A reitora, Soraya Smaili, faz um balanço dos 25 anos da universidade e fala sobre as perspectivas para o futuro

Texto: José Luiz Guerra

Uma universidade jovem, mas que traz consigo a responsabilidade de passar para os cursos das demais áreas do conhecimento a qualidade e a tradição da área da saúde, de onde a Unifesp se originou. 

Ao longo desses 25 anos, pouco mais de 10 deles como uma universidade plena, abrangendo cursos de vários campos do saber, a instituição já obteve algumas conquistas, dentre as quais pode-se destacar o recredenciamento com nota máxima e as avaliações feitas por rankings internacionais, como o Times Higher Education (THE), que colocou a Unifesp entre as melhores instituições da América Latina e a melhor universidade federal do país por mais de uma vez. Já em relação aos desafios, pode-se destacar o da consolidação, em especial da infraestrutura dos campi da expansão. 

Entrevistamos a reitora da Unifesp, Soraya Smaili, que traçou um panorama da universidade ao longo desse período e indicou os caminhos pelos quais a instituição pode trilhar para se manter sempre entre as melhores. Confira!

Retrato Soraya Smaili

Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

Entreteses • Em qual situação a Unifesp chega aos 25 anos?

Soraya Smaili • A Unifesp chega aos 25 anos na condição de uma universidade que é jovem e que ao mesmo tempo tem uma tradição muito grande da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), que completou 85 anos, e de onde a Unifesp se originou. Temos o privilégio e a sorte de termos a tradição junto com a juventude e a força do novo, do que podemos fazer e projetar com um futuro bastante promissor. É uma universidade que traz muitas coisas e ao mesmo tempo tem muitos desafios, porque essa juvenilidade também requer muita estrutura e muito conhecimento para que possa traçar direções e diretrizes mais firmes para a prospecção do futuro que temos pela frente. 

E. Quais foram as maiores contribuições da universidade para a sociedade e para o desenvolvimento científico do país?

S.S. São muitas. Nos campi São Paulo, Baixada Santista e Diadema desenvolvemos pesquisas nas áreas de saúde e de ciências da vida. Podemos citar conquistas recentes, como, por exemplo, as contribuições para o diagnóstico do Zika vírus, na área de células tronco, no diagnóstico, tratamento e novas terapias da Aids, em métodos cirúrgicos, na área de queimados e em duas áreas estratégicas, não só para o Brasil, como para o mundo, que são o envelhecimento e a Oncologia. Na pesquisa básica temos contribuições na Bioquímica, Farmacologia, Microbiologia, Imunologia e Parasitologia, áreas nas quais cientistas estudam experimentalmente novas terapias para doenças negligenciadas. Também temos uma série de pesquisadores estudando mecanismos da célula importantes para o tratamento de diversas doenças, como as neurodegenerativas. 

Em outras áreas, podemos destacar a Ciência da Computação, que faz simulações, trabalhando com estratégias de estudos que envolvam aeronáutica, devido à proximidade que temos com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, as Engenharias de Materiais, Química e Biomédica, produzindo conhecimento na área de grandes equipamentos para diagnóstico por imagem, tratamento do câncer, promoção do bem-estar para o ser humano e aprimoramento na busca por novos materiais para indústria brasileira como um todo, como a impressão 3D, produzindo próteses. 

As engenharias Ambiental e do Mar trabalham para melhoria da pesca e da qualidade da água, para identificação de poluentes e para tratamento da água do mar, já com bastante resultados. Nas licenciaturas, podemos destacar as áreas de Ciências, Física, Matemática, Biologia, além da área das Ciências Humanas Aplicadas, como é o caso de Osasco. No Campus Guarulhos, os cursos de humanidades trabalham tanto no contexto da formação de professores quanto na produção do conhecimento. 

Soraya Smaili falando à frente da platéia

II Oficina para discussão do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) 2016-2020 / Imagem: José Luiz Guerra

Mais pesquisa, melhor ensino e mais democracia

E. A sua gestão foi eleita, em 2012, com uma proposta de assegurar a pluralidade e a democracia universitária. Essas propostas, é claro, foram resultado de uma avaliação sobre a Unifesp. Que avaliação era essa? Hoje, decorridos cinco anos, mudou o panorama?

S.S. Esse era um dos eixos da nossa proposta para a Reitoria, quando nos candidatamos, e continuou na primeira e na segunda gestão. Nesses quase 6 anos, a democracia e a pluralidade foram eixos centrais. Em termos práticos, entendo que nós passamos a um processo de organização interna, inclusive refletido nos estatutos da Unifesp, e em regramentos internos que possibilitaram maior participação dos TAEs, estudantes e docentes. Temos hoje processos internos melhores estabelecidos, mais claros e mais transparentes, na minha avaliação, obviamente. Consolidamos processos internos de participação, de consulta pública. 

O Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) e o Projeto Pedagógico Institucional (PPI) foram participativos. Como estratégias de gestão, promovemos audiências públicas, plenárias, congregações abertas e temos feito esforços para tornar os conselhos muito mais condizentes com as representações. O Conselho de Assuntos Estudantis (CAE), por exemplo, é composto por mais estudantes do que antes, assim como o Conselho de Planejamento e Administração (Coplad), que hoje conta com maior participação de TAEs. Eles têm que estar envolvidos com a administração da universidade, com o planejamento. 

No caso do Conpessoas, é um conselho paritário, pois envolve boa parte do pessoal permanente. Nós procuramos fazer conselhos que sejam mais condizentes, para além de estabelecer percentuais de 70/30 ou paritários, que fossem inteligentes, apropriados para a atividade daquela pró-reitoria ou com a atividade daquele conselho ou área, no caso do ensino, pesquisa e extensão. Além disso, entendo que tivemos um processo que não tem mais volta, que é a transparência dos orçamentos. É algo muito positivo, pois nós passamos a dar clareza a todos os procedimentos orçamentários. As pessoas foram se apropriando do que é o orçamento, como ele é executado, quais são as nossas dificuldades, e isso foi bom, pois elas compreendem mais. 

É uma área muito técnica, mas não está desacoplada da política. Essa parte técnica é muito importante para nós entendermos como está o financiamento da universidade como um todo, porque nós tivemos cortes, porque tivemos que adequar estruturas à nova realidade nos últimos dois anos. Vejo como muito positiva toda transparência que nós demos aos procedimentos de orçamento e de administração. Além disso, nós também passamos a ter processos de criação dos projetos pedagógicos muito mais discutidos e abertos; o mesmo ocorre com os projetos de pesquisas, por exemplo.

Criamos as grandes áreas de pesquisas e passamos a fazer chamamentos aos pesquisadores para que eles pudessem se juntar mais às diferentes áreas para desenvolverem grandes temas, como o próprio tema da oncologia, que eu citei aqui, mas também o tema das cidades, dos estudos contemporâneos, da formação de professores, de análises ambientais e da sustentabilidade e do meio ambiente, o tema da tecnologia e da inovação tecnológica. 

Nós já temos uma política de inovação tecnológica e isso é um grande feito para todos nós na Unifesp e vamos dar muitos saltos ainda nessa área, muito desenvolvimento no decorrer desses próximos anos de 2019 e 2020, até o final da nossa gestão e daí por diante. São feitos realmente que complementam toda essa parte dos processos democráticos. Na verdade, nós aprimoramos esses processos e a pluralidade, a escuta dos diversos setores, de diversos atores de nossa comunidade para fazermos melhor o ensino, a pesquisa e a extensão. 

Esse é o objetivo final, e não simplesmente tornar a universidade mais democrática para termos a democracia, que por si só já se justifica, mas o processo de democratização interna e externa e de pluralidade das ideias e dos projetos. O objetivo maior é sempre a melhor formação do estudante, a melhor pesquisa e produção de conhecimento e a melhor possibilidade de transferir isso para a sociedade, que é o que a gente faz com a extensão.

E. Quais os principais desafios enfrentados pela universidade durante o processo de instalação dos novos campi? 

S.S. Passamos por uma grande expansão, na qual crescemos 800% em um período de 8 anos. Atualmente estamos em um período de consolidação. O primeiro desafio foi crescer tanto em tão pouco tempo. O segundo foi solidar a ampliação. E isso significa ter bons professores, bons TAEs, um quadro permanente de muita qualidade, equipamentos, infraestrutura e bibliotecas. Os primeiros campi da expansão tiveram uma primeira parte da estrutura em Santos, Guarulhos e São José dos Campos e estamos finalizando a fase de infraestrutura básica de Diadema e de Osasco. 

Além disso, precisávamos pensar no Campus São Paulo, onde estão a EPM/Unifesp e Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp), e tem a ligação com o Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp) e com o Hospital Universitário 2 (HU2/Unifesp), para não deixarmos de ter a qualidade que sempre as caracterizou. Trabalhamos com o Plano Diretor de Infraestrutura no Campus São Paulo para consolidação de um campus que tem tradição, mas que precisa de condições para manter a qualidade dos nossos cursos, da pesquisa e da extensão.

E. Em termos amplos e gerais, como a senhora caracterizaria as políticas públicas do governo para as universidades federais nos últimos 25 anos? É possível perceber algum padrão, alguma tendência geral?

S.S. Quando a Unifesp foi criada, em 1994, eu era conselheira do Conselho Universitário (Consu), participei da elaboração do primeiro estatuto da universidade e também dos seguintes. Percebo que internamente a tendência foi de construir processos e organizar a instituição como uma universidade de fato. Ela veio de uma escola departamental, grande e bastante complexa, mas que não tinha outras áreas do conhecimento no seu plano pedagógico. 

Tivemos que ter um projeto pedagógico mais amplo, dando um caráter universitário à EPM/Unifesp, que naquele momento era uma escola de ensino superior na área da saúde. Expandimos, inicialmente na graduação, ainda na área de saúde, na pesquisa, que já era de qualidade e tínhamos como objetivo continuar a ampliação da pós-graduação, da pesquisa e da assistência, que é muito forte desde o início da Unifesp. Depois percebemos um movimento claro e importante de expansão das universidades federais pelo país, que triplicaram a sua capacidade, passando de 400 mil para 1,2 milhão de estudantes. 

A Unifesp foi o reflexo dessa política nacional. Ela aceitou o desafio de fazer uma expansão a partir de 2005. Nesse período, passamos de 1,3 mil para 13 mil estudantes de graduação e de 2,5 mil para 5 mil de pós-graduação. Na extensão temos mais de 160 projetos sociais em toda a universidade, programas de extensão e especialização que já eram muitos e foram ampliados para todas as áreas do conhecimento. Passamos a ter projetos muito fortes e bem estruturados nas áreas de humanidades, na Pedagogia, na História, na Antropologia, que depois deu origem à Antropologia Forense, área na qual somos pioneiros devido ao trabalho que fazemos aqui na Unifesp. 

Além disso, estamos acrescentando o curso de Direito, que estamos aguardando a autorização para a abertura, tendo pesquisadores e professores que já estão contribuindo muito com a nossa instituição. A tendência atual é de transição. Não estamos vislumbrando que a expansão terá continuidade nesse momento, mas lutamos e estamos trabalhando para que ela se consolide cada vez mais e que as universidades permaneçam fortes nos seus projetos acadêmicos.

Soraya Smaili está com um microfone na mão

Cerimônia de entrega da primeira fase do Hospital Universitário 2 (HU2), na capital paulista / Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

“Temos que interagir mais com a sociedade”

E. De que forma as comunidades interna e externa podem contribuir para o fortalecimento da instituição?

S.S. A universidade é muito apoiada pela sociedade, pela sua qualidade e pelo caráter de suas pesquisas, voltadas para o bem-estar da população, por exemplo, na área da saúde pública. Quando você pergunta para a comunidade externa se ela apoia a universidade pública, ela diz que sim. Pesquisas de opinião já demonstraram isso. 90% da população, segundo a Idea Big Data (http://www.andifes.org.br/wp-content/uploads/2018/06/IDEIA-UniversidadesPublicas.pdf), apoiam a universidade pública e entendem ser um patrimônio do país. Ela sabe que nós fazemos coisas de qualidade e que são voltadas para o benefício da vida da pessoa humana e da sociedade brasileira. Temos muito apoio. O que precisamos fazer mais é nos comunicar mais com essa sociedade. 

