportamentais ou de mercado. Já na etapa de consumo, o brasileiro valoriza a abundância à mesa, gosta de fazer grandes compras mensais, e nem sempre planeja a compra ou está disposto a reaproveitar as sobras das refeições”, explica Gustavo Porpino, analista da Embrapa.

Ele ressalta que o Brasil ainda carece de um levantamento abrangente que determine com precisão o quanto se perde, mas traz dados como os da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) para a América Latina, que apontam um desperdício de alimentos na casa dos 28% em países latino-americanos, e os da Associação Brasileira de Supermercados, entidade que em 2016 contabilizou que o varejo nacional jogou fora o equivalente a R$7,1 bilhões em alimentos. Não obstante, afirma que o desperdício abrange tanto alimentos naturais, mais sujeitos ao descarte ainda na etapa de produção ou por deficiências no escoamento da safra, quanto industrializados, que tendem a ser mais descartados em razão do prazo de validade e do preparo em excesso. “Por vezes, determinada associação de produtores tem que atender aos padrões de qualidade de grandes redes varejistas e termina jogando fora parte da produção apenas por questões estéticas”.

Para reduzir o desperdício, tanto dos alimentos naturais quanto dos industrializados, Porpino afirma que a posição da Embrapa é de defesa de caminhos que visem à aproximação dos elos da cadeia, ao fortalecimento dos bancos de alimentos e da aprovação de leis de fomento às doações. “O varejo tem papel importante por estar posicionado entre o produtor e o consumidor. Pode influenciar toda a cadeia e sairá ganhando se o consumidor passar a desperdiçar menos. É errado afirmar que supermercados venderão menos se o consumidor reduzir o desperdício. O mais provável é a compra de alimentos se tornar mais diversificada em um cenário com menor desperdício”.

p031 Entreteses porValquiriaCarnauba

imagem: Valquíria Carnaúba

PESQUISA CONSIDERA DADOS SOCIODEMOGRÁFICOS

p032 Entreteses PESQUISADORA

Paula Andrea Martins, docente do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista (imagem: Arquivo pessoal)

Para participar do estudo foram selecionadas mães de crianças entre um e dez anos de idade, excetuando-se mulheres com alguma condição de saúde que pudesse afetar seu estado nutricional (gravidez, diagnóstico de HIV positivo, neoplasia ou ter sido submetida à cirurgia bariátrica). "Utilizamos esses critérios pois o grupo materno-infantil constitui prioridade na investigação em saúde pública, devido aos possíveis efeitos intergeracionais da alimentação”, pontua a pesquisadora Paula Andrea Martins.

A amostra final consistiu em uma média de 16 entrevistas domiciliares por setor censitário (n = 538), com taxa de resposta de 70,3%, realizadas entre janeiro e dezembro de 2010. Para a abordagem, Paula utilizou o método de inquérito alimentar chamado Recordatório 24h, e um instrumento para avaliar o ambiente alimentar de cada família por meio de um inventário a disponibilidade, qualidade e preço de 31 grupos de produtos de alimentos, incluindo: grãos refinados, grãos integrais, cereais matinais, pães brancos, pães integrais, farinha, macarrão, alimentos prontos para consumo. A maioria das mães estudou além do ensino fundamental (82,7%) e a média de escolaridade para todos os setores censitários da cidade foi de 8,8 anos.

A pesquisadora considerou composição familiar, posse de bens, condições de moradia, condições de saneamento e nível de escolaridade da mãe. A condição socioeconômica da família foi definida de acordo com o Critério de Classificação Socioeconômica Brasileira, baseada na posse de bens (TV, rádio, carro, aspirador de pó, videogravador e/ou leitor de DVD, geladeira, congelador e máquina de lavar), utilização de serviços domésticos, características da casa (número de banheiros) e nível de escolaridade do chefe da família.

A maioria dos agregados familiares entrevistados eram das classes econômicas B e C, tinham pelo menos um veículo, e a maioria tinha mais de um residente por quarto. Grande parte das mulheres da amostra trabalhava fora de casa e concluíra o ensino médio.

Alimentos Consumidos: Alimentos Consumidos: "As participantes relataram consumo alimentar das crianças no dia anterior à pesquisa, em duas visitas realizadas com 15 a 90 dias de intervalo".

Ambiente Alimentar: “Avaliamos quase todos os comércios de alimentos da área urbana de Santos (exceto nos morros). Utilizamos um instrumento no qual registramos a disponibilidade, qualidade e preço de alimentos distribuídos em 31 grupos e classificados de acordo com o grau de processamento industrial dos alimentos. Registramos as coordenadas geográficas de todos os comércios avaliados com uso de um GPS e essa informação foi utilizada para avaliar o ambiente próximo ao domicílio dos participantes”.

Grau de processamento: "Os alimentos consumidos foram classificados em conformidade com o Guia Alimentar para a População Brasileira (2014). Antes de ser publicada no guia, utilizamos o trabalho do grupo que a produziu, coordenado por Carlos Augusto Monteiro, docente na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), que classificava os alimentos em três grupos: o primeiro formado por alimentos não processados ou minimamente processados, como frutas e verduras, mesmo que tenham sido lavadas ou cortadas. Os sucos naturais sem adição de açúcar também fazem parte desse grupo. O segundo foi composto por alimentos considerados ingredientes para preparações culinárias, como açúcar, óleos e massas cruas. O terceiro incluía alimentos prontos para o consumo, como preparações prontas congeladas, biscoitos e doces, macarrão instantâneo e carnes processadas, como nuggets, salsicha e embutidos”.

Análise dos dados: Análise dos dados: A quantidade de alimentos e bebidas consumidas pelas crianças foi classificada de acordo com o grau de processamento. Os comércios e os alimentos disponíveis foram classificados utilizando-se a mesma referência. Medimos a associação entre disponibilidade no ambiente alimentar de moradia e consumo alimentar das crianças com modelos de análise de regressão linear multinível, apropriados para esse desenho de estudo.

Artigos relacionados:

LEITE, Fernanda Helena Marrocos; OLIVEIRA, Maria Aparecida; CREMM, Elena de Carvalho; ABREU, Débora Silva Costa; MARON, Luana Rieffe; MARTINS, Paula Andrea. Availability of processed foods in the perimeter of public schools in urban areas. Jornal de Pediatria, v. 88, n. 4, p.328–34, jul. 2012. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/jped/v88n4/a09v88n4.pdf

VEDOVATO, G. M.; TRUDE, A. C. B.; KHARMATS, A. Y.; MARTINS, P. A. Degree of food processing of household acquisition patterns in a Brazilian urban area is related to food buying preferences and perceived food environment. Appetite, v. 87, p. 296-302. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25576022

Publicado em Edição 10

Segundo Renato Janine Ribeiro, professor visitante que coordena o grupo de trabalho responsável pela implantação do Instituto de Estudos Avançados da Unifesp, a missão desse novo órgão será a realização de pesquisas de ponta e a elaboração de propostas de políticas públicas

Daniel Patini

Renato Janine por Alex Reipert

Imagem: Alex Reipert

Promover pesquisas de ponta, adotando o diálogo interdisciplinar como princípio e método, é um dever das universidades de vanguarda no Brasil, as quais pertencem – em sua maioria – ao setor público, afirma Renato Janine Ribeiro, professor visitante da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Unifesp. Com esse objetivo estratégico, o ex-ministro da Educação e professor titular da Universidade de São Paulo (USP) coordena, desde o final de fevereiro, um grupo de trabalho responsável pela elaboração do projeto de implantação do Instituto de Estudos Avançados da Unifesp.

