Centro Regional de Formação em Políticas sobre Drogas e Direitos Humanos qualifica agentes sociais e de saúde para o apoio a pessoas com problemas relacionados a drogas

Texto: Valquíria Carnaúba

Visando à inovação social, o Centro Regional de Formação em Políticas sobre Drogas e Direitos Humanos (CRF) desenvolve um programa de extensão que surge em 2017 na Baixada Santista, a partir da iniciativa do Grupo de Pesquisa e Extensão DiV3rso, composto por docentes, estudantes e membros da comunidade do entorno do Campus Baixada Santista. O programa nasce da necessidade de promover a qualificação – na área de política sobre drogas e direitos humanos – de lideranças comunitárias, trabalhadores e usuários de serviços públicos, em conjunto com a formação de alunos de graduação e pós-graduação. 

O foco do CRF consiste, primariamente, no fomento à transformação da vida dos indivíduos que revelam uso problemático de drogas, sob a perspectiva dos direitos humanos, ao mesmo tempo em que se propicia a experiência acadêmica dos estudantes envolvidos. A articulação ocorre entre a universidade, agentes de políticas públicas de saúde, assistência social, educação, cultura, segurança pública e trabalho e agentes do sistema de garantias de direitos dos municípios que compõem a Baixada Santista (Bertioga, Cubatão, Guarujá, Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande, Santos e São Vicente).

De acordo com Luciana Togni de Lima e Silva Surjus, coordenadora do programa e docente do Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista, diversos fatores justificam a implantação do CRF na região metropolitana da Baixada Santista, como a magnitude e a complexidade da questão das drogas nesse perímetro, relacionadas especialmente às populações em situação de alta vulnerabilidade, e a necessidade de articulação territorial da rede de serviços. “Era fundamental, ainda, qualificar as intervenções profissionais e ampliar o acesso dos usuários dos serviços à universidade e a espaços formativos”, complementa Surjus. 

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O centro de formação frequentemente articula-se a grupos de trabalho para discutir temas correlatos à prevenção e ao tratamento de problemas com drogas. Elaborados em 2018, os projetos sobre atualização em redução de danos e sobre inclusão social pelo trabalho resultaram da articulação entre a Unifesp, a FapUnifesp e a Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Ambos visaram contribuir com a  formulação de um plano integrado de redução de danos na região

Produção de conhecimento e aproximação

Algumas das transformações diretas na universidade, decorrentes da atuação do CRF, referem-se à integração de conteúdos e disciplinas em eixos e módulos interdisciplinares, à adoção de metodologias críticas e inventivas para o ensino e à inserção de novas tecnologias de informação e comunicação. Esses fatores exigem do estudante uma postura ativa na construção, disseminação e socialização do conhecimento. “Há uma conexão possível com o módulo de Terapia Ocupacional em Saúde Mental, além da possibilidade de constituir-se como campo de pesquisa para os trabalhos de conclusão de curso e projetos de iniciação científica”, explica a docente.

O programa de extensão promove, por um lado, o fortalecimento da permanência estudantil na universidade e a ampliação do acesso à educação para a comunidade externa. Por outro, o CRF busca, na prática, aproximar cada vez mais a população da Baixada Santista do universo acadêmico, diminuindo a vulnerabilidade social e econômica e fomentando a cultura dos direitos humanos. 

Para a concretização desses objetivos, foram inicialmente propostos dois projetos sob o guarda-chuva do programa principal, que contaram com financiamento advindo de um convênio tripartite entre a Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), a Unifesp e a Fundação de Apoio à Unifesp (FapUnifesp): o curso de Atualização em Redução de Danos e o projeto denominado Apoio e Fomento a Experiências em Inclusão Social pelo Trabalho. De acordo com Surjus, o intuito foi maximizar a potencialidade e a efetividade das intervenções de cuidado, ou seja, produzir efeitos positivos sobre toda a rede de serviços para que esta amplie sua capacidade de acolher as demandas, funcionando de modo mais articulado e apresentando respostas adequadas, criativas, efetivas e eficazes. 

“Acerca do potencial de inovação do programa principal, podemos identificar a contratação formal de pessoas da comunidade com histórico de uso de drogas e em situação de vulnerabilidade, que promoveram um espaço de legitimação de sua experiência enquanto saber fundamental, para avançar na construção de respostas que atendessem às suas reais necessidades. O trabalho aqui realizado ganha um lugar central no processo de inclusão. A metodologia provocou ainda a horizontalidade do processo de construção de conhecimento, colocando lado a lado diferentes atores e apostando nas trocas e na diversidade como estratégias para a transformação social de todos os envolvidos. Estes passaram a conviver em um espaço comum, produzindo mundos possíveis, que incidiram sobre as barreiras da desigualdade que nos distanciam”, finaliza a coordenadora.

 

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Terça, 28 Janeiro 2020 15:32

Saúde à beira-mar

Programa em Santos incentiva a prática de exercícios físicos regulares para o controle do diabetes e hipertensão e para a melhoria da qualidade de vida

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Texto: Daniel Patini

Lentamente, chega o fim da tarde no emissário submarino de Santos (SP). Conforme o sol se põe, um grupo começa a se formar, aos poucos, perto da orla da praia. Desde 2010, essa é a rotina do programa Quiosque da Saúde, que realiza, três vezes por semana, atividades gratuitas, voltadas para adultos e idosos com hipertensão e diabetes. As sessões de exercícios físicos, com duração de uma hora, têm a supervisão de docentes e alunos do curso de Educação Física do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista.

O programa propicia aos participantes um conjunto de ações que favorece a incorporação de um estilo de vida fisicamente ativo e que contribui para o controle da pressão arterial e da glicemia. É desenvolvido em parceria com a Secretaria Municipal de Esportes da Prefeitura de Santos, que cede um espaço para a guarda dos materiais utilizados nas atividades.

Durante esses encontros, são realizados exercícios aeróbios, que estimulam o sistema cardiovascular, e exercícios resistidos, que utilizam halteres, elásticos e o próprio peso do corpo. A glicemia e pressão arterial são mensuradas periodicamente como forma de orientar as estratégias de intervenção. Além disso, são efetuadas avaliações antropométricas, juntamente com testes de flexibilidade, de força e de resistência muscular.

“Apesar de ser um trabalho direcionado a diabéticos e hipertensos, o Quiosque da Saúde também aceita pessoas com fatores de risco ou com histórico de doenças na família. Dessa forma, acaba funcionando como ação preventiva”, explica o professor Ricardo José Gomes, que desde 2011 coordena o programa, implantado pelo professor Sionaldo Eduardo Ferreira, hoje na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).

Beneficiários

Até o momento, foram atendidas pelo Quiosque da Saúde aproximadamente 500 pessoas. Os candidatos que desejam ingressar no programa – que oferece um número restrito de vagas – devem efetuar a inscrição no início de cada ano. O fluxo de interessados é contínuo, mas há aqueles que permanecem no grupo por vários anos. Uma das frequentadoras mais antigas é Lucila Mendes Gonçalves, 63 anos, moradora de Santos, que acompanha as sessões desde 2011.

Hipertensa, ela explica que as atividades propostas ajudam a controlar a pressão alta e faz elogios à iniciativa. “O trabalho realizado aqui é excelente”, atesta. “Pretendo continuar enquanto esse serviço for oferecido ou até quando eu não puder mais vir.” Relata, ainda, que o programa cumpre outra função: “Além de nos exercitarmos, fazemos novas amizades, que são mantidas mesmo fora daqui”.

Novata no grupo deste ano, Isabel Bezerra Salgado, 66 anos, também hipertensa, descobriu o trabalho pela internet. Moradora do bairro do Boqueirão, em Santos, ela já foi auxiliar de enfermagem do Hospital São Paulo, que é o hospital universitário da Unifesp, e se diz apaixonada pela instituição. “Quando surgiu a oportunidade, não pensei duas vezes”, comenta rindo.