Quando você pega os rankings das instituições públicas que são apoiadas pela população, os bombeiros estão em primeiro lugar e a educação pública está em quinto. Não estamos mal colocados. E esse prestígio junto à sociedade só tem aumentado nos últimos anos, só que nós podemos fazer mais. Podemos continuar nos comunicando mais, mostrando para a sociedade que o que fazemos com os recursos que são públicos é em prol da sociedade e que essa universidade é dela e está aqui para servi-la. Essa relação com a comunidade externa deve ser mais fortalecida e aprimorada. 

Em relação à comunidade interna, o que eu vejo é que nós temos que continuar promovendo a integração cada vez maior entre as diferentes áreas e entre as diferentes atividades de ensino, pesquisa e extensão, porque isso fortalece os profissionais que estamos formando, e também favorece a produção de conhecimento. A produção de uma pesquisa de um diagnóstico de um vírus, ou uma análise de uma água contaminada ou mesmo a formulação de uma política pública pelas Ciências Sociais, tudo isso pode contribuir enormemente para a sociedade, mas para que isso aconteça, é necessário que a nossa comunidade interaja cada vez mais para promover projetos e estudos que se transformem em benefícios maiores, ou seja, que gere mais conhecimento. Internamente, integrar mais. 

Com o público externo, comunicar mais. Dizer o que estamos fazendo e trazê-los para a universidade. Não é só ir lá e dizer, pois isso acaba sendo alguma coisa um tanto que autoritária. Só a gente dizer que professores vão em algum lugar e dão aula. Temos que trazer a população, porque nós também aprendemos com eles. Essa interação é muito rica e promove mais conhecimento.

E. A expansão da Unifesp enfrenta desafios para o acolhimento e a permanência de estudantes oriundos de outras regiões e com menor poder aquisitivo. Como a universidade os enfrentou até agora?

S.S. Tivemos uma política pública desenvolvida pelo governo federal que é o Programa Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes). Temos também uma lei tramitando e gostaríamos que ela fosse aprovada, pois isso o fundamenta. Não são auxílios aleatórios, é um programa que dá apoio aos estudantes de baixíssima renda. Há uma análise socioeconômica e, por meio de editais transparentes e bastante democráticos, avaliados por profissionais altamente gabaritados, temos um sistema bastante sofisticado para apoiar aqueles que têm alta vulnerabilidade. 

Oferecemos diversos tipos de auxílios e aqueles que têm mais necessidades recebem auxílio maior. A Unifesp tem uma política de permanência muito bem consolidada. Nós soubemos desenvolver essa política em paralelo com a expansão e hoje podemos dizer que, com os recursos que temos do Pnaes, podemos dar conta, pelo menos, da parcela mais vulnerável que está na nossa comunidade hoje. Estamos nos esforçando muito para isso. 

Além disso, temos sistemas de núcleo de apoio aos estudantes em cada campus, vinculados a essa política e para além dos auxílios econômicos e financeiros, principalmente no que diz respeito ao serviço social, à psicologia e até mesmo à parte médica. Eles têm atendimento de especialidades no Serviço de Saúde do Corpo Discente (SSCD/Unifesp). Ademais, fazemos exames, com a colaboração preciosa que temos do Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp) e dos hospitais afiliados da SPDM.

E. Em comparação com outras universidades federais, como a senhora avalia o ensino e a pesquisa na Unifesp?

S.S. Avalio como de enorme qualidade. Quando nós vemos os nossos programas pelos sistemas oficiais do Ministério da Educação (MEC), tanto o e-MEC como o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), vemos que nossos programas têm melhorado os seus conceitos. Praticamente todos os cursos de graduação têm conceitos 4 e 5, que são os mais altos. Obtivemos, em 2017, conceito máximo (5) no recredenciamento da universidade, o que foi um feito importante, por ter sido o primeiro depois da criação da Unifesp. Apenas 14 universidades federais no país têm esse conceito. É um feito fantástico. Além disso, a maioria dos nossos programas de pós-graduação têm conceitos 4 e 5 e uma parcela considerável tem conceito 6 e 7, que é o grupo de excelência, dos programas mais tradicionais, consolidados e antigos, alguns deles com quase 50 anos, criados junto com a pós-graduação no país, como os de Farmacologia e Bioquímica. Temos uma tradição muito grande na pesquisa que nos dá destaque, não só na área da saúde. Estamos muito bem colocados em áreas como Ciências Sociais e Engenharias.

Conseguimos, com tudo isso, alcançar o primeiro lugar em citações por docente. Isso é um feito fantástico, considerando a expansão que fizemos, o que significa que fizemos um crescimento com qualidade e somos a segunda em pesquisas, dependendo do sistema de classificação e ranqueamento. A expansão foi muito significativa em tão pouco tempo, mas ao mesmo tempo teve qualidade e se colocou entre as maiores universidades do nosso país. É importante salientar que antes da criação da Unifesp, nós não aparecíamos em nenhum sistema de avaliação, porque não éramos uma universidade. Sempre que avaliava a EPM, ela não conseguia atingir os critérios e parâmetros de universidade, pois era uma escola de uma área específica. A partir da criação da Unifesp, começamos a figurar como universidade e passamos, inicialmente, para o grupo das 10 primeiras e, agora, para o das 5, porque expandimos.

“A política de cotas garante a diversidade sem prejudicar a qualidade”

E. Que balanço a senhora faz da adoção do sistema de cotas raciais?

S.S. Nosso balanço é muito positivo, lembrando que a Unifesp foi uma das primeiras universidades públicas a adotar o sistema de cotas antes da lei federal, ofertando 10% das vagas nos cursos de graduação da época. Hoje, após a adoção da lei de cotas, vemos que elas nos possibilitaram que nós tivéssemos uma representação maior da sociedade brasileira, paulista e paulistana. O perfil socioeconômico dos nossos estudantes é parecido com o da própria sociedade do Estado de São Paulo: as faixas de renda, bem como os grupos raciais e os oriundos de escolas públicas. 

As cotas não foram simplesmente cotas, mas atreladas à escola pública. Depois disso, nós fizemos um processo de avaliação e verificamos que os cotistas foram muito bem avaliados e não há perda de qualidade do ensino e dos formandos, na comparação com os não cotistas. Outro aspecto bastante interessante é que hoje temos uma diversidade que traz uma riqueza e faz com que a universidade pública cumpra o seu papel social perante os grupos que tem ou tiveram menos favorecimento na sociedade.
Lembrando que os cotistas também passam pelos mesmos processos de ingressos que os demais. Muitas vezes as pessoas acham que são processos separados e que as vagas estão garantidas só por serem cotistas e isso não é verdade. Há avaliação tanto no ingresso quanto no egresso, quando os indivíduos saem da graduação.

 
Publicado em Edição 11

Retrato de Lia Rita Azeredo Bittencourt

Lia Rita Azeredo Bittencourt
Pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa

 

Comemoramos, em 2019, os 25 anos de criação da Unifesp, cujo berço foi a Escola Paulista de Medicina (EPM), entidade que no ano passado celebrou seu 85º aniversário. Ninguém melhor do que nosso primeiro reitor eleito, o professor Hélio Egydio, para contar como ocorreu o nascimento da universidade, uma história que, sob muitos aspectos, confunde-se com a de seu próprio percurso na instituição. Nossa atual reitora, Soraya Smaili, descortina a expansão e o crescimento daquela que é considerada uma das melhores universidades públicas federais brasileiras.

Nesta edição, de caráter comemorativo, retratamos a pluralidade, transversalidade e convergência das pesquisas realizadas na instituição, que agora expande sua potencialidade no ensino e na extensão aos seis campi, nomeados a seguir, além de um campus em fase de implantação, na zona leste (Instituto das Cidades): São Paulo (EPM e Escola Paulista de Enfermagem), Baixada Santista (Instituto de Saúde e Sociedade e Instituto do Mar), Guarulhos (Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), Diadema (Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas), São José dos Campos (Instituto de Ciência e Tecnologia) e Osasco (Escola Paulista de Política, Economia e Negócios).

Com 13,4 mil alunos de graduação, 5,4 mil de pós-graduação stricto sensu e 11 mil de especialização (ensino presencial e a distância), 1,4 mil residentes médicos e multiprofissionais, 4 mil técnicos administrativos e 1,6 mil docentes distribuídos em 52 cursos de graduação e 71 programas de pós-graduação, a Unifesp atua em todas as áreas do conhecimento, destacando-se nos rankings nacionais e internacionais. De acordo com o ranking Times Higher Education (THE) de 2018, a Unifesp é a primeira universidade federal brasileira em citações e a quarta da América Latina.

No ensino de pós-graduação stricto sensu, a Unifesp enfrentou, na última década, o desafio de abrir programas de mestrado e doutorado nos campi da expansão, com a meta de alcançar a dimensão e excelência dos existentes no campus sede. Atualmente, os referidos campi já contam com 33 cursos de mestrado e 12 de doutorado. Essa extraordinária expansão, em tão pouco tempo, é resultado do incentivo dado pela própria instituição e, por outro lado, está relacionada ao perfil dos docentes ingressantes – em sua quase totalidade, doutores em regime de dedicação exclusiva, o que favorece a vocação para a pesquisa e a pós-graduação.

A Unifesp também tem investido no incremento de programas de pós-graduação interdisciplinares, que promovam conhecimentos convergentes, com o objetivo de oferecer respostas aos problemas complexos do mundo contemporâneo. Ações de fomento que viabilizem esses programas e a criação do Instituto de Estudos Avançados (IEA), neste ano, serão fundamentais para que a convergência de conhecimentos seja um vetor de ampliação e reorganização dos programas de pós-graduação.

A área de pesquisa – por sua vez – cresceu, do mesmo modo que a do ensino de graduação e de pós-graduação. Entre 2002 e 2016, o número de grupos de pesquisa cadastrados no CNPq saltou de 152 para 431 – isto é, houve um aumento equivalente a 183%. Atualmente, 239 docentes (14,9% do total) mantêm bolsas do CNPq com produtividade em diferentes níveis.

O fruto desse crescimento em número e qualidade pode ser contextualizado nesta edição da Entreteses, que nos traz resultados de pesquisas inovadoras nas mais diferentes áreas. Na área da saúde, a vacina para a doença de Chagas, que vem sendo testada; a não detecção do vírus HIV, como efeito de um tratamento multimedicamentoso; e a prevenção de sangramento em cirurgias cardíacas. Na área social e de saúde pública, o alerta para o risco de violência entre jovens que consomem altas doses de álcool em curto espaço de tempo nas baladas noturnas e a desigualdade de renda e riqueza no país, também refletida pela distribuição de heranças. Na área de História e tecnologia, a plataforma digital que permite um mapeamento histórico de regiões do país.

Por fim, a Unifesp foi uma das 36 instituições selecionadas para participar do Pro-grama Institucional de Internacionalização, o Capes Print. O projeto – estruturado em áreas estratégicas, que incluem pesquisas desenvolvidas em colaboração com diversos países – está em fase de franca implementação. Acreditamos que o Capes Print irá: fortalecer os programas de pós-graduação; estimular, ampliar e consolidar a internacionalização da instituição; e melhorar o desempenho acadêmico e a produção tanto científica e tecnológica quanto de políticas sociais e econômicas. Somado a tudo isso, cabe mencionar que, após um significativo esforço dos setores envolvidos, a universidade aprovou sua política de inovação, paralelamente à transformação do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) em agência de inovação.

Todo esse potencial já demonstrado ao longo de 25 anos e o que está ainda por vir refletem o resultado da união e esforço de toda a comunidade universitária.

 
Publicado em Edição 11
Quinta, 13 Junho 2019 15:33

Expediente • Entreteses n° 11

Expediente

A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.

