Equipe integrada por oito docentes e 30 graduandos fez excursões conjuntas para conhecer de perto contextos históricos e culturais distintos

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Grupo de pesquisa na Plaza San Martín, em Buenos Aires (Imagem: Arquivo pessoal)

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Grupo de pesquisa na Iglesia de San Ignacio, em Buenos Aires (Imagem: Arquivo pessoal)

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Grupo de pesquisa na Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma (Imagem: Arquivo pessoal)

Texto: José Luiz Guerra

Um projeto de pesquisa promovido pelo curso de História da Arte da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos, em parceria com a Universidade de Zurique, na Suíça, possibilitou que docentes e estudantes das duas instituições participassem de atividades conjuntas, visando ao estudo da História da Arte na América Latina.

Denominado New Art Histories: Relating Ideas, Objects and Institutions in the Latin American World, o projeto foi financiado pela Fundação Getty, de Los Angeles (Califórnia), nos Estados Unidos, e incluiu atividades didáticas, confrontando e conectando dois contextos acadêmicos e historiográficos distintos. Funcionou entre 2011 e 2017 e proporcionou viagens de estudo de campo e visitas conjuntas, levando estudantes e professores a se engajarem na exploração dos temas, a questionar cânones estéticos e hábitos intelectuais e a cruzar as fronteiras da História da Arte.

Jens Michael Baumgarten, docente da EFLCH/Unifesp, conta que havia a intenção de dar início ao processo de internacionalização do curso de História da Arte, do qual era – na época – coordenador. E a oportunidade surgiu quando foi convidado para ser professor visitante da Fundação Getty. Durante o período em que exerceu essa função, encontrou-se com Tristan Weddigen, docente da mesma área na Universidade de Zurique, e juntos elaboraram a proposta de trabalho. Esta foi, então, submetida à aprovação da instituição estadunidense, que provê o financiamento de várias linhas de pesquisa, entre as quais a Connecting Art Histories, voltada à História da Arte. 

“Uma equipe da Fundação Getty veio ao Brasil para conhecer alguns cursos de História da Arte e identificaram a Unifesp, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) como instituições de relevância internacional que mantinham os cursos mais avançados nessa área.” Segundo Baumgarten, o modelo do projeto, composto por universidades de países diferentes e que contemplava docentes e estudantes de graduação, era inédito. 

Um de seus principais objetivos foi permitir que os integrantes tivessem contato in loco com as artes, particularmente com o Barroco Global. Dessa forma, o grupo fez excursões conjuntas à Argentina, à Bolívia, ao México e a alguns países da Europa. O contato serviu também para a integração de graduandos e professores. “Queríamos desconstruir a ideia de “nós” e dos “outros”, já que todos trabalhávamos juntos, brasileiros e suíços”, comentou o docente. Durante o período de vigência do projeto, tanto a Unifesp quanto a Universidade de Zurique promoveram o intercâmbio de oito docentes e cerca de 30 estudantes. Além disso, foram realizados colóquios, simpósios e palestras no Brasil, na Suíça e nos países visitados.

No total, a Fundação Getty investiu US$ 750 mil dólares na iniciativa, acompanhando o andamento das atividades por meio de videoconferência e do envio de relatórios dos coordenadores. Em relação aos estudantes, a instituição adotou como procedimento manter contato com eles por mais tempo, mesmo após o término de sua participação no projeto. “Esse contato normalmente continua por cerca de dez anos, a fim de verificar o impacto do financiamento a longo prazo”, explica o historiador da Unifesp.

Além de possibilitar o desenvolvimento de pesquisas ligadas ao projeto, a experiência, segundo Baumgarten, proporcionou aos envolvidos um salto de qualidade em sua formação acadêmica. “Foi uma experiência fantástica. Você muda a sua visão de acordo com o que conhece. A História da Arte não é simplesmente uma história, mas várias, que precisam estar conectadas”, finaliza.

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Jens Baumgarten (à esquerda) e Tristan Weddigen em conferência na Argentina

 

Artigos relacionados:

BAUMGARTEN, Jens M.; TAVARES, André. Le baroque colonisateur: principales orientations théoriques dans la production historiographique. Perspective: actualité en histoire de l’art, Paris, v. 2, p. 288-307, 2013. Disponível em: <https://journals.openedition.org/perspective/3888#text >. Acesso em: 17 abr. 2019.

FARAGO, Claire; HILLS, Helen; KAUP, Monika; SIRACUSANO, Gabriela; BAUMGARTEN, Jens M.; JACOVIELLO, Stefano. Conceptions and reworkings of baroque and neobaroque in recent years. Perspective: actualité en histoire de l’art, Paris, v. 1, p. 43-62, 2015. Disponível em: <https://journals.openedition.org/perspective/5792#text >. Acesso em: 17 abr. 2019.

 
Publicado em Edição 11
Quarta, 26 Junho 2019 16:23

Compartilhando histórias de São Paulo

Plataforma digital permite localizar pontos de interesse histórico e promover integração entre pesquisadores e público em geral

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Imagem composta com camadas de mapas presentes na plataforma Paulicéia 2.0

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Luis Ferla, coordenador do projeto, e Cintia Rodrigues, uma das bolsistas do projeto

Texto: José Luiz Guerra

Imagine um espaço digital no qual você pode pesquisar e trocar informações sobre a história da cidade de São Paulo. Melhor ainda: um local onde é possível adicionar informações históricas sobre a maior cidade do Brasil, desde um edifício público até um estabelecimento familiar que funciona há décadas em um mesmo endereço. Isso tornou-se possível graças a um projeto de pesquisa da Unifesp, denominado Pauliceia 2.0.

O projeto surgiu por meio do Hímaco (Histórias, Mapas e Computadores), grupo de pesquisa da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos, que tem como objetivo explorar as possibilidades do uso das tecnologias no trabalho do historiador, discutir e experimentar essas possibilidades, particularmente as geotecnologias. Também participam da construção do Pauliceia 2.0 o Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) - Campus São José dos Campos, o Arquivo Público do Estado de São Paulo, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Emory University, dos Estados Unidos. A plataforma, coordenada por Luis Ferla, docente do curso de História da EFLCH/Unifesp, e por Karine Reis Ferreira, pesquisadora do Inpe, pretende fazer o mapeamento colaborativo da história de São Paulo entre os anos de 1870 a 1940.

Ferla, que também coordena o Hímaco, explica que este grupo de pesquisa criou um projeto piloto em 2013 para mapear as enchentes de São Paulo, utilizando o Sistema de Informações Geográficas (SIG), ação que encorajou o grupo a diversificar a pesquisa. “Como nós sempre trabalhamos com tecnologia livre e o software da SIG (gvSIG) era muito colaborativo, pensamos em algo com o mesmo perfil e surgiu a ideia do Pauliceia 2.0”.

Após uma primeira tentativa de financiamento do projeto, em 2015, que não foi aprovada, ocorreu uma nova tentativa no ano seguinte, dessa vez por meio do edital eScience/Fapesp, voltado para estimular projetos pioneiros de pesquisa que envolvam ciência da computação e outra área do conhecimento. Resultado: o Pauliceia 2.0 foi um dos cinco aprovados daquele ano e o único na área das Ciências Humanas. “Por sorte não conseguimos aprovar o projeto em 2015, pois ele não seria tão robusto quanto o atual, já que não teríamos a bordo todo o grupo da ciência da computação”, brinca o docente.

O uso de plataformas digitais em história ainda é pouco explorado no Brasil e no mundo. Ferla cita dois trabalhos semelhantes: um nacional e também colaborativo, denominado Atlas Digital da América Lusa, criado pela Universidade de Brasília e outro internacional, gerenciado pela Universidade de Sydney, que mostra os eventos ocorridos na cidade de Nova Iorque, mas é alimentado exclusivamente pela equipe da instituição. “Podemos dizer que o Pauliceia 2.0 é um dos pioneiros em história urbana colaborativa no mundo”, explica.

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Plataforma do Pauliceia 2.0 mostrando a camada Open Street Map (OSM), versão livre e colaborativa do Google Mapas, representando o mapa atual da cidade

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Endereço geolocalizado na plataforma do Pauliceia 2.0, representado pelo ponto verde, mostrado na camada referente ao ano de 1930

Como funciona?

A plataforma Pauliceia 2.0 pode ser utilizada basicamente de três maneiras diferentes: como uma ferramenta de geolocalização de endereços do passado, o mesmo que faz o Google Mapas, mas com endereços da São Paulo de 1870 a 1940; como repositório de pesquisas e informações da história da cidade naquele período, por meio da criação de “camadas”; ou apenas como local de consulta acerca do que foi alimentado ali. Somente para a segunda dessas funções há a necessidade da realização de um cadastro, que é bastante simples.

“O geolocalizador permite identificar um endereço do começo do século XX, que você não consegue encontrar na São Paulo do início do século XXI, pois numeração é outra, as ruas são outras ou ainda nem existiam”, pontua o coordenador. Ferla também dá um exemplo do uso da plataforma para criação de camadas: “Um dos estudantes está fazendo um trabalho sobre o percurso da passeata da greve de 1917. Ele pode desenhar uma linha sobre as ruas nas quais passaram as manifestações e fazer um upload do arquivo. E outras pessoas, por sua vez, podem analisar o que foi adicionado à plataforma, cruzar informações das diversas camadas, e tirar suas próprias conclusões”.

Existe a opção de o usuário escolher o plano de fundo de sua preferência, que remetem a mapas de diferentes épocas, de acordo com cada camada. Já a opção OSM (Open Street Map – versão livre e colaborativa do Google Mapas) representa o mapa atual da cidade. A escolha dos planos de fundo permite também observar a mudança da configuração das ruas da cidade. 

Cada uma das camadas já existentes ou criadas na plataforma funciona também como uma comunidade. Os usuários podem seguir uma ou mais camadas de seu interesse e recebem notificações sobre qualquer atualização feita, além de poderem trocar mensagens de interesse comum. O portal da plataforma também disponibiliza um tutorial bastante didático acerca do uso da ferramenta.

Mais do que um espaço para compartilhamento de informações, a ideia é a de que o Pauliceia 2.0 seja uma referência para pesquisas e para novos projetos. “Se o Rio de Janeiro quiser fazer um projeto nos mesmos moldes, não vai precisar começar do zero. Todos os códigos que o Inpe desenvolveu já estão disponíveis, são livres, e a metodologia também estará disponível”, completa.

