Terça, 28 Janeiro 2020 14:50

Campus aberto à educação pública

Estudantes de ensino médio participam de ações do Campus Baixada Santista que estimulam reflexões sobre diversidades, sociedade e direitos humanos

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As atividades do projeto realizadas na Etec Aristóteles Ferreira, em Santos, foram finalizadas em evento no Campus Baixada Santista (2018) / Imagem: arquivo pessoal

Texto: Tamires Tavares

Comprometido com a promoção de direitos humanos e políticas educacionais e de saúde para os jovens, o projeto de extensão Juventudes & Funk na Baixada Santista: territórios, redes, saúde e educação atua, desde 2014, em parceria com escolas públicas nas proximidades do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista. Iniciado por Cristiane Gonçalves da Silva, docente no Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva, e Patrícia Leme de Oliveira Borba, docente no Departamento de Saúde, Educação e Sociedade, o projeto é desenvolvido junto com estudantes universitários dos cursos de psicologia, terapia ocupacional e serviço social e conta com a colaboração de docentes e técnicos da universidade. 

O Juventudes & Funk na Baixada Santista ocorre a partir da interlocução com estudantes secundaristas, gestores e professores de escolas do ensino médio e está associado ao Laboratório Interdisciplinar Ciências Humanas, Sociais e Saúde (Lichss/Unifesp) e ao Projeto Metuia/Unifesp – grupo interinstitucional que atua sobre as temáticas da formação e da pesquisa em Terapia Ocupacional Social. O projeto tem como base pressupostos do educador Paulo Freire que se refletem na interdisciplinaridade e em seu processo educativo horizontalizado. Nesse processo, valoriza, inclusive, a formação de vínculos de confiança entre os membros da comunidade acadêmica e da sociedade civil, por meio da interação dos estudantes universitários e dos ensinos fundamental e médio – por compartilharem os processos de expressão, linguagem e vivências com aspectos geracionais em comum.

Para abordagem das temáticas trabalhadas, são utilizados diferentes métodos e técnicas, como rodas de conversa, palestras, visitas técnicas, mediação de conversas com especialistas, técnicos, lideranças de movimentos sociais envolvidos com o tema na escola, oferta de materiais audiovisuais e de leitura, dinâmicas e jogos expressivos, debates, conversas em ambientes virtuais. “Todos eles se pautam e creditam ao diálogo uma ferramenta formativa fundamental para os processos de conscientização e transformação que desejamos construir, tanto no espaço escolar, de forma específica, e na sociedade, de uma forma geral”, ressalta Silva.

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Estudantes de diversos cursos da Unifesp atuam no projeto sob coordenação de Cristiane Gonçalves e Patrícia Borba (ambas ao centro) / Imagem: arquivo social

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Na escola Paulo Clemente, por meio das ‘oficinas da diferença’, que ocorrem desde 2016, as propostas interventivas dos estudantes tornaram centrais questões sobre expressão de gênero, saúde reprodutiva e sexualidade / Imagem: arquivo pessoal

Ocupando espaços 

Além das atividades prioritárias nos territórios escolares, o projeto de extensão é frequentemente convidado para desenvolver ações junto a outras instâncias da universidade, como atividades em outros campi e participações em módulos de formação específica ou comum aos cursos do Instituto de Saúde e Sociedade - é o caso da pesquisa temática Vulnerabilidades de Jovens às IST/HIV e à Violência entre Parceiros: avaliação de intervenções psicossociais baseadas nos direitos humanos. Há, também, uma preocupação em ocupar o espaço universitário com a presença de jovens, organizando atividades com participação da comunidade, dentre os quais destaca-se Batalha de Rimas de Rap e Funk - com presença do movimento hip-hop e de MCs de funk (2016), e as rodas de rimas com movimento hip-hop da Baixada Santista (2018).

Grande parte do trabalho desenvolvido está nas ações em parceria com escolas públicas estaduais. Atualmente, destacam-se as parcerias com a Escola Técnica Estadual Aristóteles Ferreira, Escola Estadual de Ensino Fundamental Paulo Clemente Santini e Escola Estadual de Ensino Médio Padre Bartolomeu de Gusmão, com o intuito de dialogar a respeito de temáticas características do contexto, estilos de vida, geração e direitos dos estudantes – adolescentes e jovens plurais. Gênero e sexualidade, raça e etnia, o bairro onde vivem, os espaços por onde circulam, o uso da internet, os interesses juvenis e as possibilidades de acesso aos bens culturais são assuntos recorrentes nas atividades, que marcam a reflexão sobre as diversidades de tal maneira que ela possa ganhar existência nos espaços grupais e coletivos de forma respeitosa e crítica. 

Para Priscilla Karaver, estudante de Psicologia e participante do projeto, são muitas as contribuições da extensão para a formação acadêmica. “As trocas de vivências e conhecimentos e a construção coletiva com as pessoas do projeto e os jovens proporcionam crescimento mútuo, que não aconteceria se não estivéssemos inseridos nesses contextos. A sala de aula não nos proporciona essas experiências”, comenta.

Em cada escola o número de estudantes que participam do projeto varia, assim como as propostas interventivas. Somente no ano de 2018, por exemplo, foram atingidos diretamente cerca de 1.500 discentes, além de cerca de 60 professores nas escolas. “Como resultado desses processos reflexivos nas escolas por meio da inserção da extensão, há uma mudança nas relações cotidianas dos estudantes, como identificado pela direção pedagógica de uma das instituições participantes. As trocas passaram a ser mais afetivas, com possibilidades de experiências múltiplas e convivência respeitosa na diversidade”, relata Silva.

 

www.facebook.com/JuventudesFunknaBS

 
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O Campus Baixada Santista totalizava, em 2018, oito programas e 50 projetos de extensão ativos, um terço do total da instituição

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Fotografia: José Luiz Guerra

 

Luciana Togni de Lima e Silva Surjus 
Coordenadora da Câmara de Extensão e Cultura do Campus Baixada Santista

Liu Chiao Yi Inoue
Vice-coordenadora da Câmara de Extensão e Cultura do Campus Baixada Santista

Anthony Andrey Diniz
Representante da Câmara de Extensão e Cultura do Campus Baixada Santista

Marcella Santos
Secretária executiva da Câmara de Extensão e Cultura do Campus Baixada Santista

Gelson Ribeiro dos Santos
Estudante do curso de Engenharia Ambiental

O compromisso com uma formação cientificamente qualificada e socialmente referenciada faz o Campus Baixada Santista da Unifesp se destacar com um terço do total das ações extensionistas, finalizando 2018 com oito programas e 50 projetos de extensão ativos. Das 8 áreas temáticas propostas pelo Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Instituições Públicas de Educação Superior Brasileiras (Forproex), os oito programas desenvolvidos em 2018 vincularam-se aos Direitos Humanos e Justiça (33,4%), Saúde (33,3%), Educação (22,2%) e Trabalho (11,1%). Sendo desenvolvidos pelos departamentos de Políticas Públicas e Saúde Coletiva (67%), de Biociências, de Ciências do Movimento Humano, e de Gestão e Cuidados em Saúde (respectivamente, cada um com 11% dos programas ativos).

Já os projetos contemplaram quase a totalidade das temáticas previstas, com exceção da Comunicação, tendo em sua distribuição a predominância nas áreas da Saúde (48%), seguidos de Cultura (13,5%), Educação (13,5%), Meio Ambiente (9,6%), Direitos Humanos e Justiça (7,7%), Trabalho (5,8%), Tecnologia e Produção (1,9%). Foram desenvolvidos em sua maioria pelos departamentos de Ciência do Movimento Humano (27,8%), de Políticas Públicas e Saúde Coletiva (14,8%), de Gestão e Cuidados em Saúde (13%), de Saúde, Clínicas e Instituições (11,1%) e 11,1% pelo Imar/Unifesp, ainda em 2018 enquanto departamento.

Comparando com o ano de 2014, podemos observar a ampliação das áreas de inserção, inicialmente com um predomínio dos projetos na área da Saúde (66,3%), com maior crescimento percebido nas áreas do Meio Ambiente e da Cultura atrelado à expansão da atuação do recente Imar/Unifesp que, naquele ano, realizava apenas 1,3% dos projetos de extensão do campus.

