Conexões na rede do circuito de recompensa cerebral podem ser um potencial marcador para novos casos da doença entre jovens e crianças

Daniel Patini

menina sentada no chão

(Imagem: Andrea Pelogi)

Um estudo feito a partir de exames de ressonância magnética do cérebro de crianças e jovens identificou alterações da conectividade no circuito cerebral de recompensa que foram associadas a casos de depressão, após três anos de acompanhamento. As alterações foram observadas na região do cérebro responsável por integrar e processar informações cotidianas sobre recompensa e motivação, chamada estriado ventral, a qual teve um papel significativo nos quadros de depressão antes do início dos sintomas.

Os resultados estão na tese de doutorado de Pedro Mario Pan, defendida no Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, sob a supervisão do professor Rodrigo Bressan. O trabalho foi publicado no renomado periódico oficial da Associação Americana de Psiquiatria, o American Journal of Psychiatry.

Uma amostra formada por cerca de 750 crianças e jovens, com idade entre nove e 16 anos, foi avaliada nas cidades de São Paulo e Porto Alegre. Além das análises psicológica e psiquiátrica, todos realizaram exame de neuroimagem por meio de ressonância magnética, efetuando-se – três anos depois – a reavaliação de 90% deles (675) com a mesma metodologia. “Encontramos uma conectividade de característica diferente, aumentada ou mais ativada, no cérebro daqueles que desenvolveram depressão após três anos, contabilizando-se 53 indivíduos nessas condições”, esclarece Pan.

"Se confirmados em estudos futuros, esses resultados podem ajudar a identificar jovens em risco de depressão antes mesmo do início dos sintomas. Identificar precocemente indivíduos com probabilidade para transtornos mentais mais comuns é o passo inicial para alcançar a prevenção no campo da Psiquiatria", afirma. "Medidas preventivas como mudança dos hábitos de vida, melhora do sono e prática de atividade física, entre outras, têm mais chance de sucesso se aplicadas antes do agravamento do quadro de depressão."

Tema relevante e atual

De acordo com o pesquisador, a depressão é uma das principais causas de perda da qualidade de vida e de prejuízo funcional, entre todas as doenças. Estimativas indicam que uma em cada quatro pessoas apresenta um episódio depressivo durante a vida. Na adolescência, período caracterizado como de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais, pois engloba profundas mudanças físicas, cerebrais e socioemocionais, as consequências dos episódios depressivos podem ser devastadoras, como a autoagressão e até o suicídio.

"Assim, o auge de incidência da maior parte dos transtornos mentais ocorre durante o neurodesenvolvimento. Contudo, ainda sabemos pouco sobre os mecanismos biológicos cerebrais que causam a depressão nessa faixa etária”, assinala Pan. “Estudos anteriores já apontavam para desregulações no circuito cerebral de recompensa como um mecanismo implicado na depressão. Nesse sentido, um adolescente com depressão pode perder a vontade de realizar suas atividades e a capacidade de sentir prazer, sintomas centrais desse transtorno mental”, ressalta.

Tratamentos não medicamentosos

menina

(Imagem: Andrea Pelogi)

Para o autor, é fundamental notar que os resultados sugerem a importância de tratamentos não medicamentosos, como a modalidade de psicoterapia denominada ativação comportamental. Trata-se de uma técnica da terapia cognitivo-comportamental na qual o terapeuta estimula o paciente a gradualmente vencer a resistência e o medo a estímulos não prazerosos para buscar novas tarefas, nas quais descubra sensações positivas. "Pesquisas complementares deverão identificar se a ativação comportamental pode mudar essas alterações precoces que encontramos no circuito de recompensa", acrescenta.

O pesquisador também explica que o circuito de recompensa é particularmente mediado pelo neurotransmissor dopamina, que tem papel importante na sensação de prazer. A depressão é justamente uma doença que afeta a capacidade do indivíduo de sentir prazer. Ele alerta, contudo, que os principais remédios antidepressivos até hoje utilizados para os jovens têm sido aqueles que modulam o neurotransmissor serotonina, chamados inibidores de recaptação da serotonina. "Nossos achados reforçam a necessidade de estudos que explorem novos mecanismos e os neurotransmissores.”

Em andamento

Desde abril deste ano, os pesquisadores do Projeto Conexão - Mentes do Futuro retomaram os trabalhos para novamente avaliar os jovens. Na atual fase de seguimento, que terá duração de seis anos, será analisado um conjunto de variáveis individuais e familiares – dentre elas, medidas de psicopatologia geral e familiar, variáveis sociodemográficas, variáveis de risco e trauma precoce e hábitos de vida.

As análises propostas poderão, assim, indicar fatores de risco modificáveis e possibilidades de intervenção preventiva, determinando estruturas e vias de funcionamento cerebrais que são importantes para a fisiopatologia dos transtornos de humor na adolescência. Isso deverá ser crucial para o desenvolvimento de métodos diagnósticos – como, por exemplo, a ressonância magnética funcional – e métodos terapêuticos, que incluem a identificação de regiões para estimulação cerebral transcraniana.

"Vale lembrar que faltam ferramentas diagnósticas mais precisas como marcadores de progressão e de risco. Essa etapa do trabalho pretende identificar os marcadores precoces dos transtornos de humor na adolescência, determinar as vias causais dos transtornos mentais e avançar no tratamento e na prevenção individualizada", finaliza.

A tese de doutorado de Pedro Mario Pan integra o Projeto Conexão - Mentes do Futuro, o maior estudo epidemiológico longitudinal de Psiquiatria da Infância e Adolescência já conduzido no Brasil, cuja finalidade é avaliar problemas emocionais e de comportamento em crianças e jovens, elaborando estratégias de prevenção para os transtornos mentais.

Iniciado em 2009, o projeto é coordenado pelo Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento para Crianças e Adolescentes (INPD), que conta com as verbas repassadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Envolve várias universidades brasileiras, dentre as quais se destaca a parceria tripartite formada pela Unifesp, Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Artigo relacionado:

PAN, Pedro Mario; SATO, João R.; SALUM, Giovanni A.; ROHDE, Luis A.; GADELHA, Ary; ZUGMAN, Andre; MARI, Jair; JACKOWSKI, Andrea; PICON, Felipe; MIGUEL, Eurípedes C.; PINE, Daniel S.; LEIBENLUFT, Ellen; BRESSAN, Rodrigo A.; STRINGARIS, Argyris. Ventral striatum functional connectivity as a predictor of adolescent depressive disorder in a longitudinal community-based sample. The American Journal of Psychiatry, Washington, D.C., v. 174, n. 11, p. 1.112-1.119, 1º nov. 2017. Disponível em: <https://ajp.psychiatryonline.org/doi/full/10.1176/appi.ajp.2017.17040430>. Acesso em: 24 abr. 2018.

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Pesquisa revela forte associação entre dependência da rede e ocorrência de alterações emocionais, como estresse, depressão e ansiedade; no Brasil, ainda há poucos estudos sobre o tema

José Luiz Guerra

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(Imagem: varunkul01/Pixabay)

Quanto maior o tempo de uso da internet, maiores as chances de ocorrência de problemas psiquiátricos. Foi o que concluiu a dissertação de mestrado elaborada por Adriana Scatena, do programa de pós-graduação em Educação e Saúde na Infância e Adolescência, sob a orientação de Denise De Micheli. O estudo teve como objetivo avaliar a dependência de internet (DI) e o perfil de uso das mídias digitais em uma amostra formada por estudantes de graduação e pós-graduação, partindo-se da escassez de trabalhos desse tipo no Brasil. 

“Alguns autores observaram uma forte associação entre a dependência de internet e alterações emocionais, especialmente em países asiáticos, mas no Brasil existem poucos estudos sobre o tema”, explica De Micheli. A opção de analisar o impacto do uso abusivo dessas tecnologias na qualidade de vida de estudantes de graduação e pós-graduação também se deveu ao fato de essa amostra não pertencer ao universo de “nativos digitais”, do qual fazem parte crianças e adolescentes nascidos no século XXI e sobre os quais já existem estudos na área.

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Denise De Micheli, orientadora da pesquisa (Imagem: arquivo pessoal)

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad C), realizada em 2016 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicaram que 116 milhões de indivíduos estão conectados à internet no país. A maior parte deles (94,6%) utiliza o celular para esse fim.

A coleta de dados foi efetuada mediante o preenchimento de formulário on-line, a partir da aplicação de um questionário sociodemográfico e dos seguintes instrumentos específicos: o Internet Addiction Test (IAT), utilizado para avaliar a dependência de internet, e o Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21), voltado para identificar quadros de ansiedade, depressão e estresse. As respostas obtidas resultaram em uma pontuação final, segundo a qual, quanto maior o valor, maior o indicativo para dependência de internet, no caso do IAT, e para problemas psiquiátricos, no caso do DASS-21.

Os indivíduos foram convidados a participar do estudo a partir de diferentes estratégias: envio de e-mails próprios e divulgação por redes sociais no período de junho a agosto de 2016. A amostra final foi composta por 5.986 estudantes de graduação e pós-graduação, de instituições públicas e particulares, que foram divididos em três grupos: usuários sem risco (USR), usuários de baixo risco (UBR) e usuários de risco e alto risco (URAR).

Os resultados apurados por meio das respostas aos testes indicaram que o grupo USR compreendia 1.948 indivíduos; o grupo UBR, 3.402; e o grupo URAR, 636. Este último, correspondente a 10,7% do total analisado, classificou-se como dependente de internet, apresentando os maiores níveis de depressão, estresse e ansiedade em relação aos demais. Além disso, consumiu uma média de 6,8 horas diárias com o uso de smartphones e, para todas as mídias avaliadas, um tempo significativamente maior na comparação com os grupos restantes. Por outro lado, a pesquisa detectou diversos preditores de risco para a DI, como o vínculo com universidade pública ou privada, a quantidade de filhos e o nível de gravidade para depressão, ansiedade e estresse. “Esses achados são inéditos no Brasil porque fornecem dados para a elaboração de estratégias específicas de prevenção em saúde mental”, pondera De Micheli.

Dissertação relacionada:

SCATENA, Adriana. Avaliação do impacto do uso de mídias digitais em estudantes brasileiros de graduação e pós-graduação: uma análise exploratória. 2017. 73 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) - Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos.

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Emissário submarino de Santos (SP), contaminado por metais, pesticidas e produtos derivados da cloração, libera substâncias nocivas ao ser humano

Daniel Patini

Emissário

(Imagem: Alex Reipert)

Os efluentes municipais liberados pelo emissário submarino da cidade de Santos são agentes citotóxicos e genotóxicos para vários órgãos de ratos, como fígado e rim, ou seja, são capazes de causar lesões celulares e na molécula de DNA, de acordo com os resultados de um estudo realizado pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências da Saúde do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista.

