O Brasil tem uma das políticas públicas mais avançadas sobre drogas no mundo devido, em grande parte, à participação de docentes da Unifesp e de outras universidades. Há um capítulo da Política Nacional sobre Drogas que dispõe sobre Estudos, Pesquisas e Avaliações, no qual se destaca a importância de intervenções baseadas em evidências de efetividade, o que reforça a importância de uma abordagem racional e científica da questão, afirmam pesquisadores da Unidade de Dependência de Drogas (Uded) do Departamento de Psicobiologia.

A foto mostra uma mulher encolhida no chão, espalhado ao lado dela há drogas

Colaboraram neste artigo
Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp: Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) e Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Inpad/CNPq)
Departamento de Medicina Preventiva da EPM/Unifesp: Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid)
Departamento de Psicobiologia da EPM/Unifesp: Unidade de Dependência de Drogas (Uded), Núcleo de Pesquisa em Saúde e Uso de Substâncias (Nepsis) e Disciplina de Medicina e Sociologia do Abuso de Drogas (Dimesad)

Lógica de Redução de Danos valoriza o ser humano

O uso abusivo de substâncias leva a uma condição de grande vulnerabilidade, não apenas pelo impacto na saúde individual, mas sobretudo pelo estigma, que impõe exclusão e marginalização. A atenção ao usuário de álcool e outras drogas deve promover equidade e integralidade, além de uma resposta pautada na ética e na garantia de direitos. 

Segundo o Ministério da Saúde (MS), o uso de drogas “vem sendo associado à oferta de ‘tratamentos’ inspirados em modelos de exclusão/separação dos usuários do convívio social”. Nesta lógica de atendimento, o que se privilegia é o confinamento e a abstinência, como objetivo principal a ser alcançado. Ainda de acordo com o MS, as ações de prevenção e intervenção devem estar em consonância com a Reforma Psiquiátrica, atuando na lógica da Redução de Danos aos agravos e riscos à saúde. A articulação deve ser feita no território, integrada à comunidade e à rede de cuidados.

A exclusão social e a falta de integralidade do cuidado são desafios recorrentes na trajetória da saúde mental e mais amplamente da saúde pública. As pessoas que sofrem de transtorno mental e os dependentes de substâncias psicoativas, mesmo com as alternativas contempladas pela Reforma Psiquiátrica, encontram ainda grande dificuldade no encaminhamento de suas questões de saúde, enfrentando a discriminação social e o preconceito, muitas vezes dentro do próprio serviço de saúde. 

Tais fatores apontam para a necessidade de adequação do modelo assistencial, por meio da implementação de um plano de ações que possa contemplar as reais necessidades da população, garantindo um atendimento igualitário e de qualidade, em consonância com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). 

O tratamento preconizado aos indivíduos que fazem uso abusivo ou apresentam dependência de álcool e outras drogas tem se pautado, ao longo dos tempos, em uma visão médica, sobretudo psiquiátrica, que indica, prioritariamente, internação em leitos de hospital psiquiátrico, caracterizando assim uma tendência à medicalização excessiva para lidar com o sofrimento psíquico. Este modelo deve ser superado, pois desconsidera a realidade multifacetada que se mostra presente nessa problemática, envolvendo questões sociais, psicológicas, econômicas e políticas. 

A política de saúde recomenda que o processo saúde-doença seja visto de forma integral, valorizando aspectos não apenas físicos e biológicos, mas também reconhecendo os contextos sociais. Desse modo, para responder de forma mais efetiva aos desafios da saúde, deve-se construir uma resposta em rede, estabelecendo alianças intra e intersetoriais capazes de construir estratégias centradas na pessoa, seus familiares e a comunidade. As ações de saúde integral devem considerar a realidade peculiar das pessoas que fazem uso abusivo de substâncias psicoativas, considerando a heterogeneidade dessa população. E, desse modo, as ações de saúde devem ter múltiplas ofertas de cuidado, adaptando-se a cada caso.

• Dartiu Xavier da Silveira e Thiago Marques Fidalgo – Proad

Estado deve combinar prevenção, educação e sanção 

A lei que estabelece horário de fechamento para bares no município de Diadema (SP), Lei 2.107/2002, é, talvez, o exemplo mais bem-sucedido de mudança da política sobre álcool baseada em evidências no Brasil até agora. Contando com ampla adesão do público e aplicação proativa, essa iniciativa reduziu 1/3 dos assassinatos dentro de um período de três anos. Além de fornecer ao país uma consciência de nossas altas taxas da associação entre bebida e direção, a pesquisa inspirou a adoção, em 2008, da legislação de tolerância zero ao motorista que ingerir bebida alcoólica. Após três anos da mudança, foi estimada uma redução de 21% sobre o comportamento de beber e dirigir. O desafio é implementar novas facetas para melhor compreender, avaliar e implementar soluções para lidar com esse que é um dos maiores fardos da saúde pública brasileira, a dependência química. 

O governo tende a não impor uma limitação à indústria, que por sua vez oferece promessas de crescimento econômico, geração de empregos e aumento da base tributária. A nossa indústria do álcool é uma das maiores investidoras das campanhas políticas de todos os grandes partidos. Perante este cenário, o Brasil tem sido, corretamente, referenciado como um "mercado não regulamentado" em relação às políticas de álcool. 

Um estudo, coordenado pela Uniad mostrou que a maioria dos menores de idade participantes da pesquisa conseguiu comprar álcool em mercados na sua primeira tentativa. Isso ocorreu em 71% das vezes em São Paulo, 86% no Rio de Janeiro, 77% em Recife, 73% em Belo Horizonte, 79% em Campo Grande e 88% em Belém. Esses resultados levaram a iniciativas para maior fiscalização da lei, especialmente pelo governo do Estado de São Paulo. 

Essas pesquisas não apenas forneceram dados para iniciativas baseadas em evidências, mas também para incentivar mudanças na legislação. Usar drogas não é crime no Brasil, mas portar, sim. O Supremo Tribunal Federal (STF) começou a julgar a constitucionalidade do artigo 28 da lei de drogas e definirá se é crime ou não portar drogas para consumo próprio. 

Ninguém mais defende que o usuário seja exposto a processos criminais infindáveis, muito menos a penas de prisão. No entanto, o porte de drogas é considerado contravenção penal por todos os países da Europa. Mesmo os países que permitem algum tipo de porte, partem do princípio de que possuir substâncias psicoativas é uma contravenção passível de sanções. No caso brasileiro, “legalizar” o porte, pela supressão de um artigo da lei, parece ser uma atitude no mínimo displicente.

As principais legislações europeias e americanas se preocupam em diferenciar o usuário do traficante, estabelecendo previamente uma quantidade máxima para o porte – especialmente para maconha – ou aplicando critérios mais subjetivos, tais como pequenas quantidades, mais do que pouco ou quantidade necessária para o consumo por 10 dias. Em todas as situações, o contexto da apreensão da substância complementa esse parâmetro. Para isso, cabe sempre à polícia e ao poder judiciário fiscalizar e garantir o cumprimento dessas determinações legais. 

Foto de um usuário de Crack, ele está de costas e usa capuz

Sempre haverá a lei entre o usuário e o tratamento. Aliás, em todas nações ela pode ser uma das portas de entrada para o tratamento estruturado. É o caso de Portugal, por exemplo, onde quem é encontrado com quantidades de droga compatíveis com o porte recebe um auto da ocorrência, o qual será remetido à Comissão de Dissuasão territorialmente competente. O usuário deverá se apresentar a essa dentro de 72 horas. Tal comissão é formada por um advogado, um médico e um assistente social. Para os não dependentes, a comissão poderá suspender o processo penal e aplicar multas; para os dependentes, a suspensão está condicionada à entrada em tratamento por até dois anos.

Parte dos indivíduos consegue manter seu consumo dentro de sua esfera privada, realizando-o com autonomia e alteridade suficientes para escolher o momento e a intensidade adequados. O problema é que uma outra parte não consegue, ocasionando sofrimento e desestruturação do seu entorno familiar e social. Dados da Unifesp indicam que para cada dependente de drogas, no âmbito familiar existem mais quatro pessoas afetadas de várias maneiras, atingindo cerca de 8 milhões de brasileiros. 

Políticas públicas de qualidade são aquelas que conseguem combinar políticas de redução de oferta, demanda e danos. Portanto, não se troca simplesmente repressão por abordagens humanitárias, porque elas pertencem a âmbitos diferentes. Medidas de redução de oferta são úteis para regular qualquer tipo de mercado de substâncias (lícitas ou ilícitas). Por outro lado, em locais e situações onde o risco de vida ou de morbidade são prementes, as ações de redução de danos são mandatórias. Do mesmo modo, portas de saída da cultura de consumo para a da recuperação devem estar disponíveis, estruturadas e com profissionais capacitados para ajudar o usuário a conquistar a abstinência estável. 

A máxima “acabar com a repressão para que o usuário possa ser objeto da saúde pública” quase sempre é empregada de forma falaciosa. Está mais preocupada em eliminar a proibição – algumas vezes a serviço dos interesses da indústria interessada na produção e na distribuição da maconha – do que em oferecer saúde pública de qualidade para quem já está doente e vulnerável. 

A redução de danos deve compor as estratégias de cuidado aos usuários de drogas, mas o tratamento – do diagnóstico à oferta de abordagens psicossociais e farmacológicas – não pode ser negligenciado. Nesse sentido, a Holanda, famosa por seus coffee shops, é um dos países da comunidade europeia com um dos melhores sistemas de tratamento voltado para a abstinência para usuários de maconha. 

Enquanto, no Brasil, nos perdemos em discussões maniqueístas e em táticas de guerrilha jurídica, o mundo gira e segue criando modelos de cuidado interessantes, que combinam prevenção, redução de danos e tratamento, independentemente do status legal das substâncias.

• Ronaldo Ramos Laranjeira, Clarice Sandi Madruga, Ilana Pinsky, Marcelo Ribeiro, Sandro Mitsuhiro, Sergio Duailibi, André C. Q. Miguel, Luciana T. S. Massaro, Renata R. Abdalla, Ariadne Ribeiro – Uniad/Inpad

Estigma do usuário prejudica política sobre drogas

A primeira Política Nacional Antidrogas (PNAD) do país foi instituída por meio do Decreto Presidencial nº 4.345, de 26 de agosto de 2002, e posteriormente rebatizada como Política Nacional sobre Drogas (Lei nº 11.343/2006). Isso é reflexo da evolução conceitual que ocorreu no período, dando maior ênfase às ações baseadas em evidências científicas. A atual política brasileira define princípios e metas relacionadas à prevenção, tratamento, recuperação e reinserção social de pessoas com problemas relacionados ao uso de drogas; redução de danos sociais e à saúde; redução da oferta; e estudos, pesquisas e avaliações. Entretanto, encontra dificuldades para sua implementação, destacando-se entre as principais barreiras a estigmatização dos usuários. 

Muitos profissionais das áreas de saúde e assistência social, assim como grande parte da população, atribuem aos usuários falhas morais e de caráter, por desconhecimento dos fatores de vulnerabilidade biológicos e psicossociais. É de suma importância investir na educação e em programas preventivos que capacitem os usuários a fazer escolhas conscientes, e os profissionais a encararem de modo não moralista, mas cientificamente embasado, a dependência e outros problemas associados ao uso. 

Nesse sentido, as Redes de Cuidado têm recebido especial atenção na área de saúde mental e é foco de pesquisas do Nepsis para expandir o conhecimento sobre elas. Compostas por profissionais, lideranças comunitárias, familiares ou amigos, as redes se organizam e ampliam as possibilidades de cuidados em saúde aos dependentes químicos. No entanto, apesar da sua relevância, ainda existem muitas dificuldades na prática de articulação das redes, como a falha de comunicação e conhecimento entre os setores e serviços, o preconceito, a atribuição de culpa à família ou ao próprio dependente, bem como a crença de que o médico vai resolver o problema apenas com remédios ou internação. O trabalho em rede exige ampla reflexão e mudanças de atitude. 