“Internacionalmente, os institutos de estudos avançados têm um foco voltado para a pesquisa. Mas, no Brasil, quando começaram a ser criados institutos com esse perfil, houve a preocupação de que também se dedicassem à formulação de políticas públicas. A boa notícia é que essa preocupação já está impregnada no espírito da Unifesp, em seus cursos e programas de pós-graduação. Assim, a prioridade do futuro IEA deverá ser a evolução na pesquisa dos assuntos novos e mais relevantes, bem como a discussão sobre o modo como o desenvolvimento científico impacta as formas de vida e de relacionamento humano. Nada é poupado pela velocidade das mudanças que ocorrem em nosso tempo”, afirma Ribeiro. 

Confira, na entrevista a seguir, as principais propostas defendidas pelo docente.

Entreteses - Como o senhor avalia seu trabalho na Unifesp?

Renato Janine Ribeiro - Fiquei muito contente com a proposta de trabalhar como professor convidado da Unifesp, que é uma das melhores universidades brasileiras, e estimulado pela possibilidade de auxiliar a instituição a progredir nas direções que ela escolher. Já fui diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), entre 2004 e 2008, e conheço bem o sistema de pós-graduação. Minha equipe, naquele período, montou grande parte dos critérios ainda utilizados na avaliação. Com isso, foi possível compreender muitas questões sobre os progra-mas de mestrado e doutorado, que é uma área na qual a Unifesp é particularmente forte. Ao mesmo tempo, ela tem-se expandido e criado cursos novos.

 

E. Qual a importância de um instituto de estudos avançados para uma universidade?

R.J.R. Um instituto de estudos avançados é um ponto importante em uma instituição de pesquisa. Pode-se observar que as 20 melhores universidades brasileiras são as que se destacam em pesquisa, e a Unifesp está entre elas. É muito importante, quando se tem um foco em pesquisa, identificar estudos de ponta, dentro da universidade e fora dela. Então, fazer uma prospecção das possibilidades da universidade em relação às pesquisas de ponta é algo essencial. Para isso, será criado o instituto, com a minha colaboração.

 

Renato Janine por Alex Reipert

Imagem: Alex Reipert

E. Entre os objetivos estabelecidos por esse tipo de instituto, quais podemos destacar? 

R.J.R. Internacionalmente, os institutos de estudos avançados têm um foco voltado para a pesquisa. Mas, no Brasil, quando começaram a ser criados institutos com esse perfil, houve a preocupação de que também se dedicassem à formulação de políticas públicas. A boa notícia é que essa preocupação já está impregnada no espírito da Unifesp, em seus cursos e programas de pós-graduação. Assim, a prioridade do futuro IEA deverá ser a evolução na pesquisa dos assuntos novos e mais relevantes. 

Não há uma receita pronta para isso. Os pesquisadores mais destacados precisam ser consultados para a indicação dos novos horizontes de investigação científica. Com a ajuda deles, vamos elaborar um projeto colaborativo que venha da própria Unifesp, com base nas decisões adotadas em reuniões que são realizadas. 

Além disso, temos de discutir de que modo o desenvolvimento científico impacta as formas de vida e de relacionamento humano. Nada é poupado pela velocidade das mudanças que ocorrem em nosso tempo. Uma novidade é que, cada vez mais, a ciência e a pesquisa de ponta mudam a vida, numa escala nunca antes vista e que só deverá crescer. 

 

E. O instituto tem como foco a interdisciplinaridade?

R.J.R. Há uma grande tendência de delimitar cada vez mais o objeto de pesquisa, exigindo maior especialização dos pesquisadores, o que também é algo bom, embora torne as pessoas muito fechadas em seu campo de atuação. Às vezes, a injeção de conhecimento de uma área em outra pode representar uma revolução científica. O grande exemplo histórico é o da revolução que a geometria, no começo da Modernidade, efetuou em inúmeras ciências. Nos últimos anos, houve um aumento na qualificação das especializações, mas perdeu-se o diálogo interdisciplinar. E esse diálogo não trata apenas da troca de ideias secundárias; é, muitas vezes, a tentativa de ver como o paradigma de uma área pode ajudar outra, sem que haja a supremacia de uma delas. Se um instituto de estudos avançados tem a vocação interdisciplinar, tal condição poderá ser muito enriquecedora. Na verdade, o que tenho notado nas reuniões preliminares é a vontade de trocar ideias: o instituto deve estimular esse desejo, fornecendo meios e, sobretudo, reunindo pesquisadores de diferentes áreas em torno de assuntos de interesse comum e também incomum.

 

E. Que outros projetos o senhor pretende desenvolver na Unifesp?

R.J.R. No segundo semestre deste ano, vou oferecer um curso de pós-graduação sobre utopia e redução de danos. A utopia hoje é vista como sinônimo de projeto inviável, mas a abolição da escravatura, a igualdade de gêneros e o voto universal, por exemplo, foram fruto de utopias que funcionaram. Por outro lado, há uma linha diversa, que é a redução de danos. Parte-se do princípio de que a sociedade tem muitos fatores de infelicidade e injustiça, sendo impossível remover todos. E tentar uma solução radical e utópica, pode piorar a situação. Mas é possível reduzir os danos e ser mais efetivo nisso, aceitando que a sociedade nunca será totalmente feliz e justa. O grande exemplo, hoje, de utopia nefasta é o da guerra às drogas. 

Essas são duas grandes linhas filosóficas, a utopia e a redução de danos, mas o que me interessa, no caso, é que são também duas grandes linhas de políticas públicas: pode-se decidir quando convém uma política utópica e quando convém uma política de redução de danos. O que pretendo com o curso é que as pessoas que formulam as políticas públicas conheçam bem essas duas ferramentas e saibam quando aplicar uma ou outra. Já no próximo ano, quero montar um curso sobre a apropriação social do conhecimento, também na pós-graduação, que não será necessariamente ministrado por mim. Por meio desse curso, quero que os estudantes tenham uma visão muito clara de quem se beneficia com os avanços tecnológicos.

 

E. Como o senhor avalia o ensino superior brasileiro e a qualidade da educação a distância?

R.J.R. Houve um grande aumento no número de estudantes do ensino superior brasileiro, durante os governos petistas, graças a iniciativas como o programa de reestruturação e expansão das universidades federais (conhecido pela sigla Reuni), o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e a educação a distância. Todos esses fatores precisam ser melhorados, mas vou-me deter no ensino a distância. Entendo que curso a distância no plano universitário não deve ser bom, não deve ser médio... deve ser excelente. Para isso, seria necessário que houvesse dois ou três cursos com a mesma denominação em todo o conjunto das universidades federais. Teríamos um curso com professores mais competentes. E o curso a distância não apresenta problema em relação ao número de alunos ou à localização geográfica. O ideal seria constituir uma rede de universidades que contasse com professores renomados. Assim, o curso a distância poderia suprir as deficiências de um curso presencial e atingir um público mais amplo do que temos hoje. Outro ponto é que ainda há uma grande demanda por títulos no Brasil. Muitos entram em universidades privadas que cobram mensalidades baratas e que, em troca, fornecem um ensino ruim. Vale dizer que, enquanto a avaliação da Capes fecha programas de mestrado e doutorado com baixo conceito, a avaliação do MEC não tem esse poder. Fechar um curso de graduação de má qualidade requer anos. Então, embora seja necessário, é difícil garantir a qualidade do ensino superior, sobretudo particular.

