Fotografia mostra uma mulher de cabeça baixa e no primeiro plano a mão de um homem fechada

A prática da violência, especialmente no ambiente doméstico, deixa dolorosas cicatrizes emocionais e pode levar à morte

Lu Sudré
e
Ana Cristina Cocolo

O Brasil é o 5º país no mundo – em um grupo de 83 – em que se matam mais mulheres, de acordo com o Mapa da Violência de 2015, organizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). Entre 2003 e 2013, o número de mulheres mortas em condições violentas passou de 3.937 para 4.762 – o que representou 13 feminicídios por dia –, registrando um aumento de 21% na década. Para as mulheres negras, o índice foi ainda pior: os homicídios, nesse caso, aumentaram 54,2% no mesmo período, passando de 1.864 para 2.875 vítimas.

Dentro das relações interpessoais, a violência doméstica inclui as várias formas de agressão ou negligência que ocorrem no âmbito familiar, onde as mulheres – principalmente as de cor negra – continuam sendo as principais vítimas.

De acordo com o balanço realizado em 2015 pela Central de Atendimento à Mulher, pertencente à extinta Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, do Ministério da Justiça e Cidadania, em 74% dos relatos recebidos pelo serviço Ligue 180, a violência era diária ou semanal. Em 72% dos casos, as agressões foram cometidas por homens com quem as vítimas mantinham ou mantiveram uma relação afetiva.

Do total de casos registrados pelo serviço, 50,16% foram de violência física; 30,33%, de violência psicológica; 7,25%, de violência moral; 2,10%, de violência patrimonial; 4,54%, de violência sexual; 5,17% corresponderam a cárcere privado; e 0,46% referiu-se a tráfico de pessoas.

Pesquisadores do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência (Prove), do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, realizaram um estudo sobre a gravidade de sintomas psicopatológicos em mulheres vítimas de violência doméstica, encaminhadas pela 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, que apresentavam diversas comorbidades. Com a aplicação dos respectivos instrumentos de avaliação, os resultados obtidos foram os seguintes: 76% foram diagnosticadas com transtorno de estresse pós-traumático, 89% com depressão e 94% com transtorno de ansiedade.

“Nossa pesquisa mostrou que essas mulheres apresentavam muitas alterações no sistema nervoso autônomo (frequência cardíaca e condutância da pele) e prejuízos cognitivos como consequência da violência, tornando-se mais reativas para estímulos desagradáveis, ou seja, evidenciando um estado de alerta constante”, diz Adriana Mozzambani, pesquisadora do Prove.

Foi também observado que muitas mulheres desenvolviam experiências dissociativas peritraumáticas decorrentes do momento do ataque, como paralisia (imobilidade tônica) e dificuldades para lembrar detalhes da agressão. A pesquisadora critica a abordagem midiática sobre os casos de violência doméstica. “Os programas televisivos dramatizam os crimes: de um lado, acusam o criminoso; de outro, romantizam o crime. Não fazem o seu verdadeiro papel, que é a maior divulgação dos direitos das pessoas vítimas de violência doméstica e dos locais onde prestar ocorrência ou procurar ajuda médica e psicológica”, ressalta Adriana.

Carla Gebara, doutora em Ciências pelo Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, realizou outro estudo, que analisou a vinculação entre o consumo de bebidas alcoólicas por mulheres e os padrões de violência doméstica, esta decorrente do relacionamento entre os cônjuges ou direcionada aos filhos, a partir de uma amostra comunitária domiciliar representativa de dois bairros com diferentes perfis socioeconômicos. Ao todo, foram entrevistadas 905 mulheres, das quais 6,1% foram identificadas como usuárias de risco, no tocante ao consumo de álcool.

Mulher em um protesto, com uma fita na boca escrito - O silêncio mata

Manifestante na Avenida Paulista (SP) no ato Por Todas Elas, em repúdio à cultura do estupro e à violência contra a mulher (junho/2016)

Os relatos de violência nos últimos três meses que antecederam essa última pesquisa, considerando a mulher como vítima, classificaram-se da seguinte forma: 10,8% como violência física, 48,3% como agressão psicológica, 7,8% como coerção sexual e 4,7% como injúria. No que se refere à prática de violência contra os filhos, 70,5% das mulheres relataram agressão psicológica, 51,4% admitiram o uso de punição corporal e 9,8% praticaram maus-tratos físicos.
A pesquisa de doutorado de Carla, denominada Padrões de Violência Doméstica e Uso de Álcool entre Mulheres de uma Amostra Comunitária Domiciliar, orientada por Ana Regina Noto, professora do Departamento de Psicobiologia da EPM/Unifesp, identificou associações entre a violência de parceiros íntimos e a violência contra os filhos, evidenciando uma circularidade do comportamento agressivo no sistema familiar.