A inscrição comunitária segue se intensificando na Baixada Santista em 2019, tendo em curso 72 projetos com relevante potencial inovador e de transformação social. A Câmara de Extensão e Cultura vem engendrando esforços para realizar o georreferenciamento dos mesmos, visando aumentar sua visibilidade e acompanhar os impactos dessa inserção.

 

Campus Baixada Santista • Extensão em números:
58 programas e projetos de extensão
7 cursos de aperfeiçoamento e especialização
2 programas de residência multiprofissional
118 cursos de extensão e eventos
Dados de 2018
 
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Programa de extensão reúne quatro projetos que levam a universidade até populações em situação de vulnerabilidade

Texto: Lu Sudré

Saúde, assistência social, educação popular e direitos humanos. Essas são as quatro áreas que entrelaçam os projetos de extensão universitária que integram o programa ComUnidade, vinculado ao Departamento de Saúde Coletiva da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) - Campus São Paulo. Com o objetivo de atuar diretamente com populações em situação de vulnerabilidade e de construir um vínculo real com comunidades externas à universidade, os projetos Saber Cuidar, Periferia dos Sonhos, A Cor da Rua e Envelhecer com Arte são desenvolvidos por estudantes dos cursos de Enfermagem, Medicina, Biomedicina e Fonoaudiologia. 

Para Anderson Rosa, coordenador do programa de extensão, o grande diferencial do ComUnidade é que seus projetos trabalham com a lógica da co-gestão, onde professores, estudantes e pessoas atendidas têm o mesmo espaço para opinar e desenvolver ações conjuntas. “Mesmo sendo coordenador, meu voto vale tanto quanto o voto de qualquer outra pessoa, seja um estudante ou até mesmo os membros da comunidade com as quais trabalhamos. Esse é o desafio ao qual o programa se propõe: fazer com que a sociedade interfira no andamento das ações que fazemos”, afirma Rosa.

Ao identificar as necessidades sociais que determinada população possui, alternativas são pensadas e desenvolvidas em conjunto. Rosa aponta que, ao fazer parte desse processo, a comunidade externa sente-se incluída e entende que há uma produção de conhecimento na universidade acessível e que faz diferença em sua realidade. "O tempo inteiro somos desafiados a produzir e pensar em soluções conjuntas, muitas vezes distantes das já consagradas na universidade. É como se estivéssemos traduzindo uma parte do conhecimento técnico das profissões para determinados contextos de vida. Criamos novos repertórios de atendimentos e de cuidados”, explica o coordenador.

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Saber Cuidar

Criado em 2001, o Saber Cuidar atua com moradores do bairro Jardim São Savério, região localizada na periferia sudeste do município de São Paulo e de alta vulnerabilidade social. Baseado nos conceitos do filósofo e educador Paulo Freire, o projeto incorpora educação popular e atividades lúdicas à sua metodologia. O trabalho resultou em anos de formações na área da saúde com crianças e adolescentes da Escola Estadual Dr. Álvaro de Souza Lima, com temas propostos pelos próprios jovens, estruturados de forma lúdica por meio da música e da arte. 

Sua coordenadora e enfermeira do Departamento de Saúde Coletiva (EPE/Unifesp), Danila Cristina Paquier, afirma que o projeto está sendo expandido, desde o ano passado, para demais moradores do bairro, priorizando a abordagem do processo de envelhecimento e desenvolvimento de condições crônicas - principalmente o câncer. “São realizados encontros com o paciente e sua rede de apoio - família, amigos, vizinhos, militantes da comunidade e profissionais da saúde -, que compartilham vivências e fortalecem vínculos. Nesse processo, os estudantes constroem e propõem intervenções pautadas nas necessidades de saúde observadas”, conta Paquier. Ela relata que, somente em 2019, foram realizados 33 dessas rodas de conversa. “No total, participaram cinco pacientes diagnosticados com câncer, cerca de 20 pessoas da comunidade e três agentes comunitários de saúde".

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www.facebook.com/sabercuidar.redesvivas

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Envelhecer com Arte

A população idosa também tem espaço garantido no programa ComUnidade. Por meio de encontros e saraus literários, o Envelhecer com Arte estuda a gerontologia à luz das artes. Coordenado pela enfermeira Sônia Maria Garcia Vigeta, o projeto existe desde 2013 e ressalta a importância do protagonismo da população idosa e da formação de uma sociedade inclusiva. Ao estimular a paixão pela leitura e a criatividade, o Envelhecer com Arte fomenta um relacionamento intergeracional e um aprendizado colaborativo entre extensionistas e idosos que participam do projeto.

www.facebook.com/envelhecercomarte/

www.instagram.com/envelhecercomarte/

Periferia dos Sonhos

Esse projeto trabalha com pessoas em situação de rua abrigadas no Centro de Acolhida Portal do Futuro, localizado na zona norte da cidade de São Paulo, e mulheres em situação de vulnerabilidade acolhidas na maternidade pública Amparo Maternal, localizada próxima ao Hospital São Paulo. Mais recentemente, passou a atuar no Centro de Acolhida Florescer, destinado às mulheres transgênero e travestis em situação de rua. 

De acordo com Anderson Rosa, que compartilha a coordenação desse projeto, atuar com diferentes populações e questões de saúde específicas incentiva uma formação mais completa dos extensionistas, que aprendem a considerar como questões sociais influenciam o adoecimento. “Temos uma formação muito técnica, focada em tecnologia, procedimentos, habilidades. Na vida real, o paciente denota uma dimensão da vida que extrapola a teoria. Por meio desses projetos os graduandos adquirem repertórios e habilidades que serão úteis na vida profissional”.

Isabela Bombonato de Almeida, estudante do 6º período do curso de Enfermagem, é prova viva desse processo. Extensionista do Periferia dos Sonhos desde o primeiro semestre da graduação, já participou de um congresso internacional representando o projeto. Para ela, essa experiência tem sido essencial à sua formação, ensinando responsabilidade, empatia, criatividade e respeito. “Nos centros de acolhida, aprendemos uns com os outros. Da mesma forma que levamos aos acolhidos conteúdos aprendidos na faculdade, eles nos ensinam com cada experiência de vida. Para a sociedade, há o retorno do investimento na universidade pública, por meio de informação crítica e científica, para quem sabe, mesmo que lenta, haja uma transformação”, conta.

www.facebook.com/periferiadossonhos

A Cor da Rua

Mais recente em relação aos outros três projetos de extensão, A Cor da Rua promove formação a profissionais da rede pública com a participação dos usuários desses serviços, principalmente pessoas em situação de rua, imigrantes e refugiados. Além de buscar garantir o acesso dessas populações à saúde, visa alcançar o desenvolvimento de boas práticas de saúde mental na comunidade por meio de ações da própria comunidade. Participam regularmente 25 estudantes de graduação e cinco de pós-graduação. Segundo Carmen Santana, coordenadora do projeto, psiquiatra e professora do Departamento de Saúde Coletiva da EPE/Unifesp, os processos de formação já beneficiaram diretamente mais de 500 profissionais. 

Entre as atividades do projeto, realizadas em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, lideranças da população de rua e do movimento de luta por moradia, destacam-se a promoção de 15 seminários abertos à comunidade que já contaram com mais de três mil participações. “Os seminários oferecem um espaço aberto e participativo para expor ideias, dúvidas, sugestões e experiências sobre a vida em situação de rua", explica a coordenadora.