Uma breve biografia

Renato Janine Ribeiro foi ministro da Educação, entre abril e outubro de 2015. É professor titular de Ética e Filosofia Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), desde 1994, tornando-se, em 2016, professor honorário do Instituto de Estudos Avançados da mesma instituição universitária. 

Foi membro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), entre 1993 e 1997, e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), entre 1997 e 1999. Durante sua atuação como diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), entre 2004 e 2008, dirigiu avaliações trienais de mais de 2.500 cursos de mestrado e doutorado no Brasil. 

Atualmente, o ex-ministro preside o Conselho de Ética da USP e a Comissão de Ética do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb), além de ser membro do Conselho Superior de Estudos Avançados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). No setor de arte e cultura, integra o Conselho Consultivo do Instituto Inhotim, em Minas Gerais, considerado o maior centro de arte ao ar livre da América Latina, cujo acervo de obras contemporâneas sobressai como um dos mais importantes do país. 

É autor de 93 capítulos de obras coletivas e de 12 obras individuais. Entre estas figuram: A marca do Leviatã (1978), A última razão dos reis (1993), Ao leitor sem medo (1984), A etiqueta no Antigo Regime (1983), A sociedade contra o social (2000) – que conquistou o Prêmio Jabuti em 2001, na categoria de Ensaio e Biografia – e A universidade e a vida atual (2003). Mais recentemente, produziu A boa política (2017) e A pátria educadora em colapso (2018).

Foi condecorado com a Ordem Nacional do Mérito Científico (1997), a Ordem de Rio Branco (2009), a Ordem do Mérito Naval (2015) e a Grande Medalha da Inconfidência (2018).

Publicado em Edição 10

EntreTeses7 p06 SorayaSmaili

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

“A coisa mais importante para nós, brasileiros, é inventar o Brasil que queremos”, dizia Darcy Ribeiro. Com essa expressão, simples e objetiva, temos um pouco do que a universidade pública sintetiza ou deveria sintetizar: o lugar da educação e do conhecimento. Transposta a frase inicial – simples e objetiva – para o domínio da universidade pública, teríamos que essa instituição, mediante a invenção contínua e contemporânea, cumpre o seu papel social, que é também estratégico para o desenvolvimento da condição humana, a partir de preceitos de autoavaliação e crítica intelectual permanente. A universidade pública sintetiza o lugar da educação e do conhecimento e tem, portanto, uma responsabilidade crescente.

Atenta a essa necessidade e considerando o objetivo de integração interdisciplinar a que se propõe, a Unifesp – uma instituição ao mesmo tempo tradicional e jovem – apresenta um projeto inovador. Sob a coordenação do professor visitante Renato Janine Ribeiro, a Unifesp formou um grupo de trabalho destinado a criar e implantar o Instituto de Estudos Avançados (IEA), com a dupla vocação de estimular e ajudar a viabilizar tanto a realização de pesquisas situadas na fronteira do conhecimento como a formulação de políticas públicas capazes de superar alguns dos grandes desafios enfrentados pelo Brasil.

O instituto será um instrumento estratégico para a universidade, uma vez que adotará o diálogo interdisciplinar como princípio e método, possibilitando avanços revolucionários por meio da colaboração entre especialidades, as quais – de outra forma – permaneceriam circunscritas à própria área de conhecimento.

O convite feito pela Unifesp a Renato Janine Ribeiro não é fortuito. Professor titular da USP, foi ministro da Educação (2015) e diretor da Capes (2004 - 2008), órgão no qual promoveu as avaliações trienais de mais de 2.500 cursos de mestrado e doutorado. Além disso, preside o Conselho de Ética da USP e a Comissão de Ética do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb), integra o Conselho Superior de Estudos Avançados da Fiesp e participa do Conselho Consultivo do Instituto Inhotim,em Minas Gerais, que abriga um dos mais importantes acervos de arte contemporânea da América Latina.

O diálogo interdisciplinar – como foi dito – fornece uma chave indispensável ao desenvolvimento da pesquisa, em um contexto no qual o grau de especialização atinge níveis cada vez mais elevados. A interlocução permitirá, no caso, que os paradigmas de uma área do conhecimento iluminem outras áreas, provoquem indagações e apontem caminhos inéditos de investigação, como demonstra o exemplo histórico do estudo da geometria, fundamental para o desenvolvimento das ciências no início do período moderno. O espaço dos estudos avançados e convergentes reafirmará e possibilitará a integração entre as diferentes áreas do conhecimento, além de alavancar um outro campo de ação, o da formulação de propostas de políticas públicas, potencializando um caminho que já é percorrido pela Unifesp.

Tampouco é um acaso a criação de grupos de trabalho como método para construir o IEA. É um caminho que reflete a experiência democrática da atual gestão da Unifesp, por meio da qual a voz da comunidade é ouvida e acatada. Assim tem sido na formulação do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), obtido depois de um ano de consultas públicas e discussões com a comunidade; na escolha dos temas transversais de pesquisa; e no processo de construção participativa do Plano Pedagógico Institucional (PPI), atualmente em curso.

Somamos, assim, todas essas experiências recentes, além das imensas contribuições que os nossos próprios pesquisadores e professores têm a oferecer, para atender às demandas oriundas da Unifesp e da sociedade. Numa época de indagações sobre o futuro do país, marcada por cortes gigantescos nos orçamentos destinados à educação, à pesquisa e ao desenvolvimento da ciência e tecnologia, das artes e da cultura, vislumbramos um caminho que pode dar novo fôlego à Unifesp, fortalecendo o projeto de uma universidade mais participativa e inclusiva, que busca sua integração com o propósito de também contribuir para “a invenção do país que queremos”.

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foto de um laboratório

Imagem: Alline Tosha e Victor Salgado

Um processo de avaliação cujo resultado funcione como um gatilho para a elaboração de medidas que visem a impactar a trajetória e o futuro do que foi avaliado, seja um programa ou uma política pública, tem sido chamado de Avaliação de Impacto. A avaliação busca entender como a intervenção poderá incidir sobre os resultados e se eles serão ou não decorrentes da intervenção realizada. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) (http://www.oecd.org/dac/evaluation/dcdndep/37671602.pdf), a Avaliação de Impacto deve permitir compreender “por que e como um programa funciona (...) se está alinhado com a gestão e se contribui para o desenvolvimento (...)”.

