Sábado, 10 Outubro 2015 09:14

Um advogado do canabidiol

Dedicado pesquisador da Cannabis, Elisaldo Carlini reconhece que a substância pode causar efeitos adversos; no entanto, é enfático: os benefícios medicinais são bem maiores

Da Redação
Com a colaboração de Rogério Dias

Entretesses05 p017 ElisaldoCarlini

Aos 85 anos – 50 deles dedicados à pesquisa sobre os efeitos das drogas psicotrópicas – Elisaldo Luiz de Araújo Carlini está longe de ter uma vida pacata. Médico, pesquisador, professor emérito da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo e diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), Carlini dedica pelo menos dez horas de seu dia ao trabalho. Atualmente, está no sétimo mandato como membro do Expert Advisory Panel on Drug Dependence and Alcohol Problems (Painel Consultivo de Especialistas em Dependência de Drogas e Problemas com Álcool), da Organização Mundial da Saúde (OMS), e atua como coordenador da Câmara de Assessoramento Técnico-Científico da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), órgão do Ministério da Justiça. 

No entanto, nem mesmo as limitações causadas pela idade fazem com que ele reduza o ritmo de suas atividades. Pai de seis filhos, fruto de seus três casamentos, com sete netos e uma bisneta, acorda diariamente às seis horas e vai dormir por volta da meia-noite. Antes de ir descansar, porém, faz questão de responder a todos os e-mails recebidos ao longo do dia, de reservar um tempo para conversar com a esposa e, ainda, de passear com os cachorros. “Eu não sei viver de outro jeito”, reconhece.

Durante a conversa na sede do Cebrid, na manhã de uma quarta-feira de muito calor, o professor pediu apenas uma pausa para abocanhar a barrinha de cereal e tomar o suco de laranja. Diabético, Carlini precisa evitar a queda do nível de glicose no sangue e as consequências da hipoglicemia; por isso, não pode passar muito tempo sem se alimentar. “Eu não sofro de doença, sofro de velhice. Tudo que você imaginar que um velho tem, eu tenho”, comenta após o lanche.

A paixão do médico especialista em Psicofarmacologia é a pesquisa da flora medicinal. O contato com as plantas começou cedo, aos sete anos, quando deixou a cidade natal de Ribeirão Preto (SP) para ir morar com os pais e cinco irmãos em Pirajá, um pequeno distrito rural do município de Neves Paulista, que fica no extremo norte do Estado de São Paulo. Com cerca de 20 casas, na época, foi nesse vilarejo – desprovido de água encanada, energia, esgoto, médicos e enfermeiros – que o incansável pesquisador aprendeu as diferentes formas de tratamento, à base de ervas, para a cura de doenças. 

Como era o filho mais velho, acompanhava as visitas que sua mãe – professora primária e a pessoa mais bem informada daquela região – fazia aos moradores com problemas de saúde, na tentativa de ajudá-los. “Eu via coisas pavorosas, como o parto de uma mulher que gritava continuamente, sem dispor de nenhum recurso.” A passagem por Pirajá marcou-lhe a vida de tal modo que se propôs a cumprir um objetivo: “Eu não queria ter clínica, ser cirurgião, nada disso. Eu queria aprender Medicina.” Depois de formado, seu sonho era trabalhar em navios que, na época, subiam o rio Amazonas para socorrer a população local.

Aos 15 anos, ao chegar a São Paulo, conseguiu emprego como office-boy na multinacional White Martins, especializada na venda de tubos de oxigênio. Com ele, vieram os pais e mais três irmãos; todos – em razão da situação financeira muito difícil – foram morar com os avós. “Eu dormia numa cama no corredor da casa e entregava todo o salário ao meu pai, que me devolvia apenas o dinheiro da condução.”

Em 1952, aos 22 anos de idade, ingressou na EPM, após duas tentativas anteriores. A vida do jovem Carlini começou a ganhar um novo rumo quando conheceu o professor de Farmacologia José Ribeiro do Valle, no 2º ano do curso de Medicina. “Ele mudou minha vida”, garantiu ao reconhecer que herdou de seu mestre o interesse em estudar a Cannabis sativa. “Ribeiro do Valle foi o primeiro brasileiro a trabalhar cientificamente com a maconha, utilizando animais de laboratório. Ele me ensinou as coisas da vida, muitas delas por meio de ditados populares.” Um deles é relembrado por Carlini: “Confia apenas na forte força do seu braço fraco.”

A partir daí, o renomado especialista nunca mais deixou a pesquisa. Em 1957, quando se formou, abandonou o trabalho como instrutor de propagandistas, que exercia em um laboratório farmacêutico, para dedicar-se exclusivamente à carreira. O salário cobria as despesas com o pagamento da faculdade (naquela época a EPM era paga) e complementava o orçamento da família.

Entretesses05 p018 ElisaldoCarlini

Imagem acima, à esquerda – Carlini no Departamento de Farmacologia da Universidade Yale (1963), nos EUA, onde concluiu o mestrado
Imagem acima, à direita – Carlini (em pé, à direita) ao lado de colegas da pós-graduação em Yale: David (meio), Joseph (esquerda) e Anthony (sentado, à esquerda). À direita (sentado), aparece o professor Jack Peter Green, orientador dos componentes do grupo
Imagem abaixo, à esquerda – Os professores Carlini (em pé) e Orlando Bueno observam a caixa de Skinner, usada para experimentos com animais nas áreas de comportamento e aprendizagem (EPM/Unifesp, 1967)
Imagem abaixo, à direita – O professor e seu grande companheiro: o cão Samuel, com dois anos

Trabalhou como assistente voluntário da disciplina de Farmacologia até 1960, quando – após ser contemplado com uma bolsa da Fundação Rockefeller – foi aos Estados Unidos aprender Bioquímica e Psicofarmacologia. Durante sua permanência no país, por quatro anos, cursou o mestrado na Universidade Yale no período de 1962 a 1964. Apesar do convite para continuar na instituição, Carlini decidiu voltar para o Brasil, mesmo sem emprego. Uma das principais razões para que ele tomasse essa decisão não estava relacionada ao desenvolvimento de pesquisas. “Comecei a sonhar com tudo que era do Brasil, e um dia imaginei que estava comendo feijoada. Acordei dizendo: ‘Quero comer feijoada.’ Fui preparar. Mas só consegui fazer uma ‘lentilhada’. Daí pensei: ‘Não dá para ficar mais aqui’. ”

Em 1964, de volta ao país, Carlini passou por algumas instituições da capital paulista, como o Instituto Biológico e a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa. Em 1970, o pesquisador de plantas medicinais foi acolhido pelo diretor da EPM – na época, o professor de Cardiologia Horácio Kneese de Mello –, como professor adjunto. Nessa instituição fundou o Departamento de Psicobiologia e chefiou a disciplina de Psicofarmacologia. Em 1978 foi aprovado no concurso para professor titular de Psicofarmacologia. 

Desde seu retorno à EPM, trabalha arduamente para comprovar que a maconha é uma planta fascinante e pode ser uma eficiente alternativa para o tratamento da epilepsia e dos efeitos colaterais (náuseas e vômitos) causados pela quimioterapia de câncer, além de aliviar as dores miopáticas. São mais de 50 anos de estudo, com foco na compreensão dos mecanismos pelos quais a Cannabis sativa age no organismo humano. Juntamente com sua equipe, já publicou diversos trabalhos em revistas científicas internacionais, reunindo cerca de cinco mil citações. Até o momento, orientou cerca de 24 dissertações de mestrado e 25 teses de doutorado. “Os primeiros estudos publicados no mundo sobre o efeito benéfico do canabidiol em adultos com epilepsia foram nossos. O Cebrid, Carlini e a EPM são os precursores dos trabalhos com a maconha.”