Até março de 2019, a plataforma funcionava em uma versão beta, abrangendo apenas o centro da cidade, período inicial no qual a equipe do projeto estimulou toda e qualquer contribuição ou uso da plataforma, recebendo, inclusive, todas as críticas e sugestões decorrentes. Depois desse período, o projeto iniciou sua segunda fase, destinada a incorporar o restante da cidade. 

O trabalho dos bolsistas

O projeto conta com a participação de cerca de dez bolsistas, tanto ligados à Unifesp quanto ao Inpe. Uma delas é Cintia Rodrigues de Almeida, estudante do último ano do curso de História da EFLCH/Unifesp. Ela conta que era interessada em trabalhar com tecnologia no sentido integrador e decidiu entrar para o grupo de pesquisa Hímaco durante uma disciplina ministrada por Luis Ferla.

Ela acredita que o Pauliceia 2.0 poderá ajudá-la no seu trabalho de conclusão de curso. “Pretendo levantar fontes sobre homossexuais que vivam em condições de rua nos anos 1930. Uma das ideias é usar a plataforma para analisar a movimentação dessas pessoas e mapear esses caminhos para ver se há alguma congruência, se eles estavam indo para um mesmo lugar, se havia uma rede ou comunidade entre eles”, afirmou.

“O Brasil sempre foi apresentado como um país-rascunho”

Entreteses: O próprio nome do grupo de pesquisa que você coordena (Hímaco) sugere uma relação instigante, para dizer o mínimo, articulando em uma mesma operação histórias, mapas e computadores. Você pode explicar como surgiu essa proposta e qual o seu objetivo?

Luis Ferla: Ainda no final dos anos 1940, o padre jesuíta Roberto Busa fechou um acordo com a IBM para produzir um sistema computacional que abrigasse e manipulasse a produção de Tomás de Aquino, no que muitos consideram o nascimento das humanidades digitais. Isso demonstra que as humanidades já interagiam com os computadores desde muito cedo, praticamente quando do seu surgimento. Mas a relação entre a tecnologia e as humanidades, em geral, e a história em particular, sempre foi problemática. O mundo dos computadores é, por definição, avesso a ambiguidades e incompletudes, das quais os historiadores nunca estão livres. Apesar disso, os historiadores passaram a utilizar cada vez mais os computadores. Estamos falando dos anos 1960 e 1970, quando uma história quantitativa ganhava viabilidade tecnológica e impulsionava estudos de séries econômicas e demográficas em grande escala. Fernand Braudel, uma das maiores referências da área desde sempre, sintetizava então o novo paradigma: "fazer história é fazer medições". Mas, àquela época, os computadores eram máquinas muito caras, e apenas poucos centros de excelência tinham acesso a eles. Isso aprofundou uma clivagem geopolítica no sistema acadêmico internacional, opondo um centro capacitado tecnologicamente a uma periferia impotente e desconfiada. Além disso, o quantitativismo suportado por computadores gerava o temor frente a um conhecimento excessivamente preciso e objetivo, reavivando o fantasma do positivismo epistemológico. O que veio depois mudou dramaticamente esse quadro. O aparecimento do computador pessoal em fins da década de 1970, a difusão da internet desde então e a explosão da web nos anos 1990, passando pela sua reconfiguração nesse século, na chamada web 2.0, fizeram com que a tecnologia digital ganhasse enorme capilaridade e inegável onipresença no mundo atual. Entre os historiadores, a posição reticente e desconfiada se tornou crescentemente inviável. O ambiente de trabalho do historiador e os ecossistemas em que se movimentava já estavam irreversivelmente impregnados de cabos, monitores, impressoras, notebooks e desktops. Some-se a isso a questão geracional, que obrigou a universidade e seus professores a lidar com discentes cada vez mais afeitos às novas tecnologias. De uma forma geral, esse é o contexto que motivou a criação do grupo Hímaco, em agosto de 2010, na EFLCH/Unifesp - Campus Guarulhos, por mim e pelo meu colega Janes Jorge, também docente do Departamento de História. Dois objetivos relacionados entre si condicionam desde então as atividades do grupo: por um lado, discutir a presença das tecnologias digitais no ofício do historiador, incluindo seus impactos metodológicos e epistemológicos; por outro, explorar as possibilidades do uso dessas tecnologias na produção do conhecimento histórico. Esse segundo objetivo levou o grupo a trabalhar com geotecnologias. No concerto das humanidades digitais, é reconhecido que os historiadores têm maior atração pelas tecnologias que envolvem o tratamento da dimensão espacial em seus estudos, com destaque aos sistemas de informações geográficas (SIGs). Isso se explica pela importância central do espaço no estudo da história, ainda que nem sempre isso tenha sido devidamente admitido ao longo das várias flutuações paradigmáticas da disciplina. Assim nasceu o Hímaco e desde essa perspectiva foram desenvolvidos os seus projetos de pesquisa.

 

E: Você concorda com a avaliação de que o Brasil não tem o hábito de cultivar a sua própria memória histórica, e menos ainda a geográfica? Em caso positivo, quais os motivos e quais as implicações disso?

L.F.: O desprezo pelo conhecimento histórico é quase uma marca identitária de nossa sociedade. O Brasil sempre foi apresentado como um país-rascunho, sempre inacabado, incompleto e não realizado. Subjaz a essa perspectiva um profundo desprezo das classes poderosas pelo "povo brasileiro", sempre visto como ignorante, preguiçoso, ladino e incapaz. Daí que o Estado brasileiro, criado à sombra das elites do poder, seja um monstro burocrático, cercando o cidadão comum em todos os atos de sua vida social, desconfiando sistematicamente de sua boa fé. Esse preconceito tradicional vem de longe, e passa pelos quatro séculos de escravidão e pelos vários racismos científicos importados com entusiasmo da Europa após o fim do período de servidão. Ou seja, a história de um povo desprezível é uma história desprezível. Por outro lado, e isso infelizmente não é uma idiossincrasia nacional; uma concepção tecnocrática radical vem tomando conta das políticas públicas voltadas à educação e às universidades. Essas já não são consideradas centros de produção e reprodução do conhecimento, mas apenas formadores de mão de obra capacitada a um mercado de trabalho cada vez mais exigente e restrito. Os recentes ataques às humanidades e à sua utilidade social têm essa história. Por outro lado, as novas tecnologias vêm questionando o monopólio secular e quase absoluto da academia na produção do conhecimento. As fronteiras tradicionais entre a produção e o consumo do conhecimento estão em crise e se tornam cada vez mais difusas. Esse fenômeno, em si, é perturbador, pois explica a popularidade e a ascensão do anti-intelectualismo e de irracionalismos nos moldes do terraplanismo e afins. Mas, por outro lado, permite a articulação do conhecimento acadêmico com outros saberes do outro lado do muro da universidade. Por exemplo, as geotecnologias e o crescimento das alternativas colaborativas, livres e abertas têm possibilitado que grupos sociais subalternos, como trabalhadores sem terra, quilombolas e povos indígenas, produzam os seus próprios mapas e os mobilizem em suas lutas cotidianas. Essa é uma importante subversão, dado que os mapas sempre foram instrumentos de poder, cuja produção, por isso mesmo, era monopolizada pelo Estado e seus agentes. Aqui se insere o projeto atual do grupo Hímaco, o Pauliceia 2.0: mapeamento colaborativo da história de São Paulo (1870-1940), uma experiência do que vem sendo chamada de ciência aberta ou ciência cidadã. O papel dos pesquisadores e instituições envolvidas não é, por conseguinte, apenas o de produzir o conhecimento, mas buscar interlocuções e articulações com outros saberes sobre a cidade, produzidos por sindicatos, associação de moradores, coletivos ou pessoas comuns, além, obviamente, dos próprios pesquisadores reconhecidos da história da cidade. E o papel da academia ainda é imprescindível, pois se não detém mais o monopólio da produção do conhecimento, o seu lugar é privilegiado para estimular as articulações e as sinergias possíveis.

Plataforma Pauliceia 2.0 • www.pauliceia.dpi.inpe.br

Grupo de pesquisa Hímaco • www.unifesp.br/himaco

Artigo relacionado:
GOMES, K. R. F.; FERLA, L.; QUEIROZ, G. R.; VIJAYKUMAR, N. L.; NORONHA, C.; MARIANO, R.; TAVEIRA, D.; SANSIGOLO, G.; GUARNIER, O.; ROGERS, T.; LESSER, J.; PAGE, M.; ATIQUE, F.; MUSA, D.; YAMAMOTO, J.; MORAIS, D. S.; MIYASAKA, C. R.; ALMEIDA, C. R.; NASCIMENTO, L. M.; DINIZ, J. A.; CAETANO, M.. A platform for collaborative historical research based on volunteered geographical information. Journal of Information and Data Management, 2018. No prelo.

 
Publicado em Edição 11

Seu projeto acadêmico propõe a integração entre as áreas do conhecimento, potencializadas por uma estrutura completamente reformulada e equipada com novos laboratórios e uma biblioteca com mais de 100 mil títulos

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A Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos foi criada em 2007, em decorrência do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Seu projeto acadêmico propõe a integração entre as áreas de conhecimento das Ciências Humanas, buscando formar cidadãos aptos a atuar de forma crítica e propositiva.

A unidade acadêmica oferece cursos de graduação em Ciências Sociais, Filosofia, História, História da Arte, Letras e Pedagogia, organizados em torno de três eixos de disciplinas: obrigatórias, de domínio conexo (formação complementar) e optativas (formação livre). No domínio conexo, as disciplinas de Leitura e Interpretação de Textos e de Filosofia Geral são obrigatórias, enquanto as demais podem ser escolhidas em áreas de graduação diversificadas, estimulando a troca de conhecimento no campo das humanidades. As matrizes curriculares permitem o acesso aos textos originais que fundamentam as tradições de pensamento das respectivas áreas, e ainda à bibliografia crítica produzida em diferentes contextos acadêmicos.