ISSN 2525-5401 (publicação impressa)
ISSN 2525-538X (publicação on-line)

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Reitora: Soraya Soubhi Smaili

Vice-Reitor: Nelson Sass

Pró-Reitora de Administração: Tânia Mara Francisco

Pró-Reitor de Assuntos Estudantis: Anderson da Silva Rosa

Pró-Reitora de Extensão e Cultura: Raiane Patrícia Severino Assumpção

Pró-Reitor de Gestão com Pessoas: Murched Omar Taha

Pró-Reitora de Graduação: Isabel Marian Hartmann de Quadros

Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa: Lia Rita Azeredo Bittencourt

Pró-Reitor de Planejamento: Pedro Fiori Arantes

Jornalista responsável/Editor: José Arbex Jr. (MTB 14.779/SP)

Coordenação: Ana Cristina Cocolo

Reportagens: Ana Cristina Cocolo, Daniel Patini, José Luiz Guerra, Juliana Narimatsu, Lu Sudré e Valquíria Carnaúba

Projeto gráfico e diagramação: Ana Carolina Fagundes

Infográficos e ilustrações: Ana Carolina Fagundes

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Fotografias: Acervo Unifesp / Créditos indicados nas imagens

Capa: Alex Reipert

Tratamento de imagens: Alex Reipert / Ana Carolina Fagundes

Conselho Editorial: Lia Rita Azeredo Bittencourt, Karen Spadari Ferreira, Débora Cristina Hipólide, Bruno Moreira Silva, Jerônimo Gerolin, Andréa Slemian e Vera Raquel Aburesi Salvadori​

Conselho Científico: Olgária Chain Feres Matos, Renato Janine Ribeiro, Ruy Ribeiro de Campos Jr., Paulo Schor e Fulvio Alexandre Scorza

 

Revista Entreteses n° 11 – Junho/2019

www.unifesp.br/entreteses

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Tiragem: 4.000 exemplares

 

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL

Direção: Walter Teixeira Lima Júnior

Jornalismo: Daniel Patini, José Luiz Guerra e Valquíria Carnaúba

Design: Ana Carolina Fagundes e Ângela Cardoso Braga

Fotografia: Alex Reipert

Audiovisual: Reinaldo Gimenez (coordenação), Jean Carlo Silva e Loiane Caroline Vilefort

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Assistente administrativo: Luis Tadeu Ka Jin Mo

Assessoria de imprensa: Ex Libris Comunicação Integrada

Tel.: (11) 3266-6088 - ramais: 207 e 208

Redação e administração:
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Publicado em Edição 11
Segunda, 10 Junho 2019 15:31

Edição 11 - Entreteses

Junho 2019

Em 2019, a Unifesp completa 25 anos de existência, e esta edição foi pensada com esmero para comemorarmos essa conquista! Os 25 anos simbolizam alguns momentos importantes da vida, como as bodas de prata em um casamento. Propomos, assim, uma reflexão sobre o papel da instituição ao longo dos últimos anos e as perspectivas para os próximos – que, esperamos, tornem-se décadas.

Nesses 25 anos, a instituição consolidou sua atuação em todas as áreas do conhecimento, realizando com excelência atividades de ensino, pesquisa e extensão nos seis campi implantados: São Paulo (Escola Paulista de Medicina e Escola Paulista de Enfermagem), Baixada Santista (Instituto de Saúde e Sociedade e Instituto do Mar), Guarulhos (Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), Diadema (Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas), São José dos Campos (Instituto de Ciência e Tecnologia) e Osasco (Escola Paulista de Política, Economia e Negócios). O Campus Zona Leste, que abrigará o Instituto das Cidades, encontra-se em fase de implantação.

Alguns dos frutos são retratados nesta edição. Na entrevista com Soraya Smaili, a reitora da Unifesp revela alguns de nossos propósitos: transmitir às outras áreas do conhecimento a qualidade e a tradição da área da saúde, de onde a instituição se originou, e expandir a interação com a sociedade. Inovamos em relação às dez edições anteriores, abrindo espaço para três perfis de figuras que marcaram a universidade. A história de vida de Hélio Egydio Nogueira, Regina Celes de Rosa Stella e Manuel Lopes dos Santos intercala-se com a história da Unifesp, laços retratados ao longo da edição.

Destacamos também algumas das principais pesquisas produzidas por nossa comunidade acadêmica. Cinco páginas foram dedicadas, por exemplo, à participação de pesquisadores do Campus Baixada Santista em um importante projeto da ONU, Biodiversidade para Alimentação e Nutrição, por meio do qual identificaram nove frutos brasileiros que fornecem 84 compostos bioativos – fundamentais para a prevenção de deficiências nutricionais, obesidade e doenças crônicas.

Outros temas atuais e de extrema relevância, como a transmissão de heranças e a perpetuação das desigualdades entre gerações, o mapeamento ambiental como instrumento de preservação e conscientização e o tratamento voltado a pacientes soropositivos, ocupam os espaços reservados a essas pesquisas ao longo das páginas.

Permanecemos com a missão de abordar, de maneira aprofundada e pautada na ciência, os temas que permeiam o contexto social e econômico brasileiro no século XXI. Meio ambiente, economia, saúde pública, HIV, genética, nutrição... guarde esses temas, eles ocuparão nossas agendas por muitos anos ainda. Planejamos estar com você para que, juntos, cheguemos a uma compreensão melhor da realidade atual.

Publicado em Entreteses
Quinta, 22 Novembro 2018 15:10

Nanotecnologia entre dentes

Nova fibra polimérica promete eliminar a necessidade de realização de enxerto ósseo antes do implante dentário

Ana Cristina Cocolo

p095 Entreteses

Micrografia obtida por microscopia eletrônica de varredura das fibras poliméricas roteadas com nanopartículas, após ensaio de adesão celular (osteoblastos humanos)

Uma nova fibra bioabsorvível, criada por pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) - Campus São José dos Campos, em colaboração com o pesquisador Anderson de Oliveira Lobo e a bióloga Maíra Maftoum Costa, ambos da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), poderá dispensar a realização de enxertos ósseos em pequenas áreas, principalmente no campo da periodontia. A fibra tem o potencial de auxiliar na formação de novo tecido ósseo (osteogênese) no local onde for inserida, permitindo a fixação de implantes dentários que demandam a recomposição dos ossos dos maxilares superior e inferior. 

O material, baseado em um polímero (macromoléculas formadas por estruturas menores, denominadas monômeros) como matriz, é fruto de uma investigação que resultou na tese de doutorado da engenheira biomédica Patrícia Oliveira de Andrade, defendida no âmbito do programa de pós-graduação em Engenharia e Ciência de Materiais do ICT/Unifesp, sob a orientação da docente Ana Maria do Espírito Santo e mediante a colaboração do pesquisador Anderson de Oliveira Lobo. 

À matriz polimérica de PBAT poli(butileno adipato co-tereftalato) – polímero reabsorvível muito utilizado na indústria de plásticos recicláveis – foram acrescentados dois tipos de nanopartículas: nanotubos de carbono, para garantir reforço das propriedades mecânicas e melhorar a resistência do material, e nanocristais de hidroxiapatita sintética, para promover o estímulo biológico necessário. A hidroxiapatita é um material bioativo presente na constituição de ossos e dentes humanos, cuja finalidade é promover a regeneração óssea.

p095 Entreteses porAlexReipert

Ana Maria do Espírito Santo e Patrícia Oliveira de Andrade (Imagem: Alex Reipert)

“Como o polímero é bioabsorvível, a intenção é que, com o tempo, esse material seja decomposto no organismo e os únicos elementos que permaneçam no local sejam os núcleos de hidroxiapatita e os nanotubos de carbono, que não são reativos e servirão como substrato, oferecendo a sustentação necessária para o novo osso – reconstituído – receber o implante”, explica Andrade. 

De acordo com a autora, que contou com verbas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para a elaboração de seu trabalho, a proposta era realmente obter um produto que pudesse, futuramente, ser aplicado na enxertia de pequenos locais, inclusive em fraturas ósseas, de modo geral. “Na periodontia, seria para trabalhar justamente a parte de enxertia rápida, mediante a colocação de um material que promovesse a osteogênese, ou seja, o crescimento de osso naquela região, sustentando o recebimento de um implante”, resume. “Isso é melhor que recorrer a uma cirurgia mais invasiva para a remoção de um pedaço do osso de outro local do corpo do paciente e reimplantá-lo, ou ter de buscar o órgão em um banco de ossos.”

A engenheira biomédica relata que um levantamento do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia Jamil Haddad (Into), no qual foi apontada a baixa receptação do banco de ossos no país, motivou sua pesquisa. “A doação de ossos é o que, muitas vezes, possibilita a qualidade de vida de pessoas que sofreram traumas, tiveram tumores ou mesmo precisam de implantes dentários.” 

Similar ao algodão-doce 

Andrade esclarece que, para promover a interação dos materiais utilizados, era preciso uma fibra porosa, uma espécie de scaffold – arcabouço para o desenvolvimento celular –, simulando as condições naturais de uma matriz extracelular, na qual o fluido corporal pudesse entrar e permear toda a fibra, de modo a propiciar um crescimento ósseo o mais natural possível. 

Adotando procedimentos inovadores, a pesquisadora utilizou a técnica de rotofiação, que possibilita a produção de fibras poliméricas por meio da aplicação de força centrífuga. Esse processo permite um aumento substancial na criação dessas fibras, quando comparado a outras técnicas já utilizadas para a fabricação de mantas ou placas de polímero de alta porosidade. 

“A fibra sai exatamente na forma de um algodão-doce”, descreve Santo. “A solução polimérica, com a nano-hidroxiapatita e com os nanotubos, é jateada nas hastes da máquina de rotofiação; pela força centrífuga, as fibras são fabricadas em larga escala e coletadas na forma de novelos.” 

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Micrografia obtida por microscopia eletrônica de varredura das fibras poliméricas

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Fotografia do sistema de rotofiação de fibras poliméricas e fibras rotofiadas sobre as hastes coletoras

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Micrografia obtida por microscopia eletrônica de varredura das fibras poliméricas roteadas com nanopartículas, após ensaio de bioatividade

Sem morte celular 

Para verificar se o material realmente favoreceria o crescimento ósseo, a pesquisadora realizou vários testes in vitro em placas com 96 poços (cavidades). Neles, foram criados meios de cultura sobre a fibra polimérica, os quais receberam células biológicas (osteoblastos humanos) do ligamento periodontal – estrutura que une os dentes aos maxilares – e fluido corporal simulado (SBF), também chamado plasma humano sintético. Este último é uma solução cuja concentração iônica é semelhante à do plasma humano, mantida sob as mesmas condições fisiológicas de acidez, neutralidade ou alcalinidade (pH ou potencial hidrogênico) e temperatura do corpo. 

As análises mostraram que o material não foi tóxico às células e favoreceu o crescimento celular. 

Apesar dos resultados promissores, Andrade ressalta que serão necessárias outras duas etapas de estudo antes da aplicação clínica da fibra em consultórios dentários. A primeira é a análise in vivo do comportamento desse material no organismo de animais de pequeno porte (camundongos), e a segunda engloba os testes clínicos em seres humanos.

Doação de ossos 

Não raro encontramos muitos adeptos da doação de órgãos – como córneas, rins, medula, coração e fígado – e famílias dispostas a autorizar esse procedimento. O desconhecimento sobre a doação de ossos, no entanto, trava uma extensa fila de espera de pacientes que, no Brasil, aguardam esse tipo de transplante e nutrem a esperança de usufruir de melhor qualidade de vida. São pessoas que sofreram perdas ósseas decorrentes de traumas graves, desgastes e tumores ósseos; possuem deformidades congênitas ou específicas da coluna vertebral; ou precisam solucionar problemas odontológicos. 

Apesar de o número de doações aumentar a cada ano no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia Jamil Haddad (Into) – órgão do Ministério da Saúde responsável pela captação, processamento e distribuição, em todo o país, de ossos, tendões e meniscos que serão utilizados em transplantes e enxertos –, a quantidade ainda é insuficiente para atender à grande demanda da população. Em 2016 o número de doadores, de acordo com o instituto, aumentou 31% em relação ao ano anterior – ou seja, 38 contra 29 em 2015. Cada doação pode atender até 40 pessoas. 

Após a doação, os ossos são encaminhados ao Banco de Tecidos Musculoesqueléticos do Into, onde recebem tratamento especial para evitar contaminação por bactérias e vírus, antes de serem armazenados à temperatura de -80ºC, por até cinco anos. 

Os interessados em se tornarem futuros doadores de ossos devem expressar a vontade em vida, já que, após a confirmação do falecimento, a autorização é dada pela família. Informações adicionais podem ser obtidas no site do Into: https://www.into.saude.gov.br/

Tese relacionada:

ANDRADE, Patrícia Oliveira de. Produção, por rotofiação, de fibras ultrafinas bioabsorvíveis de poli(butileno adipato co-tereftalato) reforçadas com nanotubos de carbono e nano-hidroxiapatita para preenchimento ósseo. 2017. 174 f. Tese (Doutorado em Engenharia e Ciência de Materiais) - Instituto de Ciência e Tecnologia, Universidade Federal de São Paulo, São José dos Campos.