Foi necessário, entretanto, esperar muitos anos para que finalmente pudesse acompanhar os resultados positivos do uso dessa droga psicoativa no Brasil. Apesar de ser utilizada em cerca de 40 países, somente no início do ano a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a resolução que retira o canabidiol da lista de substâncias proibidas, transferindo-a para a de produtos controlados no país. “Foi o primeiro passo. Espero que isso progrida. Não há sentido na pressão negativa que antes existia. Há mais crença e ideologia na proibição total da maconha.” Ele explica que na planta herbácea ainda existem mais de 60 substâncias que podem ajudar a Medicina.

Mesmo reconhecendo que a Cannabis pode causar efeitos adversos, Carlini acredita que estes representam experiências menores perto das qualidades médicas que a primeira oferece. Lembra, ainda, que seu uso era uma terapêutica corrente no mundo inteiro para vários males até o início do século XX e que, somente depois dos anos 1930, o composto psicoativo passou a ser considerado uma droga maldita por questões comerciais. “O grande segredo do médico é fazer a avaliação risco – benefício. Ele tem de saber que toda droga, sem exceção, traz algum risco ao paciente. E tem de avaliar se o benefício que traz é suficientemente forte para valer o risco.”

Seus trabalhos e pesquisas renderam-lhe várias condecorações e títulos, entre eles: a medalha de Grande Oficial da Ordem do Rio Branco (1996) e a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (2000), ambas concedidas pela Presidência da Repúbli-ca; e os títulos de Conselheiro Emérito do Conselho Federal de Entorpecentes (1987), membro titular do International Narcotics Control Board, eleito pelo Conse-lho Econômico e Social das Nações Unidas (2001), e doutor honoris causa pela Uni-versidade Federal do Rio Grande do Norte (2002).

Legalização aponta resultados positivos

Entretesses05 p019 Canabidiol

Em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a exclusão do canabidiol (CBD) da lista de substâncias proibidas no Brasil, reclassificando-a como substância controlada. Em julho, a importação de medicamentos destinados a pessoas físicas deixou de ter tributação federal; entre eles, figura o canabidiol, que representa uma alternativa para tratar, por exemplo, de casos graves de epilepsia. Portanto, desde que cumpridas as regras estabelecidas, a nova disposição da Anvisa possibilita aos cidadãos brasileiros o acesso àqueles medicamentos sem a incidência de impostos federais.

No Uruguai a legalização da Cannabis é uma realidade parcial: o cultivo é permitido desde que o responsável conste do registro oficial, no qual estão inscritos – até agora – cerca de 2.000 nomes; por sua vez, as cooperativas para o cultivo coletivo da maconha – os “clubes canábicos” – multiplicam-se por todo o país. O secretário nacional de Drogas, Julio Heriberto Calzada, afirma que o país conseguiu reduzir a zero as mortes ligadas à maconha desde que foram adotadas regras para regulamentar seu uso, venda e cultivo.

Em relação aos Estados Unidos, Elisaldo Carlini argumenta que no Estado de Washington a maconha tem sido utilizada como medicamento há mais de 20 anos. “Os médicos prescreviam [a substância psicoativa] com a licença das autoridades e gostavam dos resultados obtidos; os pacientes, que geralmente eram pessoas mais idosas, também estavam felizes com isso.” 

Segundo ele, a legalização facilitou o acesso à droga, cujo glamour em parte desapareceu, fazendo com que os jovens, surpreendentemente, perdessem o interesse por ela. “Então, acredito que esse fato [o não aumento do consumo] pode realmente acontecer, e deve estar acontecendo em alguns Estados dos EUA e no próprio Uruguai.”

Publicado em Edição 05
Quinta, 15 Outubro 2015 09:53

Edição 5 - Entreteses

banner entreteses 05 -Médico e indígena retratados de perfil com o texto projeto xingu 50 anos

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Novembro 2015

Há 50 anos, a Unifesp cuida da saúde dos povos que vivem no Parque Indígena do Xingu (PIX). Graças ao Projeto Xingu, iniciativa pioneira implementada pela Escola Paulista de Medicina (EPM), o alto índice de mortalidade dessa população, decorrente das grandes epidemias na região, foi reduzido e houve um significativo aumento populacional das etnias.

Encabeçado pelo Prof. Roberto Baruzzi, após o convite do sertanista e então diretor do PIX Orlando Villas Bôas, o Projeto Xingu já levou mais de 500 profissionais da área da saúde (entre professores, médicos, enfermeiros e estudantes) ao local para prestar assistência e, por meio da pesquisa científica, ajudar a melhorar a saúde desses povos. Trata-se de uma história construída a partir de um delicado processo de aprendizado e respeito às culturas – tão diferentes – e que é contada em 30 páginas dessa edição.

Ainda nesse número, apresentamos, pesquisas na área de Nutrição e Informação em Saúde, uma entrevista exclusiva com a secretária especial de Políticas para as Mulheres do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, Eleonora Menicucci de Oliveira, na qual ela fala, entre outros temas, sobre feminicídio e atenção humanizada aos casos de abortamento no Brasil.

No perfil, trazemos um dos mais antigos e renomados pesquisadores da Cannabis sativa do país, o diretor do Centro Brasileiro sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e professor emérito da Unifesp, Elisaldo Carlini.


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Publicado em Entreteses
Quarta, 03 Junho 2015 15:44

Edição 4 - Entreteses

banner entreteses 04 - imagem do Rio Pinheiros cheio de lixo, com um prédio refletido nele

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Junho 2015

Em meio à crise hídrica que assola não só países do Oriente Médio e da África, como também a China e a Índia, este número da Revista Entreteses apresenta 23 páginas especialmente dedicadas à água, recurso abundante no Brasil, porém mal distribuído e mal administrado pela população e pela gestão pública. O recurso, que antes valia ouro, principalmente em regiões do Nordeste do país devido à pouca (ou nenhuma) oferta, é desperdiçado e mal gerido até chegar ao ponto de provocar escassez em São Paulo, principal centro financeiro da América do Sul e a 14ª cidade mais globalizada do planeta segundo o Globalization and World Cities Study Group & Network (GaWC).

O especial traz importantes pesquisas sobre qualidade da água nas represas Guarapiranga e Billings, além das envolvidas com a biorremediação para o reuso da água de refinarias de petróleo e com a remediação de solos e aquíferos. Ao final, o leitor terá uma visão mais dinâmica sobre a crise hídrica mundial (e local) na entrevista com João Alberto Alves Amorim, professor da Unifesp e especialista em Direito Internacional do Meio Ambiente e em Direitos Humanos. Amorim também é autor dos livros Direito das Águas: Regime Jurídico da Água Doce no Direito Internacional e no Direito Brasileiro e A ONU e o Meio Ambiente – Mudanças Climáticas, Direitos Humanos e Segurança Internacional no Século XXI.

As quase 90 páginas restantes desse número apresentam outras pesquisas de ponta desenvolvidas nas mais distintas áreas – como saúde mental, da mulher e do trabalhador, Neuroaudiologia, Economia em Saúde, Genética, drogas, plantas medicinais e fármacos, História, Ciências Sociais, Pedagogia, sustentabilidade e Tecnologia.

Completamos a edição com uma entrevista com Esper Abrão Cavalheiro, atual pró-reitor de Planejamento da Unifesp e ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que teve como foco a criação de um centro de estudos avançados na Unifesp, em que o neurocientista critica o excesso de formalismo que os programas de pós-graduação impõem aos pesquisadores brasileiros. Elaboramos, também, o perfil de um dos mais consagrados cientistas brasileiros, Otto Gottlieb, possibilitado pelo trabalho minucioso de pesquisa que contou com o auxílio da futura jornalista Rosa Donnangelo.

Expediente

Editorial :: Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?

