Quarta, 25 Maio 2016 15:34

As drogas e a universidade pública

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

retrato da reitora Soraya Smaili

O mercado de drogas ilícitas movimenta, atualmente, cerca de 900 bilhões de dólares ao ano, o equivalente a 35% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, ou 1,5% do PIB mundial. A cifra, por si só astronômica, dá uma medida do poder de uma indústria que dinamiza e movimenta o crime organizado, com todos os seus tentáculos: tráfico de armas, órgãos e pessoas, contrabando, prostituição, lavagem de dinheiro, corrupção e outras atividades associadas, que, em seu conjunto, movimentam cerca de 2 trilhões de dólares, ou 3,6% de toda a riqueza produzida no planeta, segundo dados divulgados pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc).

No Brasil, o quadro é tão catastrófico quanto o observado globalmente. O preço da cocaína brasileira está entre os mais baixos no mundo, apesar de o produto causar impacto relativamente mais forte sobre o usuário do que o verificado na média (é o país que apresenta os maiores índices de procura de serviços de emergência após o uso). O crack é igualmente barato. Como resultado, o consumo é amplamente facilitado. 

Cerca de 5 milhões de brasileiros consumiram cocaína pelo menos uma vez na vida e 1,8 milhão fez uso de crack, segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (II Lenad), realizado em 2012. Os dados são alarmantes também no capítulo das drogas legalizadas, em particular o álcool, cujo consumo, no Brasil, está entre os maiores do mundo. O cenário melhora apenas com referência ao consumo de tabaco, único exemplo nacional de combate às drogas bem-sucedido.

O sucesso econômico do narcotráfico, em escala global, coloca em evidência o fato de que a política de “guerra às drogas”, impulsionada principalmente pelos Estados Unidos, ao longo do século XX, até hoje, está muito longe de oferecer os resultados esperados. Ao contrário, o uso intenso dos mecanismos de repressão e controle contribuiu para abarrotar sistemas prisionais nos Estados Unidos, Brasil e outros países, não raro colocando até mesmo usuários ocasionais de drogas em contato com traficantes perigosos, agravando os problemas sociais subjacentes, incluindo práticas repressivas orientadas pelo racismo.

Em contrapartida, a partir do final do século passado, começaram a ser formuladas, em todo planeta, políticas públicas alternativas à “guerra às drogas”, incluindo, em particular, a legalização da maconha (tanto para uso terapêutico quanto recreativo). Atualmente, pelo menos 33 países legalizaram total ou parcialmente o uso e o porte da erva, com variações nas legislações. O caso mais emblemático até o momento é, provavelmente, o do Uruguai, que, em 2014, autorizou a produção e o comércio da maconha, sob controle do Estado. Mesmo nos Estados Unidos, apesar de uma lei federal absolutamente proibitiva, alguns Estados autorizaram o uso recreativo da maconha, outros se limitaram ao terapêutico. 

No Brasil, o debate ganhou corpo dentro das universidades e envolve intelectuais, políticos, sociólogos, médicos, parlamentares, religiosos e usuários, especialmente jovens, que protagonizam um movimento em defesa da legalização. Em novembro de 2015, a discussão foi levada a um novo patamar, quando o juiz federal Marcelo Rebello Pinheiro determinou à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) retirar o THC (tetrahidrocanabinol), derivado da maconha, da lista de substâncias psicotrópicas cujo uso e venda são proibidos no país e permitir a importação, para fins medicinais, de medicamentos e produtos que possuam como princípios ativos os componentes THC e CDB (conhecido como óleo de maconha).

A presente edição de Entreteses aborda de frente essa questão, por meio da divulgação de um dossiê que reflete o trabalho desenvolvido no âmbito da Unifesp. A nossa universidade se orgulha de ter, entre os seus quadros, alguns dos mais importantes e destacados pesquisadores sobre a questão das drogas, cujos trabalhos produzem impacto e influenciam o processo de elaboração de políticas públicas. Nem sempre as conclusões e propostas são consensuais – ao contrário, eventualmente, são até antagônicas. Mas este, precisamente, é o papel da universidade pública: fornecer elementos para estimular a reflexão, a crítica e a interlocução como meio de resolver as grandes questões e impasses que afetam o país.

Publicado em Edição 06
Quarta, 25 Maio 2016 15:32

Manganês: um risco invisível

Estudo premiado pela Sociedade Brasileira de Toxicologia revela que o manganês, elemento essencial ao metabolismo humano, pode levar a quadros de neurotoxicidade e estar associado a doenças como Parkinson e Alzheimer

Valquíria Carnaúba

Figura de lascas de manganês

Raul Bonne Hernández, professor de Química Ambiental e Toxicologia no Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) – Campus Diadema, e outros pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), do Instituto de Pesquisas Biomédicas de Barcelona (CSIC) da Universidade Autônoma de Barcelona e do Centro de Saúde Ambiental da rede Helmholtz (Alemanha) foram premiados em dois grandes eventos promovidos pela Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox) por pesquisa inédita que identifica rotas metabólicas do manganês (Mn). O estudo analisou como o metal induz à neurotoxicidade em culturas primárias de células granulares de cerebelo (CGCs, um modelo in vitro).

Considerado um sal mineral de extrema importância ao metabolismo humano, o manganês pode ser perigoso: a ingestão crônica de quantidade diária superior a 3mg, porção adquirida pela ingestão de alimentos como oleoginosas (vegetais que possuem óleos e gorduras – amendoim, castanhas, amêndoas, milho, girassol, etc), comumente leva a um quadro de intoxicação conhecido por manganismo. Sabe-se hoje que o distúrbio provoca permanentemente tremores, dificuldades de coordenação motora e problemas de memória.

Apesar de sua toxicidade ser conhecida há mais de 100 anos, ainda é nebuloso à ciência o modo como esse elemento provoca alterações nas diferentes vias metabólicas - conjunto de reações químicas para manutenção do equilíbrio dinâmico necessário à sobrevivência dos organismos. “Hoje, o que temos são diversas hipóteses que sugerem uma associação entre a exposição ao manganês e o desenvolvimento futuro de doenças relacionadas à neurotoxicidade, especialmente durante o período perinatal (compreendido entre a 28ª semana de gestação e o sétimo dia de vida do recém-nascido) e o infantil”, explica o professor da Unifesp.

De forma a preencher essa lacuna, os pesquisadores optaram por uma abordagem inovadora. Aliando a proteômica, estudo da expressão proteica em células e tecidos, e a metalômica, análise da influência dos metais em genes, proteínas, metabólitos e outras biomoléculas, eles avaliaram os efeitos tóxicos do cloreto de manganês (MnCl2) e dos fungicidas maneb (C4H6MnN2S4) e mancozeb (C8H12MnN4S8Zn) em culturas primárias de CGCs.

Metodologia

As células utilizadas foram extraídas de cerebelos de ratos com sete dias de vida, época em que ocorre a neurogênese (sequência de eventos que leva à formação do sistema nervoso) nesses animais, o que garantiu a aquisição de neurônios em estágio indiferenciado. Uma população dessas CGCs foi exposta a crescentes quantidades dos compostos à base de manganês durante diferentes períodos de tempo e em diferentes estágios de desenvolvimento (gráfico na página seguinte). Entretanto, Bonne explica que apenas as células expostas a concentrações entre 1 e 3 mols de manganês (quantidades não tóxicas), foram submetidas à análise toxicológica e, posteriormente, aos estudos de metalômica e proteômica.

Conclusões

Os estudos toxicológicos revelaram que a exposição crônica de CGCs ao maneb, ao mancozeb e ao cloreto de manganês (MnCl2), em estágios iniciais de diferenciação celular, é mais importante do que a exposição aguda, pois a bioacumulação ocorreu apenas em amostras tratadas com pequenas quantidades dos compostos por um longo período de tempo. Mas os efeitos negativos estendem-se além dessas conclusões, segundo Bonne.

Fotografia do professor Raul Bone, ele está de jaleco, sentado ao lado de um computador

O professor Raul Bonne Hernandez, do Departamento de Ciências Exatas e da Terra do ICAQF/Unifesp

O professor, fazendo uma análise em um microscópio

As análises laboratoriais de células granulares de cerebelo aliaram a metalômica e a proteômica

“No caso do MnCl2, o manganês depositado gradativamente nas células neuronais alterou definitivamente a homeostase de outros metais necessários ao seu funcionamento. Isso porque os pesticidas em questão levaram a uma diminuição dos níveis de ferro (Fe), potássio (K) e cálcio (Ca). Sendo metais muito importantes ao funcionamento celular, é evidente que a neurotoxicidade por manganês induz a diversos distúrbios, culminando inclusive na apoptose (morte celular programada)”, revela ele, baseando-se na metalômica.

Já a análise proteômica trouxe dados mais complexos. Considerando que o metabolismo de cada célula envolve a ação ou mesmo a modificação de proteínas, a exemplo das enzimas (catalisadoras de reações químicas) e das proteínas (agentes passivos das enzimas), o estudo mostra que algumas delas foram efetivamente influenciadas pela presença de Mn e, consequentemente, alteraram o funcionamento celular. 

“O cloreto de manganês agiu diretamente em classes importantes de enzimas, a saber dihidropirimidinase e piruvato quinase, responsáveis, respectivamente, pelo equilíbrio da oxidação nas células e pela produção de adenosina trifosfato (ATP) – nucleotídeo que armazena energia proveniente da respiração celular”, especifica o professor.

O maneb, por sua vez, alterou o funcionamento das proteínas EIF5A e CRMP2, associadas com a expressão gênica e o transporte de aminoácidos através da membrana celular, e induziu a uma regulação negativa da proteína transmembranar TMEM132A, expressa no retículo endoplasmático, aparelho de Golgi e membrana celular. Segundo Bonne, esta última merece atenção especial por regular o processo de apoptose. “Expressa durante o período embrionário e estágios pós-natal do desenvolvimento do cérebro do rato, a TMEM132A está envolvida com o transporte intracelular de cálcio”.

Outra descoberta viabilizada pela proteômica, reforçando os efeitos fatais do Mn às células, foi a superexpressão do EIF4B, envolvido na tradução de RNAm. Houve, nesse caso, uma expressão aumentada entre 25 e 50 vezes, o que, segundo estudos da equipe, leva ao efeito inverso, ou seja, provoca a inibição da síntese proteica. As consequências disso são diminuição da sobrevivência celular devido à ativação de sinais pró-apoptóticos.

“O manganês proveniente desses compostos culminou em problemas de metabolismo energético e alteração na homeostase de metais nessas células, fatores que desencadeiam deterioração e morte celular. Hoje, podemos dizer que as rotas metabólicas alteradas pelo Mn são de fato mais claras, o que traz novas perspectivas a pesquisadores do mundo todo”, avalia Bonne. Ele enfatiza, finalmente, que a equipe continua trabalhando no aprimoramento desses estudos. A perspectiva é identificar alterações metabólicas induzidas pelo manganês em demais espécies, incluindo o ser humano.