Os quatro pesquisadores estão juntos e sorrindo, retratados em uma biblioteca

Denise De Micheli, José Carlos Fernandes F. Galduróz, Maria Lucia Oliveira de S. Formigoni e Ana Regina Noto, do Departamento de Psicobiologia da EPM/Unifesp

Cada sociedade também tem suas características culturais e nem sempre o que funciona em um país funcionará em outro. Por exemplo, em países anglo-saxões e nórdicos, a disciplina é um valor em si, o que não ocorre na mesma intensidade na sociedade brasileira. Assim, torna-se necessário avaliar o provável impacto de uma regulamentação mais liberal em nossa sociedade e o momento adequado à sua implementação. É essencial que exista previamente uma preparação educacional, com o estabelecimento de programas de prevenção efetivos voltados para o fortalecimento de escolhas racionais e resiliência à pressão social para o uso de drogas. 

A subjetividade do julgamento de juízes, diante da atribuição excessiva dada a eles, ou mesmo de um corpo de jurados, não é um problema exclusivo dessa área; ocorre para qualquer tipo de processo judicial. Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei nº 7.663/10 (que aguardava aprovação do Senado no momento de fechamento desta matéria), que propõe, entre outras alterações da política sobre drogas, como critério para diferenciar usuários de traficantes uma quantidade equivalente a até no máximo cinco dias de consumo (quantidade média com base em estudos epidemiológicos).

As universidades brasileiras também têm contribuído de modo marcante na formação de profissionais, das mais diversas áreas, que lidam com as questões relacionadas ao uso de álcool, tabaco e outras drogas, por meio de cursos presenciais e à distância.

Vários estudos têm sido realizados sobre a efetividade desses cursos, envolvendo não somente seus participantes, mas também os pacientes atendidos pelos profissionais de saúde que receberam capacitação. Com base em dados coletados durante e após o curso, têm sido desenvolvidos estudos que geraram dissertações de mestrado e teses de doutorado, artigos científicos e apresentações em congressos. 

A universidade tem também papel essencial como espaço para realização de estudos e formação de pesquisadores. Há estudos realizados na Unifesp em todas as áreas; dos levantamentos epidemiológicos até aqueles sobre efetividade de medicamentos para tratamento de dependentes, passando por intervenções psicossociais e pesquisa básica sobre a neurobiologia das dependências. 

O diálogo e a colaboração efetiva entre a universidade, os responsáveis pelas políticas sobre drogas, os profissionais das redes de saúde, educação, assistência social, operadores do Direito e usuários são essenciais para o desenvolvimento de ações efetivas, baseadas em evidências científicas e com respeito aos direitos humanos. 

O diálogo da universidade com a sociedade também se dá por meio da divulgação de informações em linguagem leiga e de intervenções virtuais. A equipe da Uded, em parceria com pesquisadores das universidade federais do Paraná e de Juiz de Fora, do México, da Índia e da Bielorrússia, com apoio da OMS, desenvolveu um portal (www.informalcool.org.br) no qual há diversas informações sobre álcool e uma intervenção virtual (www.informalcool.org.br/bebermenos) por meio da qual usuários de risco podem controlar e desenvolver estratégias para reduzir seu consumo. Está em andamento um estudo clínico controlado (multicêntrico internacional) sobre a efetividade da intervenção. Para ampliar a divulgação, foi criada uma página no Facebook (www.facebook.com/informalcool), por meio da qual pesquisadores e pessoas leigas podem ter acesso rápido à informação e trocar ideias sobre o tema.

• Ana Regina Noto, Denise De Micheli, Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni – Uded/Nepsis

Publicado em Edição 06

Dificuldades escolares, problemas nas relações familiares e sociais são reflexos da doença, que acomete entre 3,76 e 17,1% das crianças no Brasil; com tratamento apropriado é possível reverter o quadro

Mariane Santos

Desenho de uma menina triste, ela tem sinais de dor na área da cabeça

A queixa de dificuldades escolares é comum em crianças com enxaqueca. Uma pesquisa realizada pelo Setor de Investigação e Tratamento das Cefaleias (SITC), da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, constatou que crianças que nunca fizeram o tratamento da doença apresentaram déficit de atenção seletiva e alternada, além de expressarem altos níveis de impulsividade durante os testes realizados.

Presente na vida de muitas crianças brasileiras, entre 3,76% e 17,1%, a patologia prejudica as atividades cotidianas dos menores, incluindo o desempenho das tarefas escolares, as relações familiares e sociais. Thais Rodrigues Villa, neurologista chefe do SITC e autora do estudo, explica que as pesquisas sobre a relação entre a atenção visual das crianças e a incidência de enxaqueca foram motivadas pela crescente demanda registrada pelo setor.

Os pesquisadores do SITC decidiram estudar a atenção visual de crianças recém-diagnosticadas e em tratamento preventivo da enxaqueca e compará-las a um grupo controle saudável. Foram analisadas 82 crianças de 8 a 12 anos de idade, divididas em três grupos: 30 crianças com enxaqueca sem tratamento, 22 crianças em tratamento e 30 crianças controle saudáveis.

Os 30 participantes do grupo sem tratamento haviam sido recém-admitidos no Ambulatório de Cefaleias na Infância do SITC. As crianças apresentaram uma média de cinco dias de dor de cabeça por mês, sem uso prévio de qualquer tratamento preventivo para enxaqueca.

Já os participantes do grupo que estava realizando tratamento preventivo da doença eram pacientes regulares do ambulatório, com média de 6 dias de dor de cabeça por mês antes da intervenção, que teve início de 4 a 6 meses antes da avaliação. Ela foi realizada com medicações indicadas para prevenção das crises de enxaqueca, que foram tomadas diariamente. As crianças em tratamento tinham que estar livres de dor e sintomas de enxaqueca nos dois meses anteriores à avaliação.

Já o grupo formado por crianças sem dor de cabeça foi selecionado por meio de questionários preenchidos pelos pais em duas escolas públicas de São Paulo.

Metodologia 

A médica Thais rodrigues villa está sentada atrás de uma mesa, à sua frente estão uma adolescente e sua mãe

Thais Rodrigues Villa durante o atendimento à paciente em tratamento de enxaqueca

A análise das crianças foi realizada entre fevereiro de 2008 e janeiro de 2012. Elas estavam livres de dor e sintomas de enxaqueca nos três dias que antecederam à verificação e foram submetidas a avaliações médicas e neuropsicológicas (veja box na página anterior). 

Os critérios de exclusão estabelecidos foram: qualquer outra doença sistêmica concomitante; anormalidades reveladas no exame neurológico; QI (quociente de inteligência) inferior a 80; distúrbios psiquiátricos; dificuldades de aprendizagem; histórico de epilepsia; traumatismo craniano ou uso de drogas que atuam sobre o sistema nervoso central, incluindo o consumo de álcool, cigarro e drogas ilícitas; utilização anterior de profilaxia de enxaqueca (no grupo de enxaqueca não tratada); e histórico de episódios de dor de cabeça primária (no grupo controle). 

Todos os participantes foram avaliados pela Escala de Inteligência Wechsler para Crianças (WISC-III), realizado por psicólogos do setor. O teste é um instrumento clínico, de análise individual, que mede a capacidade intelectual de crianças e adolescentes.

Desenho de uma menina, ela está feliz e segura balões coloridos

Menos impulsividade e mais atenção

As crianças com enxaqueca sem tratamento tiveram um desempenho significativamente pior em testes de atenção visual (Trail Makink Test A and B e Test of Visual Attention 3rd Edition – veja o box) em comparação com o grupo controle e o grupo de crianças submetidas ao tratamento preventivo da doença. Já o desempenho em tarefas de atenção foi dentro da normalidade em todos os grupos. Os participantes que nunca trataram a doença apresentaram déficits de atenção seletiva e alternada.

Durante os testes de atenção, crianças com enxaqueca apresentaram altos níveis de impulsividade. Já aquelas em tratamento apresentaram níveis inferiores de impulsividade e ansiedade e o desempenho de atenção semelhantes ao grupo controle saudável, destacando o benefício e eficácia para as crianças.

Em comparação com crianças que não receberam nenhum tratamento, as crianças que receberam melhoraram seu desempenho escolar e receberam menos queixas de pais e professores sobre déficits de atenção.

“É necessário investigar o déficit de atenção em crianças com enxaqueca e procurar ajuda especializada para o tratamento preventivo da dor de cabeça, quando este for indicado. Com um tratamento eficaz, é possível que o equilíbrio cerebral seja restabelecido e observamos melhora dos sintomas da enxaqueca e, consequentemente, dos déficits de atenção associados à doença”, conclui Thais.

 

Testes neuropsicológicos complementares do estudo

Trail Making Test A and B: A - explora a atenção visual, flexibilidade mental, varredura visual e velocidade psicomotora por meio da conexão de números espalhados em uma folha de papel com uma sequência ascendente de um a 15. B – explora a atenção alternada também por meio de uma sequência ascendente de oito números e oito letras alternadas. O desafio é, em ambas as tarefas, executá-las no menor tempo possível e sem erros. A execução em segundos é a principal variável analisada.

Letter Cancellation Test: avalia a atenção seletiva e sustentada em que o sujeito tem que marcar todas as letras A, juntamente com outras letras aleatórias, em uma folha de papel, em um curto período de tempo e com o mínimo possível de erros. Nessa avaliação foram analisados o tempo de execução em segundos e a quantidade de letras omitidas.

Test of Visual Attention 3rd Edition: é um teste computadorizado que consiste em avaliar três tarefas: 1) atenção seletiva; 2) atenção alternada; 3) atenção sustentada. Nele, o avaliado utiliza um joystick (espécie de controle, semelhante ao de um computador ou videogame), para responder ao que o teste solicita. Nesse foram avaliados o tempo de reação (tempo necessário para empurrar o botão do controle em resposta a cada estímulo), a falta de resposta ao estímulo selecionado e o número de erros de ação (a resposta a um estímulo não selecionado).

Artigo relacionado:
VILLA, Thaís R. ; Agessi, Larissa M.; MOUTRAN, Andréa R. C.; GABBAI, Alberto A.; CARVALHO, Deusvenir S. Visual Attention in Children With Migraine: The Importance of Prophylaxis. Journal of Child Neurology, 31 ago. 2015. Disponível em: < http://m.jcn.sagepub.com/content/early/2015/08/27/0883073815601498.full.pdf >. Acesso em: 15 dez. 2015.

Publicado em Edição 06

Pesquisadora estuda o método para a criação de mantas que poderão vir a induzir a regeneração óssea

Da redação
com a colaboração de Patricia Zylberman

Imagem de microscópio de quatro tipos de mantas com bioatividade

E se a engenharia tecidual – baseada na incorporação de métodos químicos, físicos e biológicos no desenvolvimento de tecidos artificiais do corpo humano – conseguisse criar um compósito capaz de servir de suporte para a regeneração de um tecido ósseo danificado? Essa questão foi encarada como um desafio por Lilian de Siqueira, aluna de pós-graduação do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) – Campus São José dos Campos, em sua dissertação de mestrado. Sob a orientação de Eliandra de Sousa Trichês, docente do curso de Engenharia de Materiais, e co-orientação de Anderson O. Lobo, Lilian elaborou uma pesquisa denominada Eletrofiação e Caracterização de Compósitos de PLA/β-TCP e PCL/β-TCP Visando Aplicações na Engenharia Tecidual, com uma bolsa auxílio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A aluna misturou separadamente os polímeros ácido polilático (PLA) e policaprolactona (PCL) com partículas de β-fosfato tricálcico (β-TCP), biomaterial da classe das biocerâmicas que apresenta fase mineralógica semelhante à do osso, no intuito de criar scaffolds.

Foto das duas pesquisadoras, elas estão lado a lado e sorriem

A orientadora Eliandra de Sousa Trichês e a pesquisadora, aluna de pós-graduação do Instituto de Ciências e Tecnologia (ICT) - Campus São José dos Campos, Lilian de Siqueira

“Scaffold é um material poroso que serve de arcabouço para o crescimento e proliferação celular que pode ser colocado em pequenos defeitos ósseos, para instigar o desenvolvimento celular, criando um novo tecido ósseo”, esclarece Eliandra. As mantas dos polímeros PLA e PCL puros já são utilizadas em tratamentos odontológicos, porém, com intuitos diferentes. Por se tratarem de materiais bioabsorvíveis, ou seja, que são absorvidos pelo organismo, eles, ao serem colocados em uma incisão do paciente, têm a única finalidade de promover a cicatrização de feridas. Por essa razão, é necessária a mistura com a biocerâmica (β-TCP), um material osteocondutor – induz o tecido ósseo a se regenerar – bioativo e biodegradável.