Publicado em Edição 10

Pesquisadoras do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) apostaram na otimização dos fosfatos de cálcio por meio de codopagem, spraydrying e adição de polímero ao material original, abrindo precedente para a injetabilidade

Valquíria Carnaúba

p091 Entreteses

O avanço da Medicina se dá não somente pelas grandes descobertas, mas também pelas pequenas revoluções que podem mudar a vida de inúmeras pessoas. Imagine um paciente que precisasse reparar uma fratura craniana e isso fosse possível com um procedimento minimamente invasivo, por meio da aplicação de cimentos ósseos com uma seringa. 

Caroline de Oliveira Renó, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Ciência de Materiais do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) – Campus São José dos Campos, se antecipou à demanda por biomateriais que possam ser implantados em cirurgias minimamente invasivas, estimulem o crescimento de um novo tecido e sejam reabsorvíveis. Ela apostou na otimização das propriedades do cimento de fosfato tricálcico (CFC), utilizando biocerâmica bioativa e reabsorvível in vivo, por meio de três técnicas distintas: codopagem com estrôncio (Sr) e silício (Si), atomização por spraydrying e incorporação do polímero carboximetilcelulose, comumente utilizado pela indústria de cosméticos.

Um grande número de pacientes necessita de enxertos pelos mais diversos motivos, entre eles retirada de tumores, fraturas traumáticas e cirurgias ortopédicas. Nesse contexto, as biocerâmicas à base de fosfato de cálcio passam a ser amplamente requisitadas na substituição e regeneração do tecido ósseo por apresentarem características como composição química semelhante à fase mineral de ossos e dentes, boa biocompatibilidade, bioatividade, ausência de toxicidade local ou sistêmica e capacidade de ligar-se ao tecido hospedeiro ou ser absorvida pelo tecido vivo. Nessa classe de biocerâmicas está inserido o Fosfato Tricálcico (TCP), material obtido a partir da reação entre o carbonato de cálcio e o hidrogenofosfato de cálcio, dando origem a quatro possíveis estruturas cristalinas do sal de cálcio e fosfato, entre as quais a alfa (alfa-TCP). 

As biocerâmicas alfa-TCP vêm despertando bastante interesse devido à sua reabsorção e capacidade de conversão em hidroxiapatita deficiente em cálcio (CDHA), material com estrutura muito similar à fase mineral óssea - correspondente a 60% - 70% do peso seco do osso e composta basicamente por fosfatos de cálcio. Entretanto, quando utilizados como cimento ósseo, comumente não atendem às maiores expectativas de cirurgiões e pacientes. Um dos motivos é que a pasta formada em contato com o solvente mais adequado para seu preparo, um tampão salino à base de fosfato, não surte uma “liga” adequada, provocando a segregação de fases e consequente empedramento antes mesmo da aplicação. 

Além disso, mesmo apresentando compatibilidade superior aos materiais metálicos, os TCPs são cerâmicas, materiais com ausência de deformação plástica e, por isso, baixa resistência à fratura quando submetidos a esforços de tração. Para comparar, a matriz óssea é infinitamente superior por ser composta por uma parte inorgânica (65% representa a rigidez e resistência do osso), mas também por uma orgânica (35% representa a flexibilidade do osso).

“O desenvolvimento de materiais resistentes, injetáveis, que curem in vivo e ainda sejam degradados pelo organismo, enquanto um novo tecido cresce, é uma abordagem estratégica para alavancar o uso de CFCs”, explica Renó. Orientada por Mariana Motisuke, docente do ICT/Unifesp, a pesquisadora desenvolveu materiais que atendessem a essas características a partir de quatro diferentes fosfatos de cálcio: alfa-TCP puro, alfa-TCP acrescido de íons de estrôncio e silício, alfa-TCP atomizado e alfa-TCP atomizado com acréscimo de íons de estrôncio e silício. Tais experimentos levaram à aquisição de pastas com maior coesão e fluidez, bem como de cimentos mais resistentes, abrindo precedente para a injetabilidade de cimentos ósseos e o vislumbre de cirurgias crânio-faciais cada vez menos invasivas. 

pesquisadora e docente

Da esquerda para a direita, a pesquisadora Caroline de Oliveira Renó e a docente Mariane Motisuke, do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) / Imagem: Valquíria Carnaúba

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Microscopia eletrônica de moléculas de fosfato de cálcio após passarem pela atomização por spraydrying, mais arredondadas, o que favorece a aquisição de biocerâmicas mais coesas

Cimento em sua essência

Coesão e cimento, para quem trabalha com construção civil, já são termos familiares e que causam grande preocupação por se atrelarem à qualidade de uma edificação. O cimento é formado por uma combinação de um pó fino, com propriedades aglomerantes, e água, que provoca a hidratação de seus compostos e seu consequente endurecimento. Entretanto, a qualidade final do concreto depende de sua coesão na fase de preparo. Conforme se modifica o grau de umidade, altera-se também sua consistência e se permite maior ou menor deformação do concreto perante os esforços. Na prática, engenheiros e pedreiros mais experientes sabem que um bom cimento é uma mistura que leva, além de água, areia, aditivos, agregados, e às vezes até detergente.

Com o cimento ósseo é quase a mesma coisa. A codopagem, por exemplo, consiste na substituição de íons de cálcio ou fosfato da estrutura do TCP [Ca3(PO4)2]. Lembrando das aulas de química inorgânica, fica mais fácil entender. O grupo fosfato (PO4) possui cinco elétrons na camada de valência e para chegar à estabilidade (teoria do octeto) precisa ganhar três elétrons. Já o cálcio possui dois elétrons na camada de valência, então pode doar dois elétrons para atingir o octeto completo. A substituição iônica ocorre trocando o parceiro metálico desse par de valsa (aquele que doa elétron, ou seja, o cálcio) por um outro elemento químico metálico (estrôncio) ou semimetálico (silício).

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“Esse procedimento tem sido amplamente explorado na engenharia tecidual como um caminho seguro na obtenção de biocerâmicas que interagem melhor com o organismo humano, favorecendo a regeneração óssea”, explica Renó. Codopando o alfa-TCP, a pesquisadora da Unifesp obteve, além do retardamento de sua hidrólise (decomposição pelo solvente no momento da preparação do cimento), outros benefícios. A substituição com o silício acarretou na diminuição da temperatura de obtenção do alfa-TCP, reduzindo os custos com energia na preparação do material precursor. O estrôncio, por sua vez, favorece a atividade osteoblástica, estimulando a formação óssea.

Já a atomização (fragmentação) por spraydrying permite a aquisição de um pó mais homogêneo e de partículas em formato esférico, o que traz mais coesão e fluidez às pastas preparadas para uso cirúrgico. Nesse processo, o fosfato de cálcio é acrescido de uma solução aquosa à base de ácido cítrico, polietilenoglicol e amônia, pulverizada em pequenas gotículas de suspensão, por sua vez rapidamente secadas à medida que entram em contato com uma corrente de ar quente no interior de uma câmara de secagem. 

Embora as partículas sejam submetidas a temperaturas elevadas, o curto tempo de secagem faz com que a temperatura no interior das gotículas permaneça baixa, permitindo a obtenção de moléculas de fosfato de cálcio uniformes e esféricas, conservando as características originais do composto, que misturam melhor com o tampão fosfato, devido à maior molhabilidade (habilidade de um líquido em manter contato com uma superfície sólida) das partículas atomizadas. A técnica é muito utilizada na indústria alimentícia: sabe aquele leite em pó que não dissolve de jeito nenhum, formando aqueles grumos, para a decepção do seu café da tarde? Certamente não passou por spraydrying...

Aliando ambos os processos à adição de 0,5% do polímero carboximetilcelulose (CMC) sobre a fase líquida, a pesquisadora obteve um aumento da viscosidade da pasta, bem como uma cerâmica mais resistente à compressão. A força do cimento ósseo é medida em Mega Pascal (MPa), unidade que aufere a capacidade de deformação de um material, ou seja, a energia que um corpo é capaz de absorver alterando sua forma sob a aplicação de uma carga externa, em comparação à resistência dos ossos esponjosos, zonas de crescimento do comprimento ósseo e, por isso, onde são feitas as aplicações de biocerâmicas.

“Devido à sua estrutura porosa, o osso esponjoso absorve grandes quantidades de energia antes de fraturar, possuindo uma resistência à compressão dentro da faixa abrangida entre 1 e 12 MPa. As cerâmicas utilizadas hoje têm uma resistência que varia entre 10 e 60 MPa e os cimentos ósseos que obtivemos em laboratório apresentaram uma resistência média de 30 MPa, um valor bastante satisfatório”, comenta Renó. 

Tecido vivo

De acordo com Motisuke e Renó, um dos grandes diferenciais da biocerâmica sintetizada em laboratório é a interação produzida com o organismo humano, favorecendo o crescimento do tecido ósseo. O estrôncio tem um papel decisivo nesse processo. A partir do momento que o trauma começa a regredir durante a recuperação do paciente, a reação natural do organismo é incorporar o coágulo formado na região atingida por meio da fagocitose, processo de ingestão e destruição de partículas sólidas por células ameboides chamadas fagócitos, ao mesmo tempo que nasce o novo tecido ósseo. Se nesse processo o osso encontra um TCP pelo caminho, mobiliza um verdadeiro exército de leucócitos para destruir e ingerir esse material, uma situação que pode fugir do controle e configurar um processo infeccioso.

Os cimentos de fosfato codopados com estrôncio não só reduzem a reabsorção óssea, mas também estimulam a formação do novo tecido, já que os íons de estrôncio hoje são reconhecidos por terem uma forte atuação tanto na redução da diferenciação dos osteoclastos, células responsáveis por essa reabsorção, como na proliferação e ativação de osteoblastos, células envolvidas na formação do novo osso. “Verificamos que o cimento de alfa-TCP apresenta uma taxa de reabsorção bem lenta. Fizemos testes de 30 dias com ele e o enxerto perdeu de 15% a 20% de massa”. 

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Microscopia eletrônica de uma amostra de scaffolds de biocerâmica construída por impressora 3D. Sua estrutura assemelha-se ao osso esponjoso humano

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Amostras de scaffolds produzidos a partir de cimentos de fosfato de cálcio, impressas pela técnica de robocasting

Aplicação promissora em scaffolds 

A injetabilidade do novo material abriu precedente para outras aplicações, como a produção de peças em 3D por meio da técnica de robocasting, que lembra muito a impressão comum e consiste na extrusão de uma pasta por meio de um bico pequeno, enquanto o mesmo é movido através de uma plataforma. A tecnologia de fabricação de modelos tridimensionais de próteses de reconstrução óssea e órgãos humanos já é uma realidade na geração de estruturas pela produção de sucessivas camadas dos materiais utilizados, que podem variar desde plásticos até biocerâmicas. 

“Os cimentos de fosfato, mais coesos, possibilitaram seu manuseio facilitado durante a impressão de scaffolds, suportes porosos de material biorreabsorvível colonizados por células vivas que crescem com design da parte humana a ser regenerada. Como a impressão é um processo mais lento, foi executado com água em vez de solução tampão, para que a pasta não endurecesse durante a fabricação das estruturas. Adicionamos também o polímero Pluronic® para maior viscosidade dos filamentos impressos", explica Renó. Ainda assim, os scaffolds obtidos são bons candidatos para serem aplicados como substitutos do osso esponjoso, pois mostraram uma resistência mecânica dentro do intervalo desejado, com macroporosidade interconectada, e possuindo como principal vantagem a característica de serem impressos para preencher quaisquer defeitos, comemoram as pesquisadoras.

Artigo relacionado:

RENÓ, Caroline de Oliveira; MOTISUKE, Mariana. Optimizing the water-oil emulsification process for developing CPC microspheres. Materials Research, v. 19, n. 6, p. 1388-1392, nov./dez. 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/mr/v19n6/1516-1439-mr-1980-5373-MR-2016-0189.pdf>. Acesso em: 6 jun. 2018.

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Pesquisador investiga como são escritas as memórias e histórias que lidam com os efeitos da transição entre o regime instituído em 1964 e a redemocratização brasileira

Juliana Narimatsu

p081 Entreteses porRochaLinsker eBrito

Em um contexto de forte censura à imprensa e às artes, não deve ser emblemática a imagem ao lado. Data: 1970. Local: Brasília (Imagem: Rocha, Linsker e Brito - 2002)

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No decorrer dos enfrentamentos com manifestantes, as forças de repressão foram incorporando novas ferramentas ao seu arsenal, que iam de cassetetes eletrificados a caminhões que disparavam jatos d’água fortíssimos. Data: 1968 (Imagem: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro)

31 de março de 1964. Os movimentos oposicionistas ao governo, formados por civis e militares, afastam o presidente João Goulart do poder; estopim para ruptura democrática e instauração de um regime que começa a fechar o país. A dissolução de todas as liberdades políticas e a radicalização da repressão e da violência resumem um período que marcou a história do Brasil. A mais longa ditadura, que perdurou por mais de duas décadas (até 1985), deixou fragilidades e traumas que estão sendo discutidos nos dias de hoje.