Carta da reitora :: Universidade pública assume o seu papel na crise hídrica

APG :: Corte orçamentário e o passo sem pé do governo federal

Entrevista • Esper Cavalheiro  :: Cientistas brasileiros precisam de mais ousadia

Perfil • Otto Richard Gottlieb :: “Ciência é tudo ou nada”

Especial • São Paulo (e o mundo) pede água :: Água é recurso cada vez mais escasso no mundo

Represa Guarapiranga :: Mudança de parâmetros

Represa Billings :: Opção questionável

Biorremediação :: Bactérias tratam água poluída por refinarias de petróleo

Aquíferos :: O poder do nosso solo

Entrevista • João Amorim :: Gotas que valem ouro

Vitamina D :: Um bem proveniente do sol

Saúde do trabalhador :: Síndrome metabólica é uma das principais causas de problemas cardíacos

Neuroaudiologia :: Enxaqueca pode comprometer audição

Economia em saúde :: Pesquisa avalia percepção sobre genéricos

Genética :: Estudo sugere subdiagnóstico da doença celíaca

Saúde da mulher :: Método pode ajudar no diagnóstico precoce da endometriose

Prevenção :: Visão precoce

Drogas  :: Prevenção é adotada por minoria das escolas na cidade de São Paulo

Saúde mental :: Realidade ignorada

Assistência  :: Tecnologia ajuda a decifrar sofrimento em bebês

Alimentação escolar  :: Não só o valor nutritivo determina a qualidade da refeição

Patrimônio histórico :: Antigas indústrias, novas perspectivas

Perspectivas  :: Ciências Sociais investigam o subimperialismo

Pedagogia  :: Criatividade e tecnologia transformam o ensino

Fármacos :: Pesquisa na Mata Atlântica abre perspectiva de novos medicamentos

Sustentabilidade :: Polímeros condutores à prova do tempo

Plantas medicinais :: Resposta à insulina pode aumentar com o Ginkgo biloba

Buckybombas :: Nanoexplosivos contra vírus e bactérias

Tecnologia :: Mais ordem no cais

Tecnologia :: Impressora 3D promete revolucionar mercado de próteses de mão


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Publicado em Entreteses
Terça, 02 Junho 2015 16:29

Visão precoce

Estudo desmistifica a ideia de que a ocorrência da miopia é erro refracional recorrente em indivíduos que nasceram prematuros

Da Redação
Com a colaboração de Rosa Donnangelo

Entreteses04 p062 visao precoce

A ideia de que crianças prematuras desenvolvem miopia, muito disseminada entre oftalmologistas, sempre instigou Rafael Lourenço Magdaleno, médico especialista na área e mestre em Ciências pelo programa de pós-graduação em Oftalmologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo.

Pesquisas realizadas por Magdaleno, no Ambulatório de Oftalmologia do Hospital São Paulo (Hospital Universitário da Unifesp), levaram à conclusão de que não há prevalência de miopia tendo como pressuposto a prematuridade da criança. O erro refracional em questão deve ser analisado sob diversas perspectivas, entre elas a associação com a herança genética e com outros defeitos na visão. 

A prematuridade e a Oftalmologia têm pontos correlacionados. O principal deles é a possibilidade, temida por parte dos médicos, de o bebê prematuro desenvolver a doença vascular da retina, chamada retinopatia da prematuridade (ROP). Sabe-se hoje que, embora exista tratamento disponível às crianças, há grandes chances de os pacientes já tratados apresentarem miopia ou outros problemas relacionados à visão. 

A ROP manifesta-se por estágios, sendo o pior deles o descolamento total da retina. Os riscos da ROP aumentam quando o bebê tem problemas cardiorrespiratórios e é exposto ao oxigênio continuamente. 

O principal objetivo do pesquisador foi analisar os erros refrativos por meio de exames oftalmológicos, entre eles, a retinoscopia. O segundo, não menos importante, foi testar duas drogas distintas usadas para provocar a cicloplegia – paralisia da pupila do globo ocular para identificação do grau de miopia e astigmatismo. Foram avaliadas 101 crianças, com idades entre um e 12 anos e idade gestacional menor que 37 semanas; nessa amostra sete apresentavam ROP, entre as quais duas já haviam sido tratadas. 

Um dos medicamentos utilizados, o ciclopentolato, quando utilizado em concentração superior a 1% em crianças prematuras, causa alguns efeitos colaterais. A outra droga, a tropicamida, mostrou-se menos eficaz no efeito de cicloplegia com a mesma dosagem. 

Entreteses04 p063 denise de freitas rafael lourenco

Denise de Freitas e Rafael Lourenço Magdaleno

“A primeira medida era avaliar se as drogas apresentavam efeitos diferentes ou não, desde que examinadas no seu melhor tempo de ação. O efeito de uma delas - a tropicamida – é mais fugaz, enquanto o da outra – o ciclopentolato – é mais prolongado, embora se inicie de maneira mais demorada. Com a primeira droga fomos obrigado a examinar as crianças em 20/30 minutos após a instilação da segunda gota da droga. Com a outra era necessário apenas uma gota, e nós examinávamos as crianças 40 minutos após a aplicação. A segunda tem melhor efeito cicloplégico e demanda menos tempo para que o exame seja realizado”, comenta Magdaleno. 

Miopia não é a grande vilã

Após a realização dos testes, concluiu-se que o erro de refração mais frequente na amostra não foi a miopia, como esperado e previsto na literatura médica. O astigmatismo hipermetrópico composto, no qual a imagem se forma em dois focos atrás da retina, sobressaiu sob o efeito do ciclopentolato no exame de retinoscopia, com percentagens de 39,6% para o olho direito e 37,6% para o olho esquerdo. No entanto, com a utilização da tropicamida, a hipermetropia (erro de focalização e formação da imagem atrás da retina) prevaleceu, obtendo-se percentagens de 40,6% para o olho direito e 42,6% para o olho esquerdo. 

Diante dos casos analisados de retinopatia da prematuridade, o pesquisador e sua orientadora – a professora adjunta Denise de Freitas, do Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da EPM/Unifesp – são otimistas. “Está declinando o número de pacientes que precisa de tratamento, ou seja, é um ganho relacionado ao melhor desempenho da UTI pediátrica. Isso é ótimo para a criança e faz com que ela tenha um desenvolvimento ocular mais próximo da normalidade. Tivemos um pequeno número de míopes, mas nunca semelhante àquele que é descrito na literatura de alguns anos atrás. A exposição correta da criança ao oxigênio é componente desse resultado”, afirma o pesquisador. 

Apesar das conclusões obtidas em relação às drogas utilizadas no exame de retinoscopia, verificou-se que a tropicamida e o ciclopentolato são em parte equivalentes e, para efeito de comparação, a diferença em dioptrias (unidade de medida de refração no sistema óptico) foi de 0,32 para o olho direito e 0,34 para o olho esquerdo. “Há coincidência parcial entre as substâncias, o que foi constatado na análise”, pontua Magdaleno.. 

Denise e Magdaleno concordam em que, na maior parte das vezes, há mais segurança ao utilizar a droga mais fraca, embora existam problemas devido ao tempo em que a droga age no sistema óptico. “Caso o médico não examine o paciente durante o período de melhor ação da droga, pode haver um erro de diagnóstico”, explica a orientadora. 

O tratamento para os erros de refração apontados não está fora do padrão convencional. “Compreende apenas o uso de óculos”, finaliza o pesquisador.

Entenda o que é a retinopatia da prematuridade 

Entreteses04 p063 bebe prematuro

Doença vasoproliferativa secundária, causada pela inadequada vascularização da retina imatura dos recém-nascidos prematuros, a retinopatia da prematuridade (ROP) pode levar à cegueira ou a graves sequelas visuais. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ROP é uma das principais causas de cegueira prevenível na infância, estimando-se que dois terços das 50 mil crianças cegas em todo o mundo vivam na América Latina. No Brasil, entre os recém-nascidos prematuros com menos de 1.500g ou menos de 32 semanas de vida, 25% poderão apresentar a ROP em qualquer estágio; para cerca de 10% destes há a possibilidade de ocorrer a forma severa da doença com necessidade de tratamento.

