Quinta, 30 Janeiro 2020 15:00

Medindo as emoções

Projeto de extensão, executado em parceria com o Instituto Abihpec, avaliou oscilações emocionais em mulheres acometidas por câncer de mama após aplicação de cosméticos faciais

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Equipe formada por Vera Bifulco, psicóloga do Instituto Paulista de Cancerologia; Airton Rodrigues, docente da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec); Vânia Leite e Silva, coordenadora do projeto; e maquiadoras profissionais voluntárias, convocadas pelo Instituto Abihpec


Texto: Valquíria Carnaúba

Como intervir no cotidiano de pacientes acometidas pelo câncer, de forma a que reajam melhor ao tratamento e superem essa etapa com maior autoestima? Vânia Rodrigues Leite e Silva, docente do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema, encontrou respostas para essa delicada questão a partir da Psicologia e da cosmetologia (ramo da ciência farmacêutica). Por meio do projeto de extensão que coordenou entre os anos de 2016 e 2017, denominado Avaliação do Bem-Estar de Pacientes que Fazem Uso de Tratamento Oncológico antes e após o Uso de Cosméticos, a pesquisadora e sua equipe recrutaram 80 voluntárias com câncer de mama a fim de mensurar a melhora do estado psicológico após workshops de beleza. Os resultados, publicados em artigo um ano após a conclusão do projeto, mostraram que, entre as participantes, houve um decréscimo da tristeza após as intervenções. 

Silva explica que a ação foi proposta pelo Instituto Abihpec, ramo social da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec). “O instituto é o único que detém a licença no Brasil para aplicar o programa internacional Look Good Feel Better, que ajudou mais de 10 mil mulheres a minimizar os efeitos colaterais do tratamento oncológico por meio do cultivo da boa aparência. Apoia-se em um conceito que tem sido bastante explorado desde a década de 1960, o bem-estar subjetivo, que envolve a compreensão de estados emocionais, sentimentos, afetos e satisfação em relação a diferentes aspectos da vida. Seu presidente, Claudio Viggiani, sugeriu que aderíssemos à ação, de modo a medir as emoções e comprovar os benefícios desse programa maravilhoso”, conta. 

Além da parceria com a Abihpec, que convocou bolsistas e encaminhou os produtos doados por indústrias do setor – itens de maquilagem, higiene pessoal e perfumaria, além de lenços de tecido para amarração em torno da cabeça –, a docente recebeu o apoio do Instituto Paulista de Cancerologia (IPC), que permitiu o acesso às pacientes cadastradas. Coube aos pesquisadores da Unifesp aferir o efeito das intervenções de beleza sobre as voluntárias. Nessa avaliação, foram utilizados dois métodos famosos na Psicologia e Psiquiatria: a escala de autoestima de Rosenberg (EAR) e a Facial Action Coding System (Facs). O primeiro baseia-se na pontuação obtida em um questionário composto por dez questões fechadas. O segundo, ao qual aderiram apenas 12 voluntárias, capta e codifica os movimentos de músculos faciais individuais a partir de mudanças momentâneas distintas na aparência facial. 

As respostas ao questionário, por si sós, foram consideradas insuficientes para avaliar com precisão as alterações no nível de bem-estar das voluntárias. Por meio do software instalado em um tablet e acoplado a um espelho, foi possível, entretanto, detectar as expressões faciais enquanto se maquilavam. As observações foram divididas em etapas – como receber o presente, higienizar a pele, passar o filtro solar e aplicar o lápis delineador, o rímel e o blush –, registrando-se os aspectos fisionômicos a cada milissegundo. “Percebemos que o uso do batom inspirou mais confiança. Por outro lado, colocar o lenço na cabeça gerou expressões de raiva e aversão – provavelmente porque lembravam a perda de cabelos devido à quimioterapia”, relata. 

A coordenadora do projeto afirma que, a partir dos resultados, busca expandir a metodologia do sistema facial para o estudo de doenças como a depressão. Essa meta inclui obter o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) na aquisição de equipamentos. “Queremos comprovar que um programa de beleza pode evitar ou amenizar casos depressivos, uma disfunção bastante comum hoje em dia e que implica enormes impactos na saúde pública – como a provisão de medicamentos e a falta de produtividade no trabalho”, complementa. 

Para Silva e sua equipe, a maior recompensa foi vencer o desafio de atuar com mulheres em situação de vulnerabilidade. “Escutávamos declarações como: ‘Hoje não vou precisar de terapia, pois já ganhei minha dose diária de felicidade’, que nos motivavam constantemente. Sou uma defensora dos programas e projetos de extensão, pois aproximam professores, alunos e sociedade, incentivam a pesquisa e voltam os olhares de discentes e docentes para os aspectos sociais da missão acadêmica”, finaliza.

Câncer de mama é o que mais afeta mulheres no país 

Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), divulgados em 2019, o câncer de mama é o tipo que mais afeta mulheres acometidas por essa doença, alcançando 60% dos casos registrados no país. Esse percentual coloca em foco a importância de amenizar os sintomas decorrentes do tratamento, pois os efeitos colaterais da quimioterapia incluem distúrbios no sistema digestivo, infecções, perda de cabelo, alterações na pele e trauma emocional.

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Vânia Rodrigues Leite e Silva, que coordenou por dois anos a avaliação do bem-estar de pacientes sob tratamento oncológico, após o uso de cosméticos fornecidos pela Abihpec, afirma que os resultados servirão de base à tese de doutorado que desenvolve sobre o tema

Software analisa automaticamente seis expressões faciais

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Captura de tela do software usado no projeto

O cálculo adotado pelos pesquisadores para determinar as alterações emocionais consistiu no equilíbrio afetivo: alegria e surpresa foram consideradas emoções positivas; raiva, medo, rejeição e tristeza, por sua vez, foram tratadas como emoções negativas. Foi identificada uma diferença significativa entre o início da oficina, quando as pacientes receberam as instruções, e seu término. O resultado dos testes não revelou pessoas mais positivas, mas menos negativas.

 
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Quinta, 30 Janeiro 2020 14:30

Educação e meio ambiente em evidência

Com exceção das áreas temáticas de Comunicação e de Direitos Humanos e Justiça, o Campus Diadema apresenta projeto em todas as áreas no quadriênio 2015 - 2018

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Fotografia: Alex Reipert

 

Classius Ferreira da Silva
Coordenador da Câmara de Extensão e Cultura (Caec) – Campus Diadema

As ações de extensão em Diadema têm aumentado nos últimos anos. No quadriênio de 2015 a 2018 foram cadastrados 38 projetos e 14 programas de extensão. Do total de projetos, aproximadamente 60% encontram-se vinculados à área temática da Educação, mas, se considerarmos também os programas de extensão, este número é ainda maior - cerca de 70%.

