Docente de Didática na Unesp, Luciana Massi defende necessidade de apoio institucional aos orientadores de projetos de IC na graduação sob a perspectiva formativa

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Imagem: arquivo pessoal

 

Valquíria Carnaúba

A Iniciação Científica (IC) é uma modalidade de pesquisa acadêmica desenvolvida por estudantes de graduação, sob orientação de docentes, nas universidades brasileiras, em diversas áreas do conhecimento. Sabe-se que bolsistas de IC têm mais chances de concluir pós-graduação, a partir de dados providos pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações em 2017, e que grande parte dos projetos recebem aporte das Fundações de Amparo à Pesquisa(FAPs) de cada unidade federativa, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico(CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior(Capes).

Ao optar pelo mestrado em Ciências na Universidade de São Paulo (USP), Luciana Massi já tinha uma pergunta e o anseio por respondê-la: “por que tantos estudantes de graduação optam pela Iniciação Científica, sobretudo nas universidades públicas?” Contudo, essa atitude questionadora, segundo ela, uma característica necessária a todo aquele que visa adentrar a pesquisa acadêmica, ainda não trouxe respostas satisfatórias para essa questão – pelo menos, até o momento. A pesquisadora se deparou com um verdadeiro deserto de estudos sobre essa modalidade de pesquisa. 

Doutora em Ensino de Química pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da USP e docente do Departamento de Didática da Faculdade de Ciências e Letras (FCL/Unesp) – Campus Araraquara, Massi é uma das poucas pesquisadoras brasileiras que se debruçam sobre o tema com a seriedade necessária. Em entrevista à Entreteses, a professora abordou a Iniciação Científica como um vasto campo em pleno e franco desbravamento, compartilhando desde suas impressões sobre o perfil de indivíduo que comumente busca a IC até sua preocupação com os crescentes cortes envolvendo bolsas voltadas à pesquisa, em especial as destinadas à graduação.

Baseada em revisões bibliográficas e experiências pessoais ao redor do mundo, ela defende o modelo brasileiro de apoio aos estudantes de graduação para o ingresso na IC, pautado principalmente na definição de regras e concessão de apoio financeiro. Por outro lado, acredita que nossas universidades ainda carecem de estrutura institucional (apoio e cursos de aperfeiçoamento) que preparem os orientadores para o processo de acompanhamento dos estudantes ao longo de suas pesquisas. Para Massi, estudantes de Iniciação Científica bem orientados são a chave para a consolidação da pesquisa científica perante a academia e a própria sociedade. Naquele momento, por terem saído há pouco do Ensino Médio, estão mais próximos dos jovens e sua linguagem, podendo divulgar de forma mais compreensível suas pesquisas. No futuro, saberão dar o suporte adequado aos orientandos, caso tenham vivenciado a pesquisa como um processo formativo.

Entreteses • O que a motivou a publicar artigos acadêmicos e livros sobre a Iniciação Científica?

Luciana Massi • Estudei a Iniciação Científica no mestrado e, diante do fato de haver poucos estudos, decidi investir bastante em uma revisão bibliográfica. A princípio, estranhei a ausência de material, isso após um levantamento bem detalhado. Em seguida, fiz uma coleta com estudantes de graduação sobre o desenvolvimento da linguagem científica durante a Iniciação. De todos os resultados que obtive no mestrado, essa revisão bibliográfica foi a que mais teve repercussão, justamente pelo fato de que meu interesse na Iniciação Científica se dava para entender a própria pesquisa na universidade. Isso porque quando entrei na universidade e descobri que havia pesquisa, pós-graduação, eu queria continuar nesse caminho. Passei minha graduação no Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde a pesquisa é muito forte. Naquela época, surgiram em mim grandes questionamentos sobre a Iniciação Científica. Por que tanta gente quer fazer? O que traz de bom? O que esses estudantes fazem? Uma das minhas primeiras hipóteses para a ausência de estudos sobre IC foi que se tratava de um tema meio perdido entre diversas áreas; pensava: “interessa para quem estudar esse tema?”. Encontrei trabalhos nas áreas da Economia, Sociologia, Administração, Medicina, e não há uma área específica que estude a modalidade. Não é um tema habitual na Educação também, pois não há linhas de estudo sobre a formação do pesquisador. 

E. Onde se faz mais Iniciação Científica: nas universidades públicas ou nas privadas?

L.M. Há mais projetos, infraestrutura e incentivo para a realização de pesquisas nas públicas, o que implica em, consequentemente, mais bolsas de IC concedidas aos estudantes. Essa discrepância não está condicionada ao modo de distribuição das bolsas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq), mas à demanda pelas instituições de ensino do país. Há uma relação direta com a falta de investimento das universidades privadas na pesquisa, fazendo com que essas instituições tenham menos projetos e, consequentemente, menos solicitações de bolsa. No mundo, as instituições de ensino superior normalmente não possuem programas institucionais de iniciação à pesquisa tal como ocorre com as universidades brasileiras. A atividade de Iniciação Científica, quando acontece, ocorre de maneira mais informal, ou é enquadrada como pesquisa de estudantes de graduação. Essa é uma vantagem muito grande do Brasil, e infelizmente não se mantém mais esse grau de investimento, mas historicamente esse aporte foi fundamental para a competitividade brasileira na ciência. A partir de meu pós-doutorado, sobre a formação do orientador, é possível supor que o que mais influencia um docente na forma como ele vai orientar um projeto de IC é o próprio modelo de orientação que ele vivenciou como estudante. O caminho seria abrir a caixa-preta da orientação, com trocas de experiências bem-sucedidas entre os orientadores, discussões entre eles sobre problemas que tiveram com os orientandos, estratégias adotadas. Uma experiência interessante que identifiquei, na Universidade de Joanesburgo, foi um programa inteiro de especialização voltado para a formação de orientadores. Poderíamos pensar em cursos mais estruturados, que desenvolvam as habilidades que os orientadores devem ter, ou pelo menos espaços de discussão nos cursos de pós-graduação. Não temos ainda muita clareza sobre como seria uma Pedagogia da Orientação, que já está sendo discutida em outros países. Minha pesquisa apontou que a formação em Educação do orientador parece favorecer esse olhar sobre a orientação, mas não é a única possibilidade. Trazer o tema à tona seria uma contribuição muito importante para a universidade, para os programas de pós-graduação, para os orientadores e para os orientandos. 

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Imagem: arquivo pessoal

 

E. Apesar de muitos pesquisadores serem contemplados com bolsas, uma outra parcela considerável dá continuidade às suas pesquisas voluntariamente. Ainda que se saiba que isso ocorre, principalmente, porque a quantidade de bolsas é escassa, você acredita que não obter o aporte financeiro influencia a motivação dos estudantes voluntários envolvidos nesses projetos? 

L.M. A dissertação de Camila Alves Fior, desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostrou que estudantes que adquirem bolsas se sentem mais motivados, porém vários estudos apontam para a escassez das bolsas, o que representa uma oportunidade para poucos. Trata-se de mais um fator que reforça a necessidade de cada um desses estudantes primeiro se inteirar sobre como se faz pesquisa na universidade, o que é estudado, tendo a chance de experimentar e verificar se, de fato, aquilo o interessa. São cuidados que evitariam, no mínimo, que a IC passasse a ideia de elitização, embora órgãos de fomento exijam desempenho de excelência dos candidatos a bolsas de estudo. Enfrentamos dificuldades em cursos com disciplinas de exatas, que têm exigências muito altas, como nas disciplinas de Cálculo, e há estudantes que por um baixo desempenho nessas disciplinas nunca mais conseguem bolsas, sequer de mestrado e doutorado. A bolsa acaba, infelizmente, discriminando, e nem sempre pelos motivos mais justos. Seria uma ótima oportunidade de a universidade mostrar a esses estudantes outros recursos, outros caminhos para quem gosta de realizar pesquisa. Além disso, há estudantes que assumem um projeto de IC com o objetivo de seguir a carreira acadêmica. Com os crescentes cortes e a condição atual de realizar pesquisa no Brasil, qual o estímulo dessas pessoas? Ainda que os estudantes possam atuar de forma voluntária na IC, é importante que esses projetos sejam institucionalizados, pois cria-se um cenário que estimula aquele pesquisador a entregar um relatório e participar de eventos, abrindo a possibilidade de vivenciar essa experiência de forma mais completa, o que só agrega à sua formação. 

E. Existe pessoalismo na escolha, pelos orientadores, de projetos e estudantes a serem orientados?

L.M. Existe e ele é muito importante. Como se trata de uma relação muito próxima, se a expectativa de um em relação ao outro não é atendida, a chance de o projeto dar errado é muito grande. Se o encaixe não existir, quando falamos de estilo de trabalho, expectativa e motivação, o processo pode ficar comprometido. Claro que tudo não pode se resumir a características pessoais, e o ideal é objetivar um pouco mais as escolhas. 

E. Da parte do estudante, existe um perfil que mais comumente se aproxima da IC?

L.M. O perfil do estudante não nasce com ele. A Iniciação pode favorecer determinadas habilidades não tão presentes, a princípio, e é por meio da IC que ele tem a chance de desenvolvê-las, e é obrigação da universidade oferecer as melhores oportunidades para todos. A referência sempre é a pesquisa. Se, ao pesquisar, o estudante sentir uma inquietação muito grande e desejar responder a uma pergunta pelas vias científicas, isso envolve investimento nessa curiosidade para saber que, talvez, no final do processo, ele não obtenha toda a resposta que queria. 

Tem pessoas que acreditam que a ciência é feita de certezas. Eu acredito que quem tem essa visão não deveria seguir a carreira acadêmica. A ideia é que você não queira ficar livre de sua pesquisa. Você fez uma pergunta, não conseguiu respondê-la plenamente e continua perguntando de outras formas para obter respostas, ainda que parciais, sobre a mesma questão. 

Acredito que não seja um perfil muito comum de estudante. Perceber se um estudante se dispõe a investir em torno de um ano para responder a uma única pergunta já é um critério a ser considerado no desenho desse perfil. Para quem gosta de coisas mais pragmáticas e imediatas, acredito que o próprio mercado de trabalho será mais satisfatório.