Gráfico - Culturas tratadas de Células Granulares de Cerebelo (CGCs) de ratos com sete dias de vida /  Maneb  C4H6MnN2S4  Neurônios tratados com maneb com concentrações de Mn entre 1µmol e 3µmols. Neurônios tratados com maneb com concentrações de Mn acima de 3µmols. / Mancozeb C8H12MnN4S8Zn  Neurônios tratados com mancozeb com concentrações de Mn entre 1µmol e 3µmols. Neurônios tratados com mancozeb com concentrações de Mn acima de 3µmols. / Cloreto de  Manganês MnCl2 Neurônios tratados com cloreto de manganês com concentrações de Mn entre 1µmol e 3µmols. Neurônios tratados com cloreto de manganês com concentrações de Mn acima de 3µmols. / Seleção dos neurônios expostos a concentrações de Mn entre 1µmol e 3µmols / 1° Análise Toxicológica Realizada por meio de técnica denominada Cromatografia Líquida Acoplada a Espectometria de Massas / 2° Análise Metalômica  Realizada por meio de Espectometria de Emissão Óptica com Plasma Inditivamente Acoplado /  3° Análise Proteômica Realizada com o auxílio de marcadores de massa sequenciais para identificação de proteínas em base de dados

Muito além do manganismo

Segundo o professor do ICAQF da Unifesp, o manganês poderia estar envolvido em mais doenças neurodegenerativas, além do manganismo, como o Parkinson e o Alzheimer. “Sabe-se, hoje, que as alterações no metabolismo de proteínas e na expressão gênica do DNA, em células cerebrais e terminações nervosas, podem levar ao desenvolvimento desses distúrbios, e o Mn poderia estar provocando isso”, explica Bonne. A má notícia é que a acumulação do metal em indivíduos saudáveis estaria ocorrendo por sua alta incidência na água e no solo. 

A poluição dos sistemas aquáticos por elementos-traço, que ocorrem naturalmente em níveis de parte por milhão (ou abaixo disso), vem sendo reconhecida como um problema que pode representar riscos à saúde humana e ao meio ambiente. A Organização Mundial da Saúde (OMS), de um lado, recomenda 400 microgramas por litro de água para consumo humano como limite toxicológico. Já para o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), o limite a ser seguido é de 100μg /L. 

Fotografia de um reservatório de água

Em reservatórios do Estado de São Paulo, a concentração de manganês encontra-se dentro do limite nacional. “No entanto, os estudos têm apontado alterações neurocomportamentais mesmo em indivíduos expostos a essa quantidade”, explica Bonne. “Nas águas do volume morto do sistema Cantareira, mais próximas do solo, esses índices podem ser maiores, porém hoje não há um relatório conclusivo”. 

O manganês proveniente do sulfato de manganês e do cloreto de manganês, presentes no solo, reage com a água formando um complexo (1Mn6H20), que penetra facilmente no organismo humano, pois os íons de manganês ficam relativamente livres entre as moléculas de água. “Dissolvido, o metal atravessa a massa cefálica, acumulando-se gradativamente no cérebro, levando à neurotoxicidade”, explica.

Para ele, as maiores vítimas da intoxicação por elementos-traço são as comunidades sem acesso a sistema de tratamento e distribuição de água adequados. “As filtragens convencionais são eficientes para a remoção de grandes quantidades de manganês. Além disso, entre esse processo e o trajeto até nossas casas, o metal é muito suscetível à oxidação pelo solo, o que contribui para diminuir sua concentração na água”, complementa Bonne. No entanto, permanece o desafio de aperfeiçoar esses sistemas para que removam quantidades que, embora inferiores ao limite de 100 μg /L, ainda oferecem riscos à saúde humana. “Hoje estamos afunilando os estudos no desenvolvimento de um sistema de remoção de traços de manganês”.

Publicado em Edição 06

Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni
Pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa

Desde a pré-história o homem procura nas drogas uma forma de alterar as percepções do mundo e reduzir suas dores. Provavelmente, faminto e sem melhores opções, algum indivíduo deve ter ingerido frutas já deterioradas e encontrou, além da saciedade, efeitos prazerosos naquele vinho primitivo. Há milhares de anos outras plantas têm sido igualmente utilizadas pela humanidade como a papoula, da qual se derivam os opiáceos – potentes analgésicos –, a maconha, com suas propriedades ansiolíticas, e os cogumelos com efeitos alucinógenos.

Com o advento da industrialização, aumentou a produção de bebidas alcoólicas com maior concentração (destilados), assim como sua disponibilidade, e cresceram os problemas associados, entre os quais o desenvolvimento da dependência. As propriedades terapêuticas de algumas drogas são amplamente reconhecidas pela ciência, abrindo a discussão sobre as políticas de controle e comercialização. A cocaína, lançada no mercado como um potente anestésico local, chegou a ser recomendada por Sigmund Freud para aumentar insights nas terapias, embora posteriormente ele tenha revisto sua posição, após perder um amigo por dependência daquela substância. 

O uso de álcool e de outras drogas é tão frequente em eventos sociais que há quem considere impossível divertir-se e ser feliz sem eles. Entretanto, as drogas não criam nada, não transformam a realidade, apenas atenuam ou amplificam nossas sensações. O grande desafio que se apresenta é utilizá-las quando necessário, por suas propriedades terapêuticas, e encontrar formas mais saudáveis para comemorar os momentos felizes ou atenuar os de tristeza e solidão. 

As diferentes visões políticas sobre como lidar com esse tema tão desafiador e com a economia do mercado de drogas, mencionada na Carta da Reitora, são alguns dos aspectos discutidos neste número. Os resultados obtidos por estudiosos da Unifesp que trabalham com a pesquisa básica, epidemiológica ou clínica nessa área convidam-nos a refletir sobre a complexidade do tema e sobre a importância das discussões com base científica, conduzidas de forma democrática e respeitosa no ambiente universitário. Cumprindo o objetivo de interação com a sociedade, a Unifesp tem transmitido o conhecimento gerado por meio de cursos presenciais ou a distância – como o Supera, que já atingiu mais de 75 mil profissionais das áreas de saúde, educação, assistência social e segurança. 

Entretanto, não são apenas as drogas que provocam dependência, mas também o uso abusivo das redes sociais, os jogos e as possibilidades criadas, de forma geral, pela internet, como demonstra um estudo realizado em parceria por pesquisadores dos campi São Paulo e Guarulhos. 

Além da matéria de capa, há outras pesquisas em desenvolvimento nos campi da Unifesp e os responsáveis por sua condução, como o entrevistado desta edição, o Prof. Dr. Marcelo Burattini, que explica o atual panorama da epidemia de zika no país. Apreciaremos também os estudos sobre as consequências oculares da infecção por esse vírus; a identificação de metástases em linfonodos de pacientes acometidos por carcinomas de cabeça e pescoço; a síndrome metabólica e a obesidade na adolescência; a relação entre enxaqueca e deficit de atenção em crianças; a influência de contaminações ambientais pelo manganês; e a negligenciada infecção pelo retrovírus HTLV. 

No âmbito da cooperação entre as Engenharias e a Medicina, acompanharemos os experimentos que se desenvolvem sobre a criação de mantas que induzem a regeneração óssea. Djamila Ribeiro, da área de Filosofia Política, estuda as relações raciais e de gênero. E há muito mais para conhecer e refletir.

Boa leitura!

Publicado em Edição 06
Quarta, 25 Maio 2016 15:02

Na ciência, é preciso ser anarquista

Denunciado como subversivo durante a ditadura militar, o hematologista Michel Rabinovitch estuda há 70 anos, entre outros temas, células cancerígenas e, atualmente, foca sua atenção em moléculas com efeito antitumoral. Sempre bem-humorado, afirma: “se você não brincar, não descobre ciência”

Ana Cristina Cocolo

Fotografia de Michel Rabinovich, ele olha para a câmera, tem cabelos brancos e usa uma camisa xadrez

Infância feliz

Michel Rabinovitch não se arrepende de não ter seguido a profissão do pai russo, Betzabel Rabinovitch, engenheiro civil, do qual fala com orgulho sobre a vinda da Suíça, onde se formou, para o Brasil em 1923, e dos prédios que ainda existem no sul do país e em São Paulo construídos pela empresa de engenharia Monteiro, Heinsfurter e Rabinovitch, da qual o pai era sócio. “Um dos prédios mais antigos da Santa Casa de Misericórdia foi construído por eles”, conta.

Foi em São Paulo, que Betzabel conheceu a ucraniana Anita Zlatopolsky. Da união, nasceram três filhos: Kelly Cecília (falecida em 2015) e os gêmeos Michel e Gregório Benjamin.

Rabinovitch lembra das brincadeiras na casa onde morava e do suntuoso palacete dos tios Jacob e Eugenia Zlatopolsky (irmã da sua mãe), ambos localizados na rua Piauí, em Higienópolis; das aulas no Colégio Rio Branco e das viagens ao litoral do Guarujá, pela Estrada Velha de Santos.

Os tios maternos também eram donos de uma tipografia, no bairro do Brás, e de uma papelaria na Rua São Bento, junto da Praça do Patriarca, no centro da cidade. No entanto, a morte de Jacob e o encolhimento econômico do país, em 1932, obrigou a tia a mudar-se para um bairro mais humilde, no centro da cidade, onde montou um ateliê de costura.

Com a morte do pai, em 1940, e da mãe, em 1941, Rabinovich e os irmãos foram morar com Eugenia Zlatopolsky, da qual ele fala com admiração. “Ela foi maravilhosa conosco. Mulher forte, inteligente e culta. Morreu com mais de 90 anos. Lia e falava seis idiomas, sem nunca ter pisado em uma universidade”.

Cinco fotos da infância de Michel

As várias fases da infância do pesquisador em São Paulo

A escolha pela área de Hematologia não surgiu por acaso na vida do médico e pesquisador Michel Pinkus Rabinovitch, 90 anos. Aos 15 anos, quando estava se preparando para ingressar na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), no curso de Engenharia Civil, profissão do falecido pai Betzabel, mudou radicalmente a área escolhida ao perder a mãe Anita, então com 46 anos, para uma leucemia aguda. Entre o diagnóstico e sua morte foram apenas três semanas. Um ano antes, o pai, de 47 anos, havia morrido em decorrência de um tumor no rim.

Um dos seus primeiros artigos científicos, uma revisão da literatura, trata justamente dos aspectos citoquímicos da célula leucêmica. Depois, inúmeros outros vieram em sequência, como resultado de uma dedicação de mais de 70 anos à Ciência, iniciada em 1946 na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). “Eu já sabia que queria ser pesquisador. Cabulava as aulas de clínica para trabalhar no laboratório e, ainda no quarto ano da graduação, publiquei meu primeiro trabalho”, conta ele, que se especializou na área de Ciências Biomédicas e teve como guru o eternizado amigo Michel Abujamra. “Nunca fiz um parto em toda a minha vida, pois sabia que não era a área clínica que eu queria seguir”. 

Antes de entrar em Medicina, Rabinovitch encarou o curso preparatório, chamado de pré-médico, que ocorria no quarto andar do prédio da FMUSP. Lá, tinha aulas de Matemática, Português, Biologia, Botânica, Latim, entre outras. Na época, também fazia algumas traduções do inglês para o jornal Crônicas Israelitas, órgão informativo da Congregação Israelita Paulista.

Logo no início do curso médico, conheceu o professor José Oria, um dos precursores da Hematologia Morfológica, médico interessado em música e literatura no Brasil, que lhe abriu as portas do Laboratório de Histologia e Embriologia da FMUSP. No quinto ano da graduação já dava aulas de laboratório para alunos do segundo.