Para o estudo, 20 ratos albinos machos Wistar foram expostos a efluentes diluídos em água potável em concentrações de 0%, 10%, 50% e 100% durante 30 dias. Os efluentes municipais foram coletados na estação de tratamento de águas residuais da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) na cidade de Santos. As amostras foram coletadas in natura após tratamento primário com retenção sólida e desinfecção por cloração antes de sua liberação pelo emissário e, posteriormente, armazenados em congelador a -20 °C até a sua utilização.

Os ratos expostos à toxicidade subcrônica do efluente municipal foram distribuídos em quatro grupos: um grupo foi utilizado como controle, ao qual foi oferecido apenas água e ração à vontade. Os três grupos restantes receberam concentrações crescentes de efluentes – (grupo 10%, grupo 50% e grupo 100%) – misturados com água filtrada (exceto grupo de 100%) durante o período experimental.

Principais resultados

Os resultados do estudo foram obtidos por meio de avaliação histopatológica, que indica alterações morfológicas nas células e na organização dos tecidos e presença de estruturas anômalas, e avaliação toxicogênica, realizada por meio de ensaios que detectam as lesões no DNA causadas por estímulos tóxicos.

A avaliação histopatológica do fígado mostrou diferença significativa entre o grupo controle, que apresentou arquitetura celular normal, e os ratos expostos a concentrações de 50% e 100% de efluentes, principalmente.

Entreteses Arquivo pessoal

Pesquisador Victor Hugo Silva (à direita) com o orientador do projeto, Daniel Araki Ribeiro, e Carolina Foot, integrante da equipe do laboratório de Toxicogenômica do Campus Baixada Santista (Imagem: arquivo pessoal)

“Enquanto que alguns dos animais expostos a efluentes municipais a 10% de concentração apresentaram alterações histopatológicas leves, no grupo exposto a efluentes municipais a 50% de concentração, o padrão de severidade aumentou. Já nos ratos tratados com efluentes a 100% de concentração, foram detectadas alterações degenerativas graves, como necrose e áreas hemorrágicas, em todos os animais analisados”, relata Victor Hugo Pereira da Silva, doutor em Ciências da Saúde pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências da Saúde e responsável pelo trabalho.

Quanto às avaliações histopatológicas de rim dos ratos expostos aos efluentes, alterações graves no tecido renal foram notadas em concentração de 50%, como resultado de necrose de coagulação e descamação epitelial. A 100% todos os animais apresentaram alterações histopatológicas, incluindo necrose grave e hemorragia tubular. 

O dano genético foi detectado em células de sangue periférico em concentrações mais elevadas de efluentes quando comparado ao grupo controle. A mesma situação ocorreu no fígado, isto é, concentrações mais elevadas foram capazes de induzir a quebra do DNA. Além disso, uma diminuição da capacidade de reparo do DNA foi observada em células hepáticas. E, por fim, todas as concentrações de efluentes induziram danos genéticos em células renais.

“Nossos resultados revelaram que o efluente foi capaz de induzir a deficiência de reparo do DNA para todas as concentrações utilizadas neste estudo. A lesão oxidativa do DNA tem sido reconhecida como uma das principais causas de morte celular e mutações em todos os organismos aeróbios – aqueles que utilizam o oxigênio para respirar. Em seres humanos, os danos oxidativos no DNA também são considerados um importante promotor do câncer”, comenta o pesquisador.

Outro dado do estudo diz respeito à morte celular, cujo índice foi maior no grupo 100% concentração de efluentes, mostrando diferenças estatisticamente significantes quando comparados ao grupo controle. Os grupos expostos a 50% e 10% de efluentes não apresentaram significância quando comparados aos não expostos. A exposição contínua aos efluentes foi capaz de induzir a morte celular de fígado apenas a 100% de concentração.

CONTAMINANTES AMEAÇAM SER HUMANO E MEIO AMBIENTE

Para o pesquisador, descobertas recentes têm sustentado a hipótese que os efluentes são potencialmente tóxicos devido à presença de contaminantes clássicos, tais como metais, pesticidas e produtos derivados da cloração. Os produtos e subprodutos resultantes da interação com esses elementos, como o enxofre, podem causar impactos nocivos ao meio aquático e à saúde humana. 

Ainda de acordo com ele, tais informações nos alertam não só para o risco em humanos, mas também para a saúde ambiental, visto que tais efeitos observados nesse modelo trazem informações para a avaliação de risco, entendendo que o emissário submarino se localiza em uma região cercada por um grande complexo industrial petroquímico e hospeda o maior porto da América Latina. A situação geográfica e demográfica contribui para a presença desses contaminantes clássicos e contaminantes emergentes, cujos efeitos a longo prazo ainda não são esclarecidos. 

"O mais interessante desse novo estudo foi o efeito mutagênico presente em todas as concentrações avaliadas. Além disso, ele contém dados relevantes para a saúde humana exposta a efluentes, mesmo de forma direta. No entanto, estudos adicionais são bem-vindos para compreender caminhos celulares específicos envolvidos nesse processo biológico desencadeado por poluentes ambientais", completa Silva.

O QUE É UM EMISSÁRIO

Emissário submarino é uma tubulação utilizada para o lançamento de esgoto doméstico e industrial no oceano, o qual possui grande capacidade de diluição e dispersão dos poluentes, em razão de seu enorme volume de água. "Os efluentes municipais liberados no continente ou no litoral marinho é um dos tipos mais comuns de poluição no meio aquático”, explica Silva.

emissario

(Imagem: Alex Reipert)

Artigo relacionado:
SILVA, Victor Hugo Pereira da; MOURA, Carolina Foot Gomes de; RIBEIRO, Flavia Andressa Pidone; CESAR, Augusto; PEREIRA, Camilo Dias Seabra; SILVA, Marcelo José Dias; VILEGAS, Wagner; RIBEIRO, Daniel Araki. Genotoxicity and cytotoxicity induced by municipal effluent in multiple organs of Wistar rats. Environmental Science and Pollution Research, v. 21, n. 22, p. 13069-13080, nov. 2014. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs11356-014-3261-5>. Acesso em: 29 nov. 2017.

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Quarta, 07 Novembro 2018 15:17

Efemérides

28/3/2018 - Anfiteatro Leitão da Cunha - Campus São Paulo: Simpósio e Diplomação de Novos Membros Afiliados da Academia Brasileira de Ciências (ABC) - Regional São Paulo 2018 - 2022

Novos Membros ABC

O evento contou com a apresentação dos trabalhos desenvolvidos pelos novos cientistas diplomados: Ederson Moreira dos Santos (USP, Ciências Matemáticas), Gustavo Martini Dalpian (UFABC, Ciências Físicas), Marcelo Alves da Silva Mori (Unicamp, Ciências Biomédicas), Marcelo Andrade de Lima (Unifesp, Ciências Biológicas) e Thiago Regis Longo Cesar da Paixão (USP, Ciências Químicas).

Helena Bonciani Nader, professora titular da Unifesp e presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e Paulo Eduardo Artaxo Netto, professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e referência mundial em mudanças climáticas, também proferiram conferências na qualidade de membros titulares da ABC.

Estiveram presentes ao encontro a reitora da Unifesp, Soraya Soubhi Smaili, o presidente da ABC, Luiz Davidovich, o vice-presidente da Regional São Paulo da ABC, Oswaldo Luiz Alves, e o pró-reitor adjunto de Pós-Graduação e Pesquisa da Unifep, Ruy Ribeiro de Campos Jr.

27/4/2018 - Anfiteatro Leitão da Cunha - Campus São Paulo: Homenagem a Celina Turchi Martelli

Palestra Celina Turchi Portal

Eleita entre as dez personalidades mais influentes da ciência pela revista Nature (2016) e entre as cem pessoas mais influentes pela revista Time (2017), Celina Turchi Martelli, epidemiologista e pesquisadora do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (Fiocruz - Pernambuco), veio a São Paulo para receber, juntamente com sua equipe do Grupo de Pesquisa da Epidemia de Microcefalia (Merg, na sigla em inglês), o 1º lugar do Prêmio Péter Murányi– 2018, na área da saúde, concedido pela Fundação Péter Murányi, em reconhecimento pelo trabalho Associação entre Infecção pelo Zika Vírus e Microcefalia. Na apresentação realizada na Unifesp, Martelli relatou como sua equipe acompanhou, de janeiro a novembro de 2016, a gestação de mulheres atendidas em oito maternidades públicas do Estado de Pernambuco e detectou a presença de infecção pelo zika vírus em 13 dos 32 recém-nascidos diagnosticados com microcefalia.

16 a 19/5/2018: Unifesp (São Paulo) e Escola Nacional de Administração Pública - Enap (Brasília): International Conference on Policy Diffusion and Development Cooperation

International Conference

O professor Osmany Porto de Oliveira, coordenador do Laboratório de Políticas Públicas Internacionais (Laboppi), da EPPEN/ Unifesp - Campus Osasco, organizou a Conferência Internacional sobre Difusão de Políticas e Cooperação para o Desenvolvimento, entre os dias 16 e 19 de maio. Dividido em duas etapas, realizadas em São Paulo e Brasília, o evento recebeu especialistas de várias regiões do mundo (Brasil, China, Camarões, Chile, Colômbia, Alemanha, Austrália, Inglaterra, França, Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia, Polônia, Romênia, África do Sul e Tunísia, entre outras) para discutir a internacionalização das políticas públicas. O evento em São Paulo, apoiado por recursos financeiros da Capes e da Fapesp, contou com a colaboração de mais de uma dezena de instituições de pesquisa do Brasil e do exterior.

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Fármacos eliminados pelo corpo humano e despejados no emissário da Baía de Santos afetam a fauna submarina e revelam um quadro alarmante

Lu Sudré

p061 Entreteses porAlexReipert

Monitoramento da presença de anti-inflamatório nas águas da Baía de Santos foi feito em cinco pontos próximos ao Emissário Submarino de Santos (Imagem: Alex Reipert)

É alarmante a atual situação das águas brasileiras, cada vez mais intoxicadas por poluentes, como produtos químicos e farmacêuticos. Objeto de análise de pesquisadores no Instituto do Mar (IMar/Unifesp) - Campus Baixada Santista, os fármacos encontrados nas águas da Baía de Santos, litoral de São Paulo, já causam sérios danos à biota marinha.

