MemoRef, Licenciatura Indígena e cursinhos populares integram conjunto de ações de extensão intercampi voltadas à promoção de direitos humanos, imigração e interculturalidade

Texto: José Luiz Guerra e Paula Garcia

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(Fotografia: Alex Reipert)

A Coordenadoria de Direitos Humanos (CDH/Unifesp) concentra programas de extensão institucionais voltados especificamente à promoção da cidadania de jovens e idosos, refugiados e indígenas. Aqui falamos dos cursinhos populares, da Universidade Aberta para as Pessoas Idosas (Uapi/Unifesp), do Memorial Digital do Refugiado (MemoRef), da Licenciatura Indígena (em fase de estruturação) e da Cátedra Kaapora. Conforme explica Débora Galvani, docente da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos, a meta da coordenadoria consiste em acompanhar e cuidar das ações, intercampi e interdisciplinares, que dizem respeito a ampliar o acesso à universidade por meio da promoção dos direitos humanos. “Trata-se de abraçar a questão do envelhecimento, o acesso das pessoas idosas à universidade e as práticas intergeracionais (no caso das Uapis), ou valorizar as iniciativas de ampliação de acesso à educação para uma população que, no geral, não consegue acessar (no caso dos cursinhos”, elucida.

Universidade Aberta para as Pessoas Idosas (Uapi): nunca é tarde para aprender

“Hoje eu sinto a essência da vida, coisa que eu não sentia antes”. A frase de Esther de Carvalho, 83 anos, estudante da unidade de São Paulo da Universidade Aberta para as Pessoas Idosas (Uapi/Unifesp), resume a importância e o impacto do projeto, tanto para a universidade quanto para as pessoas que são beneficiadas por ele.

Criada em agosto de 1999, tem como propósitos principais a reciclagem do conhecimento, a socialização, a inserção social e atualização, destacando-se como uma das iniciativas pioneiras no Brasil na área. As aulas são voltadas para maiores de 60 anos, seguindo a classificação de pessoas idosas da Organização Mundial da Saúde, e cada um dos projetos oferece a seus estudantes aulas sobre diversos temas- artes, curso de línguas, direitos humanos e inclusão digital. 

Com o processo de expansão da universidade, o curso também se expandiu, e atualmente conta com cinco unidades: São Paulo, Baixada Santista, Diadema, Embu das Artes e Santo Amaro. O próximo passo, que já está sendo discutido entre os coordenadores das Uapis e a Coordenadoria de Direitos Humanos, é a criação do núcleo das universidades abertas à pessoa idosa, o que, na visão geral, contribuirá para garantir a continuidade do trabalho realizado.

Primeira unidade em funcionamento, a Uapi/Unifesp do Campus São Paulo existe desde 1999. Nesses 20 anos, já recebeu mais de 1.500 idosos. Coordenada por Claudia Ajzen, que participa das atividades desde o início, conta com aulas todas as terças e quintas-feiras à tarde, contemplando, anualmente, 80 discentes. Devido à grande procura, é necessário que o(a) candidato(a) entre em uma lista de espera para a matrícula. O curso tem duração de um ano.

Na Baixada Santista, a Uapi/Unifesp funciona desde 2006 - um dos primeiros projetos de extensão do campus, e já beneficiou cerca de 1.300 idosos. Anualmente são abertas duas turmas de 50 pessoas cada, com aulas às sextas-feiras, no período da tarde. Durante o curso, além das atividades regulares oferecidas, os estudantes podem se matricular em algumas disciplinas dos cursos de graduação que oferecem vagas específicas para a Uapi/Unifesp, e também de participarem de outros projetos de extensão oferecidos pelo campus. O projeto é coordenado por Ricardo Guerra, docente do curso de Educação Física do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp).

Além desses, são ofertadas 50 vagas no Campus Diadema e 30 vagas na Unidade de Extensão de Embu das Artes. Na Unidade de Extensão de Santo Amaro, as atividades focam em práticas contemplativas e inclusão digital.

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A coordenadora da Uapi/Unifesp em São Paulo, Claudia Ajzen, ministrando aula para os estudantes da unidade (Fotografia: Alex Reipert)

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Grupo de estudantes da Uapi/Unifesp na Baixada Santista apresentando trabalho (Fotografia: Alex Reipert)


Cursinhos comunitários – Um empurrãozinho para a vida acadêmica

Os cursinhos comunitários são iniciativas organizadas por estudantes e servidores da Unifesp que visam auxiliar os egressos do ensino fundamental e médio a se prepararem para concursos de vestibulinho e vestibular de acesso a escolas técnicas estaduais, institutos federais e universidades. 

Dispostos a promover a inserção social desses jovens e adultos, muitos com defasagem em seu aprendizado, seus professores trabalham com atividades que estimulam a formação cultural, coletiva e política. 

Alguns desses cursinhos chegam a garantir um índice de 30% de aprovação nos vestibulares das principais universidades.

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Estudantes do Cursinho Popular Pimentas Unifesp (CPPU) / Imagem: divulgação em rede social

Cursinho Pré-vestibular Jeannine Aboulafia (Cuja)

  • Campus: São Paulo
  • Fundado em: 2001
  • Vagas ofertadas: 168
  • Público-alvo: Estudantes e egressos de escolas públicas ou de baixa renda
  • Inscrições: Início de dezembro
  • Processo seletivo: Avaliação socioeconômica e prova de conhecimentos gerais
  • Custo: O curso é gratuito, com uma taxa de inscrição (R$ 20) e uma de matrícula (R$ 30)

www.cujaunifesp.com

www.instagram.com/cuja.unifesp

www.facebook.com/cujaunifesp

Cursinho Popular Cardume

  • Campus: Baixada Santista
  • Fundado em: 2012
  • Vagas ofertadas: 120
  • Público-alvo: Estudantes e egressos de escolas públicas
  • Inscrições: Início de fevereiro
  • Processo seletivo: Avaliação socioeconômica
  • Custo: O curso é totalmente gratuito

 

www.unifesp.br/campus/san7/extensao/cursinho-poupular-cardume

www.facebook.com/cursinhocardume/

www.instagram.com/cardumeunifesp/

Cursinho Popular Pimentas Unifesp

  • Campus: Guarulhos
  • Fundado em: 2009
  • Vagas ofertadas: 320
  • Público-alvo: Estudantes e egressos de escolas públicas
  • Inscrições: Em janeiro
  • Processo seletivo: Por meio da análise de uma redação
  • Custo: O curso é gratuito, com uma taxa de inscrição (R$ 10)

cursinhounifesp-guarulhos.blogspot.com/

www.facebook.com/cursinhounifespguarulhos/

Articula Cursinhos - Cursinho Integra e Cursinho do GEB

  • Campus: Diadema
  • Fundado em: 2017
  • Vagas ofertadas: 60
  • Público-alvo: Estudantes e egressos do ensino médio
  • Inscrições: Início de fevereiro
  • Processo seletivo: Inscrição on-line
  • Custo: O curso é gratuito, com uma taxa de matrícula (R$ 40)

www.facebook.com/articulacursinhos/

MemoRef - Apoio aos que buscam uma nova vida

Dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) apontam que o número de refugiados no mundo cresceu 50% nos últimos 10 anos, alcançando 25,4 milhões de pessoas nessa situação. Essa crescente movimentação social demanda aos países que os recebem uma série de ações de acolhimento. 

Uma dessas ações surgiu em 2015, pelas mãos de Marina Reinoldes, graduada em Letras pela Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos. Quando discente, ela ministrava voluntariamente aulas na ONG Oásis Solidário, na mesquita do Pari, e resolveu convidar outros colegas de curso para ajudarem. “Como a procura foi grande, decidi tentar levar o projeto para a EFLCH/Unifesp e começamos a organizá-lo”, explica. 

O programa possui três eixos principais: ações culturais que integram a comunidade acadêmica ao entorno, aulas de língua e cultura brasileira para refugiados, alimentação do memorial digital do refugiado, contando por meio da história oral o relato de vida dos estudantes. Além do apoio institucional, que ocorre por meio da CDH/Unifesp, da qual o programa faz parte, atualmente, o projeto tem apoio da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, da ACNUR e do Conselho Municipal de Assistência Social de Guarulhos. Em 2018, expandiu suas atividades para o Campus São Paulo da Unifesp e recebeu o Selo de Direitos Humanos e Diversidade, concedido pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo (SMDHC/SP), concedido a empresas e organizações que promovem políticas de inclusão de diferentes segmentos da população no mercado de trabalho.

O ensino da língua portuguesa também é oferecido por meio de um curso oferecido pela própria CDH/Unifesp, voltado para a inserção de estudantes estrangeiros em cursos de graduação da universidade, por meio do Programa Estudante Convênio de Graduação (PECG). “O curso é pioneiro no Estado de São Paulo e além de ser um curso de português, é um programa de acolhimento, já que muitos desses estudantes passam por situações de racismo e xenofobia na sociedade e nós montamos esse programa já sabendo de tudo isso e pensando em estratégias de acolhimento,” explica Galvani.