Em 1949, o pesquisador concluiu o curso médico e dois anos depois o doutorado. No ano seguinte, casou-se com Íria Mariani, técnica de laboratório de Hematologia do Hospital das Clínicas da FMUSP. A docência em Histologia e Embriologia aconteceu em 1953, mesmo ano em que se separou de Íria e partiu para os Estados Unidos como bolsista da Fundação Rockefeller por dois anos. Nesse período passou pelo Departamento de Anatomia da Universidade de Chicago, fez um curso no Marine Biological Laboratory (Woods Hole) e trabalhou junto com Walter Plaut – no Laboratório do respeitável professor, biólogo celular e humanista Daniel Mazia –, no Departamento de Zoologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Antes de voltar para o Brasil no começo de 1955, Rabinovitch visitou o Instituto Rockefeller, em Nova Iorque, e, lá, demonstrou que havia nucléolos nas células hepáticas, contrariando a opinião de Alfred Mirsky, importante membro do instituto. “Esse episódio me ajudou a ser aceito na instituição em 1964, quando tive que sair do país devido ao regime militar. Mirsky não havia me esquecido”, lembra.

Em 1959, foi nomeado professor adjunto de Histologia e Embriologia da FMUSP, onde permaneceu trabalhando por 15 anos, e ajudou a despertar ainda mais o gosto da pesquisa em estudantes que, anos mais tarde, tiveram seus nomes reconhecidos dentro e fora do país, como é o caso de Ricardo Renzo Brentani – um dos principais nomes no mundo em pesquisas sobre câncer –, Thomas Maack – importante pesquisador na área de rime peptídeos, com mais de 100 artigos publicados e cerca de 7 mil citações na literatura científica –, Sergio Ryuzo Dohi, Jacob Kipnis, Nelson Fausto, Azzo Widman, Bernardo Liberman, José Gonzales, Sergio Henrique Ferreira, José F. Terzian, Mauricio Rocha e Silva Filho e Waltraut Helene Lay. “Posso dizer que esses 12 pesquisadores foram meus filhos e tenho muito orgulho disso”. Nessa época, Rabinovitch também colaborou com Itamar Vugman, antes dele ir para a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP). 

Uma de suas descobertas ocorreu em 1961, dentro do Departamento de Zoologia da Universidade da Califórnia, Campus São Francisco, nos EUA. Lá, desvendou um simbionte responsável pela incorporação de precursores radioativos no DNA do citoplasma da Amoeba proteus; simbionte jocosamente conhecido no laboratório como “rabinossoma”, em referência ao seu apelido “Rabino” que os colegas utilizam na FMUSP.

Ameaçado pelo regime militar em 1964, Rabinovitch não chegou a ocupar a cadeira de professor de Biologia na Universidade de Brasília (UnB), para a qual se candidatou e foi nomeado no dia 1º de abril de 1964. Deixou o Brasil por 33 anos, passando pelos Estados Unidos e pela França, países que o acolheram e nos quais contribuiu com importantes pesquisas em várias instituições. Nelas, também, treinou vários brasileiros. “No mesmo dia em que fui convidado pela UnB, em 1º de abril, começou a ditadura. Foi uma coincidência incrível. Devo minha carreira internacional aos militares”, afirma ele, que atuava muito pouco politicamente. “Nunca fui comunista. Sou anarquista da subespécie pacifista. No entanto, tive alunos ativos, trotskistas, comunistas, e fui acusado de ser mentor desses estudantes pelo professor Geraldo de Campos Freire, que era o principal repressor dentro da FMUSP”. 

Ele conta que chegou a questionar Freire do que estava sendo acusado. “O professor me respondeu que minha consciência devia saber”.

Foto em preto e branco mostra Michel Rabinovitch ao lado dos pesquisadores, dois homens e uma mulher

Aos 30 anos, como professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), recebe pesquisadores poloneses (centro) no campus

Denunciado por Luiz Carlos Uchôa Junqueira, como perigoso, à agência federal de investigação estadunidense, FBI (Federal Bureau of Investigation) e à polícia brasileira, o médico conta que vários de seus colegas foram presos, como Thomas Maack e Luiz Hildebrando Pereira da Silva. “Fui levado de Ribeirão Preto para São Paulo no fusca do amigo Mauricio Rocha e Silva Filho, para refugiar-me na casa do meu primo José Mindlin por cerca de uma semana”, lembra. “Foi nesse período que recebi uma proposta de emprego, por parte do Walter Plaut, em Madison, capital do Estado de Wisconsin. Mas, optei pela Universidade de Rockefeller, onde dois pesquisadores, James Gerald Hirsch e Zanvil A. Cohn (ambos falecidos), desenvolviam uma importante linha de estudo de pinocitose e lisossomas”. Os lisossomas são organelas celulares responsáveis pela digestão de partículas externas e pela renovação de estruturas celulares. 

Lá, Rabinovitch trabalhou com Hirsch e Cohn. A recepção fraterna do professor pelos pesquisadores e a parceria de cinco anos selou uma amizade que continuou por décadas. Rolin D. Hotchkiss (falecido em 2004) é outro grande amigo que o pesquisador fez em Rockefeller.

Em 1968, Rabinovitch casou-se com a suíça Odile Levrat, então técnica de laboratório da Universidade Rockefeller, em Nova Iorque, onde o pesquisador trabalhou até 1969, como associado de pesquisa no Laboratório de Fisiologia Celular e Imunologia. Assumiu, ainda em 1969, o cargo de professor associado de Biologia Celular da Escola de Medicina da Universidade de Nova Iorque, passando a titular quatro anos depois. Lá teve a oportunidade de reencontrar Victor e Ruth Nussenzweig e seus filhos, companheiros e amigos para sempre. 

Fotografia em preto e branco de Michel com suas filhas pequenas

Com as filhas, Miriam e Caroline (amparada com as mãos), durante sua estada nos EUA, há 43 anos

Da relação com Odile, que durou oito anos, teve duas filhas estadunidenses: Miriam, que se mudou para Paris e mais tarde casou-se com o francês Serge Hascoet, e Caroline, que continuou no Brooklyn (Nova Iorque), ambas formadas em Literatura. Miriam, que faleceu no ano retrasado, aos 46 anos, tem uma filha, Eleanor, da qual o avô fala com muito orgulho, apesar de vê-la pouco, devido à distância. Caroline, 46 anos, é uma escritora reconhecida no seu país de origem. 

Desgostoso com os acontecimentos no Brasil e com família formada no exterior, Rabinovitch não voltou, em 1979, quando foi promulgada a lei da anistia, pelo presidente João Batista Figueiredo. “O assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, me deixou tão revoltado que não tive dúvida. Entreguei meu passaporte no consulado brasileiro, em Nova Iorque, e fiquei dois anos sem nacionalidade, não podendo sair dos EUA, até conseguir me tornar um cidadão americano”, conta ele, que chegou a ser questionado pelo FBI se tinha escrito algum artigo no jornal O Bisturi, publicação do Centro Acadêmico da FMUSP. “Quando voltei ao Brasil, em 1997, o presidente Fernando Henrique Cardoso me devolveu a cidadania brasileira e o reitor da USP, José Goldemberg, me aposentou. Hoje, tenho orgulho de ser professor emérito de lá”. 

Em 1980, o pesquisador passou pela Unidade de Parasitologia Experimental do Instituto Pasteur, onde trabalhou com Leishmania junto a Jean Pierre Debet, e manteve bastante contato com o amigo Luiz Hildebrando Pereira da Silva. Apesar de diversos colegas o chamarem para voltar a atuar no Brasil, um convite para trabalhar como mestre de pesquisas no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), no Instituto Pasteur, em Paris, quatro anos depois, marcou uma nova fase na vida do pesquisador. Na instituição, passou a chefiar o laboratório da unidade de Imunoparasitologia, onde se aposentou em 1994. 

Desde 1997, Rabinovitch é professor colaborador na Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), onde recebeu um laboratório e foi orientador de diversos alunos da pós-graduação. Sua última orientação ocorreu em 2007. Hoje, o pesquisador, que continua acolhido na instituição, dedica seu tempo à revisão de trabalhos científicos sobre várias drogas não convencionais (disponíveis no mercado) com efeitos antitumorais, como Metfornima, Propranolol, Resveratrol, entre outras.

É preciso fortalecer as cadeiras de Oncologia Experimental no país

Fotografia atual de Michel, ele está olhando em um microscópio

Apesar de aposentado, Rabinovitch não cessou as pesquisas

Michel Rabinovitch está debruçado no estudo de drogas antitumorais reposicionadas, ditas não convencionais, entre as quais várias aprovadas no tratamento de outras condições e doenças, como a aspirina, o propranolol, a metformina, o resveratrol e a cloroquina. 

”Há uma série de moléculas. Tenho uma lista de cerca de 90 delas com atividade antitumoral comprovada em animais, mas que infelizmente não despertaram o interesse de investidores e indústrias farmacêuticas, por não terem sido canonizadas pelo Food and Drug Administration (FDA), dos EUA, e continuam ignoradas nos tratados recentes de quimioterapia do câncer”, afirma. “Estas drogas não convencionais, que não fazem parte do armamento oncológico oficial, podem cooperar com os quimioterápicos convencionais, aumentando a atividade desses medicamentos, sem onerar a toxicidade ao paciente”. 

De acordo com ele, em todo o mundo dito livre, os custos para o tratamento de câncer pelas moléculas convencionais são muito altos e o desenvolvimento e aprovação de novas drogas pelo FDA pode custar centenas de milhões de dólares e levar até 17 anos para elas entrarem no mercado. Rabinovitch espera, no entanto, despertar o interesse de outros pesquisadores para levar adiante a proposta de associar drogas auxiliares da quimioterapia, duas a duas ou três a três, em estudos pré-clínicos, avaliando seus efeitos em culturas celulares em embriões normais de galinha ou enxertados com tumores humanos”, explica. “A julgar pela literatura, as drogas auxiliares foram geralmente utilizadas uma a uma, raramente em combinações de duas e quase nunca em combinações de três”.

Algumas das drogas não convencionais, com atividade antitumoral, que recebem mais atenção do pesquisador

Droga

Nº de Referências Bibliográficas

Aspirina

3.152

Cloroquina

971

Metformina

2.460

Propranolol

1.057

Resveratrol

1.685

Dicloroacetato

151

 

Em contraste, referências às combinações de duas moléculas adjuvantes no tratamento de câncer são extremamente raras (citados os dados de seis fármacos, mas, de acordo com o pesquisador, há muitos outros disponíveis)

Droga

Nº de Referências Bibliográficas

Aspirina / cloroquina

4

Aspirina / metformina

37

Aspirina / propranolol

8

Aspirina / resveratrol

11

Cloroquina / resveratrol

4

Cloroquina / Dicloroacetato

1

Metformina / cloroquina

10

Metformina / resveratrol

13

Metformina / Dicloroacetato

4

Propranolol / cloroquina

1

Fonte: Michel Rabinovitch

Para o pesquisador, esse protocolo, com as drogas auxiliares sós ou combinadas às drogas convencionais, além de gerar economia aos cofres públicos, abre a possibilidade de reduzir as doses de drogas tóxicas comumente utilizadas para o tratamento do câncer. 