Ao lado de outros pesquisadores, o ecotoxicologista Camilo Seabra faz um monitoramento das águas da região desde 2014, mais precisamente em cinco pontos próximos ao Emissário Submarino de Santos, instalado em 1978 com o objetivo de difundir, em alto mar, o material tratado pela estação de esgoto da região. O estudo inédito identificou grande presença de anti-inflamatórios, anti-hipertensivos e analgésicos, somando 32 fármacos, com destaque para o ibuprofeno, paracetamol, losartan, valsartan e diclofenaco. Até mesmo a cocaína e seu metabólito benzoilecgonina, que seria a substância transformada pelo fígado, assim como a cafeína, presente nos medicamentos, foram identificadas em todas as amostras e em concentrações semelhantes às dos fármacos.

Pesquisadora do Departamento de Ciências do Mar do IMar/Unifesp, Mayana Karoline Fontes é a autora de uma dissertação de mestrado, orientada por Seabra, que analisou especificamente o risco ambiental do diclofenaco em ambientes marinhos. Fontes explica que o diclofenaco é um dos medicamentos anti-inflamatórios mais consumidos do mundo e que, em 2013, a substância passou a ser muito citada nas políticas direcionadas às águas da União Europeia, o que demonstra grande preocupação em relação à presença dessa substância nos ecossistemas aquáticos. Os nomes comerciais mais comuns desse fármaco são: Cataflam, Voltaren, Cambia, Diclac e Zorvolex.

XI Setac Latin Foto Bruno GalvÆo deCampos

Mayana Fontes e Camilo Seabra (Imagem: arquivo pessoal)

Para realizar a pesquisa, foram selecionadas as concentrações detectadas na água da Baía de Santos. Os mexilhões utilizados foram adquiridos em cultivo e testados em laboratório, comprovando terem boa qualidade ambiental, para evitar possíveis interferências no experimento. Os moluscos foram expostos em aquários preenchidos com água do mar e diferentes concentrações de diclofenaco durante um período de 96h, com troca de água e do fármaco a cada 24h.

Após esse período, a etapa seguinte do estudo consistiu na retirada dos tecidos das brânquias e das glândulas digestivas dos organismos em questão. A análise do efeito do fármaco nos mexilhões foi embasada na verificação de parâmetros bioquímicos e celulares, como informações do DNA, atividades de enzimas de detoxificação - que retiram substâncias potencialmente tóxicas de dentro do organismo - e estabilidade de membranas.

Segundo Fontes, os resultados apontam um cenário preocupante. “Nossos resultados demonstram que o diclofenaco pode causar importantes alterações em organismos expostos, tais como alterações em enzimas responsáveis pela biotransformação do fármaco, danos ao DNA e estresse fisiológico”, pontua. A alta concentração de diclofenaco nas águas também alterou os níveis de cicloxigenase, proteína que desempenha papel essencial no processo inflamatório. “Esses resultados são inéditos para espécies marinhas e demonstram um mecanismo de ação parecido com o reportado para outros modelos toxicológicos”, complementa a pesquisadora.

De acordo com ela, regiões litorâneas, como a Baixada Santista, são particularmente afetadas por essa contaminação porque os efluentes captados e lançados em alto mar pelos emissários não passam por um tratamento de esgoto adequado, capaz de retirar substâncias bioativas que possam deteriorar organismos marinhos. Fontes ainda comenta que não há um parâmetro legal que determina uma concentração segura de fármacos nos ecossistemas, já que a legislação ambiental do Brasil não contempla o monitoramento de produtos farmacêuticos e seus metabólitos em ambientes aquáticos, sejam eles formados por água doce ou salina.

Além da falta de tratamento adequado do esgoto, a conscientização da população é importante para que se interrompa o descarte inadequado dos fármacos vencidos ou fora de uso, que contribuem para o aumento das concentrações ambientais quando jogados em vasos sanitários e pias. “Melhorias nos sistemas de tratamento de esgoto e o descarte correto de fármacos em seus respectivos pontos de coleta colaborariam para a redução das concentrações do diclofenaco no ambiente marinho, e, consequentemente, os efeitos dessa classe de contaminantes de preocupação emergente seriam diminuídos”, enfatiza a pesquisadora.

Apesar do estudo em questão não abordar os impactos da presença dos fármacos nas águas para a saúde humana, em entrevista à edição anterior da Entreteses, Camilo Seabra já havia apontado que a automedicação e a medicamentação excessiva são fatores importantes a serem discutidos. Na ocasião, o orientador da dissertação afirmou que o uso e descarte irresponsável de fármacos pelos seres humanos podem prejudicá-los de outras formas. “O mais alarmante é que esses efeitos (dos fármacos) têm sido observados em concentrações já detectadas em ambientes aquáticos, denotando risco ecológico. Além disso, ao acumularem essas substâncias em seus organismos, os animais marinhos podem servir como via de contaminação e intoxicação de seres humanos, especialmente comunidades tradicionais que consomem grandes quantidades de pescado em sua dieta”, explicou o pesquisador.

MEDICAMENTO DE BAIXO CUSTO CONTAMINA O MEXILHÃO

“No Brasil, o diclofenaco é um medicamento de baixo custo e pode ser obtido facilmente nas farmácias sem a necessidade de receituário. A ocorrência desse fármaco em organismos vem sendo profundamente estudada em ambientes aquáticos de água doce, como rios e lagos, mas dados sobre a ocorrência dessa substância em ambientes marinhos são extremamente limitados”, afirma a pesquisadora Mayana Karoline Fontes. O trabalho em questão representa um dos primeiros estudos a reportar a ocorrência e efeitos do fármaco em organismos que habitam ambientes marinhos tropicais. 

A alta quantidade de medicação chega às águas por meio do consumo humano e reflete um uso excessivo da substância, o descarte inadequado por parte da população e a falta de tratamento do esgoto, no caso, despejado pelo Emissário Submarino de Santos em alto-mar.

A espécie escolhida para ser estudada foi o mexilhão Perna perna, um molusco que possui grande distribuição no litoral brasileiro.

O mexilhão é uma importante fonte de alimento e renda para as comunidades litorâneas e foi escolhido como objeto do estudo em razão de suas características. “O Perna perna é um organismo séssil, ou seja, não se movimenta, é de fácil manipulação e manutenção no laboratório. Além disso, como se trata de um molusco filtrador, ele está constantemente exposto a diversos contaminantes presentes no ambiente marinho, tais como os produtos farmacêuticos, com potencial para bioacumular e sofrer efeitos adversos”, comenta a autora da dissertação. O processo de bioacumulação consiste no acúmulo de substâncias nos tecidos dos organismos, sendo comumente decorrente da ingestão das substâncias presentes no ambiente.

Artigo relacionado:

FONTES, Mayana Karoline; GUSSO-CHOUERI, Paloma Kachel; MARANHO, Luciane Alves; ABESSA, Denis Moledo de Souza; MAZUR, Wesley Almeida; CAMPOS, Bruno Galvão de; GUIMARÃES, Luciana Lopes; TOLEDO, Marcos Sergio de; LEBRE, Daniel; MARQUES, Joyce Rodrigues; FELICIO, Andreia Arantes; CESAR, Augusto; ALMEIDA, Eduardo Alves; PEREIRA, Camilo Dias Seabra. A tiered approach to assess effects of diclofenac on the brown mussel Perna perna: a contribution to characterize the hazard. Water Research, v. 132, p. 361-370, abr. 2018. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29353198>. Acesso em: 12 jun. 2018.

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Terça, 06 Novembro 2018 15:15

Novas perspectivas de cura para a cirrose

Pesquisa com anfíbio bastante encontrado no Brasil pode trazer avanço no tratamento de lesões no fígado

Ana Cristina Cocolo

Imagem de uma cobra cega

Siphonops annulatus (popularmente conhecido como cobra-cega) tem função hepática que pode ajudar no avanço do tratamento da cirrose (Imagem: stephanieroot0/Pixabay)

O Siphonops annulatus é uma espécie de anfíbio – também conhecido por cobra-cega – cuja função hepática natural, nunca observada em outro animal, pode contribuir para o avanço no tratamento ou mesmo para a cura da cirrose, conforme mostra pesquisa desenvolvida na Unifesp, em parceria com pesquisadores do Instituto Butantan e da Universidade de Surrey, no Reino Unido. 

O estudo, publicado em março no periódico Journal of Anatomy, utilizou a estereologia como método quantitativo e seus resultados apontaram que o fígado da cobra-cega possui células denominadas melanomacrófagos, capazes de remover e degradar o colágeno. Elas também são capazes de fagocitar e digerir os basófilos, células do sistema imunológico relacionadas aos processos inflamatórios e fibróticos.

A cirrose é uma doença crônica que mata, por ano, cerca de 30 mil pessoas no país, segundo a Sociedade Brasileira de Hepatologia. A enfermidade é o desfecho de lesões no fígado causadas pelo alcoolismo crônico, por hepatites e, em menor prevalência, pelo uso de medicamentos. Em qualquer um dos casos citados, ocorre uma resposta de autorreparação (fibrogênese) do órgão, por meio da produção exagerada de colágeno e da cicatrização (fibrose), fazendo com que o fígado deixe de exercer sua função e chegue à falência completa. 

A estereologia permite a análise quantitativa de elementos por meio de imagens de tecidos de diversos órgãos, não apenas em duas dimensões (2D) – que compreendem o comprimento e a largura –, mas também em três dimensões (3D), levando em conta a profundidade. Por meio de um software é possível estimar, por exemplo, o número total de células contido em determinado volume do órgão. 

Robson Campos

Robson Campos Gutierre é o autor principal do estudo (Imagem: Ana Cocolo)

De acordo com o autor principal do trabalho, Robson Campos Gutierre, professor colaborador do Departamento de Morfologia e Genética da Escola Paulista de Medicina - (EPM/Unifesp) Campus São Paulo, várias estratégias de tratamento para conter ou eliminar a fibrose hepática já foram testadas, sem sucesso, em ratos.

Assim como os seres humanos, os ratos possuem células de Kupffer (também chamadas macrófagos do fígado), que podem atuar na resposta pró ou anti-inflamatória do organismo a algumas doenças. Nos estudos com esses animais, verificou-se que as células de Kupffer são capazes de fagocitar e degradar o colágeno injetado na corrente sanguínea, embora não haja evidências dessa função in vivo sem a introdução da mesma proteína. “Uma vez que a cicatriz fibrótica seja instalada, não há como reverter a lesão”, afirma Gutierre. "A habilidade que essa espécie tem de controlar suas defesas naturais também poderia fornecer uma visão da tolerância imune, um mecanismo pelo qual o fígado pode controlar inflamações indesejadas.”