Com relação às áreas temáticas estabelecidas pelo Fórum de Pró-Reitores de Extensão (Forproex), o Campus Diadema se destaca na área de Educação, em decorrência das parcerias estabelecidas entre docentes do curso de Licenciatura em Ciência com instituições locais, como a firmada entre a Diretoria de Ensino de Diadema e a Secretaria Municipal de Diadema. Um desses exemplos é o programa Articul@ções, um conjunto articulado de projetos e ações de extensão, de caráter multidisciplinar (como cursinhos populares preparatórios para os vestibulares) e interdisciplinar (eventos de divulgação dos cursos superiores na rede pública).

A área de Meio Ambiente é outro foco de boa parte dos projetos (10,5%) e programas (21,4%) de extensão, confirmando a vocação ambiental do campus desde sua concepção e criação. Não menos importante, a área temática de Saúde ocupa a segunda posição no número de projetos (13,2%). Com exceção das áreas temáticas de Comunicação e de Direitos Humanos e Justiça, o Campus Diadema apresenta projeto em todas as áreas neste quadriênio.

Em 2019, o Campus Diadema iniciou a Universidade Aberta para as Pessoas Idosas (Uapi), que conta hoje com 50 matriculados. É um projeto muito jovem, mas com perspectivas de grande impacto na qualidade de vida dos idosos do município. O número de eventos de extensão também tem aumentado nos últimos anos, não somente pelos eventos científicos, como eventos voltados para comunidade local, como é o caso do Encontro dos Surdos com as Ciências (ESC) e do Diadema Visita Unifesp Diadema (Universidade de Portas Abertas).

Alguns projetos de extensão ultrapassam as fronteiras do município de Diadema, como o projeto Picinguaba, que realiza atividades de extensão voltadas para questões ambientais junto às comunidades tradicionais que ocupam o referido parque. Tais ações aumentam a percepção de inclusão social no ambiente. Quem não sabia da existência da Unifesp fica orgulhosa ao descobrir uma universidade federal em sua própria cidade; quem se beneficia das ações, por sua vez, se sente incluído. Esse é o desafio da extensão no Campus Diadema do momento: melhorar a visibilidade das ações de extensão pela comunidade regional e aumentar ainda mais as ações para áreas temáticas ainda não contempladas.

 

Campus Diadema • extensão em números:
33 programas e projetos de extensão
2 cursos de aperfeiçoamento e especialização
36 cursos de extensão e eventos
Dados de 2018
 
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 Programa de extensão promove estratégias inovadoras para que os estudantes aprendam Matemática brincando

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Texto: Tamires Tavares

Lápis e papel, lousa e giz, régua e compasso. Objetos que são associados ao ensino tradicional de Matemática cedem espaço, ocasionalmente, a jogos de tabuleiro e outros materiais recreativos, em salas de aula da rede pública. Desde 2011, estudantes do ensino básico e do segmento de educação de jovens e adultos (EJA) da cidade de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, e da capital paulista, aprendem Matemática de forma lúdica e criativa, com brincadeiras e desafios propostos pelo Clube de Matemática, projeto de extensão da Unifesp.

Iniciado na Unifesp por Vanessa Moretti, docente do Departamento de Educação da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos, o projeto desenvolveu-se até tornar-se o Educação Matemática em Atividade, criado em 2015. Esse programa de extensão tem por objetivo articular a formação inicial dos alunos do curso de Pedagogia e o aprendizado de crianças da rede pública de ensino por meio da ludicidade e criatividade.

“Há uma ação importante ao possibilitar que se olhe para a Matemática como algo prazeroso e ao mostrar que é possível aprender por metodologias não tradicionais. Isso é válido tanto para o professor quanto para os alunos. A proposta é que eles se relacionem com a Matemática para além da maneira tradicional, com listas de exercícios – por exemplo, por meio de jogos e desafios, interagindo com os colegas”, explica a docente.

Além do Clube de Matemática, o programa abrange outros projetos de extensão que têm como foco a formação de professores e a aprendizagem por meio de estratégias inovadoras. Dentre alguns dos objetivos dessas ações, estão o ensino de frações, o desenvolvimento do pensamento algébrico nos primeiros anos do ensino fundamental e a compreensão do conceito de número como uma construção humana. São também programados eventos sobre jogos africanos e noções geométricas. As atividades são realizadas pelos estudantes de graduação e pós-graduandos da Unifesp, em parceria com as escolas municipais e estaduais no entorno do Campus Guarulhos – na periferia de Guarulhos – e em São Paulo, com a mediação dos professores desses estabelecimentos. 

“Temos o desafio de proporcionar estratégias de aprendizagem não tradicionais, de forma lúdica, considerando a atividade principal da criança. Quanto menos idade tem a criança, mais importante é que a aprendizagem seja desenvolvida com criatividade e mediada pela brincadeira. O professor deve ter a intencionalidade do que ensinar, mas, para a criança, é essencial que isso se dê por meio da brincadeira”, ressalta Moretti.

Os estudantes do Departamento de Educação participam do planejamento e execução das atividades como parte de sua formação. Os materiais recreativos são por eles elaborados e aplicados em suas experiências no estágio e residência pedagógica. Carolina da Cunha Leandro, aluna do 6º termo do curso e estagiária de Pedagogia, criou os jogos Jenga Matemático e Sopa de Decimais. Ao implementá-los no evento Clube de Matemática no Parque, que ocorreu em parceria com o Instituto Butantan, constatou que as tarefas envolveram não apenas as crianças presentes, mas também os adultos que as acompanhavam.

Para Priscila Aparecida Rodrigues, do curso de Pedagogia, por meio do brincar a criança passa a conhecer o mundo sociocultural no qual está inserida. “A criança tem, assim, a possibilidade de expandir seu conhecimento e, a partir daí, assimilar outras noções. Além do poder motivador do jogo, por meio dele a criança exercita a criatividade, a sociabilidade, os limites com base nas regras e as trocas que promovem seu desenvolvimento”, esclarece. A metodologia do programa – adaptada ao contexto da educação de jovens e adultos (EJA) – inspirou o tema de seu trabalho de conclusão de curso (TCC). Segundo a estudante, a experiência colaborou para o aumento do interesse dos participantes em atividades educativas e na aprendizagem.