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E. Participar de um projeto de IC na graduação favorece a entrada no mercado de trabalho?

L.M. Determinadas qualidades que o estudante desenvolve durante a IC, como responsabilidade, maturidade e criatividade, com certeza repercutem no mercado de trabalho. Um estudo da Vera Lúcia Alves Breglia, docente da Universidade Federal Fluminense (UFF), mostrou que os orientadores acreditam que estudantes que passaram pela IC têm um diferencial no mercado justamente por já ter tido espaço para desenvolver essas competências. Porém, é importante saber que essa não é a principal função da IC; ela prepara para a pesquisa acadêmica. 

E. A Iniciação Científica é uma oportunidade de ensinar aos estudantes, desde cedo, como efetuar a divulgação e a comunicação da ciência à sociedade?

L.M. É um aspecto a mais a ser explorado nos projetos de IC. A vantagem, para o estudante de graduação, é que ele está muito mais próximo da sociedade, dos estudantes de ensino médio (há meses atrás ele próprio estava naquela posição). Ele tem uma vantagem em relação à linguagem, algo mais difícil para o pesquisador que já está há mais tempo na universidade e se distanciou dessa forma de comunicação. Por outro lado, devido à orientação em cascata e ao modelo de IC comum nas universidades públicas brasileiras, corre-se o risco de que o estudante sequer entenda seu projeto; e se não entende, não está apto a explicá-lo. Volto naquele questionamento anterior: “Qual o sentido de o estudante estar envolvido em um projeto que ele sequer entende?” Há um grande potencial no desenvolvimento da divulgação científica aí, e a própria universidade poderia pensar em outras formas de comunicação, por exemplo, nos Congressos de Iniciação Científica. Depende muito, também, do tipo de pesquisa que é desenvolvida. Há pesquisas que se aproximam muito mais dos interesses da sociedade e há outras que são muito específicas – o que dificulta ao estudante de IC traduzir esse conteúdo. 

E. Qual o cenário sobre o entendimento do papel da Iniciação Científica na graduação?

L.M. Há estudos, mas eles são poucos, destaco, como o de Lucia Cristina da Cunha Aguiar, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que apresentam a orientação de projetos em cascata – um perfil comum nos programas de pesquisa no Brasil. Na prática, isso significa que é comum observar um pesquisador com pós-doutorado orientar outro no doutorado, um pesquisador no doutorado orientando um estudante de mestrado, e um estudante de mestrado orientando um estudante de IC. Proporcionalmente, orientar um estudante de IC é muito trabalhoso, principalmente se a opção é por um viés mais formativo, e não é isso que os docentes costumam priorizar. Sobre a autonomia do estudante na IC, há projetos em que os estudantes atuam meramente como técnicos de laboratório e outros em que ocorre a inserção do estudante por meio do projeto do grupo, denominado por Lívia Mathias Simão de Projeto Integrado - em detrimento de um projeto próprio, denominado Projeto Individual. São casos que podem dificultar que o estudante entenda mais profundamente aquilo que pesquisa. Já o orientador que não adota a orientação em cascata e o projeto integrado acaba se deparando com um processo mais trabalhoso. Isso por que, para um orientando de IC, o docente precisa ensinar muitas outras questões envolvidas na pesquisa, como normas da ABNT, o que é Currículo Lattes e a própria escrita científica. O economista brasileiro Cláudio Moura Castro defende que 50% do tempo da orientação concentra orientações sobre língua (estilo, clareza e adequação). Existe um investimento do orientador naquele processo e se ele não o enxerga como uma atividade formativa, não investe. Qual a publicação que será gerada de uma pesquisa de IC? Se o docente se envolver em um projeto de IC com potencial de publicação, talvez o estudante não consiga desenvolver devido à complexidade. Se a pesquisa for mais adequada para o discente, provavelmente não vai converter-se em um resultado original e publicável. Os orientadores acabam fazendo, portanto, escolhas. Talvez o que falte seja uma estrutura institucional, uma rede de apoio para o orientador nesses processos, por exemplo, contar com estrutura da biblioteca para ensinar sobre revisão bibliográfica, normas da ABNT, plágio, etc., assim como o apoio de outros docentes mais focados na parte da escrita. Nesse sentido, a IC seria mais eficiente. Tanto nas universidades públicas como nas privadas. Esses profissionais estão disponíveis. O problema é que, institucionalmente, essa rede de apoio não é mobilizada, faltam programas que orientem as capacitações. 

 

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Luciana Massi apresenta o livro Aprendizagens da Docência no Ensino Superior,  organizado por ela e por José Guilherme da Silva Lopes,  professor associado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) / Imagem: arquivo pessoal

 

E. Essa distorção da finalidade da Iniciação Científica faz com que o estudante priorize a metodologia em detrimento da dedução, engessando seu desenvolvimento?

L.M. Isso vai ao encontro de um questionamento comum sobre o momento certo de um estudante de graduação ingressar na Iniciação Científica. Muitos autores defendem que a entrada antecipada pode ser uma faca de dois gumes. Por um lado, a chance de se envolver na pesquisa científica, se aprofundar e avançar são maiores. Por outro, se ele escolhe uma área específica para estudar logo cedo, a tendência é ele permanecer nessa linha ao longo de toda a sua jornada acadêmica, afastando-o da experiência com outras áreas. Se ele fica extremamente especializado perde a dimensão do todo. 

E. Quais os mecanismos que as universidades dispõem, atualmente, para o enriquecimento da experiência na IC por estudantes e docentes?

L.M. O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) surge na década de 1980 como grande incentivador das bolsas de IC nas universidades. Porém, o programa obriga apenas que a instituição tenha um processo seletivo para a distribuição das bolsas, organize eventos de divulgação dos resultados das pesquisas e que os discentes produzam relatórios. Isso faz com que cada orientador conduza o processo de pesquisa de uma forma completamente diferente e individualizada. Desde esses modelos de orientação em cascata até os projetos integrados, o que provavelmente, para o estudante, vai ter uma contribuição formativa mínima, dado que executará funções meramente técnicas, sendo acionado quase que como um funcionário, até esses modelos que exigem todo um investimento de ensino global, que o orientador tenha que fazer sozinho, meu questionamento é esse: “por que não há uma regulamentação, um acompanhamento da orientação mais precisa pela universidade?” Ninguém se forma para ser orientador; e talvez esse mesmo docente não perceba o potencial formativo da orientação de Iniciação Científica. Como cobrar isso dele, então? Institucionalmente, poderiam ser criados mecanismos não de avaliação, punição e controle, mas de suporte e de acompanhamento. Resultados da pesquisa de Jamile Cristina Ajub Bridi, conduzida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), revelam que, entre 400 estudantes avaliados, 53,8% já experimentaram algum tipo de decepção na IC, sendo com o orientador a mais frequente (17,7%). Temos que tomar cuidado, no entanto, para não demonizar os orientadores, que estão executando uma tarefa para a qual não foram formados, ao que se soma sua disponibilidade cada vez menor e a falta de suporte institucional organizado.

E. Como você analisa a influência da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão no desenvolvimento da IC?

L.M. A Iniciação Científica começou logo após a criação das primeiras universidades no Brasil. O Cnpq foi um dos principais órgãos que estimulou a criação da Iniciação Científica e a oferta de bolsas remonta a 1963, um modelo fortalecido após a instituição do Pibic na década de 1980. O aumento do número de bolsistas veio acompanhado da assimetria na distribuição de bolsas e no incentivo à pesquisa pelo país. Excetuando-se São Paulo, onde a presença da Fapesp é muito forte, os outros estados contam com poucas bolsas das FAPs, dependendo muito mais do Cnpq como órgão de fomento, embora a Iniciação Científica se expanda e abranja hoje, inclusive, estudantes de ensino médio. Com a adoção da indissociabilidade, a partir da Lei da Reforma Universitária de 1968, houve um fortalecimento da pesquisa nas universidades. Parece-me que, nas universidades públicas, essa questão está bem resolvida, mas, por outro lado, há uma dimensão da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão não tão presente. A ideia inicial era que a pesquisa se tornasse objeto de ensino e se transformasse em uma ação de extensão. Esse modelo funciona se o que eu pesquiso for, necessariamente, aquilo que eu ensino e levo à população. 

Mas volto ao questionamento: todas as pesquisas têm condições de atender a esse critério? Há pesquisas necessárias que nem sempre possuem implicações diretas na sociedade, nem precisam ser objeto de ensino na graduação, por exemplo. Tratam-se dos estudos mais teóricos ou aprofundados sobre um tema específico, que podem chegar à sociedade - porém, não de forma imediata.

 
Publicado em Edição 13

O embate entre o método científico e as formas de contestação à ciência em questões como a imunização pelo uso de vacinas, o surgimento de pandemias e o aquecimento global

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Arte: Ana Carolina Fagundes , com imagens: ESO/Igor Chekalin (estrelas), Pixabay (árvores secas), standret / Freepik (crianças), rostichep/Pixabay (abelha morta)

Da redação

Agradecemos a Zysman Neiman, pesquisador e professor associado da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que efetuou a revisão técnica deste artigo. O docente foi um dos redatores do tema transversal voltado ao Meio Ambiente, dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o Ensino Fundamental do MEC (1998), e atualmente preside o Conselho Curador do Instituto Physis - Cultura & Ambiente e a Sociedade Brasileira de Ecoturismo (SBEcotur), uma entidade científica. É autor de diversos livros nas áreas de Ecologia, Educação e Meio Ambiente, além de editor-chefe da Revista Brasileira de Ecoturismo (Qualis B1) e da Revista Brasileira de Educação Ambiental (Qualis B2).

É fato aceito pela maioria da comunidade científica – embora contestado por uma parcela de seus membros – que as mudanças climáticas são produzidas pela atividade humana, gerando graves consequências para o meio ambiente como: perda da biodiversidade, acidificação de oceanos, colapso de ecossistemas, extinção de espécies, derretimento de geleiras e mantos de gelo das regiões polares (com a consequente elevação dos níveis do mar e avanço sobre ilhas e zonas litorâneas), surgimento cada vez mais frequente de pandemias e repetição de eventos extremos como secas prolongadas, chuvas torrenciais e tufões. De acordo com Yuval Noah Harari, autor do livro 21 Lições para o Século XXI, “se continuarmos no curso atual, isso [degradação de habitats e extinção de animais, plantas e ecossistemas] não apenas causará a aniquilação de um grande percentual de todas as formas de vida como poderá também solapar os fundamentos da civilização humana”.