Outra ação ligada ao apoio aos refugiados é o Curso de Saúde Mental, Imigração e Interculturalidade. Nascido como um curso de curta duração, em três anos tornou-se um curso de especialização, com oferta de trinta vagas anuais, mas com uma procura bem maior do que isso. “Esse ano tivemos cerca de 500 inscrições no curso. Se tivéssemos mais estrutura, provavelmente teríamos chance de ampliá-lo”, afirma Galvani, uma das coordenadoras do curso. Para ela, a atividade é importante, já que o tema ainda é pouco discutido nas universidades. “A gente percebe uma demanda enorme de gente que está atendendo nos serviços de saúde, assistência e educação, em ONGs, com pouca formação em relação às demandas dos imigrantes”, completa.

www.facebook.com/memorialdorefugiado/
 

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Turma de estudantes do MemoRef (Fotografia: José Luiz Guerra)

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Um dos materiais didáticos produzidos pela equipe do MemoRef (Fotografia: José Luiz Guerra)

Licenciatura indígena - Espaço para discussão sobre saberes dos povos indígenas e quilombolas

Um espaço para propor formas de troca e diálogos com grupos tradicionais, populares, não hegemônicos e não ocidentais. Com essa missão, a Cátedra Kaapora foi instalada na Unifesp em 2014. Desde então, foram realizadas inúmeras atividades, com o intuito de passar os ensinamentos relativos às culturas indígenas e quilombolas, geralmente contadas pelos próprios membros dessas comunidades, aos estudantes da Unifesp. 

Coube também à cátedra e à Coordenadoria de Direitos Humanos atuar no apoio ao desenvolvimento da licenciatura indígena. A partir de uma demanda do Fórum de Professores Indígenas do Estado de São Paulo (Fapisp) e do Comitê Interaldeias de São Paulo, a Unifesp se mobilizou para pensar em estratégias de apoio à formação na área, diante da impossibilidade imediata de criar uma licenciatura. “Quando a gente recebe essa demanda, a Cátedra Kaapora é convidada a nos ajudar na discussão e no entendimento e a demanda deles é bastante específica, que é de conteúdo e perspectiva de ensino, como a gente cria uma forma de produção de conhecimento atrelada às aldeias, à demanda das escolas indígenas, e também uma demanda dos professores”, diz Galvani. 

E pensar em licenciatura indígena não se restringe apenas ao currículo, mas às características desse público, alternando atividades na universidade e nas aldeias, situadas na região de Parelheiros, extremo sul de São Paulo, permitindo a manutenção das tradições indígenas. “Tomamos todos os cuidados com alojamento, com as crianças. Já que as famílias não podem se separar das mães, precisa de espaço para manter as suas práticas, como a alimentação, a reza, o fumo, a presença do Pajé, se alguém adoece... são vários elementos e a concepção do curso precisa levar em conta tudo isso”, completa a coordenadora da CDH/Unifesp.

Entreteses024 Atividade de construção do projeto político pedagógico PPP

Atividade de construção do Projeto Político-Pedagógico da Licenciatura Indígena

Entreteses023 Coordenadores do projeto e professores indigenas

Coordenadores do projeto de Licenciatura Indígena da Unifesp e professores indígenas

CAAF/Unifesp consolida modelo de investigação sobre violação de direitos humanos no Brasil

O Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF/Unifesp) tem desenvolvido, durante seus cinco anos de existência, projetos importantes com foco na defesa dos direitos humanos. Os dois principais são a pesquisa sobre os Crimes de Maio de 2006, que investigou os episódios de violência de Estado a partir das execuções ocorridas na região da Baixada Santista há 12 anos, e o Grupo de Trabalho Perus (GTP), instituído em 2014 a partir de um acordo de cooperação técnica entre as Secretarias Nacional e Municipal de Direitos Humanos e a Unifesp, com a finalidade de analisar os restos mortais encontrados em 1990 no local que ficou conhecido como vala clandestina de Perus, no Cemitério Dom Bosco, na zona norte de São Paulo.

Dois cursos, vinculados à Coordenadoria de Direitos Humanos da Proec/Unifesp, decorrem da consolidação do órgão: o curso de especialização em Antropologia Forense e Direitos Humanos, criado em 2017, e o curso de especialização em Direitos Humanos e Lutas Sociais. A especialização em Antropologia Forense, fruto de uma parceria do centro com a Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) do Governo Federal e do apoio da Secretaria de Segurança Pública Nacional (Senasp). Já a especialização em Direitos Humanos e Lutas Sociais busca articular os saberes emergentes das lutas com a produção acadêmica, objetivando qualificar a trajetória e a atuação das várias militâncias e ativismos em direitos humanos.

www.facebook.com/caafunifesp01/

 
Publicado em Edição 12
Terça, 17 Dezembro 2019 15:17

Sou mais importante do que pensam...

Você! É você mesmo! Aproxime-se, vamos conversar. Aliás, contar histórias e dialogar sobre elas são dois momentos dos quais gosto tanto, desde que, lógico, envolvam você e a universidade pública. É nessas ocasiões que tenho a oportunidade de trazer o conhecimento popular e o conhecimento científico para o mesmo espaço, fazendo da troca de saberes o principal fermento para a produção acadêmica brasileira. Eu e meus irmãos, o ensino e a pesquisa, somos, inclusive, inseparáveis. Tal união está até oficializada, há mais de 30 anos, no artigo 207 da Constituição da República Federativa do Brasil, de modo que nunca nos dissociássemos, justamente para levar o melhor da educação superior pública a você, que me lê agora.

Provavelmente você ouviu falar de mim. Pelo menos, deveria. Por alguns, sou conhecida como filantropia; por outros, como assistência social. No entanto, não é apenas isso. É comigo que a universidade promove inovação social, algo que muda e muito a sua vida. Inovação social, digamos, é aquele conceito moderno – mais efetivo, eficiente, justo – que resume a lacuna entre os problemas que enfrentamos e as soluções que oferecemos. E é desse universo que nascem novos modelos benéficos à população, como economia solidária, empreendedorismo social, gestão comum de bens e terceiro setor – este último termo, com certeza, você já o leu por aí, e é a partir dele que eu firmo parcerias para que essas práticas o atinjam.

Acredito que deu para notar certas características minhas, mas quero que saiba que sou também exigente. Lá atrás, no ano de 1999, as instituições públicas de ensino superior se reuniram para decidir em quais áreas do conhecimento seria permitido que se registrassem cursos, projetos, programas, eventos e prestação de serviços para atender a todos, do norte ao sul do país. Essas ações, portanto, devem estar bem alinhadas com educação, saúde, meio ambiente, comunicação, cultura, direitos humanos, tecnologia e trabalho.

O interessante é que, por conta do envolvimento com essas temáticas, as propostas acabam oferecendo não só finalidades distintas, mas alcançam também diferentes públicos. Desde a criação de jogos de tabuleiro para estimular o aprendizado sobre doenças infecciosas até o desenvolvimento de unidades de software que fornecem soluções para o fluxo de trabalho em organizações sociais sem fins lucrativos. A promoção de atividades e a prestação de serviços para idosos, pacientes com fibromialgia, refugiados, travestis e transexuais. Pode surgir da intenção de um grupo em buscar partes da história e da memória do país por meio da identificação de mortos e desaparecidos políticos ou pode surgir do propósito de outro em mostrar a brasilidade e a importância comunitária por meio das ondas sonoras de uma rádio escola. Minha missão é simples e, ao mesmo tempo, complexa: proporcionar respostas às demandas da sociedade.

Aqui, na Unifesp, mantenho 43 programas e 179 projetos. Sou inspiração para tantas atividades que você nem sabe que estão sob minha responsabilidade. A formação, por exemplo, de cerca de 1.400 residentes médicos e multiprofissionais que auxiliam no atendimento dos milhares de pacientes que adentram o Hospital São Paulo, reconhecido como hospital universitário, e seus ambulatórios. A prática empresarial e o empreendedorismo, temas trabalhados pelas oito empresas juniores que fortalecem o relacionamento dos estudantes com o mercado profissional. Existem ainda os observatórios, espaços de articulação democrática capazes de contribuir para o monitoramento e a transformação da realidade.

Normalmente não estou prevista nos cálculos das universidades públicas – assunto tratado por Naomar de Almeida Filho e que apresento mais adiante. A situação está mudando, mas as verbas orçamentárias são majoritariamente utilizadas no ensino, enquanto os recursos para pesquisa advêm das agências públicas de fomento. E eu, onde fico? Continuo ajudando a produzir parte da transformação social que, direta ou indiretamente, atinge você. Então, percebeu o quão sou importante?

Se não me conhecia, prazer. Eu sou a extensão universitária.

Texto: Juliana Narimatsu e Valquíria Carnaúba

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Publicado em Edição 12
Terça, 17 Dezembro 2019 10:33

Perfis

Muito mais do que o simples contorno da lateral de um rosto, o perfil é uma oportunidade de conhecermos as pessoas a fundo. Sejam tímidas ou extrovertidas, novas ou idosas, sejam próximas ou distantes, todas possuem uma história para contar e, apesar de aparentemente ser comum, o relato de vida desses indivíduos é único e, por isso, significativo. Brenda Barbosa, Gustavo Leonel e Vanessa Gonçalves nos ofereceram essa chance: a de escutarmos suas palavras por meio da literatura, identificarmos quem são e entendermos suas transformações por meio da extensão da Unifesp

Texto: Juliana Narimatsu

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(Fotografia: Alex Reipert)

A escola de Brenda

Do sonho de costureira para mestranda na Unifesp, jovem se dedica a trazer a educação pública e popular de qualidade aos seus pares

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(Fotografia: Alex Reipert)

“Lembrar sempre de sonhar, de alargar os horizontes e de agir para que aconteça.” Brenda é assim. Aos 26 anos, faz o que muitos apenas pensam. Sua aparição na Unifesp se inicia na época da graduação, quando não se acreditava que uma jovem negra, da periferia do Grajaú, em São Paulo, poderia cursar o ensino superior, mais ainda em uma universidade pública. Brenda não só se apropriou do espaço educacional, tornando-se uma estudante assídua, mas assumiu o papel de agente transformadora, inspirada em uns e estimulando outros a se envolver em ações coletivas.