“Os dados do estudo sugerem que, para além dos fatores individuais avaliados, como consumo de álcool, depressão e características sociodemográficas, as situações de violência podem estar ligadas às relações interpessoais estabelecidas no ambiente doméstico. Observa-se que uma mesma pessoa – no caso, a mulher – pode ser tanto agressora quanto vítima em diferentes relações e que o tipo de violência perpetrado se relaciona com o tipo de violência sofrido”, afirma Carla.
A associação encontrada no estudo entre o consumo de álcool pela mulher e a prática de maus-tratos contra os filhos sugere que o álcool estaria relacionado em maior grau à severidade dos atos violentos do que ao simples aumento de sua ocorrência. Sendo assim, o álcool não determinaria tais comportamentos, mas contribuiria para que se manifestassem de forma mais grave ou intensa. “Ao ser controlado por outras variáveis, o uso de risco do álcool não se mostrou associado a nenhum tipo de violência entre parceiros íntimos, perpetrado ou sofrido pela mulher, sugerindo que a relação entre álcool e violência doméstica não se dá de maneira direta, sendo influenciada por outros fatores de vulnerabilidade envolvidos”, complementa a pesquisadora.

Problema que começa na infância

Estudos realizados a partir de 2008 por pesquisadores do Prove apontaram que a exposição à violência entre crianças que trabalhavam nas ruas de São Paulo era tão frequente em casa como no bairro onde viviam, ocasionando-lhes sérios prejuízos para a saúde mental.

A população analisada – composta por 83 famílias – envolveu 191 crianças, das quais 126 trabalhavam nas ruas. Todas elas haviam sido recentemente admitidas no projeto do Instituto Rukha, uma organização não governamental (ONG) que atuou na cidade de São Paulo até 2013, com o intuito de retirar das ruas as crianças que pediam ajuda financeira nos semáforos.

Mais de 50% dessa população revelou sofrer negligência física e emocional por parte de seus cuidadores. Quase 38% relataram abuso físico (castigos) e 18%, abuso sexual. Em relação à saúde mental, os pesquisadores encontraram problemas emocionais em 67,8%. Em 92,7% das famílias, a mãe era a principal cuidadora.

Andre aFeijo De Mello, sentada em frente a um computador

Andrea Feijó de Mello, coordenadora do Prove

O panorama observado em relação a essas crianças foi uma repetição da vivência dos pais na própria infância, já que 73,5% dos cuidadores disseram ter sofrido negligência física, enquanto 66% confirmaram abuso emocional e 29%, violência sexual. Na avaliação do estado de saúde mental desse grupo, verificou-se que 48% apresentavam sintomas depressivos e de ansiedade. A violência conjugal severa foi percebida em 25,5% dos domicílios.

Dois anos depois da atuação multiprofissional do Instituto Rukha junto às famílias – para desestimular o trabalho nas ruas e melhorar o vínculo familiar, a adesão à escola e a habilidade de geração de renda por parte do cuidador –, a análise das condições relacionadas às 178 crianças que permaneceram no projeto mostrou que houve diminuição significativa do abuso físico, de 33,7% para 22%; da negligência física, de 52,2% para 42,4%; e do abuso sexual, de 18% para 13%. Também houve melhora no escore da saúde mental desses jovens, com diminuição de 11,4% (de 62% para 50,6%) na prevalência de sintomas psiquiátricos como enurese e transtornos depressivos e de conduta. “A melhora no estado de saúde mental das crianças após a intervenção foi significantemente correlacionada com o menor nível de sintomas psiquiátricos do cuidador e a diminuição de negligência física infantil”, explica Andrea Feijó de Mello, psiquiatra e coordenadora do Prove.

Artigos relacionados:

MOZZAMBANI, Adriana Cristine Fonseca; RIBEIRO, Rafaela Larsen; FUSO, Simone Freitas; FIKS, José Paulo; MELLO, Marcelo F. de. Psychopathology severity in women victims of violence. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, v. 33, n.1, p. 43-47, 2011. Acesso em: 5 out. 2016. 