Por conta de um atropelamento, Isabel realizou cirurgia nos tendões do manguito rotador, localizados no ombro. Passou por sessões de fisioterapia e, com os exercícios adicionais, já sentiu os efeitos positivos. “Como profissional da saúde, eu me preocupo em cuidar de mim mesma. Enquanto houver esse trabalho, eu virei”, afirma.

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(Fotografia: Alex Reipert)

Aprendizagem na prática

Atualmente, o professor Gomes conta com o apoio de dois estudantes do curso de Educação Física, que atuam como extensionistas do programa. Um deles é Renan Santos Silva Oliveira, que ingressou na Unifesp em 2017. Para ele, o Quiosque da Saúde acrescenta outros atributos à sua formação, pois proporciona o aprendizado dos métodos de trabalho que serão aplicados ao término da graduação.

“É um estágio antes do próprio estágio, válido para ganhar experiência e conhecer nosso público-alvo, que é a maior parte da população, uma vez que a parcela de atletas de alto rendimento é mínima. No caso de Santos, por exemplo, a cidade tem uma significativa proporção de idosos. A extensão favorece o aprendizado de nossa função na prática”, esclarece.

O outro extensionista é Lelis Conte Genaro, colega de turma de Renan. Para ele, as atividades de extensão contribuem para que o aluno vivencie como é ser professor na prática. “Aprendemos a planejar melhor as aulas, como devemos nos comunicar, como passar os exercícios. Isso é muito importante e será um diferencial no futuro”, justifica.

Efeitos comprovados

O efeito positivo dos protocolos de exercícios físicos sobre a saúde dos participantes já foi comprovado por dois estudos publicados nos últimos anos. “Um deles avaliou a pressão arterial de mulheres com hipertensão, além de parâmetros antropométricos e funcionais, demonstrando uma melhora em relação à primeira variável. O outro estudo também encontrou benefícios para as mulheres com diabetes tipo 2, principalmente em relação à glicemia e à aptidão funcional geral”, resume o coordenador.

No artigo publicado pela Revista Brasileira de Ciência e Movimento, em 2017, foram avaliados os efeitos do treinamento combinado moderado (aeróbio e resistido), durante seis meses, sobre a pressão arterial de repouso, variáveis bioquímicas (como glicose sanguínea e colesterol) e antropométricas (índice de massa corporal e perímetro de cintura) e aptidão funcional de dez mulheres hipertensas, frequentadoras do programa. Como conclusão, o trabalho confirmou que os exercícios físicos diminuíram os níveis de pressão arterial de repouso nessas mulheres e sugeriu melhora em variáveis antropométricas, bioquímicas e funcionais relacionadas à saúde.

Já a outra pesquisa, que foi publicada pela RBM - Revista Brasileira de Medicina, em 2015, investigou os efeitos do treinamento físico sobre diversos parâmetros em 16 mulheres com diabetes tipo 2. As sessões consistiram em exercícios aeróbios seguidos de exercícios resistidos (treinamento combinado moderado). A coleta de dados foi baseada nos parâmetros funcionais (testes de aptidão funcional), bioquímicos (glicemia, colesterol e triglicérides), antropométricos (estatura, massa corporal, índice de massa corporal e circunferência abdominal) e hemodinâmicos (pressão arterial).

O treinamento foi eficiente ao promover alterações importantes em parâmetros relacionados à saúde de mulheres com diabetes tipo 2. Os dados demonstraram que houve melhora significativa na resistência de força, coordenação, índice de aptidão física geral, glicemia de jejum e pressão arterial de repouso.

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Atual coordenador do programa, Ricardo José Gomes (centro), e os extensionistas Lelis Conte Genaro (à esquerda) e Renan Santos Silva Oliveira (à direita) / Fotografia: Alex Reipert

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Novata no grupo, Isabel Bezerra Salgado já sente os efeitos positivos dos exercícios / Fotografia: Alex Reipert

Projetos parceiros 

No sentido de viabilizar intervenções multiprofissionais e interdisciplinares, o Quiosque da Saúde recorre, ainda, a parcerias. A principal delas foi firmada com o Grupo de Estudos da Obesidade (GEO), sob a responsabilidade da professora Danielle Arisa Caranti. Com o apoio do GEO, os integrantes do programa podem exercitar-se em bicicletas ergométricas e esteiras, sendo também avaliados. “Além de uma boa estrutura, o GEO oferece atendimento com psicólogos, nutricionistas e fisioterapeutas”, relata Gomes.

Outro exemplo de ação conjunta provém do Projeto de Capacitação para Prevenção de Acidentes e Primeiros Socorros, coordenado pela professora Alessandra Medeiros, que realizou oficinas sobre ressuscitação cardiopulmonar e primeiros socorros. “É importante saber como se comportar nessas situações, já que são idosos que convivem com outros idosos”, avalia o docente. 

Cabe também mencionar os projetos de extensão Clube da Corrida e Clube do Pedal, vinculados ao Programa de Educação Tutorial do curso de Educação Física (PET-EF) e coordenados pelo professor Ricardo Guerra, os quais possibilitam o desenvolvimento de atividades complementares voltadas à prática esportiva.

Dessa forma, além dos exercícios físicos para o controle de doenças crônicas, o programa Quiosque da Saúde oferece aos voluntários palestras sobre educação em saúde, que estimulam a mudança de hábitos e contribuem para a melhoria da qualidade de vida.

 

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Terça, 28 Janeiro 2020 15:12

Em sintonia com a sociedade

No Campus Baixada Santista, radiosilva.org é exemplo de mídia alternativa de sucesso que une brasilidade e importância comunitária

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Texto: Marcos Zeitoune

Um estúdio envidraçado no saguão da universidade é o convite aberto à participação das pessoas. Da área de circulação da Unidade Silva Jardim do Campus Baixada Santista – de onde o projeto ganhou o nome – qualquer pessoa pode acompanhar o ritmo de trabalho da radiosilva.org; caixas de som aplicadas no teto do saguão compartilham com estudantes e professores a programação diária, variada e eclética.

Prestes a completar três anos no ar - a webrádio começou a transmitir no dia 1º de agosto de 2016 – há planos de instalação de um segundo estúdio em parceria com uma organização local sem fins lucrativos, o Instituto Procomum, além da manutenção do estúdio volante e portátil, por meio do qual é possível dar continuidade ao projeto Ocupação: transmissões ao vivo ou gravações feitas a partir de locais variados e demais equipamentos públicos, de acordo com as demandas da comunidade.

A verba para a compra dos equipamentos originais foi viabilizada, em 2015, graças ao apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), processo intermediado pela Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo (FapUnifesp), com contrapartida do campus na instalação da estrutura física - especialmente o fechamento acústico do estúdio e marcenaria da bancada. O projeto original previa que essa verba custeasse também o registro de domínio, a hospedagem de site e o servidor de streaming pelos primeiros 24 meses. Desde então, há cerca de um ano, essas últimas despesas estão sendo custeadas com recursos próprios, enquanto tramita um acordo de cooperação técnica com a instituição na região, que passará a assumir o custo operacional como uma das contrapartidas envolvidas na negociação.

