Sábado, 03 Maio 2014 21:00

Edição 2 - Entreteses

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Maio 2014

Encontrar a cura para diversas doenças por meio de terapias regenerativas com células-tronco é a grande esperança da Medicina. Como tema de capa desta edição, Entreteses apresenta o resultado de diversos estudos desenvolvidos pela Unifesp nessa área.

O leitor também poderá conferir a entrevista exclusiva com a professora visitante do curso de Filosofia do Campus Guarulhos, Olgária Chain Féres Matos, sobre a prática da interdisciplinaridade para o desenvolvimento científico do país; o perfil de Bertha Becker, uma das mais renomadas geógrafas que dedicou sua vida aos estudos sobre a Amazônia; e uma matéria sobre um assunto que desperta inúmeros debates nas universidades: a internacionalização.

Ainda neste número apresentamos pesquisas sobre nanotecnologia e novos fármacos, saúde indígena, potencial biotecnológico dos fungos, inovações no ensino da Matemática, políticas públicas, cidadania e empreendedorismo nas áreas de Genética e de radiação.

 


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Publicado em Entreteses
Segunda, 11 Novembro 2013 16:21

EPE

Escola Paulista de Enfermagem

Ana Cristina Cocolo

O programa de pós-graduação da Escola Paulista de Enfermagem (EPE), unidade universitária do Campus São Paulo da Unifesp, ganhou força na década de 70, época em que houve maior investimento no aperfeiçoamento e especialização (lato sensu) na área de Enfermagem no Brasil, principalmente para qualificar docentes da graduação e preparar os futuros candidatos aos cursos de mestrado. “Diferentemente da medicina, a enfermagem, como categoria, demorou muito para se titular no país”, explica Isabel Cristina Kowal Olm Cunha, professora associada livre docente e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. “Hoje, somos o segundo maior programa de pós-graduação da Unifesp em números de alunos”.

EntreTeses 01 p37 EPE Unifesp

Atualmente, o programa de pós-graduação em Enfermagem possui conceito 5 (muito bom) da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Em 1972 os cursos de especialização oferecidos na EPE eram focados nas áreas de enfermagem pediátrica e puericultura; clínica e cirúrgica; saúde Pública; saúde mental e psiquiátrica; e do trabalho. Entretanto, foi em 1978 que o reconhecimento científico da Escola aflorou com a criação do mestrado em Enfermagem Pediátrica e, dois anos depois, em Enfermagem Obstétrica. Em 1989, o programa abrangeu também a Saúde do Adulto. “Entre os mestrados, instituiu-se, em 1986, o doutorado em Enfermagem Materna e Infantil, sendo reformulado oito anos depois de sua criação para formar doutores em Enfermagem, prontos a atender as mais diversas ramificações desta área”, afirma Mavilde da Luz Gonçalves Pedreira, coordenadora da Câmara de Pesquisa e Pós-graduação da EPE. “Os programas fragmentados em ambos os níveis, transformaram-se em apenas um de mestrado e outro de doutorado”.

De acordo com a coordenadora, esta tendência de juntar as áreas levou a EPE a formar um dos primeiros programas multidisciplinares. “A enfermagem não tem como foco a cura da doença, mas sim o cuidado ao ser humano, o alívio do sofrimento e a promoção da saúde”, afirma. “Isso transcende qualquer etapa do ciclo vital já que o cuidado se destina ao ser humano, que é único e integral”.

A EPE tem como missão em seu programa de pós-graduação ser um centro de excelência na formação não apenas de pesquisadores, mas de profissionais altamente capacitados para promover o avanço da ciência da enfermagem e da saúde, com abordagem multidimensional. O objetivo, segundo Mavilde, é integrar os conhecimentos no ensino, na prática e na pesquisa em enfermagem e saúde, utilizando diferentes perspectivas filosófico-teóricas e metodologias que culminem em melhorias no cuidado e na saúde da população. “Para entender o cuidado de uma forma global, não basta o olhar da biologia. É preciso abranger as ciências humanas e sociais”.

EPE
Programas 1
Cursos de Mestrado Acadêmico 1
Curos de Doutorado 1
Total de Alunos 173
Alunos de Mestrado Acadêmico 87
Alunos de Doutorado 86
Total de Docentes - orientadores credenciados 41
Dados de julho 2013
Produção Científica (2012)
Apresentação de trabalhos em Congressos e Simpósios 34
Artigos publicados em Jornais ou Revistas Científicas 5
Artigos publicados em Periódicos Indexados (ISI) 92
Cursos de curta duração – Extensão 18
Organização de Eventos (congressos, simpósios, outros) 27
Trabalho em Anais – Resumo 57
Trabalho em Anais – Trabalho Completo 23

Perfil dos alunos

Em 2002, uma pesquisa realizada na Escola, sobre a inserção profissional de egressos do programa da EPE, mostrou que entre os que se formaram mestres, 48% atuavam em instituições de ensino superior e, 46%, em instituições de saúde. Entre os doutores, 90,5% atuavam em instituições de ensino superior e 9,5%, em hospitais. “Hoje continuamos a ter mais enfermeiros da prática procurando realizar pós-graduação no nível mestrado, do que propriamente docentes”, afirma Isabel Cunha , coordenadora do programa. “Além dos enfermeiros, é extremamente comum profissionais de outras áreas em nosso programa, como farmacêuticos, fisioterapêutas, médicos, sociólogos e até mesmo administradores que, de alguma forma, fazem interface com o cuidado ou com a promoção da saúde.”

Produção científica

No ano de 2012, o programa de pós-graduação da EPE apresentou 34 trabalhos em congressos e simpósios nacionais e internacionais, publicou cinco artigos em jornais e revistas científicas de renome, 92 artigos em periódicos indexados (ISI). Em anais foram 57 resumos e 23 trabalhos completos divulgados. Na parte de extensão, ministrou 18 cursos. 

“A enfermagem brasileira é a sétima no mundo em publicação de artigos científicos e a pós-graduação é, sem sombra de dúvida, a mola propulsora dessa produção”, afirma Mavilde. “Temos uma produção científica forte, com nota 5 da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal der Nível Superior), o que a classifica como muito boa”.

Para a coordenadora, estudos de inovação e intervenção estão buscando cada vez mais a interlocução com outras áreas do conhecimento para as respostas do dia-a-dia e o desenvolvimento de políticas, programas, produtos e patentes que atendam, cada vez mais, às necessidades da população. 

Visando a divulgação e interação dos avanços na área, a EPE publica bimestralmente, desde 1988, a revista Acta Paulista de Enfermagem. Nela, são encontrados resultados de pesquisas inéditas nacionais e internacionais que contribuem para o avanço da ciência e da prática de enfermagem, além de contribuir para o ensino, pesquisa e extensão em saúde.