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Curso Práticas de Atenção Integral e Promoção de Direitos Humanos na Situação de Rua

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V Seminário A Cor da Rua: abordagens ao uso de álcool e outras drogas

www.acordarua.eco.br

www.facebook.com/projetoacordarua

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“As pessoas em situação de vulnerabilidade são pessoas que não estão acostumadas a ter alguém olhando para elas. Nós priorizamos muito o vínculo, o contato afetivo, o envolvimento com as pessoas e com as histórias. Isso traz uma relevância simbólica importante, assim como as ações concretas. Quando ensinamos uma coisa, estamos ajudando a promover saúde, assistência social, direitos humanos e cidadania"

Anderson Rosa, coordenador do programa de extensão ComUnidade

 
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Segunda, 30 Dezembro 2019 15:59

Amor e ciência em toques que fazem diferença

Considerado um dos programas de extensão mais antigos da Unifesp, o MEB ensina como a massagem pode ajudar mães na ampliação do vínculo afetivo e no estímulo ao desenvolvimento de seus bebês

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(Fotografia: Alex Reipert)

Texto: Denis Dana

Ciência em movimentos que aproximam mães e pais de seus filhos, estreitam laços e contribuem para o desenvolvimento infantil. Assim pode ser caracterizada a shantala, técnica de massagem que surgiu na Índia e que tem sido estudada de maneira aprofundada desde 1996 pelo Grupo de Estudos Massagem e Estimulação com Bebês (GEMEB). Vinculado ao Departamento de Enfermagem Pediátrica da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) – Campus São Paulo, o trabalho, que se iniciou como um projeto, evoluiu, passando a ser chamado de Massagem e Estimulação com Bebês (MEB), integrando três ações educativas – grupo de estudos, grupo terapêutico e oficinas para estudantes, profissionais da saúde e da educação infantil – e transformou-se em um dos programas de extensão mais antigos da Unifesp.

“Naquela época já era perceptível a necessidade de preparar de maneira mais adequada os futuros profissionais da saúde com conhecimentos sobre o desenvolvimento neuropsicomotor e afetivo, de forma a entender que faz parte da promoção à saúde da criança o fortalecimento das competências dos adultos, assim como a valorização de momentos de cuidado como espaço educativo”, explica Maria das Graças Barreto da Silva, docente na EPE/Unifesp, que está à frente do trabalho desde a sua criação.

Essa percepção foi, então, grande motivação para a criação do grupo. Para Silva, “por meio do trabalho corporal propiciado pela massagem, realizada de forma sistematizada, possibilitou-se ampliar fronteiras que, além de preencher essa lacuna, viabilizou compartilhar saberes com as famílias”, explica.

Conhecimento e difusão do saber

No início do projeto os benefícios da massagem ainda eram desconhecidos. “Ela era usada muito mais como uma estratégia didática, um chamariz para atrair os estudantes para a necessidade de se conhecer mais profundamente o comportamento dos bebês e torná-los sujeitos da ação”.

Nessa época, o desafio do então GEMEB era compartilhar com a população saberes produzidos academicamente sobre o desenvolvimento infantil por meio da prática da shantala. Enquanto isso, os estudos acerca da massagem em bebês começavam a indicar seus benefícios, como a melhora na comunicação entre mãe e bebê, o relaxamento e os estímulos ao desenvolvimento motor e sensorial da criança, entre outros.

Em 2017, um novo marco para a shantala

Enquanto o trabalho era desenvolvido e se consolidava como uma importante contribuição da ciência em forma de amor e respeito entre mães e seus pequenos, o Ministério da Saúde também compreendia o valor desse tipo de intervenção. Em março de 2017, o órgão inseriu a shantala na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares como abordagem de cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Essa inserção foi um marco da shantala aqui no Brasil, já que trouxe como possibilidade ofertá-la no âmbito da saúde pública. Ampliou, também, as probabilidades de realização de pesquisas em outros cenários, como o hospitalar e o educacional, o que só vem a somar ao trabalho realizado pelo MEB”, ressalta Silva.

Na Unifesp, a difusão dos benefícios da shantala também causou impacto positivo, cativando o interesse de muitos estudantes pelas suas ações educativas. Mais de 860 universitários passaram pelo programa de extensão. Grande parte teve origem na EPE/Unifesp. Mas, o MEB também recebe estudantes dos cursos de Fonoaudiologia, Medicina e Pedagogia. “São acadêmicos da Unifesp que se inscrevem para aprofundar seus conhecimentos acerca do desenvolvimento infantil, tendo como base as potencialidades envolvidas nessa técnica de massagem com bebês”, explica a coordenadora.

Atualmente, o grupo conta com a participação de 19 estudantes. Maria Luiza Souza Santos, 19, e Fernanda Isabela Ferreira, 23, fazem parte da equipe como monitoras. Ambas cursam o 2º ano de Enfermagem e logo que ingressaram na universidade se interessaram em integrar o MEB.

“O aprendizado vai muito além da técnica da massagem. Nesse programa de extensão, aprendemos também outros princípios, como o momento em que se deve focar na criança, a importância do estímulo para o desenvolvimento infantil e até na atuação profissional, com a criação de um olhar diferenciado e mais observador para os bebês. Esse conhecimento é fundamental para minha pretensão, que é seguir carreira na enfermagem pediátrica, com foco na promoção da saúde e qualidade de vida para as crianças”, diz Maria Luiza.

O desejo é compartilhado por Fernanda, que ao ingressar no curso de Enfermagem já pensava em trabalhar com bebês e crianças. “A experiência obtida no programa de extensão certamente nos ajudará a lidar e dialogar melhor com as mães de nossos futuros pacientes, além de nos ensinar a compreender e respeitar o momento do bebê, cuidado fundamental no trabalho de atendimento humanizado”, relata a estudante.

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A monitora Fernanda Isabela Ferreira ensina os movimentos para Bibiana e seu bebê 
(Fotografia: Alex Reipert)

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A estudante Maria Luiza Souza Santos em sessão de shantala com Lucilene e seu filho
(Fotografia: Alex Reipert)

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Grupo de Estudos Massagem e Estimulação com Bebês (GEMEB)

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Maria das Graças Barreto da Silva (EPE/Unifesp), coordenadora do trabalho
(Fotografia: Alex Reipert)

Cumplicidade, afeto e mais benefícios 

Nesses 23 anos de atividade, o MEB soma o atendimento a 1.840 famílias. “No Centro de Incentivo e Apoio ao Aleitamento Materno (Ciaam), onde acontecem as sessões de shantala, já recebemos alguns casais, mas a maior parte do público atendido é formado por mães, das mais variadas idades”, descreve Silva. “São pessoas de diferentes classes sociais e regiões da cidade, que buscam ampliar o vínculo afetivo com seus filhos”, explica.

Foi exatamente esse o motivo que fez Lucilene Monaris da Silva Araújo, 37, mãe de um bebê de seis meses, procurar o grupo. “Tive dificuldades na amamentação e ao procurar auxílio no Banco de Leite, descobri que a Unifesp também oferecia esse tipo de serviço”, destaca Lucilene.

Ao todo, foram cinco sessões de shantala sob a orientação da coordenadora e equipe, com mudanças e avanços já percebidos pela mãe. “Aprendi a explorar as sensações dele por meio do toque e fortaleci nosso vínculo, nossa afinidade. Também percebi que a massagem tem auxiliado no desenvolvimento de sua parte motora, com o fortalecimento das pernas e a evolução em alguns movimentos, como o rolamento. Ele está mais autoconfiante e mais independente”, comemora Lucilene. 

Bibiana Lima de Jesus Ferreira, 39, é outra mãe frequentadora do MEB. Veio por intermédio de uma amiga e também se encantou pelos benefícios proporcionados pela shantala ao seu filho de seis meses. “Esse é o momento só nosso, quando permanecemos juntos e totalmente integrados. Em cinco sessões, percebi que nos divertimos, relaxamos e estreitamos ainda mais nossos laços, o que é muito gratificante”, descreve.

Além do vínculo entre mãe e filho, tanto Bibiana quanto Lucilene fizeram questão de destacar o laço estreitado entre sociedade e universidade por meio do trabalho do MEB. “É muito bom saber que a sociedade, por meio de serviços do SUS, oferecidos gratuitamente, pode ter acesso a uma parcela de todo o conhecimento que é produzido dentro de uma universidade. Para nós, trata-se de um aprendizado de imensurável valor”, explica Bibiana.