Artigo relacionado:
MAGDALENO, Rafael Lourenço. Análise refracional de crianças prematuras. 2014. 92 f.  Dissertação (Mestrado em Oftalmologia) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo.

 

Publicado em Edição 04

Sistema de turnos aumenta as chances de desenvolvimento da doença

Da Redação
Com colaboração de Lu Sudré

Entreteses04 p049 sindrome metabolica

Noites maldormidas, cansaço e alimentação inadequada, provocados pela rotina estressante do trabalho em turnos, são ocorrências comuns na vida de muitos profissionais que podem acarretar sérios problemas de saúde. Trata-se de um problema grave o suficiente para contribuir para o surgimento da síndrome metabólica (SM), que é um conjunto de alterações no organismo que desenvolve doenças.

De acordo com Évelin Moreno, professora de Educação Física e doutora com tese defendida no Departamento de Enfermagem da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) - no Campus São Paulo, a média de brasileiros diagnosticados com a síndrome chega a aproximadamente 30%. A linha de pesquisa da doutora está vinculada ao setor de Enfermagem, na área de Saúde do Trabalhador.

Em sua tese de doutorado, Évelin analisou a incidência da síndrome metabólica em trabalhadores de uma empresa automotiva que utiliza o sistema de turnos. “Estudos já demonstraram que aqueles que trabalham no período noturno estão condicionados ao diagnóstico positivo de síndrome metabólica, aumento de peso, maior estresse e redução da expectativa de vida. O diferencial dessa pesquisa foi encontrar a incidência de SM nos trabalhadores do turno da manhã”, esclarece a especialista. O sistema de turnos, utilizado por empresas brasileiras no setor de produção em diversas áreas, geralmente é dividido em três, sendo a primeira jornada das 6h às 14h, a segunda das 14h às 22h e a terceira das 22h às 6h.

O diagnóstico positivo da síndrome é associado ao aumento da ocorrência de diabetes e, principalmente, às doenças cardíacas que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), está em primeiro lugar entre as causas de mortalidade no mundo. Cinco fatores são utilizados para diagnosticar a síndrome metabólica: colesterol alto, pressão arterial diastólica acima do normal, assim como a pressão arterial sistólica, obesidade abdominal e o excesso de triglicerídeos no organismo.

Entreteses04 p050 pesquisadoras

Orientadora Milva Maria de Figueiredo (à esquerda) e pesquisadora Évelin Moreno (a direita), estudam aspectos da saúde dos trabalhadores

“A síndrome metabólica é confirmada quando a pessoa apresenta três alterações dessas cinco variáveis. A má alimentação, quando somada à qualidade de sono ruim, à redução de horas dormidas e ao sedentarismo, podem explicar a ocorrência de SM nos trabalhadores do primeiro turno (manhã)”, comenta Évelin.

Para a pesquisadora Milva Maria Figueiredo de Martino, orientadora da tese, o sistema de trabalho em turnos faz com que o indivíduo ganhe peso, outro agravante da doença. “O sono irregular provocado por esse sistema de trabalho propicia o aumento da ingestão alimentar. Ao acordar muito cedo ou dormir muito tarde, o metabolismo sofre alterações”, afirma Milva. A explicação para o aumento de peso é a relação do metabolismo com o sono, que influencia a produção e liberação dos hormônios grelina e leptina.

Além de administrar a quantidade de gasto energético do corpo, a leptina é o hormônio cuja principal função é controlar o apetite ao promover a redução do consumo de alimentos. A grelina, conhecida como o hormônio da fome, induz o apetite e o aumento da secreção do hormônio do crescimento (GH). Dessa forma, o déficit de sono altera a produção desses hormônios e o corpo passa a ter uma maior ingestão alimentar, prejudicando a saúde. A qualidade das refeições no ambiente de trabalho também influencia no processo.

Durante o estudo, cerca de 93 trabalhadores foram entrevistados e realizaram testes, dos quais 25 (aproximadamente 30%) foram positivos para síndrome metabólica. Foi aplicado um questionário relacionado à qualidade e prevalência de queixas relativas ao sono, outro abordando as características sociodemográficas e insônia, além da classificação do cronótipo dos trabalhadores – ritmo corporal segundo a disposição inata da pessoa, separando-as entre diurnas e noturnas. Os exames médicos e laboratoriais foram essenciais para avaliar os fatores da doença.

A pesquisa apresentou que a maior incidência da síndrome ocorreu nos trabalhadores do primeiro turno (das 6h – 14h), contrapondo o imaginário de que só aqueles que trabalham no período noturno desenvolvem problemas de saúde. “Não coincidentemente o primeiro turno foi o que apresentou mais falhas na produção. Eles dormiam mal, se alimentavam mal e não faziam exercícios físicos. Decorrente disso, há a insatisfação com o emprego e as falhas na produção”, assegura Evelin, complementando que para enfrentar as 6h tais trabalhadores precisavam sair de suas casas entre 3h30min e 4h, o que gerou a qualidade de sono ruim e resultou no desenvolvimento da síndrome. 

As medidas para enfrentar a síndrome metabólica são boa alimentação, exercício físico e sono restaurador. Por outro lado, os hábitos saudáveis são a melhor forma de prevenção, em conjunto com uma boa higiene de sono, ou seja, é indicado desligar a luz e evitar computadores, televisão e celulares antes de dormir, além de uma cama confortável. 

“O principal objetivo da pesquisa é recomendar que as empresas que trabalham em turnos adotem uma política de prevenção à síndrome metabólica. O descuido com a saúde do trabalhador também afeta à produção”, diz Évelin, que reafirma a necessidade de cuidado com os trabalhadores de todos os turnos. “Projetos que estimulem bons hábitos alimentares e a prática do exercício físico são essenciais”, finaliza a pesquisadora.

Entreteses04 p050 trabalhador sistema turnos

Trabalhador em sistemas de turnos em empresa automotiva

Diagnóstico para a síndrome metabólica

O critério internacional para diagnosticar a síndrome metabólica é a confirmação de três entre os cinco fatores abaixo:

• Circunferência abdominal maior que 102cm nos homens e maior que 88cm nas mulheres;

• Hiperglicemia (de jejum) maior ou igual a 110 mg/dL;

• Hipertensão arterial (pressão sistólica maior ou igual a 130 mmHg e/ou pressão diastólica maior ou igual a 85 mmHg);

• HDL-colesterol baixo (para homens; menor que 40md/dL e mulheres; menor 50mg/dL);

• Hipertrigliceridemia maior ou igual a 150 mg/dL).

Tese:
MORENO, Évelin. Prevalência da síndrome metabólica em trabalhadores nos diferentes turnos de trabalho. 2014. 92 f. Tese (Doutorado em Enfermagem) – Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2014.

Publicado em Edição 04
Terça, 02 Junho 2015 15:56

Expediente - edição 4

Expediente
A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.