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Equipe de programação da radiosilva.org trabalhando no estúdio montado na Unidade Silva Jardim do Campus Baixada Santista / Fotografia: José Luiz Guerra

Mecânica de funcionamento

Stéfanis Caiaffo, docente no Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista, e coordenador do Núcleo de Rádio do Laboratório de Recursos Audiovisuais (Lara), explica que a Rádio Silva transmite, ininterruptamente, 24 horas por dia, sete dias por semana. “Até o ano passado mantínhamos uma grade de programação, mas a manutenção desta grade nos tomava muito tempo de trabalho, porque chegamos a ter mais de trinta programas ou faixas de programação no ar ao longo de uma semana. A partir do início de 2019, optamos por deixar o streaming da rádio transmitindo um randômico de todo o conteúdo que produzimos e, assim, temos mais tempo para as atividades educativas que a rádio faz, especialmente as oficinas de programação, as ocupações e as tarefas ligadas à curricularização da extensão. Atualmente, apenas os programas ao vivo têm hora marcada”, expõe.

“Creio que este possa ser um desafio importante para a Unifesp: desenvolver e/ou disponibilizar sistemas e mecanismos que nos permitam ter não só essa, mas também outras plataformas de comunicação audiovisual no ar. Neste momento, ainda é necessário recorrer a serviços externos de registro de domínio, hospedagem de site e provedor de streaming. Para gravação, edição e transmissão, trabalhamos com softwares gratuitos ou livres”, informa Caiaffo.

Audiência em alta

Ao contrário do modelo comercial, o sucesso de uma rádio escola não é exatamente medido pela audiência, mas pelo modo como ela serve de dinamizadora para encontros potentes entre as pessoas, sejam elas da comunidade acadêmica ou não. A mesa de estúdio da radiosilva.org é um espaço de encontro e troca. Ao longo dos últimos três anos já foram produzidos cerca de 1.500 programas. Bastante conhecida na região da Baixada Santista, a reportagem pediu ao coordenador uma amostragem de público. Dados colhidos no servidor no dia 12 de junho indicavam cerca de 178.092 pontos de conexão ao streaming ao longo dos últimos doze meses, ou seja, cerca de 487 por dia.

“Isso significa que uma média de 487 computadores se conectaram ao streaming ao longo de cada 24 horas de transmissão, alguns deles provavelmente tendo mais de uma pessoa na escuta - algo que não nos é possível saber. Achamos que é um número significativo para uma rádio experimental como a nossa, com uma equipe de duas pessoas, eu e o Renato Zama, e colaboradores sem dedicação exclusiva”, revela Caiaffo. Vale ressaltar que a lógica da programação musical é pautada em repertórios não comerciais e, sempre que possível, independentes. Em outras palavras, tocar o que rádios comerciais não tocam e confiar esta seleção a pesquisadores e especialistas no assunto.

O objetivo maior permanece o mesmo desde o princípio: “dar mais visibilidade a quem somos e a tudo o que fazemos na universidade, bem como servir de mídia alternativa ao que temos na região”, explica ele. “A riqueza do que se produz na Unifesp muitas vezes é pouco divulgada e a grandeza de quem somos muitas vezes fica escondida depois que termina o nosso expediente. Criar um canal de comunicação direta com a população, na nossa opinião, é fundamental para que a universidade sobreviva à crise de legitimação e aos ataques que vem sofrendo recentemente. E também é um modo de fazer com que as pessoas nos conheçam. Atualmente, um influenciador digital, pelo menos em números, pode ter mais impacto social do que um campus inteiro da Unifesp e isso deve nos preocupar como instituição”. Ademais, de acordo com Caiaffo, há muita coisa interessante sendo feita na região e a mídia tradicional olha pouco e dá menos espaço para isso, especialmente para a produção independente.

Desafios para o futuro

E o que leva o estudante a se interessar pela rádio? “Não há um motivo específico que traz um estudante à rádio. Às vezes é um interesse por extensão, às vezes um interesse em pesquisa, às vezes é fazer um programa de rádio que sirva como avaliação de um módulo ou que está integrado a um estágio, às vezes é só a tentativa de sair um pouco do cotidiano acadêmico, sem necessariamente sair da universidade, uma espécie de respiro. Nesse momento de poucos recursos optamos por não ter bolsistas no programa de extensão para que os projetos de extensão que estão sob nosso guarda-chuva possam pedir os seus e assim ficarem mais fortalecidos”, explica Caiaffo.

Segundo o coordenador, o principal desafio sempre foi, é e parece que ainda será fazer com que a própria comunidade acadêmica, especialmente o segmento docente, planeje dedicar um tempo de sua semana padrão para produzir com a rádio. “É muito difícil criar brechas no cotidiano do docente para que ele venha ao estúdio para falar de seus trabalhos, de seus projetos. Estamos sempre muito premidos entre a quantidade de coisas que são necessárias fazer e diante daquilo que é especialmente valorizado quando se trata da carreira docente”, explica.

A quantidade de propostas que chegam da comunidade externa vai além da capacidade de produção. Nesse momento, a rádio está tentando atendê-la em processos de descentralização dessa produção, instalando um segundo estúdio e formando pessoas que possam operá-lo, fazendo transmissões e gravações direto de equipamentos públicos e entidades conveniadas, e também testando algo novo. No final do ano passado construiu-se uma unidade móvel sobre um triciclo. “Chamamos nossa unidade móvel de Radiola da Silva e estamos começando a experimentar a possibilidade de uma rádio comunitária sobre rodas”, afirma o coordenador do projeto. “Seria uma rádio física que pedalamos pelo bairro e que produz e transmite uma programação feita com e, especialmente, dedicada à população que vive no entorno da universidade”.

Quais são os projetos para o futuro? “Meu sonho é ver (ou sintonizar!) uma Unifesp FM operando em rede e potencialmente atingindo centenas de milhares ou milhões de pessoas, com ampla participação tanto da comunidade acadêmica quanto da população em geral na sua produção e gestão e, eventualmente, ter a oportunidade de participar disso”, revela Stéfanis Caiaffo. “De resto, aqui e agora, espero que a gente siga reunindo pessoas e condições para que a radiosilva.org siga no ar, promova encontros potentes e fale de toda a riqueza que há em quem somos e naquilo que fazemos”, conclui.

 

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Terça, 28 Janeiro 2020 14:50

Campus aberto à educação pública

Estudantes de ensino médio participam de ações do Campus Baixada Santista que estimulam reflexões sobre diversidades, sociedade e direitos humanos

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As atividades do projeto realizadas na Etec Aristóteles Ferreira, em Santos, foram finalizadas em evento no Campus Baixada Santista (2018) / Imagem: arquivo pessoal

Texto: Tamires Tavares

Comprometido com a promoção de direitos humanos e políticas educacionais e de saúde para os jovens, o projeto de extensão Juventudes & Funk na Baixada Santista: territórios, redes, saúde e educação atua, desde 2014, em parceria com escolas públicas nas proximidades do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista. Iniciado por Cristiane Gonçalves da Silva, docente no Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva, e Patrícia Leme de Oliveira Borba, docente no Departamento de Saúde, Educação e Sociedade, o projeto é desenvolvido junto com estudantes universitários dos cursos de psicologia, terapia ocupacional e serviço social e conta com a colaboração de docentes e técnicos da universidade. 

O Juventudes & Funk na Baixada Santista ocorre a partir da interlocução com estudantes secundaristas, gestores e professores de escolas do ensino médio e está associado ao Laboratório Interdisciplinar Ciências Humanas, Sociais e Saúde (Lichss/Unifesp) e ao Projeto Metuia/Unifesp – grupo interinstitucional que atua sobre as temáticas da formação e da pesquisa em Terapia Ocupacional Social. O projeto tem como base pressupostos do educador Paulo Freire que se refletem na interdisciplinaridade e em seu processo educativo horizontalizado. Nesse processo, valoriza, inclusive, a formação de vínculos de confiança entre os membros da comunidade acadêmica e da sociedade civil, por meio da interação dos estudantes universitários e dos ensinos fundamental e médio – por compartilharem os processos de expressão, linguagem e vivências com aspectos geracionais em comum.