As pandemias estariam ligadas às mudanças climáticas e, principalmente, à perda do habitat natural de animais silvestres, devido ao desmatamento; esses animais, então, aproximar-se-iam de assentamentos humanos, transmitindo doenças. A escritora e repórter Eliane Brum, em seu artigo O Futuro Pós-Coronavírus Já Está em Disputa, publicado em abril de 2020 no jornal El País, aponta que a chegada da covid-19 pode ser considerada o maior desafio do século XXI. A gripe espanhola, em 1918, que guarda certas semelhanças com a atual pandemia, matou de 17 a 50 milhões de pessoas no mundo. A peste bubônica, na década de 1340, matou aproximadamente um terço da população da Europa (os dados não são precisos), embora essa epidemia sempre ressurgisse em surtos em diferentes locais e épocas.

Há pensadores que compreendem a crise climática como geradora desses eventos e há ainda, infelizmente, os que seguem às voltas com dilemas do século XX, nos quais o dogma do crescimento é construído sobre a possibilidade de explorar infinitamente os recursos de um planeta com recursos finitos. Em 2018, o Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) apontou que a temperatura média global na superfície terrestre subiu 1oC desde a era pré-industrial e que haverá um aumento de 1,5oC até 2030 se não forem adotadas medidas consentâneas com o desenvolvimento sustentável, tais como aproveitamento de novas fontes de energia, alteração radical nos padrões de consumo e transformação dos sistemas produtivos.

Entre os inúmeros trabalhos sobre o tema, citamos o estudo de pesquisadores das Universidades de Berna (Suíça) e Múrcia (Espanha), publicado na revista Nature, que reconstruiu as condições climáticas dos dois últimos milênios, concluindo que o aquecimento global, a partir do século XX, foi o maior no período analisado. Os registros climáticos foram obtidos a partir de dados instrumentais e, indiretamente, pela análise de anéis de árvores, corais e sedimentos de lagos. Os achados do estudo indicaram que o aumento das temperaturas médias ocorreu simultaneamente em mais de 98% do globo terrestre e que as taxas de aquecimento excederam claramente a variabilidade natural.

Os céticos argumentam, entretanto, que o clima da Terra é cíclico, alternando períodos de resfriamento e aquecimento, razão pela qual não se pode atribuir a causa deste último ao aumento do efeito estufa pela ação humana. Mesmo que se admita a existência dessa alternância cíclica, é fato razoavelmente comprovado pelos dados já obtidos por cientistas em todo o mundo que as ações humanas têm acelerado o processo de aquecimento. Como o fenômeno das mudanças climáticas não está, ainda, totalmente esclarecido, é mais sábio obedecer ao princípio da precaução, optando pela conservação de recursos naturais e pela adoção de práticas sustentáveis.

Diante das questões expostas anteriormente, é possível concluir que a negação da realidade passa pela rejeição dos métodos científicos empregados, até o momento, para chegar às conclusões aceitas globalmente – ao menos, no que tange às mudanças climáticas. Essa negação pode ser intencional e caracteriza um método de manutenção do poder que pode ter vários efeitos sobre os cidadãos, sendo o principal deles, nos tempos atuais, o de ocupar o noticiário e sequestrar o debate com falsos dilemas, como o do “isolamento ou não isolamento,” ou da “saúde versus economia”, no caso das pandemias. Pode denotar, também, falta de confiança na ciência, decorrente da falta de entendimento sobre como opera o método científico. 

Independente do motivo que o faz manifestar-se, o problema maior da negação da realidade é que ela produz novas realidades, muitas vezes danosas à sociedade. A pandemia do coronavírus veio e escancarou esse fato, do qual ninguém poderá mais fugir. Cabe à ciência trazer novas respostas aos dilemas do século XXI, sob o risco de não sobrevivermos enquanto espécie, caso ela fracasse nessa tarefa. Por isso, o desafio que se impõe aos jovens cientistas é imenso, e o fortalecimento da confiança na ciência dependerá do diálogo e das estratégias de aproximação que pesquisadores e instituições se propuserem a realizar com a sociedade, 

Aos estudantes de graduação que se engajarem nos projetos de Iniciação Científica, por exemplo, compete aceitar a tarefa de difundir o conhecimento científico, superando as barreiras que separam a academia do cidadão comum. Nesse sentido, a divulgação e a popularização da ciência deveriam constar dos objetivos prioritários desses programas institucionais, que já preveem a exposição de pôsteres e a apresentação pública de trabalhos. Além de constituir um instrumento para a prestação de contas à sociedade sobre os recursos públicos canalizados para determinado projeto, a divulgação científica – conforme ressalta o professor Ennio Candotti – promove a circulação de ideias e resultados alcançados em uma pesquisa, permitindo avaliar seus impactos sociais e culturais.

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Descartes (à dir.) criou o sistema de coordenadas cartesianas, enunciou as leis de reflexão e refração da luz e, como filósofo, instituiu o método racional, cujas regras permitiriam estender a certeza matemática a todas as áreas do saber. Galileu estudou a queda dos corpos e o movimento uniformemente acelerado; aperfeiçoou o telescópio refrator e fez importantes observações astronômicas. Acusado de heresia pelo Santo Ofício, abjurou a doutrina do heliocentrismo, que defendia. 
Arte: Ana Carolina Fagundes , com imagens: ESO/Igor Chekalin (estrelas) e Wikimedia Commons (Tales de Mileto, Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Principia philosophia, manuscrito Timeo, Cosmographia

Principais sistemas explicativos desde a Antiguidade

Efetuando um breve retrospecto sobre as principais teorias e sistemas explicativos sobre o cosmo que vigoraram desde a Antiguidade, devem-se mencionar inicialmente os filósofos pré-socráticos (séculos VI e V a.C.), que, mediante especulações filosóficas, desenvolveram um conhecimento racional sobre o universo, sem recorrer a explicações derivadas da mitologia. Entre os temas sobre os quais discorreram, figuram: o conhecimento verdadeiro (oriundo da razão) em oposição ao conhecimento captado pelos sentidos; a constituição do mundo material pelos elementos originários (physis); a mutabilidade das coisas e a unidade do ser; e o paradoxo do movimento, analisado por meio de argumentos lógicos. Nomeamos alguns desses filósofos: Tales de Mileto (c. 625 a.C. - [?]), Pitágoras de Samos (séc. VI a.C.), Parmênides (c. 540 - c. 450 a. C.), Heráclito de Éfeso (544 - 480 a. C.) e Demócrito (460 - 370 a. C.). 

No século IV a.C., Aristóteles (384-322 a.C.) produz uma obra de alcance universal, que até hoje continua a ser referência nas áreas de lógica, ética, política e retórica. Para esse filósofo, a ciência deve apresentar coerência interna, reportar-se à realidade e articular de modo lógico as verdades enunciadas. Pode-se chegar a uma conclusão verdadeira por meio do silogismo, que é o modelo de raciocínio que relaciona duas premissas – a maior e a menor –, sendo ambas também verdadeiras. Nesse caso, temos a dedução (ou o método dedutivo), que é própria da demonstração matemática. O conhecimento empírico também fornece base à formulação de conceitos científicos, de caráter geral. Por meio da indução (ou do método indutivo), chega-se à generalização na forma de um conceito, partindo-se da observação de casos singulares que se repetem.

A física aristotélica – de natureza qualitativa e integrada às concepções metafísicas desse filósofo – foi superada pelas descobertas de Nicolau Copérnico (1473 - 1543), astrônomo polonês, que propôs o heliocentrismo. Esta doutrina alterou a concepção vigente sobre a estrutura do universo, refutando também o geocentrismo de Ptolomeu (século II d.C.), que vigorou por 14 séculos.

Durante a Idade Média, prevalece o teocentrismo, atribuindo-se autoridade científica aos textos bíblicos. Nesse período, filósofos cristãos buscaram conciliar em seus escritos a razão e a fé, corporificadas nas teorias de Platão e Aristóteles e nas verdades contidas nas escrituras sagradas.

No século XVII, o surgimento de novas teorias científicas e processos investigativos propiciaram um avanço extraordinário da ciência. Os filósofos que então produziram os conteúdos mais relevantes na área da metodologia científica foram Francis Bacon (1561-1626) e René Descartes (1596-1650). O primeiro, adepto do empirismo, sistematizou os procedimentos que deveriam levar à construção do conhecimento científico, instituindo o método indutivo para a enunciação de leis científicas. O segundo, matemático e cientista, formulou o método racional-dedutivo, baseado no modelo matemático, por meio do qual seria possível estabelecer um sistema de conhecimentos seguramente verdadeiros.

Nessa época, uma das figuras de maior preeminência foi Galileu Galilei (1564-1642), professor de matemática e autor de estudos pioneiros na área de física e astronomia. Defendeu a teoria heliocêntrica de Copérnico e formulou os princípios do método matemático-experimental, que se baseava em experimentos e medição dos fenômenos observados. Enunciou leis físicas, expressas matematicamente, invalidando a física qualitativa de Aristóteles.

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Arte: Ana Carolina Fagundes , com imagens: ESO/Igor Chekalin (estrelas), Freepik (cientista, painel solar), Jan Alexander/Pixabay (setas),  Alex Reipert (planta), WikiImages/Pixabay (planeta terra)

Contestação à ciência

O esforço para construir o conhecimento racional sobre a realidade material exigiu o emprego de técnicas e procedimentos cada vez mais rigorosos que demarcaram os limites entre o que era ou não considerado científico. A ciência, que serviu de base à tecnologia, avançou, possibilitando o enorme progresso em todos os setores da atividade humana, mas seus benefícios não foram distribuídos igualitariamente (avalie-se, por exemplo, a atenção insuficiente dedicada ao estudo das doenças tropicais). Nesse contexto, cabe refletir sobre a finalidade do saber produzido e os princípios éticos que o orientam. O filósofo e historiador Michel Foucault (1926 – 1984) faz uma conexão entre conhecimento e poder, intelecto e vontade. Para o autor, não só o conhecimento gera poder, mas o poder produz conhecimento, de modo que o cientista não atua externamente ao seu momento histórico e não ocupa um lugar privilegiado de total liberdade, pois o conhecimento por ele produzido se torna poder para a esfera política dominante.