Em nível de pós-graduação são oferecidos sete programas de mestrado acadêmico (Educação e Saúde na Infância e Adolescência, Educação, Filosofia, Ciências Sociais, História, História da Arte e Letras), um de mestrado profissional (Ensino de História) e três de doutorado (Educação, Educação e Saúde na Infância e Adolescência e Filosofia). Associados a esses programas, são desenvolvidos por docentes e estudantes diversos projetos mediante o financiamento das agências de fomento à pesquisa.

A EFLCH/Unifesp conta com 3.070 estudantes matriculados nos cursos de graduação. Em relação ao quadro de servidores, são 246 docentes, todos com titulação mínima de doutorado em regime de dedicação exclusiva, e 96 técnicos administrativos em educação. O campus está localizado no bairro dos Pimentas e dispõe de um amplo edifício acadêmico com salas de aula, laboratórios, biblioteca com mais de 100 mil títulos, restaurante universitário e núcleo de apoio ao estudante, além de duas estruturas que foram completamente reformuladas: o prédio anexo e o Prédio do Arco. O espaço também abriga o Teatro Adamastor Pimentas, que dispõe de recursos técnicos consideráveis e capacidade para acomodar 500 pessoas, onde são realizados eventos institucionais, apresentações artísticas e projetos culturais voltados à comunidade acadêmica e ao público em geral.

Pós-graduação em números:

9 programas de pós-graduação
11 cursos de pós-graduação
7 cursos de mestrado acadêmico
1 curso de mestrado profissional
3 cursos de doutorado
623 estudantes de mestrado acadêmico
40 estudantes de mestrado profissional
181 estudantes de doutorado
209 docentes/orientadores credenciados
685 estudantes titulados até 2018


Dados extraídos do Sistemas Integrado de Informações Universitárias (SIIU) em 28/3/2019

 
Publicado em Edição 11
Quarta, 26 Junho 2019 15:27

Na mira da “agulha”

Vacina experimental, capaz de erradicar o parasita Trypanosoma cruzi em camundongos, será testada em animais de maior porte e posteriormente em humanos

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* As imagens acima são de autoria de Luiz Henrique Gagliani, docente do Centro Universitário Lusíada

 

Texto: Ana Cristina Cocolo

Pesquisadores do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista obtiveram resultados promissores de uma vacina criada para combater o Trypanosoma cruzi, parasita causador da Doença de Chagas. Ela está entre uma das quatro principais causas de morte no país pelas chamadas doenças negligenciadas – que são aquelas causadas por agentes infecciosos ou parasitas e consideradas endêmicas em populações de baixa renda. 

Atualmente os indivíduos infectados contam apenas com dois medicamentos quimioterápicos, cuja ação é variável, mostrando-se mais eficazes na fase aguda da doença. “Os medicamentos atualmente disponíveis estão há 40 anos no mercado e uma nova abordagem terapêutica se faz urgentemente necessária e acredito que estamos no caminho certo para o desenvolvimento de um método vacinal eficaz que poderá beneficiar milhões de pessoas cronicamente infectadas em nosso país”, afirma Flávia Andressa Mazzuco Pidone, autora do estudo apresentado como tese de doutorado no Programa Interdisciplinar em Ciências do ISS/Unifesp.

A vacina, testada em camundongos, conseguiu erradicar a doença dos animais a partir do estresse oxidativo (excesso de radicais livres na célula do agente infeccioso), da genotoxicidade (efeitos tóxicos sobre o material genético do parasita) e do aumento da resposta inflamatória (quebra da barreira de defesa do microrganismo). Esse conjunto de ações gerou uma potente resposta imune celular, marcada presença de radicais livres, dano ao DNA e aumento da resposta inflamatória nas células hospedeiras. 

De acordo com Pidone, tanto a vacinação profilática (feita antes da infecção) quanto a vacinação terapêutica (feita após a infecção) foi capaz de promover uma resposta contra o parasita, impedindo a morte dos animais infectados. O trabalho foi orientado por Daniel Araki Ribeiro e José Ronnie Carvalho de Vasconcelos, docentes no Departamento de Biociências da Unifesp. 

Pidone explica que outros grupos de pesquisadores testaram vacinas com antígenos do parasita, sem muito sucesso. “Acreditamos que o sucesso obtido em nosso estudo se dá pelo fato de estarmos trabalhando com diversos protocolos vacinais que utilizam, principalmente, os antígenos TS (transialidase) e ASP-2 (proteína 2 da superfície de amastigota), cobrindo tanto a forma infectante do patógeno, como a forma replicativa, respectivamente”, diz. “Associado a isso, temos o diferencial de utilizarmos vacinas com o gene ASP-2 em camundongos extremamente susceptíveis à infecção do Trypanosoma cruzi, como é o caso da linhagem chamada A/Sn. 

Essa linhagem, segundo a pesquisadora, responde muito mal à infecção por esse parasita porque a resposta imunológica apresentada pelo animal ocorre muito depois do pico da parasitemia. Ou seja, quando a resposta imune surge, já houve uma grande colonização tecidual parasitária. 

Pidone afirma que uma das dificuldades em ainda não se ter descoberto uma vacina contra a doença é o fato de que o parasita utiliza-se de vários mecanismos de evasão da resposta imune do hospedeiro, que vão desde sua habilidade de diferenciação em formas intracelulares (amastigotas), que se utilizam dessa característica para escapar da ação dos anticorpos, até sua incrível capacidade de variação antigênica. “Outra estratégia adaptativa de sobrevivência do Trypanosoma cruzi encontra-se na colonização de tecidos alvos, como o tecido adiposo”, diz. “Lá o parasita persiste em estado latente, evitando as defesas do hospedeiro”. 

O próximo passo para testar a eficácia da vacina, antes de chegar a ser usada em seres humanos, já está em andamento. Para a execução da chamada fase pré-clínica, na qual são utilizados animais de maior porte, Pidone conta com a colaboração de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do aporte financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do apoio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas (INCT-V).

Além dessa pesquisa, Pidone também teve aprovado um projeto pelo CNPq (MCTIC/CNPq nº28/2018) no qual busca identificar os genes que estão relacionados com o processo de morte do tecido cardíaco de animais infectados com Trypasoma cruzi.

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Flávia Andressa Mazzuco Pidone, autora do estudo (Imagem: Giovana Jamar)

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Ninhos de amastigota em tecido hepático de camundongos infectados com Trypanosoma cruzi e vacinados (Imagem: Arquivo pessoal)

 

Imunidade celular

A vacina foi testada em 16 camundongos, divididos em quarto grupos distintos: Grupo Controle (1): os animais não passaram por nenhum tratamento terapêutico ou foram infectados; Grupo Infectado (2): os animais foram infectados com o Trypanosoma cruzi; Grupo Imunizado (3): os animais foram imunizados com a vacina, por via intramuscular; Grupo Imunizado e Infectado (4): os animais foram imunizados com a vacina e infectados com o parasita no mesmo dia. 

A quantificação da presença de parasitas vivos no sangue dos animais foi realizada diariamente, a partir do nono até o 13º dia após a infecção. Durante esse período observou-se que houve uma diminuição significativa na quantidade de parasitas por mililitro de sangue no grupo que recebeu a vacina e foi infectado, quando comparados aos animais que foram apenas infectados. 

Nas análises histopatológicas do coração e do fígado, foi possível identificar considerável número de ninhos de amastigota (uma das formas de apresentação do Trypanosoma cruzi) em tecido cardíaco e no tecido do fígado no grupo dos animais que foram infectados (Grupo 2). Já no grupo dos animais (Grupo 4) que foram imunizados com a vacina e infectados no mesmo dia, notou-se drástica diminuição do número de ninhos presentes. Os animais do grupo controle (Grupo 1) e do grupo que foi apenas imunizado (Grupo 3) não apresentaram alterações morfológicas perceptíveis e não detectaram-se a presença de ninhos. 

Outras análises também revelaram danos no DNA em células sanguíneas dos camundongos infectados com Trypanosoma cruzi e imunizados, mostrando que a vacina potencializa a genotoxicidade – efeitos tóxicos sobre o material genético – sobre essas células, mecanismo esse importante para erradicar o parasita.

Quarta causa de morte entre todas as doenças negligenciadas

Chagas é uma doença tropical causada pelo parasita Trypanosoma cruzi, cujo vetor (veículo de transmissão) é o inseto conhecido como barbeiro. Endêmica em 21 países da América Latina, pertence a uma vasta lista de doenças consideradas negligenciadas pela Organização Mundial da Saúde, já que menos de 1% das pessoas com o problema recebem o tratamento antiparasitário. 

Durante a fase crônica da infecção, 30% das pessoas desenvolvem problemas cardíacos, que podem levar à morte súbita, e 10% problemas digestivos e/ou neurológicos graves e incuráveis. 

De acordo com a Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDI – sigla em inglês para Drugs for Neglected Diseases Iniciative), organização sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos para doenças negligenciadas, atualmente há entre seis e oito milhões de pessoas infectadas somente na América Latina e outras 70 milhões correm o risco de contrair a doença. Os dados apontam ainda que aproximadamente 14 mil pessoas perdem suas vidas todos os anos nessa região em razão da Doença de Chagas e que menos de 10% das pessoas com o problema são diagnosticadas. 

No Brasil, o Ministério da Saúde estima que haja cerca de um milhão de pessoas infectadas pelo parasita. No entanto, cita estudos recentes que apontam um número bem maior: entre 1,9 milhões e 4,6 milhões, devido à taxa de mortalidade por Doença de Chagas estar entre as quatro maiores causas de morte por doenças infecciosas e parasitárias no país.

Apesar das estratégias de controle e prevenção, ainda é grande o risco de transmissão pelo inseto. Entre 2008 e 2017, foram registrados casos da doença na sua forma aguda (quando não há presença de sintomas ou quando os mesmos – que podem incluir erupções na pele, febre, diarreia, entre outros – duram de dois a quatro meses) em quase todos os estados da federação. A região Norte, no entanto, concentra a maior parte deles (95%), sendo o Estado do Pará o responsável por 83% desses registros. 

Formas de transmissão da doença

Por vetor: por meio das fezes infectadas do inseto barbeiro que defeca ao lado de sua picada e, quando a pessoa coça o local, faz com que as fezes entrem na corrente sanguínea.

Transfusão de sangue ou transplante de órgãos: apesar do risco, houve queda significativa dessa forma de transmissão devido ao melhor controle de qualidade nos bancos de sangue. 

