Hipertensão arterial e diabetes, entre outros males, atingem um número crescente de indígenas do Xingu e preocupam especialistas

Bianca Benfatti

grafismo xingu
Quatro fotos de índios fazendo exames médicos

Apesar de as doenças infecciosas e parasitárias ainda serem o motivo de várias mortes entre a população indígena do Xingu, é a prevalência cada vez maior de doenças crônicas – como hipertensão arterial e diabetes mellitus – que está deixando especialistas de sobrealerta e preocupados com o futuro dessa população.

Uma pesquisa coordenada pela professora do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina (EPM) da Unifesp – Campus São Paulo – e do programa de pós-graduação em Saúde Coletiva, Suely Godoy Agostinho Gimeno, apontou que 10,3% dos indígenas, tanto do sexo masculino quanto do feminino, apresentam sintomas de hipertensão arterial.

A intolerância à glicose foi observada em 30,5% das mulheres – quase 7% com diabetes mellitus – e em 17% dos homens. A dislipidemia (presença excessiva ou anormal de colesterol e triglicerídeos no sangue) foi detectada em 84,4% dos participantes da pesquisa. Por fim, constatou-se que 57% dos homens e 36% das mulheres sofria com excesso de peso. Já a obesidade central (acúmulo de gordura na parte superior do corpo) predominou entre as indígenas com 68%.

“Um achado importante foi que, pelos dados da impedância bioelétrica (resistência e reactância) que são uma ‘proxi’ da composição corporal dos sujeitos, observou-se que a elevada prevalência de excesso de peso, particularmente entre os homens, se deve à maior quantidade de massa muscular e não de gordura corporal”, diz a pesquisadora. Isso sugere que esses indivíduos são musculosos, por serem ativos, e não obesos, refutando a ideia de que o sedentarismo estaria relacionado com as doenças crônicas encontradas. Desse modo, o excesso de peso deve ser analisado de outra maneira.

Os dados foram colhidos de 179 indígenas da tribo Khisêdjê, na aldeia principal Ngojwere – Posto indígena Wawi – no Parque Indígena do Xingu, em dois períodos: julho de 2010 e agosto e setembro de 2011. Na ocasião foram realizadas entrevistas, exames e testes físicos por uma equipe composta por médicos, enfermeiras, nutricionistas, educadores físicos, graduandos do curso de Medicina e de Enfermagem, além de um sociólogo. Agentes de saúde e professores indígenas, que vivem na aldeia Ngojwere, atuaram como intérpretes e ajudaram a estabelecer a comunicação para a coleta de dados.

Tratamento depende de infraestrutura

O tratamento dos indígenas, que apresentam sintomas das enfermidades investigadas, particularmente do diabete mellitus, às vezes é complicado, pois demanda condições especiais nem sempre disponíveis nas aldeias. “A insulina precisa estar em constante refrigeração, os medicamentos necessitam de controle da dose e de horário, e os níveis de glicemia e da pressão arterial precisam ser monitorados regularmente”, explica Suely.

Os indígenas que precisam de acompanhamento médico continuam sendo atendidos e monitorados pela equipe de saúde da Unifesp, na Unidade de Saúde e Meio Ambiente do Departamento de Medicina Preventiva da EPM. “Os Khisêdjê desejavam conhecer seu atual perfil de saúde no que diz respeito à presença de doenças crônicas”, afirma a pesquisadora. “Além da importância científica e acadêmica dessa investigação, atendemos também uma demanda dessa comunidade”.

Fotografia da equipe, são 18 pessoas e estão em frente a uma consntrução coberta de palha, em um dia ensolarado

Equipe de pesquisa em 2010

Fotografia da equipe, são 17 pessoas em frente a uma construção coberta de palha

Equipe de pesquisa em 2011

Mudança de hábito

Essas doenças crônicas podem estar relacionadas à crescente exposição dos índios aos centros urbanos, o qual estimula o consumo de alimentos industrializados e o trabalho em atividades remuneradas, entre outros comportamentos absorvidos por eles que substituem as tradições alimentares e cotidianas dos índios, mudando a relação destes com o trabalho, terra e alimentação.

De acordo com Suely, a preservação dos hábitos e costumes desses povos seria uma medida preventiva de grande valia. Como exemplo de tal iniciativa, os membros do grupo estão auxiliando os profissionais da equipe de saúde que atua no Polo Wawi a organizar e realizar um diálogo intercultural, proposto na forma de oficina de culinária. A ação busca informar aos Khisêdjê sobre o uso correto da nossa alimentação (não indígena) e valorizar sua dieta tradicional.

Suely ainda avalia que a garantia da terra e dos territórios indígenas também é fundamental, já que eles dependem dela para sua sobrevivência por meio da caça, pesca, cultivo e coleta de alimentos. “Além disso, algumas políticas públicas podem agravar o problema como, por exemplo, a de distribuição de cestas básicas para esses indivíduos”, afirma. “É preciso que tais iniciativas respeitem as diferenças culturais existentes entre os indígenas e os não indígenas”, completou.

Para a professora Suely, o fato de existir um histórico de violência na relação com os indígenas não representou um problema no convívio com os médicos, pois como a equipe está presente no Xingu desde 1965, a relação está consolidada e bem estabelecida. “É preciso considerar que se comete um equívoco quando se fala de ‘gerenciamento’ de população indígena brasileira”, disse.

Ainda segundo ela, algumas distinções têm que ser feitas não apenas do ponto de vista de suas condições de saúde ou de convívio com a sociedade não indígena. A diversidade da organização da sociedade indígena, a qual possui 305 povos e 274 línguas distintas, com seus inúmeros mitos e ritos, envolve e orienta a vida cotidiana. A heterogeneidade se reflete nas relações (pacíficas ou conflituosas) com os não indígenas.

As dificuldades encontradas na operação logística, necessária à permanência de todo o grupo na aldeia, foram marcantes. Entre elas está o deslocamento, de São Paulo até a aldeia, dos equipamentos de uso pessoal e coletivo, das redes para dormir e de todos os aparelhos usados na coleta de dados. Assim como o transporte, de Canarana ao Posto Indígena Wawi, dos produtos de higiene/limpeza não perecíveis e combustível (utilizado tanto para a manutenção do gerador, quanto para o veículo que transporta a equipe de pesquisa entre as aldeias). O deslocamento da equipe se deu por via aérea de São Paulo a Goiânia e terrestre de Goiânia a Canarana por meio de ônibus comercial. De Canarana ao Posto Wawi, foi utilizado um  transporte contratado para esse fim. Fazendo o mesmo trajeto no retorno.

A pesquisa originou, até o presente, seis apresentações em conferências internacionais, duas em congressos nacionais, três dissertações de mestrado e uma publicação de artigo na revista Cadernos de Saúde Pública. Outras duas teses de doutoramento encontram-se em andamento.

Acompanhamento antigo

Os índios, desde o início da colonização portuguesa em 1500, sofrem com as doenças trazidas pelos não indígenas. A convivência com estes resultou, e ainda resulta, em doenças graves, com altas taxas de mortalidade entre os povos indígenas. Milhares morreram no contato direto ou indireto com os europeus e as doenças trazidas por eles, pois não possuíam imunidade natural. Gripe, sarampo, coqueluche, tuberculose, varíola e sífilis são alguns dos males que vitimaram sociedades indígenas inteiras.

A EPM passou a responder, em 1965, pela assistência à saúde dos indígenas que viviam no Parque do Xingu. Naquela época, a malária era uma das principais razões de mortalidade em todas as faixas etárias, enquanto que as infecções do trato respiratório e as doenças diarreicas eram os problemas mais comuns entre os mais jovens. Atualmente, a malária está controlada. O que preocupa, hoje, são as já mencionadas doenças crônicas (hipertensão, diabetes mellitus, intolerância à glicose, entre outras).

Pesquisa: Perfil nutricional e metabólico de índios Khisêdjê

Artigos relacionados: SANTOS, Kennedy Maia dos; TSUTSUI, Mario Luiz da Silva; GALVÃO, Patrícia Paiva de Oliveira; MAZZUCCHETTI, Lalucha; RODRIGUES, Douglas; GIMENO, Suely Godoy Agostinho. Grau de atividade física e síndrome metabólica: um estudo transversal com indígenas Khisêdje do Parque Indígena do Xingu, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, v.28, n.12, p. 2327-2338, dez. 2012. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2012001400011 >.

grafismo xingu

Veja também: Herança do homem branco

Publicado em Edição 02

Pesquisadores da Unifesp abrem o leque de investigação do potencial terapêutico das células-tronco para diversas doenças

Flávia Kassinoff

Imagem de uma célula-tronco

Células-tronco neurais cultivadas como neuroesfera

Pesquisas com células-tronco realizadas em todo o mundo despertam grandes esperanças no tratamento de inúmeras doenças que atualmente não encontram cura na Medicina, entre as quais se incluem a esclerose múltipla, talassemia, leucemia, diabetes mellitus dos tipos I e II, doença de Parkinson, doença de Alzheimer e epilepsia. Células-tronco são células indiferenciadas, caracterizadas pela capacidade de autorrenovação e potencial de diferenciação. Pela plasticidade que possuem, poderiam regenerar parte de tecidos lesados, ou até mesmo construir um órgão inteiro.

Marimélia Porcionatto, docente e pesquisadora da área de Biologia Molecular do Departamento de Bioquímica da Escola Paulista de Medicina (EPM) da Unifesp – Campus São Paulo, explica que as pesquisas podem ser divididas em dois grandes grupos: o que tem como principal foco as propriedades terapêuticas das células-tronco e o que procura entender o comportamento dessas células, analisando os mecanismos que fazem com que mantenham suas propriedades proliferativas e também a capacidade de se diferenciarem de outros tipos celulares.

Compreendendo as células-tronco neurais

Fotografia da pesquisadora Marimélia, ela mostra algumas imagens técnicas no computador

Marimélia Porcionatto

Marimélia faz parte do grupo de cientistas que tentam definir as características primordiais das células-tronco neurais. Sua linha de pesquisa investiga o comportamento dessas células em indivíduos saudáveis e em outros que possuam algum tipo de lesão no sistema nervoso central. “Um de nossos objetivos é tentar responder a questões básicas sobre como essas células se comportam, tanto em um organismo saudável quanto em um organismo que tenha algum tipo de lesão. Um dos modelos principais que usamos é o da lesão traumática do encéfalo, modelo para o traumatismo cranioencefálico”, explica a docente.

As células-tronco neurais são encontradas em dois locais específicos do cérebro: na zona subventricular e na zona subgranular do hipocampo. É nessas regiões que ocorre a neurogênese, processo de diferenciação das células-tronco em novos neurônios. Tais células podem ajudar a combater doenças neurológicas e a minimizar danos causados por acidentes.

Por muito tempo se acreditou que a neurogênese só ocorresse durante a formação do cérebro no embrião, e que o tecido cerebral fosse incapaz de regeneração. Atualmente a comunidade científica aceita a neurogênese como um fenômeno contínuo e de grande importância a ser estudado.

O processo de migração das células criadas na neurogênese até o local da lesão é um dos alvos do estudo. Se há, por exemplo, uma lesão no córtex, sinais químicos produzidos nessa área são enviados para a zona subventricular, onde estimulam a célula-tronco a se diferenciar e migrar em direção à lesão. “Nessa linha de tentar entender como a célula-tronco se comporta, buscamos determinar os mecanismos moleculares envolvidos no controle da migração dessas células”, afirma a pesquisadora.

Fotografia de células-tronco

Visão ampla de uma neuroesfera, onde estão agrupadas células-tronco neurais

Células-tronco neurais no combate à epilepsia, ansiedade e doença de Alzheimer

Imagem da pesquisadora Beatriz

Beatriz Monteiro Longo

A possibilidade de extrair células-tronco neurais e cultivá-las para que realizem a expansão e a diferenciação antes de ser transplantadas permitiu o surgimento de novas perspectivas de terapia para doenças consideradas incuráveis, como o mal de Alzheimer, ou de difícil tratamento, como a epilepsia. É exatamente no estudo do impacto do implante de células precursoras neurais nessas duas patologias que Beatriz Monteiro Longo, professora adjunta do Departamento de Fisiologia da EPM, desenvolve sua pesquisa.