ISSN 2525-538X (publicação online)
ISSN 2525-5401 (publicação impressa)

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Reitora: Soraya Soubhi Smaili

Vice-Reitora: Valéria Petri

Pró-Reitora de Administração: Isabel Cristina Kowal Olm Cunha

Pró-Reitora de Assuntos Estudantis: Andrea Rabinovici

Pró-Reitora de Extensão: Florianita Coelho Braga Campos

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Pró-Reitora de Graduação: Maria Angélica Pedra Minhoto

Pró-Reitora de Pós­-Graduação e Pesquisa: Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni

Pró-Reitor de Planejamento: Esper Abrão Cavalheiro

Jornalista responsável/Editor: José Arbex Jr. (MTB 14.779/SP)

Coordenação: Ana Cristina Cocolo

Reportagens: Ana Cristina Cocolo, Bianca Benfatti, Daniel Patini, Flávia Alves Kassinoff, Lu Sudré, Patrícia Zylberman, Rosa Donnangelo e Valquíria Carnaúba

Projeto gráfico e diagramação: Ana Carolina Fagundes de Oliveira Alves

Infográficos: Ana Carolina Fagundes de Oliveira Alves, Francisco F. Canzian e Reinaldo Gimenez

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Fotografias: Acervo Unifesp / Créditos indicados nas imagens

Tratamento de imagens: Reinaldo Gimenez

Conselho Editorial: Maria Lucia O. de Souza Formigoni, Débora Amado Scerni, Cristiane Reis Martins, João A. Alves Amorim, Sérgio B. Andreoli, Tania A. T. Gomes do Amaral, João Valdir Comasseto e Juliano Quintella Dantas Rodrigues

Conselho Científico desta edição: Augusto Cesar, Claudia M.da Penha Oller do Nascimento, Eliane Beraldi Ribeiro, Ieda M. Longo Maugéri, João M. de Barros Alexandrino, João Valdir Comasseto, Maria da Graça Naffah Mazzacoratti, Manuel Henrique Lente, Marcelo Silva de Carvalho, Maria Gaby Rivero de Gutiérrez, Plinio Junqueira Smith, Rosilda Mendes, Silvia Daher, Sergio Schenkman, Sergio Gama e Tereza da Silva Martins

Revista Entreteses n° 4 – Junho/2015
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Publicado em Edição 04

A presença aumentada de oito genes no colo uterino, detectada por um exame ginecológico simples, poderá – no futuro – ser uma ferramenta importante para evitar procedimentos diagnósticos invasivos

Ana Cristina Cocolo

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Cerca de 15% das mulheres brasileiras sofrem de endometriose e muitas sequer sabem disso. O diagnóstico, na maioria das vezes, acaba sendo tardio – em média sete anos após a instalação da doença – e pode inclusive comprometer o sonho de uma gestação. 

Uma pesquisa realizada no Setor de Endometriose e Algia Pélvica do Hospital São Paulo, hospital universitário da Universidade Federal de São Paulo, sinaliza a possibilidade de utilização de um exame ginecológico simples – semelhante ao Papanicolau – para o diagnóstico precoce da doença, sem a necessidade de iniciar a investigação com procedimentos mais invasivos como a videolaparoscopia. No entanto, mais investigações precisam ser realizadas para confirmar o poder do método.

Os pesquisadores, que são do Departamento de Ginecologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, consideraram no estudo 252 genes relacionados com a origem da endometriose, de acordo com a literatura médica. Desses, oito foram encontrados em quantidades elevadas no colo uterino de mulheres com o problema, quando comparadas às do grupo controle de mulheres saudáveis. “Esse é o primeiro estudo que documenta, por meio da análise gênica de material coletado do colo uterino, obtido em exame ginecológico simples, alterações em genes que estão envolvidos na origem e funcionamento da endometriose”, afirma Eduardo Schor, coordenador do setor e professor afiliado da EPM/Unifesp. “O método demonstrou ser uma promissora ferramenta não invasiva no diagnóstico da doença, ajudando a reduzir o tempo entre seu estabelecimento e o início do tratamento, já que diversos genes apresentaram expressão significativamente diferente entre os grupos estudados.”

De acordo com Alexander Kopelman, ginecologista e autor da pesquisa que foi tema de sua tese de doutorado na EPM/Unifesp, o método preenche pré-requisitos necessários para que seja incorporado à prática clínica, pois possui fácil coleta, é indolor e poderá ser utilizado com baixo custo por meio de sequências gênicas específicas, relacionadas aos genes identificados. “Além disso, ao contrário da análise do Papanicolau, que em até 8% dos casos exige interpretação de patologista experiente, a verificação da expressão gênica, por meio da tecnologia de reação de polimerase em cadeia (PCR), que é amplamente utilizada em diversos laboratórios de análises clínicas, o método possui protocolo de execução com menor dependência do operador e pode ser realizado em larga escala.” 

Marcadores 

Entre os genes com expressão elevada, três pertencem ao grupo de genes de citocinas (C3, CCL21 e CXCL14), moléculas de polipeptídeos ou glicoproteínas envolvidas na resposta do sistema imune do organismo. Os outros cinco genes analisados (CCNB1, CCNG1, CUL1, GTF2H1 e PCNA) estão relacionados ao controle do ciclo celular – conjunto de processos que ocorrem entre as divisões da célula viva. Alguns dos marcadores estudados foram encontrados em quantidade quase 14 vezes maior no colo uterino de mulheres com endometriose quando comparada à de pacientes sem a doença. 

Participaram da pesquisa dez pacientes que, havia pelo menos três meses, não faziam uso de medicações hormonais. Quatro sofriam de endometriose profunda – que atinge outros órgãos, como o intestino, e pode ser detectada por meio de exames de imagem –, e seis eram saudáveis. Como a maioria das mulheres com o diagnóstico mencionado foi inicialmente tratada com contraceptivos hormonais, as exigências para a inclusão no estudo dificultaram a obtenção de um número maior de pacientes com o perfil procurado.

Eduardo Schor explica que, nessa primeira fase, a amostragem reduzida impediu uma avaliação mais detalhada da capacidade de diagnóstico do método. “Existem ainda outras etapas a serem cumpridas para a validação do procedimento até que este possa ser incorporado na rotina clínica”, afirma. “Como utilizamos apenas mulheres com endometriose profunda, devido à possibilidade de diagnóstico prévio por meio de ressonância magnética, futuros estudos com pacientes em todas as fases da doença serão necessários para que o principal objetivo, ou seja, o diagnóstico precoce com marcadores não invasivos se estabeleça.”

Cólicas menstruais devem ser investigadas

Estudos mundiais mostram que o tempo médio para diagnóstico da endometriose é de sete anos, deixando clara a necessidade de métodos que facilitem a identificação precoce do problema. O principal sintoma é a cólica menstrual severa, que tende a se intensificar com o tempo, levando ao absenteísmo frequente e ao uso contínuo de medicações analgésicas. Outros sintomas comuns são a infertilidade e dores durante as relações sexuais.

A doença surge quando células do endométrio (camada que reveste o útero internamente) implantam-se dentro da cavidade pélvica, na região próxima aos ovários. Quanto mais cedo é realizado o seu diagnóstico, menor o risco de lesões profundas, as quais aumentam significantemente as taxas de infertilidade.

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A forma leve dessa afecção pode ser tratada, na maioria das vezes, com medicações hormonais (pílulas anticoncepcionais). Já a forma avançada deve ser tratada por meio de cirurgia – geralmente de grande porte – com a possibilidade de ressecção de parte do intestino, bexiga e ovários.

Eduardo Schor afirma que, por problemas culturais, grande parte das mulheres, e infelizmente dos médicos também, acredita que a cólica menstrual faz parte do universo feminino. “Não é normal a mulher, ou até mesmo a adolescente, sofrer durante o período menstrual”, diz. “Se a cólica é forte, impede ou dificulta as atividades habituais e não melhora com as medicações analgésicas ou anti-inflamatórias, deve-se pensar em endometriose.”

De acordo com ele, por vezes o diagnóstico só pode ser feito por meio da videolaparoscopia. “Os métodos de imagem, como a ultrassonografia transvaginal e a ressonância magnética, também são utilizados, mas eles diagnosticam a doença em fases um pouco mais avançadas, quando o exame ginecológico já é capaz de detectá-la.”

entreteses 04 2015  Sumário da edição 04

Publicado em Edição 04

Produtos da agricultura familiar proporcionam maior variedade ao alimento oferecido em escolas dos municípios dos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo

Da Redação
Com a colaboração de Patricia Zylberman

Entreteses04 p077 valor nutricao

O cardápio da alimentação escolar dos municípios brasileiros poderá melhorar significativamente com a implementação da Lei Federal n.º 11.947, de 16 de junho de 2009, que estabelece o emprego de 30% dos recursos financeiros repassados pelo governo federal para a compra direta de alimentos produzidos pela agricultura familiar. O problema é que a variedade oferecida ainda pode ser considerada pequena, o que prejudica a composição nutricional das refeições. Na prática, ainda é preciso incentivar a introdução de produtos que respeitem os hábitos alimentares locais e que sejam preferencialmente de origem orgânica ou agroecológica. Em tais quesitos diversos municípios dos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo ainda deixam a desejar, conforme mostra um estudo feito por Hélida Ventura Barbosa Gonçalves, nutricionista com mestrado em Ciências da Saúde (área interdisciplinar) pelo Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista.