Secundariamente, questiona-se até mesmo a crença na infalibilidade do método experimental, erigido em dogma pelo cientificismo. Essa doutrina filosófica, vinculada ao positivismo, postula a superioridade da ciência sobre todas as outras formas de conhecimento, embora não tenha aceitação irrestrita entre os cientistas. Mais recentemente, as ciências humanas retomam essa discussão e transformaram os próprios “saberes tradicionais” em objeto de pesquisa, numa busca de valorização de outras lógicas empíricas (ou não) na busca de conhecimento.

A questão do método parece também impulsionar a onda atual de contestação à ciência, que é disseminada pelas redes sociais. Segundo Tatiana Roque e Fernanda Bruno, docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aponta-se uma crise nos modos de aferição da verdade que fundamentam o método científico, pois há desconfiança em relação à competência de especialistas, que selecionam determinadas evidências em detrimento de outras, também relevantes. Obviamente, pode-se arguir – no caso – que o método é neutro, embora sua adequada aplicação dependa da intencionalidade do pesquisador e de seu compromisso em especificar as condições nas quais as hipóteses foram testadas. Há também limites impostos à ciência, os quais dependem de fatores contingentes como recursos financeiros, pressões externas e interesse objetivo do profissional no desenvolvimento da pesquisa.

A contestação aos argumentos científicos, substituídos por crenças e valores individuais, aparece também em outras questões polêmicas, que analisaremos a seguir. O relatório da organização britânica 

Wellcome Trust, publicado em 2019, analisou os níveis de compreensão, interesse e confiança na ciência em uma amostra de 140 mil indivíduos pertencentes a mais de uma centena de países. No Brasil, por exemplo, as convicções religiosas têm primazia para 75% dos entrevistados, quando há um confronto entre ciência e religião. Nos Estados Unidos, esse percentual corresponde a 60%.

O mesmo relatório aponta que a desconfiança em relação à eficácia das vacinas é maior nos países desenvolvidos. Esse fato é comprovado pelo aumento de 400% no número de casos de sarampo na Europa, os quais – segundo a Organização Mundial da Saúde – saltaram de 5.273 para 21.315 entre 2016 e 2017. Na França, um terço da população demonstra ceticismo em relação à segurança dos imunobiológicos, atitude que é em parte explicável considerando-se que, em 1998, houve a publicação de um artigo do cirurgião Andrew Wakefield na revista Lancet, o qual relacionou a tríplice viral a casos de autismo (essa relação foi negada em estudos posteriores, tendo sido também verificada a manipulação de dados por parte de Wakefield). No Brasil e em países com baixos índices de desenvolvimento social – como Bangladesh e Ruanda – , a ampla maioria da população reconhece os resultados benéficos das vacinas.

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Pesquisas no mundo todo buscam explicar se (e como) ação humana interfere no clima

Ação humana como principal fator associado às mudanças climáticas é consensual, e posicionamentos contrários carecem de evidências consistentes

A climatologia está no centro de um dos debates mais polarizados da atualidade, que se apresenta como confronto entre os defensores do aquecimento global antropogênico e aqueles que rejeitam sua existência. A instituição-chave para a elucidação desse tema é o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, mais conhecido pela sigla IPCC (de sua denominação em inglês: Intergovernmental Panel on Climate Change), uma organização político-científica criada em 1988 no âmbito das Nações Unidas (ONU) por iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM). Seu propósito é o de sintetizar e divulgar o conhecimento produzido por cientistas do mundo todo sobre as mudanças climáticas que afetam o planeta – especificamente, o aquecimento global –, apontando seus efeitos e riscos para a humanidade e o meio ambiente e sugerindo maneiras de combater suas causas.

Principais fatos da evolução da ciência climática ligada aos gases de efeito estufa (até a década de 1960)

  • Na década de 1820, Jean-Baptiste Joseph Fourier (1766-1830), físico e matemático francês, observou que a energia do sol (“calor luminoso”) atravessava a atmosfera e aquecia a superfície terrestre, ao passo que o “calor não luminoso” (radiação infravermelha) não retornava facilmente para o espaço.
  • Por volta de 1860, John Tyndall (1820-1893), físico irlandês, supôs que as mudanças climáticas estariam ligadas às variações na composição da atmosfera. Seus experimentos mostraram que o vapor d’água e o dióxido de carbono tinham a propriedade de reter o calor.
  • Na década de 1890, o químico sueco Svante Arrhenius (1859-1927) verificou que se intensificara a concentração de dióxido de carbono em razão das emissões naturais – oriundas, por exemplo, da atividade vulcânica – e da queima de carvão pelas fábricas. Essa condição produzia certo grau de aquecimento. Segundo os cálculos de Arrhenius, haveria um aquecimento médio de 5ºC a 6ºC na temperatura se a quantidade de dióxido de carbono fosse duplicada.
  • Em 1938, Guy Callender (1898-1964), engenheiro inglês, afirmou que as concentrações médias de CO2 haviam crescido 10% em cem anos, desde o século XIX. Comparando esses dados com os registros de temperatura disponíveis, observou uma tendência de aquecimento. Previu que, nos séculos seguintes, as temperaturas manter-se-iam em níveis mais altos. As conclusões de Callender foram criticadas em relação à seleção dos dados e porque seus cálculos deixaram de considerar variáveis importantes.
  • A partir de 1945, o estudo dos processos atmosféricos foi aprimorado por meio de equipamentos que incorporavam novas tecnologias.
  • Na década de 1950, o surgimento de computadores possibilitou a elaboração de um volume enorme de cálculos, que incluíam a absorção da radiação infravermelha pelas camadas da atmosfera. Nessa época já se sabia que os oceanos podiam absorver parte considerável do dióxido de carbono, mas – conforme atestavam vários especialistas – essa capacidade era insuficiente em razão das emissões desse gás, que aumentavam a taxas cada vez mais rápidas.
  • No final da década de 1950, iniciou-se o monitoramento dos níveis de CO2 por meio de estações de medição instaladas em vários pontos do planeta.
  • Em 1967, Syukuro Manabe, em parceria com Richard Wetherald, desenvolveu o primeiro modelo computacional que simulava o clima global. Com essa ferramenta, foi possível verificar que o movimento do calor por convecção impedia o aumento máximo da temperatura na camada de ar próxima à superfície terrestre.

mudancas climaticas Tercio Ambrizzi Foto Marcos Santos U0Y3746

Tercio Ambrizzi, docente do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas e vice-diretor do Instituto de Energia e Ambiente (IEE), ambos da Universidade de São Paulo (USP). Membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), foi um dos revisores dos dois últimos relatórios da organização (2007 e 2013-2014)

Ambrizzi acredita que cientistas do mundo todo superaram a discussão anteriormente mencionada. Para ele, hoje não se questiona mais (de modo geral) se a atmosfera está aquecendo ou se somos nós que contribuímos para a ocorrência desse fenômeno. O que se tenta prever é quanto esse aquecimento influenciará nossa atmosfera e a frequência dos eventos que se seguirão a esse impacto (secas, chuvas em excesso ou ventanias) – já que os eventos extremos são uma reação atmosférica ao aumento da temperatura. 

“Avaliando a progressão populacional desde o início do século XIX, percebemos que o avanço da expectativa de vida foi sistemático a partir do século passado. Vários fatores contribuíram para isso, mas principalmente a ciência médica. Diminuímos a mortalidade de jovens e adultos com o desenvolvimento de medicamentos e vacinas. 

Desse modo, o usufruto do planeta foi-se tornando mais agressivo, pois, se há um número maior de pessoas, demandam-se mais alimentos, mais medicamentos, mais consumo de água e uso do solo. Soma-se a isso o consumo de energia gerada a partir de combustíveis fósseis. As emissões de gases poluentes também aumentaram, aumentando, por conseguinte, a temperatura global.

Essa conclusão não é nova: no século XIX, uma experiência do cientista sueco Svante Arrhenius calculou que a temperatura da Terra aumentaria 5°C com o dobro de CO2 na atmosfera. A hipótese sobre a mudança do clima veio muito tempo depois, após a 2ª Guerra Mundial. Melhoramos nosso conhecimento, por exemplo, sobre os sistemas atmosféricos na medida em que surgiram os satélites comerciais na década de 1970. 

Naquele momento, começávamos a ter condições de comparar as novas informações com dados do passado para tirar conclusões mais específicas. Foram colocados, lado a lado, os primeiros números registrados pelo homem (1850), informações obtidas em testemunhos de gelo (amostras capazes de revelar informações climáticas de até 800 mil anos atrás) e medições atuais. Concluiu-se que, no passado (há mais de 15 mil anos), houve ligeiros aumentos de temperatura em função da maior quantidade de gás carbônico emitido na atmosfera, mas a variabilidade do CO2 nessa camada se manteve uniforme.”

mudancas climaticas luiz carlos molion

Luiz Carlos Molion, meteorologista brasileiro e docente aposentado da Universidade Federal de Alagoas (Ufal)

Molion não discorda de que há períodos de aquecimento do planeta, mas questiona o fato de que o fenômeno seja causado pelo homem. Para ele, os modelos aplicados pelo IPCC possuem fragilidades no seu rigor científico. Sua visão sobre as oscilações na temperatura da Terra baseia-se na hipótese de Svensmark, formatada por Henrik Svensmark, físico e professor no instituto dinamarquês responsável pela pesquisa em ciência e tecnologia do espaço (Denmark’s National Space Institute – DTU Space), localizado próximo a Copenhague. A hipótese é que, quando o vento solar está fraco, mais raios cósmicos penetram na atmosfera, o que aumenta a formação de nuvens de baixa altitude, que refletem uma parte da radiação solar de volta para o espaço, esfriando o planeta. Svensmark detalhou seu trabalho no livro The Chilling Stars (2007).

“Acredito que o aquecimento observado entre 1916 e 1946 foi natural e ocorreu, muito provavelmente, em decorrência do aumento da atividade solar. O astro tem um ciclo de aproximadamente cem anos e, a partir de 1920, sua atividade se intensificou. 