Pioneirismo

Fundada em 1939, a Escola de Enfermeiras do Hospital São Paulo foi uma das primeiras instituições de ensino de enfermagem instaladas na cidade de São Paulo. Entretanto, os cursos ministrados de Enfermagem e Enfermagem Obstétrica só foram reconhecidos como de nível superior em 1962. Seis anos depois, a Escola de Enfermeiros passou a se chamar Escola Paulista de Enfermagem (EPE).

EntreTeses 01 p38 EPE pioneirismo

Em 1977, a EPE foi federalizada e incorporada à Escola Paulista de Medicina (EPM) como Departamento de Enfermagem e, em 1994, acompanhou a transformação da EPM em Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Com a expansão da Unifesp para outras áreas do conhecimento, iniciado em 2005, o departamento voltou a ser Escola Paulista de Enfermagem em 2011, transformando-se em uma unidade universitária do Campus São Paulo da Unifesp – que também abriga a EPM – na Vila Clementino, zona sul da cidade. A atuação tanto dos alunos de graduação quanto de pós-graduação sempre ocorreu no Hospital São Paulo, hospital universitário da Unifesp.

Atualmente a EPE possui 335 alunos de graduação em seu curso de bacharelado em Enfermagem, em regime integral e quatro anos de duração. São 88 vagas anuais no vestibular e a entrada ocorre por meio do sistema misto – que utiliza o Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) e prova complementar – e por cotas.

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Segunda, 11 Novembro 2013 16:17

Desbravando a gênese digital

Pesquisa pioneira realiza construção automática de algoritmos, softwares ou programas que gerarão outros descendentes na busca da solução de problemas

Bianca Benfatti

Imagem com vários números 01

Imagem meramente ilustrativa

Qual seria a melhor e mais simples forma de resolver problemas de classificação, como análise de créditos em bancos, controles de entrada e saída de pessoas, diagnóstico médico, etc?

Existem diversas maneiras de resolver esse tipo de problema, como funções matemáticas, redes neurais artificiais, máquinas de vetores de suporte, e árvores de decisão. Dado um problema de classificação, as árvores de decisão podem ser construídas por diversos algoritmos, cada qual com suas particularidades mas com algo em comum: todos desenvolvidos por seres humanos. A estrutura de uma árvore de decisão consiste em nós internos, que representam perguntas sobre determinadas características (por exemplo, sexo de uma pessoa), seguidos de arestas, que representam respostas para as perguntas (masculino ou feminino), e por fim os nós folha, que representam o rótulo, ou seja, a classe (categoria) à qual pertence essa pessoa.

A vantagem de se utilizar esse método de representação do conhecimento em relação a outros está na facilidade de interpretação: qualquer pessoa consegue entender e interpretar os dados contidos nas árvores de decisão, conforme observa Márcio Porto Basgalupp, do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT-Unifesp) e coordenador do projeto “Programação Genética para Evolução de Algoritmos de Indução de Árvores de Decisão”, parte do programa Jovem Pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Segundo Basgalupp, as árvores de decisão podem ser construídas com diversos algoritmos, até agora desenvolvidos por seres humanos. O objetivo principal da pesquisa é fazer com que o algoritmo genético fabrique sozinho, automaticamente, um novo algoritmo para, no fim, obter uma nova árvore de decisão. “É um trabalho pioneiro nessa área: realizar a construção automática de algoritmos, softwares ou programas, que gerarão outros”.

O projeto surgiu como resultado do pós-doutorado de Basgalupp. “Passei no concurso e transformei o meu projeto em proposta de Jovem Pesquisador, submetida à Fapesp em 2011”, afirma. “Requisitei três anos para o seu pleno desenvolvimento, que está previsto para acontecer até agosto de 2014.” A pesquisa está sendo feita em parceria com a Universidade de São Paulo (Campus São Carlos), por André Carlos Ponce de Leon Ferreira de Carvalho, e com a University of Kent (Inglaterra) por Alex Freitas. Também participa deste trabalho Rodrigo Coelho Barros, doutorando do Laboratório de Computação Bioinspirada (BioCom) da USP e bolsista da Fapesp.

O projeto tem como inspiração o evolucionismo de Charles Darwin, explica Basgalupp. “De alguma forma, nós representamos o problema computacionalmente, geralmente no formato de gênese. Cada solução é uma gênese que vamos combinando-as para que as melhores apareçam”, diz. “Desse modo, aquelas que se mostrarem mais aptas terão chance de trocar de gênese, de sobreviver, de cruzar com outras e gerar filhas descendentes”.

Selecionando os melhores

Mas, o que diz se um algoritmo é bom ou não? A resposta depende da taxa de acerto da árvore de indução por ele construída. Quanto maior a taxa, melhor o algoritmo.

Os pesquisadores trabalham com o algoritmo customizado, criam diferentes softwares para determinados domínios de aplicação. “Tentamos encontrar qual é o algoritmo superior para aquele determinado problema. É mais simples conseguir achar uma solução específica do que uma geral”, explica Basgalupp.

Restando apenas um ano para o seu término, a pesquisa já obteve bons resultados, inclusive originou o artigo A Hyper-Heuristic Evolutionary Algorithm for Automatically Designing Decision-Tree Algorithms, premiado em uma conferência de computação evolutiva, realizada na Filadélfia (Estados Unidos), a Genetic and Evolutionary Computacion Conference (Gecco). O prêmio resultou em convite para os pesquisadores submeterem uma versão estendida do trabalho no periódico Evolutionary Computacion Journal.

Basgalupp afirma que o maior desafio encontrado foi justamente o caráter pioneiro do projeto. Se há vantagens óbvias no fato de ser novidade, por outro lado, os pesquisadores são obrigados a enfrentar a ausência de trabalhos relacionados para usar como base. “Há a dificuldade de entendimento, mesmo com pessoas que são da área. A tarefa de explicar, convencê-los da novidade do projeto foi a grande dificuldade durante todo o processo”, explica.

O programa deverá produzir um impacto significativo na área de tecnologia por permitir o desenvolvimento automático de algoritmos melhores, produzidos e testados por máquinas, antes de serem submetidos ao uso humano.

Projeto:
Programação Genética para Evolução de Algoritmos de Indução de Árvores de Decisão.
Coordenador: Márcio Porto Basgalupp. Fapesp 2010/20255-5

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Estudo premiado esclarece algumas das contradições verificadas na literatura científica sobre os efeitos do extrato na aquisição de memória

Flávia Kassinoff

Fotografia da árvore de Ginkgo biloba

Ginkgo biloba: o extrato retirado do vegetal já é utilizado pela medicina oriental há 4 mil anos

De origem chinesa, a espécie da Ginkgo biloba foi considerada por Charles Darwin um “fóssil vivo”, devido a sua morfologia muito similar a de algumas plantas já extintas. Sua idade é de aproximadamente 200 milhões de anos. É a última representante da família Ginkgoaceae e supõe-se que seja a espécie de árvore com vida mais antiga do planeta. É também uma planta que sobreviveu à bomba atômica despejada sobre Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, brotando do solo da cidade japonesa devastada e resistindo à radiação.