Hélida sempre se interessou pelo tema da alimentação escolar, tendo atuado como agente do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) no Centro Colaborador em Alimentação e Nutrição Escolar (Cecane) da Unifesp, localizado no Campus Baixada Santista. Com a promulgação da Lei n.º 11.947/09, decidiu focar seu trabalho de mestrado nesse assunto. Sob a orientação de Veridiana Vera de Rosso e a coorientação de Elke Stedefeldt, docentes que estão respectivamente vinculadas ao Departamento de Biociências e ao Departamento de Gestão e Cuidados em Saúde, desenvolveu a dissertação denominada Da Agricultura Familiar à Alimentação Escolar: Avaliação da Qualidade dos Cardápios e do Potencial Bioativo de Frutas, Verduras e Legumes, que analisa os benefícios da produção familiar na composição do cardápio de escolas públicas de ensino básico.

Para a realização desse projeto, Hélida escolheu os Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, pois ambos constituem a área de abrangência do Cecane - Unifesp. Segundo o coordenador de gestão dessa unidade, professor Daniel Henrique Bandoni, também pertencente ao Instituto Saúde e Sociedade, o intuito dos Cecanes – que resultam de parceria entre instituições federais de ensino superior e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) – é “assessorar municípios, acompanhar a implementação das compras da agricultura familiar, realizar oficinas e seminários com todos os atores envolvidos na alimentação escolar (merendeiras, nutricionistas e gestores municipais) e melhorar as boas práticas de manipulação dos alimentos, entre outras atividades”.

Baixa adesão

A primeira parte do projeto previa a obtenção de dados referentes à compra de alimentos da agricultura familiar pelos municípios selecionados e, para tanto, a autora enviou questionários com perguntas que incluíam a forma de aquisição, a composição dos cardápios e a qualidade higiênico-sanitária dos produtos. Outra questão objetivava quantificar os municípios que adquiriam no mínimo 30% dos itens por meio da produção familiar. Para surpresa das pesquisadoras, esse número estava abaixo do esperado, contrapondo-se à hipótese inicial de que a lei era seguida à risca pela grande maioria das administrações municipais.

Hélida também buscou determinar quais eram os motivos para a baixa adesão ao programa. Inicialmente concluiu que a principal limitação à implementação dessa política em cada município era o desinteresse dos próprios agricultores familiares, uma vez que, para atender à demanda local, tinham – não raro – de alterar seu plantio habitual. Como no passado muitos haviam sofrido prejuízo financeiro, por problemas causados pela má gestão municipal, os produtores – agora – encaravam a nova lei com ceticismo. A segunda razão para o baixo índice de adesão decorria da impossibilidade de atendimento das condições higiênico-sanitárias, levando-se em conta as características exigidas pela legislação federal para comercialização de alimentos. A terceira e última razão era a mudança de governo. Se, por exemplo, o governo atual exigisse a compra de itens de estabelecimentos familiares e a administração seguinte, ao assumir o poder, decidisse que seria inviável essa transação, os agricultores acabariam perdendo toda sua produção.

Mais frutas e verduras no cardápio

Entreteses04 p078 professores

Foto à esquerda: professor Daniel Henrique Bandoni
Foto à direita: coorientadora Elke Stedefeldt, pesquisadora Hélida Ventura Barbosa e orientadora Veridiana Vera de Rosso (da esquerda para a direita)

A segunda parte da pesquisa consistiu na análise dos compostos bioativos existentes nos alimentos adquiridos pelos municípios para a alimentação escolar. De acordo com Veridiana, esses compostos “são componentes presentes nos alimentos, que – diferentemente dos macronutrientes, como proteínas, lipídios e carboidratos – aparecem em menor concentração, principalmente em alimentos de origem vegetal, e apresentam ações bioativas no organismo humano”. Sua principal atuação incide sobre a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis. Era, portanto, necessário que as nutricionistas responsáveis pela alimentação escolar nos municípios encaminhassem à pesquisadora amostras de produtos locais.

A análise desses produtos, efetuada nos laboratórios da Unifesp, detectou os teores de carotenoides, de ácido ascórbico – que é uma forma ativa da vitamina C – e de compostos fenólicos totais, além da atividade antioxidante relacionada à presença dos compostos bioativos. A principal forma de atuação desses compostos está, justamente, na atividade antioxidante: quanto maior for o seu valor, maior será o potencial benéfico do alimento para a saúde. “Os compostos bioativos têm a capacidade de desativar os radicais livres, principalmente os radicais peroxila, que são deletérios ao organismo. Quanto maior a frequência no consumo de alimentos ricos em compostos bioativos, maior o efeito ante esses radicais e a prevenção de doenças crônicas”, acrescenta Veridiana.

Para determinar o teor de compostos bioativos e a atividade antioxidante, Hélida empregou diversos métodos, na maioria baseados na desativação dos radicais ABTS e peroxila ORAC. Tais métodos tentam simular reações químicas que ocorrem no organismo humano em condições controladas de pH e temperatura.

Os resultados da avaliação relativa à variedade e ao potencial bioativo dos alimentos originários da agricultura familiar demonstraram que, embora as frutas, legumes e verduras estivessem presentes com mais frequência nos cardápios escolares após a edição da Lei n.º 11.947/09, o valor bioativo da maioria desses alimentos era pequeno. Isso decorreu da pouca variedade de espécies adquiridas, e não propriamente da forma de cultivo – convencional ou adaptada às técnicas agroecológicas. Deve-se, contudo, levar em conta que os produtos oriundos da agricultura familiar eram mais saudáveis. “Uma abordagem que usamos para essa conclusão é que, normalmente, o alimento da agricultura familiar não é processado; então, teoricamente, há nele uma conservação maior dos compostos bioativos do que, por exemplo, naquele que é processado pela indústria”, afirma Veridiana. 

“Se você consome um produto proveniente da agricultura familiar de seu município, que é, portanto, colhido em uma região próxima, a expectativa é que o alimento esteja no auge de seu potencial de nutrientes e de compostos”, afirma a coorientadora Elke.

A tríade de pesquisadoras acredita que é preciso ainda aprimorar o cardápio escolar de cada município. Os profissionais de nutrição responsáveis por essa área deveriam entrar em acordo com os agricultores familiares para conhecer o que é produzido em cada região e o que poderia ser aproveitado na alimentação escolar diária. Desse modo, seria possível planejar o cultivo de produtos, com o objetivo de melhorar a qualidade nutricional em termos de compostos bioativos. Na visão de Hélida, um prato perfeito consistiria de cereais, como feijão e arroz, uma fonte de proteínas (carnes e leite), hortaliças e verduras, podendo optar-se por cenouras ou abóboras, pois ambas são fonte de carotenoides (o que contribui para o valor da pró-vitamina A).

Elke acredita ser importante que as crianças aprendam sobre as propriedades dos diferentes alimentos, habituando-as à variedade existente. Desse modo, os alimentos provenientes do plantio familiar poderiam ser incorporados totalmente às refeições escolares. “Nós vislumbramos que, após o primeiro passo – que é a compra desses produtos e, com isso, o aumento da quantidade de frutas e hortaliças no cardápio das escolas –, cabe às autoridades dedicar maior atenção à educação alimentar e nutricional das crianças para que elas também aceitem a variedade”, finaliza a professora.