Segundo o pesquisador, a tolerância imunológica pode, no caso, ser estudada porque essa espécie produz células pró-inflamatórias no fígado – hematopoiético – durante toda a vida, sem desenvolver inflamações crônicas. Como não possuem medula óssea, as células sanguíneas são produzidas no fígado e baço.

Cirrose no mundo

Várias são as causas que podem levar à cirrose hepática. Entre as principais estão o uso abusivo de bebidas alcoólicas, as hepatites virais e a ingestão excessiva de medicamentos.

O Brasil padece da insuficiência de dados epidemiológicos, mas o artigo Mortalidade por Cirrose, Câncer Hepático e Transtornos Devidos ao Uso de Álcool: Carga Global de Doenças no Brasil, 1990 e 2015, publicado em maio de 2017, no volume nº 20 da Revista Brasileira de Epidemiologia (http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201700050006), aponta que, em 2015, foram a óbito 28.337 pessoas devido a uma das três condições avaliadas no estudo. Esse número foi 75% maior quando comparado aos níveis de 1990. 

Já com relação às hepatites, foram notificados ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, 514.678 casos de hepatites virais no país, de 1999 a 2015. Desse total, 161.605 (31,4%) são referentes aos casos de hepatite A; 196.701 (38,2%), aos de hepatite B; 152.712 (29,7%), aos de hepatite C; e 3.660 (0,7%), aos de hepatite D.

Cobra-cega

Apesar de muitas vezes ser confundido com um anelídeo de corpo segmentado (como a minhoca ou minhocoçu), ou com uma serpente – pois chega a medir 45 centímetros de comprimento –, o Siphonops annulatus (popularmente conhecido como cobracega) é uma espécie de anfíbio e não um oligoqueta ou réptil.

Pertencentes à ordem de anfíbios denominada pelos cientistas Gymnophiona [do grego gymnos (nu) e ophioneus (semelhante a serpente)] ou Apoda [do grego a (sem) e podus (pé)], as cobras-cegas também recebem o nome de cecília [do latim caecus (cego)], já que todas as espécies têm olhos pequenos, envoltos em uma camada de pele. Seu habitat inclui florestas tropicais e subtropicais, distribuindo-se por quase toda a América do Sul. No Brasil, habitam também plantações, pastagens e jardins, alimentando-se de invertebrados, como cupins, formigas e minhocas, que vivem no solo. 

De acordo com diversos pesquisadores, a espécie Siphonops annulatus não é propriamente cega, apesar de não ser capaz de distinguir imagens. Seus olhos têm a função fotorreceptora, pois percebem a ausência ou presença de luz no ambiente. 

Gutierre explica que – entre as 207 espécies de cobras-cegas identificadas no mundo – 36 são oriundas do Brasil.

Artigo relacionado:
GUTIERRE, Robson Campos; JARED, Carlos; ANTONIAZZI, Marta Maria; COPPI, Antonio Augusto; EGAMI, Mizue Imoto. Melanomacrophage functions in the liver of the caecilian Siphonops annulatus. Journal of Anatomy, [s.l.], v. 232, n. 3, p. 497-508, mar. 2018. Disponível em: <https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/joa.12757>. Acesso em: 26 fev. 2018.

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Micro-organismos de mar profundo do Platô São Paulo atacam hidrocarbonetos derivados do petróleo e podem ser usados para biorremediação de acidentes

Valquiria Carnaúba

sUBMARINO SHINKAI

Em 2013, a agência japonesa Jamstec e a Universidade de São Paulo (USP) enviaram cientistas para o fundo do Atlântico Sul, a bordo do navio R/V Yokosuka, equipados com o submersível Shinkai 6500, em busca de vida no fundo oceânico (Imagem: Arquivo Pessoal)

O Platô São Paulo, planalto da costa marítima brasileira pertencente às regiões mais profundas das Bacias de Campos e Santos, abriga micro-organismos que aos poucos se revelam uma riqueza enorme aos cientistas. Local conhecido pela exploração sistemática de petróleo e derivados, também é lar de bactérias capazes de biodegradar e bioemulsificar o n-hexadecano (C16H34), um dos hidrocarbonetos componentes do óleo bruto. A recente descoberta foi feita por Cindi Espada de Souza, mestre em Ciência e Tecnologia da Sustentabilidade pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Seu trabalho, orientado por Suzan Pantaroto de Vasconcellos e co-orientado por Cristina Rossi Nakayama, ambas docentes do Instituto de Ciências Ambientais Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema, traz à tona investigações de habitats ainda pouco explorados, como os asphalt seeps (vazamento de asfalto), vazamentos naturais de óleo através dos afloramentos de rochas no fundo oceânico. Diferentemente dos derramamentos de óleo provocados por atividades humanas (tais como transporte e exploração de reservatórios), as expulsões naturais liberam petróleo lentamente ao longo do tempo, permitindo que os ecossistemas se adequem.

Nesse sentido, outra questão que deixou as pesquisadoras intrigadas foi a presença e a adaptabilidade de bactérias, comumente encontradas em regiões quentes do globo, em condições de exposição ao hidrocarboneto como fonte única de carbono sob baixas temperaturas (2,5ºC). O gênero bacteriano Bacillus sp., avaliado em laboratório, revelou taxas de biodegradação do n-hexadecano acima de 50%. Já outros dois isolados obtidos pelo estudo, Bacillus pumilus e Klebsiella sp (amplamente encontrado no trato digestivo humano), destacaram-se pela atividade emulsificante acima de 50% de diferentes compostos graxos.

Mais desconhecido que o solo lunar

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Região sudeste da costa brasileira foi escolhida pelos pesquisadores como ponto de partida para o estudo, por abrigar as bacias de Santos e Campos (Divulgação/Agência Fapesp)

Foram raras as vezes que regiões mais remotas, frias e inexploradas do oceano puderam ser acessadas. Apesar de o mar profundo representar 75% do volume total dos oceanos e o assoalho oceânico ocupar 65% da superfície terrestre, conhecemos menos de 10% dessas regiões em profundidades acima de 200 metros. "Há 50 anos, o fundo oceânico era considerado um ambiente plano, uniforme e biologicamente pobre. Com o avanço nas pesquisas, hoje conhecemos regiões de grande riqueza e abundância de vida, como planícies abissais que abrigam milhões de bactérias ativas por grama de sedimento. Desde então, os esforços para conhecer as regiões profundas dos oceanos têm se intensificado, com o desenvolvimento de tecnologia capaz de superar as dificuldades de se estudar esse ambiente tão remoto e extremo. Tomo como exemplo o projeto Busca pelos Limites da Vida, executado em 2013 pela Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia da Terra e do Mar (Jamstec) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM)”, conta Nakayama.

Na época, a Jamstec e o Instituto Oceanográfico (IO/USP) enviaram cientistas brasileiros, chineses e japoneses para regiões do Atlântico Sul, a bordo do navio R/V Yokosuka equipado com o submersível Shinkai 6500, com a finalidade de visitar ambientes de águas profundas e observar a estratégia adaptativa de organismos submetidos a alta pressão e temperaturas que variam entre -1°C e 4°C. “Resultou do convênio o cruzeiro IatáPiuna (termo tupi-guarani que significa ‘navegando por águas profundas e escuras’), com viagens na costa sul-sudeste brasileira e participação de pesquisadores de diferentes instituições de pesquisa, entre elas a Unifesp”, conta Nakayama.

A bordo do submersível com capacidade para um cientista e dois pilotos, Nakayama participou da segunda "pernada" (assim chamada a sequência de mergulhos realizada pelo submarino). “A primeira ocorreu na Elevação do Rio Grande e na Dorsal São Paulo, formações rochosas submarinas localizadas no Atlântico Sul, e a segunda no Platô São Paulo, na mesma região”, conta. Inicialmente em busca de vazamentos naturais de gás metano, a docente da Unifesp foi surpreendida ao presenciar a formação de um oil seep em seu estágio inicial.

Ela comenta que a diversidade e a abundância de seres vivos são mais expressivas nas regiões de escapes naturais de óleo, atualmente consideradas verdadeiros oásis por abrigarem concentrações de biomassa em ordens de grandeza acima das observadas nas planícies abissais. O material orgânico não assimilado rapidamente pela fauna presente na interface água-sedimento torna- -se normalmente alimento às bactérias do sedimento. Essas, desempenhando o seu papel no ciclo global do carbono, decompõem os hidrocarbonetos presentes no óleo, liberando compostos que podem ser utilizados pela fauna marinha profunda, regulando recursos alimentares de acordo com as suas taxas de transformação. Portanto, têm papel fundamental na reciclagem dos nutrientes, favorecendo o desenvolvimento de uma fauna mais rica no fundo oceânico.

Em sua participação no cruzeiro IatáPiuna, a pesquisadora teve a oportunidade de coletar rochas, óleo e sedimentos em uma área de asphalt seep localizada cerca de 260 km do litoral do Estado do Espírito Santo e a profundidades entre 2.650 - 2.750 m, para posteriores análises, realizadas no Laboratório Multidisciplinar em Saúde e Meio Ambiente do ICAQF/Unifesp. Obtidas a partir da expedição realizada de 10 a 24 de maio de 2013, as amostras continham bactérias comuns na superfície do fundo oceânico e em uma profundidade de até 10 cm abaixo dele, o que permitiu uma gama de estudos englobando aspectos taxonômicos, filogenéticos, biogeográficos e moleculares pela então mestranda Souza.

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Cristina Rossi Nakayama, pesquisadora do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/ Unifesp), foi surpreendida durante suas expedições por oil seeps, vazamentos de petróleo submersos, em seus estágios iniciais (Divulgação/Agência Fapesp)

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Cristina Rossi Nakayama, pesquisadora do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp), foi surpreendida durante suas expedições por oil seeps, vazamentos de petróleo submersos, em seus estágios iniciais (Divulgação/Agência Fapesp)

A união fez a força

Com as amostras em mãos, Souza desenvolveu sua pesquisa organizando todo esse material em uma coleção de 162 isolados bacterianos, divididos de acordo com fatores como profundidade em que foram encontrados, condições de cultivo, habilidades e mesmo a possibilidade dessas bactérias agirem mais eficazmente em conjunto. "Quando coloquei esses micro-organismos em meios de cultura, utilizei o conceito de consórcio, uma técnica aplicada para verificar se sua ação é mais efetiva trabalhando em conjunto de modo a beneficiar todos os gêneros bacterianos envolvidos. Futuramente pretendo avaliar o desempenho isolado dessas bactérias de acordo com sua estratificação de origem", afirma.