Oral: ingestão de alimentos contaminados com o inseto ou suas fezes (açaí, cana de açúcar, entre outros). Essa forma de transmissão, que ocorre principalmente na região Amazônica, pode ser uma das mais graves devido ao alto número de parasitas que entram no organismo. 

Materna: a mãe transmite ao filho durante a gestação.

Fonte: Ministério da Saúde e DNDI

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RIBEIRO, Flávia Andressa Pidone; PONTES, Camila; GAZZINELLI, Ricardo T.; BRUNA-ROMERO, Oscar; LAZZARIN, Mariana Cruz; SANTOS, José Fontes dos; OLIVEIRA, Flávia de; PISANI, Luciana Pellegrini; VASCONCELOS, José Ronnie Carvalho de; RIBEIRO, Daniel Araki. Therapeutic effects of vaccine derived from amastigote surface protein-2 (ASP-2) against Chagas disease in mouse liver. Cytokine, v. 113, p. 285-290, jan. 2019. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.cyto.2018.07.017 >. Acesso em: 27 fev. 2019.

RIBEIRO, Flávia Andressa Pidone; PONTES, Camila; MACHADO, Alexandre De M. V.; BRUNA-ROMERO, Oscar; QUINTANA, Hananiah T.; OLIVEIRA, Flávia de; VASCONCELOS, José Ronnie Carvalho de; RIBEIRO; Daniel Araki. Therapeutical effects of vaccine from Trypanosoma cruzi amastigote surface protein 2 by simultaneous inoculation with live parasites. Journal of Cellular Biochemistry, v. 120, n. 3, p. 3.373-3.383, mar. 2019. Disponível em: <https://doi.org/10.1002/jcb.27608 >. Acesso em: 27 fev. 2019.

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PIDONE, Flávia Andressa Mazzuco. Eficácia da vacina com o gene da ASP-2 de Trypanosoma cruzi em múltiplos órgãos contra a Doença De Chagas em camundongos: aspectos histopatológicos, inflamatórios e toxicogenômicos. 2018. Tese (Doutorado em Ciências da Saúde) – Instituto de Saúde e Sociedade, Universidade Federal de São Paulo, Santos.

 
Publicado em Edição 11

Pesquisadores do ISS/Unifesp que participam de projeto da ONU identificam nove frutos brasileiros que fornecem 84 compostos bioativos, incluindo fenóis, carotenoides, antocianinas e iridoides, mas são pouco consumidos no país

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Primeira linha: araçá, cagaita e cambuci; na segunda, jabuticaba, jatobá e jenipapo; na terceira, mangaba, pequi e pitanga

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Texto: Ana Cristina Cocolo

Das mais de 50 mil plantas comestíveis disponíveis em todo o mundo, apenas 15 delas, principalmente o arroz, o milho e o trigo, são responsáveis por 90% das demandas de energia dos seres humanos, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, sigla em inglês). E o Brasil, que é berço de 18% de toda a biodiversidade vegetal do planeta, ainda possui uma parcela considerável da população que sofre de sérias deficiências nutricionais, obesidade e doenças crônicas. 

Um grande projeto nomeado Biodiversidade para Alimentação e Nutrição (Biodiversity for Food and Nutrition), liderado pela ONU Meio Ambiente em parceria com a Biodiversity International, a FAO e os governos do Brasil, Quênia, Sri Lanka e Turquia, prevê, com uma iniciativa global inédita, desenvolver e testar uma abordagem multissetorial que envolva pesquisas, políticas, mercados, conscientização, uso sustentável e integrado da biodiversidade agrícola, entre outras práticas, para melhorar a nutrição mundial. 

Um dos vários estudos desenvolvidos pelos pesquisadores brasileiros que participam do projeto avaliou os compostos bioativos – que têm um efeito sobre organismos vivos, tecidos ou células – de nove frutos brasileiros pouco explorados no país: a pitanga (Eugenia uniflora), a cagaita (Eugenia dysenterica), o araçá (Psidium cattleianum), jenipapo (Genipa americana), cambuci (Campomanesia phaea), pequi (Caryocar brasiliense), jabuticaba (Plinia cauliflora), jatobá (Hymenaea courbaril) e mangaba (Hancornia speciosa).

No total, foram identificados 84 compostos bioativos, entre eles compostos fenólicos, carotenoides, antocianinas e iridoides. Os carotenoides e as antocianinas são pigmentos naturais não produzidos em nosso organismo e extremamente importantes na alimentação humana; apresentam diversas funções fisiológicas, atuando no fortalecimento do sistema imunológico; possuem atividade antioxidante e anti-inflamatória. 

Os carotenoides são pigmentos responsáveis pela cor amarela, laranja e vermelha de muitos alimentos. Quatro tipos deles (beta-caroteno, alfa-caroteno, gama-caroteno e beta-criptoxantina) são os precursores da vitamina A. Na natureza existem mais de 900 tipos de carotenoides. Já as antocianinas são pigmentos pertencentes ao grupo de flavonoides e responsáveis pelas cores de frutas, flores e folhas que abrangem o vermelho-alaranjado, o vermelho vivo, o roxo e o azul. Sua função na natureza é proteger as flores, frutas e folhas contra os raios ultravioletas (UV) e desativar radicais livres responsáveis pelo envelhecimento e desenvolvimento de doenças crônicas (substâncias tóxicas). 

A pesquisa também identificou no jenipapo e no jatobá novos iridoides, que são compostos orgânicos, com sabor amargo, que têm como principal função proteger as plantas contra seus predadores. Além disso, muitos iridoides têm propriedades antimicrobianas e antifúngicas. 

De acordo com Veridiana Vera De Rosso, uma das autoras do estudo e docente no Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista, nos últimos anos, evidências crescentes têm mostrado que o consumo de frutas e legumes reduz o risco de mortalidade por várias doenças, principalmente as cardiovasculares e os cânceres. “Os resultados das análises mostram o potencial tecnológico e econômico ainda inexplorado da nossa biodiversidade, principalmente para o setor alimentício e farmacêutico”, afirma. “Com políticas públicas adequadas para a agricultura sustentável, podemos melhorar a condição nutricional da população, prevenir doenças e, consequentemente, diminuir a mortalidade”.

Pequi: campeão em carotenoides

Dos 84 compostos encontrados nas nove frutas, 51 são fenólicos, entre flavonoides e ácidos fenólicos, oito são iridoides, 23 carotenoides e duas antocianinas.

O maior teor de carotenoides foi registrado no pequi (10.156,21 mg / 100 g), enquanto o principal conteúdo fenólico – composto estrutural e funcional da matéria orgânica do solo que age como protetor contra pragas e doenças nas plantas – foi encontrado no cambuci (221,70 mg / 100 g). A pitanga e a jabuticaba apresentaram mais antocianinas (respectivamente 81 mg e 45,5 mg / 100 g). 

De acordo com ela, o estudo também detectou que a mesma fruta pode ter um conteúdo variado de compostos bioativos quando submetidos a diferentes tipos de cultivo e condições ambientais. 

Neste caso, para o estudo, cada fruta foi colhida de três diferentes localizações de dois biomas brasileiros: Mata Atlântica e Cerrado. Como foram obtidas em áreas protegidas do Brasil ou em fazendas familiares, houve necessidade da autorização para coleta do material biológico a partir do Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (Sisbio) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). 

Cada amostra consistiu de 3 a 10 kg do fruto, de acordo com o processamento para a retirada da fração comestível para análise. Todas as frutas foram higienizadas para remover possíveis contaminantes e os procedimentos de extração foram realizados apenas com as partes comestíveis das frutas. 

Para a identificação dos compostos bioativos foram empregados métodos de espectrometria de massas para elucidação das estruturas após separação por cromatografia líquida de alta eficiência. 

Total de carotenoides detectado nas frutas

Fonte: Biodiversity Fruits: Discovering Bioactive Compounds from Underexplored Sources

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Araçá • quantidade de carotenoides

Uruama 1 - MG 61,44 mg/100g
Uruama 2 - MG 49,37 mg/100g
Coração de Jesus - MG 110,06 mg/100g

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Cagaita • quantidade de carotenoides

Montes Claros - MG 305,15 mg/100g
São João da Lagoa - MG 319,30 mg/100g
Arinos - MG 269,96 mg/100g

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Cambuci • quantidade de carotenoides

Ubatuba 1- SP 83,23 mg/100g
Paraibuna - SP 43,87 mg/100g
Ubatuba 2 - SP 81,69 mg/100g

Entreteses11 p061 fruta jabuticaba

Jabuticaba • quantidade de carotenoides

Paraibuna 1 - SP  152,40 mg/100g 
Paraibuna 2 - SP 154,74 mg/100g
Arinos - MG 326,70 mg/100g

Entreteses11 p061 fruta jatoba

Jatobá • quantidade de carotenoides

Porto Ferreira 1 - SP  2.675,90 mg/100g 
Porto Ferreira 2 - SP 4.074,74 mg/100g
Montes Claros - MG 1.171,19 mg/100g

Entreteses11 p061 fruta jenipapo

Jenipapo • quantidade de carotenoides

Paraibuna – SP não detectado 
Montes Claros – MG não detectado
Coração de Jesus - MG não detectado

Entreteses11 p061 fruta mangaba

Mangaba • quantidade de carotenoides

Montes Claros - SP  101,12 mg/100g 
Coração de Jesus - MG 80,76 mg/100g
Arinos - MG 160,11 mg/100g

Entreteses11 p061 fruta pequi

Pequi • quantidade de carotenoides

Coração de Jesus - MG  8.600,87 mg/100g 
Mirabela - MG  10.156,21 mg/100g 
Arinos - MG  6.090,66 mg/100g 

Entreteses11 p061 fruta pitanga

Pitanga • quantidade de carotenoides

Paraibuna - SP  1.748,06 mg/100g 
Montes Claros -SP 1.902,32 mg/100g 
Arinos - MG  5.880,98 mg/100g 

Projeto Biodiversidade para Alimentação e Nutrição e a contribuição da Unifesp

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Veridiana Rosso

O Projeto Biodiversidade para Alimentação e Nutrição – Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade para Melhoria da Nutrição e do Bem-Estar Humano foi iniciado em 2012 durante a realização do Congresso World Nutrition, que ocorreu no Rio de Janeiro. O evento contou com a participação de quatro países – Brasil, Quênia, Sri-Lanka e Turquia – por meio do financiamento do Global Environmental Facility (GEF) e das agências implementadoras das Nações Unidas Food and Agriculture Organization (FAO) e Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Cada país participante definiu objetivos de suas ações, sendo que para o Brasil foram definidos os seguintes:

• Valorizar a importância alimentícia e nutricional das espécies relacionadas com a biodiversidade agrícola;
• Resgatar o valor cultural dessas espécies;
• Ampliar o número de espécies nativas utilizadas atualmente em nossa alimentação;
• Mitigar dos problemas relacionados à dieta simplificada;
• Promover o fortalecimento da conservação e do manejo sustentável da sociobiodiversidade;
• Incorporar ações de transversalidade em programas e estratégias de segurança e soberania alimentar e nutricional.