Artigo relacionado:
BANDONI, Daniel Henrique; STEDEFELDT, Elke; AMORIM, Ana Laura Benevenuto; GONÇALVES, Hélida Ventura Barbosa; DE ROSSO, Veridiana Vera. Desafios da regulação sanitária para a segurança dos alimentos adquiridos da agricultura familiar para o PNAE. Vigilância Sanitária em Debate: Sociedade, Ciência & Tecnologia, Rio de Janeiro, v. 2, n. 4, p. 107-114, 2014. Disponível em: <https://visaemdebate.incqs.fiocruz.br/index.php/visaemdebate/article/view/473/172>. Acesso em: 30 abr. 2015.

Publicado em Edição 04
Terça, 02 Junho 2015 15:26

Um bem proveniente do sol

Estudo avalia a prevalência de hipovitaminose D em pacientes com osteoporose em tratamento ambulatorial

Da Redação
Com a colaboração de Patricia Zylberman

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A diminuição da exposição das pessoas aos raios de sol pode causar deficiência da vitamina D, com prejuízo à saúde e, consequentemente, ao bem-estar. A principal fonte de vitamina D para os seres humanos é a própria pele, onde ocorre a primeira reação química para a produção desse nutriente, sob a ação dos raios ultravioleta, emitidos pelo sol. Com o aumento das pesquisas sobre a vitamina D, principalmente na última década, foi confirmada sua importância para a manutenção da saúde óssea da população, bem como para o tratamento da osteoporose. A hipovitaminose D e a osteoporose são prevalentes em idosos – para os quais a capacidade de produção cutânea desse tipo de vitamina pode estar reduzida. Verificar o status de vitamina D nesses pacientes é importante para a otimização do tratamento da osteoporose.

Buscando ampliar o conhecimento sobre essa questão, a endocrinologista Marília Brasilio Rodrigues Camargo desenvolveu a tese de doutorado Fatores Determinantes do Status de Vitamina D em Pacientes de um Ambulatório Especializado em Osteoporose e sua Interferência sobre a Absorção Intestinal de Cálcio. O trabalho, orientado por Marise Lazaretti Castro, professora adjunta de Endocrinologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, teve como foco os pacientes do ambulatório de osteoporose, que é vinculado à mencionada instituição de ensino. 

A pesquisa foi motivada por necessidades sentidas na prática clínica, conforme explica Marília: “Na ocasião do estudo, não tínhamos disponível a dosagem de vitamina D no sangue. Por essa razão, fazíamos uma avaliação clínica por meio de exames que nos davam alguma ideia sobre a adequação ou não das quantidades do nutriente identificadas em nossos pacientes.” Para reduzir o risco de fraturas osteoporóticas e melhorar a saúde óssea, é necessário que os pacientes com osteoporose apresentem uma concentração entre 30 e 40 ng/mL [nanogramas por mililitro] de vitamina D (25-hidroxivitamina D) no sangue. Esses valores são aceitos pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia como “os valores ideais almejados de vitamina D”, que parecem ser alcançados – segundo a pesquisadora – com a administração de doses diárias de 1.000 a 2.000 unidades de colecalciferol (vitamina D3). No Brasil, infelizmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) não disponibiliza gratuitamente esse produto farmacêutico aos pacientes.

Metodologia

Entreteses04 p046 pesquisadora

A pesquisadora Marília Brasilio Rodrigues Camargo junto à máquina usada para efetuar a densitometria óssea, instalada no ambulatório de osteoporose da Unifesp

Participaram da pesquisa 363 voluntários (homens e mulheres), atendidos no Ambulatório de Doenças Osteometabólicas da disciplina de Endocrinologia da EPM. Na primeira fase, foram realizados exames para determinar os pacientes que mantinham níveis adequados de vitamina D e os que apresentavam deficiência desse nutriente. Os componentes da amostra foram também submetidos a exame de densitometria óssea e responderam a questionários para a avaliação de hábitos alimentares e de vida, tipos de pele, grau de exposição solar, existência de doenças concomitantes, uso de suplementação oral de vitamina D (colecalciferol) e capacidade funcional. A densitometria óssea é um exame seguro e não invasivo que permite medir a densidade mineral óssea em regiões específicas do corpo, como fêmur, coluna lombar e antebraço. Utiliza a técnica conhecida por DXA ou absorciometria por emissão dupla de raios X, constituindo o melhor recurso disponível para diagnosticar a osteoporose, mediante o emprego de fonte de raios X. 

Na segunda fase da pesquisa, buscou-se avaliar a influência do status de vitamina D na absorção intestinal de cálcio. Em razão da dificuldade do experimento e de seu alto custo, apenas um grupo de mulheres, cujo histórico médico atendia a determinadas condições, foi convidado a participar dele. Assim, para o atendimento das condições previstas, as mulheres não deveriam apresentar distúrbios como hipercalcemia, calculose renal, diarreia crônica, doenças hepáticas crônicas, doenças gastrointestinais e insuficiência renal crônica. Além disso, não poderiam fazer uso de corticosteroides e anticonvulsivantes.

Inicialmente as voluntárias foram divididas em dois subgrupos – um com deficiência e outro com suficiência de vitamina D. O método escolhido para a avaliação do cálcio absorvido pelo intestino foi o teste de sobrecarga oral de estrôncio, que verifica essa absorção de forma indireta e utiliza o estrôncio como marcador substituto do cálcio. O procedimento inicia-se com a coleta de amostra de sangue das pacientes em jejum. Administra-se, então, por via oral, uma pequena quantidade de estrôncio (dose padronizada) a cada uma delas. Seguem-se novas coletas de amostras de sangue aos 30, 60, 120 e 240 minutos após a administração da dose oral mencionada. Posteriormente, mensuram-se as concentrações de estrôncio nas amostras coletadas e calcula-se a quantidade desse elemento que foi absorvida pelas pacientes. 

Admitia-se a hipótese de que as pacientes com deficiência de vitamina D, ou seja, com concentrações de 25-hidroxivitamina D no sangue menores ou iguais a 20 ng/mL, apresentariam menor absorção intestinal de cálcio. Após a conclusão dos estudos, a hipótese inicial de Marília foi refutada, não sendo observadas diferenças entre os dois subgrupos de pacientes (deficientes e suficientes em vitamina D). Esses resultados sugerem que as concentrações de 25-hidroxivitamina D no sangue não refletem necessariamente a quantidade de cálcio que é absorvida no intestino. O metabólito – ou seja, o produto do metabolismo – ativo da vitamina D (1,25-di-hidroxivitamina) é apontado como o regulador/facilitador da absorção de cálcio através da mucosa intestinal. No estudo desenvolvido por Marília, todas as pacientes apresentaram concentrações normais de 1,25-di-hidroxivitamina D no sangue. “Esta pode ter sido uma das razões para a falta de diferenciação entre os dois subgrupos com relação à absorção intestinal de cálcio. Talvez o fato de não termos muitas pacientes com 25-hidroxivitamina D abaixo de 10 ng/mL e que apresentavam concentrações normais de 1,25-di-hidroxivitamina D, fez com que não conseguíssemos encontrar diferenças na população estudada. Outro fato, que deve ser mencionado, é que as pessoas incluídas no estudo estavam sob acompanhamento médico especializado no tratamento da osteoporose e recebiam orientações dietéticas para manter um consumo adequado de cálcio. Isto também pode ter influenciado os resultados da pesquisa.”

Entreteses04 p047 sol bicicleta

Para garantir o benefício dos raios solares na produção da vitamina D pelo organismo, a exposição da pele deve ocorrer diariamente, por um período variável entre 15 e 30 minutos, em horário anterior às 10h ou posterior às 16h

Vitamina D: nutriente milagroso?

Pesquisas realizadas na maioria dos países industrialmente desenvolvidos detectaram um grande aumento no número de pessoas com deficiência em vitamina D. Os Estados Unidos, por exemplo, comprovaram – por meio de um estudo com 3.000 voluntários – que 90% desses indivíduos apresentavam taxas insuficientes desse nutriente no organismo.