Na verdade, tal envolvimento vem de antes. O episódio se deu no ensino fundamental II. Brenda observou que, fora ela, outros coleguinhas de diferentes turmas chegavam cedo na escola e ficavam tediosos até a aula começar. Decidiu levar o problema para a diretora trazendo logo uma solução: liberar os brinquedos do recreio. “Eu me liguei que, além de perceber a situação, é possível mudá-la”.

E lá foi Brenda preencher o resto do dia com atividades extracurriculares, mesmo que não organizadas pela escola. Nesses casos, cabia aos próprios estudantes a organização e execução. Participou dos programas de capacitação para desenvolvimento de projetos sociais – um promovido pela ONG Labor e outro pelo Aprendiz Comgás –, aperfeiçoando movimentos culturais oferecidos pela própria escola, voluntariou-se como monitora da biblioteca, idealizou a formação de um grêmio estudantil para dar continuidade às ações de extensão e, no fim do ensino médio, planejou um grupo de estudos preparatórios para o vestibular. Conseguiu ainda reservar um tempo para uma partida de futebol, levando o time Vai ou Racha – Parte II para a final do campeonato interclasses. 

Fato é que não se via a escola sem Brenda. Nem Brenda sem a escola. Mas quem é Brenda Barbosa da Silva? Filha de pernambucanos, a mãe, vendedora de doces, e o pai, laminador. Libriana, caçula da família, tem certa facilidade com trabalhos manuais. Seu desejo na juventude, inclusive, era de ser costureira. Aos 13, para ajudar nas despesas de casa, arranjou um bico na linha de confecção de bolsas de uma fábrica. Cinco centavos por cada arremate. Poderia continuar ali. Preferiu, no entanto, encontrar um emprego formal entregando seu currículo como aprendiz de porta em porta. Num mundo em que a realidade pode limitar os sonhos, o melhor para Brenda era fazer acontecer. E, apesar da rotina exaustiva, não abriu mão dos estudos.

Entendeu só depois que sua vivência foi a chave para o ensino superior. Visualizou que o Serviço Social era a oportunidade de profissionalizar suas iniciativas e colocar outras em prática. Na sequência do diploma de graduação da Unifesp, engatilhou um mestrado na USP Leste. A energia de caloura perdurou durante todo o curso, impulsionando-a a complementar sua formação com projetos de extensão: foi bolsista na tutoria do PET Educação Popular e, dali, fez parte da criação do cursinho pré-vestibular da Baixada Santista, o Cardume, sendo ainda professora voluntária de Redação. Mas Brenda não se deu por satisfeita.

Foi com tal talento sensitivo, somado à característica própria de identificar aspectos inesperados em situações esperadas, que Brenda decidiu fazer um novo mestrado, dessa vez na Unifesp. Ao contribuir com o trabalho de tutora no Projeto de Desenvolvimento Acadêmico Abdias Nascimento, cursinho preparatório para a pós-graduação, notou as dificuldades da primeira turma. Da elaboração do projeto de pesquisa ao modelo hierarquizado do processo de ingresso. O sininho do Serviço Social a despertou para continuar analisando o contexto educacional. “Sem romantizar, tive que apanhar, mas cresci muito. Não acredito que é preciso sofrer para aprender. Por isso, tenho um senso forte de responsabilidade e quero antecipar e colaborar para que novas estratégias possibilitem que outras Brendas apareçam por aí”.

A história de Gustavo

Muito mais do que aprender a partir da realidade do outro, é perceber que também podemos fazer mais por ele

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(Fotografia: Alex Reipert)

Você, agora, é chamado pelo nome de Edmond Dantès. E vive em uma prisão, onde há boatos que ninguém conseguiu escapar. Mas sua liberdade e bondade escaparam por suas mãos após ser condenado por um crime que não cometeu. Como lidar com tal destino? Difícil resposta! Talvez você já a sabe. Tem conhecimento do norte que o marinheiro de Alexandre Dumas, em O Conde de Monte Cristo, decidiu se guiar. A literatura nos oferece essa oportunidade, a de navegar por diferentes mares, de chegar a lugares nunca desbravados e aprender. Ok, partiremos para uma outra história, desconhecida, mas possível de ser comum.

Você escolheu ser Derfel Cadarn, mas não o guerreiro leal de rei Arthur, apenas apropriou-se das características do personagem para trazer para os dias atuais. É uma pessoa tímida, monossilábica de vez em quando, calada na maioria das vezes, mas possui um sorriso cativante. Busca refúgio nos livros e na escrita. Gosta de diários. Gosta de pinturas. Admira Monet e Van Gogh e até cogitou cursar Artes na graduação. No entanto, por conta da facilidade com os números, optou por fazer Ciências Contábeis na Unifesp.

Você é um homem trans. A notícia sobre seu ingresso no ensino superior trouxe uma mistura de alegria e preocupação. Sinceramente, mais preocupação. Você não queria frequentar um novo ambiente, ainda mais universitário, pois estava no começo da sua transição. Mas resolveu encarar. Não só uma, nem duas, mas três vezes. Os constrangimentos insistiram em permanecer e os boatos correram soltos. Mesmo mudando de semestre, mesmo mudando de turma, certos colegas não mudaram suas atitudes. 

Você não consegue apoio na família. O relacionamento não chega nem perto dos exibidos por comerciais de margarina. Com sua mãe, dialoga só o necessário. Seus irmãos escolhem ignorar sua existência. Já seu pai, distante desde a infância, mal troca uma palavra ou um olhar. Ele, inclusive, tentou expulsar você de casa. A péssima convivência reverbera com os demais parentes, até por aqueles que sente apreço. Contudo, existe ainda quem goste de colocar o papo em dia, que prefere a sua companhia para sair. Seu avô, com 85, é essa exceção. 

Você decide, então, enfrentar os desafios por empoderamento. Trabalha e estuda. Sim, voltou a cursar a graduação por uma causa política, para ocupar os espaços em que a população trans é minoria*. Atua em uma startup, uma conquista suada depois de inúmeras entrevistas em outras empresas. A busca por um emprego foi, aliás, uma época complicada, já que estava sofrendo de ansiedade social. A doença foi melhor trabalhada com a ajuda de uma psicóloga do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais, local que frequenta e se trata desde 2016. 

Você é voluntário do Núcleo Trans da Unifesp. O envolvimento se deu logo no início, também em 2016, no fórum de criação, quando sentiu, pela primeira vez, que não estava sozinho. Apesar dos dias corridos, participou das reuniões de desenvolvimento do projeto e contribuiu no planejamento e divulgação de suas atividades. Lá, foi um espaço que possibilitou a você se conhecer e também conviver, não só com estudantes trans, mas diferentes formas de pensamentos e vivências. Sua contribuição foi o caminho para promover novas ações, levando a discussão de gênero e diversidade para todos os campi e para o hospital universitário.

Você é Gustavo Parra Leonel e esse é um breve relato da sua história. “Foi uma montanha russa, com muitos altos e baixos, mas, agora, os loopings cessaram, finalmente! Eu evolui como pessoa, e o fato de ver outras realidades fez eu perceber que posso fazer mais pelos outros, trazer melhores condições para população. Nosso maior desafio é o preconceito, sempre vai haver, mas é por isso que precisamos exercitar, todos os dias, a empatia”, você finaliza.

*De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 0,02% da população de travestis e transexuais estão na universidade. 

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS. Mapa dos assassinatos de travestis e transexuais no Brasil em 2017. Brasília: ANTRA, 2018, 121 p. Relatório disponível em: <https://antrabrasil.files.wordpress.com/2018/02/relatc3b3rio-mapa-dos-assassinatos-2017-antra.pdf>. Acesso em: 20 set. 2019.

Vanessa do Jardim Santa Mônica

Dado o devido valor ao que tinha e não tinha, Vanessa acabou dando valor a si mesma

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(Fotografia: Alex Reipert)

O Jardim Santa Mônica poderia ser um bairro igual a todos os outros em São Paulo. Poderia, se não fosse por uma família. Lá dentro há desafios de uma metrópole inteira. É o pedaço da realidade na utopia de uma cidade grande. O protesto à tão gritante e comum desigualdade social. O Jardim Santa Mônica é o lar de uma jovem perspicaz, que a partir das dificuldades encontrou motivos para aprender e transformar. É o lar de Vanessa da Silva Pereira Gonçalves.

Ninguém sabe dizer como foi que a família de Vanessa parou por ali. Fato é que sua mãe saiu de Remanso, interior da Bahia, rumo à capital paulista. Parou em um terreno às margens da Rodovia dos Bandeirantes. Tijolo por tijolo, trabalhando como tecelã, levantou um único cômodo para receber os filhos. Em seguida, os parentes. Com as primeiras moradias, vieram também a água e a luz. Houve momentos em que aparecia alguém da Prefeitura. Em outros, mais tensos, as habitações amanheciam marcadas em vermelho, prontas para serem derrubadas. “Só depois comecei a ter consciência da minha trajetória, que eu venho de uma ocupação e que temos problemas de vulnerabilidade social. Enquanto moradora, não enxergava isso”.