Para abordagem das temáticas trabalhadas, são utilizados diferentes métodos e técnicas, como rodas de conversa, palestras, visitas técnicas, mediação de conversas com especialistas, técnicos, lideranças de movimentos sociais envolvidos com o tema na escola, oferta de materiais audiovisuais e de leitura, dinâmicas e jogos expressivos, debates, conversas em ambientes virtuais. “Todos eles se pautam e creditam ao diálogo uma ferramenta formativa fundamental para os processos de conscientização e transformação que desejamos construir, tanto no espaço escolar, de forma específica, e na sociedade, de uma forma geral”, ressalta Silva.

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Estudantes de diversos cursos da Unifesp atuam no projeto sob coordenação de Cristiane Gonçalves e Patrícia Borba (ambas ao centro) / Imagem: arquivo social

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Na escola Paulo Clemente, por meio das ‘oficinas da diferença’, que ocorrem desde 2016, as propostas interventivas dos estudantes tornaram centrais questões sobre expressão de gênero, saúde reprodutiva e sexualidade / Imagem: arquivo pessoal

Ocupando espaços 

Além das atividades prioritárias nos territórios escolares, o projeto de extensão é frequentemente convidado para desenvolver ações junto a outras instâncias da universidade, como atividades em outros campi e participações em módulos de formação específica ou comum aos cursos do Instituto de Saúde e Sociedade - é o caso da pesquisa temática Vulnerabilidades de Jovens às IST/HIV e à Violência entre Parceiros: avaliação de intervenções psicossociais baseadas nos direitos humanos. Há, também, uma preocupação em ocupar o espaço universitário com a presença de jovens, organizando atividades com participação da comunidade, dentre os quais destaca-se Batalha de Rimas de Rap e Funk - com presença do movimento hip-hop e de MCs de funk (2016), e as rodas de rimas com movimento hip-hop da Baixada Santista (2018).

Grande parte do trabalho desenvolvido está nas ações em parceria com escolas públicas estaduais. Atualmente, destacam-se as parcerias com a Escola Técnica Estadual Aristóteles Ferreira, Escola Estadual de Ensino Fundamental Paulo Clemente Santini e Escola Estadual de Ensino Médio Padre Bartolomeu de Gusmão, com o intuito de dialogar a respeito de temáticas características do contexto, estilos de vida, geração e direitos dos estudantes – adolescentes e jovens plurais. Gênero e sexualidade, raça e etnia, o bairro onde vivem, os espaços por onde circulam, o uso da internet, os interesses juvenis e as possibilidades de acesso aos bens culturais são assuntos recorrentes nas atividades, que marcam a reflexão sobre as diversidades de tal maneira que ela possa ganhar existência nos espaços grupais e coletivos de forma respeitosa e crítica. 

Para Priscilla Karaver, estudante de Psicologia e participante do projeto, são muitas as contribuições da extensão para a formação acadêmica. “As trocas de vivências e conhecimentos e a construção coletiva com as pessoas do projeto e os jovens proporcionam crescimento mútuo, que não aconteceria se não estivéssemos inseridos nesses contextos. A sala de aula não nos proporciona essas experiências”, comenta.

Em cada escola o número de estudantes que participam do projeto varia, assim como as propostas interventivas. Somente no ano de 2018, por exemplo, foram atingidos diretamente cerca de 1.500 discentes, além de cerca de 60 professores nas escolas. “Como resultado desses processos reflexivos nas escolas por meio da inserção da extensão, há uma mudança nas relações cotidianas dos estudantes, como identificado pela direção pedagógica de uma das instituições participantes. As trocas passaram a ser mais afetivas, com possibilidades de experiências múltiplas e convivência respeitosa na diversidade”, relata Silva.

 

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O Campus Baixada Santista totalizava, em 2018, oito programas e 50 projetos de extensão ativos, um terço do total da instituição

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Fotografia: José Luiz Guerra

 

Luciana Togni de Lima e Silva Surjus 
Coordenadora da Câmara de Extensão e Cultura do Campus Baixada Santista

Liu Chiao Yi Inoue
Vice-coordenadora da Câmara de Extensão e Cultura do Campus Baixada Santista

Anthony Andrey Diniz
Representante da Câmara de Extensão e Cultura do Campus Baixada Santista

Marcella Santos
Secretária executiva da Câmara de Extensão e Cultura do Campus Baixada Santista

Gelson Ribeiro dos Santos
Estudante do curso de Engenharia Ambiental

O compromisso com uma formação cientificamente qualificada e socialmente referenciada faz o Campus Baixada Santista da Unifesp se destacar com um terço do total das ações extensionistas, finalizando 2018 com oito programas e 50 projetos de extensão ativos. Das 8 áreas temáticas propostas pelo Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Instituições Públicas de Educação Superior Brasileiras (Forproex), os oito programas desenvolvidos em 2018 vincularam-se aos Direitos Humanos e Justiça (33,4%), Saúde (33,3%), Educação (22,2%) e Trabalho (11,1%). Sendo desenvolvidos pelos departamentos de Políticas Públicas e Saúde Coletiva (67%), de Biociências, de Ciências do Movimento Humano, e de Gestão e Cuidados em Saúde (respectivamente, cada um com 11% dos programas ativos).

Já os projetos contemplaram quase a totalidade das temáticas previstas, com exceção da Comunicação, tendo em sua distribuição a predominância nas áreas da Saúde (48%), seguidos de Cultura (13,5%), Educação (13,5%), Meio Ambiente (9,6%), Direitos Humanos e Justiça (7,7%), Trabalho (5,8%), Tecnologia e Produção (1,9%). Foram desenvolvidos em sua maioria pelos departamentos de Ciência do Movimento Humano (27,8%), de Políticas Públicas e Saúde Coletiva (14,8%), de Gestão e Cuidados em Saúde (13%), de Saúde, Clínicas e Instituições (11,1%) e 11,1% pelo Imar/Unifesp, ainda em 2018 enquanto departamento.

Comparando com o ano de 2014, podemos observar a ampliação das áreas de inserção, inicialmente com um predomínio dos projetos na área da Saúde (66,3%), com maior crescimento percebido nas áreas do Meio Ambiente e da Cultura atrelado à expansão da atuação do recente Imar/Unifesp que, naquele ano, realizava apenas 1,3% dos projetos de extensão do campus.

A inscrição comunitária segue se intensificando na Baixada Santista em 2019, tendo em curso 72 projetos com relevante potencial inovador e de transformação social. A Câmara de Extensão e Cultura vem engendrando esforços para realizar o georreferenciamento dos mesmos, visando aumentar sua visibilidade e acompanhar os impactos dessa inserção.

 

Campus Baixada Santista • Extensão em números:
58 programas e projetos de extensão
7 cursos de aperfeiçoamento e especialização
2 programas de residência multiprofissional
118 cursos de extensão e eventos
Dados de 2018
 
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Programa de extensão reúne quatro projetos que levam a universidade até populações em situação de vulnerabilidade

Texto: Lu Sudré

Saúde, assistência social, educação popular e direitos humanos. Essas são as quatro áreas que entrelaçam os projetos de extensão universitária que integram o programa ComUnidade, vinculado ao Departamento de Saúde Coletiva da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) - Campus São Paulo. Com o objetivo de atuar diretamente com populações em situação de vulnerabilidade e de construir um vínculo real com comunidades externas à universidade, os projetos Saber Cuidar, Periferia dos Sonhos, A Cor da Rua e Envelhecer com Arte são desenvolvidos por estudantes dos cursos de Enfermagem, Medicina, Biomedicina e Fonoaudiologia. 