A origem do nome shantala

Em uma de suas visitas ao sul da Índia, o renomado médico ginecologista e obstetra francês Frédérick Leboyer ficou hipnotizado ao ver, em plena rua, uma jovem indiana paralítica massagear seu bebê em um verdadeiro ritual de carinho e cumplicidade. O momento de grande paz expresso naquele vínculo contrastava com o ambiente hostil daquele local, uma favela de Calcutá.

Encantado com a cena, Leboyer se aproximou e descobriu que aquela jovem mãe se chamava Shantala e que aqueles toques eram tradicionalmente ensinados, passados de mãe para filha.

O médico pediu autorização para registrar em fotos cada movimento que Shantala fazia em sua criança. As imagens, então, foram transformadas em um livro que o médico francês difundiu na Europa com o nome de sua modelo inspiradora.

A técnica de massagem logo extrapolou as fronteiras e ganhou projeção mundial, com todos os seus benefícios diretamente ligados à saúde e ao afeto entre mães, pais e filhos.

www.instagram.com/gemebunifesp/

www.facebook.com/GEMEBunifesp/

 
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Segunda, 30 Dezembro 2019 15:29

A sustentável leveza do acolher

Programa de extensão universitária oferece atendimento oncológico integral e interdisciplinar

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(Fotografia: Alex Reipert)

Texto: Matheus Campos

Do diagnóstico ao tratamento, como compreender os maiores anseios de um paciente acometido pelo câncer? Segundo a professora Edvane de Domenico, do Departamento de Enfermagem Clínica e Cirúrgica da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) - Campus São Paulo, é fundamental enxergar o indivíduo de maneira holística. Nas dependências do hospital, cumpre torná-lo visível e dar atenção às suas necessidades, inclusive durante a espera pelo atendimento. Aos estudantes que orienta, ela diz que é preciso manter os “radares ligados” e entrever os pedidos de ajuda nos olhares e nos semblantes de cada paciente. É necessário acolher.

De acordo com o dicionário, o verbo acolher está relacionado a proteção, amparo e conforto. O acolhimento se dá pela forma com que alguém se mostra presente ao outro. Acolher é valorizar e considerar. Foi da essência desse conceito que surgiu o nome Acolhe-Onco, um programa de extensão universitária com ações educativas e assistenciais destinadas aos pacientes portadores de doenças oncológicas. O programa é coordenado pela docente e atende usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

Cuidado integral

Criado em 2008, a partir de uma iniciativa conjunta entre a EPE/Unifesp e o Departamento de Oncologia Clínica e Experimental da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), o Acolhe-Onco é um serviço multiprofissional que contempla as áreas de Enfermagem, Medicina, Serviço Social, Farmácia, Nutrição, Fisioterapia, Psicologia e Odontologia, entre outras.

“O principal objetivo é melhorar a rede de atendimento oncológico de forma a oferecer uma infraestrutura que viabilize a possibilidade de o paciente ser cuidado dentro de suas necessidades múltiplas”, explica a coordenadora. Segundo ela, a aproximação com a pessoa atendida torna-se mais humanizada e não apenas técnica. 

“É impactante a forma como você lida com o paciente e como ele lida com você – é uma troca”, ressalta Maria Eunice Carvalho, estudante do 3° ano de Enfermagem da EPE/Unifesp e monitora do Acolhe-Onco desde abril de 2019. A futura enfermeira relata que começou a perceber a vida e a graduação com outros olhos após a entrada no programa. 

A equipe multiprofissional se dedica aos ambulatórios de Oncologia Geral e de Onco-Hematologia do Hospital São Paulo, nos quais são atendidos, em média, 40 pacientes por dia. “Claro que nem todas as pessoas acolhidas são vistas por profissionais de todas as áreas. Por exemplo, se um paciente passa por uma consulta médica e precisa de cuidados que competem a um enfermeiro, receberá – na sequência – as orientações da enfermagem; nos casos cuja demanda é relacionada à nutrição, poderá ser encaminhado diretamente aos nutricionistas”, esclarece a docente.

Além da coparticipação no programa de residência multiprofissional em Oncologia, o Acolhe-Onco possui parcerias técnico-científicas com o A. C. Camargo Cancer Center e o Hospital Amaral Carvalho, situados respectivamente nas cidades de São Paulo e Jaú, em São Paulo. O intuito dessas colaborações é fortalecer a produção técnico-científica com o compromisso de aprimorar a qualidade da assistência em saúde. 

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Equipe do Acolhe-Onco realiza atendimento social e efetua curativo em paciente com câncer (Fotografia: Alex Reipert)

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A docente Edvane de Domenico e demais membros do Acolhe-Onco atuam na supervisão das ações assistenciais (Fotografia: Alex Reipert)

Vulnerabilidade social

A maioria dos pacientes com câncer atendidos pelo SUS faz parte de uma realidade em que se evidenciam vulnerabilidades sociais. No geral, são indivíduos pertencentes a classes econômicas menos favorecidas, moradores de áreas geográficas periféricas ou municípios próximos. Trata-se de uma população em desvantagem econômica, educacional, cultural e ambiental. O Acolhe-Onco auxilia no serviço prestado a muitos pacientes nessas condições, os quais já apresentavam a doença em estágio avançado no momento do diagnóstico e com baixos índices de sobrevida em cinco anos.

“Apesar das fragilidades, essa população é ávida por conhecimentos na área da saúde; então, ela não pode ter a capacidade minimizada no entendimento do processo saúde-doença”, destaca Domenico. Para esta, os pacientes, os cuidadores e os familiares apropriam-se de habilidades e de conhecimentos se forem adequadamente avaliados, orientados e acompanhados no processo de adoecimento pelo câncer. 

Em busca do melhor 

O programa de extensão organiza reuniões mensais (em média, com 25 participantes) que agregam os diferentes profissionais e alunos envolvidos. Trata-se de um momento importante para o crescimento científico e para o monitoramento das necessidades e do padrão de qualidade do programa. 

“Sempre tive medo da área de Oncologia por achar que nela ocorreriam mortes frequentes, mas, ao invés de tristeza, eu vi muita luz, muita vida”, enaltece Ricardo Matheus, estudante do quarto ano de Enfermagem da EPE/Unifesp. Em consonância com o grupo, reconhece o quão gratificante é o crescimento pessoal, profissional e estudantil ao participar do Acolhe-Onco. Quando define sua experiência com os atendimentos, cita Carl Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.

Serviços prestados

Acolhimento integral 
  • Atendimento individualizado
  • Aconselhamento telefônico: contato direto por meio de ligações ou mensagens (em média, 120 solicitações por mês), garantindo segurança ao paciente, manejo de sinais e sintomas, educação e apoio para a adesão terapêutica 
  • Impressos e vídeos educativos: informações importantes e orientações sobre o tratamento para os pacientes e seus familiares

www.facebook.com/acolheonco

Neste e no próximo ano, o Acolhe-Onco adotará a cartilha We can, I can, proposta pela Union for International Cancer Control (UICC) no biênio 2016-2018. Nessa organização não governamental, sediada na Suíça, diferentes temas são abordados para conscientizar profissionais da saúde, educadores, pacientes e o público em geral sobre prevenção, detecção precoce, esclarecimento de direitos e aprimoramento da assistência integral relativos ao câncer.

 
Publicado em Edição 12
Segunda, 30 Dezembro 2019 15:00

Batalhas educativas

Jogo de tabuleiro favorece o aprendizado sobre doenças infecciosas causadas por parasitas

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(Fotografia: Alex Reipert)

Texto: Daniel Patini

Fixar e complementar o conhecimento obtido em sala de aula sobre doenças infecciosas, utilizando um formato divertido. Com esse propósito em mente, a equipe do projeto de extensão Patógenos em Jogo, sob a coordenação de Katia Oliveira e Erika Suzuki, docentes do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, tem se aventurado, desde 2016, no desenvolvimento de jogos educativos. O projeto é composto por diversos profissionais e estudantes de graduação de diferentes áreas – Biomedicina, Enfermagem, Biologia, Design de Games – e instituições.