Para alcançar os objetivos, foram estabelecidos seis eixos norteadores de ações intersetoriais:
• Análise da composição das espécies da biodiversidade (neste eixo estava incluída a organização dos resultados em um banco de dados digital);
• Avaliação do impacto de dietas diversificadas oferecidas por meio das políticas públicas relacionadas à segurança alimentar e nutricional na saúde das populações beneficiárias (PAA e Pnae);
• Desenvolvimento de ações de educação, com vistas à inclusão na dieta das escolas de produtos regionais com maior qualidade nutricional (desenvolvimento de receitas para inclusão na alimentação escolar);
• Desenvolvimento de estratégias para que a próxima POF produza dados de consumo dos alimentos regionais que são “minoritários” em termos de aquisição de alimentos no orçamento familiar (Pnan);
• Realização de levantamento de alimentos tradicionais (saberes e sabores), inclusive dados sobre as formas de preparo desses alimentos por parte dos povos e comunidades tradicionais;
• Implementação de ações institucionais que possam fortalecer e/ou implementar processos de integração/ transversalização de políticas públicas.

Para alcançar os objetivos propostos, a coordenação nacional do projeto, constituída pelo Ministério do Meio Ambiente, convidou pelo menos uma universidade federal por região do Brasil para auxiliar no desenvolvimento do projeto. A Unifesp foi convidada por meio do Centro Colaborador em Alimentação e Nutrição Escolar (Cecane), sediado no Campus Baixada Santista.

A participação da Unifesp deu-se em várias frentes, uma das mais significativas se refere à avaliação da composição nutricional de 12 espécies da biodiversidade da Região Sudeste. Os dados de composição nutricional de todas as espécies estudadas nas cinco regiões do Brasil foram agrupados em um banco de dados digital denominado Biodiversidade & Nutrição. Esse banco é de acesso público e permite que sejam realizadas buscas empregando o nome comum da espécie, democratizando o uso da ferramenta.

Outra frente do projeto na Unifesp foi o desenvolvimento de 78 receitas que fazem parte do livro Biodiversidade Brasileira: sabores e aromas, que é uma compilação das receitas com alto índice de aceitabilidade que foram desenvolvidas empregando as espécies da biodiversidade provenientes das cinco regiões brasileiras. As espécies da Região Sudeste foram o foco do trabalho coordenado por Semíramis Martins Alvares Domene, docente no ISS/Unifesp,e Andrea Carvalheiro Guerra Matias, docente na Universidade Mackenzie. O e-book está disponível no acervo digital do Ministério do Meio Ambiente.

Biodiversidade & Nutriçãohttps://ferramentas.sibbr.gov.br/ficha/bin/view/FN/

Artigo relacionado: 
BIAZOTTO, Katia Regina; MESQUITA, Leonardo Mendes de Souza; NEVES, Bruna Vitoria; BRAGA, Anna Rafaela Cavalcante; TANGERINA, Marcelo Marucci Pereira; VILEGAS, Wagner; MERCADANTE, Adriana Zerlotti; ROSSO, Veridiana Vera De. Brazilian biodiversity fruits: discovering bioactive compounds from underexplored sources. Journal of Agricultural and Food Chemistry, v. 7, n. 67, p. 1860−1876, fev. 2019.  Disponível em: <https://pubs.acs.org/doi/ipdf/10.1021/acs.jafc.8b05815 >. Acesso em: 17 abr. 2019.

 
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Terça, 25 Junho 2019 15:29

App com a sua “cara”

Novo aplicativo é o primeiro a utilizar dados sociodemográficos, culturais e comportamentais do Brasil para aumentar o nível de atividade física na população em geral

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Texto: Ana Cristina Cocolo

Pesquisadores do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista, em cooperação com a Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e três universidades holandesas (Universidade de Amsterdã, Universidade de Ciências Aplicadas de Amsterdã e Universidade de Utrecht), estão desenvolvendo um aplicativo para celular (app) de atividade física totalmente personalizada, de acordo com as características sociodemográficas, culturais e comportamentais do Brasil e da Holanda. 

O projeto, intitulado Paul (Playful Active Urban Living), vem de uma parceria entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e a Organização Holandesa para Pesquisa Científica (NWO) e tem como objetivo desenvolver um aplicativo de smartphone inovador para aumentar o nível de atividade física de adultos. 

De acordo com o fisioterapeuta e professor associado da Unifesp, Victor Zuniga Dourado, que atua nesse projeto desde 2017 como pesquisador principal no Brasil, o estudo piloto do aplicativo será realizado ainda no primeiro semestre de 2019, a princípio nas cidades de Santos (SP) e Amsterdã (Holanda). No entanto, o projeto tem parceiros em outros centros urbanos, como São Carlos (SP) e São Paulo, para tornar o estudo multicêntrico. 

Dourado explica que o app pretende corrigir funcionalidades já existentes em outros aplicativos e aprimorá-las de acordo com as necessidades de cada indivíduo. “O primeiro recurso diferenciado será o uso de inteligência artificial, ou seja, o uso de mineração de dados e aprendizado de máquinas (do inglês mining e machine learning) possibilitando ao usuário interagir com o sistema”, diz. “Caso o indivíduo não responda aos estímulos enviados, o app buscará outras estratégias de incentivo para manter a prática de atividade e exercício físicos, utilizando jogos, métodos de compensação (recompensas), barras de progresso e redes sociais para criar um ambiente competitivo entre os usuários”. 

O app, segundo ele, também oferecerá o máximo de técnicas de mudança de comportamento, utilizando-se da Psicologia Esportiva. Dos 25 tipos de técnicas existentes, os apps atuais exploram, em média, apenas seis. 

Outro ponto inédito e que será trabalhado no projeto é a capacidade do sistema de se comunicar com os beacons em espaços públicos. Os beacons (balizas em português) são sensores que emitem informações, por meio da tecnologia bluetooth (rede sem fio), como uma espécie de GPS que consegue localizar o usuário e indicar ou sugerir uma determinada ação nos aplicativos de smartphones e tablets. “Uma das funcionalidades, por exemplo, é enviar um vídeo de tutorial de como usar os aparelhos de ginástica instalados em locais públicos, assim que o indivíduo estiver próximo a uma área que ofereça esses equipamentos”, explica Dourado. “Para isso, estamos em negociação com as prefeituras para a instalação desses sensores nas cidades que sofrerão as intervenções do projeto, como nos 7 km da orla de Santos, devido à extensa busca de cidadãos para realizar atividades físicas no local”. 

Captura e cruzamento de dados

Para a elaboração do app, os pesquisadores utilizaram-se de questionários específicos e de um banco de dados contendo quatro anos (2013 a 2017) de histórico de mais de 10 mil holandeses, usuários do aplicativo de corrida Mylaps, com idades entre 18 e 65 anos. No total são cerca de 440 mil execuções de atividades dos usuários, identificados por um ID exclusivo. Entre as informações estão desde datas de execução dos exercícios até frequência e duração, clima, temperatura, vento e umidade para cada execução. Um rastreador GPS embutido no dispositivo móvel também forneceu sinais de localização que foram usados para extrair vários recursos de contexto geográfico que poderiam influenciar na atividade física. 

No Brasil, a equipe aplicou, até o momento, a versão brasileira do questionário utilizado com corredores da Holanda em 245 participantes da pesquisa intitulada Estudo Epidemiológico do Movimento Humano (Epimov), realizada em Santos (SP). Quando questionados sobre o uso de aplicativos para atividade física, 23% responderam que utilizavam esse recurso. O perfil dos usuários era predominantemente masculino, mais jovens, com posição socioeconômica maior, melhor composição corporal e maior nível de atividade e aptidão física quando comparados aos não usuários de aplicativos. Diferentemente do dado da Holanda, uma das respostas às questões entre os entrevistados no Brasil e que chamou a atenção dos pesquisadores foi que 58% dos participantes responderam que nunca utilizavam o smartphone durante a atividade física por questões de segurança. Além do questionário, os participantes também tiveram avaliados a função pulmonar e vários índices de atividade física e condicionamento físico. 

Com o cruzamento dos dados holandeses e brasileiros, as equipes montaram o app que passará por avaliação em fases distintas, nos dois países, com menos participantes, antes do estudo em larga escala. A primeira será a aplicação de uma pesquisa qualitativa do programa, para ajustes necessários. A segunda será um estudo piloto com o uso dos beacons.

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Da esquerda para direita: Karlijn Sporel (doutoranda), Victor Zuniga Dourado, Marije Deutekom (pesquisadora principal), Ben Krose (pesquisador principal) e Nicky Nibbeling (pesquisadora associada) (Imagem: Arquivo pessoal)

 

Artigos relacionados:

BARBOSA, Alan Carlos Brisola; SPERANDIO, Evandro Fornias; GONZE, Bárbara de Barros; SPINA, Giovanna Domingues; ARANTES, Rodolfo Leite; GAGLIARDI, Antônio Ricardo de Toledo; ROMITI, Marcello; DOURADO, Victor Zuniga. A new equation to predict peak VO2 in obese patients during cardiopulmonary exercise testing. Clinical physiology and functional imaging, v. 38, n. 3, p. 462-467, maio 2018. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28707733 >. Acesso em: 26 de mar. 2019.