O Clube de Matemática conta com um acervo de jogos e materiais didáticos para o ensino de Matemática, o qual pode ser utilizado em sala de aula tanto por alunos quanto por educadores. O acervo também fica disponível a qualquer professor da rede pública por meio de empréstimo.

 

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A equipe de estudantes e docentes do curso de Pedagogia desenvolve e adapta jogos matemáticos a partir de outros existentes, estimulando o raciocínio lógico entre crianças, jovens e adultos

Outros projetos

Oficina pedagógica de Matemática

Tem por objetivo propiciar aos professores um aprofundamento teórico sobre o significado do número, em sua dimensão conceitual e histórica, permitindo-lhes produzir situações desencadeadoras de aprendizagem, as quais contemplem o tema abordado. 

 

Números e operações: possibilidades pedagógicas do uso do ábaco

Neste curso, é analisado o uso do ábaco como instrumento pedagógico auxiliar para o ensino de números e operações aritméticas. A partir da compreensão do número como construção humana, serão trabalhados recursos didáticos para a abordagem dos algoritmos vinculados às operações e seu significado.

 
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Quarta, 29 Janeiro 2020 15:04

Música em benefício da vida

Projeto de extensão filiado a programa britânico busca combater transtornos, como ansiedade e depressão, por meio do canto coletivo

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Fotografia: Vinícius de Souza


Texto: Tamires Tavares

Ao passar pelo Teatro Adamastor Pimentas, no Campus Guarulhos, pode-se ouvir um conjunto de vozes entoando músicas populares e convidando o público a cantar (e se encantar). O envolvimento coletivo, proporcionado pelas canções e batizado de Encantamento, é parte do projeto de extensão Pimentas em Cantadas, cujo propósito é a promoção do bem-estar e o combate não apenas aos sintomas de transtorno mental, como a depressão e a ansiedade, mas também à reclusão social, por meio de encontros musicais entre a comunidade universitária e a externa.

Sob a coordenação de Marta Denise da Rosa Jardim, docente do Departamento de História da Arte da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos, o projeto existe oficialmente há dois anos como um experimento artístico-antropológico que desenvolve o estudo do ser humano por meio da produção de arte, integrando pesquisa, ensino e extensão. Une pesquisadores das áreas de Ciências Sociais e Letras e artistas locais no desempenho de atividades musicais, além de constituir objeto de pesquisa para o grupo denominado Etnografia e História das Práticas Artísticas e das Línguas das Áfricas (EHPALA). 

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O Teatro Adamastor Pimentas é um bem valioso do Campus Guarulhos, segundo Marta Jardim. No local, o grupo Pimentas em Cantadas pretende também atuar na preparação vocal de atores da Cia. do Caminho Velho e do EHPALA / Fotografia: Vinícius de Souza

A inspiração para o Pimentas em Cantadas surgiu no primeiro semestre de 2016, durante a permanência da docente na School of Anthropology and Museum Ethnography, da Universidade de Oxford (Reino Unido). Nesse período, ela participou do grupo de cantores Ark T, que integra o Sound Resource – um programa governamental que existe há dez anos com o objetivo de reforçar políticas de fomento ao bem-estar mediante práticas musicais, visando ao combate do recolhimento, reclusão e isolamento. Jardim trouxe esse conceito ao Brasil, implementando-o na universidade e recebendo reconhecimento do programa original – ao qual é atualmente vinculado.

Iniciativa do governo britânico, o Sound Resource tem demonstrado impacto social relevante ao reunir pessoas para a produção de atividades coletivas, possibilitando conexões interpessoais em um contexto de solidão epidêmica e de casos – em número crescente – de transtorno mental. 

No Brasil, o número de pessoas que viviam sozinhas aumentou de 6 milhões, em 2005, para 10,4 milhões, em 2015, de acordo com a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE (2015). A solidão afeta principalmente os idosos no país. Segundo pesquisa realizada em 2017 pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, em parceria com a Bayer, a maior preocupação de brasileiros com mais de 60 anos é o isolamento.

Para a coordenadora, tais práticas – cujo resultado observou no espaço europeu – são benéficas tanto psicológica quanto socialmente, viabilizando relacionamentos interpessoais em um ambiente harmonioso. “O objetivo é sentir-se bem, cantar para enunciar versos e poemas tocantes que fazem bem ao coração, à alma. Há quatro diferenças básicas entre o canto coletivo e o coral: flexibilidade, leveza, objetivos e repertório. Em ambos, a harmonia resulta do cantar em conjunto. Além disso, a proposta é convidar as pessoas a não ficarem solitárias em suas casas”, afirma.

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Realizado nas edições de 2018 e 2019 do evento Unifesp Mostra sua Arte, no Campus Guarulhos, o Sarau de Arteiros do Subversom conectou os estudantes por meio da música e da poesia / Fotografia: Suevelin Cintia dos Santos

Atualmente, o Pimentas em Cantadas é composto por diferentes ações periódicas como o encontro semanal de canto coletivo (Encantamento), aberto à comunidade acadêmica e aos moradores da região dos Pimentas, na periferia de Guarulhos. Para essa atividade, o grupo conta com a presença da regente Myrian Portes e de professores e pesquisadores dos cursos de Ciências Sociais, Letras e Filosofia. É também desenvolvido o Encantamento Público para divulgação do projeto, no qual os componentes cantam juntos em locais públicos no entorno do campus e em eventos da universidade, convidando os espectadores a participarem.

Já o Encantamento Ameríndio é um encontro mensal, de caráter musical, que ocorre na Casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai), em São Paulo. Dele, participam indígenas que se hospedam no local e são oriundos de várias partes do país, além de estudantes e funcionários da Unifesp e da Casai. 

O Sarau de Arteiros do Subversom também ocorre todos os meses e nele se apresentam musicistas que pertencem à universidade ou moram no distrito dos Pimentas e em locais próximos. Os integrantes do projeto formam, então, uma banda que reproduz as canções ensaiadas e ficam à disposição para acompanhar as demais exibições poéticas e musicais. A preparação do sarau compreende aulas de iniciação musical, sessões de ensaio e ensinamentos sobre o cuidado com os instrumentos, além das rodas de conversa e estudo de literatura. 