Vanessa apropriou-se dessa vida normalmente. E foi assim que o Jardim Santa Mônica se transformou em um lar. Da simples alvenaria sem reboque nem pintura em contraste com os condomínios residenciais de luxo. Dos escorregas no morro de terra aos córregos a céu aberto para as corriqueiras enchentes. Os problemas, na verdade, encontravam-se no interior de sua casa. Caçula, Vanessa foi fruto de mais um casamento que não deu certo. Sem a presença do pai, aos oito, precisou encarar também a ausência da mãe. Seu falecimento ocorreu de forma abrupta, viajando, durante as primeiras férias do emprego, para a cidade natal. Sem recurso para bancar as passagens dos filhos, as crianças, no fim, mal puderam se despedir. “As datas comemorativas, durante a minha infância, na escola, foram muito difíceis, porque eu não tinha a referência de pai e de mãe”.

Não fosse por querer transformar o mundo, Vanessa seria colecionadora de episódios de superação. Mais velha, com 28, foi vítima de violência doméstica. Tudo começou por ela ter denunciado o irmão por tentativa de homicídio contra sua sobrinha de oito meses. A cunhada já passava por um histórico de agressão, inclusive enquanto estava grávida, e foi a própria Vanessa quem a acompanhou no hospital. Com cara e coragem, sem dinheiro para pagar um advogado, ela levou o caso para Defensoria Pública. A justiça, no entanto, não foi favorável. Vanessa foi obrigada a deixar a sua origem e o seu Jardim Santa Mônica. “E se ele matasse alguém? Eu iria carregar essa culpa! Minha vida desmoronou, mas não me arrependo”.

Vanessa teceu seu futuro com os retalhos da própria experiência. Com o desejo de proporcionar novas perspectivas, garantindo que situações como as que passou não repetissem. “Tudo tem uma motivação e se você quer chegar em um propósito é por meio dos estudos”. Ela se formou em Pedagogia e, na sequência, fez Serviço Social. Inscreveu-se recentemente em uma outra graduação, em Direito. A jovem do Jardim Santa Mônica é a primeira da família a conquistar um diploma no ensino superior e a frequentar uma universidade pública. “‘Faculdade que não pode pôr os pés’ é um trecho da música do Emicida. A gente acredita que esse é um lugar que não nos pertence, para o pobre, preto, de periferia... mas eu sou a prova que conseguimos, sim”.

O que Vanessa não esperava foi que, muito mais que conhecimento, ela pudesse ter clareza sobre seu território. O Jardim Santa Mônica é uma comunidade precária, sem acesso às políticas públicas, sucateada. Tal despertar se deu durante a especialização em Cidades, Planejamento Urbano e Participação Popular, oferecida pelo Instituto das Cidades (IC/Unifesp) - Campus Zona Leste. O curso foi para aperfeiçoar seu trabalho como assistente social, compreender a importância do território. Dito e feito. Dado o devido valor ao que tinha e não tinha, Vanessa acabou dando valor a si mesma. Colecionando episódios de superação, ela ressignificou seu passado e também seu futuro. Talvez seja esse o papel do Jardim Santa Mônica. E talvez por isso que ela busque também por sua transformação. “Nós precisamos modificar nossa realidade. É uma ação de formiguinha, mas se cada um fizer um pouco, juntos, já estamos mudando muita coisa”.

 

 

Publicado em Edição 12

Médico epidemiologista, ex-reitor da UFBA e da UFSB e professor visitante do IEA/USP, Naomar de Almeida Filho abordou os caminhos enfrentados pela extensão universitária nas instituições públicas de ensino superior brasileiras

Texto: Valquíria Carnaúba

Naomar de Almeida Filho, docente no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ex-reitor da instituição e da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), é um grande crítico do verdadeiro papel da extensão universitária no Brasil. Em entrevista à Entreteses, Almeida Filho abordou, de maneira central, a dificuldade de a extensão universitária ser de fato incorporada à verdadeira missão das universidades públicas. Define extensão universitária como "a atuação da instituição junto à sociedade, à comunidade, fora dos muros da universidade. Por meio de projetos (duração finita) e programas (duração por tempo indeterminado), o pesquisador produz conhecimento sobre um determinado assunto, desenvolve aplicações e o traduz para que seja efetivo na solução de problemas”. Também sua vivência na área médica, onde o controle e a prevenção de doenças são considerados extensão da medicina tradicional, ajudou a fundamentar seus conceitos. Para ele, ainda que a Constituição Federal disserte sobre a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão - as três bases da educação superior - esse terceiro pilar persiste com um certo viés de marginalidade, já que é trabalhado pelas universidades públicas de modo menos intenso em relação aos demais e, por fim, ainda carece de um orçamento próprio para a contratação de bolsistas e o desenvolvimento de suas ações. Almeida Filho discorreu ainda sobre o limiar entre extensão universitária e assistencialismo, autonomia universitária e os caminhos que se apresentam às ações extensionistas frente ao contexto atual.

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Para Almeida Filho, museus, orquestras sinfônicas, corais e ginásios de esportes são ações de extensão que permitem à universidade retornar uma demanda social, já que não consegue absorver todos os jovens que almejam a educação superior (Fotografia: Alex Reipert)


Entreteses • Existe confusão entre os conceitos extensão universitária, filantropia e assistencialismo?

Naomar de Almeida Filho • É na extensão que identifico uma dificuldade maior da universidade se reconhecer. E como a extensão não é priorizada na missão orgânica das instituições, também não está prevista nos seus orçamentos - com exceção da prestação de serviços e atividades na área da saúde, como os hospitais universitários. As verbas orçamentárias destinam-se exclusivamente ao ensino; já as fontes para pesquisa advêm das agências públicas de fomento (Finep, Capes e Cnpq). Temos, por um lado, em algumas universidades, atividades artísticas e culturais sendo definidas como extensão, quando o conceito não se aplica, pois se trata de uma parte da função criativa da vida acadêmica. Já no caso dos hospitais, a sociedade tem maior propensão a considerá-los como a grande contribuição social de uma universidade, um direito dos sujeitos. Há também os museus, uma outra forma de extensão pensada de modo a sintetizar ou representar a realidade externa. Toda grande universidade no mundo tem seus museus, assim como orquestras sinfônicas, corais, hospitais universitários, ginásios de esportes, ou seja, atividades que fazem essa ligação da universidade com a sociedade. São formas de a instituição retornar uma demanda social, já que a universidade não consegue absorver todos os jovens que estão precisando da educação superior, reservando pequenos fragmentos de sua excelência e os estendendo aos demais. É interessante refletir que a extensão se apresenta, muitas vezes, como a única forma de fazer quem está fora da universidade se fazer ouvir, permitindo o diálogo. Nesse sentido, é raro um programa ou projeto de extensão ser uma ação que pergunta; costuma-se na extensão fornecer de imediato uma solução, em vez de ser algo mais exploratório, dialógico. Essa discussão incorpora, inclusive, o aspecto político da extensão. Em tese, as universidades têm uma missão civilizatória, de modo a não impor a transformação, mas relacionando-se com a sociedade com uma postura mais modesta.


E. Como citou o caso dos hospitais universitários, entende que a sociedade ainda tem dificuldade de visualizar as ações de extensão universitária como um direito?

N.A.F. Sim, mas a responsabilidade é, em parte, da própria universidade, pois são realizadas quase como uma concessão da instituição. Há movimentos meritórios que buscam reverter essa ideia, adotando um posicionamento mais crítico que visa integrar universidade e extensão, mas são casos isolados, não regra geral. As expectativas da sociedade se orientam não pela vanguarda, mas pelo que dá resultados de modo certo e seguro. As pesquisas, ainda que inovadoras, muitas vezes voltam-se a aplicações mais simples e conectadas com o cotidiano. O mesmo deveria acontecer com a extensão que, a depender do projeto ou programa, pode se caracterizar como pesquisa/ação, tratando de singularidades quando deveria ter como foco universalidades. Na atividade extensionista, não há um interesse científico declarado, comum na pesquisa convencional, o que leva a extensão a se tornar quase que um subproduto institucional. Mas muitas dessas ações definem a ciência de um modo socialmente responsável, e a expressão “inovação social” é muito feliz para resumir esse conceito. Minha posição é essa: o que a gente lista como atividade nobre da universidade, pesquisa, é em grande parte exercida sem registros, sistematização e reflexão, perdendo-se nos relatórios. Há, por outro lado, uma grande dificuldade em reconhecer que uma ação de promoção de valores sociais ou uma atividade que religa as pessoas (que podem ser chamados de trabalho de extensão) pode ser geradora de um volume considerável de conhecimento - etnográfico, antropológico, artístico, histórico e cultural. 


E. A curricularização das ações de extensão é um dos caminhos para a integração à missão da universidade?

N.A.F. É uma maneira institucional, mas convencional, de se produzir um valor para a extensão. É o que torna aquela ação integrável ao histórico escolar dos estudantes, um reconhecimento de que aquela atividade equivale a uma disciplina ou curso. Acredito que outro caminho mais interessante seria a abertura ampla dos currículos, e as atividades que produzam aprendizado serem reconhecidas como tal, sem a obrigatoriedade de as horas de extensão serem cumpridas como aula. No processo de aprendizagem, as pessoas são diferentes entre si. Para alguns estudantes, não adianta três mil horas de prática se eles não estiverem incorporando aquele ato, e a reflexão sobre a ação, como conhecimento. É bom pensar bem; precisa ter um tempo para sair daquela atividade e digerir tudo.