JAMAR, Giovana; GAGLIARDI, Antônio Ricardo de Toledo; ALMEIDA, Flávio Rossi de; SOBRAL, Mariana Ribeiro; PING, ChaoTsai; SPERANDIO, Evandro Fornias; ROMITI, Marcelo; ARANTES, Rodolfo Leite; DOURADO, Victor Zuniga. Evaluation of waist-to-height ratio as a predictor of insulin resistance in non-diabetic obese individuals. A cross-sectional study. Sao Paulo Medical Journal, v. 135, n. 5, p. 462-468, set./out. 2017. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29116305 >. Acesso em: 26 mar. 2019.

 
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Cinco unidades ajudam a suprir a demanda da região que, até 2004, só contava com instituições privadas de ensino superior e cursos isolados de uma universidade pública estadual

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O Campus Baixada Santista da Unifesp é o primeiro de universidade pública, instalado em Santos em 05 de setembro de 2004, sendo resultado do processo de expansão da instituição, que buscou responder a uma demanda histórica da região, aliando a formação de profissionais qualificados à pesquisa, inovação e extensão. Em 2006 são implantados os primeiros cursos de graduação, na área da saúde, ampliando-se a oferta de novos cursos nos anos de 2009, 2012 e 2015.

Nessa trajetória, instalam-se o Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) e, mais recentemente, o Instituto do Mar (IMar/Unifesp) – Campus Baixada Santista, constituídos por cinco unidades (duas na Vila Matias, sendo uma delas o Edifício Central do campus, duas na Ponta da Praia e outra na Vila Belmiro) e abrigam 2.005 estudantes de graduação matriculados em seus nove cursos, oferecidos nas áreas de Educação Física, Fisioterapia, Nutrição, Psicologia, Terapia Ocupacional, Serviço Social, Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia do Mar (BICT-Mar), Engenharia Ambiental e Engenharia de Petróleo e Recursos Renováveis. As avaliações realizadas pelo Ministério da Educação (MEC) colocam as graduações do ISS/Unifesp e do IMar/Unifesp em posições de excelência no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), com notas 4 e 5 (na escala de 0 a 5).

Na pós-graduação stricto sensu, os institutos oferecem dez programas de mestrado e doutorado nas áreas Interdisciplinar em Ciências da Saúde; Alimentos, Nutrição e Saúde; Bioprodutos e Bioprocesssos; Ciências do Movimento Humano e Reabilitação; Biodiversidade e Ecologia Marinha e Costeira; Serviço Social e Políticas Sociais; Ensino em Ciências da Saúde; Análise Ambiental e Interdisciplinar em Ciências do Mar. Já em lato sensu, são sete cursos nas áreas de Fisiologia do Exercício, Fisioterapia, Saúde do Idoso, Biotecnologia, Neurociências e Engenharia de Segurança do Trabalho.

A intensa formação científica e os inúmeros projetos de pesquisa também colocam o Campus Baixada Santista como um dos mais produtivos da Unifesp, com parcerias científicas com grupos de pesquisa de instituições nacionais e internacionais.

A extensão universitária inscreve-se como uma forte vocação do campus, abrangendo atualmente 12 programas sociais e 72 projetos de extensão que traduzem o engajamento de professores, técnicos e estudantes com as demandas sociais e a parceria com a comunidade na construção de uma educação superior socialmente referenciada.

Pós-graduação em números:

7 programas de pós-graduação
10 cursos de pós-graduação
6 cursos de mestrado acadêmico
1 curso de mestrado profissional
3 cursos de doutorado
343 estudantes de mestrado acadêmico
60 estudantes de mestrado profissional
105 estudantes de doutorado
137 docentes/orientadores credenciados
407 estudantes titulados até 2018


Dados extraídos do Sistemas Integrado de Informações Universitárias (SIIU) em 28/3/2019

 
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Segunda, 24 Junho 2019 16:03

Coração em alerta

Estudo aponta variáveis que podem prever complicações graves após cirurgias cardíacas e diminuir o risco ao paciente

Texto: Ana Cristina Cocolo

As doenças cardiovasculares – todo e qualquer agravo que dificulte ou impeça a boa circulação sanguínea no organismo – ainda são a maior causa de morte em todo o mundo. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, anualmente, cerca de 17,5 milhões de pessoas perdem suas vidas em decorrência delas. No Brasil, esse número ultrapassa 350 mil – duas vezes maior que todas as mortes por câncer e seis vezes que as decorrentes de infecções –, correspondendo a 30% dos óbitos registrados. São cerca de mil óbitos por dia, 43 por hora e um a cada 90 segundos, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia. 

Para corrigir problemas e doenças no coração muitas vezes é necessário algum procedimento cirúrgico e o risco de complicações, como o sangramento excessivo – que acomete entre 6,4% a 52,9% dos casos em adultos – pode ocorrer. Nesses casos, pode haver necessidade de transfusão de hemoderivados ou hemocomponentes e outros procedimentos de emergência, além de ocorrer aumento do risco do surgimento de outras complicações, como diferentes tipos de infecções, arritmias e problemas nos rins.

De acordo com Camila Takáo Lopes, autora de um estudo que avaliou a incidência de sangramento excessivo e preditores nas primeiras 24 horas após a cirurgia cardíaca, é preciso reconhecer precocemente ou prevenir a ocorrência das complicações, considerando-se não apenas o alto custo do tratamento, mas também a gravidade das implicações pós-cirúrgicas. 

Para a análise desses fatores, a enfermeira, que defendeu esse trabalho como sua tese de doutorado, em 2014, no Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) - Campus São Paulo, fez uma revisão da literatura, levantando os potenciais fatores de risco para sangramento excessivo, e acompanhou 323 pacientes adultos de um hospital de referência em Cardiologia na cidade de São Paulo, submetidos a cirurgias cardíacas em que o tórax é aberto.

Os fatores de risco encontrados na revisão de literatura foram investigados antes, durante e após a cirurgia. A enfermeira acompanhou as ocorrências de sangramento excessivo, a necessidade de transfusão de hemácias ou de nova cirurgia de emergência ao longo de 24 horas após a admissão na unidade de terapia intensiva (UTI) pós-operatória. trabalho foi orientado por Alba Lucia Bottura Leite de Barros e Juliana de Lima Lopes, docentes da EPE/Unifesp.

“Um impacto significante do nosso estudo foi a adoção da nossa revisão de literatura pela Sociedade Europeia de Anestesiologia, para indicar o que deve ser avaliado no pré-operatório de cirurgia cardíaca quanto ao risco de sangramento, em suas diretrizes para o manejo de sangramento grave perioperatório”, explica Lopes, que atualmente é professora do Departamento de Enfermagem Clínica e Cirúrgica da EPE/Unifesp.

O trabalho também ganhou três prêmios: Prêmio Capes de Tese 2016 na Área de Enfermagem, primeiro lugar no Departamento de Enfermagem, na modalidade de apresentação oral, em 2015, durante o XXXVI Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo e o Prêmio Mariana Fernandes de Souza, como melhor trabalho apresentado no Evento Doutorado em Enfermagem da Unifesp: Contribuições para a Ciência e a Arte, em 2016.

Entreteses11 p055 cirurgia

Variáveis para complicações na cirurgia cardíaca

Sangramento excessivo

  • sexo masculino
  • menor índice de massa
  • corpórea (IMC < 26,34)
  • menor contagem de plaquetas (< 214.000/mm³)
  • volume de heparina (> 6,25 mL)

Transfusão de hemácias

  • peso inferior a 66,5 kg

Reabordagem cirúrgica de emergência

  • transfusão pós-operatória de hemocomponente

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Camila Takáo Lopes, Alba Lucia Bottura Leite de Barros e Juliana de Lima Lopes / Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

Diferentes preditores

Dos 323 pacientes, 105 (32,5%) apresentaram sangramento excessivo. As variáveis do pré-operatório associadas ao sangramento incluíram: sexo masculino, menor índice de massa corpórea (IMC <26,34), menor contagem de plaquetas (< 214.000/mm³) no sangue e volume de heparina (> 6,25 mL). A heparina é uma substância anticoagulante que precisa ser utilizada durante a cirurgia. 

Vinte pacientes (6,20%) precisaram receber transfusão de concentrado de hemácias (hemocomponente). O preditor independente para esse procedimento foi o peso menor que 66,5 kg. 

Dezoito pacientes (5,60%) foram submetidos à reabordagem cirúrgica de emergência. O preditor, nesses casos, foi a transfusão pós-operatória de hemocomponentes.

Tese relacionada:

LOPES, Camila Takáo. Incidência de sangramento excessivo e preditores no pós- operatório imediato de cirurgia cardiaca. 2015. 136f. Tese (Doutorado em Ciências) – Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo.

Artigos relacionados:

LOPES, Camila Takao; SANTOS, Talita Raquel dos; BRUNORI, Evelise Helena Fadini Reis; MOORHEAD, Sue Ann; LOPES, Juliana de Lima; BARROS, Alba Lucia Bottura Leite de. Excessive bleeding predictors after cardiac surgery in adults: integrative review. Journal of Clinical Nursing, v. 24, p. 3.046-3.062, nov. 2015. Disponível em: <https://doi.org/10.1111/jocn.12936 >. Acesso em: 1 mar. 2019.

LOPES, Camila Takao; BRUNORI, Evelise Helena Fadini Reis; CAVALCANTE, Agueda Maria Ruiz Zimmer; MOORHEAD, Sue Ann; SWANSON, Elizabeth; LOPES, Juliana de Lima; BARROS, Alba Lucia Bottura Leite de. Factors associated with excessive bleeding after cardiac surgery: a prospective cohort study. Heart & Lung, v. 45, n. 1, p. 64-69, jan. – fev. 2016. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.hrtlng.2015.09.003 >. Acesso em: 1 mar. 2019. 

LOPES, Camila Takao; BRUNORI, Evelise Helena Fadini Reis; SANTOS, Vinicius Batista; MOORHEAD, Sue Ann; LOPES, Juliana de Lima; BARROS, Alba Lucia Bottura Leite de. Predictive factors for bleeding-related re-exploration after cardiac surgery: a prospective cohort study. European Journal of Cardiovascular Nursing, v. 15, n. 3, p. 70-77, 17 abr. 2015. Disponível em: <https://doi.org/10.1177/1474515115583407 >. Acesso em: 1 mar. 2019.