Baseando-se nesse conjunto de ideias, e também nas propostas de convergência desenhadas no Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI/Unifesp), a equipe da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PROPGPq) iniciou seu projeto de avaliação dos programas de pós-graduação da Unifesp após a finalização da avaliação quadrienal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Hoje, a Unifesp conta com 70 programas (66 institucionais e 4 em rede) nas diversas áreas do conhecimento. A ampliação do Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG) nos últimos anos também se refletiu na Unifesp, houve uma expansão no número de programas em nossa instituição, o que implica um importante desafio, quando se trata de avaliar o desempenho dos programas e sua contribuição para o desenvolvimento do país.

O SNPG foi instituído a partir da década de 1970 do século passado, com a criação de uma lei federal que regulamentou os cursos de pós-graduação lato sensu e stricto sensu no Brasil. Inicialmente, o SNPG foi criado para formar professores e capacitá-los para atuar nas instituições de ensino superior (federais, estaduais, municipais e privadas). Hoje são formados no Brasil aproximadamente 60 mil mestres e 20 mil doutores por ano em mais de quatro mil programas de pós-graduação, todos avaliados por uma única agência, a Capes.

Atualmente, as universidades brasileiras têm em seus quadros docentes mestres ou doutores. A Unifesp, por exemplo, tem mais de 90% dos seus docentes com o título de doutor, Pró-Reitoria de PósGraduação e Pesquisa exigido para ingresso na carreira docente na maioria das vezes. Dessa forma, o objetivo inicial da lei que, a princípio, regulamentou os programas de pós-graduação stricto sensu, ou seja, formar docentes para atuar no ensino superior, aparentemente, foi alcançado.

Entretanto, quando comparamos o Brasil com outros países no que diz respeito à inserção de mestres e doutores no mercado de trabalho, atuando não somente nas universidades, fica evidente que o número de profissionais com essas titulações incorporados aos vários segmentos da sociedade é ainda pequeno. Enquanto o Reino Unido conta com um índice de 41 doutores para cada 100 mil habitantes, o Brasil tem 7,6 profissionais titulados para a mesma proporção de pessoas.

O caminho a ser percorrido para alcançar indicadores educacionais como o de nações desenvolvidas, portanto, ainda é longo. Nesse sentido, faz-se necessário uma reflexão e ampla discussão institucional acerca da pós-graduação que queremos e sobre os nossos principais desafios para o futuro. Os oito temas destacados no PDI/Unifesp são bastante caros a esta gestão, por meio deles esperamos construir projetos convergentes de pesquisa e enraizá-los nos programas de pós-graduação.

A avaliação que recebemos da Capes, bem como aquela que fizemos internamente, mostra que precisamos avançar no que diz respeito à formação dos nossos mestres e doutores, para atuar não somente na academia, mas também nas mais diversas áreas da sociedade brasileira, de modo a efetivamente contribuir para a solução dos problemas do país, que são enormes, proporcionais a sua dimensão. A Unifesp, com seus programas tradicionais, sobretudo nas áreas de Medicina e Biomedicina, criados há aproximadamente 50 anos, e, mais recentemente, com a criação de outros programas nas diversas áreas do conhecimento, com um contingente de aproximadamente 5 mil estudantes de pós-graduação, tem importante missão no que diz respeito à formação de pessoas para contribuir para a solução de problemas do país. Somente poderemos alcançar o desenvolvimento científico e tecnológico, a melhoria na qualidade da educação que almejamos, com um sistema de pós-graduação que tenha a capacidade de avançar e contribuir para o progresso do Brasil.

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Sexta, 24 Agosto 2018 11:19

Expediente - Entreteses 10

Expediente

A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.
ISSN 2525-5401 (publicação impressa)
ISSN 2525-538X (publicação on-line)

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Reitora: Soraya Soubhi Smaili

Vice-Reitor: Nelson Sass

Pró-Reitora de Administração: Tânia Mara Francisco

Pró-Reitor de Assuntos Estudantis: Anderson da Silva Rosa

Pró-Reitora de Extensão e Cultura: Raiane Patrícia Severino Assumpção

Pró-Reitor de Gestão com Pessoas: Murched Omar Taha

Pró-Reitora de Graduação: Isabel Marian Hartmann de  Quadros

Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa: Esper Abrão Cavalheiro

Pró-Reitor de Planejamento: Pedro Fiori Arantes

Jornalista responsável/Editor: José Arbex Jr. (MTB 14.779/SP)

Coordenação: Ana Cristina Cocolo

Reportagens: Ana Cristina Cocolo, Daniel Patini, José Luiz Guerra, Juliana Narimatsu, Lu Sudré e Valquíria Carnaúba

Projeto gráfico e diagramação: Alessandro Faria

Infográficos e ilustrações: Alessandro Faria

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Fotografias: Acervo Unifesp / Créditos indicados nas imagens

Tratamento de imagens: Alessandro Faria

Conselho Editorial: Esper Abrão Cavalheiro, Ruy Ribeiro de Campos Jr., Paulo Schor, Karina Ramalho Bortoluci, Daniel Campos de Carvalho e Ana Lúcia Lana Nemi

Conselho Científico: Olgária Chain Feres Matos, Renato Janine Ribeiro, Ruy Ribeiro de Campos Jr., Paulo Schor e Fulvio Alexandre Scorza

 

Revista Entreteses n° 10 – Julho/2018
www.unifesp.br/entreteses
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Tiragem: 2.000 exemplares

 

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL

Direção: Luciana de Arêa Leão Borges

Jornalismo: Ana Cristina Cocolo, Daniel Patini, José Luiz Guerra, Juliana Narimatsu, Lu Sudré, Mariane Santos Tescaro e Valquíria Carnaúba

Design: Ana Carolina Fagundes e Ângela Cardoso Braga

Audiovisual: Reinaldo Gimenez (coordenação), Jean Carlo Silva, Loiane Caroline Vilefort, Luciana de Arêa Leão Borges, Michelle Santana e Monica Xavier Arrojó

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Assistente administrativo: Luis Tadeu Ka Jin Mo

Redação e administração: Rua Sena Madureira, nº 1.500 - 4º andar - Vila Clementino
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Crédito e agradecimento: Expressamos nosso reconhecimento a Laura Escorel de Moraes, que contribuiu para a elaboração do artigo intitulado Um Intelectual Comprometido com as Causas Sociais, que retrata o perfil do professor Antonio Candido, publicado às págs. 14 a 19 da edição nº 9. Laura Escorel de Moraes cedeu material relativo a sua pesquisa de mestrado sobre o acervo fotográfico de Gilda e Antonio Candido de Mello e Souza, desenvolvida no âmbito do programa de pós-graduação em História da Arte da EFLCH/Unifesp - Campus Guarulhos

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Nova técnica estabiliza fármacos, aumenta o tempo de reatividade no organismo e diminui impacto de efeitos colaterais

Valquíria Carnaúba

silica

Imagem por microscopia eletrônica da sílica mesoporosa do tipo SBA-15, nanomaterial composto por moléculas de sílica organizadas em estruturas hexagonais / Imagem: Ivana Conte Cosentino (Ipen-CNEN/SP)

Duas pesquisas recentes, coordenadas por Lucildes Pita Mercuri, professora do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) – Campus Diadema, podem trazer novas e importantes patentes à instituição. Ambas apresentam diversas inovações quanto à estabilização de bioativos (compostos funcionais): o ácido retinoico, forma oxidada da vitamina A, indicada para o tratamento tópico do envelhecimento da pele, e o etinilestradiol, hormônio utilizado em pílulas anticoncepcionais.