E. Em um seminário na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 2017, você defendeu que as instituições públicas de ensino superior devem ter liberdade em relação aos processos de governança e capacidade de traçar seus próprios destinos. Ainda na ocasião, lembrou que as universidades têm grande dificuldade de admitir que precisam incorporar a sociedade na sua gestão, no seu cotidiano, exigindo uma ampla reforma no ensino superior em pleno século XXI. O que deveria ser necessariamente modificado?

N.A.F. As universidades, mesmo aquelas com postura politicamente mais engajada, não abrem seus espaços de gestão para que a sociedade participe. No máximo, dois ou três lugares em um conselho universitário com 60-70 membros, fazendo com que os espaços de governança tornem a sociedade minoria nas decisões. Reforça-se, assim, a gestão universitária como pública por ser estatal, que presta contas “justificando” sua existência. Nessa lacuna se insere a liberdade acadêmica no sentido da autonomia institucional, que em diferentes contextos ganha definições distintas. No Brasil, as instituições públicas pertencem ao Estado, que dita o que a universidade pode fazer ou não – e isso se aplica da contabilidade à escolha dos dirigentes. Claro, se somos parte do Estado, as regras da gestão administrativa pública se aplicam, e isso é um problema. O Brasil tem algumas experiências de autonomia relativa em gestão financeira, como as universidades paulistas, com uma porção de seu orçamento definida de acordo com o percentual de arrecadação [de impostos]. Já as universidades federais dependem de uma parcela do orçamento do Ministério da Educação (MEC) e são caracterizadas pela vinculação dos sujeitos como funcionários federais – os servidores compõem a carreira do serviço público. Tenho defendido que precisamos ter mais clareza sobre por qual autonomia se luta, mas ela não vingará se nos mantivermos submissos à folha de pagamento do governo federal. Outros países construíram suas alternativas adotando modelos fundacionais. Os Estados Unidos (EUA), por exemplo, não possuem nenhuma universidade estatal, ainda que muitas sejam públicas por suas verbas advirem do Estado. No Canadá, embora o orçamento seja público e repasses de verbas ocorram mediante metas, as universidades também não são estatais. Portugal, por sua vez, resolveu a situação criando o ente jurídico chamado universidade pública. Onde tem dinamismo na produção de ciência, conhecimento e cultura, as universidades encontram-se desvinculadas do Estado, são de fato autônomas. Temos agora que descobrir o nosso modelo ideal. Sendo parte do Estado, as universidades federais brasileiras padecem de uma contradição de base em sua missão: a principal regra da administração pública é poder fazer somente o que está na norma, e isso é a morte da universidade, pois nesse registro nada pode ser criado. Suas regras dependem de limites externos. Tornando essa questão mais central, penso que a ideia de autonomia que temos no país é uma distorção do verdadeiro conceito, aproximando-se mais da velha liberdade de cátedra, ou seja, a liberdade de definir o que o professor ensina. Nesse aspecto, há uma certa confusão como pauta política, pois nisso não se distingue a autonomia institucional da liberdade individual. Defender o individualismo de modo algum representa uma reivindicação progressista e democrática. Outra discussão que considero delicada é o fato de as universidades estatais no Brasil estarem a serviço dos interesses privados, porque formamos projetos de vida para sujeitos individuais, muitos definidos por suas mitologias familiares. Apesar da inegável abertura recente do acesso, com a expansão e com as cotas, que de fato mudaram o cenário das universidades públicas brasileiras, quem mais aproveita delas é um segmento social que domina a política e a economia e tem a universidade como a continuidade das próximas gerações. A pergunta que persiste é a seguinte: esses segmentos sociais que conquistaram essa chance de ascensão social estão recebendo da instituição uma aprendizagem libertadora ou terminam sendo cooptados a se tornarem parte dessa elite? 


E. Na sua opinião, qual o futuro da extensão nas universidades federais brasileiras considerando quatro fatores: retorno social (impostos), o patamar atual da educação básica, os cortes orçamentários e a visão da sociedade sobre o papel da universidade pública?

N.A.F. Tudo isso faz parte de um ataque especulativo contra a universidade pública brasileira feito por um governo de viés totalitário, anti-intelectual e empenhado no que chamam de guerra cultural. Não haverá futuro para a extensão se não houver horizonte de futuro para a universidade. Partindo do primeiro aspecto, consideremos a pauta que coloca a cobrança de mensalidades e anuidades nas universidades públicas. Para mim, há dois argumentos que, a meu ver, vão contra essa proposta. Por um lado, porque isso não vai resolver o problema orçamentário. No Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), por exemplo, apenas 10% do seu orçamento é coberto por mensalidades. Aqui no Brasil, foi efetuado um cálculo por meio do qual se chegou à estimativa de que as mensalidades cobririam aproximadamente 18% do orçamento total. Por outro lado, este é um modelo de financiamento que pode terminar aumentando a exclusão de alguns segmentos sociais da educação superior. Ainda assim, são argumentos politicamente pouco eficientes para se contrapor a essa cobrança. A expressão retorno social do investimento público dá a impressão de que as pessoas que fazem a cessão de parte de sua renda ao Estado nacional são as mesmas que recebem esse benefício. O retorno social não se aplica nesse caso, pois quem mais paga para sustentar o Estado não está na universidade, mesmo com todo o esforço recente pela inclusão social na educação. O sistema tributário brasileiro é de uma regressividade absurda, fazendo com que os sujeitos de baixa renda paguem proporcionalmente mais imposto do que os que têm ganhos elevados. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) tem sucessivos estudos que revelam que, quanto maior a renda da pessoa física, menor é o pagamento proporcional de impostos. As famílias que ganham menos de três salários mínimos comprometem 56% de sua renda em impostos e aqueles que ganham mais de 20 salários mínimos pagam menos de 20% em impostos, em parte pelo sistema de restituição de imposto de renda por despesas educacionais para dependentes de até 24 anos. Mesmo quem não tem uma renda satisfatória acaba consumindo boa parte dela para sobreviver, ao comprar roupa, comida, usar transportes públicos. Temos um sistema de distribuição de renda absolutamente perverso; quem tem renda paga uma escola privada de ensino médio para que os filhos passem pelo “superfiltro” seletivo das universidades públicas. Quem sustenta o ensino privado são os pobres, pois não adentram as universidades gratuitas, e aos que permanecem no ensino médio público restam as vagas no ensino superior privado, onde muitos se endividam. Os pobres são aqueles que, ao consumirem para sobreviver, estão pagando a retribuição que o Estado faz aos que possuem poder de compra elevado. É como se a universidade pública se consolidasse como um grande dispositivo de propagação da desigualdade social, inclusive ofertando formação de melhor qualidade nas profissões mais valorizadas no mercado de trabalho. 


E. E a questão da educação básica, não seria um foco prioritário da extensão?

N.A.F. A maior ação de responsabilidade social das federais brasileiras realmente seria o comprometimento com a melhoria da péssima qualidade da escola pública na educação básica, outra das perversões nacionais. A maior parte dos docentes que atuam na rede pública é formada no setor privado e, por outro lado, a excelência das universidades públicas coloca os seus licenciados no setor privado. O maior programa de extensão das universidades públicas brasileiras deveria ser formar professores da educação básica. Hoje, o número de licenciaturas ofertadas pelas universidades federais é pequeno, ao passo que a evasão é alta – em alguns casos chega a 60%. O pouco investimento institucional na formação de professores e a prioridade na formação de profissionais é um grave problema político para as universidades públicas brasileiras. Enfim, formação de quais perfis profissionais e em benefício de quem? Pensar nisso é um esforço que vale a pena, pois quando politizamos esse problema, revela-se na extensão uma patologia na relação da universidade com a sociedade, historicamente estabelecida como colonial, baseada na escravatura, que promove uma imensa desigualdade social. E a universidade pública tem ajudado a preservar e reproduzir esse modelo.

 
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Nesta edição da revista Entreteses, em que se comemoram os 25 anos da Unifesp, abordamos a extensão e a cultura produzidas no âmbito da instituição. É o volume em que apresentamos e reafirmamos a política de extensão e cultura, construída ao longo da história da universidade, e damos visibilidade a um conjunto de ações, processos, produtos e conhecimentos que emergem da relação de nossos campi com a sociedade.

A política de extensão e cultura, em consonância com as diretrizes nacionais, tomou como fundamento a concepção e a intencionalidade dos sujeitos que conduzem ações extensionistas e culturais na universidade. Foi, então, definida como um conjunto de ações e processos, de natureza educativa, cultural, científica e política, desenvolvido por metodologias que propiciam a assimilação e a construção do conhecimento, a partir dos desafios postos pela realidade vivida. Por meio do diálogo entre as práticas científicas e sociais, com atuação interdisciplinar e interprofissional, busca construir respostas às questões apresentadas, na perspectiva da formação individual e da transformação da sociedade, valorizando a diversidade e os direitos socioambientais da população.

Na Unifesp a extensão e a cultura têm sido fortalecidas pela produção gerada a partir da indissociabilidade entre extensão, ensino e pesquisa; pela ampliação da prestação de serviços e do número de programas, projetos, cursos de extensão e eventos institucionais; e pelo aprimoramento dos cursos de especialização e de aperfeiçoamento. Houve, também, uma aposta em diversas iniciativas na interface com outras pró-reitorias, a exemplo da política de observatórios, da Apresentação - Curricularização, do Projeto Acadêmico de Prestação de Serviços (Paps), da inovação social, da política de direitos humanos, da política de cultura e da institucionalização das empresas juniores.