Em 2010, seu primeiro projeto focalizou a epilepsia e a ansiedade, doenças nas quais há perda ou disfunção de neurônios inibitórios. “Tivemos um resultado bastante interessante para a ansiedade, porque esta – assim como a epilepsia – também é mediada por disfunção de neurônios gabaérgicos (inibitórios). Observamos que os animais que eram transplantados com as células-tronco precursoras de neurônios gabaérgicos tinham uma redução do nível de ansiedade quando fazíamos testes específicos. Então, o transplante das células-tronco neurais mostrou efeitos positivos não só para um possível tratamento da epilepsia, como também para a diminuição da ansiedade”, explica Beatriz.

Em 2012, seu segundo projeto – que não abrangeu a fase clínica, embora ofereça subsídios para os que conduzam testes nessa área – incluiu a doença de Alzheimer. “A ideia é desenvolver uma pesquisa básica para entender os mecanismos e funcionamento das células-tronco neurais, caracterizá-las e observar o que acontece nessas patologias, mais do que efetuar uma aplicação clínica. É claro que a compreensão do estudo vai ajudar, provavelmente, a sintetizar um medicamento mais indicado. Mas o objetivo é caracterizar e entender o fenômeno”, conclui a docente.

Esquema de migração das células-tronco neurais no cérebro

Desenho esquemático da migração das células-tronco

I - A neurogênese ocorre na zona subventricular
II - As células começam a migrar para a região da lesão em forma de neuroblastos
III - Quando as células atingem a região, completam sua diferenciação tornando-se neurônios maduros

 

 

Imagem de uma célula-tronco

Neuroesfera onde é possível observar neuroblastos à esquerda

Imagem de uma célula-tronco

Células-tronco neurais derivadas da zona subventricular de camundongo adulto, cultivadas como neuroesferas (em azul: núcleos; em vermelho: células-tronco neurais; em verde: neuroblastos)

Engenharia Tecidual

A Engenharia Tecidual é um campo de estudos recente e interdisciplinar, que busca a aplicação de conceitos da Engenharia e das Ciências Biológicas para a construção e reparação de órgãos e tecidos. As estratégias atualmente empregadas para solucionar a perda de tecido, como a aplicação de enxertos ou materiais sintéticos, têm as suas limitações. Muitos tecidos não se regeneram, e mesmo os que o fazem espontaneamente, como os da pele e dos ossos, podem deixar a desejar, se a lesão for grande.

O mesmo ocorre no caso de comprometimento de algum órgão, quando a alternativa mais frequente é o transplante. Mas, obviamente, trata-se de um procedimento limitado, já que a quantidade de doadores é menor do que a dos possíveis receptores. Outro lado negativo do transplante é o fato de o paciente ter que ser imunodeprimido pelo resto da vida para não haver rejeição do órgão.

A Engenharia Tecidual surge como possível alternativa para esses problemas, podendo – em futuro não muito distante – representar o fim da aplicação de materiais não biológicos em seres humanos e ainda possibilitar que o próprio paciente seja o doador das células do tecido que será utilizado, evitando rejeições.

O casal de pesquisadores Monica Talarico Duailibi e Silvio Eduardo Duailibi, que desde o início de suas carreiras desenvolvem trabalhos com pacientes especiais na área de Odontologia, foram convidados em 2000 pelo Dr. Joseph Phillip Vacanti, do Massachusetts General Hospital e da Harvard Medical School, a participar do projeto Substituto Biológico do Dente nos Estados Unidos. Lá tiveram contato com a Engenharia Tecidual e, desde então, realizam pesquisas nessa área.

Seus primeiros trabalhos visaram à criação da “terceira dentição”, que corresponde à construção de novos dentes a partir de células-tronco adultas extraídas de outros dentes. Um dos experimentos iniciais teve como objetivo a reconstrução de coroas dentárias de porcos e a implantação delas no abdome de ratos para que o conjunto de células recebesse boa irrigação. O resultado foi positivo e os pesquisadores obtiveram as estruturas dentais como planejado.

O segundo passo foi a implantação de células de ratos neles mesmos, primeiro no abdome e depois na mandíbula. Essas células provenientes da mesma linhagem de ratos, diferenciaram-se de modo adequado e a experiência foi bem-sucedida. Assim, a pesquisa evoluiu para o passo seguinte, que foi a implantação de células humanas em ratos. É nessa fase que se encontra atualmente, e só será possível pensar na aplicação de células humanas em seres humanos quando os resultados forem bastante satisfatórios.

Outro processo que está sendo estudado em paralelo é a migração das células e o grau de controle do pesquisador sobre elas. Uma das hipóteses que causam apreensão é que as células implantadas em um ponto específico do corpo migrem para outro local, onde exista afinidade biológica, podendo gerar outro tecido ou até mesmo um tumor. Para que isso não aconteça, a pesquisa passa atualmente por um processo de validação, o que significa observar todas as ocorrências até obter um resultado seguro e viável para ser testado na fase clínica.

Fotografia do casal, Monica e Silvio

Monica Talarico Duailibi e Silvio Eduardo Duailibi

“Temos que avançar muito no campo da investigação, da parte experimental, para colocar os resultados no âmbito da relevância clínica. Os estudos ainda não estão suficientemente amadurecidos para serem apresentados como uma terapia disponível para o clínico. Acho que toda terapia nova, que oferece grandes chances de cura, precisa ser repensada e analisada, feita com muita parcimônia”, afirma Monica, que é vinculada ao curso de pós-graduação em Cirurgia Translacional da EPM como professora afiliada.

“O fato de pesquisar células-tronco implica trabalhar com dois sentimentos da espécie humana: a esperança e a expectativa de longevidade. Por isso é preciso ter muita moderação na divulgação dos fatos, pois existem casos clínicos que dependem de resultados da Medicina Regenerativa”, ressalta Silvio, que é docente do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Unifesp –Campus São José dos Campos.

O casal coordena o Laboratório de Engenharia Tecidual e Biofabricação no Centro de Terapia Celular e Molecular (CTCMol) da Unifesp, no qual o objetivo é aprimorar as técnicas de Engenharia Tecidual. “Estamos desenvolvendo um laboratório que consiga produzir vários tecidos. Nosso foco inicial eram tecidos mineralizados, que formam ossos, dentes e cartilagens, com especial ênfase em dentes. Hoje estamos abrindo o leque a fim de começar a construir outras estruturas, inclusive tecidos moles”, declara Silvio.

Para a criação de um tecido, três elementos são essenciais: a fonte celular, scaffolds (o material que servirá de estrutura para as células) e fatores de indução do crescimento celular. “A Engenharia Tecidual utiliza uma população de células de forma a reorganizá-las
em outra estrutura. Isso é diferente da terapia celular, quando apenas se colocam as células do doador (que pode ser o mesmo indivíduo ou não, homólogo ou alogênico) no local e espera-se que interajam com o leito receptor. Na Engenharia Tecidual, constrói-se uma base em três dimensões, na forma do órgão que se pretende criar e semeiam-se células a fim de alcançarem todas as dimensões estruturais, alimentando esse conjunto que futuramente se tornará o órgão”, explica o pesquisador.

Sobre um fundo preto estão distribuídos 12 dentes

Na fileira de cima, dentes naturais e, abaixo, os “arcabouços” de dentes construídos pelos pesquisadores

Para criar o “arcabouço” que abrigará as células, é necessário encontrar um material adequado (biomaterial) que seja biocompatível com o organismo e que permita e induza o crescimento e diferenciação celular. Para dar forma a esse material, são utilizadas técnicas computacionais de produção de estruturas tridimensionais. “A nova terapia já não adota o conceito bidimensional, como antigamente. Tudo é tridimensional. E como é tridimensional, os equipamentos que integram esta pesquisa são de nova geração. Não se utiliza mais o microscópio, em que se vê uma camada. É preciso que seja um instrumento que permita a visão em profundidade”, diz Monica.

Por ser uma área de desenvolvimento recente no país, a Engenharia Tecidual passa por um momento de normatização na Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), na qual os pesquisadores coordenam a Comissão de Estudos de Implantes e Substitutos Biológicos. Monica e Silvio Duailibi também fazem parte da International Organization for Standardization (ISO), onde atuam na normatização dos métodos de obtenção de produtos médicos de Engenharia Tecidual (TEMPs), como são denominados os neo-órgãos.

Artigos - Dr.ª Beatriz Longo:
CALCAGNOTTO, M.E.; RUIZ, L.P.; BLANCO, M.M.; SANTOS-JUNIOR, J.G.; VALENTE, M.F.; PATTI, C.; FRUSSA-FILHO, R.; SANTIAGO, M.F.; ZIPANCIC, I.; ÁLVAREZ-DOLADO, M.; MELLO, L.E.; LONGO, B.M. Effect of neuronal precursor cells derived from medial ganglionic eminence in an acute epileptic seizure model. Epilepsia, v.51, n.3 [suplemento], p.71-75, jul.2010. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1111/j.1528-1167.2010.02614.x >.

VALENTE, M.F.; ROMARIZ, S.; CALCAGNOTTO, M.E.; RUIZ, L.; MELLO, L.E.; FRUSSA-FILHO, R.; LONGO, B.M. Postnatal transplantation of interneuronal precursor cells decreases anxiety-like behavior in adult mice. Cell Transplantation,v. 22, n.7, p.1237-1247, jul. 2013. Publicação on-line: 1º out. 2012. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.3727/096368912X657422 >.

GARCIA, K.O.; ORNELLAS, F.L.; MARTIN, P.K.; PATTI, C.L.; MELLO, L.E.; FRUSSA-FILHO, R.; HAN, S.W.; LONGO, B.M. Therapeutic effects of the transplantation of VEGF overexpressing bone marrow mesenchymal stem cells in the hippocampus of murine model of Alzheimer’s disease. Frontiers in Aging Neuroscience, v.6, n. 30 [artigo], 7 mar. 2014. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.3389/fnagi.2014.00030 >.

Artigos - Dr.ª Marimélia Porcionatto:
FILIPPO, T.R.; GALINDO, L.T.; BARNABE, G.F.; ARIZA, C.B.; MELLO, L.E.; JULIANO, M.A.; JULIANO, L.; PORCIONATTO, M.A. CXCL12 N-terminal end is sufficient to induce chemotaxis and proliferation of neural stem/progenitor cells. Stem Cell Research, v.11, n.2, p. 913-925, set.2013. Publicação on-line: 15 jun.2013. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1016/j.scr.2013.06.003 >.

GALINDO, L.T.; FILIPPO, T.R.; SEMEDO, P.; ARIZA, C.B.; MOREIRA, C.M.; CAMARA, N.O.; PORCIONATTO, M.A. Mesenchymal stem cell therapy modulates the inflammatory response in experimental traumatic brain injury. Neurology Research International, v.2011, n. 564089 [artigo], 2011. Publicação on-line: 9 jun. 2011. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1155/2011/564089 >.

PRIMO, F.L.; COSTA REIS, M.B. da; PORCIONATTO, M.A.; TEDESCO, A.C. In vitro evaluation of chloroaluminum phthalocyanine nanoemulsion and low-level laser therapy on human skin dermal equivalents and bone marrow mesenchymal stem cells. Current Medicinal Chemistry, v.18, n.22, p.3376-3381, 2011. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.2174/092986711796504745 >.

Artigos - Dr.ª Monica Talarico Dualibi e Dr. Silvio Eduardo Duailibi:
DUAILIBI, S.E.; DUAILIBI, M.T.; FERREIRA, L.M.; SALMAZI, K.I.; SALVADORI, M.C.; TEIXEIRA, F.S.; PASQUARELLI, A.; VACANTI, J.P.; YELICK, P.C.  Tooth tissue engineering: the influence of hydrophilic surface on nanocrystalline diamond films for human dental stem cells. Tissue Engineering – Part A, v.19, n. 23-24, p.2537-2543, dez. 2013. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1089/ten.tea.2012.0628 >.

DUAILIBI, M.T.; KULIKOWSKI, L.D.; DUAILIBI, S.E.; LIPAY, M.V.N.; MELARAGNO, M.I.; FERREIRA, L.M.; VACANTI, J.P.; YELICK, P.C. Cytogenetic instability of dental pulp stem cell lines. Journal of Molecular Histology, v.43, n.1, p. 89-94, fev. 2012. Publicação on-line: 23 nov. 2011. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1007/s10735-011-9373-z >.