O ácido retinoico – instável na presença de oxigênio ou quando exposto à luz e a altas temperaturas – comumente provoca eritema, queimação e prurido devido à rápida liberação na pele. Quanto ao etinilestradiol (EE), é um conhecido estrogênio, que figura como componente em quase todas as formulações de anticoncepcionais e como repositor hormonal. Integra comprimidos ingeridos diariamente, mas apresenta fotossensibilidade, o que dificulta sua manipulação em formulações farmacêuticas. 

“Decidimos estudar a encapsulação de ambos os compostos no intuito de estabilizá-los, protegê-los, aumentar o tempo de reatividade no organismo e diminuir os efeitos colaterais quando administrados em altas doses”, explica Mercuri. Uma das maneiras de contornar esses efeitos é controlar a volatilidade das substâncias: a coordenadora afirma que a encapsulação aumenta a estabilidade química e assegura a liberação mais lenta dos ativos. 

O suporte químico escolhido para esses estudos foi a sílica mesoporosa altamente ordenada do tipo SBA-15, formada por agrupamentos de sílica (SiO2), organizados em estruturas hexagonais (vide figura). Trata-se de um nanomaterial obtido a partir das moléculas de tetraetilortosilicato [Si (OC2H5)4], como fonte de sílica, que se hidrolisam na presença de surfactantes neutros (substâncias capazes de interagir com água e com moléculas não solúveis em água), os quais funcionam como direcionadores orgânicos das estruturas desejadas.

A encapsulação ocorre pelo armazenamento dos compostos nos mesoporos de cada nanoestrutura de sílica, devido à possível afinidade química entre os ativos e a superfície das matrizes de SBA-15. “A exemplo das ligações de hidrogênio, formam-se ligações fracas entre a sílica e os ativos, de modo que estes permanecem nos poros sem serem incorporados – um fenômeno denominado adsorção”, descreve a pesquisadora.

“Estudos recentes revelam que os nanomateriais mesoporosos possuem características que os tornam ideais para o armazenamento de substâncias com características distintas, como estabilidade química, biocompatibilidade, grande área superficial e poros com volume e diâmetro variáveis, além de tamanho e forma de partículas controláveis”, esclarece. 

Embora a sílica seja bastante utilizada na indústria cosmética e farmacêutica, nenhum documento anterior menciona o uso de sílica mesoporosa, SBA-15, na encapsulação desses bioativos. “Há outros sistemas de armazenamento disponíveis, como as microesferas poliméricas, lipossomas, nanopartículas poliméricas e nanopartículas lipídicas sólidas”. O nanomaterial em questão mostrou, entretanto, um desempenho superior aos suportes já existentes. “Cada unidade de SBA-15 utilizada na encapsulação do ácido retinoico, por exemplo, possui uma área superficial de 755 m² por grama de sílica e poros com volume de 1,13 cm3 por grama de sílica e diâmetro de 6,3 nanômetros”, relata.

Uma nova opção para o rejuvenescimento da pele

O pedido de patente para o processo de encapsulação do ácido retinoico em sílica mesoporosa altamente ordenada já foi aceito pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi). Os responsáveis pelo desenvolvimento do novo material afirmam que este poderá ser utilizado em produtos dermatológicos, aposta fundamentada no desempenho positivo da matriz. A equipe é formada por Mercuri, Jivaldo do Rosário Matos, professor e pesquisador do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, e Solange Teixeira Soares Santos, farmacêutica industrial e professora do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas. 

O processo descrito, considerado inovador, abrange a solubilização do ácido retinoico, a adição da matriz mesoporosa, a filtração da suspensão e a evaporação completa do solvente. Além dessas etapas, os pesquisadores mencionam no documento de requisição da patente outros pormenores. “O uso do etanol com pureza de 99,5% como solvente e a solubilização do ácido retinoico com o auxílio do ultrassom ou por agitação magnética são procedimentos também considerados inovadores nesse processo”, complementa Mercuri.

Para a verificação da encapsulação do ácido retinoico no nanomaterial de sílica foram aplicadas as técnicas analíticas de termogravimetria e termogravimetria derivada (TG/DTG), calorimetria exploratória diferencial (DSC), espectroscopia de absorção na região do infravermelho com transformada de Fourier (FTIR), análise elementar (AE), medidas de adsorção de nitrogênio, microscopia eletrônica de varredura (MEV) e microscopia eletrônica de transmissão (MET). 

Posto que cada matriz de SBA-15 liberou o composto mais lentamente e com taxas mais constantes em relação a outros suportes, os pesquisadores confirmam a perspectiva de sucesso de sua encapsulação para produtos dermatológicos como cremes e loções, em concentrações que podem variar entre 0,025% e 0,1%. 

Anticoncepcionais que dispensam ingestão diária

As técnicas utilizadas para a obtenção da sílica mesoporosa e para a estabilização do etinilestradiol (EE) são bastante semelhantes às descritas anteriormente. Diferem somente quanto ao solvente dos compostos encapsulados: no caso do ácido retinoico, optou-se pelo etanol com pureza de 99%; já no caso do etinilestradiol, a aposta recaiu sobre a acetona. 

pesquisadoras

As pesquisadoras (da esquerda para a direita) Maria de Lourdes Leite de Moraes, Vania Carolina Moreira e Lucildes Pita Mercuri apostam na sílica mesoporosa como suporte químico mais eficaz e menos agressivo ao ser humano

A equipe, desta vez formada por Mercuri, Jivaldo do Rosário Matos, Maria de Lourdes Leite de Moraes, docente do ICAQF/ Unifesp, e Vania Carolina Moreira, doutoranda do programa de pós-graduação em Biologia Química do mesmo instituto, verificou que a estabilidade do composto também se assemelhava ao caso anterior, excetuando-se a medida de adsorção de nitrogênio. Os outros parâmetros foram avaliados por meio de análise elementar (AE), espectroscopia de absorção na região do infravermelho com transformada de Fourier (FTIR), termogravimetria e termogravimetria derivada (TG/DTG) e calorimetria exploratória diferencial (DSC).

Os primeiros resultados mostraram claramente que a metodologia empregada na encapsulação do EE na SBA-15 foi satisfatória. De acordo com Mercuri, “as análises por TG/DTG, DSC, FTIR e AE confirmaram a presença de etinil no suporte silicático, destacando-se a escolha da acetona como o melhor solvente transportador do EE”. 

As possíveis aplicações práticas dessa invenção animam os pesquisadores para a realização de testes in vivo, já que a novidade pode facilitar a vida de muitas mulheres em idade fértil. A coordenadora do estudo vislumbra a criação de um anticoncepcional que dispense a ingestão diária. Com isso, pode-se diminuir a dose consumida de hormônios e os efeitos colaterais, evitando-se o esquecimento – motivo de muitas gravidezes não planejadas.