A palavra “Ginkgo” tem origem chinesa e significa damasco prateado, e “biloba” é referente ao formato das folhas com dois lóbulos. O extrato retirado de seu tecido vegetal já é utilizado pela medicina oriental há 4 mil anos e suas propriedades terapêuticas são alvo, atualmente, de muita especulação e pesquisa. Acredita-se que o extrato padronizado de Ginkgo biloba (EGb) seja um nootrópico, ou seja, substância capaz de aumentar a capacidade cognitiva no ser humano. Assim, é utilizado como intensificador de memória. Porém, recentemente, alguns estudos questionaram esta eficácia.

As dúvidas e contradições verificadas na literatura científica sobre o EGb motivaram a professora Suzete Maria Cerutti a elaborar uma pesquisa para investigar o seu potencial terapêutico. Esta pesquisa foi realizada pela aluna de mestrado Cláudia Raquel Zamberlam e intitulada: Participação da neurotransmissão glutamatérgica, gabaérgica e serotoninérgica na aquisição do medo condicionado: possíveis alvos terapêuticos do extrato padronizado de Ginkgo biloba L.

A pesquisa foi premiada como melhor trabalho de mestrado no IV Fórum Integrador de Pesquisadores da Unifesp. Segundo Suzete, o projeto é original por englobar diversas áreas de pesquisa e também por abrir novas possibilidades de discussões a respeito dos efeitos do EGb na cognição. “O projeto poderá trazer contribuições científicas importantes pelo seu caráter inovador, pois busca a interação de diferentes áreas de pesquisa que englobam a morfologia, biologia celular, biologia molecular e biologia de sistemas com o intuito de explicar os efeitos do EGb na ansiedade e na memória. A possibilidade de comprovar que o EGb apresenta eficácia e menos efeitos colaterais abre novas perspectivas de tratamento para a população de uma forma geral, com isso, benefícios para a saúde pública”, diz a professora.

Foto de folhas do Ginkgo biloba

A pesquisa pode gerar uma nova abordagem farmacológica para o tratamento de déficit cognitivo ou transtornos relacionados à incapacidade de supressão da resposta condicionada, como ocorre na ansiedade. Está sendo avaliada a viabilidade da realização de testes clínicos para analisar a eficácia do possível tratamento em seres humanos.

O estudo analisou a ação do extrato em diferentes fases da formação da memória (aquisição, armazenamento e evocação). Para tanto, foi adotado um protocolo de experimentação animal, com ratos Wistar, onde os animais eram privados de água por 16 horas antes de serem submetidos a aquisição e evocação. As intervenções farmacológicas (dose de EGb) foram feitas em momentos estratégicos do processo. 

Os resultados mostraram que na dose maior o extrato de Ginkgo biloba favoreceu a retenção da aprendizagem. “Os resultados foram plenamente satisfatórios, com baixa variabilidade e significância estatística. Ainda, os dados nos dão evidências experimentais importantes do efeito do EGb na memória e, com isso, contribuem com a ciência. É importante ressaltar que estes dados, juntamente com dados anteriores do grupo, nos ajudam a compreender a aparente contradição existente na literatura a respeito dos efeitos do EGb. Essas contradições podem estar associadas a variabilidade de protocolos experimentais adotados, via de administração, dose e tempo de tratamento, bem como animal experimental utilizado”, completa a orientadora Suzete.

Dissertação de mestrado:
“Participação da neurotransmissão glutamatérgica, gabaérgica e serotoninérgica na aquisição do medo condicionado: possíveis alvos terapêuticos do extrato padronizado de Ginkgo biloba L”. Autora: Cláudia Raquel Zamberlam. Orientadora: Suzete Maria Cerutti.

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Segunda, 11 Novembro 2013 16:14

O Brasil no contexto do mundo

Pesquisa investiga a adequação do conceito de “longo século XIX” à história do país, cercado pelo escravismo apenas abolido em 1888

Bianca Benfatti

Fotografia de homens negros escravizados - um grupo de dezenas de pessoas, eles estão muito magros

Diáspora africana: entre 1808 (chegada da família real ao Brasil) e 1850 entraram mais escravos do que nos 200 anos de colonização

O “longo século XIX” descreve um período inaugurado com os processos característicos do final dos setecentos, sobretudo a Revolução Francesa (1789), e que terão o seu momento de condensação máxima na Primeira Guerra Mundial, terminando em 1918. Se pudéssemos agrupar um conjunto de palavras-chave para descrever os grandes eventos associados ao período, bem como os debates e conceitos a eles associados, seriam algo como: “monarquia constitucional”, “república”, “escravidão”, “liberdade”, “cidadania”, “progresso”, “revolução”, “democracia”, “liberalismo”, “independência”. 

Como o Brasil se insere nesse contexto? Configurou-se, em nosso país, a unidade política, social, econômica e ideológica iluminada pelo conceito de “longo século XIX”? Essa é a questão enfrentada pela coordenadora do programa de pós-graduação em História da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Unifesp, em Guarulhos, Wilma Costa, responsável pela pesquisa temática “Um tempo entre crises: o Brasil no longo século XIX”. A pesquisa é desenvolvida em conjunto com pesquisadores das faculdades de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) e de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O projeto está em fase de desenvolvimento e deverá ser apresentado à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) até o final do semestre. 

Uma das grandes novidades da pesquisa, segundo Wilma, é a tentativa de analisar o Brasil, não voltado para si mesmo, mas inserido no grande contexto mundial do século XIX. Com esse objetivo no horizonte, o projeto tentará integrar vários campos da história (história política, social, econômica, da medicina, do direito e da educação). Isso determina o seu caráter múltiplo e interdisciplinar. A proposta faz um recorte temporal delimitado por duas crises do sistema: a primeira ocorreu entre 1763 e 1826, causada pelas independências ibero-americanas, portanto a crise do Antigo Regime e do colonialismo, e, a segunda (1870 a 1918), acometida pela revolução industrial, seguido das inovações tecnológicas, do imperialismo e da Primeira Guerra. Ambas provocaram mudanças profundas na economia-mundo, possibilitando a construção de uma ordem capitalista internacional. 

Wilma relatou que o projeto em questão é novo, porém a ideia possui uma história anterior. “Algumas pessoas que participam de nosso grupo já faziam parte do projeto temático realizado na USP, entre 2004 e 2009, intitulado Brasil a Formação do Estado e da Nação ”, disse. A revista eletrônica Almanack foi criada a partir desse grupo de professores, dando continuidade ao projeto original, mas, ao mesmo tempo, ampliando-o. 