Para Anderson Rosa, coordenador do programa de extensão, o grande diferencial do ComUnidade é que seus projetos trabalham com a lógica da co-gestão, onde professores, estudantes e pessoas atendidas têm o mesmo espaço para opinar e desenvolver ações conjuntas. “Mesmo sendo coordenador, meu voto vale tanto quanto o voto de qualquer outra pessoa, seja um estudante ou até mesmo os membros da comunidade com as quais trabalhamos. Esse é o desafio ao qual o programa se propõe: fazer com que a sociedade interfira no andamento das ações que fazemos”, afirma Rosa.

Ao identificar as necessidades sociais que determinada população possui, alternativas são pensadas e desenvolvidas em conjunto. Rosa aponta que, ao fazer parte desse processo, a comunidade externa sente-se incluída e entende que há uma produção de conhecimento na universidade acessível e que faz diferença em sua realidade. "O tempo inteiro somos desafiados a produzir e pensar em soluções conjuntas, muitas vezes distantes das já consagradas na universidade. É como se estivéssemos traduzindo uma parte do conhecimento técnico das profissões para determinados contextos de vida. Criamos novos repertórios de atendimentos e de cuidados”, explica o coordenador.

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Saber Cuidar

Criado em 2001, o Saber Cuidar atua com moradores do bairro Jardim São Savério, região localizada na periferia sudeste do município de São Paulo e de alta vulnerabilidade social. Baseado nos conceitos do filósofo e educador Paulo Freire, o projeto incorpora educação popular e atividades lúdicas à sua metodologia. O trabalho resultou em anos de formações na área da saúde com crianças e adolescentes da Escola Estadual Dr. Álvaro de Souza Lima, com temas propostos pelos próprios jovens, estruturados de forma lúdica por meio da música e da arte. 

Sua coordenadora e enfermeira do Departamento de Saúde Coletiva (EPE/Unifesp), Danila Cristina Paquier, afirma que o projeto está sendo expandido, desde o ano passado, para demais moradores do bairro, priorizando a abordagem do processo de envelhecimento e desenvolvimento de condições crônicas - principalmente o câncer. “São realizados encontros com o paciente e sua rede de apoio - família, amigos, vizinhos, militantes da comunidade e profissionais da saúde -, que compartilham vivências e fortalecem vínculos. Nesse processo, os estudantes constroem e propõem intervenções pautadas nas necessidades de saúde observadas”, conta Paquier. Ela relata que, somente em 2019, foram realizados 33 dessas rodas de conversa. “No total, participaram cinco pacientes diagnosticados com câncer, cerca de 20 pessoas da comunidade e três agentes comunitários de saúde".

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Envelhecer com Arte

A população idosa também tem espaço garantido no programa ComUnidade. Por meio de encontros e saraus literários, o Envelhecer com Arte estuda a gerontologia à luz das artes. Coordenado pela enfermeira Sônia Maria Garcia Vigeta, o projeto existe desde 2013 e ressalta a importância do protagonismo da população idosa e da formação de uma sociedade inclusiva. Ao estimular a paixão pela leitura e a criatividade, o Envelhecer com Arte fomenta um relacionamento intergeracional e um aprendizado colaborativo entre extensionistas e idosos que participam do projeto.

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Periferia dos Sonhos

Esse projeto trabalha com pessoas em situação de rua abrigadas no Centro de Acolhida Portal do Futuro, localizado na zona norte da cidade de São Paulo, e mulheres em situação de vulnerabilidade acolhidas na maternidade pública Amparo Maternal, localizada próxima ao Hospital São Paulo. Mais recentemente, passou a atuar no Centro de Acolhida Florescer, destinado às mulheres transgênero e travestis em situação de rua. 

De acordo com Anderson Rosa, que compartilha a coordenação desse projeto, atuar com diferentes populações e questões de saúde específicas incentiva uma formação mais completa dos extensionistas, que aprendem a considerar como questões sociais influenciam o adoecimento. “Temos uma formação muito técnica, focada em tecnologia, procedimentos, habilidades. Na vida real, o paciente denota uma dimensão da vida que extrapola a teoria. Por meio desses projetos os graduandos adquirem repertórios e habilidades que serão úteis na vida profissional”.

Isabela Bombonato de Almeida, estudante do 6º período do curso de Enfermagem, é prova viva desse processo. Extensionista do Periferia dos Sonhos desde o primeiro semestre da graduação, já participou de um congresso internacional representando o projeto. Para ela, essa experiência tem sido essencial à sua formação, ensinando responsabilidade, empatia, criatividade e respeito. “Nos centros de acolhida, aprendemos uns com os outros. Da mesma forma que levamos aos acolhidos conteúdos aprendidos na faculdade, eles nos ensinam com cada experiência de vida. Para a sociedade, há o retorno do investimento na universidade pública, por meio de informação crítica e científica, para quem sabe, mesmo que lenta, haja uma transformação”, conta.

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A Cor da Rua

Mais recente em relação aos outros três projetos de extensão, A Cor da Rua promove formação a profissionais da rede pública com a participação dos usuários desses serviços, principalmente pessoas em situação de rua, imigrantes e refugiados. Além de buscar garantir o acesso dessas populações à saúde, visa alcançar o desenvolvimento de boas práticas de saúde mental na comunidade por meio de ações da própria comunidade. Participam regularmente 25 estudantes de graduação e cinco de pós-graduação. Segundo Carmen Santana, coordenadora do projeto, psiquiatra e professora do Departamento de Saúde Coletiva da EPE/Unifesp, os processos de formação já beneficiaram diretamente mais de 500 profissionais. 

Entre as atividades do projeto, realizadas em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, lideranças da população de rua e do movimento de luta por moradia, destacam-se a promoção de 15 seminários abertos à comunidade que já contaram com mais de três mil participações. “Os seminários oferecem um espaço aberto e participativo para expor ideias, dúvidas, sugestões e experiências sobre a vida em situação de rua", explica a coordenadora.

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Curso Práticas de Atenção Integral e Promoção de Direitos Humanos na Situação de Rua

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V Seminário A Cor da Rua: abordagens ao uso de álcool e outras drogas

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“As pessoas em situação de vulnerabilidade são pessoas que não estão acostumadas a ter alguém olhando para elas. Nós priorizamos muito o vínculo, o contato afetivo, o envolvimento com as pessoas e com as histórias. Isso traz uma relevância simbólica importante, assim como as ações concretas. Quando ensinamos uma coisa, estamos ajudando a promover saúde, assistência social, direitos humanos e cidadania"

Anderson Rosa, coordenador do programa de extensão ComUnidade

 
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Segunda, 30 Dezembro 2019 15:59

Amor e ciência em toques que fazem diferença

Considerado um dos programas de extensão mais antigos da Unifesp, o MEB ensina como a massagem pode ajudar mães na ampliação do vínculo afetivo e no estímulo ao desenvolvimento de seus bebês

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(Fotografia: Alex Reipert)

Texto: Denis Dana

Ciência em movimentos que aproximam mães e pais de seus filhos, estreitam laços e contribuem para o desenvolvimento infantil. Assim pode ser caracterizada a shantala, técnica de massagem que surgiu na Índia e que tem sido estudada de maneira aprofundada desde 1996 pelo Grupo de Estudos Massagem e Estimulação com Bebês (GEMEB). Vinculado ao Departamento de Enfermagem Pediátrica da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) – Campus São Paulo, o trabalho, que se iniciou como um projeto, evoluiu, passando a ser chamado de Massagem e Estimulação com Bebês (MEB), integrando três ações educativas – grupo de estudos, grupo terapêutico e oficinas para estudantes, profissionais da saúde e da educação infantil – e transformou-se em um dos programas de extensão mais antigos da Unifesp.

“Naquela época já era perceptível a necessidade de preparar de maneira mais adequada os futuros profissionais da saúde com conhecimentos sobre o desenvolvimento neuropsicomotor e afetivo, de forma a entender que faz parte da promoção à saúde da criança o fortalecimento das competências dos adultos, assim como a valorização de momentos de cuidado como espaço educativo”, explica Maria das Graças Barreto da Silva, docente na EPE/Unifesp, que está à frente do trabalho desde a sua criação.