O projeto de Lilian de Siqueira teve diferentes fases. No período inicial, a mestranda fez um levantamento da literatura especializada já existente. “Buscamos na literatura o que estava sendo feito e as novidades dos estudos com o polímero para, assim, iniciarmos o projeto e descobrimos que a engenharia tecidual e as biocerâmicas são campos nos quais há muito o que se estudar”, contou. A parte prática se iniciou com a síntese do pó de β-TCP no estado sólido, por reação em laboratório, e sua caracterização para identificação da fase cristalina formada.

Após essa etapa, a partícula de β-TCP foi incorporada em diferentes teores nas diferentes matrizes poliméricas. Então, as novas soluções contendo as partículas de β-TCP passaram pelo processo de eletrofiação para a obtenção das mantas. A eletrofiação top-down, como é chamada por se tratar de um aparelho na vertical, foi o processo escolhido em razão de ser uma técnica muito simples, versátil e de baixo custo. Esse aparato experimental tem três componentes: uma seringa para a contenção da solução polimérica, uma fonte de alta tensão e um coletor metálico. As mantas obtidas por eletrofiação apresentam fibras com espessura em escala nanométrica. 

Duas imagens. Na esquerda, um potinho com um tipo de pó branco - a biocerâmica. À direita, um tipo de estojo onde estão os exemplos de mantas - elas parecem películas brancas.

O β-TCP após um processo de incorporação biocerâmica. Ao lado,  mantas poliméricas

Tanto as soluções de PLA quanto a de PCL obtiveram a incorporação de 1,5% e 8% em massa do β-TCP – os estudos apontaram que quanto maior a incorporação da partícula nas matrizes poliméricas, melhores foram os resultados dos diferentes testes aos quais foram submetidos – e formaram, como desejado, mantas porosas, fibrosas e interconectadas. “Os trabalhos citados na literatura conseguiram incorporar nas mantas poliméricas no máximo 5% de partícula cerâmica, a qual se apresentava em escala nanométrica. No nosso caso, conseguimos incorporar até 8% de β-TCP em escala micrométrica”, afirma Eliandra. As mantas foram caracterizadas por diferentes técnicas, como, por exemplo, microscopia eletrônica de varredura (MEV), para análise morfológica das mantas, espectroscopia de infravermelho (FTIR), para verificação dos grupos funcionais, calorimetria exploratória diferencial (DSC) e análise termogravimétrica (TGA) para determinação dos parâmetros térmicos. Também foram realizados ensaios de citotoxicidade e viabilidade celular (MTT) in vitro e de bioatividade em solução de fluído corpóreo (SBF) para avaliação das propriedades biológicas.

Uma grande variação de diâmetro médio das fibras foi observada para ambos os polímeros. O diâmetro médio das fibras variou de 260±51 a 546±136 nm (nanômetros) para as mantas de PLA e PLA/β-TCP e de 640±20 a 867±40 nm para as mantas de PCL e PCL/β-TCP. Essa variação, no entanto, não altera em nada o funcionamento das mantas. 

Os testes que se seguiram demonstraram que tanto o PLA/β-TCP quanto o PCL/β-TCP obtiveram um resultado satisfatório. Ainda assim, há algumas diferenças na relação de ambos os polímeros com a partícula. Ao adicioná-la ao polímero PLA, dependendo do teor do β-TCP, notou-se um aumento do diâmetro da fibra, o que impediu a sua cristalização. Já quando se agregou ao PCL, além dessa mudança, houve uma alteração na rugosidade da superfície da manta, o que tornou o compósito um ambiente favorável à adesão celular.

“Comparando os dois polímeros, percebemos que o mais interessante seria trabalhar com o PCL tentando, mais a frente, incorporar uma quantidade maior de partículas de β-TCP a ele, deixando-o mais bioativo e aumentando a taxa de degradação do compósito”, explica Eliandra. Quanto melhor for a degradação do material, melhor será seu funcionamento. “Para que ocorra a regeneração óssea, o material que está implantado tem que se degradar com a mesma taxa que o novo tecido cresce. Por essa razão, é importante incorporar o β-TCP, que tem uma grande capacidade de degradação, ao polímero, que tem uma taxa mais lenta, balanceando-os”, afirma Lilian. Segundo a mesma, o tempo médio para a absorção dessa manta no organismo é de pelo menos seis meses. 

Além da degradação, outras características das mantas demonstraram um bom resultado. Apesar de em graus diferentes, tanto as mantas de PLA/β-TCP quanto as de PCL/β-TCP demonstraram uma alta bioatividade – capacidade dos materiais de se ligarem ou aderirem aos tecidos vivos adjacentes e formarem uma camada de apatita similar à presente nos ossos. Após a realização de testes de viabilidade celular, as mantas de PLA/β-TCP e PCL/β-TCP exibiram propriedade de biocompatibilidade, mostrando-se não citotóxicas, além de permitirem um ambiente favorável à adesão celular. 

Como um próximo passo do projeto, as pesquisadoras pretendem continuar tentando, cada vez mais, incorporar uma maior quantidade de β-TCP nos polímeros PLA e PCL para, desse modo, melhorar as propriedades de bioatividade, adesão celular e degradação. O último passo antes de uma possível comercialização do produto seria a aplicação de testes em seres vivos. “Antes de comercializar o produto, outros estudos ainda são necessários. Nós realizamos somente os testes in vitro. Precisamos do ensaio in vivo para que possamos provar a eficiência total do que foi estudado”, finaliza a pesquisadora.

Infográfico com a Morfologia, adesão celular e bioatividade das mantas

Artigo relacionado:
SIQUEIRA, L.; PASSADOR, F. R.; COSTA, M. M.; LOBO, A. O.; SOUSA, E. Influence of the addition of β-TCP on the morphology, thermal properties and cell viability of poly (lactic acid) fibers obtained by electrospinning. Materials Science and Engineering: C, v. 52, p.135-143, 1 jul. 2015. Disponível em: < http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0928493115002374 >. Acesso em: 15 dez. 2015.

Publicado em Edição 06

Trabalho revela um quadro alarmante de uso patológico de novas tecnologias midiáticas, especialmente entre adolescentes

Valquíria Carnaúba

Ilustração de uma jovem de perfil, ela segura um smarthphone nas mãos. A ilustração é preenchida com vários símbolos de redes sociais.

É urgente a inclusão do Transtorno de Dependência de Internet (TDI) na listagem oficial do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-6), da Associação Americana de Psiquiatria. Quem faz a defesa é Denise De Micheli, chefe da disciplina de Medicina e Sociologia do Abuso de Drogas (Dimesad) do departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Hoje, o distúrbio consta apenas nos anexos do guia, o que significa que é tratado como uma condição de alerta, não como uma patologia com desfecho de caso”, afirma.

A pesquisadora, que faz coro com outros profissionais de saúde mental, fundamenta-se em diversos estudos recentes sobre o tema, incluindo a dissertação de mestrado que ela mesma orientou, intitulada O Impacto do Uso de Mídias Digitais na Qualidade de Vida de Adolescentes, apresentada em 2014 por Fernanda Davidoff ao Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos. 

Foram avaliados 264 jovens entre 13 e 17 anos. O trabalho, planejado de modo a identificar o perfil dos usuários de internet e mídias digitais e as consequências do comportamento à sua qualidade de vida, revelou que 68% deles sofriam de dependência moderada (transtorno denominado assim pelas pesquisadoras) em relação às tecnologias atuais (como smartphones, tablets e internet), enquanto que 20% enquadravam-se como dependentes graves.

Metodologia

O estudo avaliou 264 estudantes de escolas públicas e particulares por meio de Amostragem por Conveniência, técnica que consiste em selecionar indivíduos prontamente acessíveis para avaliação de pesquisadores. Os motivos, objetivos e a metodologia da investigação foram divulgados tanto para as escolas quanto para os alunos participantes do estudo, garantindo-se o sigilo das respostas e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Denise e Fernanda valeram-se de questionários específicos de identificação geral para a coleta de dados, a exemplo do The Pediatric Quality of Life Inventory (PedsQL), elaborado na Universidade do Texas e adaptado ao Brasil para medir a saúde relacionada à qualidade de vida de crianças e adolescentes saudáveis. Destaca-se, no entanto, o Teste de Dependência em Internet, primeira medida validada e confiável de uso dependente da rede. Desenvolvido por Kimberly Young, pesquisadora da Universidade de Pittsburgh (EUA), o teste é composto por 20 itens que avaliam os graus leve, moderado e severo de dependência em internet.

Consequências sociais

Diversas conclusões puderam ser tiradas a partir dos resultados, como a incorporação definitiva da tecnologia aos hábitos diários desses jovens. De modo geral, os alunos considerados dependentes leves apresentaram média mais alta de qualidade de vida nas áreas física, sentimental e social do que os demais grupos, mostrando que o uso que fazem da internet possivelmente não afetou esses setores. Por outro lado, os dependentes substanciais apresentaram menores médias nas esferas física, sentimental, social e escolar, indicando maior prejuízo nesses campos e menor qualidade de vida do ponto de vista global.

Quanto ao manejo de celulares e tablets, 33% mencionaram usá-los quando vão ao banheiro; 51% durante as refeições; 90% na cama, antes de dormir; e 92% afirmaram checá-los logo que acordam - antes de levantar da cama. Além disso, 79,7% confessaram voltar para casa e buscar seus aparelhos em caso de esquecimento, mesmo que isso cause atrasos em compromissos ou alguma outra forma de prejuízo.

Fotografia de Denise De Micheli, ela está em frente a uma prateleira de livros.

Denise De Micheli, chefe da disciplina de Medicina e Sociologia do Abuso de Drogas (Dimesad)

Conectados, esses jovens podem sofrer consequências ainda mais profundas. Segundo as pesquisadoras, 82% dos estudantes se preocupam com o que pode estar acontecendo nas redes sociais enquanto está ausente; 65% resistem ao sono ou dormem pouco para continuarem on-line; 61% acreditam ficar menos tímidos e mais seguros ao conversarem por meio de aplicativos de mensagens; 45% dizem sentir alívio no dia a dia; 30% sentem-se menos ansiosos; e 23% menos sozinhos.

A pesquisa indica que o abuso dessas tecnologias pode estar associado à baixa supervisão dos pais, já que 82% dos adolescentes de escolas particulares mencionaram não ter limites definidos por seus responsáveis – em oposição aos 30%, estudantes de escolas públicas, que possuem regras de uso delimitadas. “No entanto, essa limitação imposta aos estudantes do ensino público está relacionada mais ao custo do plano de internet do que a uma preocupação genuína com os excessos”, pontua Denise.

Apesar de o relacionamento ruim com os pais não ter uma associação muito clara com o abuso de internet e tecnologias, as informações coletadas mostram que 100% dos adolescentes classificados como dependentes leves mencionaram ter um bom convívio com seus pais, enquanto que 44% dos jovens enquadrados como dependentes substanciais apresentaram problemas significativos em diversas áreas de sua vida, alegando um trato regular com os responsáveis.

Uma geração impulsiva

O Brasil está entre os países com maior número de usuários da rede, por isso é razoável admitir que as gerações mais recentes são bastante íntimas das tecnologias, inclusive a ponto de acreditarem que o convívio seja dispensável. “A comunicação virtual tem inúmeras vantagens, como a disponibilidade de tempo para escrever e editar o que se pretende transmitir e enviar no tempo que convier, ou seja, o controle do tempo pertence ao indivíduo”, defende Denise.

Mas o que tem chamado a atenção de pesquisadores é o potencial que os relacionamentos virtuais possuem para encobrir ou mesmo intensificar outros distúrbios psicológicos. “O fato observado neste e em outros estudos, sobre adolescentes utilizarem o smartphone grande parte do seu tempo e durante suas atividades cotidianas, também pode ser indicativo de dificuldades no controle de impulsos, acarretando consequências negativas para suas vidas”.

Uma das investigações mais relevantes sobre o assunto, coordenada por Kimberly Young em 1996, registrou a participação de 600 usuários com sinais clínicos de dependência. O relatório foi apresentado à Associação Psicológica Americana e, desde então, inúmeras outras pesquisas foram desenvolvidas nesse sentido.