O que se destaca na periodização escolhida é uma questão que perpassa o século XIX nas suas duas pontas: a construção do Estado-nação. “O essencial é pensar como o Brasil se encaixa nesse processo, na formação das nações latino-americanas como territórios, construções de sistemas de poder, de unificação”, completou a professora. O objetivo é demonstrar que as Américas, assim como a Europa, também se constituíram nos conflitos, incluindo a guerra civil nos Estados Unidos, a guerra no Pacífico e a do Paraguai. O projeto foi dividido em três eixos principais: espacialidade e mobilidade; controle e conflito; cultura escrita, expansão e diversificação dos campos. 

Fotogragia antiga, dois meninos pobres vendedores de jornais

Vendedores de jornais no Rio de Janeiro, em 1899

O primeiro deles abrange a formação das fronteiras no século XIX, tanto as “visíveis e conflitáveis (nas bacias do Prata e a Amazônica), quanto as “invisíveis”, estendidas até a África, movimentadas pelas navegações e pelos fluxos de mercado. “Ao mesmo tempo que estão formando os espaços, a mobilidade das populações é crescente, portanto há uma espécie de contraste entre fronteiras que se estabelecem e se solidificam com expulsão e atração de grandes contingentes populacionais”, observa Wilma. Compreende desde a chamada diáspora africana – o aumento do tráfico de escravos para o Brasil, após 1808, com a chegada da Família Real, até 1850; das classes dominantes – uma corte inteira que se muda; e, por fim, a imigração de alemães, italianos, mais tarde de asiáticos, causados pelas unificações (organizações dos territórios, que significou a desorganização dos povos dessa região). 

O segundo tema irá refletir sobre as consequências da formação das nações e com isso a criação de imigrantes e migrados, exigindo a construção de leis, de normas e fronteiras, significando a obtenção de passaportes, documentos de identidade, formas de regular a vida e a mobilidade das pessoas. Simultaneamente esse processo é gerador de conflitos, pois na tentativa de realizar um código civil, houve sempre uma tensão entre as necessidades reguladoras do Estado, censo, matrícula e os povos. O maior temor por parte dos posseiros era de perder suas terras para os próprios senhores, que não queriam regulamentar suas posses ou dos pequenos proprietários que tinham medo que uma lei resultesse na sua expulsão. “Portanto, havia um grande medo quando se falava em ter censo ou matrícula nos sertões”, afirma Wilma. 

Já o terceiro tópico trata de pensar como esse contexto influenciou a organização dos saberes e das ciências, que naquele momento estavam se configurando no plano internacional. Sociologia, Economia e a Antropologia estavam sendo concebidas pelo mundo. Porém esse processo ocorreu de maneiras diferentes em cada lugar. No Brasil, conforme relatou Wilma, a Economia e a Sociologia originaram-se do Direito; a Engenharia, das Forças Armadas; e, a Antropologia, da Medicina. “Analisar como essa historicidade do Brasil determina de alguma forma que, embora conectada com a ciência que está sendo produzida no mundo, se arranja aqui de uma forma específica”, conclui. 

O grupo quer transformar a pesquisa em portal, onde será colocada a sua produção integral, incluindo mapas históricos, cronologias e publicações de época. Além disso, pretendem elaborar um site com notícias da imprensa do período, com jornais do século XIX, e criar uma interface para a utilização nas escolas pelos professores. “A ideia é publicar a maior parte do trabalho na forma de e-books, também de livre aquisição”, explica a coordenadora. “A EFLCH é um campus novo e que pela primeira vez está sediando um projeto dessa envergadura”, completou Wilma.

Pesquisa:
Um tempo entre crises: o Brasil no longo século XIX
Coordenação: Wilma Costa

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Estudo envolveu estudantes, docentes e trabalhadores da rede de serviços em experiências de atendimento integrado em saúde à população.

Rosa Donnangelo

Fotografia da pesquisadora Angela capozzolo, ela segura o livro Clínica Comum

Ângela Capozzolo: o resultado da pesquisa gerou o livro

Em 2008, um grupo de 15 docentes do campus Baixada Santista apresentou ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) o projeto de pesquisa: Formação para o trabalho em saúde: a experiência em implantação nos cursos de graduação, cujo objetivo era o de investigar a proposta de formação em comum dos alunos dos cursos de graduação da área de saúde do campus. A pesquisa, conduzida ao longo de três anos, envolveu os cursos de Educação Física, Fisioterapia, Nutrição, Psicologia, Terapia Ocupacional e foi coordenada por Ângela Capozzolo. Mais especificamente, o foco da pesquisa foi a formação dos alunos participantes do eixo Trabalho em Saúde, um dos eixos comuns aos diversos cursos de saúde do campus Baixada Santista.

Como resultado da pesquisa além dos resultados favoráveis a este modelo de formação, principalmente pela experiência adquirida no atendimento a usuários do sistema de saúde, foi publicado o livro Clínica Comum – Itinerários de uma formação em saúde (Hucitec) e criado o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Formação e Trabalho em Saúde (LEPETS). O livro apresenta a pesquisa, discutindo sua metodologia e resultados pelos próprios pesquisadores e por interlocutores convidados de outras universidades.

A pesquisa procurou contar a história do eixo TS (Trabalho em Saúde), que mescla estudantes de vários cursos de graduação. “O principal objetivo era verificar o que nós estávamos produzindo com essa proposta de formação” explica Ângela. O eixo TS, atualmente coordenado por Virgínia Junqueira, tem como principal objetivo formar o profissional que saiba acolher o usuário do sistema de saúde, identificar suas necessidades e fazer intervenções que visem melhorar sua condição de saúde. 

Docentes e grupos de alunos se deslocam para algumas áreas da Baixada Santista, como as de cortiços, palafitas e morros, onde o acesso da população a serviços de saúde é mais difícil. “O que se espera no eixo TS é, por meio das experiências práticas dos alunos e do contato com a população, formar profissionais que não passem simplesmente uma receita, mas que façam um trabalho que dialogue com as diferentes situações em que se encontram os atendidos, com cada pessoa em particular”, afirma Ângela. “Às vezes, o cuidado que determinada pessoa exige do profissional não é algo nem da nutrição, nem da fisioterapia. Nesse aspecto está a importância do eixo comum, do atendimento integrado”, explica. 

No primeiro e segundo semestres, os estudantes vão conhecer territórios da cidade, entrevistar moradores e conhecer quais são os principais problemas de saúde na área. Refletem também sobre as políticas de saúde e fazem visitas à rede de serviços, como ambulatórios e centros de saúde. “Os estudantes são preparados para discutir os conceitos de saúde e doença”, explica a coordenadora. 

Durante o segundo ano da graduação, os alunos aprendem a fazer a narrativa de vida das pessoas, ouvem suas histórias. Ângela comenta que esse modo de aprendizado ajuda a “quebrar os pré-conceitos” porque os graduandos passam a enxergar de outra maneira como são as condições dessa população perante a saúde, além de aprender a ouvir e compreender as dificuldades de cada um e se aproximar um pouco da realidade em que vivem essas pessoas. De acordo com ela, o aluno entende que ele não cuida só de um pedaço do corpo humano, mas de uma pessoa com certa história de vida, cultura, situação social.