Citando a canção Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, com letra de Vinicius de Moraes e melodia de Carlos Lyra, a docente enfatiza a importância dessa iniciativa na atual conjuntura política e social. “Nestes tempos em que: ‘Pelas ruas o que se vê / É uma gente que nem se vê/ Que nem se sorri/ Se beija e se abraça/ E sai caminhando/ Dançando e cantando/ Cantigas de amor/ E, no entanto, é preciso cantar/ Mais que nunca é preciso cantar/ É preciso cantar e alegrar a cidade’ ”, recita.

 
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O grupo de teatro Cia. do Caminho Velho, sediado no Campus Guarulhos, nasceu em 2007 com o objetivo de promover a interação entre universidade e comunidade por meio de práticas artístico-culturais

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Ensaio aberto da peça Piche para estudantes da rede pública de Guarulhos, no Teatro Adamastor Pimentas / Fotografia: Rodrigo Baroni

 

Texto: Paula Garcia

Tudo começou há 12 anos, quando um grupo de estudantes que ingressara na recém-inaugurada Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos deparou com um campus universitário em formação, que incorporava o Teatro Adamastor Pimentas, com capacidade para 500 pessoas, e que representava uma promessa de espaço para manifestações artísticas emergentes. Mesmo sem experiência nos palcos, esses jovens lançaram-se à prática teatral e às pesquisas nessa área. Pouco tempo depois, decidiram fundar o coletivo Cia. do Caminho Velho, que se consolidaria como um verdadeiro núcleo de criação artística e reflexão teórica sobre as artes cênicas. Algumas das atividades realizadas pela companhia foram posteriormente sistematizadas sob a forma de projeto de extensão, denominado Grupo de Estudos e Práticas Artísticas da Cia. do Caminho Velho (Gepa).

A trajetória da Cia. do Caminho Velho se entrelaça naturalmente à do Gepa, responsável pela formação de 411 pessoas em oficinas semestrais de iniciação teatral. Foi, entretanto, a relevância do coletivo que propiciou a incorporação do grupo de estudos ao rol de projetos extensionistas da universidade.

No início, os encontros eram liderados por aqueles que possuíam alguma experiência – no caso, Alex Araújo e Alexandre Kerestes, que eram estudantes respectivamente dos cursos de Filosofia e História. Os contornos do coletivo passaram a ser mais definidos quando parte de seus integrantes começou a buscar formação em centros referenciados nas artes cênicas, multiplicando os ensinamentos entre os demais. Em locais como o Centro de Pesquisa Teatral (CPT/Sesc), a SP Escola de Teatro, a Escola Livre de Teatro de Santo André e o Núcleo de Artes Cênicas (NAC), entraram em contato com figuras importantes da cena brasileira – entre elas, Antunes Filho, Lee Taylor, Francesca Della Monica, Cida Moreira, Luiz Päetow, Marici Salomão e Luiz Fernando Marques. Atualmente, o grupo de teatro desenvolve um trabalho contínuo a partir de três frentes: apresentação de peças, organização de mostras e eventos culturais e formação artística.

Coordenado por Janes Jorge, docente do Departamento de História e vice-diretor do Campus Guarulhos, o Gepa, por sua vez, é responsável pela realização dos cursos de iniciação teatral, dramaturgia e cenografia, bem como pela pesquisa avançada em artes cênicas. Semestralmente, são oferecidos dois cursos de iniciação teatral, um no período diurno e outro no noturno, ambos com um encontro semanal, que ocorre no Teatro Adamastor Pimentas ou em sala cedida pela EFLCH/Unifesp. Além de intervenções artísticas nos campi da Unifesp, o grupo de estudos propicia a formação continuada aos atores que concluíram o treinamento inicial.

O diretor e professor de teatro da Cia. do Caminho Velho, Araújo – que é também dramaturgo – ressalta que o Gepa contribui para a expansão do horizonte cultural do campus e seu entorno. Possibilita, ainda, a preparação de bolsistas e voluntários que integram o projeto, uma vez que são incentivados a relacionar o conhecimento adquirido ao longo da formação acadêmica ao planejamento de programas culturais e cursos ministrados.

Do coletivo à extensão universitária

O primeiro grupo de teatro da Unifesp carrega no nome o local de origem: a Estrada do Caminho Velho, localizada no bairro dos Pimentas – região periférica do município de Guarulhos, em São Paulo. Seu trabalho inaugural, no âmbito da universidade, foi o ensaio aberto para a Semana de Orientação Filosófica e Acadêmica, em 2007, que despertou o interesse da comunidade interna pela apresentação de peças e por cursos de teatro. Com isso, no ano seguinte, a companhia resolveu abrir as primeiras turmas do curso de iniciação teatral.

Em 2012, quando as inscrições passaram a ser feitas por formulário eletrônico, encaminhado pelas redes sociais, houve o aumento significativo da participação do público externo. Desde então, o diálogo com a sociedade, principalmente com os segmentos socioeconômicos de maior vulnerabilidade e que se fixam no entorno do Campus Guarulhos, tem contribuído para a difusão da cultura e a divulgação da Unifesp como um espaço público, aberto a todos e não somente à comunidade acadêmica.

“Hoje, 50% dos participantes, em média, provêm da universidade e os outros 50% pertencem à comunidade externa. Em um campus de Ciências Humanas é muito comum discutir questões como as de gênero. Entretanto, quando recebemos pessoas de fora, elas nos fazem perceber os preconceitos que existem dentro de nós, dentro da academia, e isso gera um ‘caldo’ interessante”, argumenta Araújo.

Ao término da iniciação teatral, grande parte dos formados sente necessidade de intensificar suas pesquisas na área artística, como foi o caso de Daiane Sousa, atriz que atualmente ensaia uma das montagens profissionais do grupo. “O Gepa supre essa necessidade, pois é o local onde os concluintes do curso básico vislumbram a oportunidade de continuar o aprimoramento da prática teatral”, assegura o diretor da companhia. 

Carolina Erschfeld, atriz, diretora e uma das fundadoras do coletivo, aponta a parceria com a direção acadêmica da EFLCH/Unifesp como fundamental para a transformação das ações desenvolvidas em projeto de extensão: “Desde o início buscávamos a oficialização de nosso trabalho mediante entendimento com os dirigentes do campus. Percebemos que é importantíssimo esse espaço para os alunos, como o foi para nós no início”, ressalta a atriz.