Tais isolados foram submetidos a procedimentos envolvendo técnicas de triagem rápida para a verificação da habilidade de sobrevivência em condições de exposição ao hidrocarboneto n-hexadecano como fonte única de carbono. Nesse quesito, foi possível a seleção de 51 bactérias, também avaliadas quanto à produção de metabólitos com atividade emulsificante quando utilizado óleo de motor automotivo como composto graxo.

Três isolados (Csh 01, Csh 26 e Csh 28A) revelaram uma média de biodegradação do hidrocarboneto acima de 50%, revelando o desempenho destacado de bactérias pertencentes ao gênero Bacillus sp., com maior proximidade filogenética à espécie Bacillus cereus. Dois isolados foram selecionados quanto à atividade bioemulsificante acima de 50% (Csh 31 e Csh 32B), identificados posteriormente como pertencentes às espécies Klebsiella oxytoca (Csh31) e Bacillus pumilus (Csh 32B).

As análises da atividade de biodegradação do hidrocarboneto pela bactéria somente foram possíveis, segundo Souza, devido à aplicação de duas técnicas amplamente utilizadas nesses casos, a técnica de cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (CGEM). A primeira trata-se de um processo para análise de misturas usada em química orgânica para separação de compostos que podem ser vaporizados sem decomposição, enquanto que a segunda diz respeito à técnica analítica para detectar e identificar moléculas de interesse por meio da medição de massa baseando-se nos íons que compõem a molécula, permitindo a elucidação estrutural de diferentes compostos orgânicos.

Resultados promissores a altas temperaturas

Durante 28 dias, Souza e sua orientadora acompanharam o desempenho dos isolados periodicamente, coletando pequenas amostras laboratoriais após intervalos de 24 e 72 horas, e depois após 7, 14, 21 e 28 dias. Como sobreviveram a baixas temperaturas, mas se mantiveram fisiologicamente ativas em ambientes quentes, essas culturas bacterianas foram avaliadas à temperatura de 30°C. Após analisar todos os cromatogramas, Souza obteve os índices de biodegradação em cada tempo amostral.

 No caso do isolado Csh 01, seu desempenho chegou à capacidade máxima (100%) logo após o primeiro dia, mantendo-se constante até o último dia do experimento. No caso do Csh 26, a capacidade de biodegradação logo após o primeiro dia ficou em torno de 80%, também constante até o final dos 28 dias. Já o isolado Csh 28 "esquentou os motores" da biodegradação somente após sete dias de monitoramento, alcançando a capacidade de aproximadamente 90% no 21° dia e diminuindo suas atividades para a taxa de 80% no 28° dia. Já os isolados Csh 31 e Csh 32B apresentaram desempenho biodegradador quase nulo, entretanto mostraram habilidades bioemulsificantes.

Souza reforça que, apesar de os componentes resultantes da biodecomposição de hidrocarbonetos ser predominantemente gás carbônico, o pH de todas as amostras manteve-se estável desde o início, começando e terminando em uma faixa de valores variantes entre 7 e 8, o que descarta a acidificação das águas oceânicas em uma aplicação em larga escala dessas bactérias para biorremediação. "De acordo com a Resolução Conama 357/2005, pHs entre 7,3 e 8,3 apresentam-se dentro da normalidade para água salina", discorre em seu trabalho. "Sendo as linhagens de origem marinha, houve uma adaptação e produção efetiva, pois o Ph está intimamente relacionado à produtividade microbiológica".

Imagem do mar

Apesar de  mar profundo ser composto por 75% de todo seu volume de água, e o assoalho oceânico por sua vez ocupar 65% da superfície terrestre, conhecemos menos de 10% dessas regiões além dos 200 metros de profundidade (Organização Nacional Francesa de Hidrografia/2016) / (Imagem: Geoffrey Whiteway/Freepik)

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Coleta de amostras de oil seeps no fundo oceânico do Platô São Paulo

Caracterização molecular

O avanço das técnicas de Biologia Molecular, associado aos novos procedimentos de Bioinformática, tem possibilitado que micro-organismos diversos presentes em áreas impactadas sejam detectados e classificados. Dessa forma, a Biologia Molecular torna-se uma poderosa ferramenta para o monitoramento de estudos de impactos ambientais. O desenvolvimento in situ e in vitro de linhagens provindas de sedimentos e diversos biomas, passam não somente a ter como objetivo o isolamento e a identificação de espécies com potencial de biodegradação, mas também a aferição dos efeitos metabólicos e substanciais sobre sua aplicabilidade em locais impactados.

Diante da capacidade comprovada dos isolados selecionados à biodegradação do hexadecano (Csh 01, Csh 26 e Csh 28A) e produção de bioemulsificantes (Csh 31 e Csh 32B), partiu-se às análises para a caracterização filogenética de tais bactérias, realizadas em colaboração com a equipe do Laboratório Alerta da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, espaço desenvolvido para projetos de pesquisa de investigação de mecanismos moleculares de resistência bacteriana a antimicrobianos, sob a orientação de Rodrigo Cayô da Silva.

Por meio do sequenciamento do gene rRna 16s, os três isolados com potencial ação biodegradadora foram identificados como predominantemente pertencentes ao gênero Bacillus sp. Já as outras duas culturas marcadas pela atividade exclusivamente bioemulsificante foram afiliadas às espécies Klebsiella oxytoca e Bacillus pumillus.

A despoluição como perspectiva

Posto que as bactérias são potenciais agentes de biorremediação dos mares nos casos de vazamento de petróleo, como ocorreria sua aplicação em larga escala em biorremediação? Questionadas, as três pesquisadoras são realistas. "Esse hidrocarboneto é um alcano, com uma estrutura molecular formada por 16 carbonos sequenciais e, na rota de biodegradação e bioemulsificação, é um dos primeiros a serem atacados por qualquer bactéria que tenha habilidade biodegradadora. Em razão disso, é utilizado como composto modelo para encontrar

micro-organismos potenciais para esse tipo de atividade. O fato de a Bacillus sp., da Klebsiella oxytoca e da Bacillus pumilus terem afinidade pelo consumo de n-hexadecano potencializa sua aplicação ambiental, mas não que isso garanta condições de ocorrer de fato - ao menos no momento”.

Uma alternativa viável, pontua Vasconcellos, seria aplicar apenas as enzimas ou produtos microbianos em processos que almejem biorremediação ou destoxificação de águas prejudicadas, afirma. Nakayama ressalta que um dos principais empecilhos para o uso dessas bactérias nesse tipo de atividade se dá pela legislação ambiental vigente no Brasil. "Aqui é preciso uma licença que garanta que essas bactérias estejam em seu estado mais inerte possível, pois a aplicação de micro-organismos exógenos, em tese, pode gerar competição, levando a problemas maiores, como a alteração completa da microbiota local", finaliza.

Biodegradação x bioemulsificação

A biodegradação diz respeito ao processo de decomposição de materiais (sobretudo de origem orgânica) por ação de seres vivos. Processo natural, ocorre ao nível dos solos e caracteriza-se pela ação de seres vivos, inclusive os pertencentes microfauna do solo (fungos, bactérias, insetos, etc.), denominados decompositores, que podem atuar tanto decompondo a matéria orgânica complexa, como elementos minerais suscetíveis de serem reutilizados pelos produtores (plantas), como reintroduzindo seus compostos nos ciclos biogeoquímicos (por exemplo, libertando para a atmosfera o carbono contido nos tecidos orgânicos, sob a forma de CO2 ). Segundo Vasconcellos, vale ressaltar que as bactérias aeróbias têm um importante papel na biodegradação de poluentes, processo em que o oxigênio utilizado se comporta como um reagente indispensável no mecanismo de ativação reacional. Já a capacidade de bioemulsificação desses micro-organismos diz respeito à sua capacidade de gerar soluções estáveis a partir de misturas de óleo e água. Bioemulsificantes podem se constituir como misturas entre lipídios, proteínas, carboidratos e complexos destes elementos, que atacam as gotas de óleo facilitando, nesse caso, sua biodegradação.

Artigo relacionado:

FUJIKURA, K.; YAMANAKA, T.; SUMIDA, P. Y.; BERNARDINO, A. F.; PEREIRA, O. S.; KANEHARA, T.; NAGANO, Y.; NAKAYAMA, C. R.; NOBREGA II, M.; PELLIZARI, V. H.; SHIGENO, S.; YOSHIDA, T.; ZHANG, J.; KITAZATO, H. Discovery of asphalt seeps in the deep Southwest Atlantic off Brazil. Deep Sea Research Part II: Topical Studies in Oceanography, [s.l.], v. 146, p. 35-44, dez. 2017. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0967064517301145>. Acesso em: 13 jul. 2018.

Publicado em Edição 10
Quarta, 31 Outubro 2018 13:52

Muito próximo da cura

Uma superterapia, desenvolvida por pesquisadores da Unifesp, pode ser a chave para acabar de vez com o vírus que causa a aids

Ana Cristina Cocolo

Imagem tipográfica HIV AIDS

(Imagem: Typography Images/Pixabay)

Uma pesquisa da Unifesp aponta que a cura da síndrome da imunodeficiência adquirida (aids) está mais perto do que se imagina. Esse é o primeiro estudo – em escala global – a testar um supertratamento em indivíduos cronicamente infectados pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), de acordo com o infectologista Ricardo Sobhie Diaz, que coordena a atividade científica em questão e é uma das referências mundiais no assunto.

Diaz é diretor do Laboratório de Retrovirologia do Departamento de Medicina da Escola Paulista de Medicina (EPM/ Unifesp) - Campus São Paulo e, juntamente com sua equipe, vem trabalhando em duas frentes para a cura da doença. Uma delas utiliza medicamentos e substâncias que matam o vírus no momento da replicação e eliminam as células em que o HIV fica adormecido (latência); a outra desenvolve uma vacina que leva o sistema imunológico a reagir e eliminar as células infectadas nas quais o fármaco não é capaz de chegar.

Participaram dessa pesquisa 30 voluntários com carga viral indetectável, sob tratamento padrão, conforme o que é atualmente preconizado: a combinação de três tipos de antirretrovirais, mais conhecida como “coquetel”. Os voluntários foram divididos em seis subgrupos, recebendo – cada um deles – diferentes combinações de remédios, além do próprio “coquetel”.