A redução de 5% na cobertura total de nuvens do planeta é capaz de levar a um aumento de 4 W/m2 no fluxo de radiação absorvida pela superfície terrestre. Esse valor resultaria em um aumento de 1,4°C na temperatura média global. Observa-se que a temperatura aumentou em 0,38°C até 2000 e se estabilizou após esse período com a estabilização da cobertura de nuvens. 

Além disso, é sabido que os eventos El Niño injetam grandes quantidades de calor na atmosfera, tanto na forma de calor sensível como na de calor latente, afetando a temperatura e o clima global. O fenômeno do ano de 1997 elevou a temperatura média global em 0,74°C. 

Concluo que fica claro, também, que a redução de cobertura de nuvens e a alta frequência de eventos El Niño, observada no período de 1983-2000, foram as causas físicas naturais do aquecimentoglobal que decorreu no mesmo período.

A dinâmica movida pela atividade solar e pelos oceanos terrestres é a maior controladora do clima do planeta Terra. Os oceanos, evaporando mais ou menos, regulam a cobertura de nuvens. E, quando se perturba o sistema, surgem outros processos que restabelecem o equilíbrio.”

Referências:
GLOBAL Warming. Criação e produção de conteúdo por Roy Spencer. Desenvolvido com a assistência de Jamon Holmgren, 2008. Apresenta artigos científicos sobre o aquecimento global, cujas causas são atribuídas a processos naturais e não à atividade humana. Disponível em: <http://www.drroyspencer.com/>. Acesso em: 11 ago. 2020.
HANSEN, J. et alii. Climate simulation for 1880-2003 with GISS modelE. Climate Dynamics, Berlim: Springer, v. 29, n. 7-8, p. 661-696, dez. 2007. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007/s00382-007-0255-8>. Acesso em: 9 ago. 2020.
KIEHL, J. T.; TRENBERTH, Kevin E. Earth’s Annual Global Mean Energy Budget. Bulletin of the American Meteorological Society, Boston (Massachusetts, EUA): AMS Publications, v. 78, n. 2, p. 197-208, fev. 1997. Disponível em: <https://journals.ametsoc.org/doi/pdf/10.1175/1520-0477%281997%29078%3C0197%3AEAGMEB%3E2.0.CO%3B2>. Acesso em: 9 ago. 2020.
SVENSMARK, H. et alii. Increased ionization supports growth of aerosols into cloud condensation nuclei. Nature Communications, [s.l.], n. 8, 2.199 [nº do artigo], dez. 2017. Disponível em: <https://doi.org/10.1038/s41467-017-02082-2>. Acesso em: 11 ago. 2020.
THE EARNEST C. Watson Lecture Series: Clouds and Climate Tipping Points. Produção: Caltech Academic Media Technologies. Conferência proferida por Tapio Schneider. Pasadena (Califórnia, EUA): California Institute of Technology, 24 abr. 2019. Canal YouTube, gravação digital (46min44s). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=eGshzvKAM3w>. Acesso em: 11 ago. 2020.

Referências (gerais do artigo):

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BAPTISTA, Gustavo M. O planeta está realmente esquentando? Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 jan. 2010. Tendências/Debates, p. A3. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0601201009.htm>. Acesso em: 20 mar. 2020.

CANDOTTI, Ennio. Ciência na educação popular. In: MASSARANI, Luisa et alii (Org.). Ciência e público: caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Ciência - Centro Cultural de Ciência e Tecnologia da UFRJ, 2002. p. 15-23. Disponível em: <http://www.redpop.org/wp-content/uploads/2015/06/Ci%C3%AAncia-e-P%C3%BAblico-caminhos-da-divulga%C3%A7%C3%A3o-cient%C3%ADfica-no-Brasil.pdf>. Acesso em: 6 abr. 2020.

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Editorial

Esta edição da revista Entreteses tem como foco a Iniciação Científica (IC), um programa direcionado à formação científica de jovens durante o percurso da graduação. São reportadas e celebradas diferentes experiências de estudantes de graduação como protagonistas e colaboradores em pesquisas e na produção científica de cada um dos campi da Unifesp.

Nossos cursos de graduação oferecem – de acordo com os respectivos projetos pedagógicos – unidades curriculares (UCs) direcionadas à metodologia científica, além de UCs com aulas práticas, em laboratórios e/ou visitas de campo, que propiciam o contato com os métodos de observação e experimentação próprios a uma área específica do conhecimento. Por meio do programa de Iniciação Científica1, o estudante tem a oportunidade de aprofundar essa vivência, participando ativamente do processo de construção do conhecimento em todas as suas etapas.

Vinculado à linha de pesquisa de um docente da Unifesp, o tema de estudo é definido pelo estudante de IC, em conjunto com o primeiro, incumbindo a ambos a tarefa de estruturar a redação do projeto de pesquisa. O segundo, por sua vez, participa da execução do estudo, com a realização de experimentos e observações, a coleta de dados, a produção de entrevistas e/ou aplicação de questionários, cujos resultados serão posteriormente organizados e interpretados na forma de relatório de pesquisa. Inserido em atividades do grupo de pesquisa do orientador, o estudante de IC amplia a convivência e o aprendizado com outros pesquisadores, pós-graduandos e os próprios colegas. Decorrido um ano, deverá apresentar no Congresso Acadêmico da Unifesp o trabalho desenvolvido, por meio de exposição oral e pôster, perante avaliadores e/ou debatedores da comunidade acadêmica e o público externo. A participação no congresso simboliza uma parte importante do ciclo de produção do conhecimento científico, que resulta do compromisso de divulgação da pesquisa realizada para a comunidade científica e a sociedade em geral.

A experiência em um programa de IC pode ser marcante na definição da trajetória profissional do estudante, sendo apontada por docentes e pesquisadores como um ponto de inflexão na escolha pela carreira acadêmica, conforme nos conta o professor Fábio Cardoso Cruz em artigo desta edição. Apesar de utilizar métodos e procedimentos científicos, a experiência com a pesquisa científica é cheia de imprevisibilidades e desafios. Equipamentos que precisam de manutenção, reagentes importados que demoram a chegar, voluntários que faltam às entrevistas, animais de pesquisa com intercorrências durante o experimento, além de resultados que podem indicar evidências opostas à hipótese da pesquisa, geram – às vezes – a necessidade de reprogramar as atividades previstas originalmente. Para o estudante em formação, essas ocorrências podem trazer angústia e frustração – e, por isso, a necessidade de acompanhamento próximo e acolhimento por parte do orientador e do grupo de pesquisa. Tais atitudes podem, inclusive, ser determinantes para que a experiência da IC seja positiva e construtiva. Em entrevista que concedeu à Entreteses, a professora Luciana Massi, da Unesp, discute a importância do orientador na preparação dos estudantes de IC e no desenvolvimento da pesquisa no país. 

Na Unifesp, a organização do Pibic/CNPq e suas modalidades está a cargo da Pró-Reitoria de Graduação (ProGrad), na perspectiva de que tais iniciativas constituem, antes de tudo, uma oportunidade de formação para nossos jovens universitários. Embora a Iniciação Científica transcorra muitas vezes no mesmo espaço e contexto das atividades de pós-graduação e pesquisa, é necessário priorizar as demandas específicas do orientando no processo de construção do conhecimento. Na ProGrad, a Comissão Institucional de Iniciação Científica, formada por representantes de cada uma das unidades universitárias, responde pela execução ampla do programa, elabora e publica os editais de bolsas, avalia os projetos e organiza a apresentação dos estudantes de IC no Congresso Acadêmico da Unifesp.

O compromisso da Unifesp com o programa de IC é também evidenciado pela manutenção, desde 2009, de uma cota adicional de bolsas remuneradas pelo orçamento da instituição. Essa cota institucional garante anualmente 50 bolsas adicionais a estudantes e projetos aprovados, os quais não seriam contemplados devido à limitação de nossa cota no CNPq. Por outro lado, com a crescente demanda para concessão de bolsas de IC e a escassez dos subsídios, tornou-se importante viabilizar e reconhecer a atuação de estudantes voluntários em projetos de IC. Desde 2010, os projetos e estudantes voluntários, cadastrados na ProGrad, são formalmente reconhecidos, dando direito à certificação da atividade realizada.

Que o conteúdo dos artigos que integram este número da revista estimule nossa comunidade acadêmica a investir na Iniciação Científica como um processo valoroso de formação e construção do conhecimento em proveito de nossos estudantes! Boa leitura! 

[1] Neste texto vamo-nos referir de maneira genérica ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) e às atividades de IC, entendendo que esse programa inclui a modalidade de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Pibiti), além do Pibic - Ações Afirmativas, destinado a estudantes que ingressaram na universidade por meio das cotas.

editorial Isabel Marian Hartmann

Isabel Marian Hartmann de Quadros - Pró-Reitora de Graduação (José Luiz Guerra)

 
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carta placa sol

Carta da reitora

Apresentamos aqui a edição nº 13 da Entreteses. A revista é um importante meio de comunicação não apenas com a comunidade Unifesp, mas também com a sociedade. Tornou-se um veículo de visibilidade e apresentação institucional, além de cumprir um papel relevante na divulgação de nossa produção científica.

Este número da Entreteses tornou-se ainda mais especial por duas razões. Inicialmente porque os dois últimos números foram realizados no contexto dos 25 anos de criação da universidade. Discorremos sobre pesquisa, extensão, projetos, figuras humanas nas diferentes escolas e institutos, representando nossas ações e nossa missão, construída a partir do ponto inicial, em 1933, até alcançarmos a condição de universidade plena, em 2019. No final do ano, o aniversário e as belas homenagens às pessoas e à universidade.

A segunda razão diz respeito ao que assistimos depois – o início de 2020 com notícias que nos preocuparam e que rapidamente nos levaram a ações de reformulação e até de reestruturação das atividades. Uma epidemia mundial, que nos desafiou e tem-nos desafiado desde os primeiros dias. A Unifesp, entretanto, não parou; ao contrário, trabalhou ainda mais. O elemento assustador nos fez reinventar e crescer, com muito esforço e muita dedicação das equipes de trabalho. Após seis meses de atividade na vigência da pandemia, nosso foco continua no ensino, pesquisa e extensão, bem como na assistência proporcionada por nossas estruturas de atendimento.