Como primeiro resultado desse trabalho, foi lançado em junho deste ano o jogo de tabuleiro Guerra dos Patógenos - os parasitas atacam, que auxilia no aprendizado sobre diversas parasitoses, ao mesmo tempo em que são exercitados conhecimentos das áreas de Ciências, Biologia, Geografia e Matemática. "Ele serve para revisar essas doenças ensinadas durante os ensinos fundamental e médio, sendo que também foram incluídos parasitas que não constam no conteúdo escolar e que têm grande relevância epidemiológica", explica Oliveira.

Segundo as coordenadoras, o jogo promove o conceito denominado edutainment, termo derivado da junção das palavras educação e entretenimento em inglês. "São características do edutainment contribuir para o engajamento e incentivar a curiosidade e a interação. Em razão de o material ser portátil e prático, pode ser aplicado fora da sala, em qualquer lugar", descreve Suzuki. “Ele possui como público-alvo crianças e adolescentes, mas nossos testes mostraram bem que o jogo é para qualquer idade”, Oliveira enfatiza.

Como a primeira versão do Guerra dos Patógenos aborda especificamente os parasitas (artrópodes, helmintos e protozoários), existe a possibilidade de expandi-lo, nos próximos anos, para o ensino de outros micro-organismos, como bactérias, vírus e fungos, além das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Há ainda uma vontade de transformá-lo em um jogo digital, que possui grande capacidade de difusão. “Estamos bem animados, pois está tomando proporções que não imaginávamos”, comemora Suzuki, ao citar, por exemplo, o interesse da Secretaria Municipal de Educação em aplicá-lo nas escolas. Ademais, a equipe quer comercializar o jogo.

Retrospectiva

As coordenadoras relembram os primeiros passos do projeto, em 2016, quando surgiu a ideia de elaborar um jogo sobre doenças infecciosas, especificamente, na área de atuação de ambas: a Parasitologia. Foi feita uma chamada por meio de rede social e cartazes no campus, com o intuito de recrutar estudantes para elaborar jogos. Para surpresa delas, houve muitos inscritos, os quais tiveram que passar por uma seleção.

Foram meses refletindo sobre os tipos de jogos, os temas e sobre o desenvolvimento em si, como seu conceito, regras e protótipos. O grupo se encontrava semanalmente para jogar, visando aprimorar o material. "Como estávamos abertos para as sugestões, foram momentos de intensa troca de informações, de muito aprendizado. Cada um contribuía à sua maneira", alega Oliveira.

Naquele mesmo ano, já com todas as regras estipuladas e os protótipos das cartas feitas de cartolina e pintadas à mão, a equipe realizou os primeiros encontros para aplicação do jogo, tanto com professores quanto com estudantes. Eles deram sugestões bastante pertinentes, que foram sendo incorporadas ao jogo. "Em outubro, já estava tudo concebido, incluindo o nome", recorda Suzuki.
 

Entreteses038 testes com estudantes dos ensinos fundamental e medio

Testes com estudantes dos ensinos fundamental e médio em um encontro das equipes do Patógenos em Jogo, do Coletivo da Ciência – vivenciando a Biologia e do Instituto Trata Brasil em maio de 2018

Entreteses038 Um dos primeiros prototipos sendo testado

Um dos primeiros protótipos sendo testado com os membros da própria equipe do projeto

Entreteses038 coordenadoras do projeto Katia Oliveira e Erika Suzuk

As coordenadoras do projeto, Katia Oliveira (à esquerda) e Erika Suzuki (à direita) / Fotografia: Alex Reipert

Como funciona?

Cada jogador recebe seis cartas, cada uma delas com uma pontuação. O seu objetivo é dominar o mundo com os parasitas. Para isso, é preciso estar atento à distribuição geográfica e às características deles, que estão contidas nas cartas. Ganha quem conquistar o maior número de territórios por meio das batalhas travadas pela associação entre a transmissão e a prevenção da parasitose. 

"As ações podem favorecer ou prejudicar o seu patógeno ou o do seu oponente", relata Oliveira. "O jogo é muito dinâmico. Pode ser que um jogador esteja ganhando, com vários territórios dominados e, de repente, tudo muda, pois o restante do grupo se junta contra essa pessoa", continua Suzuki, ao relatar o dinamismo do jogo. Participam de três a seis jogadores por partida.

Aprendizagem comprovada

Em busca de confirmar a eficiência do Guerra dos Patógenos - os parasitas atacam, no aprendizado do usuário, a estudante Cecília Lumi Kakuda, do curso de Enfermagem da Unifesp, desenvolveu seu trabalho de conclusão de curso (TCC) com base nos testes do jogo. Ela aplicou provas para os estudantes dos ensinos fundamental e médio, de oito escolas públicas e particulares, antes e depois de eles jogarem, individualmente e em grupo. 

"Os resultados demonstraram que, independente do conhecimento prévio de cada estudante, foi observado que a aprendizagem é igual entre eles, mesmo quando são comparadas as escolas públicas com as particulares. É uma ferramenta eficiente para ser aplicada em qualquer realidade", resume Oliveira. "Com ele, percebemos que é possível mudar uma determinada realidade social por meio de um gesto pequeno", ela conclui. Os dados completos serão publicados, em breve, em um artigo científico.

Patrocínio

O Instituto Trata Brasil foi a empresa vencedora do chamamento público para captação de patrocínio do jogo, sendo responsável pela confecção de mil unidades, das quais 300 ficaram com a empresa e 700 serão distribuídas às escolas públicas e particulares de todo o país, selecionadas após demonstrarem interesse pelo jogo. Lançado em novembro de 2017, esse foi o primeiro chamamento público realizado pela universidade.

Líder de projetos sociais do instituto, Edna Cardoso relata que ficou encantada quando conheceu o trabalho do projeto de extensão. Ela explica ainda que o Trata Brasil tem trabalhado com jovens universitários da área de jogos focados no tema saneamento. "Temos essa função de conscientizar e mobilizar estudantes que se tornarão profissionais com referência social", destaca. Vale lembrar que o Brasil é um dos países com o maior número de Doenças Tropicais Negligenciadas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), tais como doença de Chagas, leishmaniose, esquistossomose, teníase, cisticercose, dengue, entre outras.

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Os elementos do jogo são: cartas-patógenos (30), cartas de ação com medidas profiláticas (40), seis pinos, marcadores e tabuleiro

 

www.patogenosemjogo.com.br

www.facebook.com/patogenosemjogo

 

 
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EPE e EPM, tradicionais escolas que compõem o Campus São Paulo, totalizavam sete programas e 28 projetos de extensão em 2018

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Fotografia: José Luiz Guerra

 

Maria das Graças Barreto da Silva
Vice-coordenadora da Câmara de Extensão e Cultura da Escola Paulista de Enfermagem

Os programas e projetos de extensão da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) - Campus São Paulo denotam uma construção pedagógica e ético-formativa, sobretudo na possibilidade de gerar conhecimentos a partir da interação com a comunidade. Com áreas temáticas variadas em saúde, direitos humanos e justiça, passando pela comunicação e cultura, entre outras, um novo perfil de profissionais para o cuidar se evidencia, com a elaboração de conhecimentos que consideram a sensibilidade, a afetividade e as diferentes linguagens em uma relação que decorre da convivência. 

Compartilhando essa compreensão, têm-se percorrido trajetórias que consideram a responsabilidade social da academia na formação dos profissionais de saúde para o cuidar. Trajetórias delineadas pelos programas e projetos de extensão, em cenários que possibilitam aos participantes vivenciar ações educativas voltadas à realidade social. Por meio dessas ações, encontram-se oportunidades de superar a dicotomia forjada culturalmente entre a academia e a sociedade, por meio da interação de saberes. Com isso, abre-se um panorama ideal para a formação de profissionais aptos a praticar um cuidado mais humano, visando contribuir para a melhoria dos serviços de saúde.

 

Ramiro Anthero de Azevedo
Coordenador da Câmara de Extensão e Cultura da Escola Paulista de Medicina

A Câmara de Extensão e Cultura (Caec) da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo respondeu em 2018 pela implementação de 84 programas de residência médica, registrados no MEC (com 1.041 residentes), 132 cursos de especialização/aperfeiçoamento, 41 cursos de extensão e 73 eventos. 