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Atividade-aula do curso de iniciação teatral / Fotografia: Rodrigo Baroni

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Oficina de sensibilidade artística, parceria com o Departamento de Letras da EFLCH/Unifesp / Imagem de arquivo

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Os fundadores da companhia, Carolina Erschfeld e Alex Araújo / Fotografia: Alex Reipert

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Roda de conversa após apresentação da peça Piche, na SP Escola de Teatro / Fotografia: Rodrigo Baroni

Intervenções artísticas

Além da formação continuada, o Gepa elabora o planejamento de várias atividades culturais da Unifesp, como o Dia Aberto e a Festa das Artes. O objetivo do primeiro evento é apresentar os cursos acadêmicos ministrados pela instituição aos alunos de escolas públicas da periferia de São Paulo. A edição de 2017 contou com um público de mais de 650 pessoas, que ocupou o Teatro Adamastor Pimentas e pôde assistir ao ensaio aberto da peça Piche, encenada pelo coletivo.

O segundo evento, idealizado em conjunto com a direção acadêmica do Campus Guarulhos, possibilita que alunos e servidores possam exibir seus talentos, o que incentiva – por meio de diferentes expressões artísticas – outra vivência afetiva do ambiente universitário e maior integração entre os membros da comunidade. A mostra promove, assim, uma “quebra” do cotidiano, ressignificando os espaços e as relações humanas. 

A companhia já esteve presente em todos os campi da Unifesp, durante eventos acadêmicos como a recepção aos calouros e a exibição de peças e performances de seu repertório.

 

www.facebook.com/ciadocaminhovelho

 
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A EFLCH/Unifesp busca estabelecer um diálogo com seu entorno e com a realidade complexa da comunidade local

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(Fotografia: Alex Reipert)

 

Rosângela Dantas de Oliveira
Coordenadora da Câmara de Extensão e Cultura do Campus Guarulhos

Andrea Barbosa
Docente do Departamento de Ciências Sociais da EFLCH/Unifesp

O trabalho de extensão da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos, teve início em 2007, fruto do processo de expansão das universidades e dos institutos federais. Vários professores que ingressaram na Unifesp para dar vida ao campus trouxeram também, desde o início, ideias para desenvolver a pesquisa e extensão em humanidades pela instituição - até então conhecida por sua atuação na área da saúde. Paralelamente, mesmo de forma não institucionalizada - sem registro no Sistema de Informações da Extensão (Siex), muitos projetos foram desenvolvidos localmente. Alguns estão em atividade até hoje, como o Projeto Pimentas nos Olhos, o Grupo de Estudos e Práticas Artísticas (Gepa) e o Cursinho Popular Pimentas, explorados na atual Entreteses.

Com a consolidação da expansão e a criação do Centro Acadêmico de Extensão e Cultura (Caec), em 2011, o número de projetos e programas submetidos e aprovados no Siex se diversificou e ampliou. A título de exemplo, foram quatro ações aprovadas no ano de 2016, 26 no ano de 2017, 16 no ano de 2018, e 12 até junho de 2019 – números que aumentam exponencialmente se considerarmos eventos e cursos. Esse aumento ao longo de dez anos é caracterizado por um maior foco em determinadas áreas: formação de professores para a rede pública da educação básica, arte e cultura, história e cultura afro-brasileira e, mais recentemente, direitos humanos. 

É possível identificar a maneira que esse adensamento se configurou ao longo do tempo, bem como a relação dos programas e projetos com o contexto sociopolítico. Nos anos iniciais do campus, encontramos um maior número de ações direcionadas à formação continuada de professores nos mais diferentes âmbitos, desde o ensino de Ciências, Matemática, História, Filosofia e Línguas, até inclusão e igualdade de gênero na educação infantil. Embora essa área continue bastante contemplada, nos últimos três anos cresceu o número de ações envolvendo a formação cidadã e direitos humanos. Podemos citar o Memoref, que oferece aulas de língua portuguesa para imigrantes e refugiados e o curso de formação de Promotoras Legais Populares dos Pimentas. 

A EFLCH/Unifesp busca estabelecer um diálogo com seu entorno e com a realidade complexa da comunidade local, incluindo o bairro dos Pimentas - em que se localiza. Entendemos que consolidar esse processo talvez seja hoje o maior desafio, pois as demandas nascidas desse encontro (e às vezes confronto) muitas vezes se apresentam com uma urgência que as diversas limitações de nosso trabalho impede de atender.

 

Campus Guarulhos • extensão em números:
43 programas e projetos de extensão
1 curso de aperfeiçoamento e especialização
148 cursos de extensão e eventos
Dados de 2018
 
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Centro Regional de Formação em Políticas sobre Drogas e Direitos Humanos qualifica agentes sociais e de saúde para o apoio a pessoas com problemas relacionados a drogas

Texto: Valquíria Carnaúba

Visando à inovação social, o Centro Regional de Formação em Políticas sobre Drogas e Direitos Humanos (CRF) desenvolve um programa de extensão que surge em 2017 na Baixada Santista, a partir da iniciativa do Grupo de Pesquisa e Extensão DiV3rso, composto por docentes, estudantes e membros da comunidade do entorno do Campus Baixada Santista. O programa nasce da necessidade de promover a qualificação – na área de política sobre drogas e direitos humanos – de lideranças comunitárias, trabalhadores e usuários de serviços públicos, em conjunto com a formação de alunos de graduação e pós-graduação. 

O foco do CRF consiste, primariamente, no fomento à transformação da vida dos indivíduos que revelam uso problemático de drogas, sob a perspectiva dos direitos humanos, ao mesmo tempo em que se propicia a experiência acadêmica dos estudantes envolvidos. A articulação ocorre entre a universidade, agentes de políticas públicas de saúde, assistência social, educação, cultura, segurança pública e trabalho e agentes do sistema de garantias de direitos dos municípios que compõem a Baixada Santista (Bertioga, Cubatão, Guarujá, Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande, Santos e São Vicente).

De acordo com Luciana Togni de Lima e Silva Surjus, coordenadora do programa e docente do Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista, diversos fatores justificam a implantação do CRF na região metropolitana da Baixada Santista, como a magnitude e a complexidade da questão das drogas nesse perímetro, relacionadas especialmente às populações em situação de alta vulnerabilidade, e a necessidade de articulação territorial da rede de serviços. “Era fundamental, ainda, qualificar as intervenções profissionais e ampliar o acesso dos usuários dos serviços à universidade e a espaços formativos”, complementa Surjus. 