Mais tarde, Kimberly percebeu que a impulsividade em relação à internet é parte de um guarda-chuva maior do qual derivam as diferentes manifestações de controle dos impulsos. Sinais de alerta, como acessar a rede para fugir de problemas, pensar na internet quando está off-line, sofrer pela abstinência e descuidar do trabalho, dos estudos ou até mesmo dos relacionamentos pessoais, por causa da rede, podem configurar tal quadro. 

Por esses motivos, Denise assegura que a inclusão do referido transtorno ao DSM-6 é uma das grandes expectativas do momento. “Precisamos olhar para esses casos com a atenção que merecem. Descobrir se a dependência deriva de determinadas ansiedades ou é apenas um desdobramento de hábitos será o grande desafio dos profissionais de saúde mental”, finaliza.

Gráfico - Vantagens atribuídas ao uso de mídias tecnológicas e aplicativos de mensagens:  61% acreditam que sentem-se menos tímidos e mais seguros ao conversar por meio de aplicativos.  23% sentem-se “no controle da situação” quando mantém conversa por meio de mensagens. 43% atribuem como vantagem poder conversar com qualquer pessoa em qualquer lugar  e hora. 23% sentem-se menos sozinhos. Percepção de desconforto diante da impossibilidade de uso de midias sociais:  60% mencionaram achar que a vida seria muito chata e sem graça sem internet. 68% mencionaram ficar irritados quando não podem usar as mídias e/ou acessar internet. 65% mencionaram resistir ao sono ou dormir pouco para continuar conectados. 82% se preocupam com o que pode estar acontecendo nas redes sociais enquanto está ausente.

Referência:
CRUZ, Fernanda Alves Davidoff. O impacto do uso de mídias digitais na qualidade de vida de adolescentes. 2014. 99 f. Dissertação (Mestrado em Ciências) - Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2014.

Publicado em Edição 06
Quarta, 25 Maio 2016 09:34

Contágio, miasmas e microrganismos

Uma visão retrospectiva das principais concepções sobre a origem das doenças transmissíveis até o estabelecimento da teoria microbiana em meados do século XIX

Celina M. Brunieri

Agradecemos a Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, professora doutora do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo, pelas sugestões e críticas apresentadas, as quais foram essenciais à elaboração deste artigo. A referida docente é especialista em História da Ciência e doutora em Ciências Biológicas na área de Genética pela Universidade Estadual de Campinas, tendo cumprido programa de estudos (doutorado sandwich) no Departamento de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Cambridge (Inglaterra). Obteve ainda o título de pós-doutorado no Grupo de História e Teoria da Ciência, vinculado à Unicamp.

Quadro O Triunfo da Morte, onde são retratados esqueletos e corpos, em dezenas de tipos de morte

O Triunfo da Morte (cerca de 1562). Pieter Bruegel, o Velho

No início deste ano, o Instituto Butantan implantou a fase III dos testes clínicos relativos à avaliação da eficácia da vacina contra a dengue, que utiliza vírus geneticamente modificados e é produzida em parceria com o National Institutes of Health (NIH). Essa notícia – divulgada pelos meios de comunicação – não causou surpresa porque nos habituamos a conviver com as conquistas da ciência atual – no caso, a produção de imunobiológicos. Todavia, a construção da ciência e de seu corpo teórico foi um processo gradativo, que demandou a contribuição de vários agentes e a constante superação de desafios. É útil relembrar que, de forma empírica, o médico inglês Edward Jenner (1749-1823) obteve êxito na imunização contra a varíola, mediante o emprego de um método semelhante ao da variolização, porém mais seguro: inoculou em indivíduos a secreção de pústulas que surgiam nos portadores da “varíola das vacas” (cowpox), pois esta doença, quando adquirida pelos ordenhadores, tornava-os resistentes à varíola humana. 

Na história da Medicina sucederam-se várias explicações sobre a causa das doenças transmissíveis até a identificação dos microrganismos como agentes patogênicos, o que ocorreu na segunda metade do século 19. A partir daí, pôde-se estabelecer a teoria microbiana, fundamentada em evidências empíricas. Para a elaboração desse amplo painel consultamos, entre outras fontes, as obras: Contágio: história da prevenção das doenças transmissíveis, de Roberto de Andrade Martins e colaboradores, e Divided legacy: a history of the schism in medical thought, de Harris L. Coulter.

Antiguidade

Os antigos povos da Mesopotâmia acreditavam que os deuses infligiam doenças aos homens quando estes transgrediam as regras morais ou descumpriam as obrigações religiosas. Embora predominasse o caráter religioso na Medicina praticada por esses povos, reconhecia-se que várias doenças tinham causas naturais, para as quais se empregavam medicamentos extraídos de plantas. 

A Medicina religiosa indiana considerava que as orações e práticas mágicas tinham o poder de expulsar entidades vivas e invisíveis, que penetravam nos corpos, provocando o adoecimento. Eram também comuns os rituais de purificação, que deveriam ser cumpridos caso fossem cometidas ofensas contra os deuses ou ocorresse o contato com matérias impuras, como os corpos cadavéricos.

Grécia

No início, a Medicina na Grécia Antiga era uma mescla de concepções mágicas e religiosas e de receitas práticas para o tratamento das doenças. Em geral, atribuíam-se aos deuses tanto a origem quanto a cura de doenças que atingiam muitos indivíduos ao mesmo tempo, como as epidemias. 

Por volta do século 6º a. C., o mundo grego passou por profundas transformações, que se estenderam também à Medicina. Houve um enfraquecimento das crenças mitológicas – não abandonadas completamente –, buscando-se explicar as enfermidades com base no raciocínio humano. Nessa época, alguns médicos sugeriram que a saúde seria o resultado do equilíbrio entre determinados poderes do corpo (úmido, seco, frio, quente, amargo e doce) e que a doença seria o resultado do excesso ou da desarmonia entre eles. Concepções semelhantes apareceram nos tratados que constituem a Coleção Hipocrática, cuja autoria é apenas parcialmente atribuída a Hipócrates (460-370 a. C.). Em alguns desses tratados, a saúde é relacionada à proporção correta entre os quatro tipos de humor ou líquido que constituíam o corpo humano: o sangue, a fleuma (fluidos transparentes), a bílis amarela e a bílis negra.

Hipócrates adotava uma conduta empírica em relação às doenças e, de modo geral, não procurava explicar suas causas. Baseava-se na observação e registro dos sintomas, na previsão dos estágios evolutivos e na prescrição de tratamento – este incluía um regime alimentar adequado, atividade física e uso de medicamentos ou tratamentos que eliminassem os humores em excesso, como os diuréticos e laxativos.

Aristóteles (384-322 a. C.), filósofo da Antiguidade que não deixou obras específicas sobre Medicina, contribuiu com suas reflexões para que a doutrina existente nessa área fosse organizada em um sistema racional. Contrariamente à posição hipocrática, a filosofia de Aristóteles recomendava o estudo das causas dos fenômenos e a obtenção de um conhecimento seguro do mundo material, o que foi aplicado à Medicina racionalista grega.

Em todos os momentos históricos descritos, não havia a noção de que a doença pudesse transferir-se de uma pessoa a outra. Prevalecia a crença de que o odor fétido do ar, o tipo de alimentação e as condições climáticas poderiam afetar o equilíbrio dos humores e, assim, provocar as doenças.

Roma

Durante o Império Romano, os médicos romanos apropriaram-se de grande parte do conhecimento produzido pelos gregos, embora tivessem oferecido contribuições originais como o interesse pela transmissão das doenças e o estudo dos venenos. Nessa época, aceitava-se que a saúde e a doença dependiam das condições climáticas e da alimentação como no mundo grego. As epidemias, porém, eram atribuídas aos fenômenos celestes – os quais, segundo a concepção vigente, estavam relacionados às condições climáticas - e à passagem dos cometas. 

Galeno de Pérgamo (129 - c. 200 d. C.), médico da corte imperial e autor de extensa obra, adotou a ideia dos humores, presente nas obras da Coleção Hipocrática. Introduziu a concepção dos temperamentos, que estariam ligados à predominância de um tipo de humor, o que afetaria os aspectos físicos e psicológicos do indivíduo. 

Motivadas pela crença de que o ar dos pântanos e o mau odor de lugares fechados podiam produzir doenças, as autoridades romanas instalaram sistemas de coleta de esgotos e de fornecimento de água à população, por meio de aquedutos. Tais medidas, juntamente com os banhos públicos, tiveram impacto positivo sobre a saúde pública.

Idade Média

Litografia, que mostra uma carroça com corpos em meio a uma cidade / Accusing the anointers in the great plague of Milan in 1630; a scene from Manzoni's 'I promessi sposi'. Lithograph by G. Gallina after A. Manzoni

As epidemias de peste ceifavam milhares de vidas e causavam pavor nas populações. Como não havia tratamento para a doença, adotavam-se medidas – pouco eficazes – como a aspersão de perfumes no ambiente, a restrição no contato com os enfermos e a quarentena. Somente em 1894 foi descoberto o bacilo da peste (Yersinia pestis), inoculado por meio da picada de pulga

Com a queda do Império Romano, ressurgiu a crença de que as doenças resultariam da punição divina, da intervenção demoníaca ou da manipulação de poderes ocultos por bruxas e feiticeiros. A incidência da lepra ou hanseníase – cuja transmissão por contágio era intuitivamente admitida – aumentou nos séculos 12 e 13. Excluídos do convívio social, os leprosos eram vistos com medo e desconfiança, pois as deformidades físicas eram, segundo a concepção vigente, sinais exteriores da corrupção das almas.

As epidemias de peste causavam horror e pânico nas populações, que reconheciam seu caráter contagioso. Irrompiam em surtos periódicos e eram atribuídas às conjunções planetárias e a outros fatores. De 1347 a 1351, a peste negra (ou bubônica) – cujo nome está relacionado às manchas negras que surgiam na pele, resultantes do sangramento subcutâneo – vitimou um terço da população da Europa. A extensão desse flagelo só foi comparável ao que ocorreu no período de 542 a 750, quando a doença atingiu os países do entorno da bacia do Mediterrâneo, dizimando cerca de 40% de seus habitantes. 

Como hoje se sabe, a peste é principalmente transmitida pela pulga, que se abriga na pelagem dos ratos e pode transferir-se para o homem. Descrita nas formas bubônica, septicêmica e pneumônica é combatida pelo uso de antibióticos. As precárias condições de higiene existentes nas cidades medievais favoreciam a proliferação de roedores, que – transportados por navios – alcançavam os portos de outras cidades.

Período renascentista

No século 16, Andreas Vesalius (1514-1564) realizou estudos de anatomia humana com base na dissecação de corpos, contrapondo-se às descrições de Galeno. William Harvey (1578-1657) propôs o modelo circular e contínuo para a circulação sanguínea.

O termo contágio foi empregado pelo médico italiano Girolamo Fracastoro (1478-1553), que formulou uma nova tese sobre a transmissão de doenças. Os agentes de enfermidades como a lepra, peste bubônica e varíola seriam germes vivos ou sementes, que poderiam contaminar pessoas saudáveis. Invisíveis a olho nu, penetrariam nos corpos e neles se reproduziriam. Haveria três formas de contágio: pelo ar, contato direto entre pessoas e meios materiais que transportariam os germes.

Século 17

A invenção do microscópio permitiu desvendar o universo dos seres invisíveis por sua dimensão reduzida, os quais não eram ainda identificados como agentes de enfermidades. Anton van Leeuwenhoek (1632-1723), comerciante e naturalista holandês, que – à época – foi um dos construtores desses aparelhos, registrou suas observações e descreveu com precisão os “animálculos” que se moviam em meio aquoso.

Thomas Sydenham (1624-1689) estudou as enfermidades epidêmicas provenientes dos pântanos, designadas por “febres”, associando-as a diferentes partículas infecciosas. Por sua vez, Giovanni Maria Lancisi (1654-1720) designou por miasmas as emanações dessas áreas alagadiças, as quais eram resultantes da putrefação de matéria orgânica. Tais emanações poderiam produzir diferentes tipos de doenças, ressalvando-se o caso da malária ("mau ar"), que seria causada por pequenos animais que penetrariam no corpo e passariam à corrente sanguínea.

Século 18

A causa das doenças era, então, atribuída aos miasmas – relacionados a qualquer matéria orgânica em decomposição – e aos odores fétidos que exalavam. As medidas de higiene adotadas nas residências justificavam-se pela necessidade de afastar o mau odor gerado por resíduos e dejetos.