Rabinovitch pretende concluir essa análise e submeter um artigo para publicação. “O Brasil precisa ser mais participativo, não somente em Oncologia Clínica, mas também na Experimental”, diz. “É preciso fortalecer cadeiras de Oncologia Experimental nas universidades de Ciências Básicas e investir não apenas em novas drogas, mas também em combinações de drogas já existentes (o que talvez dê menos prestígio, mas seja útil), com ação comprovada em animais, para podermos baratear os medicamentos contra câncer e torná-los mais acessíveis”.

 

Publicado em Edição 06
Quarta, 25 Maio 2016 15:01

Expediente

A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.

ISSN 2525-538X (publicação online)
ISSN 2525-5401 (publicação impressa)

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Reitora:
Soraya Soubhi Smaili

Vice-Reitora:
Valéria Petri

Pró-Reitora de Administração:
Isabel Cristina Kowal Olm Cunha

Pró-Reitora de Assuntos Estudantis:
Andrea Rabinovici

Pró-Reitora de Extensão e Cultura:
Florianita Coelho Braga Campos

Pró-Reitora de Gestão com Pessoas:
Rosemarie Andreazza 

Pró-Reitora de Graduação:
Maria Angélica Pedra Minhoto

Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa:
Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni

Pró-Reitor de Planejamento:
Esper Abrão Cavalheiro

Jornalista responsável/Editor:
José Arbex Jr. (MTB 14.779/SP)

Coordenação:
Ana Cristina Cocolo

Reportagens:
Ana Cristina Cocolo, Celina Maria Brunieri, Daniel Patini, José Luiz Guerra, Lu Sudré, Patrícia Zylberman, Valquíria Carnaúba

Projeto gráfico e diagramação:
Ana Carolina Fagundes de Oliveira Alves

Infográficos e ilustrações:
Ana Carolina Fagundes de Oliveira Alves

Revisão:
Celina Maria Brunieri e Felipe Costa 

Fotografias:
Acervo Unifesp / Créditos indicados nas imagens

Tratamento de imagens:
Reinaldo Gimenez e Ana Carolina Fagundes de Oliveira Alves

Conselho Editorial: 
Maria Lucia O. de Souza Formigoni, Débora Amado Scerni, Cristiane Reis Martins, João A. Alves Amorim, Sérgio B. Andreoli, Tania A. T. Gomes do Amaral, João Valdir Comasseto e Juliano Quintella Dantas Rodrigues

Conselho Científico desta edição: 
Eliane Beraldi Ribeiro, João Valdir Comasseto e Maria Lucia O. de Souza Formigoni

Revista Entreteses n° 6 – Junho/2016

www.unifesp.br/entreteses | Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Tiragem:
3 mil exemplares

 

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL

Equipe de jornalismo:
Ana Cristina Cocolo, Antonio Saturnino Jr., Carine Mota, Daniel Patini, José Luiz Guerra, Mariane Santos Tescaro, Mayara Toni e Valquíria Carnaúba

Design:
Ana Carolina Fagundes de Oliveira Alves e Ângela Cardoso Braga

Fotografias:
Acervo Unifesp

Edição de imagens:
Reinaldo Gimenez

Revisão:
Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Assessoria de Imprensa:
CDN Comunicação Corporativa

Redação e administração:
Rua Sena Madureira, 1.500 - 4º andar - Vila Clementino
CEP: 04021-001 -São Paulo - SP - Tel.: (11) 3385-­4116
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. - www.unifesp.br

Publicado em Edição 06

A pesquisadora Djamila Ribeiro, que atua na área de Filosofia Política, com ênfase nas relações raciais e de gênero, estuda a inserção de teorias feministas nas ações das mulheres

Lu Sudré

Simbolo do feminismo - o sinal do feminino na cor roxa com um punho em luta no centro

Desde quando surgiu, o conceito de feminismo foi deturpado por uma série de preconceitos e aspectos negativos que não correspondem ao que ele realmente é. O objetivo do movimento feminista é simples: alcançar uma sociedade em que homens e mulheres tenham direitos iguais, ou seja, sem hierarquia de gênero. “O feminismo é necessário, não apenas para que as mulheres tenham direitos iguais, mas também para que possam ser respeitadas em sua humanidade”, explica Djamila Ribeiro, filósofa e pesquisadora do programa de pós-graduação em Filosofia da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH/ Unifesp) – Campus Guarulhos.

Para ela, não há como negar que vivemos em um país machista, no qual as mulheres são oprimidas em todas as esferas sociais e estão em desvantagem em relação aos homens. Os indicadores são irrefutáveis. Basta citar, por exemplo, o Relatório Global de Desigualdade de Gênero, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial no final de 2015, que aponta a disparidade salarial entre homens e mulheres no Brasil. Para cumprir o mesmo trabalho, com as mesmas funções e qualificações, as mulheres ganham 41% a menos. 

A violência contra a mulher também é uma realidade. De acordo com o Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil, construído com base em informações disponibilizadas pelo Ministério da Saúde, a agressão doméstica e familiar é a principal forma de violência letal praticada contra as mulheres no país. Dos 4.762 homicídios de mulheres registrados em 2013, comprovou-se que 50,3% foram cometidos por familiares, sendo a maioria desses crimes (33,2%) atribuída a parceiros ou ex-parceiros. 

Além da disparidade salarial e da violência, outros fatores que – para a filósofa – explicitam a hierarquia de gênero e o machismo estrutural da sociedade são: assédio e violência sexual sofridos diariamente por um número crescente de mulheres em diversos ambientes; representação política ínfima no Congresso Nacional; alta mortalidade materna; criminalização do aborto em parte devido à discussão precária sobre o tema; e educação sexista. 

Outro dado importante evidenciado pelo mapa da violência é que o número de mortes violentas de mulheres negras aumentou 54% em dez anos, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. No mesmo período, o registro anual de homicídios de mulheres brancas diminuiu 9,8%, observando-se um recuo de 1.747 para 1.576 nos anos respectivos de 2003 e 2013. “O movimento feminista existe para reduzir as desigualdades que resultam de uma mentalidade machista. Ainda assim, é um desafio pensar que somos mulheres, mas – apesar disso – não somos iguais. Uma mulher negra, por exemplo, além de ser vítima do machismo, sofre com o racismo”, argumenta a autora.

Em sua pesquisa de mestrado, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Ribeiro estabeleceu como ponto de partida a análise comparativa entre as obras O segundo sexo (1949) e Problemas de gênero (1990), produzidas respectivamente por Simone de Beauvoir, intelectual francesa que desenvolveu reflexões fundamentais sobre o feminismo a partir da década de 1950, e Judith Butler, filósofa estadunidense que retomou um debate crítico sobre gênero, sexo e sexualidade na década de 1990.

A dissertação, apresentada no segundo semestre de 2015, foi orientada pelo filósofo político Edson Luís de Almeida Teles, docente da EFLCH/ Unifesp. O objetivo inicial do projeto era entender como o discurso dessas intelectuais reverberam na ação política do movimento feminista. 

Ambas as escritoras pertencem a contextos históricos diferentes, mas debatem o que seria o sujeito “mulher”. “A frase: ‘Não se nasce mulher, torna-se...’, de Simone de Beauvoir, denota que existe uma construção e uma imposição social em relação ao que é ser mulher. Beauvoir rompe com esse determinismo biológico, que dizia que as mulheres se comportavam de determinado modo devido a uma suposta natureza feminina. Ela mostra que isso se impõe a nós, antes mesmo de nascermos”, afirma Ribeiro. E exemplifica com uma divisão sexual que existe desde a infância: “Se for menina, o quarto será pintado de rosa e ela só poderá ‘brincar de boneca’. Existe uma construção do feminino e exige-se que a mulher se enquadre. Entretanto, essa construção é social e não biológica.”

Já a filósofa Judith Butler critica a categoria universal do movimento feminista, demonstrando que este deixa de fora muitas mulheres. “Butler diz que o gênero é discursivo. Ela traz uma contribuição importante para algumas correntes feministas que não aceitam as mulheres transexuais como mulheres, por exemplo”, observa Ribeiro, que ressalta a pluralidade do movimento feminista e suas vertentes. Os termos “transexual” e “transgênero” designam a condição em que a identidade de gênero de um indivíduo não condiz com a que lhe foi atribuída no nascimento a partir de seu sexo biológico.

É uma fotografia antiga, em preto e branco, onde o grupo de cinco pessoas é mostrado.

Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Vivaldo da Costa Lima (antropólogo), Zélia Gattai e Jorge Amado na Igreja de São Francisco, em Salvador, no ano de 1960
(Crédito: Acervo Fundação Casa de Jorge Amado)

Fotografia de Judith butler, ela está em um palco, sentada em uma poltrona

A filósofa Judith Butler, durante conferência de abertura do II Seminário Internacional Desfazendo Gênero, realizado em 2015 na Universidade Federal da Bahia (UFBA)
(Crédito: Andréa Magnoni)

 

Feminismo negro e interseccionalidade

Ao analisar a obra de Butler, que classifica o discurso universal do feminismo como excludente, a pesquisadora optou por acrescentar ao estudo as reflexões trazidas anteriormente por autoras do feminismo negro, que já identificavam privilégios das mulheres brancas em detrimento das negras.

“Autoras como Angela Davis, Grada Kilomba e a educadora Sueli Carneiro já apontavam que políticas universais não atingem todas as mulheres. As negras estão à margem desse discurso, não são representadas. Elas foram as primeiras a questionar quem é o sujeito dessa representação”, complementa Ribeiro.

Na década de 1970, as mulheres negras estadunidenses, como Beverly Fisher, denunciaram a própria invisibilidade dentro das reivindicações do movimento, conforme registrou a pesquisadora em sua coluna Escritório Feminista, disponível no site da revista CartaCapital. No Brasil, o feminismo negro ganhou força no fim dessa década e no começo da de 1980, iniciando-se a luta para que as mulheres negras se tornassem sujeitos políticos.

Fotografia da pesquisadora Djamila, ela está em um palco falando ao microfone

A pesquisadora Djamila Ribeiro em palestra sobre o feminismo negro

“Eu, como mulher negra, não posso escolher se vou lutar contra o machismo ou contra o racismo, se as duas opressões me atingem”, endossa a filósofa. É justamente nesse sentido que a interseccionalidade do feminismo se faz necessária: é um conceito que reflete como as opressões se entrecruzam e trabalham conjuntamente ou de forma isolada. “Não é possível falar de gênero, sem incluir classe e cor de pele, já que o próprio racismo cria uma hierarquia de gênero, colocando a mulher negra em situação de maior vulnerabilidade social. O racismo indica classe, coloca a população negra em desvantagem. Não é possível lutar contra um tipo de opressão e fomentar outro. É alimentar a mesma estrutura.” 

Ribeiro ainda critica a conduta de certos movimentos sociais que atuam de maneira isolada e elegem quais sujeitos devem ser representados. Para ela, os movimentos sociais precisam de ações conjuntas, admitindo-se – dessa forma – que a luta contra o racismo é uma luta da sociedade e não só das mulheres negras, pois todos vivemos relações raciais. “As pessoas não negras também precisam ter esse comprometimento, de pensar qual modelo de sociedade queremos. É a consciência negra também para não negros.” 