MELLO, Andrea Feijó de; MACIEL, Mariana R.; FOSSALUZA, Victor; PAULA, Cristiane S. de; GRASSI-OLIVEIRA, Rodrigo; CAVALCANTE-NÓBREGA, Luciana P.; CIVIDANES, Giuliana C.; SOUSSUMI, Yusaku; SOUSSUMI, Sonia P.; PERISSINOTTI, Dirce N. M.; BORDIN, Isabel A.; MELLO, Marcelo Feijó de; MARI, Jair de Jesus. Exposure to maltreatment and urban violence in children working on the streets in São Paulo, Brazil: factors associated with street work. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo: Associação Brasileira de Psiquiatria, v. 36, n. 3, p. 191-198, jul.-set. 2014. Acesso em: 5 out. 2016.

MACIEL, Mariana R.; MELLO, Andrea F. de; FOSSALUZA, Victor; NÓBREGA, Luciana P.; CIVIDANES, Giuliana C.; MARI, Jair de Jesus; MELLO, Marcelo Feijó de. Children working on the streets in Brazil: predictors of mental health problems. European Child and Adolescent Psychiatry, [s.l.], v. 22, n. 3, p. 165-175, mar. 2013. Acesso em: 5 out. 2016.

MELLO, Andrea Feijó de; JURUENA, Mario Francisco; MACIEL, Mariana Rangel; CAVALCANTE-NÓBREGA, Luciana Porto; CIVIDANES, Giuliana C.; FOSSALUZA, Victor; CALSAVARA, Vinicius; MELLO, Marcelo Feijó de; CLEARE, Anthony James; MARI, Jair de Jesus. Factors related to the cortisol awakening response of children working on the streets and siblings, before and after 2 years of a psychosocial intervention. Psychiatry Research, [s.l.], v. 225, n. 3, p. 625-630, 28 fev. 2015. Acesso em: 5 out. 2016.

CAVALCANTE-NÓBREGA, Luciana Porto; MELLO, Andrea Feijó de; MACIEL, Mariana Rangel; CIVIDANES, Giuliana Cláudia; FOSSALUZA, Victor; MARI, Jair de Jesus; MELLO, Marcelo Feijó de. Qualidade de vida de mães de crianças trabalhadoras de rua da cidade de São Paulo, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 31, n. 4, p. 827-836, abr. 2015. Acesso em: 5 out. 2016.

CIVIDANES, Giuliana C.; MELLO, Andrea Feijó de; SALLUM, Juliana M.; FOSSALUZA, Victor; MEDEIROS, Marcio de; MACIEL, Mariana R.; CAVALCANTE-NÓBREGA, Luciana P.; MARI, Jair de Jesus; MELLO, Marcelo Feijó de; VALENTE, Nina L. Lack of association between the 5-HTTLPR and positive screening for mental disorders among children exposed to urban violence and maltreatment. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo: Associação Brasileira de Psiquiatria, v. 36, n. 4, p. 277-284, out.-dez. 2014. Acesso em: 21 maio 2015.

GEBARA, Carla F. de Paula; FERRI, Cleusa P.; LOURENÇO, Lelio M.; VIEIRA, Marcel de T.; BHONA, Fernanda M. de Castro; NOTO, Ana Regina. Patterns of domestic violence and alcohol consumption among women and the effectiveness of a brief intervention in a household setting: a protocol study. BMC Women’s Health, Londres, v. 15, n. 78, 2015. Acesso em: 5 out. 2016.

BHONA, Fernanda M. de Castro; GEBARA, Carla F. de Paula; NOTO, Ana Regina; VIEIRA, Marcel de T.; LOURENÇO, Lelio M. Inter-relações da violência no sistema familiar: estudo domiciliar em um bairro de baixa renda. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 27, n.3, p. 591-598, 2014. Acesso em: 5 out. 2016.

Publicado em Edição 07
Sexta, 09 Dezembro 2016 14:02

Armas de fogo matam 1 milhão em 35 anos

Fotografia de um homem segurando uma arma

Vítimas sobreviventes, familiares e amigos sofrem sequelas como o transtorno de estresse pós-traumático, com sérias implicações psicológicas, afetivas e econômicas

Ana Cristina Cocolo

Entre 1980 e 2014, foram registradas no Brasil 967.851 mortes por arma de fogo, 85,8% das quais foram resultantes de agressão com intenção de matar, indica o Mapa da Violência 2016, coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, da área de estudos sobre violência da Faculdade Latino–Americana de Ciências Sociais. A violência, quando não mata, deixa sequelas imensuráveis às vítimas e seus familiares. Uma delas é o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), distúrbio psiquiátrico caracterizado por sintomas físicos, psíquicos e emocionais decorrentes da experimentação ou do testemunho de atos violentos ou situações traumáticas, principalmente as que representam ameaça à vida. 