“Esse jeito de cuidar das pessoas não é o mais frequente no serviço de saúde. Muitas vezes, cada profissional faz sua parte específica e a pessoa vai de um serviço pra outro sem ter seu problema resolvido”, lamenta Ângela. A pesquisa revelou que era preciso qualificar, além dos estudantes da Unifesp de forma geral, os profissionais da rede de serviços de saúde de Santos. “É uma proposta que integra docentes, equipes de serviços de saúde de várias áreas e estudantes”, afirma.

O LEPETS, fruto da pesquisa realizada e já concluída, agora abriga outra pesquisa, uma extensão da anterior. “Os alunos e os docentes acharam a proposta de formação importante. Mas será que quem recebe o atendimento acha interessante também?”, questiona Ângela. “Estamos olhando agora as pessoas que recebem o atendimento”, explica Ângela. A nova pesquisa já conta com 10 docentes e cinco estudantes de mestrado. 

“Humanizado” não é a palavra exata para definir o atendimento visado pelo eixo comum. O atendimento é integrado, amplo. A pesquisa sobre o eixo propiciou questionamentos necessários para que o projeto eixo comum continuasse, de forma a acrescentar aos profissionais da área, na sua prática, os cuidados e saberes para atender ao paciente, enfatizando a sua história de vida, condição social, valores e cultura.

Pesquisa:
“Formação para o trabalho em saúde: a experiência em implantação nos cursos de graduação – educação física, fisioterapia, nutrição, psicologia, serviço social e terapia ocupacional – da Universidade Federal de São Paulo”. Coordenação: Ângela Capozzolo.

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Segunda, 11 Novembro 2013 16:10

Na prática, a teoria ajuda

Orientações sobre procedimentos de Enfermagem, como o banho no leito, ajudam a aliviar a ansiedade dos pacientes que se vêem, pela primeira vez, sem possibilidade de se autocuidar

Ana Cristina Cocolo

A pesquisadora Juliana de Lima Lopes. Ela está de jaleco, luvas e segura bacia e água

A maioria das ações de responsabilidade da Enfermagem, como o banho no leito, pode parecer natural e corriqueira para o profissional. Entretanto, para os pacientes internados, o constrangimento e o medo de algumas práticas da Enfermagem geram ansiedade, podendo até mesmo impactar em seu restabelecimento, principalmente, entre aqueles com problemas cardíacos, como demonstra uma pesquisa de doutorado realizada na Escola Paulista de Enfermagem (Unifesp). 

Os pesquisadores distribuíram um manual informativo sobre o banho no leito a 120 pacientes com síndrome coronária aguda (infarto), internados em uma unidade de terapia intensiva e submetidos ao procedimento. A escolha por pacientes que sofreram infarto não ocorreu por mero acaso. Juliana de Lima Lopes, enfermeira e autora da pesquisa, explica que a associação da ansiedade e infarto agudo do miocárdio tem mostrado impacto negativo no prognóstico desses pacientes como mostram vários estudos. A ansiedade pode causar ativação do sistema nervoso simpático, aumentando a contratilidade e a frequência cardíaca, a pressão arterial e o consumo de oxigênio. “Essas reações podem agravar o quadro coronário”. 

Juliana verificou que, após relatar sobre a necessidade do banho no leito, a ansiedade apresentada pelos pacientes do grupo de controle – que não receberam informações prévias do procedimento – e do grupo de intervenção – os quais foram orientados – eram semelhantes, sem diferença estatística. Após a orientação ao grupo de intervenção, a ansiedade dos pacientes foi significantemente menor quando comparada à do grupo de controle. Já a frequência cardíaca, a pressão arterial e a respiração não sofreram alterações em nenhum momento em ambos os grupos. Os pacientes eram semelhantes quanto às características sociodemográficas e clínicas, exceto pelo fato de que se observou um número maior de tabagistas no grupo intervenção.

Setenta por cento do total de pacientes apresentavam um traço de ansiedade moderado, elevado ou muito elevado e, cerca de 18%, tiveram diagnóstico prévio de depressão, o que mostrou que essa condição pode aumentar em 17,2 vezes a chance do paciente apresentar ansiedade ao ser submetido ao banho no leito. “Também verificamos que, para cada unidade que se aumenta no escore do constrangimento, a chance do paciente submetido ao banho no leito apresentar ansiedade aumenta em 2,8 vezes”, afirma Juliana.

A pesquisadora Juliana Alba ao lado de sua orientadora

Juliana de Lima Lopes e Alba Lucia Bottura Leite de Barros

A pesquisadora explica que o infarto é uma doença que causa, na maioria das vezes, uma internação inesperada. De uma hora para outra, essas pessoas se vêem em uma situação na qual estão impedidos de se autocuidar. “Minimizar o sentimento de angústia, ansiedade e constrangimento nos pacientes, frente aos diversos procedimentos de Enfermagem, é essencial para uma assistência de qualidade”. 

A doença cardiovascular é uma das maiores causas de morbidade e mortalidade no mundo. Só nos Estados Unidos, 82,6 milhões de americanos sofrem do mal, segundo dados da American Heart Association (AHA). No Brasil, números do DATASUS apontam que, somente em 2011, as doenças isquêmicas do coração causaram mais de 231 mil internações, correspondendo a 20% das hospitalizações por doenças do aparelho circulatório e 2% de todas as internações no sistema público de saúde.

Deficiência no dia a dia

Juliana explica que em estudo prévio realizado pelos pesquisadores, observou-se que a ansiedade gerada pelo banho no leito era maior quando comparada ao banho de chuveiro, principalmente antes do procedimento. Além disso, ao longo de sua vivência profissional, em uma unidade de terapia intensiva, observou que a grande maioria dos profissionais de Enfermagem não oferecia orientação de forma a esclarecer as dúvidas do paciente sobre o procedimento e o motivo de o mesmo ser oferecido no leito. Esse fato motivou o estudo. 

“A carência de orientação ao paciente ocorre não porque a graduação não forme o indivíduo adequadamente como aquele profissional que acolhe, que é o princípio básico da humanização”, explica Alba Lucia Bottura Leite de Barros, docente da Escola Paulista de Enfermagem (EPE) e orientadora da pesquisa. “O problema é que, quando o profissional entra no mercado de trabalho, a demanda dentro de um hospital, seja ela de pacientes ou de atividades administrativas, como preenchimento de formulários, é tão grande que essas orientações acabam se perdendo”. 

Para Alba, o impacto do estudo é justamente mostrar que um procedimento como o banho no leito, no qual você “invade” a intimidade do paciente, se for bem conduzido e baseado nas melhores práticas, traz conforto aos pacientes e garante a sua segurança.