DUAILIBI, M.T.; DUAILIBI, S.E.; DUAILIBI NETO, E.F.; FERREIRA, L.M.; NEGREIROS, R.M.; JORGE, W.A.; VACANTI, J.P.; YELICK, P.C. Tooth tissue engineering: optimal dental stem cell harvest based on tooth development. Artificial Organs, v.35, n.7, p. E129-E135, jul. 2011. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1111/j.1525-1594.2010.01200.x >.

DUAILIBI, S.E.; DUAILIBI, M.T.; ZHANG, W.; ASRICAN, R.; VACANTI, J.P.; YELICK, P.C. Bioengineered dental tissues grown in the rat jaw. Journal of Dental Research, v. 87, n.8, p. 745-750, ago. 2008. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1177/154405910808700811 >.

DUAILIBI, S.E.; DUAILIBI, M.T.; VACANTI, J.P.; YELICK, P.C. Prospects for tooth regeneration. Periodontology 2000, v.41, n.1, p. 177-187, jun. 2006. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0757.2006.00165.x >.

DUAILIBI, M.T.; DUAILIBI, S.E.; YOUNG, C.S.; BARTLETT, J.D.; VACANTI, J.P.; YELICK, P. C. Bioengineered teeth from cultured rat tooth bud cells. Journal of Dental Research, v.83, n.7, p. 523-528, jul. 2004. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1177/154405910408300703 >

Publicado em Edição 02
Segunda, 02 Junho 2014 15:24

O complexo estudo dos genes

Linha de pesquisa encontra mutações no gene que desencadeia a doença de Fabry, ainda não descritas na literatura; a busca por diagnósticos precoces e tratamentos mais efetivos incentivam a criação de empresa pioneira

Ana Cristina Cocolo

Montagem com cinco fotos, mostrando várias cenas da pesquisa no laboratório

Entre as inúmeras doenças estudadas geneticamente no Laboratório de Biologia Molecular e Diagnóstico Molecular de Doenças Lisossomais da Escola Paulista de Medicina (EPM) da Unifesp – Campus São Paulo, a doença de Fabry recebeu atenção especial da equipe de João Bosco Pesquero, químico e professor associado livre-docente da universidade. Trata-se de um distúrbio que, apesar de raro, vem sendo diagnosticado com maior frequência na população.

Também conhecida como doença de Anderson-Fabry,  ela é um dos 200 distúrbios metabólicos hereditários (ou erros inatos do metabolismo) causados por um defeito enzimático. O tratamento inadequado e tardio pode levar o indivíduo à morte por falência de diferentes órgãos (veja box com detalhes sobre a doença). “A dificuldade na elaboração de um tratamento efetivo limita o número de pesquisas, pois, além de rara, a doença muitas vezes é negligenciada,”, explica Pesquero.

Um dos estudos coordenados por ele encontrou novas alterações no gene GLA na população brasileira. Esse gene é responsável pela produção da alfa-galactosidase A, enzima que, quando ausente ou deficiente no organismo, desencadeia a doença de Fabry.

A pesquisa analisou 568 indivíduos de 102 famílias com suspeita da doença e foi realizada em colaboração com Ana Maria Martins, professora do Departamento de Pediatria da EPM e coordenadora do Centro de Referência em Erros Inatos do Metabolismo (CREIM/Unifesp). Das famílias analisadas, 51 apresentaram 38 alterações no gene GLA, sendo cinco delas mutações não descritas anteriormente na literatura (A156D, K237X, A292V, I317S, c.177_1178inscG), correlacionadas com a baixa atividade da enzima alfa-galactosidase A e com a previsão de danos moleculares.

Fotografia da equipe: são cinco mulheres e um homem, todos estão de jaleco, no laboratório

João Bosco Pesquero (ao centro) com sua equipe no Laboratório de Biologia Molecular e Diagnóstico Molecular de Doenças Lisossomais

De acordo com Pesquero, a detecção de alterações genômicas facilita a identificação de pacientes para tratamento com enzimas recombinantes e oferece a possibilidade de realizar o diagnóstico da doença ainda no período pré-natal.

Em outra pesquisa, coordenada pela bióloga Vânia D’Almeida, professora adjunta e coordenadora do programa de pós-graduação em Psicobiologia da EPM, o grupo de Pesquero colaborou na investigação da correlação entre a presença de polimorfismos da enzima PON1 (paraoxonase) – que desempenha um papel de proteção contra a arteriosclerose – e os sintomas clínicos da doença de Fabry, que tem entre suas complicações a cardiomiopatia, acidente vascular cerebral e insuficiência renal, entre outras.

O polimorfismo é uma variação das características genéticas, neste caso, da enzima PON1. As variações estudadas em 106 pacientes com Fabry e em 26 indivíduos saudáveis foram o Gln192Arg e o Leu55Met.

Uma terceira pesquisa do grupo mostrou uma importante relação entre a enzima alfa-glicosidase A e os inibidores da enzima conversora de angiotensina, que é um dos fármacos usados no tratamento da hipertensão arterial. “Nossos estudos verificaram que o paciente com doença de Fabry, que faz reposição com a enzima alfa-galactosidase A, pode ter uma queda muito brusca da pressão arterial quando ocorre a interação medicamentosa com o anti-hipertensivo, necessitando um monitoramento mais cuidadoso durante o tratamento”, explica Pesquero. Esses resultados levaram à discussão sobre a inserção de um possível aviso na bula do medicamento usado para tratar a doença de Fabry e sobre a análise cautelosa do uso concomitante do anti-hipertensivo à base de inibidores da enzima conversora de angiotensina.

Entenda como são desenvolvidas as proteínas recombinantes

Ilustração que mostra o passa a passo do desenvimento

1) Retira-se o DNA do sangue ou saliva do indivíduo e amplia-se o número de cópias do DNA retirado

2) As cópias do DNA são inseridas em um vetor de clonagem. A maioria desses vetores são plasmídeos (moléculas circulares duplas de DNA capazes de se reproduzirem independentemente do cromossoma) existentes em várias espécies de bactérias

3) Em seguida, o vetor é colocado em um organismo (bactéria, célula vegetal ou levedura), também chamado de clone, que desencadeará a produção da proteína

4) Esses organismos são colocados em uma placa com antibiótico para eliminar aqueles que não possuem o DNA de interesse

5) Os clones resistentes ao antibiótico são isolados e multiplicados por meio de cultura para expelir a proteína de interesse, que será isolada após a purificação

Espírito empreendedor

De acordo com Pesquero, um dos obstáculos encontrados pelos pesquisadores da área básica, institutos de pesquisa, centros médicos e laboratórios é o fornecimento de um reagente bastante comum em Biologia Molecular – chamado primer ou oligonucleotídeo –, usado no desenvolvimento de fármacos, no diagnóstico e tratamento de doenças genéticas, na biotecnologia e na agricultura. “A gama de áreas que utiliza oligonucleotídeos é extensa, mas o Brasil é carente de empresas que invistam em biotecnologia desde a matéria-prima até o desenvolvimento de reagentes”, explica. “O número de profissionais experientes para esse fim também é bastante reduzido.”

Ainda segundo ele, o material acaba vindo de fora, podendo atrasar um diagnóstico ou uma pesquisa em vários meses devido à demora na entrega ou a problemas na alfândega. “A dificuldade de importar insumos e tecnologia para a pesquisa torna impossível a competição científica e tecnológica com nossos pares em outros centros mais avançados do mundo.”

Foram as dificuldades e o espírito empreendedor que tornaram Pesquero um pioneiro nesse ramo na América Latina. A experiência e a curiosidade desenvolvidas na Alemanha – onde atuou de 1992 a 1997 –, assim como o trabalho direto com diagnóstico molecular no Brasil, levaram-no a criar, junto com seus irmãos Jorge Pesquero e Paulo Pesquero, em 2011, a empresa Exxtend, em parceria com a alemã K&A Laborgeräte, uma das maiores produtoras de equipamentos para síntese de DNA (ácido desoxirribonucleico) e RNA (ácido ribonucleico) no mundo. No ano passado outra empresa americana também passou a oferecer o serviço no Brasil.

“Uso grande parte do tempo em minhas aulas para falar de empreendedorismo, incentivando alunos nesse sentido”, afirma. “É preciso mostrar exemplos de sucesso para que se crie essa cultura, não só porque é extremamente importante para o desenvolvimento científico e biotecnológico do país, mas também para melhorar a prestação de serviços nessa área e a qualidade de vida da população.”

O DNA e o RNA são moléculas encontradas em todas as células dos seres vivos e estão envolvidas na transmissão de caracteres hereditários e na produção de proteínas recombinantes.

Atualmente, a Exxtend produz apenas reagentes de DNA, já que o investimento é muito alto para fornecer primers de RNA. “Essa molécula é muito instável e os níveis de exigência para se trabalhar com ela são bem maiores”, diz. “No entanto, pretendemos aumentar o rol de reagentes hoje oferecidos”. A empresa atende 49 universidades públicas e particulares, 27 instituições de pesquisa e 32 organizações privadas em diversas áreas de atuação.

Pesquero explica que, pelo fato de a produção do primer ser realizada no país, o produto se torna mais caro quando comparado ao importado, e o lucro é mínimo. De acordo com ele, vários fatores contribuem para isso, como as altas taxas de impostos, os insumos que precisam ser importados e a falta de empresas no ramo que ofereçam os reagentes necessários à produção dos primers, possibilitando a concorrência no mercado e, consequentemente, preços mais competitivos. “A vantagem hoje para o Brasil é a rapidez em obter um primer em dois dias, em vez de semanas”, afirma. “Cada vez mais a Genética está presente em nossas vidas, seja na Medicina, no esporte, na agricultura, na cosmética, entre tantas outras áreas. E entendê-la é primordial para o desenvolvimento de qualquer sociedade.”

Um pouco sobre a doença

A doença de Fabry é genética, hereditária e progressiva, ligada ao cromossomo X. O distúrbio é desencadeado por uma mutação no gene GLA, responsável pela produção da enzima alfa-galactosidase A, causando sua ausência ou deficiência no organismo.

A falta ou deficit dessa enzima afeta a capacidade de decomposição de uma substância adiposa específica e ocasiona prejuízos ou falência em muitos órgãos, como coração, rins, cérebro e pele, podendo levar à morte.

As manifestações clínicas da doença podem iniciar-se na infância e ter grande piora dos sintomas no decorrer da vida. O tratamento inadequado ou a ausência dele reduz a expectativa de vida de homens e mulheres em até 20 e 15 anos, respectivamente. 

Apesar de rara – com prevalência descrita de um caso para grupos que podem variar entre 40 a 117 mil indivíduos – a doença pode estar subdiagnosticada devido ao número de portadores relatados na população geral.

De acordo com a Associação Brasileira de Pacientes Portadores da Doença de Fabry e seus Familiares (Abraff), no Brasil o distúrbio afeta cerca de 220 pacientes e, no mundo, estima-se que esse número ultrapasse 25 mil.

Atualmente, o principal tratamento é a terapia de reposição enzimática ou, em casos mais complexos, o transplante de rins e fígado.

A terapia gênica, ainda em estudo, pode ser, no futuro, uma das alternativas de tratamento aos portadores da doença.

Artigos relacionados:

BARRIS-OLIVEIRA, A.C.; MÜLLER, K.B.; TURAÇA, L.T.; PESQUERO, J.B.; MARTINS, A.M.; D’ALMEIDA, V. Higher frequency of paraoxonase gene polymorphism and cardiovascular impairment among Brazilian Fabry disease patients. Clinical Biochemistry, [s.l.]: Elsevier, v.45, n.16-17, p.1459-1462, nov.2012. Publicação on-line:13 jul. 2012. Disponível em: < http://dx.dor.org/10.1016/j.clinbiochem.2012.06.034 >.

TURAÇA, Lauro Thiago; PESSOA, Juliana Gilbert; MOTTA, Fabiana Louise; MUÑOZ ROJAS, Maria Verônica; MÜLLER, Karen Barbosa; LOURENÇO, Charles Marques; JUNIOR MARQUES, Wilson; D’ALMEIDA, Vânia; MARTINS, Ana Maria; PESQUERO, João Bosco. New mutations in the GLA gene in Brazilian families with Fabry disease. Journal of Human Genetics, Yokohama: Nature Publishing Group, v.57, n.6, p.347-351, jun.2012. Publicação on-line: 3 maio 2012. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1038/jhg.2012.32 >.