O aumento das pesquisas sobre os benefícios da vitamina D no combate a diferentes doenças, por vezes graves, tem contribuído para que especialistas a chamem de “nutriente milagroso”. Um estudo recente realizado por cientistas da Universidade da Califórnia e da Escola Médica da Universidade Creighton revelou que há uma relação entre a dosagem de vitamina D nos níveis sanguíneos circulantes e a prevenção de doenças. No entanto, há muita controvérsia na literatura médica sobre esse tema.

Apesar de não haver ainda comprovação científica sobre os benefícios da suplementação de vitamina D no organismo, muitos especialistas avaliam que, para a prevenção de doenças como o câncer, o diabetes tipo 1 e a esclerose múltipla, é recomendável que um adulto ingira concetrações bem maiores dessa vitamina do que a dosagem de 400 a 800 unidades/dia preconizadas . No entanto, o excesso de suplementação sem orientação médica pode provocar a calcificação de vários tecidos, sendo o rim o órgão mais afetado.

Artigos relacionados:

CAMARGO, Marília Brasilio Rodrigues; KUNII, Ilda Sizue; HAYASHI, Lilian Fukusima; MUSZKAT, Patrícia; ANELLI, Catherine Gusman; MARIN-MIO, Rosângela Villa; MARTINI, Lígia Araújo; FRANÇA, Natasha; LAZARETTI-CASTRO, Marise. Modifiable factors of vitamin D status among a Brazilian osteoporotic population attended a public outpatient clinic. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, São Paulo, v. 58, n. 5, p. 572-582, 2014. Disponível em: <dx.doi.org/10.1590/0004-2730000003393>. Acesso em: 26 mar. 2015.

CAMARGO, Marília Brasilio Rodrigues; VILAÇA, Tatiane; HAYASHI, Lilian Fukusima; ROCHA, Olguita G. Ferreira; LAZARETTI-CASTRO, Marise. 25-Hydroxyvitamin D level does not reflect intestinal calcium absorption: an assay using strontium as a surrogate marker. Journal of Bone and Mineral Metabolism, [s.l.], 24 maio 2014. Publicação on-line. Disponível em: <dx.doi.org/10.1007/s00774-014-0592-8>. Acesso em: 26 mar. 2015.

VILAÇA, Tatiane; CAMARGO, Marília Brasilio Rodrigues; ROCHA, Olguita G. Ferreira; LAZARETTI-CASTRO, Marise. Vitamin D supplementation and strontium ranelate absorption in postmenopausal women with low bone mass. European Journal of Endocrinology, [s.l.], v. 170, n. 4, p. 469-475, abr. 2014. Disponível em: <dx.doi.org/10.1530/EJE-13-0899>. Acesso em: 26 mar. 2015.

Publicado em Edição 04
Terça, 02 Junho 2015 15:23

Mais ordem no cais

Sistema computacional integrado desfaz o gargalo gerado no desembarque de carvão mineral no país, reduz custos e causa menor impacto ao meio ambiente

Ana Cristina Cocolo

Entreteses04 p104 mais ordem cais

Terminal da Praia Mole - Porto de Tubarão, Vitória (ES)

Organizar a ordem de atracagem dos navios, de descarregamento e de saída de um dos portos mais importantes do país e que recebe a maior carga de carvão mineral vinda dos EUA e China para abastecer as siderúrgicas brasileiras, não é tarefa fácil. Ainda mais quando toda essa estratégia é traçada à mão e com base nos anos de experiência.

Para facilitar e otimizar esse processo no porto de Tubarão, em Vitória, no Espírito Santo, pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) – Campus São José dos Campos – e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um sistema computacional capaz de fornecer dados para uma logística integrada, diminuindo o tempo de descarga dos navios, o custo energético e o impacto ambiental, já que se utiliza menos combustível e, consequentemente, a poluição é menor.

“O projeto é apenas uma amostra da contribuição que a universidade pode dar à sociedade para melhorar a competitividade e o comércio exterior do país”, afirma Luiz Leduíno de Salles Neto, diretor acadêmico do ICT-Unifesp, que coordena o projeto. De acordo com ele, com a modelagem matemática e a pesquisa operacional é possível melhorar a infraestrutura já existente nos portos brasileiros, principalmente em um momento de crise de energia e de água, como esta pela qual estamos atualmente passando no Brasil.

O projeto, que foi financiado pela empresa Vale e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite), gerou uma dissertação de mestrado e a concessão de uma patente, esclarecendo-se, neste caso, que 25% da propriedade intelectual pertence à Unifesp, outros 25% à Unicamp e a metade restante (50%) à empresa financiadora.  O Pite permite o estreitamento das relações entre as universidades e institutos de pesquisa brasileiros e empresas (nacionais e estrangeiras) para a realização de projetos de pesquisa cooperativos e cofinanciados.

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Vista dos descarregadores de navios e do pátio de estocagem de carvão mineral no terminal de Praia Mole

Menos tempo, menos multas

Salles Neto explica que o sistema é capaz de agilizar todo o processo e pode ser aplicado em qualquer porto ou terminal que opere com navios graneleiros, principalmente em situações de “gargalo”, como acontece nesses locais.

Entreteses04 p106 logistica integrada

O sistema é classificado como integrado porque organiza não somente a sequência dos navios que irão atracar, mas também em qual berço (setor do porto onde encostam e são amarradas as embarcações) cada um deles ficará, especificando quais e quantas máquinas descarregadoras (guindastes) serão utilizadas para cada navio, em quais esteiras o carvão será depositado para ser levado aos pátios de armazenamento e, finalmente, o tempo total de todo o processo e o horário de saída das embarcações do cais. “O desenvolvimento de uma logística integrada para o porto de Tubarão é totalmente estratégico, já que o país não possui reservas de carvão mineral – o segundo combustível fóssil mais utilizado na matriz energética mundial – e 70% do produto que abastece as siderúrgicas brasileiras entra por esse terminal”, explica o coordenador do projeto.

O benefício do processo em questão recai, segundo ele, principalmente sobre o custo para a empresa, já que os equipamentos são utilizados por menos tempo e o número de multas geradas pelo atraso no descarregamento diminui consideravelmente. “No caso do porto de Tubarão, como a Vale já possui uma programação mensal de navios que atracarão e suas respectivas cargas, o sistema calcula toda a operação com bastante antecedência.”

O próximo passo é aplicar a nova tecnologia no terminal de cargas gerais da Vale, no porto de Praia Mole, também no Espírito Santo, por onde se exportam grãos, principalmente de soja, e fertilizantes.

Dos pátios para o trem

Entreteses04 p106 luiz leduino

Luiz Leduíno de Salles Neto, coordenador do projeto

Ainda de acordo com o docente responsável, a carga armazenada nos pátios, que seguirá para as siderúrgicas por caminhão ou trem, é outro problema sério que precisa ser resolvido. Com esse propósito, as pesquisas avançaram e um novo programa, que prevê, inclusive, um gasto menor de energia na operação, está sendo desenvolvido para ser incorporado ao sistema já patenteado. No entanto, a previsão é que o software esteja disponível para comercialização daqui a dois anos, quando a patente provavelmente estará liberada.

Outros sistemas de logística integrada, desta vez para navios que transportam contêineres, estão em estudo pela equipe de Salles Neto. “O setor portuário brasileiro é responsável por 95% do volume de nosso comércio exterior”, afirma. “Se mantida a taxa de crescimento dos últimos anos, os portos brasileiros terão que aumentar sua capacidade de atendimento em cerca de 40% até 2017, ou seja, o equivalente a um porto de Santos a cada três anos”.

Patente:
INSTITUTO NACIONAL DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL. Luiz Leduíno de Salles Neto, Bruno L. Honigmann Cereser, Antonio Carlos Moretti. Sistema para otimizar a relação entre custos de carregamento de navios e transporte de cargas em navios atracados. BR1020140157492, 25 jun. 2014.

Publicado em Edição 04