Para Teles, a importância do trabalho em questão ultrapassa os aspectos acadêmicos por retornar ao debate dos movimentos feministas, em especial ao das mulheres negras, projetando entre os movimentos sociais um segmento com visibilidade inferior à sua importância. “Além de tratar das questões relativas às mulheres, Djamila Ribeiro aponta para uma questão central da desigualdade social e de gênero: o reconhecimento das condições de existência e de resistência da mulher negra em um país ainda racista ao extremo.”

Ainda de acordo com o orientador da dissertação, o estudo ganha maior relevância porque qualifica o programa de pós-graduação em Filosofia da EFLCH/Unifesp ao abordar temas do mundo contemporâneo, a partir de investigações teóricas com a marca de profundidade da Filosofia, mesclada à experimentação e ao agir político. “A pesquisadora desloca a universidade em direção à sociedade e, com a mesma competência, areja e torna produtiva a mencionada instituição, na qual insere as questões de nosso cotidiano.”

Em 2015, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) obteve grande repercussão ao formular uma questão com a frase de Simone de Beauvoir e propor como tema da redação a violência contra a mulher. Em tempos nos quais as denúncias de mulheres sobre violência e assédio são crescentes, Ribeiro afirma que o Brasil não tem maturidade para discutir esses temas. “A partir da questão do Enem, vimos quanto é necessário analisar o machismo e situações como o racismo. Os avanços conquistados pelo movimento feminista são inegáveis. Mas também houve retrocessos. As pautas atuais do feminismo ainda são as mesmas pelas quais batalhávamos há muitos anos.”

Dissertação de mestrado:
SANTOS, Djamila Taís Ribeiro dos. Simone de Beauvoir e Judith Butler: aproximações e distanciamentos e os critérios da ação política. 2015. 102 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos (SP).

Publicado em Edição 06

Ao longo de quase duas décadas, por meio de cursos presenciais ou a distância, pesquisadores da Unifesp preparam milhares de agentes de saúde e assistentes sociais, além de líderes religiosos e comunitários, para lidar com os problemas associados ao uso de álcool e outras drogas

Mpara do Brasil com indicação do número de matriculas supera por estado

Ana Cristina Cocolo

Para identificar problemas relacionados ao consumo de álcool ou de outras substâncias psicoativas é preciso preparo e formação específica. No entanto, essa condição ainda está longe de ser encontrada em muitos serviços de saúde do país, sejam eles públicos ou privados. A formação insuficiente dos profissionais e o estigma acerca do tema prejudicam não apenas a prevenção e a identificação correta e precoce, como também a aplicação de intervenções breves e o encaminhamento para serviços especializados.
A Unifesp, na qual atuam alguns dos mais renomados pesquisadores brasileiros em drogas, contribui significativamente para a produção científica nessa área e para a formação de recursos humanos voltados à pesquisa e à assistência. Há mais de 20 anos são ofertados, além de programas de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) e lato sensu (especialização), diversos cursos de aperfeiçoamento e extensão, presenciais e a distância – alguns deles em parceria com os governos municipal e federal –, para profissionais de saúde ou de assistência social e líderes religiosos e comunitários.
Entre artigos científicos, dissertações de mestrado e teses de doutorado produzidos na Unifesp, resultantes inclusive de trabalhos desenvolvidos nesses cursos, é possível encontrar no Repositório Institucional da universidade quase 2,5 mil produções acadêmicas que têm como palavras-chave álcool ou drogas. Já no sistema Google Acadêmico, essas referências ultrapassam 12 mil citações.

Supera: 10 anos e 500 mil inscritos

Prestes a completar uma década em sua 10ª edição – cujo início está previsto para agosto de 2016 -, o curso Supera (Sistema para Detecção do Uso Abusivo e Dependência de Substâncias Psicoativas: Encaminhamento, Intervenção Breve, Reinserção Social e Acompanhamento) foi criado a partir da cooperação entre a Unifesp e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), órgão integrante do Ministério da Justiça, visando à capacitação de profissionais das áreas de saúde e assistência social na identificação e abordagem dos usuários de álcool e/ou outras drogas. 

O Supera, coordenado por Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni, docente do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, foi formulado pelas equipes dos seguintes órgãos da citada unidade universitária: Unidade de Dependência de Drogas (Uded), Departamento de Psicobiologia e Departamento de Informática em Saúde (DIS), contando ainda com a colaboração de pesquisadores especialistas de diversas universidades federais (UFRGS, UFPR, UFRJ, UFJF e UFBA). Oferecido gratuitamente na modalidade de educação a distância (EaD), o Supera obteve desde sua 1a edição o apoio logístico da Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa (Afip), que até hoje disponibiliza alguns de seus funcionários e provê o imóvel que serve de sede ao projeto e à Uded. A procura por esse curso é grande e chegou a ter, em uma única edição, 100 mil inscritos para as 20 mil vagas disponíveis. No total, cerca de 500 mil pessoas já se inscreveram para as 100 mil vagas abertas, com índices de conclusão entre 40% e 80%. 

Abrangente em seu conteúdo e organizado em sete módulos temáticos, o curso atualmente é oferecido na versão digital, com textos e vídeos que apresentam exemplos de intervenção para diversos perfis de usuários. Os profissionais cursistas participam ativamente de fóruns para discussão de temas específicos e de casos clínicos, moderados por tutores que podem responder às dúvidas e prestar orientação quanto à aplicação de instrumentos de triagem e de intervenções breves. São preparados para atuar de modo articulado com profissionais das redes de atendimento psicossocial, utilizando os conhecimentos adquiridos em seus locais de trabalho. A carga horária sugerida é de 120 horas, estipulando-se que os participantes que concluem o curso com pelo menos 70% de aproveitamento estão aptos a receber o certificado de extensão universitária registrado na Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (ProEc) da Unifesp.

www.supera.senad.gov.br

Programa de Habilidades para a Vida (PHAVI) – Foco nos adolescentes em situação de risco

Em seu terceiro ano de vida, o Programa de Habilidades para a Vida (PHAVI) pretende capacitar mais de 120 profissionais das áreas de assistência social e educação dos núcleos socioeducativos e centros educativos, ligados à Prefeitura de São Paulo, na prevenção contra o uso de drogas entre adolescentes em situação de risco. O programa é uma parceria do Departamento de Medicina Preventiva da EPM/Unifesp – por meio do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) – com a ONG Sociedade de Amparo Fraterno Casa do Caminho (Safrater) e a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads). O curso é presencial, com carga horária de 40 horas, fornecendo certificado de conclusão emitido pela Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (ProEc) da Unifesp. Em 2010, o PHAVI foi premiado pela Senad e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Centros Regionais de Referência (CRRs) – Cebrid e Nepsis atuando em diferentes regiões 

Lançados em 2011 e articulados pela Senad, os Centros Regionais de Referência (CRRs) oferecem cursos de formação presencial, com carga horária que varia de 60 a 80 horas, destinando-se a profissionais da rede pública de saúde em diferentes localidades do país. A responsabilidade pela cobertura do município de São Paulo cabe ao CRR coordenado pela Prof.ª Dr.ª Ana Regina Noto, da disciplina de Medicina e Sociologia do Abuso de Drogas, pertencente ao Departamento de Psicobiologia da EPM/Unifesp. O público-alvo são trabalhadores e lideranças comunitárias que atuam com usuários de substâncias psicoativas e seus familiares nas redes públicas de saúde, desenvolvimento e assistência social, direitos humanos, educação, justiça e segurança pública. Entre 2013 e 2014, foram contemplados 200 profissionais no município e, em 2016, estão sendo oferecidas 400 vagas. Os cursos variam do nível básico ao especializado e procuram atender às demandas específicas de hospitais e escolas, entre outras entidades, para a articulação em rede. Destaca-se ainda o curso de Tratamento Comunitário, que - apoiado pela Unidade Avançada de Extensão Universitária de Santo Amaro da Unifesp - é dirigido a profissionais daquela região da cidade. Todos os cursos envolvem projetos de estudo, coordenados pelos pesquisadores do Núcleo de Pesquisa em Saúde e Uso de Substâncias (Nepsis), visando ao desenvolvimento de novas metodologias de ensino na área, bem como à geração de conhecimento sobre as redes de atenção. No caso do tratamento comunitário, os estudos buscam analisar uma nova lógica de cuidado baseada nas redes da própria comunidade. 

www.brasil.gov.br/observatoriocrack/prevencao/centro-regionais-referencia.html

Compete ao CRR/Cebrid/Unifesp efetuar a cobertura das demais áreas da Grande São Paulo, mediante a oferta de cursos coordenados pela equipe do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), cujo número de vagas totalizou 280 até o momento. O Cebrid foi criado por Elisaldo Carlini, médico e professor do Departamento de Psicobiologia, funcionando atualmente no Departamento de Medicina Preventiva da EPM/ Unifesp. 

www.cebrid.com.br

Fé na Prevenção – Foco em líderes comunitários e religiosos 

O curso Prevenção do Uso de Drogas em Instituições Religiosas e Movimentos Afins – Fé na Prevenção também foi desenvolvido pela Uded em parceria com a Senad. Disponibilizado gratuitamente na modalidade de ensino a distância, com certificação de extensão universitária, é dirigido a lideranças religiosas e comunitárias. Mais de 15 mil lideranças de todos os Estados do país foram capacitadas para atuar na prevenção do uso de drogas psicotrópicas e de outros comportamentos de risco, bem como na abordagem de situações que requerem encaminhamento às redes de serviço.
Entre os diversos temas abordados no curso incluem-se: aspectos socioculturais, classificação e efeitos das principais drogas de abuso, técnicas de prevenção e detecção precoce, intervenção breve, entrevista motivacional e encaminhamento.

www.fenaprevencao.senad.gov.br

Uniad: 15 anos e 3 mil formados 

Há mais de 15 anos, a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), do Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp, mantém cursos de especialização lato sensu (presenciais e na modalidade de ensino a distância) na Unifesp, direcionados a agentes responsáveis pela elaboração de políticas públicas e a profissionais de saúde que atuam no atendimento a pacientes ou familiares de dependentes de álcool, tabaco e outras drogas. Os cursos constam de quatro módulos, com carga horária de 400 horas-aula, e já formaram mais de 3 mil alunos em todo o país. Oferecem conhecimentos de ponta sobre os diferentes aspectos da dependência química, tendo por base a mais recente literatura internacional, combinada com a larga experiência de um corpo extremamente qualificado de profissionais.

www.uniad.org.br

Publicado em Edição 06

Pesquisa com adolescentes conclui que o controle do processo inflamatório associado ao sobrepeso é tão ou mais importante do que o próprio combate à síndrome metabólica

José Luiz Guerra

Ilustração de perfil um menino obeso

Controlar o processo inflamatório associado à obesidade e reduzir a ocorrência da síndrome metabólica é tão ou mais importante do que o controle do sobrepeso. Essa foi uma das conclusões da tese de doutorado da nutricionista Deborah Masquio, sob a orientação de Ana Dâmaso, docente do programa de pós-graduação em Nutrição da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo. A pesquisa avaliou 69 adolescentes obesos, todos voluntários do Grupo de Estudos da Obesidade, que é ligado ao programa.