BATISTA, Elice Carneiro; CARVALHO, Luiz Roberto;  CASARINI, Dulce Elena; CARMONA, Adriana Karaoglanovic; SANTOS, Edson Lucas dos; SILVA, Elton Dias da; SANTOS, Robson Augusto dos; NAKAIE, Clovis Ryuiche; MUÑOZ ROJAS, Maria Verônica; OLIVEIRA, Suzana Macedo de; BADER, Michael; D’ALMEIDA, Vânia; MARTINS, Ana Maria; PICOLY SOUZA, Kely de; PESQUERO, João Bosco. ACE activity is modulated by the enzyme α-galactosidase A. Journal  of Molecular Medicine, Berlim: Springer, v. 89, n.1, p. 65-74, jan. 2011. Publicação on-line: 13 out. 2010. Disponível em: < rd.springer.com/article/10.1007/s00109-010-0686-2 >.

Publicado em Edição 02
Segunda, 02 Junho 2014 15:22

Radiação na medida certa

Mais compacto e baratos. Essas são algumas das vantagens do equipamento e  dos dosímetros desenvolvidos por pesquisadores da Unifesp.

Ana Cristina Cocolo

Fotogria do equipamento em operação

Um grupo de pesquisadores do Departamento de Ciências do Mar do Instituto de Saúde e Sociedade da Unifesp – Campus Baixada Santista – desenvolveu um novo equipamento, simples e portátil, que possibilita a leitura das porções de radiação acumuladas em dosímetros ou em sedimentos (quartzo feldspato) usando a técnica de Luminescência Opticamente Estimulada (LOE). A tecnologia utilizada é totalmente nacional.

A LOE é utilizada tanto na medicina – para monitorar a dose de radiação a qual pacientes, profissionais da saúde e da educação podem receber em sessões de radioterapias, centros de radiodiagnósticos e de pesquisas – quanto na arqueogeocronologia. Essa é a ciência que utiliza um conjunto de métodos de datação usados para determinar a idade de cerâmicas arqueológicas, rochas, fósseis, sedimentos e os diferentes eventos da história da Terra. O princípio físico do método baseia-se no fato de que a intensidade da luz emitida pelos dosímetros é proporcional à porção de exposição à radiação.

O novo equipamento de leitura de dosímetro – projetado pelos físicos Sonia Hatsue Tatumi e Juan Carlos Ramirez Mittani e pelo tecnólogo em mecânica de processos de produção, Márcio Yee – utiliza a Luminescência Opticamente Estimulada (LOE) emitida após impulso com comprimento de onda apropriado (470 ou 532nm) a partir de LEDs. É mais compacto e utiliza um aparato eletrônico mais simples que os atualmente disponíveis no mercado, que necessitam de um controle eletrônico de aquecimento (técnica de termoluminescência). “Nosso equipamento ilumina ao invés de aquecer. É um processo mais moderno, eficiente e barato”, afirma Sonia. “O sistema de aquecimento exige um aparelho bem maior, depende de partes eletrônicas caras e de mais tempo para a leitura e análise”.

O preço final do equipamento também chama atenção. Os equipamentos modernos de termoluninescência, de acordo com Mittani, custam, em média, R$ 500 mil no mercado internacional. O desenvolvido na Unifesp chegará ao mercado por um valor 25 vezes menor: R$ 20 mil.

Já os dosímetros confeccionados pelo grupo – que antes necessitavam ser importados –, têm alta sensibilidade, resposta linear independente da energia de radiação, podem ser reutilizáveis e custam 50% menos. Também podem ser produzidos conforme os diferentes usos e tipos de radiações. Esses dispositivos são fabricados em materiais cerâmicos constituídos de policristais de Óxido de Alumínio (Al2O3),  Tetraborato de Magnésio (MgB4O7) e  Óxido de Magnésio (MgO), dopados com terras-raras e semimetais.

O grupo tem estudado estes materiais e descobriu que são formados por nanocristais, constituídos por dopantes, que se localizam na superfície dos grãos das matrizes. Grande parte da LOE emitida por esses materiais advém dos nanocristais.

O projeto, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), culminou em depósito de patente no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI). O processo de registro na Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) está em fase de elaboração e o patrocínio para produção em escala industrial e comercialização no país deve ocorrer ainda este ano, de acordo com os pesquisadores.

Dosímetro - equipamento LOE

(luminescência opticamente estimulada)

Desenho esquemático do dosímetro
Fotografia de um dosimetro

Esquema do pequeno equipamento LOE. No processo de medida, a amostra previamente irradiada é colocada dentro da câmara que se encontra vedada a luz externa. O sistema de estimulação óptica (LEDs) e o sistema de detecção (fotomultiplicadora PMT) são acionados simultaneamente através do computador. A luminescência da amostra (produto da estimulação óptica) que atinge o PMT é registrada pelo contador de fótons e reproduzida em um gráfico da intensidade luminescente (número de fótons) em função do tempo, realizado no software do computador.

 

Fim do descarte de radiografias

Fotografias dos pesquisadores - Sonia, Márcio e Juan Carlos

Os autores da pesquisa, Sonia Hatsue Tatumi e, ao lado do equipamento projetado, Márcio Yee e Juan Carlos Ramirez. Todos são professores do Campus Baixada Santista.

Algumas caixas coloridas com os dosímentros

Os novos dosímetros desenvolvidos pelos pesquisadores podem ser reutilizáveis e custam 50% menos.

Uma fotografia de uma área externa, onde pesquisadores colhem amostras de solo

A dosimetria na arqueologia indica a idade de fósseis e a flutuação do nível de rios e mares por meio da análise da radiação em sedimentos de colúvios, dunas e terraços marinhos.

Mittani explica que outras aplicações para os dosímetros estão em fase de testes. Uma delas é a utilização deles em chapas de
raios-x. “Hoje, os filmes revelados comumente usados nas radiografias são descartados e nada sustentáveis ao meio ambiente, pois não podem ser jogados com o lixo comum, já que há materiais tóxicos que contaminam o solo e a água”, diz. “Pretendemos criar filmes dosimétricos, os quais, após serem expostos ao raio-x nos pacientes, serão estimulados com luz para a obtenção da informação (imagem)”.

As vantagens do uso deste tipo de filme é que a informação fica armazenada no computador e os filmes podem ser reutilizados muitas vezes sem perder resolução de imagem.

Dosimetria in vivo

Também é estudada a aplicação na radioterapia, especificamente para monitorar e saber a dose de radiação instantânea que se está aplicando em um paciente em tratamento contra câncer. “Estamos desenvolvendo dosímetro de tamanho miniaturizado (µm), o qual será acoplado em uma fibra óptica muito fina e introduzido no corpo do paciente até a região onde se encontra o câncer, antes do início da sessão de radioterapia”, afirma. “Esse dosímetro medirá a quantidade de radiação exata necessária ao paciente e será de grande importância, já que permitirá controlar o tratamento de maneira a minimizar os danos a tecidos próximos e sadios”.

Técnica pioneira no Brasil

De acordo com a física Sonia Tatumi, o uso da LOE na dosimetria teve início nos anos 1980, com a determinação da dose de radiação acumulada em minerais de quartzo e feldspato na datação de sedimentos na geologia e de fósseis na arqueologia, utilizando a luz de um laser de argônio.

No Brasil, a técnica foi introduzida de forma pioneira, em 2003, por um grupo de pesquisadores da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (FATEC-SP), liderado por Sonia, com a participação de Márcio Yee. Foi feita a indicação da idade de sedimentos de colúvios – solos compostos por minerais, principalmente de quartzo –, dunas e terraços marinhos em quase todo o litoral brasileiro.

Em 2013, quando ambos já eram professores da Unifesp, esse trabalho foi realizado em terraços fluviais dos rios Negro, Amazonas e Madeira, que banham os estados do Amazonas e Rondônia. “Quanto maior a intensidade da luz emitida pelo sedimento dos terraços, maior o tempo de deposição do mesmo”, explica a pesquisadora. “Dessa forma, os geólogos têm como comparar a idade com a altura das amostras de sedimentos recolhidas para estudar a flutuação do nível dos rios.”

Atualmente, o grupo colabora com pesquisas realizadas por geólogos e arqueólogos em diversas universidades do país. Essas cooperações resultarão em projetos de iniciação científica de alunos do Curso de Bacharelado Interdisciplinar em Ciências e Tecnologia do Mar (BICT-Mar) do Campus Baixada Santista.

 

Artigos relacionados:

KAWASHIMA, Y.S.; GUGLIOTTI, C.F.; YEE, M.; TATUMI, S.H.; MITTANI, J.C.R. Thermoluminescence features of MgB4O7:Tb phosphor. Radiation Physics and Chemistry, [s.l.]: Elsevier, v. 95, p. 91-93, fev. 2014.

FIORE, M.; SOARES, E.A.A.; MITTANI, J.C.R.; YEE, M.; TATUMI, S.H. OSL dating of sediments from Negro and Solimões rivers - Amazon, Brazil. Radiation Physics and Chemistry, [s.l.]: Elsevier, v. 95, p. 113-115, fev. 2014.

TATUMI, Sonia Hatsue; VENTIERI, Alexandre; BITENCOURT, José Francisco Sousa; GONÇALVES, Katia Alessandra; ROCCA, René Rojas ; MITTANI, Juan Carlos Ramirez ; CAMARGO, Shivad Valle.  Thermoluminescence and optically stimulated luminescence of nanostructured aluminate doped with rare-earth and semi-metal chemical element. Effects of heat treatments on the heat-treatment-conventional-and-novel-applications. Intech Open Science, v. 14, p. 351-370, 2012.

TUDELA, Diego Renan Giglioti; TATUMI, Sonia Hatsue; YEE, Márcio; BRITO, Silvio Luiz Miranda; PIEDADE, Silvia Cristina; MORAES, José Luiz; MUNITA, Casimiro S.; HAZENFRATZ, Roberto; MOARES, Daisy de. TL, OSL and C-14 dating results of the sediments and bricks from mummified nuns grave. Anais da Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro, v. 84, p. 237-244, jun. 2012.

TATUMI, Sonia Hatsue; SOARES, Emílio A. A.; RICCOMINI, Claudio. OSL age determinations of pleistocene fluvial deposits in central Amazonia. Anais da Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro, v. 82, p. 691-699, set. 2010.

TATUMI, Sonia Hatsue; BARRETO, A. M. F.; SUGUIO, Kenitiro; KASSAB, L.R.P.; GOZZI, G.; BEZERRA, Francisco Hilário Rego; KOWATA, Emília A. Optical dating results of beachrock, eolic dunes and sediments applied to sea-level changes study. Journal of Luminescence, [s.l.]: Elsevier, v. 102-103, p. 562-565, maio 2003.

TATUMI, Sonia Hatsue; GOZZI, Giuliano; KOWATA, Emília A.; KASSAB, Luciana R. P. ; BRITO, Silvio Luiz M.; YEE, Márcio; PEIXOTO, Maria N. O.; MOURA, Josilda R.S.; MELLO, Claudio L.; CARMO, Isabela O. Optical dating using feldspar from quaternary alluvial and colluvial sediments from SE Brazilian plateau, Brazil. Journal of Luminescence, [s.l.]: Elsevier, v. 102-103, p. 566-570, maio 2003.

Publicado em Edição 02

Mundo cada vez mais globalizado demanda intercâmbio crescente de alunos e docentes – e especialmente de conhecimento

Ana Cristina Cocolo e José Luiz Guerra
Com a colaboração de Flávia Kassinoff e Rosa Donnangelo

Fotos de bandeiras de alguns países

As universidades brasileiras enfrentam hoje o desafio da internacionalização, que implica não apenas a prática de intercâmbio de alunos, docentes e pesquisadores, mas especialmente acesso partilhado do conhecimento. Cumpre ainda – para realizar esse propósito – consolidar uma estrutura física e acadêmica suficiente para receber pessoas de diversos países. Os modelos de internacionalização das principais instituições de ensino no mundo, entre elas a Harvard University e o Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos, e a Oxford University, na Inglaterra, podem ajudar as universidades brasileiras a adotar um norte, rumo a esse objetivo.

O processo de internacionalização na Unifesp teve início em 2006, por meio da Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo (FAp/Unifesp), e sua finalidade era formalizar as parcerias e convênios de cooperação acadêmica com instituições estrangeiras e estabelecer programas de intercâmbio para alunos, docentes e pesquisadores. 