Para os integrantes do subgrupo que apresentou os melhores resultados até o momento, foram administrados mais dois antirretrovirais: o dolutegravir, a droga mais forte atualmente disponível no mercado; e o maraviroc, substância que força o vírus, antes escondido, a aparecer. Aliado a isso, eles também receberam duas substâncias que potencializam o efeito dos medicamentos: a nicotinamida – uma das duas formas da vitamina B3 –, que mostrou ser capaz de impedir que o HIV se escondesse nas células; e a auranofina – um antirreumático, também conhecido como sal de ouro, que deixou de ser utilizado há muitos anos para tratar a artrite e outras doenças reumatológicas. A auranofina revelou potencial para encontrar a célula infectada e levá-la ao suicídio.

O infectologista explica que os testes in vitro, in vivo (em animais) e, agora, em humanos confirmam que a nicotinamida é mais eficiente contra a latência quando comparada ao potencial de dois medicamentos administrados para esse fim e testados conjuntamente.

No entanto, apesar da descoberta dessas substâncias (a nicotinamida e a auranofina) para a redução expressiva da carga viral, ainda seria preciso algo estratégico que ajudasse a imunidade do paciente contra o vírus. Dessa forma, os pesquisadores desenvolveram uma vacina de células dendríticas, que conseguiu ensinar o organismo do paciente a encontrar as células infectadas e destruir uma a uma, eliminando completamente o vírus HIV.

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Diaz, em seu laboratório; ele e sua equipe deverão aguardar o resultado das biópsias dospacientes vacinados parainiciar a segunda etapa dapesquisa, que consistirá emsuspender os medicamentos e observar como reage o organismo daqueles voluntários (Imagem: Sergio Dazzi)

Estimulando o exército amigos

A vacina de células dendríticas é extremamente personalizada já que é fabricada a partir de monócitos (células de defesa) e peptídeos (biomoléculas formadas pela ligação de dois ou mais aminoácidos) do vírus do próprio paciente.

Diaz afirma que as células dendríticas são importantes unidades funcionais do sistema imunológico cuja função é capturar microrganismos prejudiciais ao organismo para, em seguida, apresentá-los aos linfócitos T CD8. Uma vez apresentados, esses linfócitos, que participam do controle de infecções, aprendem a encontrar e matar o HIV presente em regiões do corpo – chamadas pelos especialistas de “santuários” – aonde os antirretrovirais não chegam ou, quando chegam, atuam de forma muito modesta, como cérebro, intestinos, ovários e testículos.

Os seis pacientes que fizeram parte do subgrupo que recebeu o supertratamento ainda aguardam os resultados finais da terceira dose da vacina. “Somente após as análises de sangue e das biópsias do intestino reto desses pacientes vacinados é que partiremos para o desafio final: suspender todos os medicamentos de um deles e acompanhar como seu organismo irá reagir ao longo dos meses ou, até mesmo, dos anos”, conclui. “Caso o tempo nos mostre que o vírus não voltou, aí sim, poderemos falar em cura.”

Enquanto esses resultados não forem concluídos, o infectologista deixa o alerta. “Apesar do avanço no tratamento e controle do HIV, a infecção por esse vírus ainda é a pior notícia que podemos dar ao paciente em termos de doenças sexualmente transmissíveis”, declara. “A pessoa com HIV, mesmo com carga viral indetectável, passa por inúmeros processos inflamatórios devido aos efeitos colaterais dos medicamentos."

Além disso, o uso de preservativos durante a relação sexual garante – segundo o coordenador – a proteção contra o HIV e outras doenças graves para quem não tem o vírus e principalmente para quem já o tem. “Atualmente, o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos afirma que pessoas com carga viral indetectável não transmitem HIV. A falta de proteção pode, porém, acarretar ao indivíduo com o vírus controlado a reinfecção por um tipo diferente de vírus HIV ou por outro mais resistente.”

Aids no mundo

A síndrome da imunodeficiência adquirida (aids) é uma doença do sistema imunológico, causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), que torna uma pessoa mais propensa às doenças oportunistas e, até mesmo, ao câncer do que outra, cujo sistema imunológico esteja saudável. As principais vias de transmissão do HIV são as relações sexuais desprotegidas, as transfusões com sangue contaminado, o compartilhamento de seringas entre usuários de drogas injetáveis e a disseminação de mãe para filho, durante a gravidez, parto ou amamentação.

Apesar da evolução no tratamento com antirretrovirais e das campanhas preventivas, os números atuais sobre a doença apontam que a aids ainda é um grave problema de saúde pública global.

Dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) mostram que 36,7 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com HIV em 2016 e quase dois milhões seriam infectados no mesmo ano.

Desde o início da epidemia, ocorrida na década de 1980, cerca de 35 milhões de indivíduos perderam a vida por causas relacionadas à aids. No Brasil, o Ministério da Saúde (MS) contabilizou, até junho de 2016, quase 843 mil casos da doença, cuja maioria era constituída por homens (65,1%); o país é o que mais concentra novos casos de infecções (49%) na América Latina, segundo a Unaids. Um terço das novas infecções ocorre em jovens de 15 a 24 anos.

ESTATÍSTICAS GLOBAIS SOBRE HIV – 2016

  • 36,7 milhões de pessoas viviam com HIV; desses, 2,1 milhões eram menores de 15 anos
  • 1,8 milhão de novas infecções e um milhão de mortes
  • Desde o início da epidemia (década de 1980), 76,1 milhões de pessoas foram infectados pelo HIV e 35 milhões morreram por causas relacionadas à aids
  • Cerca de 53% das pessoas com HIV em todo o mundo tiveram acesso ao tratamento com antirretrovirais
  • Em escala global, menos da metade dos homens que vivem com HIV está em tratamento, comparativamente a 60% das mulheres nas mesmas condições
  • A África Oriental e Austral é a detentora do maior número de pessoas que vivem com HIV e representa 43% do total global de novas infecções
  • A tuberculose continua a ser a principal causa de morte em decorrência da aids, respondendo por um a cada três óbitos

Fonte: Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids)

Artigo relacionado:

SAMER, Sadia; NAMIYAMA, Gislene; OSHIRO, Telma; ARIF, Muhammad Shoaib; SILVA, Wanessa Cardoso da; SUCUPIRA, Maria Cecilia Araripe; JANINI, Luiz Mario; DIAZ, Ricardo Sobhie. Evidence of noncompetent HIV after ex vivo purging among ART-suppressed individuals. Aids Research and Human Retroviruses, New Rochelle (NY): Mary Ann Liebert, Inc., v. 33, n. 10, p. 993-994, out. 2017. Disponível em: <https:// www.liebertpub.com/doi/ pdf/10.1089/aid.2017.0036>. Acesso em: 6 jun. 2018.

Publicado em Edição 10

Medo de serem rejeitados por suspeita de portarem doença é um dos principais motivos relatados

Da Redação
Com a colaboração de Vanessa Victoria

imagem com roupas intimas e camisinhas

Imagem: Sergio Dazzi

Um estudo apresentado como dissertação de mestrado ao programa de pós-graduação em Pediatria da Escola Paulista de Medicina - (EPM/Unifesp) Campus São Paulo mostrou que a maioria dos adolescentes infectados com HIV e carga viral detectável (que aumenta o risco de transmissão) mantém relações sexuais desprotegidas (65% para o sexo oral, 63% para o sexo vaginal e 68,4% para o sexo anal). O enfermeiro e autor da pesquisa, Alexandre Lelis Braga, que é colaborador do Centro de Atendimento da Disciplina de Infectologia Pediátrica (Ceadipe/Unifesp), avaliou a sexualidade e o planejamento reprodutivo de 93 adolescentes infectados pelo vírus da aids por transmissão vertical (de mãe para filho no útero ou no parto). Além da confirmação sobre o pouco uso da “camisinha” por parte desses jovens, o estudo também alerta para o conhecimento limitado de medidas profiláticas que visam à não infecção do parceiro e do concepto.

Para o pesquisador, não há oposição ao uso do preservativo masculino entre os jovens pesquisados, mas sim pouco poder de negociação com os parceiros. “O adolescente que vive com HIV/Aids não tem, muitas vezes, habilidade suficiente para negociar o uso desse complemento com o parceiro sexual. Insistir, para eles, pode acabar levantando suspeitas sobre sua infecção”, explica Braga. “Essa falta de habilidade leva os jovens a evitar o relacionamento amoroso ou a adiar a vida sexual.”

Além disso, as moças tendem a manter relacionamentos mais estáveis, revelando seu diagnóstico ao parceiro, o que não ocorre com os rapazes entrevistados. “Vimos que eles tendem a iniciar mais precocemente a vida sexual, a ter mais parceiras e a adiar mais a revelação do seu diagnóstico a terceiros”, afirma. Entre os adolescentes que constituíram o foco da pesquisa, 76,7% nunca revelaram seu diagnóstico pelo medo da rejeição.

O estudo, que utilizou uma metodologia quali-quantitativa, reuniu participantes com idade entre 13 e 19 anos completos e concentrou-se em três centros especializados em aids pediátrica: Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP (CRT-DST/AidsSP), Ceadipe/Unifesp e Programa Municipal de IST/HIV/Aids/Hepatites Virais de São Bernardo do Campo. Além das entrevistas semidirigidas, foram aplicados questionários Adolescentes com HIV não sabem negociar o uso do preservativo Medo de serem rejeitados por suspeita de portarem doença é um dos principais motivos relatados Da Redação Com a colaboração de Vanessa Victória Infecção Sexualmente Transmissível Unifesp EntreTeses julho 2018 47 que incluíram variáveis sociodemográficas e questões sobre comportamento sexual. A amostra estudada foi, em sua maioria, femi - nina (59%), composta por indivíduos de cor parda (49,5%) e pertencentes às classes C e D (73%). A média de idade correspondente à primeira relação sexual foi de 13,8 para os rapazes e de 15,1 anos para as moças.

Banalização da doença e risco aumentado

Um dado alarmante extraído do estudo indicou a banalização da doença de acordo com a percepção dos jovens. “Devido ao fato de o tratamento hoje ser eficaz, muitos acre - ditam que ter HIV/Aids resume-se apenas a tomar um comprimido por dia, sem conhe - cer as consequências que o vírus e o próprio medicamento trazem ao organismo.”

A pesquisa também constatou que a pro - porção do uso de drogas entre os que já ti - veram relação sexual é significantemente maior do que entre os que não adotaram o mesmo comportamento. Esse dado é preo - cupante, uma vez que o uso abusivo de subs - tâncias pode alterar o nível de consciência, levando à prática de sexo desprotegido.

Por outro lado, o comportamento sexual de risco dos entrevistados pode ser relacio - nado à falta de treinamento para o uso cor - reto do preservativo, já que – conforme o apurado – 52,7% deles não receberam capa - citação adequada, principalmente no caso do preservativo feminino.