Uma das atividades previstas para o futuro próximo é o reconhecimento da Vila Clementino como Bairro Amigo do Idoso, ação coordenada pelo docente Luiz Roberto Ramos. Esse tema poderia ser aglutinador e inclusivo, não só dentro da EPM/Unifesp, mas também do Campus São Paulo, pois já estabelecemos uma conexão com o bairro, construída por meio de importantes projetos como a Universidade Aberta para as Pessoas Idosas (Uapi). Temos, ainda, uma estrutura local de saúde, direcionada a essa população”.

 

Campus São Paulo • extensão em números:
35 programas e projetos de extensão
141 cursos de aperfeiçoamento e especialização
84 programas de residência médica
14 programas de residência multiprofissional
137 cursos de extensão e eventos
Dados de 2018
 
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Segunda, 30 Dezembro 2019 10:29

Aprendendo a conviver com a dor

O Grupo de Apoio a Pacientes com Fibromialgia (Gafibro) visa expandir modelo ao SUS em parceria com o Telessaúde Brasil Redes

Texto: Valquíria Carnaúba

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(Fotografia: Alex Reipert)

O Grupo de Apoio a Pacientes com Fibromialgia (Gafibro) é um dos programas de extensão mais antigos da Unifesp. Criado em 2008, trata-se de uma iniciativa que reúne mensalmente pessoas acometidas pela síndrome, que provoca dores no corpo por longos períodos. Como ainda se sabe pouco sobre a doença, das causas à cura, seu diagnóstico e tratamento não seguem uma cartilha definida na Medicina. Essa lacuna é preenchida atualmente por tratamentos terapêuticos diversos, a exemplo do Gafibro, que se mostra a cada dia um caminho seguro para pacientes se fortalecerem diante da doença por meio da troca de experiências.

Coordenado por Felipe Azevedo Moretti, fisioterapeuta vinculado ao Núcleo de Telessaúde da Unifesp, e por Cícero Inacio da Silva, coordenador adjunto do Programa Telessaúde Brasil Redes, o grupo já atendeu mais de duas mil pessoas nesses 11 anos de atividade. Os encontros são realizados semanalmente nas dependências do Clube Escola Unifesp, no bairro paulistano da Vila Clementino, e são incrementados vez ou outra por palestras, atividades físicas e de relaxamento (por meio da ioga, por exemplo). 

Moretti relata que, no início, o plano era transformar o Gafibro em uma associação de pacientes, aplicando o conceito de grupo operativo (terapia de grupo) - elaborado por Enrique Pichon Rivière, psiquiatra e psicanalista suíço. “Dessa forma, seria possível encorajar os membros do grupo a propagar seus conhecimentos e incentivar outras pessoas a superar os desafios impostos pela Fibromialgia”, comenta. Tornar-se uma associação permanece uma meta a longo prazo, mas o modelo de grupo operativo foi efetivamente implantado: seus membros mais antigos, além de participarem dos encontros, lançaram-se ao desafio de coordenar novos grupos terapêuticos orientados ao projeto original. 

Esse desmembramento foi uma solução encontrada por Moretti para resolver, a curto prazo, os principais obstáculos atuais à expansão do projeto. Com um espaço reduzido à disposição, cada encontro ocorre com, no máximo, 15 pessoas, o que dificulta a incorporação de novos membros e a manutenção do modelo de Pichon Rivière. Além disso, a condução das reuniões por profissionais da saúde depende exclusivamente de trabalho voluntário. “Para mantermos nosso atendimento como portas abertas, capacitando cada vez mais pessoas, seria aconselhável a formação de grupos com tempo de atuação finito. Mas como os pacientes com fibromialgia tendem a se isolar por se sentirem pouco compreendidos, deixar de ofertar esse acolhimento não seria a melhor alternativa”, reflete. 

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“Não tem bom humor quem tem dor”, diz Ivete Ungaretti,  que, junto com Yvone Ivanir Petrone e Ana Raquel Almeida Iorio, foi diagnosticada com fibromialgia há mais de 15 anos. Elas frequentam o grupo desde seu início. (Fotografia: Alex Reipert)

“Você dorme duas a três horas por noite, quando dorme. Troca colchão, travesseiro, desliga a TV, liga a TV, acende a luz, apaga a luz, e assim vai. Trabalho como voluntária em um grupo de escoteiros em Interlagos. Não dá para parar. Com dor em casa e dor na rua, eu vou para a rua”.

Ivete Ungaretti

“Fui diagnosticada com fibromialgia há cinco anos. Faço questão de frequentar o grupo. Só de conversar com pessoas que falam a mesma língua, que têm os mesmos sentimentos, é muito bom. Nos dias que você está bem, você quer fazer tudo o que não fez nos outros dias. Certo dia, decidi andar em um bosque. Caminhei 4 km e travou tudo, começou a doer mais ainda. Cheguei a me inscrever na hidromassagem, mas saía pior do que quando entrava. Dizem que ela se manifesta em momentos traumáticos da vida. No meu caso, foi a perda de emprego. Após 19 anos em uma empresa, fui dispensada. Não sei se porque a empresa estava em declínio, aquilo mexeu comigo. Quando a gente se vê com a síndrome, é muito difícil se livrar”.

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Heloisa Rovaroto Britto Neves (Fotografia: Alex Reipert)

Solução na telessaúde

O Gafibro é um programa de extensão vinculado à Universidade Aberta do Brasil (UAB/Unifesp). Isso porque almeja a expansão de seu modelo de atendimento ao Sistema Único de Saúde (SUS) com a capacitação de novos agentes da saúde básica - médicos, enfermeiros e psicólogos. Segundo Moretti, a ideia é ofertar capacitações e assistência por meio do programa nacional Telessaúde Brasil Redes, cujo apoio assistencial ao SUS vale-se de ferramentas e tecnologias da informação e comunicação (TICs). “Esses profissionais de saúde seriam habilitados para criar e conduzir grupos terapêuticos, com foco em dor crônica, adaptados ao modelo de atendimento do SUS, para que os pacientes possam ser acolhidos nos seus respectivos territórios”, complementa.

A implantação desse sistema esbarra nas discussões atuais acerca de uma atualização da telemedicina no país, regulamentada em 2002 por meio da resolução n° 1.643, do Conselho Federal de Medicina (CFM). De acordo com o modelo atual, o Ministério da Saúde proporciona aos pacientes do SUS atendimento com um especialista à distância desde que esteja acompanhado por um médico especialista presencialmente. A atualização proposta pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) consiste na liberação de consultas on-line, telecirurgias e telediagnósticos, entre outras formas de atendimento à distância. 

Cláudia Galindo Novoa, coordenadora do Programa Telessaúde Brasil Redes na Unifesp, ressalta que é preciso distinguir telessaúde de telemedicina. “Telessaúde abrange tudo o que se faz (telefonoaudiologia, telepsicologia) e todos os profissionais que atendem outros profissionais de saúde ou discutem casos usando tecnologia digital. A telemedicina está dentro da telessaúde”, explica. As capacitações ofertadas pelo Telessaúde Brasil Redes, em específico, só podem ser ministrados por docentes vinculados a outro programa do Ministério da Educação (MEC), Universidade Aberta do Brasil (UAB), que estabelece parcerias com as universidades públicas para ofertar ensino à distância (EaD).

Para Novoa, a telessaúde tem grande potencial de elevar a qualidade de vida de quem se encontra fora do raio de alcance de hospitais à medida que ajuda a suprir dúvidas de médicos, evitando que haja um encaminhamento errôneo para outros especialistas. “No momento, é necessário chamar os pares para conversar, a fim de instituir a ampliação do escopo de atendimento com as regulamentações necessárias”. 

De acordo com Moretti, algumas dezenas de pessoas procuram o apoio do Gafibro mensalmente, inclusive pessoas de fora da cidade de São Paulo. As que não conseguimos encaixar no grupo, buscamos encaminhar para outros setores dentro da própria Unifesp. “Como damos prioridade aos que residem na região, arriscamos algumas experiências de suporte remoto. Uma delas foi uma jornada on-line realizada no Facebook, que chegou a ter 30 participantes e o monitoramento de grupos on-line com mais de 8.000 membros. É fundamental que isso se torne uma política de atendimento. A fibromialgia atinge de 2% a 4% da população brasileira, então é desejável que esse modelo atinja patamares de política de saúde pública”, finaliza.