Em 2009, a Assessoria de Assuntos Internacionais foi incorporada à Reitoria como órgão institucional e sua equipe era composta por um coordenador, uma assessora, dois técnicos administrativos em educação e seis estagiários. Em 2011, com a aprovação do novo Regimento da Unifesp, a Assessoria transformou-se em Secretaria de Relações Internacionais (SRI), com organograma próprio e criação dos cargos de secretário e secretário-adjunto.

Atualmente, por meio da SRI, a Unifesp mantém acordos de cooperação com 62 instituições de 20 países (Alemanha, Argentina, Chile, Colômbia, Canadá, França, Espanha, Estados Unidos, Holanda, Índia, Itália, Noruega, Portugal, Reino Unido, Suécia, Suíça, Rússia, Líbano, Coreia do Sul e Honduras) e participa de sete programas de mobilidade, que resultaram, desde 2009, no envio de 372 alunos brasileiros para o exterior e na recepção de 83 estrangeiros. Outros 11 acordos de cooperação estão em tramitação e 15 novos pedidos aguardam análise da Reitoria e Procuradoria. Desde sua incorporação até julho de 2013, a SRI recebeu 89 delegações de 24 países. 

Entre os programas de mobilidade que a Unifesp coordena estão o Ciência sem Fronteiras, patrocinado pelo governo federal; quatro modalidades do Santander Universidades, do Banco Santander; o Erasmus Mundus, da União Europeia; e o Programa de Alianças para a Educação e Capacitação (PAEC). Este último é resultado de uma aliança entre a Organização dos Estados Americanos (OEA) e o Grupo Coimbra de Universidades Brasileiras (GCUB), com o apoio da Divisão de Temas Educacionais do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que tem como objetivo promover e incentivar o intercâmbio científico e cultural nas Américas. Por meio dessa iniciativa de cooperação com países em desenvolvimento, a instituição participa de reuniões anuais do PAEC e, desde sua adesão em 2011, acolheu alunos de pós-graduação oriundos da Colômbia, Paraguai e Haiti.

Túnel da Ciência Max Planck

Três fotografias do Túnel da Ciência

A mostra global Túnel da Ciência Max Planck, inédita no Brasil, esteve em São Paulo entre os dias 30 de janeiro e 21 de fevereiro, integrando as comemorações da temporada Alemanha + Brasil 2013-2014 – Quando as Ideias se Encontram. A exposição multimídia, aberta ao público, abordou grandes temas da pesquisa básica, mostrando as possibilidades de inovação e transformação para o futuro.

Foram montados oito módulos interativos: Cérebro, Complexidade, Energia, Universo, Matéria, Saúde, Sociedade e Vida, que continham explicações e imagens referentes às atuais pesquisas desenvolvidas pela Sociedade Max Planck sobre os respectivos temas.

A Unifesp, única instituição de ensino que se associou ao evento, selecionou 32 alunos para atuarem como monitores. Essa parceria abriu novas possibilidades de colaboração com instituições de ensino e pesquisa da Alemanha. Muitos pesquisadores tiveram a chance de conhecer profissionais da mesma área e estabelecer novos contatos.

“O desafio proposto pelo lado alemão para a celebração do ano Brasil-Alemanha vem de um trabalho pioneiro que estamos realizando na instituição e que representa a própria internacionalização. Uma internacionalização que vai além da simples colaboração com instituições congêneres de qualquer parte do mundo, demonstrando o papel mais indutivo que a instituição tem que ter. Ou seja, ser um parceiro mais indutivo do que apenas um parceiro receptivo”, explica o professor Esper Cavalheiro, pró-reitor de Planejamento da Unifesp.

O evento incluiu palestras e mesas-redondas com personalidades como Erwin Neher, prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1991; Helena Bonciani Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); e Stefan Marcinowski, vice-presidente da Sociedade Max Planck.

Reestruturação da política 

Nomeado pela Reitoria como novo secretário de Relações Internacionais, Marcelo Briones, docente da disciplina de Microbiologia da Escola Paulista de Medicina (EPM) da Unifesp – Campus São Paulo, explica que o intercâmbio de alunos e docentes é consequência das ações de uma instituição internacionalizada. “O primordial é conferir à instituição, tanto nos objetivos quanto nos métodos e avaliação, um padrão internacional. Fazendo isso, o intercâmbio e a mobilidade passam a ocorrer quase que automaticamente.” 

Para transformar o ambiente da universidade em internacional, é necessário modificar sua estrutura no que diz respeito à grade curricular e aos métodos de avaliação, entre outros fatores. “Se você remodelar a instituição e torná-la mais internacional, ficará mais fácil, pois estará usando padrões que são adotados em outros lugares do mundo”, aponta Briones. No entanto, é preciso que haja comprometimento. “Temos que fazer um pacto institucional para promover a internacionalização de fato, não só fazer intercâmbio de alunos.”

Fotografia do professor João Amorin

João Alberto Alves Amorin

Da mesma opinião compartilha João Alberto Alves Amorim, coordenador de Programas e Projetos Internacionais da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa e membro da Comissão de Relações Internacionais da SRI. “Uma universidade genuinamente internacionalizada é aquela que tem visibilidade e, sobretudo, respeitabilidade mundial em suas áreas de pesquisa, atraindo instituições interessadas não só em trocar alunos e professores, mas também em estabelecer parcerias em projetos de pesquisa relevantes para o país e para o mundo.”

De acordo com Amorin, que é professor adjunto da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (EPPEN) da Unifesp – Campus Osasco, a internacionalização tem de ser vista também como uma questão de responsabilidade social. “Temos que incluir na política institucional a cooperação junto aos países menos desenvolvidos, cobrar a ampliação de programas como o PAEC, com maior participação dos governos no custeio e captação de recursos para as bolsas”, afirma. “Na última reunião dos coordenadores do programa, realizada em fevereiro, em Washington, foram amplamente discutidos o papel e as dificuldades da internacionalização nas universidades desses países.”

Outra grande mudança proposta por Marcelo Briones é a adoção de concursos totalmente em inglês para a contratação de docentes estrangeiros. “Hoje é impensável a presença de um estrangeiro aqui, a menos que ele seja proficiente em português”, diz. Nos moldes atuais da maioria das instituições no país, um professor mundialmente reconhecido só poderia fazer parte do quadro de servidores como visitante.

A principal barreira para a implantação de um modelo como esse, na visão de Briones, é a cultura organizacional e cultural das instituições. “Há pessoas que temem a internacionalização por perda de identidade cultural, invasão, colonização cultural... Isso não existe.”

Mapa do mundo, com bandeiras de países

Universidades conveniadas com a Unifesp

(Dados de maio de 2014)

Alemanha • Max-Delbrück Center for Molecular Medicine Institut (LAI) • Freie Universität Berlin (FUB) – Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim

Argentina • Universidad Austral • Universidad Nacional de Córdoba

Canadá • Universidade de Laval

Chile • Universidad de la Frontera

Colômbia • Universidad CES (Medellín)

Coreia do Sul • Chung-Ang University - CAU

Holanda • Universidade de Groningen • University Medical Center Groningen • Hanze University of Applied Sciences

Honduras • Universidad Nacional Autónoma de Honduras

Índia • Library of Tibetan Works and Archives • Men-Tsee-Khang (Tibetan Medical & Astrological Institute of His Holiness the Dalai Lama) • University of Patanjali

Itália • Università degli Studi di Palermo • Università degli Studi di Sassari

Líbano • Council for Research in Values and Philosophy - CRVP

Noruega • Universidade de Tromsø/Faculdade de Ciências da Saúde

Espanha • Universidade de Santiago de Compostela • Universidade de Sevilla • Universidade de Valladolid • Universidade de Vigo • Universidade de Salamanca • Universidade de Alcalá • CEIMAR  (Universidade de Cádiz)

Estados Unidos • Harvard Medical Faculty Physicians-Division of Clinical Informatics - DCI (apenas para o curso de pós-graduação em Informática Médica) • University of California, Los Angeles (UCLA) • David Geffen School of Medicine/Dept. of Pediatrics (apenas para Pediatria) • University of Central Florida • University of Illinois - Campus Chicago • University of Missouri

França • Laboratoire de Santé Publique et Informatique Médicale • Université Paris Descartes • L’École de Psychologues Praticiens • L’Université Sorbonne Nouvelle - Paris 3 • Universidade de Paris Oueste Nanterre La Défense • Universidade Claude Bernard - Lyon 1

Portugal • Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade • Universidade de Lisboa • Universidade de Lisboa - Faculdade de Medicina - Programa Egas Moniz • Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz • Instituto Universitário de Lisboa (IUL-ISCTE) • Universidade do Porto • Universidade do Porto - Projeto Mundus17 • Universidade do Algarve • Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro • Universidade Fernando Pessoa • Universidade de Coimbra • Universidade do Minho

Reino Unido • University of the West of England • Instituto de Psiquiatria do King’s College - Universidade de Londres • Medical Research Council, Human Genetics Unit - Escócia

Rússia • Universidade de Moscou

Suécia • Universidade de Gotemburgo / Academia Sahlgrenska

Suíça • University of Zurich - Instituto de História da Arte

Pontos prioritários 

Para alcançar um padrão internacional é preciso garantir mobilidade e estrutura para comportar o fluxo, além de facilitar o diálogo com o resto do mundo. E é em pontos prioritários que a nova gestão vem-se debruçando para buscar meios que facilitem o processo.

Amorim esclarece que algumas medidas já estão em estudo e outras, em andamento. “Uma das ideias é destinar uma parcela da moradia estudantil prevista nos projetos dos campi para alunos em mobilidade, além da perspectiva de locarmos um imóvel para sediar a SRI, com infraestrutura para isso também, e parcerias com flats e hotéis nas regiões onde a Unifesp está instalada.” 

A assessora de Assuntos Internacionais, Vera Salvadori, que está no setor desde o início do processo de internacionalização da Unifesp e tem contribuído em muitos projetos, explica que o imóvel previsto está localizado na avenida Onze de Junho, na Vila Clementino, e possui quatro andares. “O projeto de reforma ficou muito bom e prevê cinco suítes para professores, cinco quartos para estudantes, salas de reunião e estudo, espaço para eventos e uma sala de apoio para a SRI.”

Outra proposta é a criação de um programa de tutoria para visitantes estrangeiros – que ainda será discutido –, no qual uma equipe da universidade ficaria encarregada de recepcionar o aluno ou professor no aeroporto e orientá-lo na cidade quanto aos locais para retirada de documentação legal e moradia, entre outras dificuldades que poderiam ocorrer no início da estadia. 

Dar suporte em idiomas está também no foco da nova política de internacionalização da Unifesp. Um projeto que envolve o Campus Guarulhos, a SRI, a Reitoria e a Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa propõe a criação de uma central de idiomas, por meio da qual alunos e professores – tanto da instituição quanto em mobilidade acadêmica –, além dos técnicos administrativos, seriam beneficiados com a oferta de cursos de idiomas. “Não é possível falar em internacionalização sem oferecermos esse subsídio”, afirma Vera. 

A dupla titulação em doutorado (cotutela), por meio de acordos com instituições de fora, é outra medida que, nos últimos três anos, a universidade vem implementando. “O primeiro acordo foi com a Universidad de La Frontera, no Chile, que enviou uma aluna para adquirir a titulação em Medicina”, diz Amorim. “Em seguida, foi estabelecida parceria com as universidades de Estrasburgo e de Paris Nanterre La Défense, ambas da França, de Sherbrooke, no Canadá, e de Groningen, na Holanda.”

De acordo com ele, outro ponto que tem impacto na aceleração da mobilidade e na nova política de internacionalização proposta é a equivalência do diploma. “Somos uma das poucas universidades federais que não proporcionam essa vantagem, apesar de termos todo o modus operandi do processo”, explica. “Essa é uma das propostas que serão levadas em breve ao Conselho Universitário.”

 

Gráficos - Fontes de financiamento da mobilidade out - Países escolhidos por alunos em mobilidade out - Origem dos alunos em mobilidade in

A colaboração do Ciência sem Fronteiras

Desde o início do programa federal Ciência sem Fronteiras, 304 estudantes da Unifesp foram beneficiados com bolsas em diversos níveis. Porém, Marcelo Briones preocupa-se mais com a qualidade do que com a quantidade. 

Especificamente em relação à pós-graduação, Briones, que também é orientador do programa de pós-graduação em Microbiologia, reconhece os benefícios que o estudo no exterior traz ao pesquisador. “No final do semestre passado eu tinha 12 projetos de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para julgar. Dentre eles, escolhi os dois melhores, os quais – depois verifiquei – foram escritos por alunos que fizeram doutorado fora do país, por meio do Ciência sem Fronteiras.” 