A síndrome metabólica é um conjunto de alterações metabólicas que elevam o risco cardiovascular e a taxa de mortalidade. Entre suas características estão o excesso de gordura na região abdominal, níveis elevados de triglicérides, alterações nos valores do colesterol, glicemia e pressão arterial e aumento de circunferência da cintura (o que pressupõe a adiposidade abdominal). Já o processo inflamatório é caracterizado pela secreção de substâncias pelo tecido adiposo, as quais são capazes de elevar o risco cardiovascular.

Os voluntários selecionados foram divididos em dois grupos, ambos com diagnóstico de obesidade: o primeiro, com 19 portadores de síndrome metabólica, e o segundo, com 50 indivíduos isentos da doença. Todos se submeteram a tratamento de um ano, que consistia na realização de exercícios físicos três vezes por semana; intervenção nutricional em grupos semanais, associada à consulta individual a cada mês; atendimento psicológico semanal – individual, para os casos mais específicos, ou em grupos; avaliação por fisioterapeuta; e acompanhamento mensal com médico endocrinologista.

No início, na fase intermediária e no final do tratamento, os voluntários foram avaliados por meio dos seguintes instrumentos: pletismografia por deslocamento de ar e ultrassonografia abdominal, ambos destinados a verificar a composição corporal; medição antropométrica de peso e estatura; ultrassonografia da artéria carótida; e exames de sangue. A ultrassonografia abdominal permitiu estimar a adiposidade visceral e subcutânea da região abdominal, enquanto os exames de sangue determinaram os níveis de glicose e insulina, o perfil lipídico e o perfil inflamatório de variáveis como leptina, adiponectina e ativador de plasminogênio-1 (PAI-1), que é um marcador de risco pró-trombótico.

Masquio explica que o excesso de gordura corporal, principalmente na região abdominal, está diretamente ligado ao processo inflamatório. “A gordura em excesso, principalmente visceral, secreta substâncias consideradas pró-inflamatórias, que são denominadas adipocinas (proteínas), como a leptina, o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), a interleucina-6 (IL-6) e também o PAI-1, que forma trombos ou coágulos. Nesse contexto, temos uma redução da adiponectina, que é uma adipocina também secretada pelo tecido adiposo, cuja ação é anti-inflamatória e que se encontra reduzida na obesidade.” A alteração desses marcadores eleva o risco de doenças cardiovasculares, pois eles atuam em diversas fases do processo de aterosclerose, que é o acúmulo de placas de gordura, colesterol e outras substâncias nas paredes das artérias. Isso restringe o fluxo sanguíneo e pode levar a graves complicações de saúde.

Com a intervenção interdisciplinar, a pesquisadora verificou que a prevalência da síndrome metabólica no primeiro grupo caiu de 27,5% para 13%. Além disso, reduziu-se significativamente a prevalência de alterações na circunferência da cintura (de 91,3% para 57,9%), nos níveis de glicose no sangue (de 10,1% para 2,9%), nas pressões sistólica (de 34,8% para 8,7%) e diastólica (de 21,7% para 1,45%) e no excesso de insulina (de 53,6% para 23,2%) e de leptina (de 66,7% para 40,6%) no sangue. Por outro lado, houve um aumento dos níveis de adiponectina, controlando-se a produção de leptina e o processo inflamatório. Do ponto de vista nutricional, a autora afirma que, para minimizar o processo inflamatório, foi necessário reduzir o excesso de gordura na região abdominal. “Um dos focos principais da intervenção nutricional foi o aumento do consumo de frutas, verduras e legumes e o estímulo à ingestão de substâncias antioxidantes que diminuem o processo inflamatório.”

Fotografia de Deborah e Ana, elas estão lado a lado

Deborah Masquio, à esquerda, e Ana Dâmaso

Fotografia de Flávia, ela está em um sentada e sorri

Flávia Corgosinho

Para Dâmaso, o controle do processo inflamatório associado à obesidade é tão ou mais importante do que o controle do peso. “Por meio desse estudo, Deborah mostrou que, além de reduzir a espessura da carótida, que é um marcador subclínico importante da aterosclerose, foi possível controlar a razão leptina/adiponectina; houve, então, o controle do processo inflamatório, o que favoreceu a redução da espessura da carótida e de todos os marcadores da síndrome metabólica”, resume a docente.

Genética e emagrecimento

Outra tese, elaborada pelo Grupo de Estudos da Obesidade, também sob a orientação de Dâmaso, concluiu que, em razão de uma variação genética encontrada no gene receptor da leptina (LEPR), alguns adolescentes obesos não conseguiram as mesmas reduções de índices dos que não portavam a variação. A leptina é um hormônio importante que desempenha um papel-chave na regulação do balanço energético, inibindo a fome e aumentando o gasto energético dos tecidos periféricos – entre os quais, o tecido adiposo.

A nutricionista Flávia Corgosinho, responsável pelo estudo, selecionou 76 voluntários considerados obesos e classificou-os em dois grupos, de acordo com a incidência daquela variação genética. Dentre os voluntários, 39 pertenciam ao grupo dominante (classificado como TT), que não possuíam a variação genética, enquanto os 37 restantes compunham o grupo heterozigoto ou recessivo (definidos, respectivamente, como CT e CC), que eram portadores da alteração.

Após um ano de tratamento, que incluiu a prática de exercícios físicos e o acompanhamento médico, nutricional e psicológico, a pesquisadora observou que os portadores dos genótipos CT e CC não haviam conseguido reduzir o perfil lipídico, a resistência à insulina e a produção de leptina aos mesmos níveis do grupo dominante. De modo similar, não lograram êxito em diminuir o índice de massa corporal (IMC) na mesma proporção do grupo TT. “Percebemos que os adolescentes com essa variação genética tinham níveis significativamente maiores de neuropeptídeos orexígenos (estimuladores da fome)”, explica Corgosinho. “O fator genético conseguiu justificar parcialmente por que alguns adolescentes com obesidade respondiam melhor à terapia e outros, não”, acrescenta.

Ainda em relação à produção de leptina, o grupo isento de variação genética conseguiu fazê-la recuar em cerca de 30%, ao passo que o outro obteve redução praticamente insignificante. “E nós sabemos que esse estado de hiperleptinemia (excesso de produção de leptina) é um dos principais fatores que dificultam a perda e a manutenção do peso corporal. O excesso de leptina é um fator pró-inflamatório que vai gerar consequências para a saúde do indivíduo, aumentando o risco cardiovascular”, esclarece.

Para a pesquisadora, os resultados do estudo indicaram que é necessário buscar estratégias auxiliares para aqueles que apresentam alterações genéticas relativas à leptina, as quais interferem no processo de emagrecimento e dificultam o controle de risco cardiovascular, incluindo-se a redução de triglicérides e de insulina e o aumento de adiponectina. Ela atribui à Nutrigenômica – ciência que estuda a interação entre os compostos bioativos na estrutura e na expressão dos genes – a possibilidade de tornar-se uma das opções de tratamento no futuro. No entanto, outras tentativas para solucionar o problema podem ser válidas, como a otimização da terapia, com atividades físicas mais frequentes ou mais intensas. “Talvez seja necessário que esses indivíduos percam 10% ou mais do peso corporal para obter os mesmos resultados do grupo sem alteração genética”, conclui.

Artigos relacionados:

MASQUIO, Deborah C. L.; PIANO, Aline de; CAMPOS, Raquel M. S.; SANCHES, Priscila L.; CARNIER, June; CORGOSINHO, Flávia C.; NETTO, Bárbara D.M.; CARVALHO-FERREIRA, Joana P.; OYAMA, Lila M.; NASCIMENTO, Claudia M. O.; MELLO, Marco Túlio de; TUFIK, Sergio; DÂMASO, Ana R. The role of multicomponent therapy in the metabolic syndrome, inflammation and cardiovascular risk in obese adolescents. British Journal of Nutrition, Cambridge (UK), v. 113, n. 12, p. 1920-1930, jun. 2015.

CORGOSINHO, Flávia C. Influência do polimorfismo no gene LEPR no estado de hiperleptinemia e na resposta ao tratamento interdisciplinar para mudança do estilo de vida. 2015. 122 f. Tese (Doutorado em Ciências) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo

Publicado em Edição 06
Quarta, 25 Maio 2016 14:47

Um mercado de 300 bilhões de dólares

A maconha é a substância ilícita mais consumida no mundo. Seu mercado ilegal movimenta cerca de 300 bilhões de dólares por ano, recursos que financiam violência e corrupção. Lucas Maia, do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), afirma que legalizar a maconha seria, portanto, privar o crime organizado da sua maior fonte de lucro, ao mesmo tempo em que diminuiria riscos à saúde dos usuários, pouparia gastos com a repressão e arrecadaria recursos para serem investidos em setores como saúde e educação. Essa discussão, porém, ainda está longe de acabar.

Fotografia de folha da maconha

Colaboraram neste artigo
Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp: Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) e Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Inpad/CNPq)
Departamento de Medicina Preventiva da EPM/Unifesp: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid)
Departamento de Psicobiologia da EPM/Unifesp: Unidade de Dependência de Drogas (Uded)

Erva é cultivada há dez mil anos

A maconha foi um dos primeiros produtos agrícolas a serem cultivados. A relação do homem com a planta ultrapassa 10 mil anos. Ao longo da história, suas propriedades foram exploradas de muitas maneiras distintas, desde o uso da fibra de cânhamo para produção de têxteis até o uso terapêutico das resinas de suas flores e folhas superiores, datado há 5 mil anos. Em 1839, o médico irlandês William O’Shaughnessy publicou o primeiro relato científico do potencial da maconha como agente anticonvulsivante, trazendo grande interesse ao estudo de suas propriedades terapêuticas.

Até o primeiro terço do século XX, as propriedades medicinais da Cannabis figuravam nas páginas das farmacopeias de diversas nações. Contudo, por interesses comerciais associados à discriminação racial e étnica, criou-se uma campanha de difamação pública e especulativa da planta, a fim de abolir seu uso industrial, terapêutico e sociocultural. A veiculação extensa de campanhas nacionais e internacionais, principalmente estadunidenses, para estabelecimento de uma opinião pública negativa a respeito da planta ocorreu de forma leviana, distante das evidências científicas, e desproporcional aos efeitos adversos do uso da planta que, sabidamente, não leva à morte.

A proibição da maconha (e de todas as outras drogas consideradas ilícitas), desde então, atua como barreira para o conhecimento científico da planta e seus usos em potencial. Também trata como contraventores, passíveis de punição, todos os envolvidos com a produção, comércio e consumo da substância. Dessa forma, falha ao tratar o usuário como criminoso por consumir, o produtor por plantar, o comerciante por vender, além de negligenciar e estigmatizar aqueles que necessitam de atenção devido ao uso problemático.

A proibição ainda dificulta a produção científica a respeito de usos terapêuticos, comerciais, eventos adversos e tratamentos para o uso problemático. No âmbito da saúde pública, o veto gera mais danos, com o encarceramento excessivo e mortes, do que benefícios, ou seja, a falência desta política está posta, visto que o bem jurídico que a inibição busca proteger é justamente a saúde pública.