Os componentes da segunda equipe afirmam não existir preocupação quanto à ingestão de cápsulas de SBA-15, uma vez que a sílica não pode ser digerida pelo ser humano. De acordo com eles, esse composto é facilmente descartado pelo organismo, uma vez que não pode ser degradado pelos sucos gástricos, assim como ocorre com a celulose. 

Além disso, os pesquisadores de ambas as equipes são unânimes em reconhecer que os solventes etanol e acetona são eliminados no processo de secagem – ou seja, não há nenhum risco de toxicidade, caso o produto se torne comercial. 

Mercuri frisa, ainda, que a requisição de patente para o processo de encapsulação do etinilestradiol tramita no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) e que sua aprovação certamente ocorrerá este ano.

Entreteses p50 processo encapsulacao

Artigos relacionados:

MATOS, Jivaldo do R.; MERCURI, Lucildes P.; KRUK, Michal; JARONIEC, Mietek. Toward the synthesis of extra-large-pore MCM-41 analogues. Chemistry of Materials, Washington, DC: ACS Publications, v. 13, n. 5, p. 1.726-1.731, 5 abr. 2001. Disponível em: <http://pubs.acs.org/doi/pdf/10.1021/cm000964p>. Acesso em: 4 maio 2017.

MERCURI, Lucildes P.; CARVALHO, Luciana V.; LIMA, Flávia A.; QUAYLE, Carolina; FANTINI, Márcia C. A.; TANAKA, Gabriela S.; CABRERA, Wafa H.; FURTADO, Maria F. D.; TAMBOURGI, Denise V.; MATOS, Jivaldo do R.; JARONIEC, Mietek; SANT’ANNA, Osvaldo A. Ordered mesoporous silica SBA-15: a new effective adjuvant to induce antibody response. Small, [s.l.]: John Wiley & Sons, Inc., v. 2, n. 2, p. 254-256, fev. 2006. Disponível em: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/smll.200500274/epdf>. Acesso em: 4 maio 2017.

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Quinta, 18 Janeiro 2018 09:37

Ser velho no século XXI

O cinema ajuda a refletir sobre o envelhecimento da população brasileira, que, em 2050, contará com 30% de idosos

Juliana Narimatsu

rolo de cinema

Imagem: Nic McPhee (CC BY-SA 2.0)

O Brasil, conhecido como um país jovem, caminha a passos largos para a velhice. A estimativa, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de chegar até 2050 a 65 milhões de pessoas com 60 anos ou mais de idade, ou seja, cerca de 30% do total de brasileiros. Tal índice é três vezes maior que a proporção de idosos de quatro décadas passadas. Fatores como a queda da taxa de fecundidade (número de filhos por mulher) e o aumento da longevidade contribuem para esta transformação do perfil etário. 

O processo de envelhecimento se encontra em ritmo acelerado em todo o planeta. Projeções do documento Development in an Ageing World, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2007, indicam que acontecerá uma elevação expressiva no número de idosos em menos de meio século: em 2005 eles eram 10,4% (cerca de 670 milhões), já em 2050 representarão 21,7% do total (2 bilhões). “Não só pelo crescimento numérico da população mais velha, mas também pelas mudanças sociais e políticas que envolvem o ambiente que a cerca, desde a família até a convivência nos espaços públicos, principalmente com aqueles que um dia ficarão velhos, que fazem essa questão ser relevante na nossa sociedade”, pontua Juliane Domingos Yamanaka, pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos. 

capas filmes

Cartazes de divulgação dos filmes avaliados na pesquisa de Juliane Yamanaka (imagens: divulgação)

Em sua dissertação de mestrado, Yamanaka busca compreender as perspectivas sobre a velhice em construções exibidas pelos filmes nacionais. A análise foi feita a partir de três produções recentes: Depois Daquele Baile (dirigida por Roberto Bomtempo e lançada em 2006), O Outro Lado da Rua (Marcos Bernstein, 2004) e Onde Anda Você (Sérgio Rezende, 2004). O trabalho, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e apresentado no segundo semestre de 2016, foi desenvolvido sob orientação de Andréa Cláudia Miguel Marques Barbosa, docente do Departamento de Ciências Sociais da EFLCH/Unifesp. 

“As produções fílmicas permitem perceber o movimento imaginário da sociedade”, observa Yamanaka. A narrativa e a forma de expressão do cinema são construídas a partir da realidade e provocam novas percepções nos espectadores. “É uma via de mão dupla. Os filmes são produzidos a partir do olhar de alguém, apresentando recortes do real e, quando circulam, interagem com outros olhares, provocando pensamentos e percepções”, explica a pesquisadora. “Essas obras, portanto, precisam ser consideradas não apenas produtos, mas agentes importantes para compreender as esferas da vida e as dinâmicas sociais, já que o cinema nos provoca a interpretar os aspectos da realidade”. 

Os filmes abordam o envelhecimento por diferentes olhares e perspectivas. Depois Daquele Baile se passa em Belo Horizonte, onde Dóris (Irene Ravache), viúva e dona de uma pensão, tem como clientes assíduos Freitas (Lima Duarte) e Otávio (Marcos Caruso), dois velhos amigos que disputam o seu coração. O Outro Lado da Rua traz Regina (Fernanda Montenegro), que mora com sua cachorrinha em um apartamento em Copacabana e é voluntária em um programa social para aposentados. Onde Anda Você apresenta o ex-palhaço Felício (Juca de Oliveira), que vive solitário no centro de São Paulo, mas decide buscar a felicidade ao retomar a sua profissão e procurar um novo parceiro.

Velho é o outro! 

Em O Outro Lado da Rua, Regina está sentada no banco de uma praça e conversa com uma voluntária do programa social, que tricota. Outros jogam dominó ou cartas. Em um dado momento, Regina fala: “Ah, Deus! Por que essa velharada toda não vai para casa fazer alguma coisa? Cuidar da vida? Inclusive você!”, gesticula para a colega. A personagem parece lutar contra a ideia de ser idosa e, durante o longa, tenta sempre se ocupar com alguma atividade, dizendo que “não tem tempo livre”. Segundo a pesquisadora, esse tipo de comportamento é comum entre os idosos e acontece por conta da imagem do “ser velho” estar relacionada muitas vezes à invalidez física e social. “Muitos não conseguem demonstrar que são velhos e buscam sempre outra pessoa para colocar nesse lugar”, pontua.

Otávio, de Depois Daquele Baile, é atento à sua saúde e peso, faz dietas restritivas, toma diversos remédios e aparenta ser amargurado. O amigo Freitas não se preocupa com sua alimentação, é animado e descontraído, extravasa essa energia até em suas vestimentas: conjunto de regata e bermuda. Freitas diz ao Otávio que ele se preocupa demais: “O importante é viver bem a vida”. Em outra ocasião, Otávio critica o amigo por se vestir como um garoto. “A idade acaba por enquadrar as pessoas dentro de classificações que não fazem jus ao comportamento e ao estilo de vida delas. O essencial é perceber que a velhice não é homogênea, pois cada um possui sua individualidade de enfrentar essa fase da vida, demonstrando suas fraquezas e suas qualidades”, comenta Yamanaka.