Essa percepção foi, então, grande motivação para a criação do grupo. Para Silva, “por meio do trabalho corporal propiciado pela massagem, realizada de forma sistematizada, possibilitou-se ampliar fronteiras que, além de preencher essa lacuna, viabilizou compartilhar saberes com as famílias”, explica.

Conhecimento e difusão do saber

No início do projeto os benefícios da massagem ainda eram desconhecidos. “Ela era usada muito mais como uma estratégia didática, um chamariz para atrair os estudantes para a necessidade de se conhecer mais profundamente o comportamento dos bebês e torná-los sujeitos da ação”.

Nessa época, o desafio do então GEMEB era compartilhar com a população saberes produzidos academicamente sobre o desenvolvimento infantil por meio da prática da shantala. Enquanto isso, os estudos acerca da massagem em bebês começavam a indicar seus benefícios, como a melhora na comunicação entre mãe e bebê, o relaxamento e os estímulos ao desenvolvimento motor e sensorial da criança, entre outros.

Em 2017, um novo marco para a shantala

Enquanto o trabalho era desenvolvido e se consolidava como uma importante contribuição da ciência em forma de amor e respeito entre mães e seus pequenos, o Ministério da Saúde também compreendia o valor desse tipo de intervenção. Em março de 2017, o órgão inseriu a shantala na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares como abordagem de cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Essa inserção foi um marco da shantala aqui no Brasil, já que trouxe como possibilidade ofertá-la no âmbito da saúde pública. Ampliou, também, as probabilidades de realização de pesquisas em outros cenários, como o hospitalar e o educacional, o que só vem a somar ao trabalho realizado pelo MEB”, ressalta Silva.

Na Unifesp, a difusão dos benefícios da shantala também causou impacto positivo, cativando o interesse de muitos estudantes pelas suas ações educativas. Mais de 860 universitários passaram pelo programa de extensão. Grande parte teve origem na EPE/Unifesp. Mas, o MEB também recebe estudantes dos cursos de Fonoaudiologia, Medicina e Pedagogia. “São acadêmicos da Unifesp que se inscrevem para aprofundar seus conhecimentos acerca do desenvolvimento infantil, tendo como base as potencialidades envolvidas nessa técnica de massagem com bebês”, explica a coordenadora.

Atualmente, o grupo conta com a participação de 19 estudantes. Maria Luiza Souza Santos, 19, e Fernanda Isabela Ferreira, 23, fazem parte da equipe como monitoras. Ambas cursam o 2º ano de Enfermagem e logo que ingressaram na universidade se interessaram em integrar o MEB.

“O aprendizado vai muito além da técnica da massagem. Nesse programa de extensão, aprendemos também outros princípios, como o momento em que se deve focar na criança, a importância do estímulo para o desenvolvimento infantil e até na atuação profissional, com a criação de um olhar diferenciado e mais observador para os bebês. Esse conhecimento é fundamental para minha pretensão, que é seguir carreira na enfermagem pediátrica, com foco na promoção da saúde e qualidade de vida para as crianças”, diz Maria Luiza.

O desejo é compartilhado por Fernanda, que ao ingressar no curso de Enfermagem já pensava em trabalhar com bebês e crianças. “A experiência obtida no programa de extensão certamente nos ajudará a lidar e dialogar melhor com as mães de nossos futuros pacientes, além de nos ensinar a compreender e respeitar o momento do bebê, cuidado fundamental no trabalho de atendimento humanizado”, relata a estudante.

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A monitora Fernanda Isabela Ferreira ensina os movimentos para Bibiana e seu bebê 
(Fotografia: Alex Reipert)

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A estudante Maria Luiza Souza Santos em sessão de shantala com Lucilene e seu filho
(Fotografia: Alex Reipert)

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Grupo de Estudos Massagem e Estimulação com Bebês (GEMEB)

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Maria das Graças Barreto da Silva (EPE/Unifesp), coordenadora do trabalho
(Fotografia: Alex Reipert)

Cumplicidade, afeto e mais benefícios 

Nesses 23 anos de atividade, o MEB soma o atendimento a 1.840 famílias. “No Centro de Incentivo e Apoio ao Aleitamento Materno (Ciaam), onde acontecem as sessões de shantala, já recebemos alguns casais, mas a maior parte do público atendido é formado por mães, das mais variadas idades”, descreve Silva. “São pessoas de diferentes classes sociais e regiões da cidade, que buscam ampliar o vínculo afetivo com seus filhos”, explica.

Foi exatamente esse o motivo que fez Lucilene Monaris da Silva Araújo, 37, mãe de um bebê de seis meses, procurar o grupo. “Tive dificuldades na amamentação e ao procurar auxílio no Banco de Leite, descobri que a Unifesp também oferecia esse tipo de serviço”, destaca Lucilene.

Ao todo, foram cinco sessões de shantala sob a orientação da coordenadora e equipe, com mudanças e avanços já percebidos pela mãe. “Aprendi a explorar as sensações dele por meio do toque e fortaleci nosso vínculo, nossa afinidade. Também percebi que a massagem tem auxiliado no desenvolvimento de sua parte motora, com o fortalecimento das pernas e a evolução em alguns movimentos, como o rolamento. Ele está mais autoconfiante e mais independente”, comemora Lucilene. 

Bibiana Lima de Jesus Ferreira, 39, é outra mãe frequentadora do MEB. Veio por intermédio de uma amiga e também se encantou pelos benefícios proporcionados pela shantala ao seu filho de seis meses. “Esse é o momento só nosso, quando permanecemos juntos e totalmente integrados. Em cinco sessões, percebi que nos divertimos, relaxamos e estreitamos ainda mais nossos laços, o que é muito gratificante”, descreve.

Além do vínculo entre mãe e filho, tanto Bibiana quanto Lucilene fizeram questão de destacar o laço estreitado entre sociedade e universidade por meio do trabalho do MEB. “É muito bom saber que a sociedade, por meio de serviços do SUS, oferecidos gratuitamente, pode ter acesso a uma parcela de todo o conhecimento que é produzido dentro de uma universidade. Para nós, trata-se de um aprendizado de imensurável valor”, explica Bibiana.

A origem do nome shantala

Em uma de suas visitas ao sul da Índia, o renomado médico ginecologista e obstetra francês Frédérick Leboyer ficou hipnotizado ao ver, em plena rua, uma jovem indiana paralítica massagear seu bebê em um verdadeiro ritual de carinho e cumplicidade. O momento de grande paz expresso naquele vínculo contrastava com o ambiente hostil daquele local, uma favela de Calcutá.

Encantado com a cena, Leboyer se aproximou e descobriu que aquela jovem mãe se chamava Shantala e que aqueles toques eram tradicionalmente ensinados, passados de mãe para filha.

O médico pediu autorização para registrar em fotos cada movimento que Shantala fazia em sua criança. As imagens, então, foram transformadas em um livro que o médico francês difundiu na Europa com o nome de sua modelo inspiradora.

A técnica de massagem logo extrapolou as fronteiras e ganhou projeção mundial, com todos os seus benefícios diretamente ligados à saúde e ao afeto entre mães, pais e filhos.