Século 19

No início desse século, admitia-se que o contágio ocorria por meio de um “veneno” – também chamado “vírus” – e sempre de uma pessoa a outra. A possibilidade de transmissão de doença pela água – como no caso da cólera – ou por vetores não era cogitada.

Entre 1835 e 1855, vários estudiosos – como Agostino Bassi, Antoine Donné e Félix Pouchet – associaram o aparecimento de doenças a seres microscópicos ou parasitas, gerando conhecimentos ainda isolados, que prefiguravam uma teoria microbiana das doenças, capaz de explicar e prever os fenômenos. Registre-se, entretanto, que o termo micróbio não era ainda utilizado. 

Na década de 1860, as principais contribuições para o estabelecimento dessa teoria originaram-se das investigações sobre o antraz e a pebrina. Casimir Davaine (1812-1882) – que, em parceria com Pierre Rayer (1793-1867), descobrira corpúsculos filiformes no sangue de carneiros mortos pelo antraz – efetuara testes de transmissão da doença por inoculação de sangue contaminado em animais sadios. Os novos experimentos forneceram provas conclusivas, embora não aceitas de forma unânime, de que os corpúsculos ou bactérias eram a causa e não o produto da doença. 

O estudo da pebrina – doença que dizimava as criações do bicho-da-seda – foi desenvolvido paralelamente por Louis Pasteur (vide box) e Antoine Béchamp (1816-1908). Coube a este último elucidar a questão relativa ao corpúsculo que causava a infecção das lagartas: tratava-se, na verdade, de um microrganismo parasita e não de um grânulo tóxico. 

A consolidação da teoria microbiana ocorreu na década de 1870 com os trabalhos de Robert Koch (vide box), nos quais foram estabelecidas as regras para a determinação do papel de um microrganismo como agente específico de uma doença, após sua correta identificação e crescimento em meio de cultura. 

Diante do exposto, pôde-se perceber que – até a concepção dessa teoria – houve um longo percurso histórico de mais de 20 séculos, durante os quais a origem das doenças foi associada ao desequilíbrio dos humores, às condições atmosféricas e à má qualidade do ar.

Louis Pasteur (1822-1895)

Desenho de Louis Pasteur em um laboratório

Pasteur solucionou problemas oriundos da fermentação do leite e do vinho e foi o responsável pela elaboração da vacina humana contra a raiva, a primeira produzida em laboratório. Com doações particulares, criou em 1888 o Instituto Pasteur, que formou gerações de cientistas e hoje se dedica ao estudo de doenças infecciosas

Em 1847 doutorou-se em Física e Química pela Escola Normal Superior de Paris e, em 1854, foi nomeado decano da Faculdade de Ciências de Lille. Integrou os colegiados da Academia de Ciências e da Academia de Medicina, em Paris.

Seus primeiros trabalhos, na área de cristalografia, focalizaram o dimorfismo e as propriedades ópticas dos cristais do ácido tartárico. Os estudos que efetuou sobre a fermentação láctica, alcoólica e butírica mostraram que esse processo resultava da ação de microrganismos sobre a composição química do meio, com a formação de novas moléculas. Solucionou a questão relativa à acidificação do vinho, propondo o aquecimento do líquido à temperatura de 55ºC, medida esta que originou o método de pasteurização.

Pasteur desenvolveu vários experimentos que traziam evidências favoráveis à existência de microrganismos em determinadas regiões da atmosfera (panspermia limitada), os quais contaminavam líquidos nutrientes, previamente fervidos. Travou uma célebre polêmica com Félix Pouchet (1800-1872), médico e naturalista, cujos testes experimentais corroboravam a geração espontânea de seres microscópicos, a partir da matéria orgânica em decomposição. A disputa foi arbitrada pela Academia de Ciências, que se inclinou para o lado de Pasteur.

Com base no amplo espectro de pesquisas que desenvolveu para identificação de patógenos que atuam sobre o organismo do homem e de alguns animais superiores, Pasteur sustentou que a causa das doenças infecciosas eram microrganismos, que deveriam ser combatidos por medidas profiláticas.

Embora, na época, os mecanismos de imunização não fossem bem conhecidos, Pasteur guiou-se por suas hipóteses e produziu vacinas contra a cólera de galinhas e o antraz em carneiros, atenuando a virulência dos agentes etiológicos. Utilizando-se da medula espinal extraída de coelhos infectados, desenvolveu a vacina humana contra a raiva, cuja eficácia e segurança foram gradativamente aprimoradas.

Robert Koch (1843-1910)

Imagem em preto e branco de Robert Kock

Para o estudo dos microrganismos, Koch testou novos meios de cultura, utilizou corantes que permitiam distinguir as estruturas internas e aperfeiçoou técnicas de fotografia microscópica

De 1862 a 1866, estudou Medicina na Universidade de Göttingen, tendo sido aluno de Jacob Henle, patologista e anatomista. Trabalhou como assistente no Hospital Geral de Hamburgo, foi médico voluntário na guerra franco-prussiana e assumiu o cargo de médico distrital em Wollstein (Alemanha). Em 1876 publicou um estudo sobre os experimentos com o antraz, no qual foram descritos os postulados que deveriam ser atendidos para a validação da pesquisa bacteriológica.

Mediante testes sucessivos de inoculação sanguínea, Koch confirmou a transmissão do antraz entre camundongos e a presença de corpúsculos filiformes no sangue dos roedores mortos. Decidiu isolá-los do organismo doente, inserindo-os em diversos meios de cultura. A observação das lâminas ao microscópio revelou que eram microrganismos que podiam reproduzir-se. Por fim, verificou que induziam a doença em animais saudáveis.

Em 1878 mostrou que as infecções sépticas tinham origem bacteriana, relatando os achados em uma monografia. Em 1882 identificou – por meio de corante especial – o bacilo causador da tuberculose, cuja transmissão fora verificada por Julios Cohnheim (1839-1884). Utilizou soro de sangue bovino coagulado como meio de cultivo e inoculou vários animais, que adoeceram. Elaborou a tuberculina, a partir da cultura do bacilo em caldo glicerinado, que não demonstrou eficácia na cura da doença.

Em 1885 foi nomeado professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Berlim e, em 1891, tornou-se diretor do Instituto de Doenças Infecciosas, criado na mesma cidade para o prosseguimento de seus trabalhos. Foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Águia Alemã e, em 1905, recebeu o prêmio Nobel de Medicina.

Livros e artigos relacionados:

COULTER, Harris L. Divided legacy: a history of the schism in medical thought. Washington, D.C.: Wehawken Book Co., 1977. 3 v.

CZERESNIA, Dina. Do contágio à transmissão: ciência e cultura na gênese do conhecimento epidemiológico. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1997. Disponível em: <http://static.scielo.org/scielobooks/knm4c/pdf/czeresnia-9788575412565.pdf>. Acesso em: 14 dez. 2015.

DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

FERNANDES, Antonio Tadeu (Ed.). Infecção hospitalar e suas interfaces na área da saúde. São Paulo: Atheneu, 2000.

FREITAS, Celso Arcoverde de. Peste. In: VERONESI, Ricardo; FOCACCIA, Roberto (Ed.). Tratado de infectologia. São Paulo: Atheneu, 1996.

HEMPEL, Carl G. Filosofia da ciência natural. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. (Curso moderno de filosofia).

HOUAISS, Antônio (Ed.). Enciclopédia Mirador Internacional. São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil, 1992.

MARTINS, Roberto de Andrade. Contágio: história da prevenção das doenças transmissíveis. Colaboração: Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, Maria Cristina Ferraz de Toledo e Renata Rivera Ferreira. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1997. (Col. Polêmica).

MORGENBESSER, Sidney (Org.). Filosofia da ciência. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1979.

OLIVEIRA, J. Cândido de. Em louvor de Koch: a propósito da descoberta do bacilo da tuberculose. Acta Médica Portuguesa, Lisboa, v. 4, n. 3, p. 195-199, 1983. Disponível em: <http://www.actamedicaportuguesa.com/revista/index.php/amp/article/viewFile/3789/3047>.Acesso em: 3 fev. 2016.

PINTO, Paulo G. Hilu da Rocha. O estigma do pecado: a lepra durante a Idade Média. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, 1995. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/physis/v5n1/07.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2016.

PORTER, Roy. Cambridge: história ilustrada da medicina. Rio de Janeiro: Revinter, 2001.

ROBERT Koch - Biographical. Nobel Lectures, Physiology or Medicine 1901-1921. Amsterdã: Elsevier, 1967. Disponível em: <http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1905/koch-bio.html>. Acesso em: 12 mar. 2016.

ROONEY, Anne. A história da medicina: das primeiras curas aos milagres da medicina moderna. São Paulo: M. Books do Brasil, 2013.

SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL. História da ciência. Os grandes erros da ciência. São Paulo: Segmento-Duetto/ Ediouro, [s.d.]. Edição especial nº 6.

TERENZI, Hernán. Golpe fatal na geração espontânea. Ciência Hoje, Rio de Janeiro, v. 39, n. 234, jan.-fev. 2007. Disponível em: <http://cienciahoje.uol.com.br/banco-de-imagens/lg/protected/ch/234/memoria.pdf/at_download/file>. Acesso em: 15 fev. 2016.

VERGARA, Moema de Rezende. Os cadernos de laboratório de Pasteur: uma reflexão sobre o público e o particular nas biografias de cientistas. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 445-448, maio-ago. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v11n2/14.pdf>. Acesso em: 4 fev. 2016.

Publicado em Edição 06
Sexta, 01 Abril 2016 13:47

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A revista semestral de divulgação científica Entreteses, resultado de uma operação colaborativa entre a Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa, a Reitoria e o Departamento de Comunicação Institucional (DCI), foi criada em 2013, com o objetivo de disseminar a produção de pesquisadores e professores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Essa publicação busca tornar-se um “ponto de encontro” entre docentes, estudantes e funcionários da Unifesp, propiciando um ambiente de integração e superando as dificuldades colocadas pela dispersão geográfica que caracteriza os campi da universidade (situados em São Paulo, Guarulhos, Diadema, Osasco, Baixada Santista e São José dos Campos).

A versão virtual da revista, em fase de contínuo desenvolvimento, pretende criar e fortalecer espaços de interação nas redes sociais. Assim, além de permitir que a própria comunidade Unifesp se conheça, esse veículo é uma de nossas portas para o mundo externo. Ele facilita o cumprimento de uma missão essencial das universidades públicas: entregar à sociedade os produtos oriundos dos recursos investidos nessas instituições.

Entretanto, partilhar o conhecimento não basta. Sua integração com outros saberes é fundamental para o progresso de qualquer área. De fato, a “interdisciplinaridade” tem surgido como tema central das discussões nas mais diversas áreas. Mais que isso, ao aumentar a visibilidade da Unifesp em âmbito nacional e internacional, a revista é um agente facilitador da criação de redes multicêntricas de pesquisa, de parcerias que visam à inovação e à aplicação prática do conhecimento e de nosso processo de internacionalização.

Desse modo, a revista concede espaço para que pesquisadores de diversas áreas apresentem seus principais resultados, de forma crítica e contextualizada, abrindo as portas de seus laboratórios e bibliotecas para a própria Unifesp e para a sociedade como um todo. Discutindo as entrelinhas da pesquisa, Entreteses é também uma ferramenta de comunicação essencial para que debatamos não só os aspectos metodológicos, mas principalmente as facetas éticas e políticas da pesquisa no Brasil e no mundo.

ISSN 2525-538X (publicação online)
ISSN 2525-5401 (publicação impressa)

Capa da sétima edição da Entreteses
Capa da edição 6 da entreteses - logotipo Entreteses, fotografia de drogas: pílulas, garrafas e cocaína, frase Drogas: um debate cientítico
entreteses 05 2015
entreteses 04 2015
entreteses 03 2014
entreteses 02 2014-1
entreteses 01 2013-1
 
Publicado em Entreteses
Sábado, 10 Outubro 2015 15:53

Para além de 19 de abril

(“ ... todo dia, era dia de índio...” - Baby do Brasil)

Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni
Pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa

Desde que em 1943, em referência ao I Congresso Indigenista realizado em 19 de abril de 1940, Getúlio Vargas decretou que 19 de abril seria oficialmente o “ Dia do Índio” no Brasil, muito aprendemos sobre, e com, os primeiros habitantes de nossa terra. Um pouco da história sobre a troca de conhecimentos e experiências com a população indígena é contada neste número por médicos e pesquisadores que a viveram, com destaque para o prof. Roberto Geraldo Baruzzi e os médicos sanitaristas Sofia Mendonça e Douglas Rodrigues. da Escola Paulista de Medicina da Unifesp (EPM/Unifesp). A partir do sonho de Baruzzi de conhecer a situação de saúde da população indígena e prover-lhe assistência médica adequada, foram iniciados muitos projetos de pesquisa, ensino e extensão.