Indagações e relações sociais

No Brasil, de acordo com o IBGE, a concentração de pessoas com 60 anos ou mais de idade está localizada nos grandes centros urbanos, em especial no Sudeste. O ambiente urbano moderno, com suas mudanças tecnológicas e econômicas, ritmo acelerado e frenético, verticalização dos espaços, acesso à informação e facilidade dos contatos, influencia as relações entre as gerações e causa choques físicos e perceptivos na vivência dos indivíduos, principalmente nos mais velhos. 

imagem da pesquisadora

Juliane Domingos Yamanaka, pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da EFLCH/Unifesp

Felício, de Onde Anda Você, demostra esta inquietação ao afirmar que a televisão “já não é mais a mesma” ou quando estranha a máquina de filmar de Rafa (Tiago Moraes), rapaz que o ajuda nas gravações das audições durante a busca por um novo parceiro comediante. Rafa acusa Felício de ser ignorante e não saber que aquela câmera é a mais nova no mercado. “A velhice, dentro dos valores centrados na modernidade, é alteridade absoluta, de difícil compreensão, tornando-se anacrônica diante desse tempo em que a juventude é mais valorizada”, observa a pesquisadora.

A dificuldade é enfrentada também nas redes de sociabilidade. Os mais velhos não buscam criar laços com pessoas que não pertencem ao seu círculo social. A intimidade, nesse ponto, torna-se algo praticamente impenetrável, as relações ficam efêmeras e o isolamento com o mundo exterior acaba se acentuando. O personagem Felício, por exemplo, possui amigos que aparentam ser de longa data. Os encontros entre eles acontecem sempre no mesmo lugar, na casa de Felício, e com data marcada: toda quinta-feira, à noite, para uma jogatina. 

Os motivos da fragilidade em se relacionar estão ligados, muitas vezes, à sensação de medo do desconhecido e da violência. Freitas, em Depois Daquele Baile, representa a típica vítima que sofre um assalto logo depois de sacar a sua aposentadoria no banco. “As massas amedrontadas e solitárias são fenômenos endêmicos da convivência nas metrópoles, em que as pessoas passam a não interagir, temendo o contato com lugares públicos”, comenta Yamanaka.

Outra razão é o apego ao lar, ambiente que transmite tranquilidade, conforto e segurança para esse grupo. Os idosos acabam estabelecendo não só os afazeres e as atividades de lazer dentro da esfera doméstica, como os relacionamentos. No filme Depois Daquele Baile, a maioria das cenas da personagem Dóris ocorre em sua casa, espaço que também é o seu local de trabalho. “A moradia é encarada como uma espécie de redoma de proteção”. 

Por fim, existe a questão da memória. Os mais velhos resgatam práticas do passado que, por conta das transformações sociais, acabaram se extinguindo. “A experiência de envelhecimento é cada vez mais impedida de dinâmicas interativas realizadas em outras épocas, como ir ao vizinho ou passear ao ar livre sem preocupação com a hora ou a segurança”, analisa Yamanaka. “Contudo, hoje, espaços públicos – parques e praças – estão sendo criados com a intenção de propiciar a convivência dos idosos, seja entre eles, seja com outras gerações”.

Corpos envelhecidos

Em Outro Lado da Rua, Regina inicia um relacionamento com Camargo (Raul Cortez). A atração física entre eles é construída ao longo da trama, mas, em um momento, a personagem demonstra receio em ficar nua: “Não dá! Tenho cicatriz de cesariana, outra de apendicite. Isso aqui é um verdadeiro jogo de estrias. Como é que eu vou tirar a roupa?”. A vida sexual é um pilar importante para o envelhecimento ativo, apesar de ser tratada como tabu. “O imaginário do corpo envelhecido traz a ideia de delimitações, ainda mais em uma sociedade que possui a juventude como valor. Os idosos, assim, hesitam em apresentar esta fragilidade estereotipada da idade, influenciando em suas relações sexuais e contribuindo com o discurso de serem assexuados”, frisa a pesquisadora. 

Felício, em Onde Anda Você, vai a um prostíbulo e no momento em que está a sós com uma mulher, rejeita-a e nega qualquer tipo de contato mais íntimo. “A ideia de assexualidade na velhice está empregada tanto no sentido de falta de interesse, quanto no sentido da prática. O pensamento de declínio sexual na velhice orienta os indivíduos, em especial os idosos, a incorporar isto em suas vidas. Contudo, é importante entender que o desejo sexual é evidente em qualquer idade”.

A melhor idade

O termo idoso surgiu na França na década de 1960, com o objetivo de criar uma nova sensibilidade no tratamento desse público, combatendo a sua segregação e trazendo a ideia de respeito, dignidade e referência para os mais jovens. Já a expressão terceira idade – e também melhor idade – apareceu para dar ao envelhecimento uma conotação de ser um período livre e ativo, voltado ao lazer e a realizações, um novo estilo de vida. “Esta última noção, na realidade, restringe-se a apenas uma parcela dos idosos, aos aposentados com saúde, liberdade e condições financeiras, capazes de buscar outras atividades fora da sua rotina. O movimento propiciou ainda uma formação de mercado de consumo destinada a esse segmento, além de enquadrar essa ideia como parâmetro para os mais velhos”. 

A capacidade de exercer a sociabilidade é importante para viver o envelhecimento de forma mais amena. A confraternização, ilustrada dentro da pensão de Dóris, de Depois Daquele Baile, com um jantar dançante que ela mesma promove todas as sextas-feiras, exalta a importância da convivência e da troca de experiências, sobretudo entre as diferentes gerações. Os bailes são uma forma de socialização incluída na agenda de muitos idosos e que possibilita ainda a sua própria inclusão.

Nas últimas décadas, no entanto, o comércio voltado aos idosos vem ganhando espaço nas prateleiras e na vida desse público. De olho no filão, as mensagens publicitárias promovem uma nova percepção da velhice. “O velho busca renovar, assim, a sua imagem diante da sociedade, conquistando uma melhor forma física, adquirindo produtos que prometem rejuvenescer sua aparência ou suplementos vitamínicos que afirmam dar energia e disposição”. O personagem Otávio é um caso: consumista de uma grande quantidade de remédios, vitaminas, comidas light e sem colesterol. “Não há como medir, nem comparar as velhices. Cada um a encara de maneira distinta e as escolhas sobre como ser velho devem partir do próprio idoso”, reflete Yamanaka.

Publicado em Edição 09

Composto desenvolvido a partir de fruta brasileira é eficaz, seguro e mais barato que os convencionais

Juliana Narimatsu

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Imagem: Lets (CC BY-NC-ND 2.0)

Facilitar os procedimentos cirúrgicos intraoculares, por meio de uma técnica natural, barata e acessível, que permite visualizar os tecidos microfinos do olho, de forma eficaz e segura. Foi com esse objetivo que pesquisadores do Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo desenvolveram um corante feito à base de antocianina, substância encontrada no açaí (Euterpe oleracea), fruta originária da Amazônia. 