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Membros do Gafibro comemoram mais um semestre de encontros, com comida, bebida e o usual intercâmbio de experiências e apoio (Fotografia: Alex Reipert)

 
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Segunda, 30 Dezembro 2019 09:30

(Trans)formando vidas

O Núcleo TransUnifesp reúne, há mais de três anos, diversas iniciativas voltadas à população transgênero e intersexo

Texto: Valquíria Carnaúba

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Fotografia: torbakhopper / flickr

Em maio de 2019, mês em que o desemprego atingia cerca de 13 milhões de brasileiros, o Núcleo TransUnifesp, por meio do projeto de extensão Extramuros, reuniu 40 pessoas no Anfiteatro Nylceo Marques de Castro (Campus São Paulo) para falar de empregabilidade e empreendedorismo entre o público trans. Maitê Schneider, uma das fundadoras do TransEmpregos, plataforma que intermedia pessoas trans e recrutadores do mercado de trabalho, compartilhou seus 32 anos de trajetória profissional. 

Schneider afirma que a regra entre pessoas transgênero é o abandono do estudo, refletindo em alto índice de ocupação em subempregos ou a opção pela prostituição. “Uma outra parcela das pessoas trans vai para o empreendedorismo devido a um sistema corporativo engessado, repleto de dogmas e filtros seletivos. Como há muitas que desejam, ainda assim, atuar nas corporações, é nosso papel potencializar esses sonhos”, observa a palestrante. 

Além dela, outros profissionais de atendimento do Núcleo TransUnifesp trocaram experiências nessa roda de conversa aberta ao público. Carlos Alberto Bricoli, terapeuta ocupacional, tratou, a partir do conceito de integralidade em saúde e sua relação com o direito ao trabalho, sobre a importância de realocar pessoas transgênero no mercado de trabalho.

As discussões levantadas nesse e em outros encontros evidenciam a atualidade e a inegável importância das ações extensionistas oferecidas pelo Núcleo TransUnifesp, coordenado por Magnus Dias da Silva, livre docente do Disciplina de Endocrinologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, e Denise Leite Vieira, psicóloga e professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da mesma instituição. A instância concentra um amplo conjunto de atividades de estudo e produção do conhecimento, acolhimento, promoção de saúde e cidadania das populações trans (mulheres transexuais, travestis, homens trans e gênero não binário) e intersexo (termo que se refere às mais de 40 variações em que uma pessoa nasce sem se encaixar no que é dito como feminino ou masculino).

Regido por uma Carta de Princípios relacionada à diversidade sexual, aprovada pelo Conselho Universitário (Consu/Unifesp), o Núcleo TransUnifesp compreende as atividades de graduação (estágios e trabalhos de conclusão de curso), assistência, por meio de seu ambulatório, e extensão universitária com o Programa Multtisaberes e os projetos vinculados – Extramuros e Diálogos de Capacitação, em execução, e os finalizados TransAmigo e Babadeires. “O sucesso do programa começou depois da primeira turma da disciplina eletiva oferecida para todos os estudantes de graduação da área da saúde, denominada Sexualidade e Saúde Sexual, criado e coordenado por Vieira. A partir de debates com estudantes, foram pensadas novas frentes extensionistas vinculadas ao núcleo”, observa Dias da Silva.

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Estudantes, docentes e voluntários presentes na reunião científica do Núcleo TransUnifesp, realizada em maio deste ano, sob o tema Mercado de Trabalho (Fotografia: Valquíria Carnaúba)

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Maitê Schneider afirma que diversas empresas ainda hoje têm dificuldade em sair da teoria e praticar a diversidade. “Nossa identidade ainda é muito ‘fetichizada’. Ou estamos nas páginas policiais, ou estamos no programa de televisão fazendo um show [que vou fazer no final para os que ficarem]”, brinca (Fotografia: Valquíria Carnaúba)

TERMO TENTATIVA DE DEFINIÇÃO
Sexo  Classificação biológica das pessoas como machos ou fêmeas, baseada em características orgânicas (cromossomos, hormônios e órgãos reprodutivos)
Intersexo  Pessoas intersexo apresentam, ao nascimento, infância ou na adolescência, variação da genitália (interna e externa) que não se encaixam na categorização binária macho ou fêmea
Orientação sexual  Classificação pessoal relativa a atração afetiva e sexual por outro. É a sexualidade vivenciada internamente em projeção com alguém de mesmo gênero (homossexual: gay ou lésbica), diferente (heterossexual), por ambos os gêneros (bissexual) ou indiferente (assexual)
Gênero  Classificação pessoal e social das pessoas como homens ou mulheres. Compreende um conjunto de papéis e expressões de gênero e independe do sexo de nascimento
Identidade de gênero  Gênero com o qual uma pessoa se identifica, que pode ou não concordar com o gênero que lhe foi atribuído quando de seu nascimento
Cisgênero  Pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído quando de seu nascimento
Transgênero  Pessoas trans que não se identificam, em diferentes graus e períodos de vida, com comportamentos e/ou papéis esperados do gênero que lhes foi atribuído quando de seu nascimento
Crossdresser  Pessoa que periodicamente se veste, usa acessórios e/ou reitera expressões de gênero diferentemente do que é socialmente estabelecido para o seu gênero atribuído ao nascimento, porém sem se identificar como travesti ou transexual
Transexual  Termo genérico que caracteriza a pessoa que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído quando de seu nascimento
Homem transexual  Pessoa que reivindica o reconhecimento social e legal como homem. Alguns também se denominam transhomens ou homem trans, ou ainda do inglês Female-to-Male (FtM)
Mulher transexual  Pessoa que reivindica o reconhecimento social e legal como mulher. Algumas também se denominam transmulheres ou mulher trans, ou ainda do inglês Male-to-Female (MtF).
Travesti Denominação autoproclamada de uma pessoa que vivencia papéis de gênero feminino, mas não se reconhece como homem ou mulher, entendendo-se como integrante de um terceiro gênero ou de um
não gênero
Drag Queen/Drag King Artista transformista que se veste de maneira estereotipada e alegórica, conforme os papéis de gênero masculino ou feminino, como arte ou entretenimento
Queer Pessoa trans não binária, ou andrógino, que não se enquadra em nenhuma identidade ou expressão de gênero fixa. Termo que pode variar em diferentes culturas e sociedades
   Fonte: JESUS, Jaqueline Gomes de. Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos. In: 2012. Guia técnico sobre pessoas transexuais, travestis e demais transgêneros, para formadores de opinião. [e-book] Disponível em: <http://www.sertao.ufg.br>. Acesso em: 26 Set. 2019.

Núcleo de Estudos, Pesquisa, Extensão e Assistência à Pessoa Trans Professor Roberto Farina

Há mais de três anos, o Núcleo TransUnifesp realiza, na última terça-feira de cada mês, reuniões abertas ao público para discussões e trocas sobre temáticas relacionadas à diversidade sexual e de gênero.

Ambulatório do Núcleo TransUnifesp

Inaugurado em 2017, é a parte assistencial do Núcleo TransUnifesp. Recebeu esse nome em memória a Roberto Farina, cirurgião plástico da EPM/Unifesp e pioneiro na cirurgia urogenital para transexuais no Brasil, em 1976. O atendimento ambulatorial conta hoje com profissionais das áreas da cirurgia plástica, endocrinologia, enfermagem, fonoaudiologia, ginecologia, psicologia, psiquiatria, serviço social, terapia ocupacional e urologia. Adicionados recentemente, residentes da endocrinologia, psiquiatria e medicina geral e de família também oferecem apoio. Abre suas portas à comunidade trans todas às terças-feiras, das 13h às 17h, na Rua Napoleão de Barros, nº 859.