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Segunda, 30 Dezembro 2019 15:29

A sustentável leveza do acolher

Programa de extensão universitária oferece atendimento oncológico integral e interdisciplinar

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(Fotografia: Alex Reipert)

Texto: Matheus Campos

Do diagnóstico ao tratamento, como compreender os maiores anseios de um paciente acometido pelo câncer? Segundo a professora Edvane de Domenico, do Departamento de Enfermagem Clínica e Cirúrgica da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) - Campus São Paulo, é fundamental enxergar o indivíduo de maneira holística. Nas dependências do hospital, cumpre torná-lo visível e dar atenção às suas necessidades, inclusive durante a espera pelo atendimento. Aos estudantes que orienta, ela diz que é preciso manter os “radares ligados” e entrever os pedidos de ajuda nos olhares e nos semblantes de cada paciente. É necessário acolher.

De acordo com o dicionário, o verbo acolher está relacionado a proteção, amparo e conforto. O acolhimento se dá pela forma com que alguém se mostra presente ao outro. Acolher é valorizar e considerar. Foi da essência desse conceito que surgiu o nome Acolhe-Onco, um programa de extensão universitária com ações educativas e assistenciais destinadas aos pacientes portadores de doenças oncológicas. O programa é coordenado pela docente e atende usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

Cuidado integral

Criado em 2008, a partir de uma iniciativa conjunta entre a EPE/Unifesp e o Departamento de Oncologia Clínica e Experimental da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), o Acolhe-Onco é um serviço multiprofissional que contempla as áreas de Enfermagem, Medicina, Serviço Social, Farmácia, Nutrição, Fisioterapia, Psicologia e Odontologia, entre outras.

“O principal objetivo é melhorar a rede de atendimento oncológico de forma a oferecer uma infraestrutura que viabilize a possibilidade de o paciente ser cuidado dentro de suas necessidades múltiplas”, explica a coordenadora. Segundo ela, a aproximação com a pessoa atendida torna-se mais humanizada e não apenas técnica. 

“É impactante a forma como você lida com o paciente e como ele lida com você – é uma troca”, ressalta Maria Eunice Carvalho, estudante do 3° ano de Enfermagem da EPE/Unifesp e monitora do Acolhe-Onco desde abril de 2019. A futura enfermeira relata que começou a perceber a vida e a graduação com outros olhos após a entrada no programa. 

A equipe multiprofissional se dedica aos ambulatórios de Oncologia Geral e de Onco-Hematologia do Hospital São Paulo, nos quais são atendidos, em média, 40 pacientes por dia. “Claro que nem todas as pessoas acolhidas são vistas por profissionais de todas as áreas. Por exemplo, se um paciente passa por uma consulta médica e precisa de cuidados que competem a um enfermeiro, receberá – na sequência – as orientações da enfermagem; nos casos cuja demanda é relacionada à nutrição, poderá ser encaminhado diretamente aos nutricionistas”, esclarece a docente.

Além da coparticipação no programa de residência multiprofissional em Oncologia, o Acolhe-Onco possui parcerias técnico-científicas com o A. C. Camargo Cancer Center e o Hospital Amaral Carvalho, situados respectivamente nas cidades de São Paulo e Jaú, em São Paulo. O intuito dessas colaborações é fortalecer a produção técnico-científica com o compromisso de aprimorar a qualidade da assistência em saúde. 

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Equipe do Acolhe-Onco realiza atendimento social e efetua curativo em paciente com câncer (Fotografia: Alex Reipert)

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A docente Edvane de Domenico e demais membros do Acolhe-Onco atuam na supervisão das ações assistenciais (Fotografia: Alex Reipert)

Vulnerabilidade social

A maioria dos pacientes com câncer atendidos pelo SUS faz parte de uma realidade em que se evidenciam vulnerabilidades sociais. No geral, são indivíduos pertencentes a classes econômicas menos favorecidas, moradores de áreas geográficas periféricas ou municípios próximos. Trata-se de uma população em desvantagem econômica, educacional, cultural e ambiental. O Acolhe-Onco auxilia no serviço prestado a muitos pacientes nessas condições, os quais já apresentavam a doença em estágio avançado no momento do diagnóstico e com baixos índices de sobrevida em cinco anos.

“Apesar das fragilidades, essa população é ávida por conhecimentos na área da saúde; então, ela não pode ter a capacidade minimizada no entendimento do processo saúde-doença”, destaca Domenico. Para esta, os pacientes, os cuidadores e os familiares apropriam-se de habilidades e de conhecimentos se forem adequadamente avaliados, orientados e acompanhados no processo de adoecimento pelo câncer. 

Em busca do melhor 

O programa de extensão organiza reuniões mensais (em média, com 25 participantes) que agregam os diferentes profissionais e alunos envolvidos. Trata-se de um momento importante para o crescimento científico e para o monitoramento das necessidades e do padrão de qualidade do programa. 

“Sempre tive medo da área de Oncologia por achar que nela ocorreriam mortes frequentes, mas, ao invés de tristeza, eu vi muita luz, muita vida”, enaltece Ricardo Matheus, estudante do quarto ano de Enfermagem da EPE/Unifesp. Em consonância com o grupo, reconhece o quão gratificante é o crescimento pessoal, profissional e estudantil ao participar do Acolhe-Onco. Quando define sua experiência com os atendimentos, cita Carl Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.

Serviços prestados

Acolhimento integral 
  • Atendimento individualizado
  • Aconselhamento telefônico: contato direto por meio de ligações ou mensagens (em média, 120 solicitações por mês), garantindo segurança ao paciente, manejo de sinais e sintomas, educação e apoio para a adesão terapêutica 
  • Impressos e vídeos educativos: informações importantes e orientações sobre o tratamento para os pacientes e seus familiares

www.facebook.com/acolheonco

Neste e no próximo ano, o Acolhe-Onco adotará a cartilha We can, I can, proposta pela Union for International Cancer Control (UICC) no biênio 2016-2018. Nessa organização não governamental, sediada na Suíça, diferentes temas são abordados para conscientizar profissionais da saúde, educadores, pacientes e o público em geral sobre prevenção, detecção precoce, esclarecimento de direitos e aprimoramento da assistência integral relativos ao câncer.

 
Publicado em Edição 12
Segunda, 30 Dezembro 2019 15:00

Batalhas educativas

Jogo de tabuleiro favorece o aprendizado sobre doenças infecciosas causadas por parasitas

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(Fotografia: Alex Reipert)

Texto: Daniel Patini

Fixar e complementar o conhecimento obtido em sala de aula sobre doenças infecciosas, utilizando um formato divertido. Com esse propósito em mente, a equipe do projeto de extensão Patógenos em Jogo, sob a coordenação de Katia Oliveira e Erika Suzuki, docentes do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, tem se aventurado, desde 2016, no desenvolvimento de jogos educativos. O projeto é composto por diversos profissionais e estudantes de graduação de diferentes áreas – Biomedicina, Enfermagem, Biologia, Design de Games – e instituições.

Como primeiro resultado desse trabalho, foi lançado em junho deste ano o jogo de tabuleiro Guerra dos Patógenos - os parasitas atacam, que auxilia no aprendizado sobre diversas parasitoses, ao mesmo tempo em que são exercitados conhecimentos das áreas de Ciências, Biologia, Geografia e Matemática. "Ele serve para revisar essas doenças ensinadas durante os ensinos fundamental e médio, sendo que também foram incluídos parasitas que não constam no conteúdo escolar e que têm grande relevância epidemiológica", explica Oliveira.

Segundo as coordenadoras, o jogo promove o conceito denominado edutainment, termo derivado da junção das palavras educação e entretenimento em inglês. "São características do edutainment contribuir para o engajamento e incentivar a curiosidade e a interação. Em razão de o material ser portátil e prático, pode ser aplicado fora da sala, em qualquer lugar", descreve Suzuki. “Ele possui como público-alvo crianças e adolescentes, mas nossos testes mostraram bem que o jogo é para qualquer idade”, Oliveira enfatiza.