Metodologia e resultados

O estudo foi dividido em duas fases. A primeira foi a de elaboração e validação de um manual informativo, do tipo pergunta e resposta, contendo informações sobre o banho no leito, entre elas, a importância deste tipo de banho e as técnicas utilizadas para sua realização. A segunda fase foi a de avaliação da efetividade de um protocolo de orientação de Enfermagem para redução da ansiedade de pacientes que receberam o banho no leito. Este protocolo foi constituído por orientações de Enfermagem, tanto escritas, por meio de manual informativo, como orais sobre o banho no leito.

A média de idade dos pacientes foi de 60 anos, sendo 68% do sexo masculino. Metade dos pacientes relataram já terem tido internações prévias e quase metade dos participantes relataram já terem vivenciado o banho no leito em outras internações.

Observou-se que o grupo intervenção apresentou uma redução significante da ansiedade após receber as orientações de Enfermagem, resultado este que não foi encontrado no grupo controle.

Tese de doutorado:
Efetividade de um protocolo de orientação de enfermagem para redução da ansiedade de pacientes com síndrome coronária aguda submetidos ao banho no leito: ensaio clínico randomizado. Autora: Juliana de Lima Lopes. Orientadora: Alba Lucia Bottura Leite de Barros.

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Segunda, 11 Novembro 2013 16:09

Novo passo na luta incessante contra o câncer

A descoberta de duas novas proteínas antimelanoma e o reconhecimento de diferentes moléculas por elas produzidas foram eficazes no combate às células tumorais

Ana Cristina Cocolo

Ilustração de Peptideo derivado de CDR

Peptideo derivado de CDR de anticorpo monoclonal (canto de baixo a esquerda) reage com beta-actina (vermelho) em células de melanoma e provoca a sua morte desintegrando a membrana nuclear (núcleos em azul)

Encontrar drogas mais eficazes contra o câncer e menos agressivas que a quimioterapia é um objetivo constante de pesquisadores do mundo todo. Um estudo desenvolvido na Unidade de Oncologia Experimental, do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), abre novas perspectivas de tratamento contra um dos diversos tipos existentes dessa doença: o melanoma maligno. 

Fabricadas em laboratório, duas novas proteínas antimelanoma – chamadas de anticorpos monoclonais – foram capazes de inibir e combater células de melanoma maligno em camundongos (melanoma murino B16F10) tanto in vitro quanto in vivo. 

Luiz R. Travassos, coordenador do laboratório e orientador da tese de doutorado do biólogo Andrey Dobroff, diz que o uso de compostos antitumorais eficazes tem a vantagem de evitar os inúmeros efeitos colaterais decorrentes da aplicação da quimioterapia convencional. “Nem sempre a quimioterapia tem a eficácia esperada devido à multirresistência a drogas por parte das células tumorais”, afirma. Encontrar alternativas de drogas biológicas, menos tóxicas, e mais potentes que impeçam a reprodução das células tumorais e causem a sua morte ainda é uma guerra que está longe de acabar. “Entretanto, julgamos estar no caminho certo”.

Desde 1990, Travassos lidera a linha de pesquisa na Unifesp sobre atividade antitumoral de biomoléculas e seus mecanismos de ação em modelos animais e em células tumorais cultivadas em laboratório.

Primeiro os anticorpos, depois os peptídeos 

A pesquisa foi realizada em duas etapas distintas. Na primeira, Dobroff encontrou dois novos anticorpos monoclonais: o A4 e o A4M. Os anticorpos monoclonais são proteínas específicas produzidas em animais de laboratório que atuam sobre uma determinada região encontrada em um tipo específico de tumor, impedindo seu crescimento e causando sua morte.

Com a identificação dos mesmos, o pesquisador buscou, em conjunto com a Universidade de Parma, Itália, sequencias internas desses anticorpos, chamadas de regiões determinantes de complementariedade (CDRs), que definem a reatividade do anticorpo com moléculas expressas na superfície da célula tumoral (antígenos). No entanto, “os CDRs têm outras atividades biológicas independentes da especificidade do anticorpo e que podem ser traduzidas em atividades antibacterianas, antifúngicas, antivirais e antitumorais”, explica Travassos. “Enquanto pesquisadores italianos trabalharam as atividades antimicrobianas, anti-HIV e antifúngicas, nós testamos as ações antitumorais usando melanoma em modelos de camundongos singenêicos – geneticamente relacionados”. 

Cada anticorpo possui seis CDRs que foram sintetizados quimicamente como peptídeos – biomoléculas formadas com a união de dois ou mais aminoácidos.

Na pesquisa, foram testados tanto a aplicação dos anticorpos monoclonais quanto dos peptídeos sintetizados, em células tumorais in vitro e in vivo, especificamente em dois grupos de modelos animais: um com melanoma injetado sob a pele e, outro, com melanoma metastático no pulmão. 

Os resultados apontaram que o anticorpo monoclonal A4 foi capaz de destruir células do melanoma murino e linhagens tumorais humanas in vitro e o uso do mesmo na imunização passiva dos animais reduziu em cerca de 75% o número de metástases pulmonares dos camundongos. Cinco dos peptídeos derivados dos anticorpos A4 e A4M também induziram a morte celular e reduziram o número de nódulos pulmonares. “Os dados são animadores não apenas pelos resultados nas células tumorais mas também porque, em princípio, ambos anticorpos e peptídeos não apresentaram toxicidade alguma contra os animais”, afirma Travassos. “Hoje existem 12 anticorpos monoclonais aprovados pelo FDA que são utilizados como medicamentos para tratar câncer. Já os peptídeos são mais novos e ainda precisam vencer outras etapas da pesquisa básica para chegar à aplicação em humanos”. 

O FDA (Food and Drug Administration) é o órgão governamental dos EUA que controla alimentos, suplementos alimentares, medicamentos, cosméticos, materiais biológicos, produtos derivados do sangue humano e equipamentos médicos.

Melanoma maligno 

O melanoma maligno é o tipo de câncer de pele com pior prognóstico devido à sua capacidade de invasão e produção de metástases com rapidez disseminando-se para outros órgãos. Essa doença tem origem nos melanócitos, que são as células produtoras de melanina – substância que determina a cor da pele – e atinge, predominantemente, indivíduos de pele clara. Se detectado em estágios iniciais, pode ser removido cirurgicamente e o prognóstico é considerado bom. 

Travassos explica que, embora mais de 90% das lesões do melanoma primário surjam na pele, uma pequena porcentagem pode ser encontrada no olho, nas meninges e na mucosa dos aparelhos digestivo e respiratório. 

No Brasil, o câncer de pele é o mais frequente e corresponde a 25% de todos os tumores malignos registrados no país. Além da pele clara, a exposição excessiva ao sol, histórias prévias de câncer de pele ou familiar de melanoma são alguns dos fatores de risco mais conhecidos para a doença. 