E qual história não provoca uma reação em uma pessoa? Seja oral ou escrita, seja memorialista ou ficcional, quando uma narrativa é apresentada, ela desperta reflexões que, inclusive, incitam a mudanças. O papel daquele que relata é fundamental para esse processo. O narrador, de variadas facetas, se torna uma preocupação dos autores contemporâneos, justamente por ser “um reflexo do tipo de arte que produzem e, mais, agente de suas inquietações, investimentos e, sobretudo, ideologia”, explica Ricardo Lísias. O narrador, aliás, possui a capacidade de realizar a ponte do eu para o coletivo, ao compartilhar suas experiências e transferir o seu testemunho para o outro.

História e narrador, esses são os eixos que norteiam a pesquisa de Ricardo Lísias, escritor e pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Letras da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos. Lísias investiga como algumas tendências da literatura lidam com os efeitos da transição entre a ditadura militar e a redemocratização brasileira, em especial a maneira como os narradores são constituídos. O trabalho, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), está em sua fase final, sob supervisão de Mirhiane Mendes de Abreu, docente do Departamento de Letras da EFLCH/Unifesp. 

Para facilitar a exposição dos argumentos, a pesquisa de Lísias foi dividida em três momentos: o primeiro estuda o papel da memória de envolvidos na resistência à ditadura, no caso, Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis; o segundo realiza uma reflexão sobre a sociedade brasileira do fim da ditadura militar a partir dos personagens de Sérgio Sant’Anna e João Gilberto Noll; já o terceiro trata da questão do legado, analisando a produção de Rubem Fonseca.

Memória como artifício

O Que é Isso, Companheiro? (1979), escrito por Fernando Gabeira, e Os Carbonários (1980), de Alfredo Sirkis, são parecidos em muitos aspectos, apesar de compartilharem memórias de indivíduos distintos. Ambos retratam a passagem de seus autores pela luta armada brasileira, ao descrever suas ações nos grupos guerrilheiros até finalizar com o episódio de exílio fora do país. “As semelhanças são bem maiores que as diferenças”, constata Lísias. Na verdade, as similaridades não estão apenas nos enredos apresentados, mas também, e sobretudo, nos recursos explorados para a construção dessas narrativas.

Em diferentes formas e intensidades, a violência encontra-se presente nos livros, “talvez o que mais chame atenção, já que praticamente constitui os narradores ou, se não tanto, cerca-os o tempo inteiro”, reforça o pesquisador. A supressão dos direitos civis, por exemplo, é expressada pela censura sofrida por Gabeira logo no início de sua carreira jornalística ou pela repressão presenciada por Sirkis nos movimentos estudantis. Já o ato físico, mais significativo, é visto ao longo das narrativas não só pelos riscos que correm os protagonistas e seus companheiros, mas pela constante possibilidade de prisão – que, de fato, acontece com Gabeira – e de tortura. As relações íntimas também são afetadas com o desaparecimento de colegas próximos ou quando os narradores presenciam a violência de perto. “Os afetos acabam sempre fraturados por causa da repressão”.

O anúncio da possibilidade de tortura, de acordo com Lísias, propicia um sentimento inverso ao de repulsa, fazendo com que floresça uma empatia entre leitor e livro praticamente obrigatória. “Se já nos prendemos pelo ritmo vertiginoso da narrativa e o inconformismo pela situação do país, a ameaça de tortura nos deixa solidários com os narradores e, por fim, aderimos a eles”. Além disso, expor esse tipo de recordação transmite a ideia de que esses protagonistas conseguiram vencer seus traumas e/ou estão em busca de uma espécie de lucidez, pois as vítimas de violência acabam, por muitas razões, silenciando-se. Dessa forma, apesar de serem tormentos difíceis de se superar e compartilhar, em termos literários, tornam-se positivos para os narradores, que acabam estabelecendo até mesmo uma aproximação com o público. Contudo, vale salientar um ponto em especial: nos textos de Gabeira e Sirkis não há indicações de um tipo de “visão de sacrifício” no que diz respeito à violência física, ou melhor, a tortura aparece apenas insinuada, não há detalhes sobre como aconteceu ou mesmo se os próprios autores passaram por ela.

p082 Entreteses Manchete

O desgaste da relação entre policiais e estudantes pelos frequentes enfretamentos levou a extremos de autoritarismo e violência. Seguidamente, os manifestantes presos eram constrangidos e humilhados. Era usual a prisão e fichamento de grandes grupos de jovens, que eram interrogados por vezes sob violência física e psicológica. Data: 1968 (Imagem: Manchete, 06.06.68)

p083 Entreteses Abramo e Maues

Ainda que impotentes para alterar os rumos do golpe, os estudantes tentaram organizar, a partir de sua sede, passeatas e a distribuição de panfletos conclamando a população à resistência no Rio de Janeiro. Por sua coragem na defesa da legalidade, a União Nacional dos Estudantes pagou com o criminoso incêndio de sua sede no dia 1º de abril. Data: 01.04.64 (Imagem: Abramo e Maués - 2006)

Lucidez dos narradores

A lucidez dos narradores é outra marca encontrada nos enredos, pois os protagonistas constantemente refletem sobre suas ações e apontam erros em suas trajetórias. Aqui, portanto, é exposta uma autocrítica que adquire uma dupla função literária. “A relativização da própria ideologia e a exposição dos defeitos de si mesmo e dos outros. Em primeiro lugar, seguem o clichê de criar figuras contraditórias e complexas, mais ou menos como qualquer pessoa real. Depois, esse tipo de recurso costuma gerar no leitor novamente aquele sentimento de empatia e, dependendo da habilidade do autor, adesão a suas hipóteses políticas, atitudes e opções. Afinal de contas, são gente como a gente”. 

Conclui-se, assim, que os elementos descritos estabelecem uma conexão entre público e narradores, o que pode contribuir para a aceitação e a disseminação da ideologia transmitida pelas obras. “Na teia de vozes que estavam se constituindo durante o fim da ditadura militar, as de Gabeira e Sirkis aparecem ocupando um lugar privilegiado e se expressando com força e muita habilidade de convencimento”. Para o pesquisador, os relatos trazem a percepção de uma experiência derrotada, ficando a vitória que atribuem à ditadura bastante fortalecida. “Não é exagero dizer que o tempo inteiro os dois livros, com o argumento de analisar as próprias fraquezas ou obedecer a algum tipo de impulso de integridade, diminuem a importância dos grupos de resistência, chegando em alguns momentos até à zombaria”.

Os valores propagados pelas obras, por fim, provocam dois efeitos que interferem nos diferentes contextos vividos naquela época. Um deles, mais amplo, está relacionado às pautas políticas discutidas no momento de transição da ditadura militar para a redemocratização, no caso, a conivência da anistia judicial aos crimes. Já o outro, mais pessoal, refere-se aos papéis que os próprios autores assumiram após o retorno do exílio. Gabeira e Sirkis chegaram ao Brasil com a intenção de voltar às atividades políticas e suas obras serviram para recolocar o nome deles em circulação. 

“Foi deixada uma vida democrática entre nós bastante frouxa. Não é possível esperar que a justiça vá garantir progresso quando há torturadores identificados e muitas vezes confessos que não são interpelados pelo sistema judiciário. O Que é Isso, Companheiro? e Os Carbonários, ao ridicularizarem e tirarem a legitimidade da resistência à ditadura, caminham em direção a um discurso que procura estar a favor do pensamento oficial. Pode estar aqui o germe de uma literatura sempre a favor da norma, estranha à contestação e tentando agradar o maior número possível de leitores. Seus autores, além de tudo, também queriam votos”.

Contudo, Lísias reconhece a importância dessas obras, já que “confirmam a hipótese de que, depois de um período traumático, há grande necessidade de produção de memória”. Tal evidência não está apenas no sucesso que ambas adquiriram na época de seus lançamentos – próximo ao fim da ditadura militar –, mas também por realizarem “um registro histórico reforçando a veracidade dos fatos”. Testemunhar momentos delicados como uma ditadura alcança finalidades distintas, de expiação do sofrimento à necessidade de expor um acontecimento para que ele não se repita. Outra possibilidade é a reconstrução e a restauração de laços sociais e comunitários perdidos em razão da violência e do exílio. Há também a função terapêutica desse processo, pois quando se compartilha experiências, os traumas e as angústias individuais são transferidas para um coletivo, tornando-as, assim, um acontecimento social e, mais ainda, político. Além disso, denúncias, correções de distorções históricas e novas versões de determinados fatos podem vir à tona.

Uma sociedade fraca

Sérgio Sant’Anna e João Gilberto Noll são autores que se consagram no fim da ditadura militar com os respectivos livros O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982) e O Cego e a Dançarina (1980). Não só nesses contos, mas também em outras ficções lançadas posteriormente, nos primeiros anos democráticos do país, ambos os escritores propõem criar protagonistas que refletem o que a história fez com a sociedade daquela época: “são personagens doentias, perdidas, esquálidas e sofrendo; quem deve falar são os fracos, a parcela da população que, portanto, representa o Brasil”, pontua Ricardo Lísias. 

Uma das características notáveis desse período nas obras de Sant’Anna e Noll é a desidentificação. Nomes próprios raramente aparecem, sendo os personagens designados pela profissão ou por pronomes pessoais, como é o caso dos Ele e Ela de Um Romance de Geração (Sant’Anna, 1980) ou no quarto conto de O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, quando o Cristóbal contracena com o Expectador, figura identificada apenas por uma ação que realiza ao longo da história. 

Além do anonimato, a questão da desidentificação traz a ideia, também, de proteção, por não se revelar, ou de preparação para a ausência de todas as outras coisas – o desaparecimento dos conhecidos, da mulher, do dinheiro e, inclusive, da própria vida. Tal recurso é explorado constantemente em A Fúria do Corpo (Noll, 1981), nas várias situações em que o narrador (sem nome) não confere nenhuma característica individualizante para as pessoas com quem se relaciona, descrevendo-as como o menino traficante ou o homem que contrata serviços de prostituição. “O narrador recusa-se a ter um nome, por segurança. Se as garantias individuais são um dos principais pilares da civilização, temos, aqui, um paradoxo: para estar seguro é preciso deixar de ser um indivíduo. A conclusão é fácil: a civilização não garante mais segurança”, esclarece o pesquisador.

p084 Entreteses Acervo Arquivo Publico SP

No Rio de Janeiro, a Greve de Protesto contra a censura em defesa da cultura mobilizou um grande número de artistas que paralisaram as peças e foram para as ruas. Grande número dos cartazes dessa manifestação foram confeccionados pelo cartunista Ziraldo. Data: 19.03.68 (Imagem: cervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo) 

p085 Entreteses Schwarcz

As operações de busca e detenção em larga escala, envolvendo grande número de policiais e militares, eram feitas contra a população em forma de blitz: ocupação militar de determinada área para buscas de casa em casa. As pessoas sem documentação adequada eram consideradas suspeitas e frequentemente detidas para averiguações. Data: 1969 (Imagem: Schwarcz - 1998)

p085 Entreteses MartinsMartinsPalmeira

 Uma das estratégias da campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita foi a realização de entrevistas com familiares de mortos e desaparecidos, de congressos e manifestações de denúncias. Data: 1978. Local: s/l. (Imagem: Martins, Martins e Palmeira - 1978)

O que sobra é o corpo

Em contrapartida à escassez de identidade, a imagem do corpo é uma particularidade presente nas obras, sustentada por diferentes representações. “Na verdade, é o que sobra para narradores e personagens”, comenta Lísias. Em certos contextos, a alusão se faz por meio da sobrevivência dos indivíduos, como no conto Alguma Coisa Urgentemente (Noll, 1980). O leitor acompanha a história de um garoto que busca meios de viver sozinho, já que seu pai está ausente lutando contra a ditadura militar. O ápice da trama está no momento em que o menino encara a morte de perto, ao ver o corpo do próprio pai agonizando diante de seus olhos enquanto cresce um sentimento de abandono maior que tristeza. 