Sonho de constituir família

De acordo com o resultado apontado na pesquisa, o estigma que cerca o HIV preju - dicou as relações sociais e afetivas entre os adolescentes, enquanto o receio de infectar com HIV o parceiro ou o filho gerou dúvida em 44,1% deles. Dos que negaram ter dúvi - da em relação a ser soropositivo e ter filhos, quando perguntados sobre as medidas pro - filáticas disponíveis, 55,8% revelaram ter co - nhecimento inadequado acerca do avanço no cuidado da gestante soropositiva.

ia foi também expresso pela maioria (82,8%) dos jovens, que, assim como seus pares so - ronegativos, sonhavam com a paternidade ou a maternidade. Entre todos os participan - tes, os que buscavam aconselhamento com Sergio Dazzi 48 Unifesp EntreTesesjulho 2018 profissionais da saúde eram os que mais queriam ter filhos, assim como possuíam maior conhecimento em relação a métodos contraceptivos.

Em seu trabalho, Braga reafirma a importância de garantir que os adolescentes portadores do vírus HIV tenham acesso aos chamados direitos reprodutivos, os quais incluem uma livre decisão de ter filhos ou não. “Devemos informar esses jovens dos riscos, mas reconhecer que a decisão sobre o assunto é individual. Muitas vezes, um relacionamento amoroso só é legítimo quando há filhos. A gravidez planejada é sempre a melhor escolha”, ressalta.

Tais direitos estão previstos no artigo 226, parágrafo 7º, da Constituição Federal, no qual fica estabelecido que o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas. Não compete, pois, ao profissional de saúde impor um tipo de prevenção se o objetivo é acolher o paciente, respeitando os direitos constitucionais, de acordo com Braga. “Infelizmente os profissionais ainda continuam trabalhando na lógica de evitar a gravidez na adolescência a qualquer custo, sem levar em consideração a vontade dos jovens”.

O pesquisador alerta para o fato de que não é concebível exigir o uso do preservativo como única medida contraceptiva, embora deva existir a preocupação de atender a demandas específicas mediante o gerenciamento de riscos e a prevenção combinada (estratégia que utiliza simultaneamente diferentes abordagens de prevenção – biomédica, comportamental e estrutural). “Não podemos determinar qual será o método de prevenção a ser seguido pela pessoa. Haverá quem não use o preservativo por diversas razões, cabendo aos profissionais de saúde discutir com o indivíduo uma forma de profilaxia que se encaixe em seu perfil”, explica.

Para garantir os direitos reprodutivos é necessário implantar políticas públicas que diminuam o estigma ligado ao HIV/ Aids. “O tema deve ser tratado nos meios por onde os adolescentes circulam – por exemplo, nas áreas da saúde e da educação. Essa tarefa não pode ser apenas das secretarias de saúde. É preciso quebrar o tabu nas escolas, família e sociedade”, defende Braga.

O pesquisador explica também que, uma vez feita a manutenção da carga viral suprimida, menores são as chances de ocorrer transmissão vertical e horizontal do HIV (de mãe para filho e por via sexual, respectivamente). Atualmente o Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP (CRT-DST/AidsSP) discute a carga viral indetectável, que se iguala à intransmissível.

imagem de um homem tirando do bolso um pacote de camisinhas

Além de manterem relações desprotegidas, os adolescentes com HIV indetectável também possuem conhecimento limitado de medidas profiláticas que evitam a contaminação do parceiro e do concepto (imagem: Sergio Dazzi)

Distribuição de droga anti-HIV

foto do enfermeiro Alexandre Lelis Braga

O enfermeiro Alexandre Lelis Braga avaliou a sexualidade e o planejamento reprodutivo de adolescentes infectados pelo HIV (imagem: Alex Reipert)

Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), houve um rejuvenescimento no perfil dos indivíduos infectados. Antes, os índices eram principalmente compostos por idosos e homossexuais; agora, o vírus do HIV, embora inclua muitos homens gays, alcança uma parcela expressiva de jovens na faixa de 15 a 25 anos.

Para conter a expansão do HIV sobre a população de jovens, o governo brasileiro começou a distribuir, em dezembro de 2017, a droga Truvada, que previne a infecção causada pelo vírus. O Brasil é o primeiro país latino-americano a adotar esse medicamento, fornecido como parte do programa de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de Risco à Infecção pelo HIV, do Ministério da Saúde.

Neste momento inicial, a PrEP é oferecida aos grupos considerados mais vulneráveis, tais como profissionais do sexo, gays e outros homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas trans, usuários de drogas e parceiros sexualmente ativos de soropositivos. O tratamento preventivo, que consiste em tomar um comprimido por dia, é fornecido por 35 centros de saúde de 11 Estados.

Para Alexandre Braga, a profilaxia proposta pelo PrEP tem alta eficácia. “A proteção é de 99% para relações anais, mantidas após o uso do medicamento por sete dias consecutivos; e de 94% para relações vaginais, mantidas após seu uso por 21 dias consecutivos.”

O vírus no mundo

De acordo com o relatório divulgado em 2016 pela Unaids, chamado Acabando com a Aids, 19,5 milhões dos 36,7 milhões de pessoas que vivem com HIV tiveram acesso ao tratamento, e mortes relacionadas à aids caíram pela metade, de 2005 até a divulgação do documento (de 1,9 milhão para 1 milhão). Ainda de acordo com o balanço e considerando a continuidade desses avanços, será possível atingir o objetivo global de 30 milhões de pessoas em tratamento até 2020. No entanto, os jovens ainda estão sob grande risco de infecção, em especial as mulheres na África subsaariana. Dos 610 mil jovens entre 15 e 24 anos que, na região, contraíram infecções por HIV, 59% eram mulheres.

O Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIAHV) mostra que, no período de 1980 a junho de 2017, já foram notificados no Brasil mais de 882 mil casos da doença (contraída por todas as vias de transmissão), tendo ocorrido cerca de 316 mil óbitos até 2016.

De acordo com os indicadores e dados básicos da aids (http://indicadores.aids.gov.br/), levantados anualmente pelo Ministério da Saúde, de 1980 até junho de 2017, do total de casos reconhecidos 65,27% incluíam homens. No mesmo período foram registrados 14.749 casos de jovens menores de 13 anos cuja transmissão havia ocorrido de mãe para filho. No grupo mencionado, essa via de transmissão – denominada vertical – foi a mais comum, sendo 93% dos casos notificados ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan).

No Brasil, além do acesso gratuito à medicação necessária ao tratamento, garantida pela Lei Federal nº 9.313/96, os portadores de HIV têm direito – de acordo com a legislação em vigor – à isenção no imposto de renda, ao saque integral do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), à aposentadoria por invalidez e ao sigilo, no ambiente de trabalho, sobre sua condição sorológica, entre outros benefícios (https://unaids.org.br/conheca-seus-direitos/).

Desde 1989, quem vive com a doença no país dispõe de um documento informativo denominado Declaração dos Direitos Fundamentais da Pessoa Portadora do Vírus da Aids, que enumera suas prerrogativas básicas como cidadão.

PERFIL DOS JOVENS PESQUISADOS

  • Idade entre 13 e 19 anos
  • 49,5% são pardos
  • 73% pertencem às classes C e D
  • A idade de 14,5 anos corresponde à média geral para a primeira relação sexual, sendo 13,8 anos para os rapazes e 15,1 anos para as moças
  • 65% mantêm relações sexuais desprotegidas para o sexo oral; 63% para o sexo vaginal; e 68,4% para o sexo anal
  • 76,7% nunca revelaram seu diagnóstico aos parceiros sexuais por medo de rejeição
  • 82,8% querem ter filhos e constituir família
  • 10% já possuem filhos
  • 100% conhecem o preservativo masculino; 41,9%, o dispositivo intrauterino (DIU); 94,6%, o preservativo feminino; 75,3%, o injetável; 89,2%, o contraceptivo de emergência; 36%, a laqueadura; e 36,6 %, a vasectomia
  • 52,7% não receberam capacitação adequada sobre o uso de preservativo, especialmente do feminino
  • Nos últimos doze meses, 44,7% tiveram um parceiro sexual; 24,5%, de dois a três parceiros; 14,9%, de quatro a seis parceiros; 12,8%, mais de sete parceiros; e 2,1% não souberam quantificar

Fonte: Sexualidade e Planejamento Reprodutivo dos Adolescentes Vivendo com HIV/Aids: um Desafio ao Cuidado em Saúde, dissertação de mestrado elaborada por Alexandre Lelis Braga

MUDANÇA DE NOMENCLATURA

Desde o final de 2016, o Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIAHV) passou a utilizar a sigla IST (infecções sexualmente transmissíveis) em lugar de DST (doenças sexualmente transmissíveis). De acordo com o órgão, a nova denominação é uma das atualizações da estrutura regimental do Ministério da Saúde, ressaltando-se que a sigla IST já é utilizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em nota divulgada pelo DIAHV, Adele Benzaken, diretora do departamento e membro do Comitê Consultivo Estratégico e Técnico da OMS, explica que doença envolve sintomas e sinais visíveis no organismo. Já as infecções podem ter períodos assintomáticos, sendo detectadas apenas por meio de exames laboratoriais

Dissertação relacionada:

BRAGA, Alexandre Lelis. Sexualidade e planejamento reprodutivo dos adolescentes vivendo com HIV/Aids: um desafio ao cuidado em saúde. 2017. 99 f. Dissertação (Mestrado em Ciências) - Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo.

Publicado em Edição 10

Deficiência da proteína alfa-1 antitripsina (DAAT) em pessoas com doença obstrutiva crônica acelera o processo de lesões permanentes em fumantes, revela estudo inédito no Brasil

Ana Cristina Cocolo

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A deficiência da proteína alfa-1 antitripsina (DAAT) é um fator agravante aos fumantes e pode aumentaro impacto das sequelas do tabaco na função pulmonar e no aparecimento precoce de enfisema (Imagem: Alex Heipert)

Apesar de rara, a deficiência da proteína alfa-1 antitripsina (DAAT) é a doença genética mais frequente não detectada atualmente no teste do pezinho – exame realizado obrigatoriamente em recém-nascidos para o diagnóstico precoce de até seis doenças congênitas ou genéticas, como a fibrose cística e hipotireoidismo congênito. O alerta é do pneumologista e professor da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, José Roberto Jardim.

A DAAT é um distúrbio genético grave, resultado de diferentes mutações no gene serpina1, no qual a redução da proteína alfa-1 antitripsina no organismo pode desencadear sérios problemas clínicos. Pessoas com DAAT possuem genes anormais (os mais comuns são Z e S), herdados um do pai e outro da mãe, diminuindo a produção da proteína alfa-1 antitripsina (AAT).