Por tais motivos e por ter sido uma edição elaborada em meio a um esforço coletivo, quero fazer um agradecimento especial e parabenizar a todos os que se dedicaram à sua realização.

Sem dúvida, o conteúdo é excepcional, pois traz exemplos da qualidade das pesquisas desenvolvidas pela Unifesp. Algumas delas, como a da bengala eletrônica, a da utilização de software livre na criação de equipamento de ultrassom de baixo custo e a da otimização do PCR em tempo real no diagnóstico hospitalar, geraram novas tecnologias e realçam o valor da produção no âmbito da inovação social. Corretamente descrita por nossa agência de inovação (Agits), a inovação social pode colocar-se a serviço de políticas públicas e da assistência em saúde pelo SUS. Ainda no tocante ao avanço da ciência com inserção tecnológica, vemos os estudos para otimizar o armazenamento de hidrogênio. Apreciamos as pesquisas sobre a saúde mental, o desenvolvimento infantil e a relação entre vínculo maternal e desenvolvimento neurológico. Verificamos a busca de novos fármacos para o combate à neurotoxicidade causada pela cocaína, a evolução da Química, capaz de eliminar agentes tóxicos da água, a acidificação dos oceanos e a discussão sobre o marco legal do saneamento básico no Brasil. A Unifesp tem-se destacado e tem sido pioneira na Antropologia e Arqueologia forenses, e esse tema também está presente. A compreensão de elementos culturais ancestrais e as questões do envelhecimento na sociedade têm igualmente espaço neste número.

A importância da ciência é reafirmada nos textos e na entrevista principal, mas – em especial – ressalta-se o mérito dos programas de Iniciação Científica e a dedicação dos professores que se envolvem com a formação de nossos estudantes. Porque, para nós, a formação profissional é também acadêmica e deve ser a mais completa possível. Conhecer a Iniciação Científica e nela atuar é fundamental para o desenvolvimento da universidade, o aprimoramento da pesquisa e, principalmente, a formação de novos pesquisadores. Mesmo aqueles que não pretendem seguir como profissionais no campo da pesquisa podem beneficiar-se da clareza do método científico na tomada de decisões e no conhecimento que é baseado em evidências. Nossos estudantes são a razão da universidade, e esse é o sentido presente em todas as atividades que realizamos. É desse modo que se constitui uma universidade, de um ambiente de estímulo intelectual e da troca constante entre professores, técnicos e estudantes, que juntos buscam o conhecimento e a construção de um mundo cada vez melhor.

Um abraço a todos e boa leitura.

carta Soraya Smaili Reitora MG 0544

Soraya Smaili - Reitora da Unifesp (Fotografia: Alex Reipert)

 
Publicado em Edição 13

Edição traz pesquisas desenvolvidas por estudantes em projetos de IC

Publicado em Notícias Arquivadas
Quarta, 14 Outubro 2020 16:52

Expediente - edição 13

Expediente

A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.

ISSN 2525-5401 (publicação impressa)
ISSN 2525-538X (publicação on-line)

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Reitora: Soraya Soubhi Smaili

Vice-Reitor: Nelson Sass

Pró-Reitora de Administração: Tânia Mara Francisco

Pró-Reitor de Assuntos Estudantis: Anderson da Silva Rosa

Pró-Reitora de Extensão e Cultura: Raiane Patrícia Severino Assumpção

Pró-Reitora de Gestão com Pessoas: Elaine Damasceno

Pró-Reitora de Graduação: Isabel Marian Hartmann de Quadros

Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa: Lia Rita Azeredo Bittencourt

Pró-Reitor de Planejamento: Pedro Fiori Arantes

Jornalista responsável/Editor: Walter Teixeira Lima Junior (MTB 23.663/SP)

Coordenação: Valquíria Carnaúba

Reportagem: Daniel Patini, Denis Dana, José Luiz Guerra, Juliana Cristina de Paula, Matheus Campos, Paula Garcia, Pedro de Biasi, Tamires Tavares e Valquíria Carnaúba

Projeto gráfico e diagramação: Ana Carolina Fagundes

Infografia e ilustração: Ana Carolina Fagundes / Créditos indicados nas imagens

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Fotografia: Alex Reipert / Créditos indicados nas imagens

Capa: Alexandre Nunes de Moura e Souza e Alex Reipert 

Tratamento e pesquisa de imagens: Alex Reipert / Ana Carolina Fagundes

Conselho Editorial: Lia Rita Azeredo Bittencourt, Karen Spadari Ferreira, Débora Cristina Hipólide, Camilo Lelis, Ricardo Pimenta Bertolla, Andréa Slemian, Marimélia Aparecida Porcionatto, Vera Raquel Aburesi Salvadori

Conselho Científico: Ivo Silva Junior, Olgária Chain Feres Matos, Renato Janine Ribeiro, Ruy Ribeiro de Campos Jr., Paulo Schor e Fulvio Alexandre Scorza

Revista Entreteses n° 13 – Outubro/2020 
www.unifesp.br/entreteses 
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Tiragem: 2.000 exemplares

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL

Direção: Walter Teixeira Lima Junior 

Jornalismo: Daniel Patini, José Luiz Guerra, Juliana Cristina de Paula, Paula Garcia, Tamires Tavares e Valquíria Carnaúba

Design: Ana Carolina Fagundes e Alexandre Nunes de Moura e Souza

Fotografia: Alex Reipert

Audiovisual: Gabryelle Pereira da Silva, Jean Carlo Silva, Loiane Caroline Vilefort e Reinaldo Gimenez (coordenação)

Mídias sociais: Rosangela Gonçalves Martins

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Técnica em secretariado: Juliana Mastrullo

Assessoria de imprensa: Ex Libris Comunicação Integrada Tel.: (11) 3266-6088 - ramais: 201, 208 e 225

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Publicado em Edição 13
Terça, 13 Outubro 2020 18:44

Edição 13 - Entreteses

Iniciação Científica: desenhando o futuro

Outubro 2020

Em 2020, a importância da ciência ganhou notoriedade com a pandemia de Covid-19. Pesquisadores de diferentes países se voltaram para o entendimento sobre como o vírus se comporta em seu hospedeiro acidental, o ser humano, para desenvolver coquetéis ou vacinas e, assim, frear a sua propagação. Independentemente de haver, nesse contexto, interesses difusos econômicos e políticos, de instituições públicas e privadas, a ciência foi acionada, mais uma vez, para servir à sociedade.

Instituições de pesquisa, ensino e difusão científica permaneceram ativas, a fim de levar adiante o conhecimento para além dos muros da academia. E é com esse tom que diversos estudantes da Unifesp são instigados a arriscar o caminho da Iniciação Científica (IC) – o tema da atual edição da revista Entreteses. A modalidade de pesquisa acadêmica é desenvolvida na graduação de universidades brasileiras, em diversas áreas do conhecimento, e se apresenta como um dos inúmeros caminhos pelos quais os universitários podem se enveredar (como o de projetos de extensão e o das empresas juniores).

Pela primeira vez, trazemos ao leitor a possibilidade de compreender melhor esse universo: tratamos de 17 projetos, oriundos dos sete campi da Unifesp (São Paulo, Osasco, Guarulhos, Baixada Santista, Diadema, São José dos Campos e Zona Leste), além do desenvolvido no âmbito da Universidade Aberta do Brasil (UAB/Unifesp). Todos eles têm algo em comum: foco na transformação social. Para um mundo cada vez mais inclusivo, uma bengala eletrônica de baixo custo que se comunica com tecnologias de inteligência artificial aplicadas ao ambiente físico das cidades. Para um planeta que precisa de alternativas em energia limpa, novos métodos de armazenagem de hidrogênio como combustível veicular. Para uma educação em transformação, estratégias educacionais inovadoras inspiradas na gamificação. Para uma sociedade que deseja entender-se a si própria, uma abordagem científica sobre a busca pela espiritualidade.

Além desses temas, trazemos duas novidades que se propõem a auxiliar na compreensão das transformações contemporâneas: a seção Artigo, onde falamos sobre o negacionismo sobre as mudanças climáticas e; a seção Panorama, para a qual convidamos docentes de diferentes áreas para discutir sobre o novo papel da China na geopolítica e economia mundiais.

A Entreteses permanece focada no seu propósito: divulgação científica. O que perseguimos com mais afinco em 2020, contudo, são novas formas de aproximar a produção da ciência na universidade do seu cotidiano.

Desejamos uma boa leitura!

 

Publicado em Entreteses
Segunda, 03 Fevereiro 2020 09:59

Diálogos que ultrapassam fronteiras

Laboratório de Políticas Públicas Internacionais da Unifesp é pioneiro no país

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Imagens ilustrativas - Fotografias: Alex Reipert

Texto: Matheus Campos

Sentados à mesa para tomar café, chá e comer biscoitos, jovens universitários conversam descontraídos, em meio a alguns livros com títulos em inglês e planilhas expostas nas telas dos computadores em volta da sala. Enquanto conclui um trabalho que parece ser uma espécie de banco de dados, uma das estudantes lembra de ferver a água para fazer mais café. O ambiente, apesar de pequeno, é propositalmente acolhedor.

"Quando as pessoas pensam na ideia de laboratório, é natural visualizar recursos que são utilizados para experimentos de ciências biológicas e ciências exatas... um laboratório da área de ciências humanas é bem diferente", provoca Osmany Porto de Oliveira, docente e vice-chefe do Departamento de Relações Internacionais da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) – Campus Osasco. É ele quem coordena o Laboratório de Políticas Públicas Internacionais (Laboppi), onde estudantes de graduação produzem e estimulam o diálogo entre academia e prática - sem deixar o café esfriar. 

Como começou?

Em maio de 2016, Oliveira organizou o Seminário Internacional de Difusão de Políticas, que foi realizado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) em parceria com a Unifesp. O evento, que foi um sucesso, incentivou a discussão sobre a necessidade de se ter um laboratório de políticas públicas internacionais na universidade. "São duas áreas que cresceram de maneira separada. Por um lado Políticas Públicas, que busca entender o que ocorre dentro do Estado, e por outro Relações Internacionais, que olha para o que acontece fora do país", explica o coordenador.