Programa Multtisaberes de Cidadania e Saúde para Travestis, Transexuais e Intersexo 

Conjunto de atividades voltadas ao acolhimento e à promoção de saúde da população composta por travestis, mulheres e homens transexuais e intersexo. Visa, também, a troca de conhecimentos científicos e saberes populares. Apoia ações de outros setores acadêmicos da instituição e de movimentos sociais, como o Instituto Brasileiro de Transmasculinidade (Ibrat) e a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), visando à redução da homotransfobia. 

Projeto Diálogos de Capacitação do Atendimento

Pretende contribuir para o acolhimento e atendimento humanizado, livre de preconceito e discriminação, realizando rodas de conversa em cada setor solicitante, palestras, seminários, cursos e apresentação dialogada sobre diversidade sexual e de gênero para profissionais da saúde. A proposta não se restringe às equipes de saúde, mas compreendem todos os trabalhadores que atuam nos equipamentos de saúde da Unifesp e fora, especialmente em hospitais e unidades básicas de saúde (UBS).

Projeto Extramuros

Visa incentivar as ações de extensão protagonizadas pelos estudantes e profissionais de saúde - de dentro e de fora da universidade - a integrarem, por meio de reuniões mensais, fóruns, seminários, congressos e semana da diversidade, a população de travestis, mulheres e homens transexuais e pessoas intersexo.

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(Fotografia: Daniel Patini)

“A criação e o desenvolvimento das atividades do Núcleo TransUnifesp nesses últimos anos só foram possíveis porque conseguimos fazer aproximar e prosperar o espírito extensionista e transformador social, vanguardista e solidário, libertador e inovador no modo de pensar acadêmico dialógico, de um grupo de pesquisadores e estudantes. Para ele(a)s nossa gratidão: Adriano Brasolin, Aécio Gois, Ana Fanganiello, Anderson Rosa, Ariadne Ribeiro, Bernardo Bahe, Caroline Hur, Claudia Takano, Cristiana Silva, Cristiane Gonçalves, Ivaldo Silva, Daniela Monteiro, Danilo Rosa, Denise Vieira, Élen Santoro, Maria Ester de Almeida, Eunice Santana, Fernando Calderan, Fernando Silveira, Gustavo Parra, Giovanna Zavadzki, Jair Mari, Juliana Portas, Juliana Alves, Lydia Ferreira, Maria José Fernandes, Marair Sartori, Marisa Mota, Mariana Rosa Borges, Matheus Brandão, Nayla Pereira, Pedro Paulo, Natalia Rocha, Raiane Assumpção, Rafael Zeni, Raquel Pimentel, Renata Azevedo, Valéria Petri, Samira Yarak e Soraya Smaili.”

Magnus Silva

nucleotrans.unifesp.br

www.facebook.com/NucleoTransUnifesp/

 
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Quinta, 19 Dezembro 2019 09:50

Educação no combate à discriminação

Começando na sala de aula, Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab/Unifesp) é o principal responsável na universidade por ações de promoção da igualdade racial

Texto: Paula Garcia

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Estudantes do curso Cultura Afro-brasileira, na Unidade Avançada de Extensão Universitária Santo Amaro (Imagem: arquivo)

Após a redemocratização do Brasil, diferentes movimentos negros passaram a enxergar a educação como uma aliada ao combate à discriminação racial e à inclusão das minorias étnicas. Ações para difusão do conhecimento sobre a temática étnico-racial dentro de instituições de ensino foram ganhando expressão e visibilidade. Com a criação da Lei nº 10.639 de 9 de janeiro de 2003, instituindo a obrigatoriedade do ensino sobre história e cultura afro-brasileira nos estabelecimentos educacionais, e com a criação do Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, em 2004, os coletivos existentes ganharam força para o aumento de sua produção.

Em 2005, por meio do Programa de Ações Afirmativas para a População Negra nas Instituições Federais e Estaduais de Educação Superior (Uniafro), há o reconhecimento dessa representatividade dentro das instituições e alguns grupos começam a se organizar na forma de núcleos de estudos. “Antes as ações não eram unificadas, articuladas ou centralizadas em um órgão específico, mas de alguma forma respondiam a um conjunto de demandas que vinham sendo historicamente colocadas por ativistas dos movimentos negros no Brasil como um todo”, contextualiza o coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab/Unifesp), José Carlos Gomes da Silva.

Existem no Brasil mais de 150 Neabs atuantes nas instituições federais de ensino superior, conforme dados do último relatório da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), que visam desenvolver ações, quase sempre no campo da educação, mediante atividades extensionistas, que de alguma forma buscam aproximar a universidade da sociedade, em especial da população negra.

Neab como instância local

A história do Neab dentro da Unifesp começa quando Silva ingressa como docente no Departamento de Ciências Sociais da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos, no ano de 2009, já tendo em sua trajetória a constituição de um núcleo na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A partir de 2010, ao se reunir com Cleber Santos Vieira e mais alguns docentes negros do campus, se inicia uma conversa sobre a possibilidade de formação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros na universidade. “Isso não quer dizer que as ações aconteceriam só após a institucionalização. Esses professores, em conjunto com estudantes negros, já vinham desenvolvendo atividades com caráter do que seria o Neab hoje, como semanas de consciência negra e cursos de extensão”, explica Silva.

Em 2015 a Unifesp insere-se no contexto das políticas públicas de promoção da igualdade racial e de combate ao racismo planejadas em âmbito nacional, com a criação do seu Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, colocando a instituição em sintonia com os marcos legais que regulamentam o tema para as atividades meio e fim no ensino superior.

Por meio da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec/Unifesp), o Neab/Unifesp desenvolve ações de caráter extensionista, como cursos e palestras, tendo respaldo integral durante a Semana da Consciência Negra, evento anual mais importante do programa. A Proec/Unifesp também assegura um bolsista do convênio firmado entre a Unifesp e o Santander Universidades, responsável pelo suporte de todas as atividades do núcleo. Já em parceria com a Pró-Reitoria de Graduação (Prograd/Unifesp), o Neab/Unifesp tem estudado a atuação na graduação, com o intuito de inserir conteúdos relacionados à temática racial na grade curricular dos diferentes cursos da universidade.

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Atividade do curso Cultura Afro-brasileira: fundamentos para a prática pedagógica (Imagem: arquivo)

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Reunião do núcleo para planejamento de atividades (Imagem: José Luiz Guerra)


Igualdade racial e combate ao racismo

Como programa de ação afirmativa dentro das instituições federais de ensino superior, o Neab tem como missão articular suas atividades com os planos de ensino, pesquisa e extensão no contexto organizacional universitário, inserindo conteúdos relacionados à temática racial. Oficinas, grupos de formação, minicursos e palestras foram implementados desde a sua criação na Unifesp e se solidificaram com o passar dos anos. Um exemplo é o curso de extensão Cultura Afro-Brasileira: fundamentos para a prática pedagógica (2012-2013), ministrado na Unidade Avançada de Extensão Universitária Santo Amaro, abarcando um público de estudantes bem diversificado, como professores, discentes de graduação e pós-graduação, pessoas da sociedade civil, ativistas dos movimentos sociais e comunidades negras da capital e do interior de São Paulo.

Em parceria com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), do Comitê Gestor Institucional de Formação Inicial e Continuada de Profissionais da Educação Básica (Comfor) - ambos ligados ao Ministério da Educação, à Unifesp e à Prefeitura de São Paulo criaram a pós-graduação lato sensu intitulada Política de Promoção da Igualdade Racial Na Escola (Uniafro), de 2014 a 2016, para professores da rede municipal de ensino, com o total de 250 cursistas.

Além da parte de formação, o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros tem papel essencial no combate à discriminação racial, atuando frente às manifestações de racismo e tensões raciais que emergem na instituição, sendo convocado para assessorar, opinar ou contribuir com a resolução de conflitos. Também integra a ação de enfretamento das denúncias que a universidade recebe, referente ao uso indevido ou possível fraude nas cotas raciais. “Desempenhamos o papel de discutir e buscar estratégias para resguardar esse direito e para preservar a própria instituição de possíveis medidas jurídicas”, finaliza Silva.

www.facebook.com/NEAB.Unifesp1

 
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