O conhecimento e a experiência adquiridos serviram de base a um curso de especialização sobre a saúde indígena e à instalação de um ambulatório especializado, oferecendo um ensino diferenciado aos profissionais de saúde formados pela Unifesp. Nas matérias sobre o tema, emerge claramente a indissociabilidade das atividades de ensino, pesquisa e extensão da instituição. Como resultado dessas ações sinérgicas, mais de 20 teses de doutorado e 18 dissertações de mestrado foram defendidas e mais de 100 artigos publicados, com foco em questões relacionadas à população indígena. Outros estudos estão em andamento, como mostra a matéria sobre doenças crônicas, dentre as quais aparece a síndrome metabólica, que tem atingido também a população indígena. Muito aprendemos com eles sobre o uso medicinal de plantas, um tema que tem sido estudado há décadas pelo prof. Elisaldo Carlini. Personagem principal da matéria sobre o canabidiol – princípio ativo da cannabis sativa (maconha) ele discute os múltiplos aspectos relacionados ao tema, da legalização das drogas ao uso com finalidades terapêuticas.

Isso é inovação – assim como o sistema de monitoramento da atividade da enzima conversora da angiotensina I, desenvolvido sob a coordenação da professora Adriana Karaoglanovic Carmona, do Departamento de Biofísica da EPM/Unifesp. A dosagem de inibidores específicos é importante para o diagnóstico e avaliação de diversas patologias, como sarcoidose, asbestose, silicose, trombose e disfunções endoteliais e esse projeto resultou na primeira patente concedida à Unifesp. Até hoje, a instituição solicitou ao INPI o registro de 42 pedidos de patentes. Para orientar e apoiar os pesquisadores, o Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) e o Escritório de Apoio aos Pesquisadores (EAP) oferecem apoio técnico e administrativo e são também apresentados neste número de Entreteses. Boa leitura!

Publicado em Edição 05

Carolina Córdula
Pós-doutoranda pelo programa de Biologia Molecular

De 12 a 18 de julho deste ano aconteceu a 67ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em São Carlos, município localizado no Estado de São Paulo. São Carlos é um importante polo tecnológico, educacional e industrial, que abriga, além de uma universidade federal (UFSCar), dois campi da USP, um instituto federal de educação profissional e tecnológica (IFSP), uma Fatec e o Centro Universitário Central Paulista (Unicep); várias empresas multinacionais, como a Volkswagen, Electrolux e Faber-Castell, estão também ali sediadas. Este ano o desafio da sociedade científica, em um local onde o conhecimento é rotineiramente produzido e aplicado, foi, portanto, outro: atrair e estimular a participação da comunidade na discussão e prática da ciência. Despertar a curiosidade da criança e do adolescente, chamar a atenção dos jovens universitários, provocar os pais, tios e avós. E pode-se dizer que, mais uma vez, a SBPC triunfou na realização de um evento, cuja programação científica, com 6.378 inscritos – entre eles, cientistas, estudantes, professores e gestores de pesquisa e desenvolvimento ligados ao governo e a empresas privadas –, contou também com a participação maciça da comunidade, principalmente no último dia, intitulado Dia da Família na Ciência. Dentro de imensas tendas climatizadas e decoradas, realizaram-se vários experimentos; da Astronomia à Biologia, da Arqueologia à Física, crianças e jovens testaram as leis da natureza e colocaram a mão na massa, discutiram como o corpo funciona, o que é fluorescência, qual a importância do ciclo da água, o que é DNA, como montar um robô. Não foi só uma tarde de diversão e brincadeiras, foi também o despertar de futuros cientistas.

Além das exposições da SBPC Jovem, 60 conferências, 74 mesas e 52 minicursos abordaram a ciência nos mais diversos âmbitos, como Medicina, políticas públicas, biodiversidade, Astronomia, indígenas, educação, biotecnologia, luz etc. Dentre todos esses temas, a atual crise econômica protagonizou muitas discussões. A crise econômica, que chega tardiamente a nosso país, e a crise política associada apresentam-se como dificuldades que exigem alternativas inovadoras, provenientes do governo e também da sociedade. A ciência e a educação brasileiras, áreas estratégicas para o desenvolvimento, estão sofrendo perigosos cortes de orçamento, afetando – no segundo caso – desde a educação básica até o ensino superior. O governo cortou 9 bilhões no orçamento do Ministério da Educação e luta para preservar programas como o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), o Ciência sem Fronteiras, o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) e o Pibid (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência). Só este ano o Fies sofreu o corte de mais da metade das novas bolsas em relação ao ano passado, e o Pronatec, o corte de dois terços do orçamento. Políticas para a ciência e educação foram amplamente discutidas, e o que se viu foi uma grande inquietação acerca das decisões governamentais.

Uma preocupação recorrente da SBPC tem sido a discussão sobre inovação tecnológica – como aproximar ciência e tecnologia da atividade econômica. Academia e indústria juntas inovam, e a economia se torna competitiva. Inovar é criar soluções criativas, inteligentes, úteis para um determinado momento. Diante de um problema (uma crise), inova quem faz diferente, quem arrisca e faz algo a mais. Inovar é arriscar.

Você, como pós-graduando, o que tem feito para ajudar na crise do sistema de educação brasileiro? A pesada maioria dos pós-graduandos desconhece o potencial de contribuição que pode oferecer ao país. Existe, entretanto, um trabalho com impacto tão alto e imediato quanto qualquer outro publicado na Nature ou Science: a atividade de divulgação científica em escolas do ensino fundamental e médio. A isso chamamos extensão. Teoricamente indissociável do ensino e da pesquisa acadêmica. Na condição de pós-graduanda que pratica a extensão, ao mesmo tempo em que desenvolve sua pesquisa, divulgar ciência nas escolas é inovador, porque sai do habitual, expande os horizontes, transforma. Resultado: desperta a vocação científica em crianças e jovens; desperta a consciência do pós-graduando acerca da educação pública e de nossas diferentes realidades, de nossa cultura diversificada, de nossa tolerância e, principalmente, de nosso lugar no mundo.

Para inovar é preciso sair da zona de conforto. Na SBPC Jovem a grande maioria dos expositores, oficineiros e monitores era constituída por estudantes do ensino médio, da graduação e da pós-graduação. Praticando divulgação científica. A SBPC proporciona esse tipo de espaço. Mas existem muitos outros, nas escolas e comunidades. Uma grande oportunidade de contribuir com o nosso país para a superação desta e de outras crises é atrair mentes e corações, crianças e jovens, para a ciência do futuro.

Entretesses05 p009 SBPC Jovem

67ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em São Carlos, que reuniu crianças e adolescentes nas exposições da SBPC Jovem

Publicado em Edição 05

Iniciativa pioneira implementada pela Escola Paulista de Medicina reduziu o alto índice de mortalidade decorrente das grandes epidemias na região e celebra o aumento populacional das etnias

Da Redação
Com colaboração de Ana Cristina Cocolo

grafismo xingu 01
Entretesses05 p020 Projeto Xingu Crianca Kamaiura

Criança Kamaiura na Lagoa Ipavu, no Alto Xingu

Pouco mais de cinco décadas atrás, em 1954, um surto de sarampo vitimou 20% dos índios de várias etnias do Alto Xingu. O índice de mortalidade dos povos da região, em decorrência da precariedade da saúde e da alta transmissão da malária, era assustador. Havia alto risco da varíola, altamente letal e ainda não erradicada no Brasil à época. Para essas novas doenças, introduzidas pelo contato com o homem branco, os métodos de cura adotados pelos pajés muitas vezes eram impotentes. A falta de assistência sanitária regular acentuava o risco de extinção dos cerca de 1.500 índios, distribuídos em 16 etnias que habitavam os 28 mil km2 da região. As epidemias, como as citadas, tiveram efeito muito mais letal e intenso que as grandes guerras ocorridas entre diferentes grupos indígenas e a ação predatória dos colonizadores.

O cenário devastador representava um desafio para médicos, antropólogos, sociólogos, historiadores e cientistas sociais que se preocupavam com o destino das comunidades xinguanas. Uma das respostas foi dada pela Escola Paulista de Medicina (EPM) que, a convite do sertanista e então diretor do Parque Indígena do Xingu (PIX), Orlando Villas Bôas, iniciou a implantação de uma atividade pioneira: um programa intitulado Projeto Xingu, que agora completa cinco décadas de existência. Hoje, sob coordenação da médica sanitarista Sofia Mendonça, a iniciativa conta com uma equipe multidisciplinar formada por 17 pessoas entre médicos, enfermeiros, nutricionista, cirurgião dentista e educador, além de historiador, fotógrafo e o corpo administrativo, que visa levar melhores condições de saúde aos índios do parque. Ao todo, mais de 500 pessoas já participaram das atividades de campo desde a criação do programa.

Dentre as principais conquistas do programa, estão o aumento da expectativa de vida dos índios, queda da mortalidade infantil e a erradicação de doenças como sarampo, catapora, poliomielite e difteria. Além disso, os casos de malária, que era a principal epidemia que assolava esses povos, são muito raros e, quando ocorrem, não evoluem para o óbito. 

Atualmente, a maioria dos povos superou as epidemias e o risco de extinção. No entanto, todo cuidado ainda é pouco e os índios já esboçam o que esperam dos próximos 50 anos do programa. 

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Equipe de vacinação no posto indígena Pavuru

Saúde do índio

Pesquisadores do projeto atuam intensamente na questão da saúde indígena, principalmente em relação às doenças advindas do contato com o homem branco. Essa é a principal ameaça aos xinguanos, porque estão muito vulneráveis, tanto do ponto de vista biológico, quanto do social e cultural. A equipe realiza campanhas frequentes de imunização e vigilância em saúde, em colaboração com o Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu, a Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena e o Ministério da Saúde (Sesai/MS).

O contato cada vez mais frequente com a nossa sociedade trouxe também alterações alimentares e, consequentemente, novas doenças às aldeias. A entrada de alimentos industrializados, como açúcar refinado, sal, biscoitos, enlatados, bebidas alcoólicas e refrigerantes, contribuíram para o surgimento de um número cada vez maior de índios com sobrepeso, algo que praticamente inexistia. Começaram também a aparecer casos de alterações na pressão arterial e de diabetes. Além do uso abusivo de bebidas alcoólicas.

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Criança indígena recebe vacina no posto indígena Diauarum (Onça Preta)

Atualmente são realizadas, pelo menos, seis viagens anuais com duração de 15 a 35 dias. Além da equipe, alunos e docentes da universidade participam dos trabalhos. Nessas idas a campo, além da imunização que é realizada desde o início do programa, é feita a avaliação das gestantes, dos menores de 5 anos de idade, dos pacientes portadores de doenças crônicas como diabetes e hipertensão arterial, coleta de citologia cervico-vaginal para controle do câncer do colo uterino, acompanhamento de pacientes com tuberculose, bem como a capacitação da equipe local. Há também as oficinas de saúde, nutrição e culinária que são realizadas com os diferentes povos do PIX. Nelas são promovidas ações conjuntas para melhorar a oferta de alimentos e o acompanhamento das crianças desnutridas, além da promoção e valorização da culinária tradicional indígena. Como os alimentos industrializados já são uma realidade cada vez mais latente nas aldeias, regras de preparo e consumo para uma dieta equilibrada também são abordadas. 