Briones reconhece, ainda, que o valor das bolsas está aquém do suficiente e uma das saídas seria a seleção mais criteriosa dos bolsistas. “Se você cortasse as bolsas do Ciência sem Fronteiras pela metade e dobrasse o valor delas, com o mesmo investimento poderia haver um programa de melhor qualidade, pois a qualidade é o que mais importa em ciência e educação, e não a quantidade”, finaliza.

Amanda Zamparo Franco, 21 anos – Programa Ciência sem Fronteiras

Fotografia de Amanda em Portugal, ela está sentada em um muro com uma paisegem de jardim e cidade ao fundo

Em setembro de 2012, a estudante do 3º ano do curso de Ciências Biológicas (modalidade médica) da Escola Paulista de Medicina – Campus São Paulo embarcou para Portugal e durante um ano – com financiamento do programa Ciência sem Fronteiras – cumpriu estágio na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

De acordo com ela, as maiores dificuldades enfrentadas foram a adaptação com a língua – uma vez que o português de Portugal é muito diferente do brasileiro – e a escolha das disciplinas. “As cadeiras da Faculdade de Ciências eram muitas e de diferentes áreas, abrangendo desde Engenharia até Biologia. Mas foi uma experiência difícil de resumir em poucas palavras”, afirma. “Dependendo da forma como cada um aproveita a oportunidade, pode aprender mais ou menos. E o aprendizado pode acontecer em muitos níveis diferentes: cultural, acadêmico, profissional e pessoal. Morando um ano em Portugal, pude perceber muitas coisas que antes eram invisíveis para mim. Hoje vejo meu país com outros olhos e penso como poderia mudar as coisas por aqui. Criei novas referências profissionais e até morais.”

Para ela, como a Unifesp está iniciando o processo de internacionalização, não absorve tanto as experiências do aluno que volta do exterior. “Tive contato com muitas técnicas avançadas em Engenharia Biomédica e Neurociências, que poderiam ser compartilhadas em nossos laboratórios, por exemplo.”

Vitor Maciel de Sousa Pinto, 24 anos – Programas Santander Universidades e Ciência sem Fronteiras

Fotografia do estudante Vitor Maciel, ele está em uma praça histórica

O estudante do 4º ano de Medicina da Escola Paulista de Medicina – Campus São Paulo viveu duas experiências diferentes entre 2012 e 2013. Uma, de três semanas, em Salamanca (Espanha), pelo programa TOP España, oferecido pelo Santander Universidades. Outra, de um ano, pelo programa Ciência sem Fronteiras, na Johns Hopkins University School of Medicine, em Baltimore (EUA). “O intercâmbio traz uma enxurrada de aprendizados que vão além dos cognitivos e são muito ricos para o amadurecimento pessoal”, explica. “Aprendemos, entre outras coisas, sobre hábitos e costumes, História e Geografia. No meu retorno para a Unifesp poderei compartilhar o conhecimento das técnicas e metodologias de pesquisa que pude aprender durante este ano, por meio da continuidade dos estudos em uma tese e artigo científico.”

Durante sua permanência em Salamanca, Vitor fez um estágio de observação em Anestesiologia no Hospital Universitário e frequentou o curso de língua e cultura espanholas. Já no Ciência sem Fronteiras, seu foco foi o desenvolvimento de um projeto de pesquisa ligado ao Departamento de Endocrinologia/Metabolismo. “Como a função da universidade na sociedade é atuar no tripé ensino-pesquisa-extensão, vejo com muito otimismo para o desenvolvimento do país esses convênios com instituições de fora”, afirma. “No meu caso, por exemplo, acredito que a pesquisa realizada no exterior irá gerar conhecimento e contribuirá, mesmo que minimamente, com a visibilidade da universidade no contexto mundial.”

Larissa de Souza Neves, 26 anos – Programa Ciência sem Fronteiras

Fotografia da estudante Larissa, ela está em um parque

A aluna do 4º ano de Fisioterapia do Instituto de Saúde e Sociedade – Campus Baixada Santista ingressou na Glasgow Caledonian University, na Escócia, também por meio do Ciência sem Fronteiras, por ser a única universidade parceira da Unifesp que oferecia a mesma área de graduação. O ano em que esteve fora foi primordial para que alcançasse seus limites e desenvolvesse algumas capacidades desconhecidas. “Vi de perto que nosso ensino em Fisioterapia não deixa a desejar em nada para o dos europeus. Aprendi a valorizar dias ensolarados, família, amigos e o meu país”, conta. “Voltei com vontade de mudar o que há de errado aqui, porque vi de perto como tudo pode ser bem melhor quando as ferramentas disponíveis funcionam de verdade.”

Com relação aos estágios, ela não esconde a decepção. “A faculdade não nos alertou sobre a enorme burocracia para a participação de alunos estrangeiros e, por isso, não tive tempo hábil para conseguir todos os documentos. Não pude acompanhar, nem como observadora, nenhum atendimento clínico”, afirma. “Apesar disso, tive a oportunidade de participar de congressos e assistir a aulas de disciplinas que não teria de forma atrelada às aulas de Fisioterapia.”

Salety Ferreira Baracho, 23 anos – Programa Ciência sem Fronteiras

Fotografia da estudante Salety, ela está em um praça

Durante um ano, a estudante do 7º semestre do bacharelado em Ciência da Computação do Instituto de Ciência e Tecnologia – Campus São José dos Campos, conviveu com a cultura italiana junto a estudantes da Universidade de Bologna.
“Escolhi a Itália pela facilidade de aprendizado da língua e pelo interesse em viver essa cultura”, afirma. “Apesar da dificuldade em encontrar moradia, pois Bologna é movida pela universidade e a procura é maior que a oferta, tive total auxílio da instituição.”

Salety conta que a rotina nessa universidade era bem diferente, pois havia aulas presenciais, e a carga horária cumprida pelo aluno na sala de aula era menor se comparada com a exigida no Brasil. “O estudo individual tem muito peso. No período de aulas presenciais não havia cobrança para entrega de atividade em sala, tarefa para casa ou projeto”, lembra. “No entanto, após o término da disciplina, o aluno – para ser aprovado – deveria apresentar, oralmente, todas as atividades propostas, além de responder a perguntas referentes ao material didático.”

De acordo com ela, a experiência valeu como crescimento pessoal, emocional, acadêmico e profissional em um curto espaço de tempo. Cursou três disciplinas (Processamento de Imagem, Direito em Informática e Projeto de Processamento de Imagem), que serão muito úteis na graduação, e fez estágio no Laboratório de Visão Computacional. “Conheci a rotina de um laboratório de pesquisa que apenas confirmou minha vocação na área de computação”, diz. “Todo o conhecimento adquirido por um aluno que faz o intercâmbio é refletido na universidade de origem, por meio de seu comportamento e de sua capacidade de sugerir melhoras após a vivência em um sistema de ensino diferente do brasileiro.”

Secretaria de Relações Internacionais - SRI

http://unifesp.br/reitoria/sri/

Publicado em Edição 02

Natanael P. Leitão Júnior
Presidente da APG - Unifesp - Gestão Acolligere
Aluno de doutorado do programa de pós-graduação em Microbiologia e Imunologia

Pode ser maçante para muitos leitores desta publicação discutir, mais uma vez, sobre como a educação é negligenciada no país e sobre a falta de valorização dos pesquisadores e dos estudantes de pós-graduação. Afinal, todos sabemos disso: não se trata de uma revista destinada ao público geral, e sim de uma revista universitária lida por intelectuais com conhecimento de causa. Mas acredito que alguns, há muito tempo, não veem esse problema sob a ótica do pós-graduando. Outros, ainda, poderão ter seus anseios profissionais externados neste texto.

Diante de estudos técnicos que avaliam o cenário da educação do Brasil e suas perspectivas, a opinião de um leigo que está dentro do turbilhão, sem saber direito como vai sair dele, pode fornecer uma visão realista e muito preocupante. Vejamos.

É comum que os estágios iniciais da educação sejam tratados como prioridade pela mídia e por estudiosos. Com as discussões sobre cotas raciais em evidência, o ensino superior tem sido alvo de interesse recente, e políticas que o contemplem foram frequentes nos últimos anos. Nesse cenário a pós-graduação é continuamente relegada a segundo plano, tanto pelos estudiosos quanto pela mídia e políticas governamentais – ao menos é isso o que percebo.

Formulei três perguntas que guiam este texto e toda a discussão a seguir. Com elas tentei focar a discussão na pós-graduação sob o ponto de vista do pós-graduando: a) O que leva o indivíduo a fazer pós-graduação? b) Qual a perspectiva do pós-graduando no Brasil? c) Qual a importância da pós-graduação para a sociedade?

Em relação à primeira pergunta faço uma importante distinção entre a pós-graduação lato sensu e stricto sensu. Jornais e revistas de grande circulação anunciam que um curso de pós-graduação pode até duplicar o salário do funcionário, conforme a função exercida. Também ressaltam a possibilidade de promoção de cargo e até mesmo de mudança de emprego. Mas, em geral, os textos referem-se à pós-graduação lato sensu, cursos para os quais o estudante dedica parte de suas noites ou finais de semana, com o objetivo de aprofundar conhecimentos já adquiridos.

A pós-graduação stricto sensu demanda ao menos 40 horas semanais, dedicadas ao estudo de assuntos muitas vezes inéditos. É nesse pós-graduando que pretendo me deter. O que leva hoje, no Brasil, um indivíduo a fazer um curso de pós-graduação stricto sensu? Boa parte daqueles que entram nessa carreira o faz por aptidão e paixão, sem imaginar o que lhe espera no futuro. O que nos encaminha para a segunda pergunta.

Dentro do turbilhão referido, é difícil enxergar perspectivas. Mesmo visto de fora, o panorama não é dos mais animadores para o estudante de pós-graduação. Diante de um Estado sem política alguma de captação da especializadíssima mão de obra formada, o cenário pode ser ainda pior. Utilizando centros de pesquisa sem condições estruturais e tecnológicas adequadas, com salários defasados e cada vez mais insuficientes para viver nas grandes cidades, os profissionais da pós-graduação dependem de automotivação e amor ao trabalho.

Indivíduos com 30 anos de idade não têm garantia de estabilidade, plano de aposentadoria, benefício por tempo de trabalho e décimo terceiro salário, dentre outras vantagens mínimas conseguidas ainda durante os períodos iniciais de formação na maioria das profissões. O futuro do pós-graduando é incerto, não há garantia de que ocupará o tão almejado cargo de pesquisador no renomado instituto de pesquisa ou universidade. 

É comum ver dezenas de pessoas com diploma de doutorado submetendo-se a receber salários e a ocupar cargos inferiores ao nível que sua capacitação proporciona. É desesperador ver tantos bons pesquisadores – como os que estiveram comigo nos últimos anos – abandonarem a profissão eleita, por falta de um plano organizado e decente que contemple homens e mulheres em sua capacidade máxima de produção, ou oferecerem seus projetos e habilitações a outros países. Por que o governo investe tanto na formação dessas pessoas se não tem capacidade para assimilá-las e colocá-las em cargos condizentes com seu nível intelectual? Parece que nosso país tornou-se expert em capacitar profissionais para enviá-los a outros países ou descartá-los. 

A pós-graduação hoje é a força motriz geradora de ciência e tecnologia. Evidentemente, professores e pesquisadores dirigem todo o processo, e os servidores técnico-administrativos são peças fundamentais dessa engrenagem; os estudantes de pós-graduação, por sua vez, participam de todas as etapas da produção científica do país, desde o preparo de meios e soluções, incluindo-se a limpeza de laboratórios, até a preparação de projetos de pesquisa e redação de artigos científicos. 

São os futuros pesquisadores, as futuras “cabeças pensantes”, um excelente caminho para alavancar de fato o desenvolvimento econômico e social do país. Entretanto, aquele tem sido o tratamento recebido durante décadas. E esta é sua perspectiva profissional: a incerteza.

A pesquisa científica e a tecnologia são as grandes responsáveis pelo desenvolvimento da sociedade. Eu ocuparia a revista inteira falando apenas de alguns benefícios trazidos pelo avanço de ambas. Apenas para ilustrar, foram elas que desenvolveram os mais velozes meios de transporte e comunicação, que aumentaram a expectativa de vida da população, que aproximaram pessoas e nações e expuseram para o mundo as barbáries que acontecem nos confins. 