José Paulo Fiks, psiquiatra e coordenador do Grupo de Pesquisa Qualitativa em Violência e Saúde Mental do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência (Prove) do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, esclarece que a estimativa do TEPT é que ele atinja até cerca de 20% das vítimas de violência. “No entanto, esse índice varia muito entre comunidades”. 

De acordo com ele, em países em situação de paz, ou seja, nos que não há conflitos generalizados, a média de incidência de quadros de TEPT varia de 12% a 20% de casos após a exposição a um evento potencialmente traumático. Já para situações de conflito ou eventos catastróficos a incidência pode chegar a 35% a 40%. “Mas posso afirmar que esses números ainda não são exatamente corretos”.

Entre as explicações para que uma pessoa não desenvolva o TEPT estão os fatores de proteção que podem ser genéticos, religiosos, educacionais, de maternagem (pessoas com boa proteção na infância são mais resilientes), apoio social e ação imediata dos serviços de saúde. “Tudo isso dá uma boa base para que o TEPT não se desenvolva. Mas não há garantias. Não há uma ‘vacina’”, explica Fiks.

Mistura de sentimentos

José Paulo Fiks

José Paulo Fiks

Marcelo Feijo de Mello

Marcelo Feijó de Mello

Mas como a vítima enxerga as repercussões psicológicas da experiência sofrida? Para entender isso, Fiks e o também psiquiatra e chefe do Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp, Marcelo Feijó de Mello, analisaram 20 indivíduos, com idades entre 18 e 65 anos, de ambos os sexos, vítimas de violência, tais como roubo, rebelião, sequestro, violência doméstica e testemunha de suicídio. Nenhum deles tinha histórico de abuso de substâncias psicoativas, distúrbios psicóticos ou orgânicos. Desses, 16 receberam diagnóstico de TEPT e quatro, apesar de terem experimentado a violência, não desenvolveram o problema.

Para codificar as narrativas foi utilizado a metodologia qualitativa Grounded Theory, em virtude da sua afinidade teórica com a semiótica. Três sentimentos mais citados pelos pacientes emergiram das análises finais das entrevistas: o ódio, o medo e o trauma. 

Fiks explica que o medo e o trauma podem ser parte do espectro de psicopatologia, isto é, do quadro clínico típico do TEPT. Porém, o ódio, que não costuma aparecer em casos traumáticos, nessa pesquisa se tornou o principal conceito do paciente na compreensão do ato violento que leva ao trauma. 

“O ódio realmente não surge nas diretrizes para o diagnóstico, mas em alguns casos – e depende muito também da comunidade afetada – ele aparece como aliado a um desejo de vingança e ao mesmo tempo a um estado de covardia”, afirma o especialista. “É como se o traumatizado estivesse preso no binômio vítima-reparação e muitos fazem suas vidas em torno de processos judiciais, aposentadorias precoces ou até mesmo apelam para a vingança interpessoal. É algo bastante complexo que geralmente aparece no decorrer do tratamento e não na abordagem inicial, quando o paciente ainda está em trauma agudo”.

Para o psiquiatra, esse achado pode auxiliar imensamente na diretriz do tratamento psicoterápico. “Em uma abordagem cognitivo-comportamental, o lugar de vítima-vingador pode ser trabalhado para que o indivíduo deixe de pautar sua vida sobre esse pensamento”, diz. ”No campo da terapia de exposição, cada vez mais indicada no TEPT, os afetos decorrentes dessa posição são manejados. Nas terapias psicodinâmicas, as memórias traumáticas, a desintegração do indivíduo – o que eu era e o que passei a ser –, são examinados para que o traumatizado deixe de viver das memórias traumáticas e se recrie livre dessa posição”.

Sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT)

Os sintomas podem manifestar-se em qualquer idade e levar meses ou anos para aparecer. Para o diagnóstico, é necessário que o indivíduo tenha passado ou testemunhado uma situação com perigo de morte. Como sintomas acessórios, é preciso apresentar: 

• Evitação - afastamento do local ou de situações que lembrem o evento, chegando ao isolamento total.

• Revivescência - lembranças intrusivas do evento, seja na vida de vigília seja por pesadelos. 