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O centro de formação frequentemente articula-se a grupos de trabalho para discutir temas correlatos à prevenção e ao tratamento de problemas com drogas. Elaborados em 2018, os projetos sobre atualização em redução de danos e sobre inclusão social pelo trabalho resultaram da articulação entre a Unifesp, a FapUnifesp e a Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Ambos visaram contribuir com a  formulação de um plano integrado de redução de danos na região

Produção de conhecimento e aproximação

Algumas das transformações diretas na universidade, decorrentes da atuação do CRF, referem-se à integração de conteúdos e disciplinas em eixos e módulos interdisciplinares, à adoção de metodologias críticas e inventivas para o ensino e à inserção de novas tecnologias de informação e comunicação. Esses fatores exigem do estudante uma postura ativa na construção, disseminação e socialização do conhecimento. “Há uma conexão possível com o módulo de Terapia Ocupacional em Saúde Mental, além da possibilidade de constituir-se como campo de pesquisa para os trabalhos de conclusão de curso e projetos de iniciação científica”, explica a docente.

O programa de extensão promove, por um lado, o fortalecimento da permanência estudantil na universidade e a ampliação do acesso à educação para a comunidade externa. Por outro, o CRF busca, na prática, aproximar cada vez mais a população da Baixada Santista do universo acadêmico, diminuindo a vulnerabilidade social e econômica e fomentando a cultura dos direitos humanos. 

Para a concretização desses objetivos, foram inicialmente propostos dois projetos sob o guarda-chuva do programa principal, que contaram com financiamento advindo de um convênio tripartite entre a Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), a Unifesp e a Fundação de Apoio à Unifesp (FapUnifesp): o curso de Atualização em Redução de Danos e o projeto denominado Apoio e Fomento a Experiências em Inclusão Social pelo Trabalho. De acordo com Surjus, o intuito foi maximizar a potencialidade e a efetividade das intervenções de cuidado, ou seja, produzir efeitos positivos sobre toda a rede de serviços para que esta amplie sua capacidade de acolher as demandas, funcionando de modo mais articulado e apresentando respostas adequadas, criativas, efetivas e eficazes. 

“Acerca do potencial de inovação do programa principal, podemos identificar a contratação formal de pessoas da comunidade com histórico de uso de drogas e em situação de vulnerabilidade, que promoveram um espaço de legitimação de sua experiência enquanto saber fundamental, para avançar na construção de respostas que atendessem às suas reais necessidades. O trabalho aqui realizado ganha um lugar central no processo de inclusão. A metodologia provocou ainda a horizontalidade do processo de construção de conhecimento, colocando lado a lado diferentes atores e apostando nas trocas e na diversidade como estratégias para a transformação social de todos os envolvidos. Estes passaram a conviver em um espaço comum, produzindo mundos possíveis, que incidiram sobre as barreiras da desigualdade que nos distanciam”, finaliza a coordenadora.

 

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Publicado em Edição 12
Terça, 28 Janeiro 2020 15:32

Saúde à beira-mar

Programa em Santos incentiva a prática de exercícios físicos regulares para o controle do diabetes e hipertensão e para a melhoria da qualidade de vida

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Texto: Daniel Patini

Lentamente, chega o fim da tarde no emissário submarino de Santos (SP). Conforme o sol se põe, um grupo começa a se formar, aos poucos, perto da orla da praia. Desde 2010, essa é a rotina do programa Quiosque da Saúde, que realiza, três vezes por semana, atividades gratuitas, voltadas para adultos e idosos com hipertensão e diabetes. As sessões de exercícios físicos, com duração de uma hora, têm a supervisão de docentes e alunos do curso de Educação Física do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista.

O programa propicia aos participantes um conjunto de ações que favorece a incorporação de um estilo de vida fisicamente ativo e que contribui para o controle da pressão arterial e da glicemia. É desenvolvido em parceria com a Secretaria Municipal de Esportes da Prefeitura de Santos, que cede um espaço para a guarda dos materiais utilizados nas atividades.

Durante esses encontros, são realizados exercícios aeróbios, que estimulam o sistema cardiovascular, e exercícios resistidos, que utilizam halteres, elásticos e o próprio peso do corpo. A glicemia e pressão arterial são mensuradas periodicamente como forma de orientar as estratégias de intervenção. Além disso, são efetuadas avaliações antropométricas, juntamente com testes de flexibilidade, de força e de resistência muscular.

“Apesar de ser um trabalho direcionado a diabéticos e hipertensos, o Quiosque da Saúde também aceita pessoas com fatores de risco ou com histórico de doenças na família. Dessa forma, acaba funcionando como ação preventiva”, explica o professor Ricardo José Gomes, que desde 2011 coordena o programa, implantado pelo professor Sionaldo Eduardo Ferreira, hoje na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).

Beneficiários

Até o momento, foram atendidas pelo Quiosque da Saúde aproximadamente 500 pessoas. Os candidatos que desejam ingressar no programa – que oferece um número restrito de vagas – devem efetuar a inscrição no início de cada ano. O fluxo de interessados é contínuo, mas há aqueles que permanecem no grupo por vários anos. Uma das frequentadoras mais antigas é Lucila Mendes Gonçalves, 63 anos, moradora de Santos, que acompanha as sessões desde 2011.

Hipertensa, ela explica que as atividades propostas ajudam a controlar a pressão alta e faz elogios à iniciativa. “O trabalho realizado aqui é excelente”, atesta. “Pretendo continuar enquanto esse serviço for oferecido ou até quando eu não puder mais vir.” Relata, ainda, que o programa cumpre outra função: “Além de nos exercitarmos, fazemos novas amizades, que são mantidas mesmo fora daqui”.

Novata no grupo deste ano, Isabel Bezerra Salgado, 66 anos, também hipertensa, descobriu o trabalho pela internet. Moradora do bairro do Boqueirão, em Santos, ela já foi auxiliar de enfermagem do Hospital São Paulo, que é o hospital universitário da Unifesp, e se diz apaixonada pela instituição. “Quando surgiu a oportunidade, não pensei duas vezes”, comenta rindo.

Por conta de um atropelamento, Isabel realizou cirurgia nos tendões do manguito rotador, localizados no ombro. Passou por sessões de fisioterapia e, com os exercícios adicionais, já sentiu os efeitos positivos. “Como profissional da saúde, eu me preocupo em cuidar de mim mesma. Enquanto houver esse trabalho, eu virei”, afirma.