Naquele ano, após algumas reuniões com outros professores do Departamento de Relações Internacionais, o projeto do Laboppi tomou forma na Eppen/Unifesp – Campus Osasco. É um dos primeiros laboratórios no país a estabelecer o elo entre as políticas públicas e as relações internacionais. O espaço de trabalho é compartilhado e foi criado com recursos da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, oriundos da Reserva Técnica para Infraestrutura Institucional de Pesquisa (RTI/Fapesp). "O Laboppi surge para dar uma resposta na Unifesp e no Brasil para essa questão que, apesar de muito recente por aqui, já possui avanços ao redor do mundo no que diz respeito, principalmente, à literatura acadêmica sobre políticas públicas globais", ressalta Oliveira. 

Além de ser um grupo de pesquisa com cadastro no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Laboppi funciona como um programa de extensão e inclui um programa de monitoria. Os encontros acontecem às quartas, entre 12h e 13h30, no período em que os estudantes não têm aula. Toda primeira quarta-feira do mês ainda ocorre o clube de leitura de políticas públicas internacionais, aberta também para o público externo. Os participantes debatem um tema e um livro dentro da área. As obras lidas fazem parte de um acervo criado a partir de doações de editoras acadêmicas. 

Atualmente, o grupo conta com 10 membros de diferentes semestres do curso de Relações Internacionais da Eppen/Unifesp – Campus Osasco. É possível integrar a equipe por meio de um processo seletivo, no qual os interessados devem enviar, por e-mail, uma carta descrevendo os motivos pessoais e profissionais que consideram relevantes para o projeto, juntamente com uma cópia do histórico escolar da graduação. 

Transferência de conhecimentos

Uma das frentes de trabalho do Laboppi é a análise de difusão internacional de políticas públicas, principalmente nas parcerias brasileiras com países da América Latina e da África Subsaariana. "Quando se trata de políticas sociais, o Brasil tem experiências importantes em termos de transferência de conhecimentos para outros países, um exemplo disso é o programa Bolsa Família", destaca Oliveira. Cada estudante escolhe um programa de políticas públicas nacional e um país para o qual foi feita essa difusão de experiências.

Diante das informações obtidas nas análises, os estudantes montam os bancos de dados para entender como funcionam as transferências. Os resultados desse processo são compilados em um documento chamado de Policy Briefing, que é um boletim de políticas públicas muito usado em organizações internacionais e não governamentais. “Trata-se de uma síntese, de cinco a sete páginas, para orientar tomadores de decisão sobre políticas públicas”, explica o coordenador. Esses documentos, que estão sendo concluídos, devem ser disponibilizados em formato digital e com linguagem acessível. 

A partir dessas investigações, Marina Vilas Boas Talietta, monitora do Laboppi, já sabe até qual será o tema do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Estudante do 7º semestre do curso de Relações Internacionais, ela pretende aprofundar um trabalho que realizou no laboratório: uma análise e comparação do programa de transferência de renda condicionada e o programa de segurança alimentar para as Filipinas. “Fiquei encantada com a metodologia do professor Osmany, todos os aspectos que envolvem organização e operação me influenciaram em todo tipo de trabalho que faço na vida”, relata Marina. 

Outras experiências com o Laboppi também marcaram a vida acadêmica da estudante. Em maio de 2018, foi uma das organizadoras da Conferência Internacional sobre Difusão de Políticas e Cooperação para o Desenvolvimento, em São Paulo. No mesmo ano, participou também de um workshop em Brasília sobre o tema. Segundo Marina, a partir desses eventos, ela finalmente entendeu o que significa o diálogo entre academia e prática. “As vivências que o Laboppi possibilita são, inclusive, uma resposta às nossas reclamações anteriores de que o curso de Relações Internacionais tem muita teoria e pouca prática”, conclui. 

Entreteses118 Laboppi1 Equipe Por Matheus Campos

Equipe do Laboppi | Fotografia: Matheus Campos

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Osmany Porto de Oliveira recebe o Prêmio Early Researcher, na 4ª Conferência Internacional de Políticas Públicas, em Montreal

O papel das agências internacionais

Um dos fundamentos do Laboppi é entender o papel das agências internacionais nas políticas públicas, como o Banco Mundial e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). “A OCDE globaliza normas, princípios e modelos de gestão pública para que os governos melhorem desempenho e eficiência de política pública”, explica Oliveira. 

“Assimilar esse conteúdo é de suma importância para os estudantes entenderem programas que impactam a sociedade”, complementa. A respeito do Banco Mundial, por exemplo, as discussões no clube de leitura realizadas no laboratório este ano abordaram o papel que a instituição tem nas reformas da previdência. “A partir do debate com os estudantes foi possível fazer uma comparação entre as reformas que ocorreram nos anos 1990, nos anos 2000 e o que ocorre no momento atual no Brasil, bem como uma análise de reformas da previdência implementadas em outros países”, sustenta Oliveira. 

Novas mídias

Cuidar das mídias digitais, convocar reuniões e organizar os trabalhos individuais de cada membro são algumas das atividades de Beatriz Sanchez dentro do Laboppi. Aos 18 anos, a estudante de Relações Internacionais vê sua experiência no laboratório como uma oportunidade, também, de evolução pessoal. "Eu tenho que fazer o papel de 'chata', fico cobrando, mas desenvolvo características dentro do meu perfil", conta Beatriz. 

A tarefa incumbida a Beatriz de atualizar, por exemplo, a página do Laboppi no Facebook, é uma das mais importantes do projeto. De acordo com Oliveira, as mídias digitais são elementos que possibilitam a difusão de conhecimento para a sociedade. "A geração à qual leciono aderiu ao conteúdo audiovisual e, com o mundo cada vez mais conectado virtualmente, o elo da população com o conteúdo gerado no universo acadêmico é por meio de publicações como podcasts e vídeos", analisa. 

No atual momento, além do Facebook, o Laboppi possui um site, uma conta no Youtube, uma página no Soundcloud e já tem planos para a inauguração de uma conta no Instagram, pois, segundo Oliveira, os estudantes estão muito mais conectados a esta rede social. Paralelamente, o grupo também monitora a Policy Diffusion, uma plataforma global de políticas públicas internacionais. A proposta é que o material produzido pelo Laboppi seja público e que possa ser utilizado por professores, estudantes, funcionários dos governos, membros de ONGs e demais interessados. 

Diálogos com várias esferas da vida

O Laboppi é uma iniciativa essencialmente interdisciplinar e multifacetada. Seja nas atividades presenciais, como seminários, palestras e oficinas, ou nas produções audiovisuais, como os vídeos e podcasts, Oliveira evidencia que "os estudantes são os protagonistas do projeto, com ampla liberdade para sugerir temas de seus interesses dentro da área para trabalhar no laboratório e levar para fora dele, sempre com o intuito de difundir conhecimento”. 

Pelo ponto de vista deles, é um espaço não só de produção científica, análise e pesquisa, mas também se torna um ambiente de amizade e acolhimento, em que mestre e aprendiz dialogam de igual para igual. “Não falava muito em sala de aula, por insegurança e timidez, já aqui, principalmente nos debates, eu me sinto totalmente à vontade, sem medo de julgamentos alheios”, conta a estudante Giovanna Vaz Ferreira. Para o coordenador, é importante que o ambiente seja receptivo, para que os estudantes possam treinar as expressões de ideias de maneira clara e articulada. 

O laboratório rendeu tanto que já está previsto para semestre que vem um documento bilíngue (inglês e português) com elementos norteadores para a difusão de políticas por meio da cooperação para o desenvolvimento, destinado para profissionais que atuam diretamente com o tema. É só um dos inúmeros projetos para estabelecer pontes entre a universidade e a vida, entre o Brasil e o mundo, entre os estudantes e a experiência profissional. E, é claro, tudo isso sem esquecer do café, do chá e dos biscoitos.

O que o Laboppi faz? 

  • Banco de dados 
  • Material didático, técnico e científico sobre políticas públicas
  • Produção de boletins
  • Realização de entrevistas
  • Gravação de vídeos e podcasts
  • Leitura e discussão de textos
  • Organização de seminários, workshops e conferências
  • Produção de documentos: relatórios e briefings
  • Visita de campo
  • Parceria com organizações
 
Publicado em Edição 12
Sexta, 31 Janeiro 2020 16:15

Sustentabilidade na ponta do lápis

O projeto de extensão Pacto Global Experience possui uma proposta ambiciosa: propagar os 17 objetivos apontados na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável

Texto: Valquíria Carnaúba

Desenvolvimento sustentável é aquele capaz de suprir as necessidades da geração atual, garantindo a capacidade de atender as das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro. Essa definição surgiu na Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pelas Nações Unidas para discutir e propor meios de harmonizar três objetivos: o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social e a conservação ambiental. 

Fonte: WWF Brasil

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O protagonismo da Unifesp na concretização dos objetivos que integram a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável no país adquiriu horizontes mais definidos com o projeto de extensão Pacto Global Experience (PGE), criado em 2018 a partir de uma parceria entre a Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) – Campus Osasco e o Conselho Regional de Administração de São Paulo (Crasp). Coordenado por Liége Mariel Petroni, Dan Rodrigues Levy e Elisa Thomé Sena, docentes da Eppen/Unifesp, e por Clarice Kobayashi e Armando Dal Colletto, que integram o Grupo de Excelência do Pacto Global (CPG/Crasp), o PGE almeja contribuir com a consolidação dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e as 169 metas presentes no documento Agenda 2030, assinado em 2015 pelos 193 países signatários da Organização das Nações Unidas (ONU). 

Petroni, Levy e Sena partem do pressuposto de que o tema sustentabilidade é a resposta para crises instituídas ou iminentes da sociedade contemporânea, sendo papel da universidade pública adotar uma postura ativa na propagação das metas estabelecidas – como, outras, a erradicação da pobreza, segurança alimentar, educação, saúde, energia, água, produção e consumo sustentáveis, meio ambiente e mudanças climáticas. De acordo com o projeto, a saída para esse desafio seria a construção de um repertório a partir da troca de saberes entre comunidade acadêmica e sociedade, viabilizada por uma dinâmica específica envolvendo ações internas (desenvolvimento de projetos por docentes, TAEs e discentes) e externas (parcerias com escolas, organizações privadas e públicas e a educação empreendedora em comunidades carentes). 