É importante ressaltar que a Unifesp tem sido responsável por desenvolver programas que contribuem com as políticas públicas, tais como cursos de especialização (lato sensu) e de extensão que visam à capacitação dos servidores públicos e da população em geral. Entre esses, destacamos a especialização em Saúde da Família (UnA-SUS/Unifesp); o aperfeiçoamento para agentes de saúde indígena (por meio do Projeto Xingu e da Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde); o curso de extensão Supera (Sistema para Detecção do Uso Abusivo e Dependência de Substâncias Psicoativas: Encaminhamento, Intervenção Breve, Reinserção Social e Acompanhamento) para profissionais de saúde, em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública e a Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp); e o Núcleo Telessaúde Brasil Redes, que resulta de parceria entre a Unifesp/ Secretaria de Educação a Distância (Sead) e o Ministério da Saúde.

Outras ações desenvolvidas ao longo da história da Unifesp vêm assumindo, além do valor estético, um papel pedagógico importante, inclusive para a sociabilidade e a inclusão. O Museu Histórico Prof. Dr. Wladimir da Prússia Gomez Ferraz, da Escola Paulista de Medicina, o Coral Unifesp, o Projeto Jovem.doc, a Cátedra Kaapora, a Cátedra Edward Saïd, o Projeto Artes do Corpo, o Laboratório de Artes Visuais (Labart) e a Semana Unifesp Mostra sua Arte. Todo esse potencial, edificado ao longo de 25 anos, promoveu transformações na universidade como um todo. Revisões da prática docente, alterações e ajustes na estrutura organizacional e, ainda, reflexões sobre o conceito e o papel da instituição nos diferentes contextos – nacional e internacional.

Nesse sentido, o cenário de desafio e reinvenção permanece atual para a universidade pública. Cabe a ela continuar a contribuir para o enfrentamento das crises contemporâneas, oferecendo subsídios científicos, de forma ética e comprometida com a emancipação humana. E é justamente na compreensão desse propósito que a extensão e a cultura universitárias reiteram seu significado: como prática acadêmica produtora de conhecimento na diversidade e na interação dialógica com a sociedade.

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Raiane Assumpção - Pró-reitora de Extensão e Cultura (Fotografia: Alex Reipert)

 
Publicado em Edição 12

A Unifesp é destaque no ensino e na pesquisa, êxito avalizado pelos indicadores contidos em rankings nacionais, como no RUF/Folha de S. Paulo, e internacionais, como no conceituado The Higher Education (THE). Contudo, é preciso falar de uma faceta muito desenvolvida e pouco divulgada, que é a extensão universitária, a qual se integra ao ensino e à pesquisa na missão da universidade. De acordo com a Política Nacional de Extensão Universitária, a extensão é definida como “um processo interdisciplinar, educativo, cultural, científico e político que promove a interação transformadora entre universidade e outros setores da sociedade”. Representa, dessa forma, um conjunto de ações, processos, produtos e conhecimentos oriundos da conexão direta entre a universidade e as diferentes comunidades e camadas sociais. 

Na Unifesp, a extensão denota uma vasta gama de atividades inter e multidisciplinares ligadas ao ensino e à formação de profissionais, bem como a possibilidade de aplicação direta dos conhecimentos gerados pela pesquisa em projetos da iniciativa privada e do poder público. Nestes 25 anos, desde a criação da Unifesp, e durante os 86 anos que decorreram desde que germinou sua primeira semente, a Escola Paulista de Medicina, verificamos uma grande transformação na extensão, tanto conceitual quanto prática.

Antes, a extensão era entendida como uma área voltada apenas aos cursos de especialização ou à assistência à saúde – no caso, o atendimento pelo Hospital Universitário. Hoje a universidade expandiu sua visão, realizando as atividades de extensão em diversos níveis: projetos sociais, formação a distância, criação de estratégias de atuação em movimentos populares, atendimento às populações mais carentes nas próprias localidades, ensino a refugiados, atendimento em saúde a grupos sociais vulneráveis, projetos de combate à violência e às drogas, políticas de ações afirmativas, núcleos de estudos africanos e indígenas e cátedras de estudos populares. 

Mais recentemente, introduzimos novas dimensões institucionais para a extensão ao criarmos as áreas de direitos humanos e de cultura, tornando aquele setor mais abrangente e transversal. Alinhados com nosso tempo, reservamos à cultura um lugar que não é limitado ao entretenimento ou ao lazer, o que resultou na mudança de denominação do órgão responsável pela gestão dessas questões para Pró-Reitoria de Extensão e Cultura

Nesse contexto, celebramos o cumprimento da diretriz do Plano Nacional de Educação de 2014-2024, de 10% da creditação curricular às ações extensionistas. Destacamos também a ampliação do espectro de ações no que diz respeito à prestação de serviços, por meio da implementação dos Projetos Acadêmicos de Prestação de Serviços (Paps), o que possibilita parcerias com a iniciativa privada na perspectiva acadêmica. Demos maior espaço à inovação e tecnologia social, que tomam forma por meio de iniciativas como as empresas juniores, fortemente conectadas com a recém-criada Agência de Inovação Tecnológica e Social (Agits) da Unifesp.

Por meio de ferramentas digitais, a extensão leva o conhecimento a locais nunca antes imaginados pelos setores que compõem nossa instituição. Os extensionistas experimentam e executam, por meio dos 43 programas e 179 projetos em vigência na Unifesp, as cinco diretrizes que norteiam as ações de extensão: interação dialógica; interdisciplinaridade e interprofissionalidade; indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão; impacto na formação do estudante; e impacto e transformação social.

Assim, como determina a Constituição Cidadã de 1988, a Unifesp ajuda a promover e a garantir os valores democráticos da equidade e do desenvolvimento da sociedade em suas dimensões humana, ética, econômica, cultural e social. 

Parabéns aos extensionistas. E isso significa parabenizar toda a Unifesp, que continua mobilizada, tornando-se cada vez mais ativa, abrangente e consciente de seu papel como universidade – pública e inserida na sociedade. 

Desejamos a todos uma boa leitura.

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Soraya Smaili - Reitora da Unifesp (Fotografia: Alex Reipert)

 
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Terça, 10 Dezembro 2019 15:23

Expediente

Expediente

A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo. 

ISSN 2525-5401 (publicação impressa) 
ISSN 2525-538X (publicação on-line )

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Reitora: Soraya Soubhi Smaili

Vice-Reitor: Nelson Sass

Pró-Reitora de Administração: Tânia Mara Francisco

Pró-Reitor de Assuntos Estudantis: Anderson da Silva Rosa

Pró-Reitora de Extensão e Cultura: Raiane Patrícia Severino Assumpção

Pró-Reitor de Gestão com Pessoas: Murched Omar Taha

Pró-Reitora de Graduação: Isabel Marian Hartmann de Quadros

Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa: Lia Rita Azeredo Bittencourt

Pró-Reitor de Planejamento: Pedro Fiori Arantes

Jornalista responsável/Editor: Walter Teixeira Lima Junior (MTB 23.663/SP)

Coordenação: Valquíria Carnaúba

Reportagem: Daniel Patini, Denis Dana, José Luiz Guerra, Juliana Narimatsu, Lu Sudré, Marcos Zeitoune, Matheus Campos, Paula Garcia, Tamires Tavares e Valquíria Carnaúba

Projeto gráfico e diagramação: Ana Carolina Fagundes

Infografia e ilustração: Ana Carolina Fagundes

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Fotografia: Alex Reipert / Créditos indicados nas imagens

Capa: Alex Reipert

Tratamento de imagens: Alex Reipert / Ana Carolina Fagundes

Conselho Editorial: Lia Rita Azeredo Bittencourt, Karen Spadari Ferreira, Débora Cristina Hipólide, Bruno Moreira Silva, Ricardo Pimenta Bertolla, Andréa Slemian, Marimélia Aparecida Porcionatto, Vera Raquel Aburesi Salvadori

Conselho Científico: Olgária Chain Feres Matos, Renato Janine Ribeiro, Ruy Ribeiro de Campos Jr., Paulo Schor e Fulvio Alexandre Scorza

Revista Entreteses n° 12 – Novembro/2019 
www.unifesp.br/entreteses 
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Tiragem: 4.000 exemplares

 

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL

Direção: Walter Teixeira Lima Junior 

Jornalismo: Daniel Patini, José Luiz Guerra, Juliana Narimatsu, Paula Garcia, Tamires Tavares e Valquíria Carnaúba

Design: Ana Carolina Fagundes e Paula Garcia

Fotografia: Alex Reipert

Audiovisual: Gabryelle Pereira da Silva, Jean Carlo Silva, Loiane Caroline Vilefort e Reinaldo Gimenez (coordenação)

Mídias sociais: Rosangela Gonçalves Martins

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Assistente administrativo: Luis Tadeu Ka Jin Mo

Assessoria de imprensa: Ex Libris Comunicação Integrada Tel.: (11) 3266-6088 - ramais: 201, 208 e 225

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Quarta, 27 Novembro 2019 09:58

Edição 12 - Entreteses

Parentalidade :: Amor e ciência em toques que fazem diferença

Assistência Social :: ‘ComUnidade’ fortalece elo entre Unifesp e população 

Campus Baixada Santista | ISS • IMar :: Iniciativas que promovem transformação social

Cultura Popular :: Campus aberto à educação pública

Comunicação Social :: Em sintonia com a sociedade

Bem-estar :: Saúde à beira-mar

Drogas :: Formação de agentes na construção de novas realidades

Campus Guarulhos | EFLCH :: O desafiador encontro entre a comunidade e a academia

Artes Cênicas :: Da sala ao palco: ensino de teatro e formação

Saúde Mental :: Música em benefício da vida

Artes Visuais :: Antropologia para entender a periferia 

Sala de Aula :: Jogos recreativos revelam a face lúdica e prazerosa da Matemática

Campus Diadema | ICAQF :: Educação e meio ambiente em evidência

Cosmetologia :: Medindo as emoções

Laboratório de Ciências :: Cientistas por um dia

Agroecologia :: O que você alimenta quando se alimenta?