A lógica proibicionista tem consequências assimétricas sobre a população. A lei prevê tratamentos distintos para usuários e traficantes, com maior severidade na punição dos últimos. No entanto, a distinção entre os dois é feita de forma arbitrária, baseada sobretudo nas circunstâncias sociais e pessoais do réu, em um mecanismo pernicioso em que se invertem os papéis legais. O policial que fez a prisão serve à justiça de testemunha única e o réu tem de provar sua inocência, em vez de a polícia investigar se houve crime.

O aparelho opressor do Estado funciona de forma mais rígida sobre a população mais pobre, que tem menor acesso à informação, menor conhecimento dos seus direitos, que geralmente mora nas periferias e que é composta em sua maioria por pretos ou pardos.

A foto mostra dezenas de adultos com camisetas que estampam a frase 'A vida não espera. Maconha medicinal já'. Eles empurram várias crianças cadeirantes, que usam a mesma camiseta.

Maio de 2016 - Ativistas caminham na orla de Ipanema (RJ) em defesa da regulamentação, comercialização e do uso terapêutico e recreativo da maconha

Dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) mostram que entre 2005 e 2012 houve um aumento da proporção de encarceramento devido a crimes ligados às drogas. Seguindo as assimetrias, nesse período, aumentou a proporção de jovens presos, sendo que, em 2012, pessoas de 18 a 24 anos eram a maioria da população prisional. No mesmo ano, 60,8% dos presos eram negros. Essas informações mostram que o ônus da proibição das drogas recai sobre os jovens, negros e pessoas que vivem nas periferias. A Anistia Internacional aponta outro dado alarmante: 77% das 30 mil vítimas de homicídios praticados com emprego de arma de fogo no país eram negras.

Em 2016, o Brasil pode deixar de ser um dos últimos países da América Latina a criminalizar o uso das substâncias consideradas ilícitas. Caso essa decisão seja tomada no Supremo Tribunal Federal, timidamente o país começará a rever sua política custosa, atrasada e ineficaz de lidar com as drogas.

A reforma da política de drogas deve ainda ser ampliada. Deve-se pôr fim à proibição das substâncias consideradas ilícitas e regular a produção, distribuição e consumo destas. É preciso priorizar o respeito aos direitos humanos e desvincular as drogas da violência e do aparato repressor, assim como priorizar as estratégias de redução de danos e de atenção ao usuário problemático pelo setor de saúde e não pelo judiciário. Há que se garantir educação e informação a respeito das substâncias e dos riscos e prejuízos associados ao seu uso, além de vetar a propaganda e qualquer estímulo ao consumo. São também prioridades: garantir a liberdade de opinião e de uso do próprio corpo; derrubar as barreiras para a pesquisa sobre os potenciais terapêuticos dessas substâncias; abolir a disparidade prisional e o genocídio da juventude pobre, negra e periférica; reduzir o estigma sobre o usuário e facilitar o acesso destes ao sistema de saúde. Estas são algumas medidas que, se adotadas, podem reduzir os custos econômicos e sociais provocados por essa guerra falida.

• Dartiu Xavier da Silveira, Renato Filev, Maria Torneli - PROAD

Criminalização inibe a pesquisa científica

Fotografia que mostra centenas de pacotes de maconha empilhados. À frente deles está um banner do DRE e brasão da polícia federal.

Setembro de 2015 - Uma tonelada de maconha é apreendida na BR 101, divisa do Estado de Sergipe com a Bahia

Pelo fato de a maconha ser uma droga ilegal, há limitação de dados epidemiológicos que permitam comparar, em igualdade de condições, os efeitos do seu uso crônico com o de cigarros de tabaco. É provável que se utilizados na mesma quantidade e frequência, os efeitos prejudiciais pulmonares sejam similares. Diversos estudos indicam dados cognitivos, desencadeamento de síndrome amotivacional, aumento do risco de desencadeamento de quadros psicóticos em pessoas com vulnerabilidade e aumento da taxa cardíaca e da pressão arterial, que pode precipitar infartos do miocárdio em jovens do sexo masculino, provavelmente por espasmo da artéria coronária.

Diversos estudos sobre o uso medicinal de derivados da Cannabis sativa, em especial do canabidiol, comprovam sua efetividade no tratamento de quadros de epilepsia. Elisaldo Carlini, criador do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), professor do Departamento de Psicobiologia e, atualmente, no Programa de Medicina Preventiva da EPM/Unifesp, foi um dos primeiros pesquisadores do mundo a estudar os efeitos da maconha e seus componentes.

Entre os estudos dos quais participou, destaca-se a tese de doutorado do professor Antonio Zuardi (1980), sobre a interação entre dois canabinóides: o canabidiol e o delta-9-THC, na qual demonstrou o efeito ansiolítico do canadibiol e sua ação antagônica ao delta-9-THC. Estudos sobre o uso de alguns canabinóides, como parte de cuidado paliativo, mostram que eles podem contribuir para o aumento do apetite em pacientes com a sndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS). No entanto, ainda faltam estudos que permitam avaliar, a longo prazo, sua eficácia, tolerabilidade e segurança. A ação do canabidiol como anticonvulsivante em casos de epilepsia refratários a outros tratamentos tem sido comprovada por estudos recentes.

Estudos realizados na década de 1970 pelos professores Elisaldo Carlini e Sergio Tufik, no Departamento de Psicobiologia, demonstraram que, em animais de laboratório, a administração de delta-9-tetrahidrocanabinol (o princípio ativo da maconha responsável pelos seus efeitos alucinógenos) potencia a agressividade em animais submetidos à privação de sono. O primeiro estudo sobre a maconha (dentre 46) realizado por Carlini foi publicado em 1965. Estudos posteriores concluíram que a relação entre o uso de maconha ou outras drogas e violência é complexa e bidirecional. Devido aos seus efeitos farmacológicos, alterando a liberação de neurotransmissores, pode ocorrer aumento do comportamento agressivo, principalmente no período de abstinência. Durante o período de intoxicação, a maconha reduz a probabilidade de violência. Entretanto, além dos efeitos farmacológicos, é preciso considerar a associação com outras substâncias e o contexto do consumo.

Entre as principais vantagens da descriminalização da maconha para uso pessoal estão: evitar a colocação de usuários na ilegalidade e diminuir a sobrecarga do sistema penitenciário. A descriminalização do porte de maconha para uso pessoal é importante para diferenciar usuários de traficantes, embora, na prática, sua execução possa ser difícil. A prisão de usuários não resolve o problema da dependência de drogas, nem os problemas sociais relacionados. A abordagem de usuários deve ser realizada por profissionais das áreas de saúde pública e assistência social, voltada ao oferecimento de oportunidade de reflexão sobre o próprio consumo, em vez de encarceramento, visando a ressocialização e recuperação dos dependentes. Por outro lado, o controle do tráfico continua a ser feito pelos sistemas judiciário e de segurança pública.

• Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni – Uded

Gráfico 'Indivíduos com indicadores de depressão'. Prevalência de indivíduos com indicadores para depressão entre a população geral, com abuso e/ou dependência de álcool (DSM-IV), consumidores de maconha (uso no último ano) e consumidores de cocaína (uso no último ano), por gênero. Os gráfico mostra maior prevalência de depressão entre os usuários de álcool (mais de 50%) cocaína (mais de 60%), maconha (mais de 60%) do que na população em geral (mais de 30%).

Políticas repressivas perdem terreno no mundo

Um número cada vez maior de países chega à mesma constatação: é preciso mudar a política de drogas. E a maconha ocupa lugar de destaque nesse cenário. Nos Estados Unidos, 23 Estados já regulam o uso medicinal, 4 deles também o uso recreativo. Em 2017, o Canadá poderá tornar-se o primeiro país do G7 a regular o comércio de maconha para todos os fins. Na Espanha, a maconha é cultivada e compartilhada em associações civis (clubes). No Uruguai, além dos clubes, a maconha será vendida em farmácias.

Em Israel, aproximadamente 22 mil pacientes recebem maconha medicinal do governo. No Chile, a maior plantação legal de maconha da América Latina beneficia 4 mil pacientes e o Parlamento tramita um projeto de lei para a descriminalização do consumo e cultivo pessoal. Mais recentemente, Austrália e Colômbia somaram-se aos países que autorizam o uso medicinal. Embora a lei colombiana permita desde 1986 a produção e o comércio de maconha para uso médico e científico, a prática nunca havia sido regulamentada.

Similarmente, a lei brasileira autoriza desde 2006 “o plantio, a cultura e a colheita dos vegetais dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas, exclusivamente para fins medicinais ou científicos” (Lei nº 11.343/2006). No entanto, sem uma regulamentação que defina regras claras, a prática permanece sendo criminalizada no Brasil. A aprovação da importação de extratos contendo prioritariamente canabidiol, por meio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), foi um passo muito curto em direção a uma regulação eficaz e igualitária.

A Cannabis possui centenas de componentes, grande parte deles com potencial terapêutico. Inclusive o tetrahidrocanabinol (THC), comprovadamente eficaz no tratamento da dor crônica, náusea e vômito produzidos pela quimioterapia, falta de apetite e espasmos musculares que ocorrem em diversas enfermidades. Nestes casos, não há dúvida de que os benefícios são muito maiores que os riscos. É preciso regulamentar o uso da planta como um todo, em suas diferentes formas de administração, e viabilizar a produção nacional para que uma parcela maior desses pacientes tenha acesso ao tratamento.

Duas fotos - primeira delas está Lucas, ele é um homem jovem, com cabelo preto e cavanhaque, veste camisa azul e está sorrindo. Na outra foto, está Zila, que é uma mulher jovem, com cabelo preto, está sentada em frente a um computador e sorri.

Lucas Maia e Zila van der Meer Sanchez Dutenhefner, do Cebrid

Contudo, o número de pessoas que faz uso estritamente médico da maconha representa apenas uma parte dos consumidores e regular a maconha não será tarefa fácil. Vai exigir a cooperação de diferentes setores sociais. As experiências em andamento em outros países podem fornecer subsídios para que tomemos melhores decisões ao elaborar um modelo de regulação para o Brasil. Isso envolve definir questões como: limite de compra/estoque, preço, qualidade, potência e, muito importante, a publicidade vinculada à maconha. As regras irão depender dos objetivos que a regulação pretende priorizar.

Nos países onde a maconha foi regulada, não houve explosão do consumo ou aumento dos crimes. Por outro lado, após 50 anos de guerra às drogas, muitas nações perceberam que a simples repressão não foi capaz de reduzir a oferta nem a demanda. Pelo contrário, o uso (e os riscos do uso) só aumentou. Novas drogas mais potentes foram desenvolvidas. Adulterantes ameaçam a saúde dos usuários.

A estigmatização e a criminalização impedem que as pessoas que desenvolvem problemas procurem tratamento. O encarceramento de usuários e pequenos traficantes, além de seletivo a grupos sociais já marginalizados, sobrecarrega o sistema prisional. Assim, a proibição demonstrou ser mais prejudicial à saúde e à sociedade do que o problema que ela supostamente busca controlar.

É tempo de colocar a saúde e os direitos humanos no centro das políticas de drogas, onde prevaleçam evidências científicas, em vez de concepções emotivas e ideológicas.