“O composto, criado a partir de matéria-prima da flora brasileira, pode tornar-se, em breve, um produto comercial muito mais barato que os corantes sintéticos atualmente disponíveis no mercado. Além disso, é um antioxidante com evidências preliminares – ainda não conclusivas – que sugerem maior segurança para uso intraocular que a dos corantes já existentes. Tal resultado, ao ser apropriado pela saúde pública, representa um ganho tanto para os pacientes quanto para os profissionais de saúde que realizam cirurgias vitreorretinianas”, comenta Mauricio Maia, coordenador do estudo e professor adjunto do departamento. 

O corante é aplicado na parte interna dos olhos para facilitar a identificação das membranas e dos tecidos transparentes que irão passar por alguma intervenção. A técnica, denominada cromovitrectomia, é usada principalmente em cirurgias da retina (camada mais interna do globo ocular, responsável pela formação da imagem) e do vítreo (conteúdo gelatinoso que preenche quase todo o espaço intraocular). 

“A retina, por exemplo, apresenta estruturas extremamente finas: algumas delas possuem cerca de um milímetro, dividido em 100 partes. É extremamente difícil a identificação intraoperatória, mesmo com microscópios de alta resolução. Os corantes, assim, são fundamentais para facilitar a visualização e realização da cirurgia”, argumenta Maia. Os procedimentos operatórios citados são necessários para doenças que comprometem o fundo dos olhos, como a retinopatia diabética, o buraco macular, a membrana epirretiniana, a síndrome de tração vitreomacular e o deslocamento da própria retina ou do vítreo, entre outras. Doenças com potencial, inclusive, de causar cegueira total.

Os corantes utilizados atualmente são a indocianina verde – mais tóxica –, a triancinolona e o azul brilhante, cujos custos variam entre R$ 200,00 e R$500,00 por dose. Tais substâncias não são capazes de colorir todas as estruturas essenciais à cirurgia, sendo necessária a utilização de mais de um corante para as diversas etapas cirúrgicas. No entanto, quando aplicadas em excesso, corre-se o risco de causar atrofia nas camadas da retina. “Nossa busca se concentrou, então, em um produto menos tóxico e mais eficiente”, pontua. 

A pesquisa iniciou-se em 2010 e analisou mais de vinte opções de corantes naturais já conhecidos pelos indígenas – urucum, açafrão, pau-brasil e beterraba, entre outros –, e utilizados para a pintura da pele. Foram feitos testes laboratoriais de pH, de cor e de adesão da antocianina às membranas intraoculares. 

O açaí, no caso, revelou capacidade de tingimento superior, deixando os tecidos mais visíveis, além de não causar alterações identificáveis em 78 olhos cadavéricos testados com os diversos corantes da flora brasileira. O produto demonstrou afinidade na coloração da membrana limitante interna (localizada na parte central da retina, onde estão as células responsáveis pela identificação dos pormenores e cores da visão) e do vítreo. Concluiu-se, portanto, que as moléculas antioxidantes, com capacidade de tingimento arroxeado das antocianinas presentes no extrato do fruto, podem ser substitutas dos atuais corantes sintéticos. 

“Esta descoberta é um exemplo – na área da ciência – de que ideias criativas, que atraem o financiamento público para a universidade brasileira, podem favorecer toda a sociedade. A novidade em utilizar um fruto nacional, bastante popular, para beneficiar os pacientes é extremamente importante. Acreditamos que essa conquista precisa ser divulgada para demonstrar a competência que o Brasil possui no desenvolvimento de novas ideias e de tecnologias criativas”, justifica Maia.

Procedimentos finais 

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Mauricio Maia, coordenador do estudo

Após o estudo experimental, o grupo de pesquisadores verificou a eficácia e a segurança do corante feito à base de açaí, formulado na concentração de 25%. Participaram dessa etapa 25 pacientes que apresentaram diagnóstico de buraco macular idiopático (cujo sintoma mais comum é a perda da visão central por conta de uma mancha ou distorção) por, pelo menos, dois anos. Todos eles foram submetidos a testes clínicos (avaliação física e pré-anestésica e demais exames oftalmológicos) e às cirurgias intraoculares. 

A cada procedimento cirúrgico, utilizando-se o corante do açaí, os dez diferentes cirurgiões envolvidos responderam a um questionário que avaliou a capacidade do corante em tingir temporariamente as membranas, classificando-a em uma escala de 0 a 10. A nota individual dada pelos cirurgiões correspondeu à experiência prática de usar a substância à base de açaí, comparando-a com outras do mercado. O resultado da pesquisa apresentou uma média de 8,8.

“A enquete informou sobre duas importantes vantagens: o corante roxo, por ser mais denso, mais pesado que a água, chega diretamente aos tecidos, não havendo a necessidade de intervenção técnica, um tipo de jato, para a sua aplicação, procedimento que pode prejudicar a retina. Além disso, determinadas membranas, como a hialoide posterior – específica dessa intervenção cirúrgica –, foram facilmente observadas. A substância foi considerada, assim, útil em todos os casos”, resume Maia.

Já em relação aos exames de acompanhamento dos pacientes, realizados nos seis meses posteriores à cirurgia – que fizeram parte das fases I e II do ensaio clínico – e até o momento, foram observadas segurança e eficácia próprias à boa técnica. O coordenador do estudo ressalta a importância do trabalho em equipe, no qual mais de 80 profissionais foram diretamente envolvidos. 

“Acreditamos que o corante natural, em relação aos convencionais, além de ter o potencial de ser mais barato, pode ser também mais seguro. Essa última questão está sendo estudada a partir de um modelo celular, e supomos, ainda, que as antocianinas podem ter um papel importante nas cirurgias vitreorretinianas como quelar (ligar-se a uma molécula danosa, que pode destruir as células) o oxigênio reativo – conhecido como oxigênio singleto –, liberado durante o procedimento cirúrgico e que é tóxico para a retina. Isso é uma grande vantagem para a substância extraída da fruta brasileira.” 

O próximo passo dos pesquisadores é aperfeiçoar o composto para inseri-lo futuramente no mercado. O estudo é financiado com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e de parcerias público-privadas. Em 2010, o corante natural foi patenteado pela Unifesp, que detém, portanto, sua propriedade intelectual. 

“O grande desafio agora é transformar a substância em produto comercial, para benefício dos pacientes, o que deve obrigatoriamente passar pelas fases e processos regulatórios da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”, conclui Maia. “Temos convicção de que será possível obter um produto útil aos pacientes brasileiros e do exterior”.

 
tubos de ensaio com diferentes cores

Diferentes tonalidades da coloração roxa do corante composto pelas antocianinas do fruto do açaí, de acordo com os níveis distintos de PH e osmolaridade, corrigidos para uso em humanos

placa

Diferentes tonalidades da coloração roxa dos diversos compostos das antocianinas do fruto do açaí, de acordo com PHs e osmolaridades distintas. O corante com PH fisiológico e osmolaridade adequada para uso no olho humano encontra-se na gota central da Placa  de Petri

injecao corante

Injeção controlada do corante desenvolvido, demonstrando a facilidade para tingir as estruturas alvo do olho, minimizando a possibilidade de danos durante o ato cirúrgico

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Etapa cirúrgica da remoção da primeira camada da retina (membrana limitante interna). O corante tem a capacidade de tingir de roxo a membrana interna, facilitando sua remoção ao redor do buraco macular

Imagens: arquivo do pesquisador

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