A prostituição, a única saída para esses corpos, é outra temática intensamente explorada. “O sexo é uma negociação entre organismos combalidos e sem afeto. No máximo, serve para que um corpo se ampare em outro, pois não lhe resta mais nenhuma base". Para os escritores, a cópula é um possível complemento ou confirmação da precariedade. Em Bandoleiros (Noll, 1985), no auge da decadência, os personagens não concretizam o ato sexual, restando-lhe a masturbação mútua. “Sant’Anna e Noll veem que o afeto não serve para construir subjetividades, se não as destrói completamente, deixa-as degradadas”, pontua Lísias.

Em razão da falta de qualquer aproximação física e afetiva, conclui-se que os personagens são seres profundamente solitários, que vivem na cidade grande justamente por ser um “ambiente perfeito para eles desaparecerem, como aconteceu com seus nomes, além de se tornar palco para os seus problemas e tensões”. 

Em Alguma Coisa Urgentemente, por exemplo, o pai do narrador retira seu filho de um espaço rural, levando-o para cidade por acreditar ser mais seguro, mas é nesse mesmo lugar que o pai morre enfrentando a repressão do Estado. “De um jeito ou de outro, para indivíduos que ficaram sem quase nada além do corpo, a metrópole é o meio em que o poder do governo é sempre mais atuante e efetivo. Por meio da constituição e localização desses personagens, os escritores indicam que o estado de exceção não iria terminar no Brasil naquela época”.

Como mencionado no bloco anterior, as características das figuras de Sérgio Sant’Anna e João Gilberto Noll representam não só a visão dos autores sobre a sociedade no fim da ditadura militar, mas, e principalmente, contribuem para a construção do retrato da história brasileira desse período. “Narradores e personagens fracos, ambiente tenso e a autoridade agindo sobre eles. Na verdade, é este o Brasil que estava saindo da ditadura: débil, fragilizado e ainda mais uma vez de joelhos diante dos aparelhos repressivos do Estado ”, declara o pesquisador.

O passado condena

Mesmo que existam discussões sobre a natureza do golpe, é fato que certos setores da sociedade se uniram aos militares para criar condições para a ruptura democrática. Entre os grupos civis, o mais importante e atuante, segundo Ricardo Lísias, foi o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (Ipes). O Ipes reuniu membros das classes média e alta com o objetivo de desenvolver estratégias e promover ações que propagassem seus interesses políticos e econômicos, sobretudo o de desestabilizar o governo de João Goulart. 

A imagem construída pelo Ipes, na realidade, foi de uma associação de pesquisa que investigava os problemas brasileiros propondo soluções do ponto de vista liberal. Suas atividades envolviam distintas áreas, mas Lísias traz destaque ao financiamento, supervisão de criação e distribuição de uma série de documentários divulgados durante os anos que antecederam ao golpe de 1964. “Estavam nos cinemas do país inteiro, além de clubes, fábricas, centros culturais e quaisquer outros espaços dispostos a abrir uma tela branca para veicular sua propaganda conservadora”. Tal material, dirigido por Jean Manzon, possui, no entanto, uma controvérsia: a participação de Rubem Fonseca no desenvolvimento dos roteiros. Lísias tenta elucidar essa questão ao realizar uma comparação formal entre os vídeos e a obra do escritor.

A principal atuação de Rubem Fonseca no instituto foi nos grupos de Opinião Pública, trabalhando com jornais e filmes, e de Publicações/Editorial. Ambos proporcionaram ao escritor em início de carreira muitos contatos com profissionais da mídia, do mundo literário e das agências de publicidade, além de alguns generais. “Ir atrás de espaço para publicação, divulgação e tudo que o pudesse ajudar em um meio que nunca foi generoso com iniciantes. O trabalho aplicado e fiel de Fonseca no Ipes fez muito bem a ele”, comenta Lísias. Vale compreender, no entanto, que a intenção do autor não estava em promover sua carreira; antes de tudo e principalmente, ele se enquadrava na ideologia da organização, a ponto de ocupar cargos de liderança.

O primeiro lançamento de Fonseca, intitulado Os Prisioneiros, saiu em 1963 pela editora GRD, de Gumercindo Rocha Dorea, empresário contribuinte do Ipes. A obra abre uma sequência de narrativas curtas até o ano de 1973, quando foi publicado o primeiro romance do escritor, O Caso Morel. “É possível dizer com segurança que à época em que os roteiros dos curtas metragens estavam sendo redigidos, o autor também mostrava interesse por textos curtos”, analisa o pesquisador. 

Em relação ao conteúdo, de acordo com Lísias, existem poucos elementos que remetem à crise política do país; ora tratam o comunismo com um tom irônico, como no conto O Inimigo (1963), ora apresentam pontos do pensamento liberal, como em Henri (1963). “É arriscado tirar qualquer conclusão no que diz respeito à narrativa. Grande parte das citações se estrutura a partir de uma oposição, esquematismo que justamente povoa a propaganda do Ipes: esquerda versus direita, ordem conservadora versus caos comunista, Estado versus iniciativa privada”. 

A estrutura de compor pares opostos pode ser exemplificada ao retratar a temática violência, explorada em muitos textos de Fonseca, como também nos roteiros do Ipes. A questão, entretanto, acaba contrabalanceada por algo que a diminui. No vídeo Nordeste Problema Número 1 (1962), um caixão com uma criança morta, carregado por outros jovens, é exibido durante um intervalo considerável do documentário. Na sequência, a cena é amainada com as propostas do Ipes, soluções destinadas àquela população, moradores da região Nordeste do país. Já no conto Madona (1965), tal característica pode ser vista no momento em que o personagem escreve com urina o nome da amada, acrescido de dois corações, sendo que um deles é varado por uma flecha inacabada.

Um ponto em comum nos textos de Fonseca é o hábito de ridicularizar artistas. “Sempre bobos, frágeis e bisonhos, talvez sejam, junto com a bandidagem, as figuras mais patéticas e desgovernadas dos seus livros”, pontua o pesquisador. “Lembramos que esse grupo, em geral, sempre esteve no polo oposto ao Ipes”. Outra particularidade observada é a natureza conservadora dos narradores e personagens principais. “É como se, mesmo quando feita por pessoas repugnantes ou francamente doentias, a discussão não pudesse ser conduzida por nenhum outro aspecto ideológico. É a voz do conservadorismo liberal que Rubem Fonseca eleva”. 

É evidente que, enquanto os recursos mencionados foram desenvolvidos em seus primeiros livros, Rubem Fonseca concomitantemente exercia suas atividades no Ipes. Contudo, em 1975, houve um marco na carreira do autor que inverteu a sua atuação durante esse período ditatorial: o livro Feliz Ano Novo sofreu censura sob alegação de atentar à moral e aos bons costumes da família brasileira. Depois desse acontecimento, o escritor começou a se envolver cada vez mais com a operação de neutralização da ditadura, “apoiando para que a transição se fizesse de maneira negociada e sem riscos para os envolvidos com o regime militar”, explica Lísias. Além disso, a clareza sobre suas ações dentro do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais acabou esmorecendo.

Apenas em 1994, com o artigo Anotações de Uma Pequena História, publicado na Folha de S. Paulo, Rubem Fonseca retomou esse momento em sua vida, argumentando que sua participação no Ipes foi pela crença nos princípios democráticos e de desenvolvimento, em especial das regiões menos favorecidas, que inspiravam a organização. O autor não menciona sua contribuição nos documentários e afirma seu afastamento após o golpe de 1964. Ricardo Lísias, no entanto, coloca em dúvida essa declaração, já que o legado deixado pelo escritor na época não condiz com sua justificativa. “Talvez fosse mais lúcido que o grande escritor parasse de se debater contra os documentos e, por fim, assumisse a extensão e a gravidade do seu trabalho no instituto. Entre os roteiros dos documentários filmados por Manzon para o Ipes e os primeiros contos por Fonseca existem, além de tudo, inúmeras, enormes e sintomáticas coincidências”.

Sobre o escritor Ricardo Lísias

escritor Ricardo Lísias

Imagem: Alex Reipert

Nascido em São Paulo em 1975, Ricardo Lísias estreou com Cobertor de Estrelas (1999, Rocco) e, até o momento, publicou 11 livros. Desenvolveu textos críticos, algumas resenhas para jornais e trabalhos no ramo da literatura infantil. Traduziu alguns textos, como também seus escritos foram traduzidos para diversas línguas. Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é mestre em Teoria e História Literária pela mesma instituição e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP). Abaixo, algumas obras do autor reconhecidas no campo literário:

O Céu dos Suicidas, lançado em 2012 pelo selo Alfaguara, foi eleito pela Associação Paulista de Críticos de Arte o melhor romance do ano e foi também finalista do Prêmio Jabuti (categoria romance) e do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013. A história é sobre um jovem colecionador que passa pela perda de um amigo de longa data, André, que se suicidou. Com sentimentos de remorso por não ter sido capaz de salvá-lo, o protagonista busca respostas lançando-se em uma viagem, mental e física, para rememorar os últimos momentos do suicida.

O Livro dos Mandarins, publicado em 2009, também pelo selo Alfaguara, foi finalista, na edição de 2010, do Prêmio São Paulo de Literatura. A obra narra a trajetória de Paulo, um executivo bem-sucedido, obsessivo e ambicioso. Seu objetivo é ser selecionado, entre os candidatos do banco em que trabalha, para a única vaga na China. Apesar de muito estudar e pesquisar, o protagonista não conta com um pequeno detalhe: os planos reservados a ele. 

Duas Praças, de 2005, pela Editora Globo, ficou em terceiro lugar na 4ª edição do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira. O romance apresenta Maria e Marita, duas histórias paralelas e perpendiculares. O enredo percorre pelas muitas possibilidades alienantes envolvidas pelas ações, pensamentos e desejos cotidianos.

Grupo de trabalho de Perus identifica desaparecido Dimas Antônio Casemiro

Confirmação foi constatada por meio de análise genética e estudos antropológicos, médico-legais e odontológicos de uma das ossadas encontradas em cemitério clandestino de São Paulo

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Grupo de Trabalho de Perus averiguando as ossadas encontradas (Imagem: Mayara Toni)

O dia 16 de fevereiro de 2018 é considerado um marco para o Grupo de Trabalho de Perus (GTP). Desde o início das suas atividades, a data registra a primeira identificação de uma das vítimas encontradas na vala clandestina do cemitério Dom Bosco em Perus, zona norte de São Paulo. Paulista de Votuporanga e dirigente do Movimento Revolucionário de Tiradentes, Dimas Antônio Casemiro foi morto aos 25 anos de idade por agentes da repressão política do regime militar. Sua identidade, após mais de quatro décadas desaparecido, foi confirmada.

A descoberta provém de um trabalho multidisciplinar do GTP em parceria com a International Commission on Missing Persons (ICMP). A entidade internacional, com sede administrativa em Haia, na Holanda, é responsável pelas análises genéticas realizadas em seu laboratório em Sarajevo, Bósnia. O primeiro lote enviado continha 100 amostras biológicas coletadas das ossadas, além de 77 amostras sanguíneas dos familiares. Elas foram levadas pessoalmente ao laboratório pelo coordenador científico do GTP, Samuel Ferreira, e por um representante dos familiares de desaparecidos políticos, Helder Nasser, em setembro passado.

Os resultados dos exames de DNA indicaram vínculo genético entre os restos mortais pertencentes a um dos casos com os familiares de Casemiro: uma irmã, um irmão e o filho, que perdeu o pai com três anos. O laudo genético foi entregue pessoalmente, em São Paulo, pelo diretor de Ciência e Tecnologia da ICMP, Thomas Parsons, para o coordenador científico do GTP e a equipe de peritos. Com o resultado, o próximo passo foi confirmar a identificação por meio de exames antropológicos, médico-legais e odontológicos e também por meio da compatibilidade com as informações ante-mortem registradas, como estatura, idade, dentição e trauma compatível com ação de projétil de arma de fogo. De acordo com o relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Casemiro foi morto entre 17 e 19 de abril de 1971 e o laudo necroscópico descreve quatro ferimentos causados por arma de fogo e atesta a morte por choque hemorrágico.

A intenção é, ainda este ano, entregar a segunda remessa com mais 200 amostras ósseas para análise genética. O grupo analisou 756 das 1.047 caixas que abrigam as ossadas, sendo que, em algumas, há ossaria de mais de uma pessoa. Além disso, foram coletadas amostras de sangue para exames de DNA de 33 famílias de desaparecidos políticos em 16 cidades do Brasil, havendo a necessidade de ainda reunir a amostra de mais sete famílias. 