Em 2010, segundo o INCA (Instituto Nacional do Cancer), foram registradas 1.507 mortes decorrentes do melanoma, sendo 842 homens e 665 mulheres.

Tese de doutorado:
Anticorpos monoclonais (mAbs) protetores contra o melanoma murino B16F10. Atividade antitumoral de CDRs isolados, derivados desses anticorpos. Autor: Andrey Dobroff. Orientador: Luiz Rodolpho R. G. Travassos.

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Segunda, 11 Novembro 2013 16:06

Campus Osasco

Escola Paulista de Política, Economia e Negócios

Rosa Donnangelo

Unifesp Campus Osasco, o prédio é uma construção pintada de verde e branco e foi retratado em um dia ensolarado

O processo de expansão da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) iniciou-se em 2004 e deu origem a cinco outros campi além do original, situado em São Paulo, incluindo o da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios, a (EPPEN). O local, no município de Osasco, região metropolitana da capital paulista, oferece aos 863 alunos matriculados em 2013 cursos de graduação e o recém-criado programa de pós-graduação, que qualifica o estudante e estimula a pesquisa. O programa, com nível mestrado profissional (MP) em Gestão de Políticas e Organizações Públicas, criado em 2013, deu início às atividades em agosto, com 25 vagas preenchidas.  

Coordenado por Álvaro Machado Dias, o programa traz à tona a problematização das práticas que envolvem a gestão de políticas e organizações públicas, bem como a discussão e implementação dessas práticas. O coordenador acredita que o mestrado profissional em questão está voltado para pessoas que já estão trabalhando e que ao longo da sua prática perceberam a necessidade de um aprofundamento científico para o tratamento de questões relacionadas a esse ambiente no qual elas estão inseridas.

O MP tem um aspecto prático maior que o verificado no mestrado acadêmico. Inicialmente, o programa obteve nota 3 na classificação inicial pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), mas, segundo Dias, os docentes e a coordenação estão focados na produção de indicadores favoráveis para alavancar a nota do programa.
O coordenador explica também que, para a criação do programa, concorreram a demanda da comunidade, a expertise dos professores e o interesse da instituição. “A procura foi muito grande, superando as expectativas”, ressalta.

Prédio da Unifesp Osasco

Osasco, além de ser o quinto maior município do estado em termos de população, tem o décimo maior PIB. Atrai investimentos de grandes empresas e se desenvolve economicamente graças à quantidade de indústrias e empresas privadas de renome da região. O crescimento da cidade, principalmente no âmbito da economia, demanda profissionais da área para cargos que tenham como função a manutenção de índices de desenvolvimento econômico, funcionalidade política e administração equilibrada, capaz de trabalhar, entender e atuar em Osasco. O alunado capaz e qualificado para fazer com que o município permaneça em constante crescimento encontra-se na EPPEN.

A área de administração pública é pouco abordada nas universidades. O Campus Osasco é, portanto, privilegiado. O mestrado que a EPPEN oferece é importante no sentindo de divulgar a gestão pública, promover a produção de conhecimento para resultados eficazes nos problemas relacionados à área no país. O curso de Gestão de Políticas e Organizações Públicas possibilita ao estudante ganhar conhecimentos que abrangem desde a formação em metodologia científica e tratamento de dados, passando por administração, políticas públicas e economia, além de produzir conhecimento científico que será publicado. Como coordenador do programa, Dias observa que o principal ganho dos alunos é a experiência na produção de uma resposta científica a problemas extraídos do seu cotidiano, que é enfim a própria produção do projeto.

Ciências atuariais 

A EPPEN cresce e o avanço da pós-graduação é consequência positiva desse crescimento. Está em curso, por exemplo, o primeiro projeto de pós em Ciências Atuariais do Brasil – mestrado profissional – que tem como objetivo, segundo Arthur Bragança, coordenador do programa, abordar o conteúdo do contexto técnico atuarial de uma forma acadêmica e profissional, levando em consideração não somente a questão clássica de seguros e administração de riscos do campo atuarial, mas também com grande ênfase nos aspectos previdenciários e de mercado financeiro que envolvem a área atuarial.

Bragança destacou a importância do programa para a Unifesp, uma vez que, em universidades da Europa e Estados Unidos, existem poucos cursos na área de Ciências Atuariais e, no Brasil, são apenas 17, de acordo com o Instituto Brasileiro de Atuária. “Um mestrado nessa área produz reflexos positivos para o campus e para a universidade como um todo, tornando o curso de Osasco uma referência global na área atuarial”, afirma. “O mercado de trabalho do setor atuarial demanda, cada vez mais, profissionais qualificados, principalmente no que diz respeito ao sistema previdenciário, um dos principais setores de análise do graduado em Ciências Atuariais”.

A Unifesp deu um importante passo no que diz respeito ao conhecimento científico e à pesquisa. A expansão foi eficaz para a criação da EPPEN. A Escola Paulista de Política, Economia e Negócios conta com docentes capacitados e um alunado com interesse pelo conhecimento científico. A pós-graduação se desenvolve qualitativamente e o conhecimento científico, as publicações e artigos que serão feitos podem servir de respaldo para melhorias para o país.

O mais novo dos campi 

O Campus Osasco é o mais recente legado do processo de expansão da Unifesp. Iniciou suas atividades em 2011. No local, são oferecidos cinco cursos de graduação (Administração, Ciências Atuariais, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas e Relações Internacionais) e um mestrado profissional em Gestão de Políticas e Organizações Públicas. Hoje, possui 863 alunos matriculados e 66 docentes. A especialização conta com dois projetos de extensão e um curso intercampi, que envolve todos os campi da Unifesp, alguns com participação já consolidada e outros em processo de consolidação. 

A Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (EPPEN), como é conhecido o campus, é estratégica,uma vez que a cidade de Osasco está em constante crescimento econômico e necessita de profissionais capacitados para atender a essa demanda. Para início das atividades, o Ministério da Educação (MEC) emitiu autorização para abertura dos cursos, poŕem, eles ainda não foram avaliados. Isso só acontecerá quando estiver formada a primeira turma de graduação, no final de 2014.

Publicado em Edição 01
Segunda, 11 Novembro 2013 16:05

Campus São José dos Campos

Instituto de Ciência e Tecnologia

Bianca Benfatti

Prédio da Unifesp em São José

Os dois primeiros programas de pós-graduação - mestrado em Ciência da Computação e mestrado e doutorado em Engenharia e Ciências de Materiais - foram criados a partir do primeiro semestre de 2012. Recentemente, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) aprovou a criação do programa de Biotecnologia, nível mestrado e doutorado, e analisa a aprovação de outro: Pesquisa em Matemática Aplicada. Nos próximos anos, devem ser abertos também nas áreas de Engenharia Biomédica e Engenharia de Computação.