Como a primeira versão do Guerra dos Patógenos aborda especificamente os parasitas (artrópodes, helmintos e protozoários), existe a possibilidade de expandi-lo, nos próximos anos, para o ensino de outros micro-organismos, como bactérias, vírus e fungos, além das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Há ainda uma vontade de transformá-lo em um jogo digital, que possui grande capacidade de difusão. “Estamos bem animados, pois está tomando proporções que não imaginávamos”, comemora Suzuki, ao citar, por exemplo, o interesse da Secretaria Municipal de Educação em aplicá-lo nas escolas. Ademais, a equipe quer comercializar o jogo.

Retrospectiva

As coordenadoras relembram os primeiros passos do projeto, em 2016, quando surgiu a ideia de elaborar um jogo sobre doenças infecciosas, especificamente, na área de atuação de ambas: a Parasitologia. Foi feita uma chamada por meio de rede social e cartazes no campus, com o intuito de recrutar estudantes para elaborar jogos. Para surpresa delas, houve muitos inscritos, os quais tiveram que passar por uma seleção.

Foram meses refletindo sobre os tipos de jogos, os temas e sobre o desenvolvimento em si, como seu conceito, regras e protótipos. O grupo se encontrava semanalmente para jogar, visando aprimorar o material. "Como estávamos abertos para as sugestões, foram momentos de intensa troca de informações, de muito aprendizado. Cada um contribuía à sua maneira", alega Oliveira.

Naquele mesmo ano, já com todas as regras estipuladas e os protótipos das cartas feitas de cartolina e pintadas à mão, a equipe realizou os primeiros encontros para aplicação do jogo, tanto com professores quanto com estudantes. Eles deram sugestões bastante pertinentes, que foram sendo incorporadas ao jogo. "Em outubro, já estava tudo concebido, incluindo o nome", recorda Suzuki.
 

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Testes com estudantes dos ensinos fundamental e médio em um encontro das equipes do Patógenos em Jogo, do Coletivo da Ciência – vivenciando a Biologia e do Instituto Trata Brasil em maio de 2018

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Um dos primeiros protótipos sendo testado com os membros da própria equipe do projeto

Entreteses038 coordenadoras do projeto Katia Oliveira e Erika Suzuk

As coordenadoras do projeto, Katia Oliveira (à esquerda) e Erika Suzuki (à direita) / Fotografia: Alex Reipert

Como funciona?

Cada jogador recebe seis cartas, cada uma delas com uma pontuação. O seu objetivo é dominar o mundo com os parasitas. Para isso, é preciso estar atento à distribuição geográfica e às características deles, que estão contidas nas cartas. Ganha quem conquistar o maior número de territórios por meio das batalhas travadas pela associação entre a transmissão e a prevenção da parasitose. 

"As ações podem favorecer ou prejudicar o seu patógeno ou o do seu oponente", relata Oliveira. "O jogo é muito dinâmico. Pode ser que um jogador esteja ganhando, com vários territórios dominados e, de repente, tudo muda, pois o restante do grupo se junta contra essa pessoa", continua Suzuki, ao relatar o dinamismo do jogo. Participam de três a seis jogadores por partida.

Aprendizagem comprovada

Em busca de confirmar a eficiência do Guerra dos Patógenos - os parasitas atacam, no aprendizado do usuário, a estudante Cecília Lumi Kakuda, do curso de Enfermagem da Unifesp, desenvolveu seu trabalho de conclusão de curso (TCC) com base nos testes do jogo. Ela aplicou provas para os estudantes dos ensinos fundamental e médio, de oito escolas públicas e particulares, antes e depois de eles jogarem, individualmente e em grupo. 

"Os resultados demonstraram que, independente do conhecimento prévio de cada estudante, foi observado que a aprendizagem é igual entre eles, mesmo quando são comparadas as escolas públicas com as particulares. É uma ferramenta eficiente para ser aplicada em qualquer realidade", resume Oliveira. "Com ele, percebemos que é possível mudar uma determinada realidade social por meio de um gesto pequeno", ela conclui. Os dados completos serão publicados, em breve, em um artigo científico.

Patrocínio

O Instituto Trata Brasil foi a empresa vencedora do chamamento público para captação de patrocínio do jogo, sendo responsável pela confecção de mil unidades, das quais 300 ficaram com a empresa e 700 serão distribuídas às escolas públicas e particulares de todo o país, selecionadas após demonstrarem interesse pelo jogo. Lançado em novembro de 2017, esse foi o primeiro chamamento público realizado pela universidade.

Líder de projetos sociais do instituto, Edna Cardoso relata que ficou encantada quando conheceu o trabalho do projeto de extensão. Ela explica ainda que o Trata Brasil tem trabalhado com jovens universitários da área de jogos focados no tema saneamento. "Temos essa função de conscientizar e mobilizar estudantes que se tornarão profissionais com referência social", destaca. Vale lembrar que o Brasil é um dos países com o maior número de Doenças Tropicais Negligenciadas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), tais como doença de Chagas, leishmaniose, esquistossomose, teníase, cisticercose, dengue, entre outras.

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Os elementos do jogo são: cartas-patógenos (30), cartas de ação com medidas profiláticas (40), seis pinos, marcadores e tabuleiro

 

www.patogenosemjogo.com.br

www.facebook.com/patogenosemjogo

 

 
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EPE e EPM, tradicionais escolas que compõem o Campus São Paulo, totalizavam sete programas e 28 projetos de extensão em 2018

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Fotografia: José Luiz Guerra

 

Maria das Graças Barreto da Silva
Vice-coordenadora da Câmara de Extensão e Cultura da Escola Paulista de Enfermagem

Os programas e projetos de extensão da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) - Campus São Paulo denotam uma construção pedagógica e ético-formativa, sobretudo na possibilidade de gerar conhecimentos a partir da interação com a comunidade. Com áreas temáticas variadas em saúde, direitos humanos e justiça, passando pela comunicação e cultura, entre outras, um novo perfil de profissionais para o cuidar se evidencia, com a elaboração de conhecimentos que consideram a sensibilidade, a afetividade e as diferentes linguagens em uma relação que decorre da convivência. 

Compartilhando essa compreensão, têm-se percorrido trajetórias que consideram a responsabilidade social da academia na formação dos profissionais de saúde para o cuidar. Trajetórias delineadas pelos programas e projetos de extensão, em cenários que possibilitam aos participantes vivenciar ações educativas voltadas à realidade social. Por meio dessas ações, encontram-se oportunidades de superar a dicotomia forjada culturalmente entre a academia e a sociedade, por meio da interação de saberes. Com isso, abre-se um panorama ideal para a formação de profissionais aptos a praticar um cuidado mais humano, visando contribuir para a melhoria dos serviços de saúde.

 

Ramiro Anthero de Azevedo
Coordenador da Câmara de Extensão e Cultura da Escola Paulista de Medicina

A Câmara de Extensão e Cultura (Caec) da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo respondeu em 2018 pela implementação de 84 programas de residência médica, registrados no MEC (com 1.041 residentes), 132 cursos de especialização/aperfeiçoamento, 41 cursos de extensão e 73 eventos. 

Uma das atividades previstas para o futuro próximo é o reconhecimento da Vila Clementino como Bairro Amigo do Idoso, ação coordenada pelo docente Luiz Roberto Ramos. Esse tema poderia ser aglutinador e inclusivo, não só dentro da EPM/Unifesp, mas também do Campus São Paulo, pois já estabelecemos uma conexão com o bairro, construída por meio de importantes projetos como a Universidade Aberta para as Pessoas Idosas (Uapi). Temos, ainda, uma estrutura local de saúde, direcionada a essa população”.

 

Campus São Paulo • extensão em números:
35 programas e projetos de extensão
141 cursos de aperfeiçoamento e especialização
84 programas de residência médica
14 programas de residência multiprofissional
137 cursos de extensão e eventos
Dados de 2018
 
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