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(Fotografia: Alex Reipert)

Aprendizagem na prática

Atualmente, o professor Gomes conta com o apoio de dois estudantes do curso de Educação Física, que atuam como extensionistas do programa. Um deles é Renan Santos Silva Oliveira, que ingressou na Unifesp em 2017. Para ele, o Quiosque da Saúde acrescenta outros atributos à sua formação, pois proporciona o aprendizado dos métodos de trabalho que serão aplicados ao término da graduação.

“É um estágio antes do próprio estágio, válido para ganhar experiência e conhecer nosso público-alvo, que é a maior parte da população, uma vez que a parcela de atletas de alto rendimento é mínima. No caso de Santos, por exemplo, a cidade tem uma significativa proporção de idosos. A extensão favorece o aprendizado de nossa função na prática”, esclarece.

O outro extensionista é Lelis Conte Genaro, colega de turma de Renan. Para ele, as atividades de extensão contribuem para que o aluno vivencie como é ser professor na prática. “Aprendemos a planejar melhor as aulas, como devemos nos comunicar, como passar os exercícios. Isso é muito importante e será um diferencial no futuro”, justifica.

Efeitos comprovados

O efeito positivo dos protocolos de exercícios físicos sobre a saúde dos participantes já foi comprovado por dois estudos publicados nos últimos anos. “Um deles avaliou a pressão arterial de mulheres com hipertensão, além de parâmetros antropométricos e funcionais, demonstrando uma melhora em relação à primeira variável. O outro estudo também encontrou benefícios para as mulheres com diabetes tipo 2, principalmente em relação à glicemia e à aptidão funcional geral”, resume o coordenador.

No artigo publicado pela Revista Brasileira de Ciência e Movimento, em 2017, foram avaliados os efeitos do treinamento combinado moderado (aeróbio e resistido), durante seis meses, sobre a pressão arterial de repouso, variáveis bioquímicas (como glicose sanguínea e colesterol) e antropométricas (índice de massa corporal e perímetro de cintura) e aptidão funcional de dez mulheres hipertensas, frequentadoras do programa. Como conclusão, o trabalho confirmou que os exercícios físicos diminuíram os níveis de pressão arterial de repouso nessas mulheres e sugeriu melhora em variáveis antropométricas, bioquímicas e funcionais relacionadas à saúde.

Já a outra pesquisa, que foi publicada pela RBM - Revista Brasileira de Medicina, em 2015, investigou os efeitos do treinamento físico sobre diversos parâmetros em 16 mulheres com diabetes tipo 2. As sessões consistiram em exercícios aeróbios seguidos de exercícios resistidos (treinamento combinado moderado). A coleta de dados foi baseada nos parâmetros funcionais (testes de aptidão funcional), bioquímicos (glicemia, colesterol e triglicérides), antropométricos (estatura, massa corporal, índice de massa corporal e circunferência abdominal) e hemodinâmicos (pressão arterial).

O treinamento foi eficiente ao promover alterações importantes em parâmetros relacionados à saúde de mulheres com diabetes tipo 2. Os dados demonstraram que houve melhora significativa na resistência de força, coordenação, índice de aptidão física geral, glicemia de jejum e pressão arterial de repouso.

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Atual coordenador do programa, Ricardo José Gomes (centro), e os extensionistas Lelis Conte Genaro (à esquerda) e Renan Santos Silva Oliveira (à direita) / Fotografia: Alex Reipert

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Novata no grupo, Isabel Bezerra Salgado já sente os efeitos positivos dos exercícios / Fotografia: Alex Reipert

Projetos parceiros 

No sentido de viabilizar intervenções multiprofissionais e interdisciplinares, o Quiosque da Saúde recorre, ainda, a parcerias. A principal delas foi firmada com o Grupo de Estudos da Obesidade (GEO), sob a responsabilidade da professora Danielle Arisa Caranti. Com o apoio do GEO, os integrantes do programa podem exercitar-se em bicicletas ergométricas e esteiras, sendo também avaliados. “Além de uma boa estrutura, o GEO oferece atendimento com psicólogos, nutricionistas e fisioterapeutas”, relata Gomes.

Outro exemplo de ação conjunta provém do Projeto de Capacitação para Prevenção de Acidentes e Primeiros Socorros, coordenado pela professora Alessandra Medeiros, que realizou oficinas sobre ressuscitação cardiopulmonar e primeiros socorros. “É importante saber como se comportar nessas situações, já que são idosos que convivem com outros idosos”, avalia o docente. 

Cabe também mencionar os projetos de extensão Clube da Corrida e Clube do Pedal, vinculados ao Programa de Educação Tutorial do curso de Educação Física (PET-EF) e coordenados pelo professor Ricardo Guerra, os quais possibilitam o desenvolvimento de atividades complementares voltadas à prática esportiva.

Dessa forma, além dos exercícios físicos para o controle de doenças crônicas, o programa Quiosque da Saúde oferece aos voluntários palestras sobre educação em saúde, que estimulam a mudança de hábitos e contribuem para a melhoria da qualidade de vida.

 

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Publicado em Edição 12
Terça, 28 Janeiro 2020 15:12

Em sintonia com a sociedade

No Campus Baixada Santista, radiosilva.org é exemplo de mídia alternativa de sucesso que une brasilidade e importância comunitária

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Texto: Marcos Zeitoune

Um estúdio envidraçado no saguão da universidade é o convite aberto à participação das pessoas. Da área de circulação da Unidade Silva Jardim do Campus Baixada Santista – de onde o projeto ganhou o nome – qualquer pessoa pode acompanhar o ritmo de trabalho da radiosilva.org; caixas de som aplicadas no teto do saguão compartilham com estudantes e professores a programação diária, variada e eclética.

Prestes a completar três anos no ar - a webrádio começou a transmitir no dia 1º de agosto de 2016 – há planos de instalação de um segundo estúdio em parceria com uma organização local sem fins lucrativos, o Instituto Procomum, além da manutenção do estúdio volante e portátil, por meio do qual é possível dar continuidade ao projeto Ocupação: transmissões ao vivo ou gravações feitas a partir de locais variados e demais equipamentos públicos, de acordo com as demandas da comunidade.

A verba para a compra dos equipamentos originais foi viabilizada, em 2015, graças ao apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), processo intermediado pela Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo (FapUnifesp), com contrapartida do campus na instalação da estrutura física - especialmente o fechamento acústico do estúdio e marcenaria da bancada. O projeto original previa que essa verba custeasse também o registro de domínio, a hospedagem de site e o servidor de streaming pelos primeiros 24 meses. Desde então, há cerca de um ano, essas últimas despesas estão sendo custeadas com recursos próprios, enquanto tramita um acordo de cooperação técnica com a instituição na região, que passará a assumir o custo operacional como uma das contrapartidas envolvidas na negociação.