O Grupo de Trabalho de Perus foi instituído no ano de 2014 com o objetivo de analisar os restos mortais encontrados nos anos 1990 em Perus. Acredita-se que as pessoas ali enterradas sejam desaparecidos políticos, vítimas da repressão durante a ditadura militar. O GTP é constituído por representantes da Universidade Federal de São Paulo, do Ministério dos Direitos Humanos, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo e da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Artigos relacionados:

LÍSIAS, Ricardo. The voice of the weak – characters and narrators of “redemocratization”. Artememoria Magazine, Princeton, issue 1, mar. 2018. Disponível em: <http://artememoria.org/#voice-weak-characters-narrators-redemocratization>. Acesso em: 23 abr. 2018.

LÍSIAS, Ricardo. A grande arte de desaparecer: Rubem Fonseca e os documentários do Ipês. ArtCultura, Uberlândia, v. 19, n. 35, p. 43-54, jul./dez. 2017. Disponível em: <http://www.seer.ufu.br/index.php/artcultura/article/view/41251>. Acesso em: 23 abr. 2018. 

LÍSIAS, Ricardo. Medicados e satisfeitos. Ars, v. 15, n. 29, p. 238–243, jan./abr. 2017. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-53202017000100239&lng=en&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 23 abr. 2018.

LÍSIAS, Ricardo. O que os fortes queriam? Uma análise de O que é isso, companheiro? e Os carbonários. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n.48, p. 229 -246, maio/ago. 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2316-40182016000200229&lng=en&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 23 abr. 2018.

LÍSIAS, Ricardo. Dez fragmentos sobre a literatura contemporânea no Brasil e na Argentina. Em: TELLES, Edson; SAFATLE, Vladimir Pinheiro (org.). O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, p. 319 – 328, 2010.

LÍSIAS, Ricardo. Capitulação e melancolia. Novos Estudos Cebrap. São Paulo, v. 76, p. 289 -293, nov. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002006000300018>. Acesso em: 24 abr. 2018.

LÍSIAS, Ricardo. Um autor em busca da grande tragédia. Revista USP, São Paulo, v. 58, p. 256-260, jun./ago. 2003. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/33866/36598>. Acesso em: 24 abr. 2018.

Créditos imagens ditadura:

STARLING, Heloisa Maria Murgel; ROTTA, Vera (org.). Direito à memória e à verdade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. 1 CD-ROM

Publicado em Edição 10
Terça, 13 Novembro 2018 10:38

Festa no céu, conflito na terra

Tradição, arte e ilegalidade marcam uma prática popular festiva, mas portadoras de riscos para o meio ambiente e comunidades

Valquíria Carnaúba

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Originalmente, um balão é definido como uma aeronave, mais leve que o ar, que flutua impulsionada pelo vento. Podendo ou não ter passageiros, divide-se em três tipos principais: balões de ar quente, balões a gás, balões de Rozier (híbridos, utiliza gases aquecidos e não aquecidos). É tido como o mais antigo veículo aéreo da história da humanidade - o primeiro voo controlado de um balão de ar quente ocorreu em Paris no ano de 1783.

Mais recentemente, a soltura de modelos movidos a tocha tornou-se uma tradição no Brasil em razão dos festejos juninos. Entretanto, a transformação de um veículo aéreo em uma atividade cultural separou, em 1998, os balonistas dos baloeiros perante a lei. A partir de uma abordagem antropológica, Erika Paula dos Santos, pesquisadora cuja dissertação de mestrado foi apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos, analisou as práticas e as relações vivenciadas por grupos que se autodenominam turmas de baloeiros atuantes na região metropolitana de São Paulo.

Segundo o Sindicato Nacional de Empresas Aeroviárias (SNEA), as turmas de baloeiros soltam no Brasil, em média, 100 mil balões por ano. Existem cerca de mil turmas na Grande São Paulo e outras mil no Rio de Janeiro, cada uma com aproximadamente 25 integrantes. As duas cidades são responsáveis por 60% do total de balões soltos no país. Os números, que expressam a consolidação de uma prática considerada arte e tradição da cultura popular, caminham lado a lado com crescimento do combate oficial à prática e sua ilegalidade.

De acordo com a pesquisadora, a realidade é que as autoridades, apoiadas no argumento dos danos materiais e ambientais que a atividade provoca, deparam-se com uma atividade que adquiriu o prestígio de lazer sério. “Sua intensificação e a dinâmica de organização e formação das turmas surgiu no início da década de 1980, com o que eles chamam de gigantismo, que é a confecção de balões mais elaborados e de grande dimensão”, discorre.

“Eu sou da época em que se soltava balão na pracinha e a polícia fazia a segurança. Por que hoje ela quer me prender?”

Expressão artística e social

Em 1982, o sociólogo estadunidense Robert Stebbins criou o conceito de lazer sério, baseado na observação de alguns comportamentos típicos entre os praticantes de atividades lúdicas, como perseverança, esforço, identificação, benefícios sociais e emocionais e carreira (lazer a partir do trabalho). Fica claro como esses eixos norteiam os baloeiros quando a arte é colocada como pilar central da atividade. Conforme relata Santos, os praticantes valorizam enormemente a técnica e acreditam poder alcançar a perfeição artística por meio dela. É em nome da estética que trabalham por meses e mobilizam grandes grupos.

“Em meio ao esforço, questionam a todo momento como pequenos pedaços de papéis de seda cortados em quadrados dão forma ao balão e criam imagens tão detalhadas que até parecem pinturas, ou como pequenos copinhos de papel com pedaços de velas dentro formam painéis de luz que ganham os céus”, complementa a pesquisadora.

Se é verdade que o fim da arte superior é libertar, a feitura dos balões atingiu seu objetivo, ao menos com o primo de Cristiano, um dos baloeiros entrevistados pela antropóloga. “João citou que o mesmo acontecera a outro dos membros de sua turma, que começou a abusar do uso de drogas a ponto de atrapalhar a sua vida pessoal e o desempenho da turma. A turma se reuniu e o chamou para uma conversa aconselhando-o a parar, pois, caso contrário, o expulsariam. O rapaz, então, se dedicou ao balão e se afastou do uso de drogas. Foi nesse contexto que ele se tornou um dos principais responsáveis pela produção de um dos balões mais representativos da história. Após descrever esse acontecimento João repetiu a frase de Cristiano: balão salva”, conta a pesquisadora.

Meio ambiente e segurança em xeque

Apesar do resgate do balão ser uma etapa importante nos rituais dos baloeiros, a ação ainda causa controvérsias entre os próprios praticantes e é uma das principais responsáveis pelo cerco legal que se forma em torno da atividade. “Para alguns deles, o processo ritualístico desse mundo termina na soltura, para outros esse processo só é finalizado após o resgate, e ainda há casos em que o resgate é o início do processo. No caso dos que arriscam a captura, um dos argumentos utilizados é a recuperação de material, importante devido ao alto custo de produção. Um balão de 20 metros, por exemplo, pode custar até R$ 16 mil. Se for bem confeccionado e não sofrer muitos prejuízos durante a queda ou resgate, ele pode ser lançado novamente várias vezes”, elucida.

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Os grupos reúnem-se ainda de madrugada para armarem os balões

Chama a atenção a preocupação de muitos outros com o resgate do balão como forma de evitar o risco de tragédias e incêndios que possam acontecer eventualmente. Segundo esses “caçadores”, quem o captura sabe como apagá-lo e dominá-lo, caso caia em um lugar que coloque vidas em risco. Entretanto, pelo resgate não ser consenso entre os praticantes, a soltura de balões é cada vez mais comum em sítios e chácaras, ou seja, locais afastados dos grandes centros urbanos, minimizando as chances de acidentes envolvendo pessoas.

Ainda que os riscos urbanos sejam minimizados, não excluem aqueles inerentes ao meio ambiente e ao tráfego aéreo. Quase sempre iluminados por buchas acionadas por botijões de gás, os balões podem cair em áreas de vegetação, causando danos sérios. Um dos casos mais recentes envolve um incêndio no Parque Estadual Juquery, em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, causado por um balão, que consumiu em torno de 10% da área de cerrado conservada na região metropolitana. Quando o perigo está no céu, pode significar a morte de muitos.

Sérgio Dazzi, piloto e instrutor de planador no aeroclube de Tatuí, interior do Estado de São Paulo, explica que um piloto de avião comercial, no exercício de sua função, se orienta por radares e dificilmente olha para o espaço aéreo. Em áreas terminais, a uma altitude de aproximadamente 15 mil pés (algo em torno de 4,5 mil metros), balões e aviões podem se encontrar de forma desastrosa.

“Já nos casos dos planadores e dos veí - culos de balonismo, compostos por cestas para a viagem de passageiros e a estrutura do maçarico, respeitam a um espaço aéreo delimitado (chamado box) de no máximo 300 metros de altitude, bem abaixo da altitude comum de naves civis. Inclusive, seus pilotos portam sempre rádios, por meio dos quais se comunicam em frequência livre (123,45 MHz), utilizada para contato com eventuais aeronaves próximas dos locais de voo”, explica Dazzi.

Enquanto o impasse se estendia, for - mou-se em 2012 a Associação Brasileira de Baloeiros Ecológicos (ABB), na zona leste da cidade de São Paulo, composta por baloei - ros interessados em dar continuidade ao seu hobby passando longe das restrições le - gais. Tais veículos não utilizam fogo em sua soltura, devem ser biodegradáveis e não po - dem conter nenhum tipo de material que danifique a natureza ou gere curtos-circui - tos. Ainda assim, podem provocar aciden - tes aéreos. Por isso, Santos é categórica em afirmar que a questão está longe de uma resolução.

Para ela, o atual conflito traz uma rique - za à pesquisa antropológica à medida que permite visualizar como se constroem essas práticas e as relações simbólicas. “Buscamos compreender como a atividade de construir, soltar e resgatar balões é articuladora de re - lações simbólicas e de práticas culturais nes - ses grupos, e como estabelece relações de conflito com a legislação vigente”, finaliza.

BALONISTAS E BALOEIROS

Os balonistas são praticantes de um esporte mundialmente reconhecido e regulamentado, que consiste no uso tripulado de uma aeronave sustentada por um balão de ar quente. No Brasil, o veículo deve ser matriculado junto à Agência Nacional da Aviação Civil (Anac), e o seu piloto deve portar licença, como no caso de aviões e helicóptero, que tem a brevê.

Os baloeiros constituem um grupo de indivíduos dedicados a fabricar, soltar e capturar balões, em geral feitos de forma rudimentar a partir de diversos materiais: folha de papel, gaiola de armação, cola, cordas e lonas. Trata-se de uma prática cultural tradicional e popular, mas repleta de riscos para os seres humanos e para o meio-ambiente, principalmente por seu potencial incendiário

UM SÍMBOLO DAS FESTAS JUNINAS

Aqui no Brasil, em tempos remotos, os balões lembravam, esteticamente, muito os de festas juninas, soltos para avisar a parentes e vizinhos que as festas estavam começando. Quanto à finalidade, cumpriam um papel semelhante às pipas no universo de adultos e crianças.

“Com o gigantismo, os artefatos estruturalmente simples, que mediam cerca de 80 cm2 , evoluíram para verdadeiros monumentos, variando de 10 a 120 metros. E, por serem mais complexos, envolvem muito mais pessoas em sua produção”, observa Erika Paula dos Santos. De acordo com seu estudo, os balões são produzidos, em quase todos os casos, por meio da organização de alguns indivíduos, denominados turma. “A atividade se estende ao grupo familiar, amigos e vizinhos, formando ciclos de relações baseadas em valores e significados específicos desse mundo, como compromisso, amizade e paixão. O processo, por vezes, leva meses ou até anos, dependendo do seu tamanho, do número e da disponibilidade dos integrantes do grupo”, relata Santos.

MEMÓRIA E TRADIÇÃO

Além da arte, a memória e a tradição são dois outros elementos fundamentais para entender como o balão adquiriu a importância atual como parte da cultura popular. De um lado, a memória, aqui entendida como as relações que o indivíduo mantém com seu contexto social, revela baloeiros que associam a prática a lembranças de infância e adolescência. De outro, a tradição como justificativa e argumento contra sua recente proibição.