Os principais fatores que levaram à inauguração do Campus São José dos Campos foram as demandas da própria região, no Vale do Paraíba, onde se situa um parque tecnológico de ponta. As seis áreas ministradas no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) são estratégicas para o país. Além disso, pesou também a demanda de profissionais em São José dos Campos que até então não contavam com nenhum programa de pós-graduação no Comitê da Computação.

“O Programa de Engenharia e Ciência de Materiais é de alto nível, prova disso é que além do mestrado também aprovou-se o doutorado”, explica o coordenador da Câmara de Pesquisa e Pós-Graduação, Horacio Yanasse. “Já o de Ciência da Computação apresenta índices de produção equivalentes aos programas de excelência na área, e apenas o programa em Biotecnologia ainda não teve a primeira turma”.

Devido ao grande reconhecimento da Universidade no país e no mundo, a procura por vagas é concorrida, tendo alunos do exterior com perfil acadêmico (dedicação exclusiva) ou tecnológico (dedicação parcial, combinado com o trabalho em empresas). “Desde o primeiro ingresso, atraímos alunos de diversas regiões do país, da região do Sul até o Nordeste.”

Transferência de conhecimento

Com apenas seis anos de funcionamento, o ICT almeja ser reconhecido como um dos centros de excelência do país. Em conformidade com esse objetivo, está afinado com as necessidades da pesquisa, que como afirma o coordenador do programa de Engenharia de Ciências de Materiais (PPG-ECM), Sérgio Gama, requer a preparação de indivíduos treinados, sobretudo na área de materiais. “Esses são a base de inúmeros desenvolvimentos tecnológicos e industriais essenciais no nosso país”, comentou. 

O PPG-ECM foi aprovado pela Capes, em 2012, com os níveis mestrado e doutorado, comprovando a qualidade da proposta, dos profissionais e dos laboratórios. Trabalha em conjunto com os campi Diadema e São Paulo. Dentre os principais objetivos do programa, que desenvolve três linhas de pesquisa (biomateriais, nanomateriais, materiais e processos para aplicações industriais), estão a formação de profissionais altamente qualificados, capazes de desenvolver suas próprias linhas de pesquisa ou aplicar os conhecimentos adquiridos nas indústrias, e incentivar o intercâmbio científico com pesquisadores de outras instituições nacionais e internacionais. 

Imagem da Unifesp em São José

Gama explica que, ao ingressar, o aluno estuda os materiais e suas propriedades mecânicas, físicas, químicas, elétricas e magnéticas. “Outro aspecto interessante corresponde ao estudo de materiais biológicos e com implicações em medicina”.
Também em 2012, foi criado o programa em Ciência da Computação (PPG-CC), nível mestrado, com três linhas de pesquisa: sistemas inteligentes, sistemas computacionais e otimização. A procura superou as expectativas, atraindo candidatos de diversas regiões do país. Assim como o PPG-ECM, a intenção principal do PPG-CC é a transferência dos conhecimentos tecnológicos apreendidos para a indústria, e isso será facilitado pelo Parque Tecnológico de São José dos Campos, na qual estão instaladas empresas com aplicações de alta tecnologia.

O coordenador, Márcio Basgalupp, acredita que o programa tem um grande potencial para crescer, por combinar o reconhecimento da Unifesp, o sucesso do Parque Tecnológico e o perfil dos docentes. Segundo ele, uma mistura de pesquisadores experientes e jovens recém-doutores muito produtivos. “Nosso programa caminha muito bem, com índices de produção semelhantes aos de excelência do Brasil, e com o tempo, naturalmente, atingiremos patamares almejados em termos de visibilidade nacional e internacional”, afirma. O próximo passo será a criação do doutorado.

Inovação tecnológica

A mais recente aprovação da Capes contempla o mestrado e doutorado em Biotecnologia (PPG-BT), que funciona em parceria com os campi Diadema e São Paulo. Cláudia Campos, coordenadora do PPG-BT, considera que a conjuntura atual do país estimula e valoriza muito a pesquisa na área de biotecnologia. “A abertura de um programa nesse âmbito, em uma universidade como Unifesp, com a tradição e o reconhecimento de sua pesquisa na área biomédica, sem dúvida alguma é impactante nacionalmente”.

Igualmente aos outros dois programas de pós-graduação do campus, o PPG-BT é constituído por três linhas de pesquisa (biotecnologia molecular, biotecnologia em sistemas fisiológicos e engenharia biológica), tendo como principal meta realizar estudos em áreas básicas e funcionais da biologia e biotecnologia modernas, possibilitando uma formação diferenciada de pesquisadores e profissionais com uma sólida visão interdisciplinar, capacitando os egressos a desenvolver atividades de pesquisa, inovação tecnológica, assim como docência no nível superior.

“No âmbito das disciplinas, o aluno poderá adquirir conhecimentos nestas três linhas, além também daquelas relacionadas à administração, economia, empreendedorismo, patentes e inovação”, explica a coordenadora.

Excelência

Os programas de pós-graduação em Engenharia e Ciências de Materiais e em Biotecnologia, possuem os mesmos conceitos da Capes, nota 4, nos níveis mestrado e doutorado. O mestrado em Ciência da Computação a nota é 3. A produção científica do PPG-CC é relativamente alta e se iguala ao mesmo nível de outros programas de excelência no Brasil, segundo seu coordenador, Marcio Basgalupp.

No período de 2010 a 2013, o Campus São José dos Campos depositou dois pedidos de patentes no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

Suprindo carência de vagas

O Campus São José dos Campos, onde funciona o Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT), foi inaugurado em 2007, em decorrência do potencial científico e tecnológico da região do Vale do Paraíba, com a formação em Ciência da Computação. A partir de 2013, todos os alunos ingressam no ICT através do Bacharelado em Ciência e Tecnologia e, após completarem os três anos de curso, podem optar por continuar a graduação por mais dois anos e especializarem-se em Biotecnologia, Ciência da Computação, Matemática Computacional (bacharelado), além de Engenharia Biomédica, Engenharia de Computação e Engenharia de Materiais. Atualmente o Campus atende a 844 alunos de graduação. 

O ICT ainda conta com três programas de pós-graduação: Ciência da Computação (mestrado), Engenharia e Ciências de Materiais (mestrado e doutorado) e Biotecnologia (mestrado e doutorado). Atualmente, está sendo construído o campus universitário definitivo do Instituto no Parque Tecnológico de São José dos Campos, em uma área de 126 mil m². A primeira parte da obra, com 21 mil m², a qual abrigará atividades de ensino e pesquisa, começou em 2011 e deverá terminar ao final de 2013. Já a segunda edificação, de igual área e que centralizará as atividades de pesquisa e apoio, teve seu início em 2012, com previsão para conclusão até 2015. O prédio antigo, localizado na Vila Nair, será destinado somente aos cursos de extensão.

Publicado em Edição 01