Meio Ambiente :: Troca de saberes

Campus São José dos Campos | ICT :: Vocação tecnológica, olhar para o social

Impressão 3D :: Agora elas podem brincar!

Exposição :: Um museu que inspira o futuro

Educação :: Robôs sem fronteiras: rumo à sala de aula

Empreendedorismo :: Códigos e corações abertos

Campus Osasco | Eppen :: Remodelando territórios

Finanças :: Pensar antes de gastar

Inclusão Econômica :: Cooperação e autogestão moldam propostas de economia solidária

Agenda 2030 :: Sustentabilidade na ponta do lápis

Políticas Públicas :: Diálogos que ultrapassam fronteiras

Novembro 2019

Bem-vindo à edição n.o 12 da revista Entreteses! Você, que nos acompanha, sabe o que estamos comemorando e que é parte dessa festa. Em 2019, a Unifesp completa 25 anos de uma linda trajetória, completamente voltada à sociedade, por meio do tradicional ensino superior, do desenvolvimento de pesquisas e da extensão universitária. Tema desta edição, as ações extensionistas compõem o tripé que sustenta a universidade pública, cravado no artigo 207 da Constituição Federal de 1988. Porém, o eixo da extensão costuma ser menos óbvio no que tange ao retorno social da universidade.

Uma parábola famosa, capaz de definir precisamente a amplitude da extensão universitária, é a do bambu chinês. Depois de plantada a semente dessa árvore nativa do sul da China, não se vê nada por aproximadamente cinco anos – exceto o lento desabrochar de um pequeno broto a partir do bulbo. Somente após esse período, o bambu chinês cresce, atingindo uma altura de aproximadamente 25 metros. Assim, a extensão universitária fixa suas raízes na sociedade, dia após dia, à medida que atende indivíduos em situação de vulnerabilidade, jovens da rede pública, idosos, refugiados, indígenas e familiares de desaparecidos, ou mesmo complementa o aprendizado de estudantes em sua passagem pela graduação.

O resultado de todas essas ações constrói, fibra por fibra, o caule de cada uma das árvores mencionadas, que representam a inovação social, a economia solidária, o empreendedorismo social, a gestão comum de bens e o terceiro setor. E que se desdobram em um cursinho comunitário que prepara turmas de alunos para o vestibular; em um programa de apoio a pacientes com fibromialgia, que alimenta o otimismo de centenas de pacientes, até que estes estejam preparados para enfrentar suas angústias e dar apoio a outras pessoas na mesma condição; em uma nova esperança para estudantes sujeitos a transtornos mentais, como ansiedade e depressão, por meio do canto e da música; e na antecipação de mudanças impostas pelo panorama global, abraçando uma agenda voltada ao desenvolvimento sustentável.

Na Unifesp, essas sementes foram plantadas há 25 anos, e seu crescimento já é visível de longe. Agora, é o momento de compartilhar tais conquistas com você – a quem desejamos ótima leitura!

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Quinta, 27 Junho 2019 16:01

Frágil, extremamente frágil

Estudo descarta a ideia de que o mercado de trabalho do Brasil tenha vivenciado uma situação de pleno emprego

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(Imagem: Romerito Pontes)

 

Texto: Daniel Patini

Números recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que existem mais de 13.1 milhões de brasileiros desempregados. Com isso, a taxa de desocupação alcançou a marca de 12,4% no trimestre encerrado em fevereiro de 2019. Lendo esses dados, é improvável de imaginar que até pouco tempo atrás a economia do país vivenciava, supostamente, o que os especialistas chamam de uma situação de pleno emprego.

“O conceito teórico de pleno emprego pode ser entendido como um contexto no qual, considerando um determinado período de tempo, toda a população que se encontra apta e com o desejo de trabalhar encontra um posto de trabalho disponível, em razão da continuada expansão do nível de demanda efetiva”, explica o pesquisador André Corrêa Barros. "Dessa maneira, não existe desperdício dos fatores de produção disponíveis e a economia opera, então, em seu nível máximo de capacidade, o que, potencialmente, tenderia a proporcionar uma melhora nas condições de vida da população", continua.

Barros analisou o mercado de trabalho brasileiro recente e as condições de aproximação ao pleno emprego em sua dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Economia e Desenvolvimento da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) - Campus Osasco, orientada por Marcelo Soares de Carvalho. O objetivo do estudo foi contextualizar a experiência de crescimento da economia brasileira durante os anos de 2002 a 2015, bem como caracterizar os postos de trabalho gerados nesse período.

"Recentemente, a nossa economia passou por um período de crescimento atrelado a melhorias no mercado de trabalho, fato jamais ocorrido anteriormente. Essa condição inédita fez com que se instalasse uma acirrada discussão acerca da existência ou não de uma situação de pleno emprego no Brasil, principalmente pelas taxas historicamente baixas de desemprego registradas no período, que chegou a apenas 4,3% durante 2014", exemplica.

Não foi dessa vez...

De acordo com os resultados obtidos pelo trabalho, o pleno emprego brasileiro mostrou-se extremamente frágil, sendo essa condição descartada completamente. Após esse período analisado, como destaca o pesquisador, o mercado de trabalho registrou uma rápida inversão desses bons resultados, com sucessivas quedas na criação de empregos.

Uma característica que contribuiu para isso, segundo Barros, é o desemprego estrutural existente no país, resultante do próprio processo de sua formação histórica, marcada pelo escravismo, pela imigração europeia durante a transição para o trabalho assalariado, pela ineficiência da regulação pública no que diz respeito ao mercado de trabalho e também pela rápida transição populacional entre o campo e a cidade no período da industrialização brasileira.

"Após décadas marcadas por uma estagnação econômica seguidas pela desregulamentação e abertura econômica indiscriminada, o Brasil experimentou um ciclo de crescimento vigoroso, com o aumento do emprego e do rendimento real do trabalho. Assim, foi possível observar importantes mudanças quanto à inclusão social da população mais vulnerável e na recomposição dos quadros da gestão pública e de setores da proteção social, contribuindo efetivamente para uma melhora no que tange ao mercado de trabalho".

Porém, ele destaca que essa melhora observada fora alcançada sem a adoção de um novo e efetivo plano de desenvolvimento econômico, não estando atrelada a uma reversão estrutural. Dessa forma, houve uma forte geração de postos de trabalho no setor terciário – comércio e prestação de serviços –, os quais requerem pouca qualificação e resultam em baixa produtividade e remuneração, ao contrário da mão de obra absorvida pela indústria e em segmentos correlatos. Ademais, para o pesquisador, o menor crescimento da população economicamente ativa (PEA) estaria relacionado a esse perfil precário de absorção de mão de obra, o qual, por ser muito pouco atrativo para os trabalhadores, favoreceu a redução da população disposta a trabalhar, influenciando para baixo as taxas de desocupação.

"Sem dizer que boa parte do potencial de adensamento do mercado interno via expansão do consumo das famílias foi canalizado para as importações, em detrimento da produção interna", aponta Barros. "Além disso, para a existência de pleno emprego em economias subdesenvolvidas, como é o caso do Brasil, somente a elevação do nível de demanda efetiva não se mostra suficiente; é necessário também expandir o volume de investimento, a fim de absorver todo o contingente de trabalhadores existente, o chamado desemprego estrutural".

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André Corrêa Barros (à esquerda) e o orientador do trabalho, Marcelo Soares de Carvalho (à direita)

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Remuneração

Para Barros, é possível dizer que os anos 2000 foram marcados por um elevado grau de formalização das relações do trabalho no Brasil, período no qual a taxa da população ocupada com carteira assinada passou de 46,2% em 2002 para 54% em 2015 – atingindo 55,3% em 2014 –, refletindo na diminuição das taxas de ocupações sem carteira assinada, variando de 21% em 2002 para 13,3% em 2015.

Como consequência disso, o rendimento médio das pessoas ocupadas cresceu, aproximadamente, 16,2% entre os anos de 2002 a 2015, passando de um valor de R$ 1.973 para R$ 2.293. A maior variação ficou por conta da remuneração do setor público, que avançou 33,7% (passando de R$ 2.773 em 2002 para R$ 3.707 em 2015), seguido pelos trabalhadores sem carteira assinada, com variação de 29% (de R$ 1.228 para R$ 1.585), trabalhadores por conta própria, que cresceu 20,8% (de R$ 1.651 para R$ 1.993), e, com menor nível de crescimento, os ocupados com carteira de trabalho assinada, que passou de R$ 1.872 em 2002 para R$ 2.091 em 2015, variação de 11,7%.