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Equipe de programação da radiosilva.org trabalhando no estúdio montado na Unidade Silva Jardim do Campus Baixada Santista / Fotografia: José Luiz Guerra

Mecânica de funcionamento

Stéfanis Caiaffo, docente no Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista, e coordenador do Núcleo de Rádio do Laboratório de Recursos Audiovisuais (Lara), explica que a Rádio Silva transmite, ininterruptamente, 24 horas por dia, sete dias por semana. “Até o ano passado mantínhamos uma grade de programação, mas a manutenção desta grade nos tomava muito tempo de trabalho, porque chegamos a ter mais de trinta programas ou faixas de programação no ar ao longo de uma semana. A partir do início de 2019, optamos por deixar o streaming da rádio transmitindo um randômico de todo o conteúdo que produzimos e, assim, temos mais tempo para as atividades educativas que a rádio faz, especialmente as oficinas de programação, as ocupações e as tarefas ligadas à curricularização da extensão. Atualmente, apenas os programas ao vivo têm hora marcada”, expõe.

“Creio que este possa ser um desafio importante para a Unifesp: desenvolver e/ou disponibilizar sistemas e mecanismos que nos permitam ter não só essa, mas também outras plataformas de comunicação audiovisual no ar. Neste momento, ainda é necessário recorrer a serviços externos de registro de domínio, hospedagem de site e provedor de streaming. Para gravação, edição e transmissão, trabalhamos com softwares gratuitos ou livres”, informa Caiaffo.

Audiência em alta

Ao contrário do modelo comercial, o sucesso de uma rádio escola não é exatamente medido pela audiência, mas pelo modo como ela serve de dinamizadora para encontros potentes entre as pessoas, sejam elas da comunidade acadêmica ou não. A mesa de estúdio da radiosilva.org é um espaço de encontro e troca. Ao longo dos últimos três anos já foram produzidos cerca de 1.500 programas. Bastante conhecida na região da Baixada Santista, a reportagem pediu ao coordenador uma amostragem de público. Dados colhidos no servidor no dia 12 de junho indicavam cerca de 178.092 pontos de conexão ao streaming ao longo dos últimos doze meses, ou seja, cerca de 487 por dia.

“Isso significa que uma média de 487 computadores se conectaram ao streaming ao longo de cada 24 horas de transmissão, alguns deles provavelmente tendo mais de uma pessoa na escuta - algo que não nos é possível saber. Achamos que é um número significativo para uma rádio experimental como a nossa, com uma equipe de duas pessoas, eu e o Renato Zama, e colaboradores sem dedicação exclusiva”, revela Caiaffo. Vale ressaltar que a lógica da programação musical é pautada em repertórios não comerciais e, sempre que possível, independentes. Em outras palavras, tocar o que rádios comerciais não tocam e confiar esta seleção a pesquisadores e especialistas no assunto.

O objetivo maior permanece o mesmo desde o princípio: “dar mais visibilidade a quem somos e a tudo o que fazemos na universidade, bem como servir de mídia alternativa ao que temos na região”, explica ele. “A riqueza do que se produz na Unifesp muitas vezes é pouco divulgada e a grandeza de quem somos muitas vezes fica escondida depois que termina o nosso expediente. Criar um canal de comunicação direta com a população, na nossa opinião, é fundamental para que a universidade sobreviva à crise de legitimação e aos ataques que vem sofrendo recentemente. E também é um modo de fazer com que as pessoas nos conheçam. Atualmente, um influenciador digital, pelo menos em números, pode ter mais impacto social do que um campus inteiro da Unifesp e isso deve nos preocupar como instituição”. Ademais, de acordo com Caiaffo, há muita coisa interessante sendo feita na região e a mídia tradicional olha pouco e dá menos espaço para isso, especialmente para a produção independente.

Desafios para o futuro

E o que leva o estudante a se interessar pela rádio? “Não há um motivo específico que traz um estudante à rádio. Às vezes é um interesse por extensão, às vezes um interesse em pesquisa, às vezes é fazer um programa de rádio que sirva como avaliação de um módulo ou que está integrado a um estágio, às vezes é só a tentativa de sair um pouco do cotidiano acadêmico, sem necessariamente sair da universidade, uma espécie de respiro. Nesse momento de poucos recursos optamos por não ter bolsistas no programa de extensão para que os projetos de extensão que estão sob nosso guarda-chuva possam pedir os seus e assim ficarem mais fortalecidos”, explica Caiaffo.

Segundo o coordenador, o principal desafio sempre foi, é e parece que ainda será fazer com que a própria comunidade acadêmica, especialmente o segmento docente, planeje dedicar um tempo de sua semana padrão para produzir com a rádio. “É muito difícil criar brechas no cotidiano do docente para que ele venha ao estúdio para falar de seus trabalhos, de seus projetos. Estamos sempre muito premidos entre a quantidade de coisas que são necessárias fazer e diante daquilo que é especialmente valorizado quando se trata da carreira docente”, explica.

A quantidade de propostas que chegam da comunidade externa vai além da capacidade de produção. Nesse momento, a rádio está tentando atendê-la em processos de descentralização dessa produção, instalando um segundo estúdio e formando pessoas que possam operá-lo, fazendo transmissões e gravações direto de equipamentos públicos e entidades conveniadas, e também testando algo novo. No final do ano passado construiu-se uma unidade móvel sobre um triciclo. “Chamamos nossa unidade móvel de Radiola da Silva e estamos começando a experimentar a possibilidade de uma rádio comunitária sobre rodas”, afirma o coordenador do projeto. “Seria uma rádio física que pedalamos pelo bairro e que produz e transmite uma programação feita com e, especialmente, dedicada à população que vive no entorno da universidade”.

Quais são os projetos para o futuro? “Meu sonho é ver (ou sintonizar!) uma Unifesp FM operando em rede e potencialmente atingindo centenas de milhares ou milhões de pessoas, com ampla participação tanto da comunidade acadêmica quanto da população em geral na sua produção e gestão e, eventualmente, ter a oportunidade de participar disso”, revela Stéfanis Caiaffo. “De resto, aqui e agora, espero que a gente siga reunindo pessoas e condições para que a radiosilva.org siga no ar, promova encontros potentes e fale de toda a riqueza que há em quem somos e naquilo que fazemos”, conclui.

 

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