“Em tempos de comemoração do Projeto Xingu, é importante lembrar que ainda temos o privilégio de compartilhar com esses povos indígenas, sociedades mais igualitárias, ideias e ideais sobre as relações entre as pessoas, sobre a natureza e sobre a vida. Quero aproveitar e fazer um alerta para as ameaças crescentes aos direitos e à vida da população originária do nosso País”, observa Douglas Rodrigues, que já coordenou a iniciativa e hoje atua como chefe da Unidade de Saúde e Meio Ambiente, onde está o programa de extensão desenvolvido pelo Departamento de Medicina Preventiva da EPM/Unifesp.  “Os pactos de governabilidade com a bancada ruralista e da mineração e com a estratégia de desenvolvimento focada em um modelo primário exportador, que lembra os tempos coloniais, além de impactar a maioria dos povos e territórios indígenas, fomenta o discurso de ‘muita terra para poucos índios’, retomando o argumento de que os índios são empecilhos ao desenvolvimento do país e que são obstáculos a serem removidos”

Necessidade de institucionalizar 

Apesar dos ganhos à saúde da população do Xingu, no sentido de diminuir os casos de mortes em razão das grandes epidemias que assolavam a região, ainda há necessidade de muitos progressos. Os indicadores médios de mortalidade infantil e materna, assim como as taxas médias de incidência de tuberculose e outras doenças infectocontagiosas são duas a três vezes maiores entre os indígenas do que na população brasileira como um todo. Os recursos para a manutenção do programa ainda são insuficientes. Embora existam parcerias com o Ministério da Saúde, o Instituto Socioambiental, o Instituto Caititu, as organizações sociais (OS) e várias associações indígenas, o objetivo delas é auxiliar no trabalho de campo, mas não no sentido de viabilizar o programa economicamente.

A ampliação de recursos é necessária devido à expansão do programa, que hoje não se restringe apenas ao atendimento aos xinguanos. O trabalho também vem sendo desenvolvido com populações ribeirinhas e comunidades tradicionais. Ou seja, o leque de atividades foi expandido para atender a diversos conjuntos de povos que constituem a grande diversidade da sociedade brasileira.

Entretesses05 p026 aldeia Nacepotiti

Imagens aéreas da aldeia Nacepotiti, povo Panará

Pioneira na formação especializada

Desde 2007, a Unifesp oferece cursos de especialização em saúde indígena. É pioneira na América Latina e uma das poucas instituições que possuem no currículo de graduação médica e de enfermagem essa temática. Na especialização, já formou 350 profissionais e outros 400 estão em processo. 

Devido à dimensão do programa, o Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp) também atua em várias frentes, desde a atenção hospitalar no Ambulatório do Índio, do próprio hospital, para os casos de maior complexidade, até o trabalho de campo no Xingu, com a ida de alunos e residentes, além de toda atividade de pesquisa e extensão.

A Unifesp também promove, desde a década de 1990, a formação de indígenas como agentes de saúde e auxiliares de enfermagem. A primeira turma de agentes de saúde se formou em 1996 e, em 2001, outros 16 auxiliares de diferentes etnias xinguanas receberam o diploma. Essa formação de auxiliares de enfermagem indígenas foi um processo inédito, desenvolvido quase inteiramente no interior do PIX, com reconhecimento da Secretaria Estadual de Saúde do Mato Grosso, Estado com grande população indígena. Embora o projeto inicial contemplasse apenas o Xingu, o governo estadual decidiu ampliar para todas as áreas indígenas da unidade da federação. Dessa forma a universidade ajudou a montar os cursos em outras áreas, nas quais vivem os povos Xavante, Bororo e Pareci. Conhecido como Projeto Xamã, a iniciativa profissionalizou 120 indígenas que estão em atividade.

No entanto, o programa de formação de agentes de saúde está parado há três anos por falta de investimento e articulação governamental com outros centros formadores. A última turma formou-se em 2012, contemplando 55 agentes das etnias Ikpeng, Kĩsêdjê, Yudjá, Trumai, Kawaiwete, Kamaiurá e Wauja, no Polo Pavuru, do Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu, no PIX.

Entretesses05 p024 Projeto Xingu

Imagem maior: Thais Santos, médica da equipe de Saúde da Família do Projeto Xingu em atendimento na aldeia Aweti
Imagem acima, à esquerda: Ação de Saúde da Mulher na aldeia Pyulaga, do povo Wauja
Imagem acima, à direita: Agente indígena de saúde em atendimento na unidade básica de saúde, polo base Pavuru

Respeito à cultura

O perfil epidemiológico entre os povos indígenas muda muito rapidamente no país. Em consequência disso, o programa precisa de adaptação constante. As atividades desenvolvidas e os cuidados precisam ser adequados e ampliados para que o objetivo de colaborar com a atenção, saúde e qualidade de vida dos povos originários do Brasil seja alcançado. Nesse contexto, as viagens também têm por objetivo a capacitação da equipe local de saúde, realização de encontro de mulheres, oficinas de culinária, encontro de jovens, etc. Também são desenvolvidas pesquisas sobre problemas de saúde relevantes para a população.

Um dos principais papéis da equipe é levar atenção médica aos índios, procurando interferir minimamente na cultura. Eles desenvolveram seus próprios sistemas tradicionais de saúde, constituídos por diferentes atores e práticas, como a pajelança, plantas medicinais, rezas e cantos de cura. Isso está ligado ao modo como compreendem o mundo e, consequentemente, o processo de adoecimento. Por essas razões, o desafio consiste em desenvolver a escuta, para entender o outro e o que é diferente da nossa cultura.

“Nós mesmos, como profissionais de saúde, temos que nos despir de nosso olhar etnocêntrico, que nos leva a achar que apenas o conhecimento científico e biomédico tem valor. É estratégico entender e valorizar o conhecimento tradicional, para que os modos de ver possam dialogar e as práticas possam ser articuladas, em benefício daqueles que procuram tanto a nós, médicos científicos, quanto aos médicos tradicionais”, comenta Sofia Mendonça, coordenadora do programa.

Por vezes é mais difícil conseguir essa articulação, especialmente em casos mais graves ou naqueles cuja etiologia, para os indígenas, envolve a dimensão espiritual e para a qual eles sabem que a Biomedicina tem menor eficácia. Esses momentos são difíceis, mas sempre é possível o diálogo e o trabalho articulado. Além disso, a maior parte das mortes que ocorrem, especialmente nas crianças, são mortes evitáveis. São situações nas quais uma boa atenção básica pode diminuir significativamente, reduzindo assim as chances de ocorrerem essas situações mais difíceis. Nas raras situações em que não há entendimento, prevalece a decisão da família, que pode seguir uma ou outra orientação, como é de direito.

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Terceiro Encontro de Mulheres Indígenas Xinguanas sobre gestação e parto no polo base de Diauarum

Coleta de exame Preventivo do Câncer de Colo de Útero (PCCU)
Aldeia Pop. total Pop. Fem. ≥19 anos e vida sexual N. de Exames PCCU coletados Cobertura PCCU
Waura 349 68 44 64,7%
Kamayura 335 81 69 85,2%
Yawalapiti 174 42 34 81,0%
Pólo Leonardo 76 17 10 58,8%
Aldeia Velha 21 4 3 75,0%
Saúva (Saidão) 79 13 9 69,2%
Base do Jacaré 24 7 7 100,0%
Fazendinha 8 1 0 0,0%
Nafukua 95 23 17 73,9%
Kalapalo 215 40 36 90,0%
Matipu 113 25 17 68,0%
Kuikuro 278 64 49 76,6%
Buritizal 10 3 0 0,0%
Aweti/Salve Jorge 88 21 19 90,5%
Mehinako 89 23 18 78,3%
Yaramã 48 11 8 72,7%
Kurisevo 31 9 8 88,9%
Utawana 94 21 14 66,7%
Aturua 17 4 2 50,0%
Total 2136 477 364 76,3%
Entre as causas da porcentagem de mulheres que não realizaram o exame estão: recusa, ausência da aldeia, regra menstrual, puérperas, etc. Fonte: Projeto Xingu / Alto Xingu (2014)

Ultrapassando fronteiras

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Imagem acima, à esquerda: Reunião com alunos com o cineasta Hermano Penna na sede do Projeto Xingu, em São Paulo
Imagem abaixo, à esquerda: Equipe do Projeto reunida em frente à sede em São Paulo
Imagem acima, à direita: Alunos do 5º ano de Medicina em visita à aldeia Tekoha Pyaú no Pico do Jaraguá, em São Paulo
Imagem abaixo, à direita: Douglas Rodrigues em viagem junto aos índios isolados do Acre (povo Korubo)

Os profissionais do Projeto Xingu atuam além das fronteiras do PIX e tentam acompanhar povos em condição de semi-isolamento, ou seja, etnias nas quais as relações com a sociedade do entorno ocorrem de forma intermitente.

Atualmente, a equipe acompanha os Panará – oficialmente o primeiro contato ocorreu em 1973 –, no Mato Grosso; os Txapanawa, que residem no alto do rio Elvira, no Acre; os Zo’é, na Serra do Cuminapanema, no Pará; e os Korubo, no vale do rio Javari, no Amazonas.

De acordo com Douglas Rodrigues, o primeiro contato sempre é uma situação tensa, tanto para a equipe quanto para os indígenas. “Pouco sabemos uns dos outros e por isso não sabemos exatamente como vão reagir”, afirma. “Nem mesmo os índios, pois na maioria das vezes recordam-se de encontros pouco amistosos com os ‘brancos’”.

O médico sanitarista também explica que, desde o final dos anos 1980, a Fundação Nacional do Índio (Funai) está revendo sua política de proteção com relação aos grupos indígenas isolados e, a partir de 2000, houve uma mudança radical nesse sentido. “Antes, acreditava-se que era preciso o primeiro contato para protegê-los. Hoje, é preconizada a interdição da área e as Frentes de Proteção Etnoambiental, de responsabilidade da Funai, sendo feitas incursões cuidadosas no território para obter o máximo de informações sobre esses povos e identificando potenciais ameaças, bem como estabelecendo estratégias de proteção”.

Os contatos, nesses casos, ocorrem quando os indígenas buscam aproximação por vontade própria, aparecendo nos arredores das aldeias indígenas já contatadas ou em vilarejos no interior da Amazônia, ou quando é preciso a intervenção do Estado em virtude das ameaças à integridade dessa população em consequência de invasões de seus territórios por madeireiros, narcotraficantes, grileiros ou garimpeiros.

Um dos últimos povos a serem contatados, mais especificamente em julho de 2014, sete jovens (duas mulheres e cinco homens) da etnia Txapanawa – atualmente reduzidos a pouco mais de 50 pessoas – apareceram em uma aldeia dos Ashaninka, povo que vive próximo ao rio Elvira (AC). Todos estavam doentes, com infecção respiratória aguda, febre, tosse e dor de garganta. A mais nova do grupo, com aproximadamente 13 anos, apresentava uma conjuntivite severa. “Os sintomas nos índios isolados são sempre exacerbados, já que essas doenças são desconhecidas para eles. Nossos analgésicos são mágicos para eles, pois aliviam os sintomas rapidamente. É preciso delicadeza, cuidado, uma vez que nossa assimetria tecnológica pode, ainda que não intencionalmente, afogar os sistemas tradicionais indígenas de cura. Na maioria dos contatos, o grupo ou está doente ou adoece com o contágio e é aí que a assistência médica pode fazer toda a diferença”, afirma Rodrigues.

mapa xingu

Para a equipe, o maior entrave reside na comunicação, que é minimizada com a ajuda de intérpretes indígenas. No entanto, outros obstáculos precisam ser superados, além do estranhamento inicial e a língua. É preciso ter boa formação clínica para encarar as condições de trabalho e as dificuldades impostas pela floresta, como a falta de tecnologia para diagnósticos mais precisos e a administração de medicamentos que necessitam de horários específicos para aplicação.

Muitos grupos isolados estão localizados nas regiões fronteiriças com a Colômbia, Peru, Equador, Venezuela, Bolívia e Paraguai e, segundo Douglas Rodrigues, existe um grupo no Itamaraty que trabalha por marcos legais para a cooperação entre os países. “Há pouca estrutura tanto na Funai quanto na Sesai/MS, especialmente nas regiões mais remotas, onde estão essas etnias”, afirma. “Ainda assim, o esforço de alguns técnicos tem garantido um mínimo de assistência e o Projeto Xingu tem colaborado nas situações de contato, na capacitação de equipes do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) e na elaboração de planos de contingência”.