Precisamos de políticas que contemplem o indivíduo cujo objetivo é tornar-se pesquisador, que se dedica à pós-graduação profissionalmente, mesmo que seja por um período de estudos. Reconhecimento financeiro e melhoria da infraestrutura para a pesquisa é o mínimo necessário, além de um planejamento que possibilite realocação imediata após o término do doutorado. É insensato deixar à própria sorte quem poderá cuidar da sorte de todos.

Publicado em Edição 02

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

Fotografia da reitora Soraya Smaili

Há pouco menos de dez anos, os programas de pós-graduação consolidados na Unifesp eram quase que totalmente concentrados nas áreas de Medicina, Biomedicina, Enfermagem e Fonoaudiologia. Nossa universidade tornou-se referência de qualidade em pesquisa nacional e contribuiu com a formação de egressos que nuclearam diversos outros programas em diferentes instituições do território nacional. A qualidade foi construída ao longo dos oitenta anos de existência da Escola Paulista de Medicina (EPM), célula mater da Unifesp, que este ano completa o seu 20º aniversário.

Nos últimos sete anos, o cenário mudou como decorrência da expansão dos cursos de graduação e da ampliação dos programas de pós-graduação (PPG) stricto sensu. A expansão trouxe a contratação de 100% de doutores e um crescimento de 30% no número de PPGs. Entretanto, esse processo não foi propriamente planejado pelo Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que não destinou os recursos necessários e suficientes para manter o funcionamento da pós – o que inclui os laboratórios de pesquisa –, apesar de ter garantido bolsas.

O que fazer, então, com o sistema que agora demanda a abertura de novos PPGs e um ambiente adequado à pesquisa? Como atender a tantos doutores, agora vinculados às universidades públicas, que formam um contingente extremamente valioso para o país? Vivemos a difícil situação de manter o caminho pelo qual a Unifesp se consolidou no cenário nacional como instituição de qualidade no ensino de graduação e, ao mesmo tempo, garantir condições equivalentes para as atividades de pós-graduação.

Esse contexto impõe a necessidade de redimensionar os critérios de avaliação dos PPGs adotados pelo MEC. Em que pese o sistema de avaliação desse nível de ensino ter-se aprimorado, o corpo de mestres e doutores já produziu massa crítica que permite uma reflexão mais aprofundada sobre o tema. É necessário rever a lógica do processo e o quanto ela deixou de ser discutida, passando a ser simplesmente imposta.

Presenciamos, hoje, uma corrida pela obtenção de coeficientes e parâmetros numéricos supostamente indicativos de produtividade e qualidade. Em muitos casos, as pesquisas que geraram tais coeficientes têm pouca ou nenhuma repercussão no âmbito social e – especialmente – para a expansão do conhecimento. Alguns desses parâmetros e sistemas de classificação promovem, muitas vezes, distorções de viés produtivista. Por essa razão, é chegada a hora de fazermos uma pausa e repensarmos o sistema em seu conjunto.

Essa reflexão é ainda mais premente para a Unifesp, dadas as suas características específicas: de um lado, é uma universidade tradicional e consolidada; de outro, encontra-se em processo de ebulição. Antes do início da expansão, a Unifesp agregava cerca de 500 professores; hoje, possui cerca de 1.400 docentes doutores, dentre os quais 14% são livres-docentes. Há também um número elevado de técnicos administrativos com doutorado, que assumiram funções de pesquisa e pós-graduação em grande escala. São doutores oriundos de diferentes áreas, sedentos por um ambiente de acolhimento e crescimento acadêmico. Mas a falta de condições plenas de infraestrutura, aliada à demanda de recursos originada pelo ingresso de novos professores e pesquisadores, criam uma enorme pressão no sistema. 

O sistema de avaliação deveria refletir esse desafio, mas isso não ocorre. De um lado, os programas consolidados são julgados segundo regras que privilegiam uma análise prioritariamente quantitativa. De outro lado, aplicam-se aos novos PPGs as regras próprias aos programas já consolidados. O método tende a criar um círculo vicioso por determinar que os recursos ofertados pelas agências de fomento à instituição e aos pesquisadores premiem o produtivismo. Uma avaliação mais justa teria de assegurar visibilidade ao grande número de programas que foram implantados pela Unifesp em diferentes áreas e que estão ainda em fase de consolidação. 

A complexidade do tema e a necessidade de reflexão não param por aqui. Precisamos ainda discutir o sistema de avaliação em si mesmo. Seria esse o melhor sistema? Como torná-lo mais justo, menos quantitativo e mais qualitativo? Os parâmetros adotados são os mais adequados à realidade brasileira e à diversidade de pesquisa aqui desenvolvida? 

Em qualquer hipótese, cumpre-nos proporcionar maior apoio à pós-graduação e pesquisa – fundamentais para a formação de novos profissionais – e promover o estímulo à criatividade intelectual e ao debate de ideias, além do compartilhamento dos saberes com a sociedade em seu conjunto. Afinal, é disso que vivemos e é nisso que devemos investir nossos esforços.

Publicado em Edição 02
Segunda, 02 Junho 2014 15:14

Editorial

Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni
Pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa da Unifesp

Aprofundamos, nesta edição, o debate sobre os conceitos e políticas que embasam os programas de pós-graduação (PPG) e as pesquisas desenvolvidas na Unifesp. Esses assuntos são abordados sob diversas perspectivas, começando pela filosófica. 

A prática da interdisciplinaridade – tema central dos mais recentes fóruns nacionais e internacionais sobre o desenvolvimento científico – é discutida pela professora de Filosofia Olgária Mattos. A disciplinaridade e interdisciplinaridade não se opõem, afirma Olgária. Ao contrário, uma é a base da outra: a interdisciplinaridade ocorre quando o especialista, ao compreender a complexidade de seu conhecimento, estabelece relações com os demais campos do saber. 

Outro tema que desperta calorosos debates é a internacionalização. Foco de programas como o Ciência sem Fronteiras, constitui simultaneamente uma oportunidade de acelerar a inserção da ciência brasileira no cenário mundial e um desafio. Impõe-se, por isso, definir claramente seus objetivos e a metodologia mais adequada para atingi-los. Mas isto não basta – é necessário buscar apoio financeiro, estabelecer parcerias e coordenar as diversas iniciativas que nos são apresentadas.

Esta edição registra, ainda, diversos exemplos de pesquisas realizadas em nossos campi. Os responsáveis pelas Câmaras de Pós-Graduação e Pesquisa convidaram os docentes das respectivas unidades universitárias a compartilharem com nossa comunidade seus principais projetos, os quais foram submetidos a cuidadosa seleção – para fins de publicação – pelo Comitê Científico de Entreteses, formado pelos coordenadores dos comitês de áreas, pelos membros do comitê de pesquisa e por representantes das Pró-Reitorias de Graduação e Extensão. 

(Como nem sempre as agendas foram compatíveis, e respeitando os princípios de autoria, constam como integrantes do Comitê Científico neste número somente aqueles que contribuíram significativamente para sua concepção e que participaram da maioria das reuniões.)

Procuramos manter uma certa proporcionalidade e representatividade das pesquisas realizadas na Unifesp, destacando nosso potencial para a inter e transdisciplinaridade. Os desafios da educação são apresentados em matérias sobre o ensino da Matemática e sobre o fracasso escolar. Os estudos em áreas básicas da Medicina, que abrangem fungos, células-tronco, fármacos, genética e dosímetros, levam-nos a refletir sobre a aplicação prática da ciência e os caminhos do empreendedorismo. Para isso, precisamos ampliar as ações do Nupi - Nit (Núcleo de Propriedade Intelectual – Núcleo de Inovação Tecnológica), que a partir deste semestre se reaproxima física e conceitualmente da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa.

Outros trabalhos aqui apresentados não se limitam à pós-graduação, desenvolvendo-se de modo integrado a projetos de extensão e de graduação. Eles nos permitem estabelecer a necessária integração entre os saberes científico e popular, assim como o essencial diálogo entre a universidade e os demais setores da sociedade – assunto que será tema do próximo número.

Dedicamos, por fim, a seção Perfil à geógrafa Bertha Becker (1930 – 2013), professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro, cujos estudos sobre a Amazônia constituem uma referência necessária e mundialmente reconhecida. É também nessa região do país que efetuamos pesquisas sobre a saúde indígena, foco de outra matéria deste número.

Participe da construção de Entreteses. Envie sugestões sobre os assuntos que gostaria de ver incluídos nas próximas edições. Boa leitura!

Publicado em Edição 02
Segunda, 02 Junho 2014 15:12

Expediente - edição 2

A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.

ISSN 2525-538X (publicação online)
ISSN 2525-5401 (publicação impressa)

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Reitora: Soraya Soubhi Smaili

Vice-Reitora: Valeria Petri

Pró-Reitora de Administração: Janine Schirmer

Pró-Reitora de Assuntos Estudantis: Andrea Rabinovici

Pró-Reitora de Extensão: Florianita Coelho Braga Campos

Pró-Reitora de Graduação: Maria Angélica Pedra Minhoto

Pró-Reitora de Pós­-Graduação e Pesquisa: Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni

Pró-Reitor de Planejamento: Esper Abrão Cavalheiro

Jornalista responsável/Editor: José Arbex Jr. (MTB 14.779/SP)

Coordenação: Ana Cristina Cocolo

Reportagens: Ana Cristina Cocolo, Bianca Benfatti, Flávia Alves Kassinoff, José Luiz Guerra e Rosa Donnangelo

Projeto gráfico e diagramação: Ana Carolina Fagundes de Oliveira Alves

Infográficos: Ana Carolina Fagundes de Oliveira Alves, Francisco F. Canzian e Reinaldo Gimenez

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa 

Fotografias: Acervo Unifesp / Créditos indicados nas imagens

Tratamento de imagens: Reinaldo Gimenez

Conselho Editorial: Maria Lucia O. de Souza Formigoni, Débora Amado Scerni, Cristiane Reis Martins, João A. Alves Amorim, Sérgio B. Andreoli, Tania A. T. Gomes do Amaral, João Valdir Comasseto e Juliano Quintella Dantas Rodrigues

Conselho Científico desta edição: Augusto Cesar, Claudia M.da Penha Oller do Nascimento, Eliane Beraldi Ribeiro, Ieda M. Longo Maugéri, João M. de Barros Alexandrino, João Valdir Comasseto, Maria da Graça Naffah Mazzacoratti, Manuel Henrique Lente, Marcelo Silva de Carvalho, Maria Gaby Rivero de Gutiérrez, Plinio Junqueira Smith, Rosilda Mendes, Silvia Daher, Sergio Schenkman, Sergio Gama e Tereza da Silva Martins

Revista Entreteses n° 2 – Junho/2014
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Tiragem: 3 mil exemplares

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL
Equipe de jornalismo: Ana Cristina Cocolo, Carine Mota, Daniel Patini, Erika Sena, José Luiz Guerra, Juliana Narimatsu, Mariane Santos Tescaro e Renato Conte
Design: Ana Carolina Fagundes de Oliveira Alves e Ângela Cardoso Braga
Fotografias: Acervo Unifesp
Edição de imagens: Reinaldo Gimenez
Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa
Assessoria de Imprensa: CDN Comunicação Corporativa
Redação e administração: Rua Sena Madureira, 1.500 – 4º andar – Vila Clementino - CEP: 04021­-001 – São Paulo - SP – Tel.: (11) 3385-­4116 - Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. – www.unifesp.br

Publicado em Edição 02
Segunda, 02 Junho 2014 14:22

Uma vida dedicada à Amazônia

Elegante, irrequieta, inteligente, polêmica e dona de um fino humor, a geógrafa e professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Bertha Becker, é  referência mundial quando o tema é a Amazônia

Ana Cristina Cocolo

Vista aérea do Encontro das águas

Encontro das águas - Amazônia

A grande paixão de Bertha Becker pela Geografia, em especial pela Amazônia, deixou um legado de mais de 40 anos de estudos e vários ensinamentos sobre o que muitos consideram ser o “pulmão do mundo”. Os trabalhos, pesquisas e projetos de políticas públicas desenvolvidos pela cientista sobre a região são referência obrigatória. O casamento com a Geografia começou nos anos 1960, quando Bertha iniciou um vasto trabalho de pesquisa sobre a expansão agropecuária no Brasil. A partir daí, o próprio processo de ampliação das fronteiras agrícolas brasileiras conduziu o seu trabalho para a Amazônia. Entender a complexidade da floresta, os processos de ocupação e devastação da região, assim como pensar seu desenvolvimento econômico de forma sustentável, tornou-se uma obsessão.