• Lucas Maia - Cebrid

Publicado em Edição 06

Pesquisa revela o que os pequenos comem entre o intervalo das principais refeições; frutas participam de 98,8% das composições dos lanches. No entanto, o consumo de açúcar ainda preocupa

Daniel Patini

Uma montagem com vários círculos coloridos e frutas

Um estudo realizado de forma conjunta entre professores e pós-graduandos do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP), do Centro de Dificuldades Alimentares do Instituto Pensi (Hospital Infantil Sabará) e do curso de Nutrição da Universidade São Judas Tadeu, com o apoio da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), descreveu os hábitos alimentares de crianças em idade pré-escolar em relação ao consumo dos lanches intermediários, que são aqueles feitos entre as principais refeições.

No estudo identificaram-se os principais grupos alimentares que entram nos lanches intermediários e modelizou-se o plano alimentar desta refeição intermediária, baseado na frequência dos mais encontrados, e montaram-se cardápios típicos para as regiões brasileiras e níveis socioeconômicos.

Foram analisadas as respostas dos pais ou responsáveis de 1.391 crianças, com idade entre 4 e 6 anos, de todas as regiões do Brasil. Uma segunda fase está em publicação com os dados referentes à faixa etária de 7 a 11 anos. No projeto identificou-se que lanche intermediário foi consumido por 98,20% das crianças brasileiras, sendo compostos, em média, por três grupos de alimentos: frutas, biscoitos e iogurtes. O lanche da tarde, no geral, foi mais frequente (96,69%) que o lanche da manhã (71,17%). 

Além disso, foi constatado também que o valor calórico desses lanches estava de acordo com o preconizado (entre 180 e 270 kcal). Entretanto, o lanche da manhã da região Centro-Oeste e o lanche da tarde da região Sudeste se mostraram abaixo da recomendação, com 146 kcal e 168 kcal, respectivamente. A média calórica dos lanches intermediários do Brasil, considerando nível socioeconômico e gênero, variou de 190 a 250 kcal.

“Porém, o lanche da tarde mostrou-se mais calórico e com consumo mais frequente de alimentos variados com baixo valor nutricional e com alto teor de açúcares de adição, como balas, sorvetes e chocolates”, revela o pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, que é professor associado do Setor de Medicina do Adolescente da EPM/Unifesp e um dos coordenadores do estudo. O consumo de açúcar de adição, somadas as quantidades de açúcares do lanche da manhã e da tarde, no geral, aproximou-se do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a dieta de uma criança de 4 a 6 anos: 22,5 gramas por dia.

Na Região Centro-Oeste, por exemplo, os lanches atingiram sozinhos esse limite, apresentando um consumo de 29,6 gramas/dia (131,5% do limite). Somente o lanche da tarde (21,4 g) contribui com quase a totalidade da recomendação para o dia. Tal contribuição é explicada pela composição do lanche da tarde dessa região, formado pelos alimentos consumidos com maior frequência pelas crianças: biscoito doce com recheio, banana e suco de frutas industrializado. 

Já a ingestão de frutas em geral esteve presente em 98,8% das composições de lanches estudadas, que pode ser entendida como uma tendência de melhoria da educação nutricional no Brasil. O leite e bebidas à base de leite estiveram presentes em quase 10% das composições de lanches e o suco compôs 8,3% dos lanches intermediários estudados. O refrigerante apresentou frequência de ingestão próximo a 5% no lanche da tarde das crianças. 

“A composição dos lanches intermediários é de suma importância, uma vez que são oportunidades para o preenchimento das necessidades nutricionais das crianças desta faixa etária, que precisam de aporte nutricional adequado por estarem em período de crescimento e desenvolvimento”, explica o professor.

O lanche ideal

Segundo o Manual de Orientação do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), durante a idade pré-escolar, é recomendado que sejam realizadas as refeições principais (café da manhã, almoço e jantar) com três lanches intermediários entre elas: lanches da manhã, tarde e noite, em horários regulares e com intervalos entre 2 e 3 horas, suficientes para que a criança sinta fome na próxima refeição. 

Equipe de pesquisadores, estão sentados lado a lado em um sofá

Mauro Fisberg, Ana Del'Arco, Agatha Previdelli e Carlos Nogueira-de-Almeida

Da mesma forma que nas refeições principais, eles devem incluir grupos de alimentos que forneçam macronutrientes – carboidratos, lipídios e proteínas –, fibras e também micronutrientes - vitaminas e minerais. Recomenda-se também que as crianças sejam constantemente hidratadas. “Na elaboração dos lanches, a presença de alimentos in natura é muito importante, além de produtos que sejam práticos para a realização desta refeição”, ressalta Fisberg.

De acordo com as recomendações dietéticas do Manual do Lanche Saudável da SBP, o lanche intermediário para ser considerado saudável deve ser composto por uma fruta, um tipo de carboidrato e um alimento fonte de proteína, quase sempre láctea. Se houver possibilidade de oferta, a bebida deveria ser a água. Se houver oferta de sucos, que sejam não adoçados. 

Para o médico, os lanches devem ser planejados e preparados pela família ou pela escola, no intuito de agregar valor nutricional ao mesmo, preenchendo as recomendações nutricionais, diferenciando assim o lanche daquele momento de consumir alimentos de forma irregular ou ocasional, denominado como “beliscar”.

Lanche da manhã e da tarde

As composições verificadas nos lanches da manhã das crianças brasileiras foram caracterizadas, em geral, pelos mesmos grupos alimentares: frutas em geral (40,34%), biscoitos em geral (33,28%) e iogurtes em geral (22,34%), entre outros. Vale destacar que cerca de 6% das crianças brasileiras consumiram balas e/ou pirulitos no lanche da manhã. 

Especificamente dentro do grupo dos biscoitos, o tipo doce foi consumido com maior frequência, sendo o biscoito doce sem recheio o mais frequente para o Brasil total entre os meninos e para os níveis socioeconômicos A, B e C; já para as meninas e entre as crianças dos níveis D e E, o biscoito doce com recheio foi o consumido com maior frequência, 13,60% e 14,83% respectivamente. 

Em relação ao lanche da tarde, o estudo verificou que o grupo de alimento mais frequente foi o dos biscoitos em geral (79,44%), seguido pelas frutas em geral (58,10%) e pelos iogurtes em geral (41,33%). Tal composição de lanche da tarde difere apenas para o nível socioeconômico C, no qual o grupo do leite e bebidas à base de leite foi o terceiro grupo consumido com maior frequência. 

O consumo de alimentos com alto teor de açúcares de adição (como balas, sorvetes e chocolates) aparece com frequência superior a 5% no momento de consumo do lanche da tarde para todos os níveis socioeconômicos e entre as meninas e os meninos. A frequência de consumo destes grupos entre as crianças brasileiras foi de 20,49% para o grupo das balas e/ou pirulitos, 17,76% para o grupo dos sorvetes e sobremesas lácteas e de 16,75% para o grupo dos chocolates.

Macro e micronutrientes

Em relação aos macronutrientes, o consumo médio de proteínas em todas as regiões do país foi de 5 gramas em cada lanche. O consumo de gordura total foi maior na região Norte e Nordeste (consideradas em conjunto pelo trabalho), com pico de 8,6 gramas para o lanche da manhã, seguido por 8,3 gramas no lanche da manhã da região Sudeste e 7,6 gramas no lanche da manhã da região Sul. Já o consumo de gordura das meninas (média de 6,8 g) foi maior quando comparado ao consumo dos meninos (média de 6,45 g). 

O carboidrato foi ingerido na quantidade média de 31,9 g no lanche da manhã e de 36,7 g no lanche da tarde no geral, sendo sempre maior o consumo no lanche da tarde. Em média, as meninas (35,05 g) consumiram mais carboidrato que os meninos nos lanches (33,50 g). 

Quanto aos minerais, verificou-se que o consumo de cálcio foi de 120 mg no lanche da manhã e de 125 mg no lanche da tarde, quando avaliados os lanches das crianças na amostra total. Os maiores consumos de cálcio foram verificados no lanche da manhã da região Sudeste, com 186 mg, e da região Sul, com 163 mg. “O grupo dos iogurtes em geral e o grupo do leite e das bebidas à base de leite esteve presente em 93% das composições, o que explica o consumo de cálcio reportado”, esclarece Fisberg.

O lanche da tarde foi o que mais contribuiu com a ingestão de ferro para todas as regiões. No geral, o consumo de ferro foi de 1,82 mg no lanche da manhã e de 2,15 mg no lanche da tarde. Já a ingestão de sódio foi de 457 mg quando somadas as quantidades médias dos lanches intermediários das composições de lanches do Brasil.

A soma da quantidade de vitamina C nos lanches da manhã e da tarde atingiu a recomendação de 30 mg dessa vitamina estabelecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nos níveis socioeconômicos, em ambos os sexos e na maioria das regiões, exceto nas regiões Norte e Nordeste (11 mg) e na região Sul (10 mg).

Padrões alimentares

Uma alimentação balanceada requer rotinas alimentares diárias bem definidas, pois não só a qualidade e a quantidade da alimentação oferecida à criança são importantes, mas também os horários das refeições; não sendo diferente para os lanches intermediários. “A falta de disciplina e controle familiar costuma ser a maior causa de dificuldades alimentares”, lembra Fisberg.

Ela ressalta ainda que os pais são responsáveis pelas escolhas e pela formação dos hábitos alimentares das crianças, uma vez que são eles quem disponibilizam os alimentos, saudáveis ou pouco saudáveis, que serão consumidos por elas.

A população infantil é, do ponto de vista psicológico, socioeconômico e cultural, influenciada pelo ambiente onde vive, preferindo os alimentos facilmente disponíveis e habitualmente servidos em casa. “Além da família, o ambiente escolar também é responsável pela formação e manutenção dos hábitos alimentares das crianças”, explica o pesquisador.

A mudança dos padrões de comportamento ajudaria a explicar o contínuo aumento da adiposidade nas crianças, por haver redução da atividade física e no consumo de frutas, hortaliças e leite e aumento na ingestão de bolachas recheadas, salgadinhos, doces e refrigerantes, como constatado nos lanches intermediários, além da omissão de refeições, principalmente o café da manhã.

“O comportamento alimentar de risco está ficando precoce e doenças de adultos hoje também são pediátricas”, analisa o médico. “Hipertensão arterial e resistência à insulina, por exemplo, são observadas atualmente em idades cada vez mais precoces”, finaliza.

Gráfico Consumo de açúcar nos lanches intermediários de crianças no Brasil. Consumo médio de açúcar de adição (gramas) do Brasil, segundo macrorregiões, níveis socioeconômicos e gênero, no lanche da tarde, para a faixa etária de 4 a 6 anos.

Artigo relacionado:
FISBERG, Mauro; DEL’ARCO, Ana Paula Wolf Tasca; PREVIDELLI, Agatha; TOSATTI, Abykeyla Mellisse; NOGUEIRA-DE-ALMEIDA, Carlos Alberto. Hábito alimentar nos lanches intermediários de crianças pré-escolares brasileiras: estudo em amostra nacional representativa. International Journal of Nutrology, v. 8, n. 4, p. 58-71, set/dez. 2015. Disponível em:< http://www.abran.org.br/RevistaE/index.php/IJNutrology/article/view/191/181 >. Acesso em: 13 abr. 2016.

Publicado em Edição 06