Síntese do trabalho em saúde com povos indígenas por região (1965-2015)
Região Centro-Oeste
Parque Indígena do Xingu- MT (16 etnias) Formação de indígenas de nível técnico para o trabalho em saúde; apoio à gestão local de saúde e participação social; ações matriciais em saúde da mulher, imunização, oftalmologia, dermatologia, controle da tuberculose; encontros de mulheres indígenas; oficinas de culinária e rastreamento de doenças metabólicas e capacitações de profissionais universitários e apoio técnico
Kayapó - Mato Grosso Capacitações em imunização, tuberculose e apoio técnico
Bororo - Mato Grosso Capacitações de equipe técnica e oficina sobre saúde e sobre a vida: perspectivas para o futuro
Xavante- Mato Grosso Capacitações da equipe técnica, vigilância nutricional e prevenção de diabetes
Panará- Mato Grosso Abordagem inicial para grupo isolado, vigilância à saúde e saúde da mulher e controle de tuberculose
Região Norte
Korubo - Vale do Javari no Acre Capacitação de profissionais de saúde e indigenistas na elaboração de plano de contingência para situações de contato com grupos isolados e trabalho de saúde com grupos indígenas de recente contato
Alto Rio Negro - AM (21 etnias) Supervisão de campo do trabalho de profissionais de saúde e formação de técnicos de enfermagem indígenas
Txapanawa - Acre Abordagem inicial para grupo isolado e vigilância à saúde
Kayapó - Pará Capacitação de profissionais em imunização e apoio técnico e em tuberculose
Wajãpi - Amapá Apoio para formação de agentes indígenas de saúde
Zo’é - Pará Abordagem inicial de saúde para grupo indígena isolado
Região Sudeste
Município de Guarulhos Etnias: Tupi, Pankararé, Wassu Cocal, Kaimbé, Pankararu, Xucuru, Xavante, Pataxó, Fulni-ô e Guajajara Apoio matricial e capacitação de profissionais para atendimento de indígenas em atenção primária de saúde e na organização de serviço de referência para indígenas moradores da cidade
Município de São Paulo Aldeias Guarani (Tenondé Porã, Tekoa Ity, Tekoá Pyau Acompanhamento de pacientes e famílias segundo grupos de risco, oficinas e atividades de promoção da saúde nas aldeias, capacitação de equipes de saúde e preparação de agentes indígenas de saúde, além de apoio às lideranças nas demandas sociais e de saúde
Município de Bertioga - Aldeia Rio Silveiras Capacitação de equipes de saúde e preparação de agentes indígenas de saúde, viagens de intercâmbio cultural ao Parque do Xingu e Sul da Bahia (etnia Tupinambá) e apoio às lideranças nas demandas sociais e de saúde
Município de Aracruz (ES) Etnias Guarani e Tupi Capacitação de profissionais para atendimento de indígenas em atenção primária de saúde
Ambulatório do Índio do HSP\HU\Unifesp Referência nacional em atendimento médico terciário para indígenas; capacitações de equipes, estágios de graduação em Medicina e Enfermagem, residência em saúde da família; acolhimento de pacientes indígenas e famílias na cidade de São Paulo
CASAI- SP (Casa de Saúde do Indio da SESAI- Secretaria Especial de Saúde Indígena- MS) Capacitação profissional das equipes de saúde, promoção da saúde com indígenas e acolhimento de pacientes indígenas e famílias
Região Sul
Tríplice Fronteira (ARG- BRA- PAR) Guarani Capacitação de profissionais da gestão e das equipes locais em saúde indígena e apoio matricial para organização local de serviços de atenção primária
Outros
Ministério da Saúde – FUNASA e SESAI (Brasília) Assessoria para elaboração de material didático para formação profissional de agentes indígenas de saúde; oficinas de trabalho em linhas de cuidado, antropologia da saúde, saúde bucal, assessoria para elaboração de planos de contingência para situações de contato com grupos isolados e para epidemias em grupos de recente contato
Universidade Aberta do Brasil (UAB) e Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Parceria para oferta de curso de especialização em saúde indígena à distância, com formação de 350 especialistas e 400 alunos, em curso, em todas as regiões do Brasil: Amazonas: Manaus, Maués, Lábrea, Coari • Pará: Belém, Marabá • Tocantins: Palmas • Pernambuco: Recife • Paraíba: João Pessoa • Mato Grosso: São Félix do Araguaia, Juara, Cuiabá, Lucas do Rio Verde • São Paulo: São Paulo e Cubatão.

Vasto material histórico

Entretesses05 p027 museu projeto xingu

Prof. Baruzzi recebe grupo de alunos holandeses no antigo local do Museu do Projeto Xingu  (2007)

Cinquenta anos de atuação do programa junto ao Parque Indígena do Xingu (PIX) rendeu à Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) um acervo histórico de valor incalculável. Por iniciativa do Prof. Roberto Baruzzi e apoio de lideranças xinguanas, de professores e da fotógrafa Maureen Bisilliat, um museu foi inaugurado em 1991 em um anexo da antiga Reitoria da universidade, onde permaneceu aberto até 2013. Devido à necessidade de adequação de espaço, o local, hoje, é ocupado pela Diretoria da EPM.

A antiga Sala Prof. Roberto Baruzzi – EPM – Xingu abrigava mais de 500 peças produzidas por todos os povos do PIX, entre elas: cestarias, cerâmicas, arcos, flechas, pedras usadas em trabalhos diários e machados usados antes da introdução do metal, além de redes, adornos e outros artefatos.

De acordo com Lavínia Oliveira, coordenadora de recursos humanos do Projeto Xingu, esse acervo permite demonstrar que a cultura material dos povos xinguanos tem sido preservada por gerações ao se fazer a comparação com exemplares coletados por Karl von den Steinen, em 1887, e demonstrado em livro por ele publicado em 1894 e traduzido por Egon Schaden, em 1940.

O programa também possui cerca de 10 mil fichas médicas das diferentes etnias que permitem conhecer o padrão de saúde/doença dos índios do PIX em diferentes períodos, desde 1965; há aproximadamente 600 livros e publicações em Antropologia, Demografia, Estudos de Povos Nativos, Saúde Pública e Medicina Tropical, além de um grande número de documentos e teses relacionadas ao Projeto Xingu, política indigenista e à trajetória da EPM/Unifesp na atenção à saúde dos índios; mais de 65 mil fotografias e slides e um vasto número de VHS, DVDs e fitas cassete do trabalho em campo que mostram além das atividades desenvolvidas pelas equipes, o dia a dia das aldeias, o preparo dos alimentos, as festas e rituais, como o Quarup e a reclusão pubertária de ambos os sexos. 

O local era aberto à visitação pública e recebia alunos de escolas de ensino fundamental e médio, além de visitantes brasileiros, estrangeiros e indígenas. Principalmente no mês de abril, quando comemoramos o Mês do Índio, o museu também realizava exposições itinerantes.

Atualmente, a equipe aguarda a definição de um novo espaço físico para o museu na Diretoria do Campus São Paulo, que abriga a EPM/Unifesp. Enquanto isso, algumas peças encontram-se expostas na casa que abriga o Projeto Xingu, na Vila Clementino.

Os próximos 50 anos

Lideranças indígenas e toda a comunidade indígena têm reivindicado tanto ao Projeto Xingu quanto à EPM/Unifesp que não somente deem continuidade ao programa, assim como a sua expansão. Várias sementes estão sendo plantadas nesse sentido.

Além da proposta, junto às secretarias da Saúde e da Educação do Estado de Mato Grosso, de formação profissional técnica nas áreas de Enfermagem, vigilância em saúde, saúde bucal e gestão em saúde indígena, a Unifesp também está discutindo a reserva de vagas para indígenas em todos os cursos ofertados pela instituição. “Para isso, estamos montando uma equipe de apoio a esses estudantes para minimizar os obstáculos da língua, as dificuldades do próprio aprendizado e o preconceito”, afirma Sofia Mendonça.

A coordenadora do projeto explica que a ideia para as próximas décadas é ampliar a presença da temática saúde indígena na graduação e pós-graduação, com visitas às aldeias localizadas em São Paulo e no Xingu, com a residência médica em saúde da família, com uma área de concentração em saúde indígena, bem como com ampliação na oferta de cursos na modalidade do ensino à distância. “Estamos na quinta turma de especialização em Saúde Indígena e temos a perspectiva de ampliar as ofertas para públicos mais específicos com o curso de aperfeiçoamento e posterior especialização em saúde mental, sofrimento psíquico e povos indígenas. Esse último ainda está em fase de concepção”.

In loco, a equipe de saúde está com um projeto de investigação de doenças metabólicas, controle do câncer do útero e oficinas de culinária para o resgate da alimentação tradicional indígena que deve abranger vários povos do Xingu.

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Montagem com várias gerações de mulheres de diferentes povos do PIX

Histórias de um chefe Kaiabi

Ana Cristina Cocolo

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Índio Mairawê com aproximadamente 20 anos de idade

Mairawê Kaiabi, 64 anos, um dos líderes do povo indígena Kawaiwete (Kaiabi), acompanha, desde os 14, as idas dos profissionais da área da saúde da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) ao Parque Indígena do Xingu (PIX).

Descendente de um povo com uma história marcada por conflitos de invasão de terra por seringueiros no século XIX, Mairawê lembra bem quando chegou ao PIX, após a área onde vivia ser ocupada gradualmente e os índios induzidos ao trabalho para extração de látex. A chegada da Expedição Roncador-Xingu, comandada pelos irmãos Villas Bôas, ajudou a garantir a sobrevivência cultural desse povo com a proposta de levar os Kaiabi para o Parque do Xingu.

Atualmente, algumas famílias do povo Kawaiwete (Kaiabi) habita o PIX e constitui a etnia mais populosa do local. A língua original desse povo é da família do tupi-guarani. No entanto, quase todos que habitam o parque são bilíngues e dominam bem o português. Outras famílias dos Kaiabi vivem na terra indígena próxima ao rio Teles Pires, que é a região natal dessa etnia, e lá muitas já não falam a língua nativa. São denominados também como Cajahis, Cajabis, Kajabi, Caiabis, Cayabi, Kayabi.

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Mairawê durante encontro na Unifesp com lideranças do Projeto Xingu e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde (2011)

Casado, pai de dez filhos, Mairawê sempre atuou como braço direito da equipe do Projeto Xingu, seja como tradutor intérprete, orientando a equipe, negociando tratamentos, encaminhamentos ou mesmo dirigindo os barcos que levavam os profissionais da saúde para imunizar as populações indígenas de diversas aldeias do PIX.

Histórias não faltam a ele. A remissão às lembranças faz com que o olhar do líder Kaiabi vá de sombrio – ao lembrar das perdas de integrantes do seu povo devido às doenças – à maroto, quando relembra as peripécias e aventuras no rio Xingu e seus afluentes diante das falhas dos motores dos barcos, as boas risadas e os improvisos para manter as vacinas conservadas e cumprir os prazos estipulados pelo Prof. Baruzzi. “Ficava horas segurando um guarda-chuva para minimizar o calor sob o isopor com gelo”, sorri ao falar. “Era tudo muito seguro e organizado e o professor sempre tinha pressa para atender o máximo de pessoas possível”.

Mairawê conta que a princípio custou para ele entender quem era e o que queria exatamente a equipe do Prof. Baruzzi. “Os Villas Bôas traziam muita gente para conhecer os índios. Mas eles eram diferentes. Isso ficou claro quando começaram o trabalho de vacinação contra o sarampo, a coqueluche e tantas outras doenças ruins. Tudo começou a melhorar para nós”, afirma. “O que mais víamos e ainda vemos como dificuldade é a demora para a chegada de medicamento para que a equipe faça um trabalho ainda mais completo”.

Para ele a Medicina do “branco” veio para complementar a do índio. A confiança no trabalho desenvolvido se resumiu a uma frase ao final da entrevista: “Mais que profissionais e amigos, eles são nossa família”.

Produções acadêmicas e de pesquisas do Projeto Xingu (1966-2015)
Projetos de pesquisa financiados 16
Projetos de iniciação científica 12
Teses de livre docência 2
Teses de doutorado 20
Dissertações de mestrado 18
Projetos de mestrado em andamento 6
Projetos de doutorado em andamento 1
Artigos publicados em revistas indexadas 102
Publicações em outras modalidades 22
Livros publicados 8
Capítulos de livros 27
Trabalhos apresentados em congressos e publicados em anais 111
Totalidade de apresentações de trabalhos em congressos 157
Trabalhos de conclusão de curso de graduação 4
Monografias de conclusão de curso de especialização 350
Fonte: Projeto Xingu, 2015
grafismo xingu 01
Publicado em Edição 05