“A memória dos mortos e dos mais velhos é importante e respeitada nesse mundo. Há uma grande consideração pelas narrativas e, nos encontros entre os baloeiros, é uma honra conversar com um praticante mais antigo”, observa Erika Paula dos Santos.

E continua: “Em torno da questão da memória individual, constrói-se a memória coletiva: os locais de encontro se transformam em espaços de sociabilidade e interação, onde se presencia a "contação" de histórias como algo para dar sentido à vida desses indivíduos, a exemplo dos relatos resgatados em exibições de vídeos de balões nos telões dos bares ou nas festas da turma da padaria”.

Trata-se de uma construção cultural em que se entrelaçam tradição e quebra de paradigmas. “A presença de mulher na bancada não é algo muito corriqueiro. Tatiana, uma das poucas mulheres que conheci do meio, relata já ter sofrido distinção devido ao gênero, mas geralmente é bem aceita na turma. Para ela, a questão de gênero pouco influencia em sua atuação na bancada; as mulheres são, inclusive, elogiadas por serem consideradas cautelosas e mais caprichosas”, discorre Santos.

Dissertação relacionada:

SANTOS, Erika Paula. Festa no céu, conflito na terra: um estudo das práticas de turmas de "baloeiros" na cidade de São Paulo. 2016. 102 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos, 2016

Artigo relacionado:

SANTOS, Erika Paula. O que a terra proíbe o céu agradece: um estudo da prática dos baloeiros. Pensata, v. 5, n. 1, p. 89, mar. 2016. Disponível em: <http://www2.unifesp.br/revistas/pensata/>. Acesso em: 20 jun. 2018.

Publicado em Edição 10
Segunda, 12 Novembro 2018 12:57

Sons da reintegração

Exploração do universo musical afeta percepções subjetivas e pode trazer o real sentido de viver em família

José Luiz Guerra

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Imagem: Pusteblume0815 Pixabay

Dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), vinculado ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), indicam que cerca de 8.400 crianças e adolescentes estão cadastradas no banco de dados do órgão para adoção. Antes do processo de adoção, no entanto, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) indica que é necessária a tentativa de reintegração familiar, ou seja, tentar reatar os laços com a família de origem, pai e mãe, ou com a família extensa, como tios e avós.

Entretanto, de que forma uma família na qual os filhos estão separados dos pais por algum motivo poderia ser novamente reestruturada? Foi esse o foco da tese de doutorado de Ana Paula Cascarani, defendida na Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) - Campus São Paulo, sob orientação de Ana Lucia de Moraes Horta.

Inicialmente, Cascarani pretendia desenvolver sua tese voltada para a adoção internacional de crianças, tema com o qual já trabalhava. “Fui convidada para fazer um trabalho com crianças brasileiras que seriam adotadas por franceses. E como eles não falavam a mesma língua e por eu ter uma formação em Musicoterapia, utilizei a música nesse processo do estágio de convivência, por achar que seria um recurso muito interessante para propiciar confiança e abrir canal de comunicação entre eles”.

No entanto, outro convite, feito pela equipe do abrigo no qual estavam essas crianças, a fez mudar de ideia. “Estava convicta em fazer uma tese sobre adoção internacional e a psicóloga do abrigo veio com uma contraproposta para estudar reintegração familiar, por ser a primeira condição, segundo o ECA, para conviver em família”, explica.

Dessa forma, já participaram do estudo três famílias em processo de reintegração e uma família pós reintegrada, com crianças vítimas de maus tratos e abandono. As estratégias utilizadas para a coleta dos dados foram a observação participante, a entrevista mediada pelo fazer musical e a entrevista semiestruturada realizada também com a psicóloga da instituição, na qualidade de informante da experiência. A pesquisa foi elaborada a partir das premissas do Interacionismo Simbólico e dos pressupostos analíticos da Teoria Fundamentada nos Dados buscando a construção de um modelo teórico.

Por que o fazer musical?

Cascarani explica que a música e o som projetados nos instrumentos musicais podem expressar algo desconhecido e algo mais do que o indivíduo quer dizer. “O instrumento musical pode ser considerado um material projetivo, um prolongamento do corpo, que, ao ser tocado por alguém, ganha vida. A junção da sonoridade do instrumento com a musicalidade do indivíduo compõe uma nova obra”. O resultado, no entanto, não costuma ser o de uma música conhecida ou uma trilha musicoterapia 74 Unifesp EntreTesesjulho 2018 sonora programada. “É uma musicalidade que vai se formando na hora, naquele momento, fazendo com que a comunicação, a criatividade e a interação aconteçam de forma natural e espontânea”, completa.

A experiência com as famílias

Durante a pesquisa, foram entrevistadas quatro famílias indicadas pela instituição, situada na Zona Sul de São Paulo, na qual as crianças estavam abrigadas. Devido à impossibilidade ética de identificação dos nomes das pessoas entrevistadas, a pesquisadora as nomeou da seguinte forma: Família Clave de Sol, formada pela tia, que é irmã do pai, e por três crianças; Família Clave de Fá, composta pela mãe e por sete crianças; Família Clave de Dó, da qual participaram o pai, sua namorada e o filho; Família Pentagrama, já reintegrada, da qual foram entrevistados a avó materna, o tio, irmão biológico da mãe, além de duas crianças.

Nas entrevistas, Cascarani utilizou instrumentos de percussão, como tambor e pandeiro, e outros harmônicos e melódicos, como violão e teclado, que, na sua avaliação, chamariam menos a atenção das crianças. Entretanto, a pesquisadora se surpreendeu ao ver que alguns dos entrevistados optaram por usar os harmônicos. “Os instrumentos musicais de percussão levam o indivíduo a acompanhar uma música que já esteja sendo tocada por meio das ‘batidas das mãos’, enquanto que o violão e o teclado requerem que o indivíduo toque ‘corretamente’ para ser compreendido por todos, porque irá liderar um movimento e convidar os demais para acompanhá-lo”, diz. Ela explica que, por serem instrumentos mais complexos, a pessoa sente uma necessidade de ‘tocar bonito’. “Isso é natural e importante, porque a busca pela manifestação da estética pode revelar crenças, valores e aspectos culturais, porém, quando utilizamos a expressão musical para ampliar a comunicação e interação, o foco está na manifestação da energia de vida, do movimento, da criação de conceitos a partir da experiência e não no 'tocar bonito'", completa.

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Ana Paula Cascarani, autora da pesquisa

Ao longo das entrevistas, Cascarani percebeu, por meio dos sons emitidos pelos instrumentos de percussão, a ideia de algo em construção. “Começaram a pegar os instrumentos e bater como se fossem um martelo e a família toda acompanhou, como se fosse uma obra”. O que a surpreendeu, no entanto, foram as músicas escolhidas ao apertarem os botões do teclado que reproduzem sons que estavam salvos na memória. “Não induzi a nada. Eles apertaram o botão e disseram: É essa! E escolheram canções como Noite Feliz e Torre de Londres, enquanto na percussão eles faziam um pulso como se fosse uma construção”.

Em outras duas famílias, foram escolhidas a Marcha Nupcial, Noite Feliz, La Cucaracha e canções de ninar. A pesquisadora explica que esse fato traz à tona o que as famílias sofreram antes e durante o processo de reintegração e suas expectativas. “O abandono não é só da criança, mas envolve todo o sistema familiar, além de ser recursivo”, pontua.

Ao final dos encontros, Cascarani convidou as famílias para compor o tema de cada uma delas, com suas próprias palavras e escolhendo seus ritmos de preferência. Três delas compuseram funk e a outra um rap. “A composição vem e fecha com um ideal, uma expectativa: sair dali, formar uma família sólida no ponto de vista deles. E o que precisa para ser sólida? Precisa ter mais churrasco, precisa ter salada... a fome, a comida, a promessa de que ninguém vai apanhar... tudo isso veio nas letras das músicas”, ressalta ela.

Por fim, Cascarani conclui que, para as famílias entrevistadas, o desejo de “ser” surge como um ideal. "Quando perguntei a eles o que significava ‘estar em família’, eles disseram que é ter festa, ganhar presente, muita alegria e felicidade, casa grande e bonita. Ou seja, na experiência deles, parece que para ‘estar em família' é preciso ‘ter’ e ‘ser’ e se tem e do que se é. Eu fiquei com uma curiosidade, talvez para um próximo trabalho, de compreender se há diferença entre o ‘estar presente’ e o ‘ser presença’ e qual desses é necessário na experiência deles, para se chegar no ideal de ser a ‘família Doriana’”, finaliza.

Tese relacionada:

CASCARANI, Ana Paula. Tentando reconstruir o que foi quebrado: a família compondo a trilha sonora de seu processo de reintegração. 2015. 121f. Tese (Doutorado em Ciências) - Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo. São Paulo. 2015.

Artigo Relacionado:

CASCARANI, Ana Paula. Família compondo a trilha sonora de seu processo de reintegração: modelo teórico. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 71, n. 3, jun. 2018. Disponível em: www.scielo.br/pdf/reben/v715s3/pt_0034-7167-reben-71-s3-1298.pdf. Acesso em: 22 jun. 2018

Publicado em Edição 10
Segunda, 12 Novembro 2018 12:35

Canabinoides contra o alcoolismo

Componentes encontrados na maconha inibem resposta comportamental provocada pelo uso repetido de álcool, indicam estudos pré-clínicos

José Luiz Guerra

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Imagem: Alex Reipert

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Um estudo, realizado pela Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, identificou que o tetrahidrocanabinol (THC), componente responsável por provocar os efeitos euforizantes da maconha, inibiu a expressão de um comportamento relacionado ao consumo de álcool. Publicado na revista Alcohol, o artigo é um recorte da tese de doutorado de Renato Filev, do Laboratório de Neurobiologia do Departamento de Fisiologia da instituição.

Durante a pesquisa, 84 camundongos foram utilizados, sendo que 40 foram submetidos à exposição diária ao álcool em concentração de 2,5g/kg, o que aumentou a atividade locomotora, enquanto outros 44 receberam apenas solução salina. Após 12 dias de administração das soluções, os animais expostos ao álcool foram tratados com os seguintes componentes: canabidiol (CBD) à 2,5mg/kg, tetrahidrocanabinol (THC) à 2,5mg/kg, CBD + THC, na razão 1/1, e “veículo” (solução utilizada para diluição dos componentes da maconha) por 4 dias, sem acesso ao álcool durante o período. O grupo controle não teve contato com canabinoides ao longo do processo.

Um dia depois da administração da última dose de canabinoides, todos os animais, inclusive os do grupo controle, receberam administração de álcool a 2,0 g/kg, visando avaliar a expressão da sensibilização locomotora. Os ratos tratados exclusivamente com THC ou com a associação CBD + THC apresentaram menor atividade locomotora na expressão, em comparação com o grupo que recebeu somente CBD ou “veículo”. Os grupos tratados com THC apresentaram índices de sensibilização equivalentes ao controle. Nenhum efeito foi observado com o tratamento feito somente com CBD.

De acordo com Filev, os resultados apontam que o uso do THC pode ser um aliado no tratamento contra o consumo do álcool. “Nota-se que a sensibilização é duradoura e permanece mesmo após retirar o contato com o álcool. Esse efeito pode ser considerado um dos responsáveis pela repetição do consumo, sendo um comportamento relevante, sobretudo para aqueles que fazem uso problemático”, explica.

O pesquisador relata ainda que os achados apontam para a necessidade de investigar as propriedades dos canabinoides em usuários que apresentam problemas em decorrência do consumo dessas substâncias.

Confirmação de resultados preliminares

Esses resultados corroboram com uma hipótese levantada pelo próprio grupo do Laboratório de Neurobiologia da EPM/Unifesp em artigo produzido em 2013. Na ocasião, os pesquisadores identificaram que houve alteração na produção de receptores canabinoides durante a abstinência de álcool em roedores, indicando que o sistema endocanabinoide, presente em todos os mamíferos e responsável pela regulação de vários neurotransmissores, tais como a serotonina e a dopamina, poderia ser um importante alvo terapêutico para o alcoolismo.

Artigos relacionados

FILEV, Renato; ENGELKE, Douglas S.; SILVEIRA, Dartiu X. da; MELLO, Luiz E.; Santos Júnior, Jair G. THC inhibits the expression of ethanol-induced locomotor sensitization in mice. Alcohol, v. 65, p. 31-35, dez. 2017. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0741832916302877?via%3Dihub>. Acesso em: 27 fev. 2018.

Publicado em Edição 10