 
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Segunda, 24 Junho 2019 15:40

Atenção redobrada

Pesquisa avalia estabilidade de medicamento em infusão contínua, indicado para manter a função hemodinâmica de recém-nascidos em UTIs, com o intuito de minimizar custos e reduzir riscos de infecções

Texto: Ana Cristina Cocolo

Nas unidades de terapia intensiva (UTIs) é grande o manuseio de cateteres intravenosos para a infusão de medicamentos de modo contínuo, o que aumenta os riscos de infecções e, até mesmo, de mortalidade dos pacientes. 

Como diminuir esses riscos e garantir a estabilidade dos medicamentos quando as indústrias farmacêuticas recomendam tempo máximo de 24 horas para a troca ou exposição desses tipos de fármacos?

Para responder a essa pergunta, Tatiany Calegari, enfermeira e professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp), avaliou, em situação controlada de laboratório, a estabilidade do medicamento utilizado em UTIs neonatais e pediátricas – o cloridrato de dobutamina – em adversidades ambientais às quais é exposto. A pesquisa foi tema de sua tese de doutorado apresentada na Unifesp e orientada por Maria Angélica Sorgini Peterlini e Mavilde da Luz Gonçalves Pedreira, docentes da EPE/Unifesp. O estudo contou também com a colaboração de Paulo César Pires Rosa, docente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp.

Calegari explica que o cloridrato de dobutamina é indicado nos casos clínicos de asfixia neonatal, prematuridade extrema, cardiopatia congênita, insuficiência cardíaca, entre outras condições que demandam tratamento intensivo com medicamento de efeito inotrópico e vasoativo. 

De acordo com a pesquisadora, vários fatores ambientais, entre eles a temperatura e a luz fluorescente ou de LED (do inglês light emitted diode/diodo emissor de luz) utilizadas em equipamentos de fototerapia, podem interferir diretamente na estabilidade dos medicamentos, alterando seu comportamento químico e potencialidades farmacológicas. 

As UTIs, principalmente as neonatais e pediátricas, nas quais há iluminação constante, equipamentos que geram aquecimento e emissão de luminosidade intensa, como as incubadoras e a fototerapia – modalidade terapêutica mais utilizada em todo o mundo para o tratamento da icterícia neonatal – são potenciais locais que podem afetar a qualidade dos fármacos durante a infusão contínua intravenosa em crianças hospitalizadas. 

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC, sigla em inglês) recomenda a troca dos sistemas de administração contínua de soluções por via intravascular no intervalo de 72 até 96 horas, enquanto a recomendação da indústria farmacêutica é de 24 horas para a troca da maioria dos medicamentos em infusão contínua. Contudo, a recomendação de troca a cada 24 horas, em grande parte das terapias, carece de evidências científicas, segundo a pesquisadora. “Não trocar soluções de modo tão frequente reduziria os custos diretos da terapia medicamentosa e de uso de insumos; a menor manipulação dos sistemas de infusão reduziria consideravelmente o risco de infecção de corrente sanguínea relacionada a cateteres”, afirma Calegari. “No entanto, não há estudos que apontem esse tipo de avaliação. O que temos é apenas a recomendação de que a substituição da solução de uso contínuo deva ocorrer a cada 24 horas, sem menção à estabilidade do composto submetido a períodos superiores”.

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Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

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A pesquisadora Tatiany Calegari (Imagem: Arquivo pessoal)

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Mavilde da Luz Gonçalves Pedreira e Maria Angélica Sorgini Peterlini, orientadoras do projeto

Estabilidade nas 72 horas de exposição

O estudo experimental, desenvolvido no Laboratório de Experimentos em Enfermagem (LEEnf) da EPE/Unifesp, simulou condições ambientais de UTIs neonatais e pediátricas, com o uso de lâmpadas fluorescentes, temperatura média controlada de 22º C, luminosidade de fototerapia e temperatura elevada da incubadora. 

Sessenta amostras do cloridrato de dobutamina puro e outras 60 do medicamento diluído em soro fisiológico foram acondicionadas em um equipo para infusão intravenosa, composto por câmara transparente graduada do tipo bureta, e expostos às situações de simulação de cuidado de recém-nascidos em UTI.

A pesquisa analisou o potencial hidrogeniônico (pH) – que mede o grau de acidez, neutralidade ou alcalinidade da solução –, a osmolalidade – que mede a concentração de partículas dissolvidas do composto – e o teor do medicamento, por meio de cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC, do inglês High Performance Liquid Chromatography) em seis tempos distintos após o preparo: imediatamente, duas, quatro, 24, 48 e 72 horas. Essas análises são importantes para verificar a estabilidade do medicamento, ou seja, a duração de tempo em que o composto mantém suas características físico-químicas originais e propriedades de pureza, qualidade e potência em sua vida útil. 

Os resultados apontaram que até 72 horas de exposição ao ambiente, tanto o cloridrato de dobutamina puro quanto o diluído manteve-se quimicamente estável. Na condição de infusão em incubadora e fototerapia, apesar de haver redução do teor do fármaco, o mesmo manteve-se dentro dos padrões de qualidade preconizados, pois as análises indicaram que a variação do teor do cloridrato de dobutamina resultou em concentração final dentro do intervalo de 90% a 110%, em relação à concentração inicial.

“Novos estudos sobre a infusão do cloridrato de dobutamina devem ser executados, utilizando-se, por exemplo, a espectrometria de massa (técnica para detectar e identificar moléculas de interesse por meio da medição da sua massa e da caracterização de sua estrutura química), a fim de gerar novos dados que demonstrem ausência de produtos de degradação de risco, além da já evidenciada manutenção da estabilidade química do cloridrato de dobutamina após 72 horas de exposição a condições extremas de calor e luminosidade”, afirmam as pesquisadoras.

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Amostras do cloridrato de dobutamina puro e diluído em soro fisiológico foram acondicionadas em um equipo para infusão intravenosa

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Equipamento de cromatografia líquida de alta eficiência mediu, por exemplo, a alcalinidade do medicamento

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A simulação das condições ambientais de UTIs neonatais e pediátricas, com o uso de fototerapia e temperatura elevada na incubadora

Tese relacionada:
CALEGARI, Tatiany. Estabilidade de soluções de cloridrato de dobutamina em diferentes tempos e a influência do aquecimento e da luminosidade decorrentes da infusão no interior de incubadora e sob fototerapia. 2017. 105 f. Tese (Doutorado em Ciências) - Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo.

 
Publicado em Edição 11
Segunda, 24 Junho 2019 15:13

Na trilha cerebral

Tecnologia auxilia investigação das estruturas neuronais em distúrbios psiquiátricos, como a esquizofrenia, e possibilita o diagnóstico precoce da depressão

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Texto: Ana Cristina Cocolo e Daniel Patini

Um estudo realizado por pesquisadores do Laboratório Interdisciplinar de Neurociências Clínicas (LiNC), ligado ao Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), uniu imagens de ressonância magnética a um método de aprendizagem automática para investigar se os padrões das estruturas cerebrais de pacientes com primeiro episódio psicótico (FEP, sigla em inglês) – estágio inicial da esquizofrenia – seriam semelhantes aos de pacientes com esquizofrenia crônica (SCZ) ou de pessoas saudáveis (grupo controle). 

Os métodos de aprendizagem automática, como a chamada Análise Linear Discriminante de Incerteza Máxima (MLDA, sigla em inglês), usada nesse estudo, são capazes de fazer uma análise multivariada de dados de neuroimagem, possibilitando examinar informações, mesmo as mais sutis, de forma integrada para a detecção de diferenças neuroanatômicas nas doenças mentais. Estas análises foram conduzidas sob supervisão de João Sato, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), que é especialista em Estatística e análise de imagens cerebrais e pesquisador do LiNC. 

Os resultados mostraram diferenças que permitiram discriminar entre indivíduos com esquizofrenia crônica quando comparados aos indivíduos saudáveis, principalmente no sistema límbico – estruturas cerebrais relacionadas aos comportamentos instintivos, emocionais, sexuais, de aprendizagem, memórias, entre outras – e nos circuitos envolvidos em comportamentos direcionados por objetivos – habilidade de avaliação de recompensas e análise entre valor e risco, por exemplo. 

Apesar de bem sutis, essas alterações parecem ser detectadas já em indivíduos com histórico de primeiro episódio psicótico”, afirma Rodrigo Affonseca Bressan, docente no Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp, um dos criadores do LiNC e um dos autores do estudo. “No entanto, ainda é necessário outros estudos, com uma amostra maior de indivíduos com FEP para elucidar algumas limitações encontradas nesse trabalho”. Bressan também explica que a carga de medicação de pacientes com esquizofrenia crônica foi correlacionada negativamente com o escore do MLDA.

De acordo com o Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH, sigla em inglês), principal agência federal estadunidense de pesquisa sobre transtornos mentais, muitas podem ser as causas para o desenvolvimento da esquizofrenia, entre elas, a genética (nem sempre determinante), o meio ambiente (pobreza, estresse, exposição a vírus ou problemas nutricionais antes do nascimento) e as interrupções nas estruturas, função ou química cerebrais.

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(Imagens: Alex Reipert/DCI-Unifesp)

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Acioly Lacerda ao lado de Rodrigo Affonseca Bressan, ambos professores da Unifesp e criadores do LiNC

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Metodologia

Na pesquisa, os especialistas avaliaram 82 indivíduos saudáveis (grupo controle), 143 com esquizofrenia crônica (SCZ) e 32 com histórico de primeiro episódio psicótico (FEP), com idades entre 16 e 40 anos. Os critérios de exclusão adotados foram: história de doenças neurológicas, abuso de substâncias psicoativas ou lesão cerebral. 

Bressan explica que, primeiro, foi avaliado o desempenho do MLDA na discriminação da esquizofrenia crônica a partir dos indivíduos saudáveis, fornecendo, dessa forma, uma pontuação baseada em um modelo para as alterações cerebrais. Em seguida, os pesquisadores compararam os padrões volumétricos, por meio de exames de ressonância magnética, dos indivíduos FEP com os padrões do grupo SCZ e dos controles. 