Petroni explica como isso está ocorrendo na prática. “A fase inicial, concluída no ano de 2019, consiste no envolvimento dos estudantes da Eppen/Unifesp com as questões centrais da Agenda 2030. É a etapa mais difícil, longa e importante do projeto, pois dela se forma a base para o desenvolvimento das ações conjuntas. Já a segunda fase, a das ações práticas, envolve o entendimento da necessidade de adoção dos princípios do Pacto Global e dos ODS e a preparação de porta-vozes para a propagação dessas questões na sociedade. Representa um período de intenso contato com a comunidade interna e externa à universidade”, explica Petroni. Essa etapa iniciou em agosto de 2019 com um cronograma de atividades que inclui o contato com as escolas públicas da região.

O principal trunfo dessa ação extensionista é propagar, no Campus Osasco e entre a comunidade local, a consciência da necessidade de formar cidadãos comprometidos com as dimensões social, política, ambiental, econômica e cultural das principais questões atuais. “É no desempenho de suas funções específicas de ensino, pesquisa e extensão que a universidade tem de pensar sua articulação com a sociedade. Nosso intuito é formar jovens empoderados que se tornem protagonistas dessa história, de modo a contribuir com a formação de uma agenda educativa pautada tanto na produção do conhecimento quanto nas questões afeitas pelas relações com a sociedade, indivíduo e natureza, no que se refere à escala local, global e planetária”, finaliza Petroni.

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Reunião do grupo atuante no projeto PGE no Conselho Regional de Administração (CRA-SP)

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Visita técnica de parte da equipe ao Grupo Urakami - o encontro foi efetuado para que a empresa mostrasse como move sua produção de cogumelos, setor alimentício em que atua, com energia gerada exclusivamente a partir de placas fotovoltaicas

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Os objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável

Liége Petroni, Dan Rodrigues, Elisa Thomé, Clarice Kobayashi e Armando Dal Colletto são unânimes ao afirmar que nos últimos anos, apesar dos importantes avanços acerca da conscientização da sustentabilidade no mundo inteiro, é visível uma frágil vontade política dos governos para a implantação de ações práticas nesse sentido. Conforme consta no projeto original, “essa fragilidade só se resolverá se houver um movimento conjunto entre governos, empresas, sociedade civil, escolas, igrejas e demais instituições. Afinal, se no passado os danos ambientais estavam limitados a determinada região, hoje, com o progresso técnico e internacionalização das economias, eles se tornaram um problema sem fronteiras territoriais”. Na tentativa de unir esforços para a solução de problemas sociais, ambientais e econômicos que se anunciam, 193 organizações signatárias do Pacto Global se comprometeram em 2015 a alcançar esses 17 objetivos:

1 • Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares;

2 • Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável;

3 • Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades;

4 • Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos;

5 • Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas;

6 • Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos;

7 • Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos;

8 • Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos;

9 • Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação;

10 • Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles;

11 • Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis;

12 • Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis;

13 • Tomar medidas urgentes para combater a mudança do clima e seus impactos;

14 • Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos  marinhos para o desenvolvimento sustentável;

15 • Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade;

16 • Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis;

17 • Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável

Mais informações: www.agenda2030.org.br

 
Publicado em Edição 12

Equipe composta por docentes e estudantes do Campus Osasco encabeçou, em 2019, programa voltado ao desenvolvimento da economia alternativa em Osasco e cidades vizinhas

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Uma das ações propostas pelo Escritório Popular de Iniciativas Sociais e Solidárias (Episs) é o apoio à agricultura familiar urbana. Em Osasco, essa forma de produção é representada pelas hortas cultivadas em diferentes pontos da cidade e assim designadas: Audax, Banco de Alimentos, Cantinho Verde, Caps, Cheirinho Verde, Chico Mendes, Estufa, Maná, Modelo, Simpatia e Vicentina / Mais informações em: www.osasco.sp.gov.br


Texto: Valquíria Carnaúba

De acordo com autores como o economista Paul Singer, economia popular solidária é uma expressão que caracteriza a resposta de determinados setores sociais à exclusão econômica. O popular e o solidário ganharam força por aqui, na década de 1990, como um caminho alternativo, por meio do qual seria possível alcançar a emancipação econômica com base em valores da democracia e da autogestão. Mais de vinte anos após a consolidação desse conceito no país, um grupo formado por docentes e estudantes da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) - Campus Osasco, em parceria com integrantes de movimentos populares, lançaram mão de um programa de extensão totalmente pautado naquele princípio, denominado Escritório Popular de Iniciativas Sociais e Solidárias (Episs).

Coordenado por Flávio Tayra, professor do Departamento de Economia da Eppen/Unifesp, o escritório de economia solidária conta com a atuação dos docentes João Tristan Vargas, Ioshiaqui Shimbo e Alvaro Luis dos Santos Pereira e dos seguintes estudantes de graduação do curso de Ciências Econômicas: Letícia Felicidade, Matheus Montañola, Mateo Tanaka, Wilson Rodrigues e Amanda Oliveira Moreno. Inspirados pela dura realidade brasileira, em grande parte pautada pela desigualdade econômica e social, os idealizadores desse programa de extensão consideram-no uma ferramenta que pode favorecer o desenvolvimento de iniciativas acadêmicas que promovem a participação da população e cujas formas de organização incorporam características da economia solidária – ou seja, cooperação, autogestão, dimensão econômica e solidariedade. 

Dois projetos principais surgiram após a estruturação do Episs: o Programa de Fomento a Iniciativas de Desenvolvimento Social, Econômico e Ambiental, com o objetivo de implantar a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Unifesp junto à Prefeitura de Osasco; e o Acordo Unifesp - Consórcio Intermunicipal da Região Metropolitana Oeste de São Paulo (Cioeste), que visa reunir dados socioeconômicos de Osasco e municípios a oeste da região metropolitana de São Paulo (Araçariguama, Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Jandira, Pirapora do Bom Jesus, Santana de Parnaíba e Vargem Grande Paulista). 

As iniciativas que se vinculam ao Episs almejam, por um lado, beneficiar pessoas marginalizadas, isto é, que sofrem com renda insuficiente, baixa qualificação e oferta reduzida de vagas, fornecendo-lhes meios que propiciem melhorias relativas ao trabalho, remuneração e reconhecimento de direitos. Por outro, os projetos podem voltar-se para um público indiferenciado, cujo elemento comum é o interesse por formas de solidariedade, sustentabilidade econômico-ambiental e práticas culturais. 

De acordo com o coordenador, o programa existe há pouco tempo, mas já revela ótimas perspectivas. “Submetemos o projeto original do Episs a um edital de apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e obtivemos os recursos, que utilizamos para instalar o escritório. Além disso, em razão desse trabalho, firmamos parceria com a Prefeitura de Osasco, que nos convidou para integrar o Comitê de Gestão Solidária. No momento, estudamos como viabilizar e incrementar a introdução de itens da agricultura familiar na merenda escolar do município. Até dezembro, apresentaremos o resultado das ações deste ano, juntamente com um plano de base para sua continuidade”, relata Tayra.

O docente destaca, ainda, que o programa abriu portas aos estudantes Mateo Tanaka e Wilson Rodrigues, procedentes do Paraguai e de Cabo Verde (África), respectivamente, por meio do Programa de Estudantes - Convênio de Graduação (PEC-G), que oferece oportunidades de formação superior a cidadãos de países em desenvolvimento com os quais o Brasil mantém acordos educacionais e culturais. “Os convênios determinam o compromisso do aluno de regressar a seu país e contribuir para a área na qual se graduou”, explica.

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O docente Flávio Tayra e as bolsistas Amanda Moreno (à esquerda) e Letícia Felicidade (à direita) coordenam os projetos atualmente vinculados ao Episs. O trio organiza atividades como o curso de extensão denominado Identificação de Demandas Sociais e Elaboração de Projetos de Economia Solidária, que foi também conduzido por Ioshiaqui Shimbo, professor visitante da Proplan

Programa de Fomento a Iniciativas de Desenvolvimento Social, Econômico e Ambiental

Esta vertente é a que foca mais especificamente a linha da economia solidária e atua em parceria direta com o Centro Público de Economia Popular e Solidária de Osasco, vinculado à Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Inclusão do município. Segundo Amanda Oliveira Moreno, bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), a intenção, no caso, é compreender melhor e disseminar a agricultura urbana dentro de um planejamento integrado. Além disso, o programa propõe-se subsidiar a formulação de políticas públicas específicas que colaborem para a implantação de cidades sob condições de vida mais adequadas e menos impactantes para o meio ambiente. “No decorrer do trabalho, serão mapeadas as experiências de agricultura urbana em Osasco, estudados os arranjos produtivos e administrativos internos dos empreendimentos e avaliados os impactos no entorno.”

Projeto de implementação do Acordo Unifesp - Cioeste

O acordo entre a Unifesp e o Consórcio Intermunicipal da Região Metropolitana Oeste de São Paulo (Cioeste) privilegia os estudos socioeconômicos – gerais e específicos – dos seguintes municípios: Osasco, Araçariguama, Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Jandira, Pirapora do Bom Jesus, Santana de Parnaíba e Vargem Grande Paulista. As áreas de maior interesse para as duas entidades são a economia local, a gestão municipal, as finanças públicas e as relações institucionais. Letícia Felicidade, bolsista do Pibic à frente desse projeto, explica que sua principal meta é mapear e analisar dados sobre educação, saúde, mobilidade urbana e outros tópicos referentes à população das cidades mencionadas. Para ela, trata-se de uma oportunidade para integrar o conhecimento teórico (que obtém nas aulas do curso de graduação em Ciências Econômicas) e a prática, com “pitadas” de solidariedade: “A ação torna-se importante por permitir questionar a realidade, as causas dos conflitos e as formas possíveis de intervenção, com maior participação popular. Não é uma opção fácil, mas estamos aprendendo e buscando caminhos para a ampliação do projeto”, afirma.

 
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