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(Imagem: Romerito Pontes)

 

A economia em números

Conforme os dados apresentados pelo estudo, a configuração do emprego formal brasileiro passou por uma considerável transformação entre os anos de 2002 e 2014, com destaque para os aumentos da participação relativa do setor de serviços (de 32% para 34,9%), do comércio (de 16,8% para 19,6%) e da construção civil (de 3,9% para 5,7%). Contrariamente, houve diminuições relativas da administração pública (de 23,7% para 18,9%) e na indústria de transformação (de 18,2% para 16,5%).

Em 2004, a taxa de desemprego medida pelo IBGE, por meio da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), realizada em seis regiões metropolitanas, apontou um valor de 9,7%, ficando abaixo da registrada nos anos 2002 e 2003. Em 2005, em um cenário de menor crescimento econômico, a taxa subiu para 10,2%. Foi somente a partir de 2006 que o número de desocupados começou um ciclo de queda mais intenso, atingindo uma marca historicamente baixa de 4,3% em dezembro de 2014.

Ainda de acordo com a PME, o nível de ocupação, isto é, a proporção de pessoas efetivamente ocupadas em relação à população em idade ativa (PIA) passou de 49,5% em dezembro de 2002 para 51,3% em dezembro de 2015, enquanto que o nível de ocupação em relação à população economicamente ativa passou de 89,5% em dezembro de 2002 para 93,1% em dezembro de 2015.

De maneira geral, segundo informações disponibilizadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o número de trabalhadores formais no mercado de trabalho brasileiro cresceu aproximadamente 72,8% entre 2002 e 2014, o que equivale a uma média de pouco mais de 6% ao ano. Mais precisamente no período de 2011 a 2014, ainda que o Produto Interno Bruto (PIB) demonstrasse sinais de desaceleração, o mercado de trabalho formal cresceu 7,1% anualmente.

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Dissertação relacionada:
BARROS, André Corrêa. Mercado de trabalho brasileiro recente: uma análise das condições da aproximação ao “pleno emprego”. 2018. 105 f. Dissertação (Mestrado em Economia) – Escola Paulista de Política, Economia e Negócios, Universidade Federal de São Paulo, Osasco.

 
Publicado em Edição 11

Redução do tempo médio de viagens de coletivos e maior disciplina no trânsito afetam positivamente a vida dos paulistanos

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Texto: Daniel Patini

Dados comprovam os benefícios que as faixas exclusivas de ônibus trazem para o cotidiano dos passageiros que utilizam esse meio de transporte: em 2014, a duração das viagens foi reduzida em até 40 minutos por dia, segundo avaliação da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Mas qual é o impacto gerado pelas faixas sobre os veículos que trafegam fora delas? Em busca de resposta, o pesquisador Rafael Martins de Oliveira analisou a efetividade dessa política de mobilidade urbana em uma amostra de vias da cidade de São Paulo, com base nas medições de velocidade média fornecidas pela CET e pela São Paulo Transporte S. A. (SPTrans), disponíveis no Portal da Transparência.

O estudo em questão, elaborado sob a orientação de Eduardo Luiz Machado e coorientação de Diogo de Prince Mendonça, ambos docentes da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) - Campus Osasco, foi apresentado como dissertação de mestrado ao programa de pós-graduação em Economia e Desenvolvimento. Nele foram analisadas 139 vias importantes, 44,6% das quais possuem faixas exclusivas, implantadas entre 2010 e 2015, período em que foram inauguradas aproximadamente 446 km desses espaços demarcados para ônibus.

Parte dos resultados apontou que, nas vias onde foram instaladas faixas exclusivas, a velocidade média dos veículos que trafegavam fora delas variou entre 0% e +4,55%. Ou seja, a faixa exclusiva de ônibus, no máximo, aumentou a velocidade média dos demais veículos e, no mínimo, não a afetou.

O estudo também mostrou que os efeitos produzidos não foram homogêneos, variando entre 0% e +15,0%, em função do modo como a faixa foi utilizada em relação a seu horário de funcionamento e de acordo com a região da cidade na qual ela se situava – norte, sul, leste, oeste e centro. A zona oeste foi o local onde as faixas apresentaram os maiores resultados positivos, com o aumento da velocidade média entre 11,2% e 14,6%; na zona leste verificou-se um aumento de 7,96% e na zona central, de 8,9%.

Quanto ao tempo de deslocamento, os efeitos foram maiores para os usuários que trafegavam nas vias com faixas exclusivas e naquelas com faixas que funcionavam durante a manhã, ambas na zona oeste, observando-se – em cada caso – a redução de 9,6% e 10,3%, respectivamente.

"Esses resultados são extremamente interessantes para o gestor público, pois ressaltam a heterogeneidade na eficácia da política, mostrando que não apenas o modo de funcionamento da faixa altera seu resultado, mas também a região onde está localizada. Constatamos que o horário da faixa parece afetar sua eficiência: assim, as faixas que funcionavam em períodos mais focalizados (manhã, tarde e manhã/ tarde), justamente os momentos de maior congestionamento, apresentaram um efeito maior sobre os outros veículos que trafegavam na via do que as faixas que operavam em períodos mais longos do dia (período crítico) e que abrangiam tanto o horário de pico como os momentos em que o trânsito era menos intenso na via", explica Oliveira, ao citar outros resultados importantes das análises.

Por fim, o autor ressalta que o estudo também indicou que a avaliação da política pública de incremento das faixas exclusivas deve ser feita em conjunto com outras ações públicas que impactam a mobilidade urbana, como – por exemplo – a redução de velocidade, uma vez que nas vias onde ocorreram a implantação das faixas e a redução da velocidade máxima permitida observou-se a alteração da velocidade média dos veículos.

Entreteses11 p112 modais viagens

Metodologia

Na pesquisa, foi empregado o método de diferença-em-diferenças (DD), um instrumento de avaliação não experimental que mensura os impactos gerados pela política de faixas exclusivas de ônibus. 

"Devido à adoção desse modelo, foi necessária a definição do grupo de controle e do grupo de tratados: considerou-se como grupo de controle as vias em que não foram implantadas faixas exclusivas durante os anos de 2010 a 2015; já o grupo de tratados correspondeu às vias com faixas exclusivas no momento da medição – ou seja, uma via tornou-se tratada a partir do momento em que recebeu uma faixa exclusiva", esclarece o pesquisador.

 

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O pesquisador Rafael Martins de Oliveira e o orientador Eduardo Luiz Machado (dupla ao centro), durante apresentação do trabalho dissertativo

Corredores e faixas exclusivas de ônibus em São Paulo (2017)

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Cidade sobre rodas

Segundo dados da Pesquisa de Mobilidade Urbana de 2012, realizada pelo Metrô de São Paulo, o sistema de transporte da cidade de São Paulo atende aproximadamente a 25,3 milhões de passageiros por dia, os quais utilizam transporte motorizado para se deslocarem. Em mais da metade dessas viagens, os usuários utilizam o próprio automóvel (28,3%) ou ônibus coletivo (21,5%) – meios de transporte potencialmente afetados pelas faixas exclusivas de ônibus.

"Outro ponto importante que a pesquisa ressalta é o fato de o tempo de deslocamento dos usuários de ônibus ser mais que o dobro do tempo gasto pelos usuários de automóvel. A política de faixas exclusivas de ônibus visa justamente reduzir a disparidade entre o tempo médio dos que utilizam o transporte público e o privado”, justifica Oliveira.

Estratégia começou a ser adotada nos anos 1970

As faixas exclusivas para ônibus, uma das políticas adotadas para amenizar os problemas de mobilidade nas grandes cidades brasileiras, começaram a ser implantadas na cidade de São Paulo na década de 1970, de acordo com o pesquisador Rafael Martins de Oliveira. Baseando-se em dados da CET, o estudo lembra que a primeira faixa exclusiva de ônibus foi criada na avenida Celso Garcia.

Já o primeiro corredor, outra medida para facilitar o tráfego de ônibus nas vias da cidade, foi instalado em 1980, na avenida Paes de Barros. Enquanto os corredores de ônibus foram construídos paulatinamente, de tal modo que em 2015 existiam 18 corredores (95,9 km), as faixas exclusivas só ganharam importância a partir de 2013, ano em que foi demarcada a maior extensão em quilômetros (375,2 km) de faixas desde o início dessa política no município de São Paulo.

Oliveira salienta que existem diferenças consideráveis entre os corredores e as faixas exclusivas de ônibus: enquanto a implantação dos corredores exige obras de readequação das vias, com a construção de faixa própria para o tráfego e a adaptação dos pontos de parada, as faixas exclusivas são instaladas a partir da remarcação do asfalto, destacando o perímetro que será destinado ao tráfego dos ônibus (usualmente, a faixa à direita da via).

  • Década de 1970 - Início da implantação das faixas exclusivas
  • 1972 - Inauguração do primeiro trecho do metrô de São Paulo
  • 1980 - Inauguração do primeiro corredor de ônibus
  • 2012 - Aprovação do Plano Nacional de Mobilidade Urbana
  • 2013 - Inauguração de 370 km de faixas exclusivas
  • 09/2014 - Liberação do tráfego de táxis com passageiro em todas as faixas
  • 2016 - Proibição do tráfego de ônibus fretados em corredores e faixas exclusivas

Dissertação relacionada:
OLIVEIRA, Rafael Martins. Impactos da adoção de faixas exclusivas de ônibus: uma análise do caso de São Paulo. 2018. 81 f. Dissertação (Mestrado em Economia e Desenvolvimento) - Escola Paulista de Política, Economia e Negócios, Universidade Federal de São Paulo, Osasco.

 
Publicado em Edição 11