Graduou-se em Geografia e História pela antiga Universidade do Brasil, hoje Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde se tornou doutora e livre-docente em Geografia no ano de 1970. Concluiu, em 1986, o pós-doutorado no Massachusetts Institute of Technology (EUA). Na UFRJ, chegou ao cargo de professora emérita e lecionou por mais de quatro décadas. Durante dez anos também ministrou aulas a jovens diplomatas no Instituto Rio Branco – vinculado ao Ministério das Relações Exteriores.

Bertha ainda trabalhou em parceria com os Ministérios da Ciência e Tecnologia, da Integração Nacional e do Meio Ambiente, foi consultora de várias instituições científicas e integrou a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Coordenou ainda inúmeros projetos e publicou mais de 100 trabalhos científicos e 19 livros. Todos fruto de pesquisas de campo. Para ela – que sonhava ver a Amazônia influenciando positivamente o produto interno bruto (PIB) do país por meio de uma revolução científica e do desenvolvimento sustentável – era fundamental ouvir todos os envolvidos, de índios e ribeirinhos a empresários e governo.

Fotografia com Bertha Becker

Bertha Becker durante viagem à Itália, em 2010

Sua atuação rendeu-lhe as distinções David Livingstone Centenary Medal da American Geographical Society, em 2000; a medalha Carlos Chagas Filho de Mérito Científico, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), em 2001; e, em 2007, a medalha de Mérito Geográfico, da Sociedade Brasileira de Geografia; e a insígnia de Comendadora da Ordem Nacional do Mérito Científico, pela Presidência da República.

De acordo com as amigas Ima Célia Guimarães Vieira, ecóloga e pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi-MPEG, e Nathalia Nascimento, geógrafa e pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará (Idesp), não há uma proposta para a Amazônia nos últimos 20 anos, que não tenha tido a participação ou fosse proveniente de Bertha.

“Sua dedicação a projetos inovadores e estratégias de implementação de políticas propostas para a região acentuou a importância de uma revolução científica e tecnológica que incluísse uma logística específica para a Amazônia”, afirma Ima. Essa revolução científica foi carinhosamente chamada, por seus amigos, de Revolução Beckeriana.

Para Nathalia, a ausência de Bertha dificilmente será preenchida, mas o rico acervo que deixa como legado ao país ajudará a nortear novas propostas de desenvolvimento para a Amazônia.

Vista aerea da Foz do Amazonas

Foz do Rio Amazonas

Para muitos geógrafos e estudiosos, entre as políticas públicas que tiveram forte influência de Bertha na Região Amazônica, está a aprovação do Macrozoneamento Ecológico-Econômico (MacroZEE) da Amazônia Legal pelo Congresso Nacional, em 2010.

O MacroZEE – resultado de amplos estudos e negociação, envolvendo dezesseis ministérios, os nove Estados da região e entidades da sociedade civil – divide o território da Amazônia Legal em áreas distintas e estratégicas tanto na prospecção de alternativas de uso sustentável dos recursos naturais quanto no aproveitamento das potencialidades econômicas e sociais da região, sempre respeitando sua diversidade cultural.

Referências paternas

Casada com o químico Fábio Becker e mãe de três filhos – Lídia, Paulo e Beatriz – Bertha Becker nasceu em 15 de novembro de 1930, no Rio de Janeiro. Filha de pai romeno e mãe ucraniana, teve a irmã mais velha, que cursou História e Geografia, como referência para trilhar o rumo acadêmico.

Seu pai, Isac Koiffmann, natural de uma pequena aldeia (Steitel) na Europa Oriental, chegou ao Brasil acreditando que poderia conseguir uma vida melhor e com mais liberdade. Como imigrante pobre e recém-chegado ao porto do Rio de Janeiro no início do século XX, passou muitas dificuldades. Aqui, conheceu a ucraniana Adélia e casou-se.

Aos poucos, tornou-se comerciante, adquiriu lojas e imóveis e conseguiu criar suas três filhas – Fani, Liuba e Bertha –, deixando um certo patrimônio à família. Juntamente com um grupo de amigos, fundou as primeiras escolas israelitas no país. Já sua mãe, mulher forte e solidária, dedicou algumas décadas à vida comunitária e colaborou na criação do Lar da Criança, uma importante instituição beneficente à época para as famílias judaicas, já que abrigava crianças órfãs de pais mortos durante a guerra na Europa.

Fotografia com Bertha e seus filhos e netos

A professora com a família em viagem ao México para comemorar a passagem do ano de 2011 para 2012

Fotografia de Bertha com filhos e netos

Com o filho e os netos em passagem pelo Peru

A filha caçula, Beatriz Becker, jornalista e professora do programa de pós-graduação em Comunicação e Cultura e do Departamento de Expressões e Linguagens da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro ( ECO-UFRJ) reconhece a grande influência dos avós na trajetória profissional da mãe. “Essa marca da descoberta de novos territórios físicos e simbólicos sempre esteve presente no trabalho de nossa mãe, associada à importante referência paterna e materna da necessidade de um contínuo desenvolvimento humano e social para a qualidade de vida de pessoas de culturas e condições econômicas distintas, do diálogo e do reconhecimento das diferenças”, diz.

O marido de Bertha, Fábio, foi presidente da Escola Israelita Brasileira Eliezer Steinberg, um trabalho voluntário que abraçou, dando continuidade às causas dos sogros. Também foi um grande parceiro e incentivador para que a carreira de Bertha decolasse.

Os filhos classificam a mãe como uma pessoa fascinante e apaixonada pelo que fazia. “Quanto mais avançou na sua vida profissional, mais se solidificaram essas características em suas aulas, palestras, debates, artigos e livros, além, é claro, nas suas relações profissionais, pessoais e familiares”, afirma a primogênita da geógrafa, Lídia, que é fonoaudióloga, doutora em Artes Cênicas e professora da UFRJ.

Lídia conta que Bertha gostava muito de cantar e dançar. “Não é qualquer mãe que canta canções de Dorival Caymmi para os filhos dormirem, mas ela sim”, lembra. “Era estranho, mas muito bom e divertido.”

Bertha adorava o mar e a natação, mas sua atividade favorita era caminhar nas feiras e visitar lojas de antiguidades durante as viagens que fazia. Cozinhar? Nem pensar! Mas cobrava qualidade e diversidade na alimentação da família. Os filhos contam que, para sanar essa “deficiência”, havia ótimas cozinheiras em casa.

Vista aérea da floresta e áreas desmatadas

Incêndios e desmatamento na fronteira da Amazônia

Ela também não tinha hobbies, a não ser estudar, mas experimentava grande prazer em ir ao cinema, muitas vezes sozinha, à tarde, e terminar a noite assistindo à novela, acompanhando algumas séries ou um bom filme na televisão. “Tivemos a mais clássica mãe judia que se possa imaginar”, afirma Paulo, psiquiatra e psicanalista, o segundo na ordem de nascimento dos filhos. “Ela foi nossa maior amiga e sempre nos incentivou em nossas vidas e em nossas profissões.”

Os filhos lembram que Bertha chegava esfuziante de suas viagens, com presentes típicos dos lugares por onde passava, e ciente de que eles haviam permanecido muito bem com a estrutura preparada para a sua ausência. Os amigos de infância de Lídia, Paulo e Beatriz se lembram dela sentada em sua poltrona, estudando dias e noites a fio, mas sempre receptiva. Nunca teve problemas para conciliar a vida profissional com a familiar. “Os problemas surgiam e, quando ela tentava preencher suas falhas, inclusive aquelas naturais com cada filho, queria controlar tudo de si e dos outros, podendo tornar-se irritante e excessiva para nós”, conta Beatriz. “Entretanto, todos os seus pecados terão sido apenas por excesso.”

Uma das lições ensinadas aos filhos foi amar a vida, mesmo diante de dificuldades, como ela também o fez em momentos difíceis. Os filhos tiveram muitas oportunidades de viajar com a mãe desde a infância, inclusive para a Amazônia, mostrada com satisfação por ela. “Foram experiências fascinantes que, certamente, influenciaram as nossas escolhas profissionais”, afirmam os três irmãos.

Bertha faleceu em 11 de julho de 2013, aos 83 anos. Além dos filhos, a geógrafa deixou oito netos e conseguiu aproveitar um pouco da infância de duas bisnetas.

Principais atividades profissionais e livros publicados, organizados ou editados por Bertha Becker

1966 • Começa a lecionar Geografia no Instituto Rio Branco do Ministério das Relações Exteriores. Reformula a grade curricular da disciplina para que os futuros diplomatas valorizassem o conhecimento das paisagens brasileiras.

1970 • Finaliza seu doutorado em Geografia pela UFRJ. Integra os projetos de pesquisa: Estrutura Fundiária e Conflitos na Amazônia Oriental, Expansão da Fronteira Demográfica e Econômica na Amazônia e Formação de Sub-Regiões na Amazônia.

1971 • Integra o projeto de pesquisa Urbanização e Mobilidade Espacial da População na Amazônia.

1972 • Especialização em Theories of Urbanization & Urban Systems Analysis.

1980 • Recebe elogio funcional do Instituto de Geociências IGEO/UFRJ. Integra os projetos de pesquisa Polos Tecnológicos no Vale do Rio Paraíba do Sul e Alternativas para o Desenvolvimento Rural.

1982 • Publica o livro Geopolítica da Amazônia: a nova fronteira de recursos. Inauguração da UHT Tucuruí.

1985 • Publica os livros Rural development: capitalist and socialist paths - Brazil and Nigeria e Regional development in brazil: the frontier and its people.

1989 • Integra o projeto Amazônia Macro-cenários 2001.

1990 • Publica o livro Fronteira Amazônica: questões sobre a gestão do território.

1991 • Integra o projeto Pró-Amazônia.

1992 • Publica os livros Brazil: a new regional power in the world-economy e Geography and environment in Brazil.

1993 • Publica o livro Brasil: uma nova potência regional na economia-mundo.

1994 • Integra os projetos Ecossistemas Brasileiros e Macrovetores de Desenvolvimento e Macrodiagnóstico da Zona Costeira Brasileira.

1995 • Coordena o projeto Análise dos Efeitos Sociais, Econômicos e Políticos das Ações Visando o Desenvolvimento Sustentável na Amazônia.

1997 • Recebe o título de Mulher do Ano da Associação Nacional de Mulheres.

1998 • Coordena o Projeto Institucional Gestão do Território no Brasil.

2000 • Recebe a medalha Carlos Chagas Filho de Mérito Científico.

2001 • Recebe a medalha David Livingstone Centenary da American Geographical Society. Publica o livro A difícil sustentabilidade política energética e conflitos ambientais.

2003 • Recebe homenagem de um grupo de geógrafos franceses sediados no Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB).

Capas de livros de Bertha Becker

Livros Amazônia - geopolítica na virada do III milênio e A urbe amazônida

2004 • Publica o livro Amazônia - geopolítica na virada do III milênio.

2005 • Recebe o título de doutor honoris causa na Université Jean Moulin Lyon III.

2006 • Ingressa na Academia Brasileira de Ciências.

2007 • É condecorada com a insígnia de comendadora da Ordem Nacional do Mérito Científico pelo Presidente da República do Brasil. Recebe a medalha de Mérito Geográfico da Sociedade Brasileira de Geografia.

2010 • Recebe homenagem do programa de pós-graduação em Geografia do Instituto de Geociências da UFRJ. Recebe homenagem do Ministério do Meio Ambiente no Dia Internacional da Mulher. Participa da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável.

2011 • Recebe homenagem da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (Anpege). Torna-se membro da Transition Team of the Belmont Forum – ICSU.

2013 • Publica o livro A urbe amazônida. É homenageada no simpósio Relações entre Ciência e Políticas Públicas: Propostas de Bertha Becker para o Desenvolvimento da Amazônia, organizado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi e BNDES no Rio de Janeiro. Falece aos 83 anos de idade (incompletos), na cidade do Rio de Janeiro.

Fontes: Ima Célia Guimarães Vieira, ecóloga e pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi-MPEG, e Nathalia Nascimento, geógrafa e pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará – Idesp.

Publicado em Edição 02