Imagens no diagnóstico precoce da depressão

Outro trabalho desenvolvido no LiNC e que foi tema da tese de doutorado do psiquiatra Pedro Mario Pan, orientada por Rodrigo Bressan, encontrou marcadores preditores do desenvolvimento de depressão em jovens e crianças. 

O estudo, que utilizou exames de ressonância magnética do cérebro de 745 crianças e jovens, com idades entre nove e 16 anos, identificou alterações da conectividade no circuito cerebral de recompensa que foram associadas a casos de depressão. Os resultados foram publicados no American Journal of Psychiatry, periódico oficial da Associação Americana de Psiquiatria.

Além do exame de imagem, também foram realizadas análises psicológica e psiquiátrica nessa amostra, efetuando-se – três anos depois – a reavaliação de 90% deles (675) com a mesma metodologia. 

Pan explica que foi encontrada uma conectividade de característica diferente, aumentada ou mais ativada, no cérebro daqueles que desenvolveram depressão três anos depois, contabilizando-se 53 indivíduos nessas condições.

De acordo com o pesquisador, as alterações foram observadas na região do cérebro responsável por integrar e processar informações cotidianas sobre recompensa e motivação, chamada estriado ventral, a qual teve um papel significativo nos quadros de depressão antes do início dos sintomas.

A tese de doutorado de Pan integra o Projeto Conexão - Mentes do Futuro, o maior estudo de coorte na Psiquiatria da Infância e Adolescência já conduzido no Brasil, cuja finalidade é avaliar fatores de risco e de resiliência para o surgimento de problemas emocionais e de comportamento em crianças e jovens, elaborando estratégias de prevenção para os transtornos mentais. 

Dessa forma, desde abril de 2018, pesquisadores do projeto estão fazendo a terceira avaliação destes jovens depois de 6 anos de seguimento. Durante esse período será analisado um conjunto de variáveis individuais e familiares – entre elas, medidas de psicopatologia geral e familiar, variáveis sociodemográficas, variáveis de risco, tais como trauma precoce e hábitos de vida. Estão avaliando também marcadores biológicos, incluindo genética (DNA e RNA), neuroimagem estrutural e funcional .

Com essas análises os pesquisadores pretendem indicar fatores de risco modificáveis e possibilidades de intervenção preventiva, inclusive individual, determinando estruturas e vias de funcionamento cerebrais que são importantes para a fisiopatologia da depressão e de todos os transtornos mentais na adolescência. Isso será crucial para o desenvolvimento de métodos diagnósticos – como, por exemplo, a ressonância magnética funcional – e métodos terapêuticos, que incluem a identificação de regiões para estimulação cerebral transcraniana.

Iniciado em 2009, o Projeto Conexão é coordenado por Rodrigo Bressan, que também é vinculado ao Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento para Crianças e Adolescentes (INPD), que conta com as verbas repassadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Envolve várias universidades brasileiras, dentre as quais se destaca a parceria tripartite formada pela Unifesp, Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Mal do Século

De acordo com o Ministério da Saúde (MS), a depressão é um dos problemas de saúde mental mais comuns em todo o mundo e já é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o Mal do Século e uma das principais causas de incapacitação. Estima-se que uma em cada cinco pessoas no mundo apresenta o problema em algum momento da vida. Estudos apontam alterações químicas no cérebro de pessoas com depressão, principalmente relacionadas à serotonina, à noradrenalina e à dopamina, que são neurotransmissores.

Na depressão, a parte emocional do indivíduo é afetada por uma tristeza profunda e desinteresse generalizado, sem causa aparente. Ainda segundo o MS, a literatura científica aponta que a depressão também provoca alterações fisiológicas no organismo, que podem desencadear outras doenças oportunistas e, em casos mais graves, as cardiovasculares.

Sobre o LiNC

Em menos de 15 anos de existência, as pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Interdisciplinar de Neurociências Clínicas (LiNC) já renderam mais de 250 publicações em revistas indexadas de renome, importantes verbas para pesquisa, vários cursos e participações em diversos congressos nacionais e internacionais, além de formar uma grande quantidade de mestres, doutores e pós-doutores. 

O LiNC foi criado pelos pesquisadores e atuais professores da Unifesp, Rodrigo Affonseca Bressan, PhD pelo King’s College Londres (Inglaterra) na área de Neuroimagem Molecular, e Acioly Lacerda, pós-doutor em Neuroimagem Estrutural pela Universidade de Pittsburgh (EUA), com apoio do Programa de Apoio a Projetos Institucionais com a Participação de Recém-Doutores (Prodoc), financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). De forma inovadora, o laboratório tinha como filosofia a integração de pesquisadores especialistas em várias metodologias em neurociências, incluindo psicopatologia, psicofarmacologia, neuropsicologia, neuroimagem e genética, para investigar marcadores biológicos de transtornos neuropsiquiátricos. Em 2006, o LiNC foi agraciado com um espaço de 150m2 no Edifício de Pesquisas II do Campus São Paulo da Unifesp, o que foi um enorme impulso para a produção do grupo. O espírito de colaboração sempre esteve no coração do laboratório, estabelecendo trabalhos em conjunto com pesquisadores brasileiros dentro e fora da Unifesp e uma extensa colaboração com pesquisadores estadunidenses e europeus.

O LiNC foi formado por pós-doutorandos que posteriormente se tornaram docentes da Unifesp, incluindo Bressan, Lacerda, Andrea Jackowski, coordenadora do LiNC – especialista em neuroimagem, Sintia Belangero, vice-coordenadora do LiNC – geneticista, e Ary Gadelha – especialista na integração de diferentes métodos em neurociência. Desde o início, o LiNC foi formado por docentes de diferentes departamentos, vários deles ligados ao programa de pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp.

Principais sintomas da esquizofrenia 

Delírios - A pessoa passa a acreditar que a realidade se apresenta de uma maneira diferente, suas ideias e pensamentos apresentam conteúdos que para ela são verdade, mas que não estão realmente acontecendo. Por exemplo, ela pode acreditar que está sendo perseguida, que está sendo filmada e, como consequência, que tem poderes especiais ou uma missão muito importante no mundo. Estas crenças são uma convicção para a pessoa e não se desfazem com nenhuma argumentação.

Alucinações - Os cinco sentidos também ficam afetados. A pessoa passa a ter percepções sem que haja um estímulo externo. Por exemplo, ouvir vozes que comentam o seu comportamento ou dão ordens, sem haver ninguém falando. Também pode sentir odores e sabores diferentes em alimentos saudáveis, ter visões de objetos que não existem ou outras sensações táteis, como formigamento.

Alterações do Pensamento - Os pensamentos podem ficar confusos. A pessoa pode ter a sensação que seus pensamentos podem ser lidos por outras pessoas, roubados ou controlados. Pode acreditar também que pensamentos estranhos foram colocados em sua cabeça. Esta confusão dos pensamentos se expressa na forma como se comunica, aparentando dizer coisas sem sentido.

Perda da Vontade e Déficits Cognitivos - A pessoa passa a ter uma perda da vontade para realizar suas atividades. Em parte por não sentir prazer em realizá-las e em parte por dificuldades novas, como, por exemplo, relativas à memória ou devido à dificuldade para realizar tarefas corriqueiras de forma organizada.

Alteração do Afeto - Há uma dificuldade em expressar os sentimentos e emoções, passando a impressão de que perdeu estas capacidades. Na realidade a pessoa continua tendo seus sentimentos e emoções e fica angustiada por não conseguir demonstrá-las. É como se as pessoas estivessem alheias ao que se passa à sua volta e a vida fosse um filme monótono em branco e preto.

Fonte: Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (Abre)

Principais sintomas da depressão 

  • humor depressivo ou irritabilidade, ansiedade e angústia;
  • desânimo, cansaço fácil, necessidade de maior esforço para fazer as coisas;
  • diminuição ou incapacidade de sentir alegria e prazer em atividades anteriormente consideradas agradáveis;
  • desinteresse, falta de motivação e apatia;
  • falta de vontade e indecisão;
  • sentimentos de medo, insegurança, desesperança, desespero, desamparo e vazio;
  • pessimismo, ideias frequentes e desproporcionais de culpa, baixa autoestima, sensação de falta de sentido na vida, inutilidade, ruína, fracasso, doença ou morte. A pessoa pode desejar morrer, planejar uma forma de morrer ou até mesmo tentar suicídio;
  • interpretação distorcida e negativa da realidade: tudo é visto sob a ótica depressiva, um tom “cinzento” para si, os outros e seu mundo;
  • dificuldade de concentração, raciocínio mais lento e esquecimento;
  • diminuição do desempenho sexual e da libido;
  • perda ou aumento do apetite e do peso;
  • insônia, despertar matinal precoce ou, menos frequentemente, aumento do sono;
  • dores e outros sintomas físicos não justificados por problemas médicos, como dores de barriga, má digestão, azia, diarréia, constipação, flatulência, tensão na nuca e nos ombros, dor de cabeça ou no corpo, sensação de corpo pesado ou de pressão no peito, entre outros.

Fonte: Ministério da Saúde

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PAN, Pedro Mario; SATO, João R.; SALUM, Giovanni A.; ROHDE, Luis A.; GADELHA, Ary; ZUGMAN, Andre; MARI, Jair; JACKOWSKI, Andrea; PICON, Felipe; MIGUEL, Eurípedes C.; PINE, Daniel S.; LEIBENLUFT, Ellen; BRESSAN, Rodrigo A.; STRINGARIS, Argyris. Ventral striatum functional connectivity as a predictor of adolescent depressive disorder in a longitudinal community-based sample. The American Journal of Psychiatry, v. 174, n. 11, p. 1112-1119, 1 nov. 2017. Disponível em: <https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2017.17040430 >. Acesso em: 10 abr. 2019.

MOURA, Adriana Miyazaki de; PINAYA, Walter Hugo Lopez; GADELHA, Ary; ZUGMAN, André; NOTO, Cristiano; CORDEIRO, Quirino; BELANGERO, Sintia Iole; JACKOWSKI, Andrea P.; BRESSAN, Rodrigo A.; SATO, João Ricardo. Investigating brain structural patterns in first episode psychosis and schizophrenia using MRI and a machine learning approach. Psychiatry Research: Neuroimaging, v. 275, p. 14-20, 30 maio 2018. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.pscychresns.2018.03.003 >. Acesso em: 10 abr. 2019.

 
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