A AAT é produzida pelo fígado e liberada na corrente sanguínea. Sua função é neutralizar várias enzimas presentes na resposta inflamatória do organismo, como a elastase neutrofílica, que ataca a estrutura dos pulmões e pode causar sérios danos ao órgão, como o enfisema que ocorre na doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). A DPOC habitualmente inclui a associação de bronquite crônica (reversível) e o enfisema pulmonar (irreversível).

De acordo com Jardim, que coordenou um estudo inédito no país para descobrir a prevalência do distúrbio, a DAAT é um fator agravante aos fumantes e pode aumentar o impacto das sequelas do tabaco na função pulmonar e no aparecimento precoce de enfisema, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) não contagiosa, porém debilitante, que atinge cerca de 3 a 4 milhões de pacientes. A fumaça do cigarro provoca o aumento de neutrófilos nos pulmões e, concomitantemente, a maior produção de elastase neutrofílica. “O subdiagnóstico da DAAT tem sido uma importante limitação, não somente para entendermos melhor a doença, como também para trabalharmos na educação genética dos familiares e indicarmos um tratamento mais adequado a cada caso”, afirma Jardim.

A investigação envolveu pesquisadores de outras instituições e foi tema do doutorado do pneumologista Rodrigo Russo, defendido em 2016 na Unifesp, e do mestrado de Laura Zillmer, que montou o método no Brasil, junto com o biomédico Gildo Santos.

Brasil sem estatística

Dois trabalhos publicados nas revistas científicas Lancet (Alpha1-antitrypsin deficiency, em 2005) e Chest (Worldwide racial and ethnic distribution of alpha1-antitrypsin deficiency: summary of an analysis of published genetic epidemiologic surveys, em 2002) estimam que a incidência de DAAT é de 1 para cada 2 mil a 5 mil nascidos vivos. No Brasil, no entanto, ainda não dispúnhamos desses números, apesar de sua importância, principalmente, por sermos uma população que possui uma mistura muito grande de raças e, possivelmente, maior risco de apresentar mutações genéticas. 

A pesquisa brasileira, finalizada com 926 pessoas com DPOC, apontou que a prevalência de DAAT no país entre os pacientes com DPOC é de 2,8%, sendo 0,8% na forma mais grave, a DAAT na forma ZZ. Isto quer dizer que a cada 100 pacientes com DPOC atendidos, um tem uma deficiência grave (mutação ZZ).

Para o pesquisador, esse dado, apesar de não diferir da maioria dos países, é preocupante. “Hoje, entre 10% e 15% da população com mais de 40 anos sofrem de DPOC”, afirma. “Se estendermos a prevalência da DAAT mais grave, que é de 0,8%, somente para os brasileiros acima de 40 anos e que correspondem a 37% da população do país, temos mais de 30 mil pessoas que podem morrer precocemente por insuficiência pulmonar crônica, justamente por não saberem que precisam ficar longe do tabaco, seja como fumante ativo ou passivo, e de ambientes com gases tóxicos, que podem comprometer a função pulmonar”.

De acordo com ele, a Organização Mundial de Saúde preconiza, desde 1999, que é importante que todos os pacientes com DPOC deveriam ter, pelo menos, uma medida em vida de alfa-1 antitripsina. A investigação da doença ainda na infância seria determinante, pois permitiria que houvesse a educação preventiva sobre o hábito de fumar e suas consequências devastadoras para aqueles que possuem o gene deficiente. Além disso, seria possível a educação genética. No entanto, o exame para detecção do distúrbio não é disponibilizado em larga escala no país e nem mesmo é gratuito ou obrigatório, como o teste do pezinho. “Essa é uma realidade que precisa ser mudada no Brasil, pois o único tratamento para essas pessoas é a reposição da proteína alfa-1, que custa, em média, 50 mil dólares/ano”, explica. “É muito mais barato prevenir do que remediar”.

Miscigenação não alterou dados

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Imagem: 4924546Pixabay

Para chegar a esses resultados, os pesquisadores avaliaram, entre julho de 2011 e agosto de 2012, 1.073 pessoas com DPOC em acompanhamento médico em seis centros de assistência no país: dois no Nordeste (CE e PE), dois no Sudeste (SP e MG), um no Sul (RS) e um no Centro-Oeste (GO), realizando o mesmo método do teste do pezinho, desenvolvido em São Paulo para detecção da DAAT.

Desses, 926 preencheram os critérios de inclusão no estudo que foram, entre eles, ter 40 anos ou mais e ter mantido quadro clínico estável por, pelo menos, quatro semanas. Entre os fatores de exclusão foram considerados pessoas com diagnóstico de qualquer outra doença pulmonar, infecções e processos inflamatórios e ter recebido o diagnóstico de DAAT anteriormente.

A coleta dos dados ocorreu em três fases distintas. A primeira consistiu na dosagem de AAT em amostras de sangue, para a identificação de um possível diagnóstico. Nesse caso, foram coletadas gotas de sangue a partir de uma punção com agulha no dedo do indivíduo e a amostra colocada em um papel filtro, como no teste do pezinho, (semelhante ao teste caseiro para verificar a glicemia em pessoas com diabetes) e enviado para análise. Na segunda fase, os participantes identificados com concentração de AAT menor que 2,64 mg/dl, que indica suspeita da doença, foram submetidos à dosagem sérica da proteína, na qual são colhidas as amostras de sangue por meio de punção venosa. Na terceira e última etapa, os indivíduos com concentração de AAT no sangue menor que 113 mg/dl – valor usado como ponto de corte para tentar identificar não somente as pessoas com deficiência grave, mas também as com deficiência moderada – foram submetidos à genotipagem para o diagnóstico definitivo. A genotipagem identifica pequenas frações do DNA, denominadas marcadores, e variam de indivíduo para indivíduo. Quando houve divergências entre os resultados da dosagem sérica e a genotipagem, os pesquisadores realizaram o sequenciamento genético dos participantes.

Genotipagem

Jardim explica que o gene normal é chamado de M e, pessoas sem a DAAT, possuem duas cópias desse gene (MM). A combinação do gene M e do gene S ou Z – resultando no gene MS ou MZ – causa moderada redução da proteína alpha-1 antitripsina (AAT). Apesar de não apresentarem a doença, essas pessoas são portadoras do gene deficiente e podem transmiti- -lo para seus filhos. “O gene M é protetor e o Z o gene mais problemático. Se o pai for MZ e a mãe MZ, o filho tem chance de 30% de nascer com uma das três combinações: MM, MZ ou ZZ”, diz. “A combinação de genes ZZ é que apresenta pior prognóstico, reduzindo a atividade da AAT no organismo para 10%, seguido pelo SS”.

Ainda segundo ele, a presença de duas cópias do gene S (SS) garante 60% do nível normal de AAT no organismo e a combinação SZ diminui a ação da proteína em 40%, aumentando consideravelmente o risco de enfisema.

Dos 926 participantes do estudo, 85 apresentaram concentração de AAT no sangue seco menor que 2,64mg/dl e, com isso, suspeita de deficiência. Desses, em 24, os níveis séricos foram menores que 113mg/dl, tendo indicação para a realização da genotipagem.

Nessa análise, dentre os com DAAT, em 12,5% o genótipo encontrado foi o MS; em cerca de 54% prevaleceu o gene MZ; em 4,2%, o SZ; em 4,2%, o SS; e, em 25% o ZZ.

Tosse

A DPOC é uma doença de progressão lenta e inicia-se com tosse e catarro (Imagem: Alex Reipert)

Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC)

 

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) é uma obstrução respiratória causada por uma reação inflamatória a gases e partículas que entram nos pulmões. Essa inflamação bloqueia a passagem de ar e dificulta a respiração. O diagnóstico da DPOC inclui, portanto, sintomas respiratórios, fator epidemiológico e a alteração da função pulmonar. As alterações da função pulmonar sãodecorrentes da presença de bronquite crônica (reversível) e o enfisema pulmonar (irreversível). Estima-se que, no Brasil, cerca de 5 milhões de pessoas sofram do mal.

 

Mais comum após os 40 anos de idade, a DPOC pode, no entanto, se manifestar em qualquer idade. Apesar de a exposição à poluição e a substâncias tóxicas ser uma das causas da doença, o tabagismo ainda é considerado o maior vilão e responsável por 75% a 85% dos casos diagnosticados.

 

A DPOC é uma doença de progressão lenta, que se inicia com tosse e catarro, os quais permanecem por alguns anos, progredindo para falta de ar leve após algum esforço físico maior e que se torna mais intensa, com o passar do tempo, mesmo com atividades corriqueiras que demandam menos energia corporal do indivíduo, como as atividades da vida diária.

 

Artigos relacionados:

RUSSO, Rodrigo; ZILLMER, Laura Russo; NASCIMENTO, Oliver Augusto; MANZANO, Beatriz; IVANAGA, Ivan Teruaki; FRITSCHER, Leandro; LUNDGREN, Fernando; MIRAVITLLES, Marc; GONDIM, Heicilainy Del Carlos; SANTOS JUNIOR, Gildo; ALVES, Marcela Amorim; OLIVEIRA, Maria Vera; SOUZA, Altay Alves Lino de; SALES, Maria Penha Uchoa; JARDIM, José Roberto. Prevalência da deficiência de alfa-1 antitripsina e frequência alélica em pacientes com DPOC no Brasil. Jornal Brasileiro de Pneumologia, São Paulo, v. 42, n. 5, p. 311-316, set./out. 2016. Disponível em: <http://jornaldepneumologia.com.br/imagebank/pdf/completo_v42n5_PT.pdf>. Acesso em: 26 fev. 2018.

ZILLMER, Laura Russo; RUSSO, Rodrigo; MANZANO, Beatriz Martins; IVANAGA, Ivan; NASCIMENTO, Oliver Augusto; SOUZA, Altay Alves Lino de; SANTOS JÚNIOR, Gildo; RODRIGUEZ, Francisco; MIRAVITLLES, Marc; JARDIM, José Roberto. Desenvolvimento e validação de um método de imunonefelometria em amostras de sangue em papel-filtro para a dosagem da alfa-1 antitripsina em pacientes com DPOC. Jornal Brasileiro de Pneumologia, v. 39, n. 5, p. 547-554, set./out. 2013. Disponível em: <http://www.jornaldepneumologia.com.br/detalhe_artigo.asp?id=2205>. Acesso em: 26 fev. 2018.

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