• Hiperexcitação - os sustos paradoxais, uma hipervigilância constante (estado de alerta), medo. 

• Apatia - Nesse, cabem todas as variantes do espectro da depressão, como anedonia (é a dificuldade ou incapacidade de uma pessoa em sentir prazer ou se motivar a realizar atividades que antes eram prazerosas), culpa, lentidão, restrição do campo de vida.

Artigo relacionado:

FIKS, José Paulo; MELLO, Marcelo Feijó. The live memory of annihilation as a hindrance to existence: a proposal for the “A” criterion in PTSD psychosocial Interventions. Scientific Reports, v. 2, n. 6, ago. 2013. Open access. Acesso em: 30 set. 2016.

Publicado em Edição 07

Saraus literários, hip-hop e outras formas de expressão cultural refletem um movimento de resistência da juventude

Lu Sudré

A expressão “genocídio negro” entrou definitivamente na agenda da periferia das grandes metrópoles brasileiras, afirma José Carlos Gomes da Silva, negro, professor do Departamento de Ciências Sociais da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH/ Unifesp) – Campus Guarulhos. Ele ressalta que, entre as 56 mil pessoas assassinadas em 2012 no Brasil, 30 mil eram jovens e, desse número, 77% eram negros. Em junho de 2016, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada pelo Senado Federal para investigar o assassinato de jovens divulgou um relatório afirmando que, anualmente, 23.100 jovens negros, com idade entre 15 e 29 anos, são assassinados. Isso equivale a 63 homicídios por dia. Um negro morto a cada 23 minutos.

As chances de um jovem negro morrer assassinado são 147% maiores do que as de um jovem não negro, segundo o Atlas da Violência de 2016, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em março deste ano. O documento aponta que, de 2004 a 2014, a taxa de homicídios relativa à população negra aumentou 18,2%, ao mesmo tempo em que houve uma diminuição de 14,6% na vitimização de indivíduos não negros.

Por sua vez, a atuação das forças policiais evidencia o que é o racismo institucional presente nos órgãos públicos. Um estudo feito pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), coordenado pela socióloga Jacqueline Sinhoretto, mostra que 61% das vítimas de ações letais cometidas por policiais, entre 2010 e 2011, eram negras. Desse total, 97% eram homens e 77% tinham idade entre 15 e 29 anos. Os policiais envolvidos eram, em sua maioria, brancos (79%) e 96% deles pertenciam à Polícia Militar.

Enterro de jovens, uma mulher desesperada segura uma bandeira do Brasil cheia de furos

Sob protestos, parentes e amigos enterram no Cemitério de Irajá (RJ) os cinco jovens mortos por disparos de policiais militares

A prática da violência sistemática contra a população negra, afirma Gomes da Silva, foi denunciada primeiramente por meio das falas e músicas de jovens negros ligados ao hip-hop, que se constituiu como resistência ao racismo e à violência por meio da cultura. Para ele, ser negro na periferia implica o enfrentamento do racismo em diversos contextos, simbolicamente ou diretamente: “A violência simbólica não difere, as consequências são as mesmas. Os postos de prestígio e poder continuam sendo ocupados pelos segmentos brancos. Na periferia as abordagens policiais são muito frequentes, e os jovens negros são o principal alvo.”

A violência, entretanto, não se resume ao ato extremo do homicídio. “Já perdi a conta sobre as inúmeras vezes em que fui abordado pela PM. Apesar disso, Agnaldo, um jovem negro que atua na Comunidade Santos Mártires, segue contando. Ele tem 29 anos e já foi revistado 35 vezes pela polícia.”

Gomes da Silva coordena um estudo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com duração de dois anos (2016-2018), cujo objetivo é compreender os novos processos de construção da identidade negra na periferia. Intitulado Negros na Cidade: Identidade, Lazer e Cultura no Contexto da Periferia, o estudo parte da hipótese de que a construção dessa identidade é um fenômeno novo, pois os migrantes que se fixaram na grande periferia da cidade de São Paulo nos anos 1970 não pautaram o racismo como um problema a ser enfrentado no cotidiano nem elaboraram formas coletivas de questionamento nos bairros periféricos.

“As denúncias, agora, ecoam em outras vozes. Na poesia negra veiculada nos saraus literários, nas atividades dos coletivos culturais como Samba Dá Cultura, Panelafro, É de Santo e Espírito de Zumbi. Esses grupos, que atuam na Casa de Cultura de M’Boi Mirim, no bairro de Piraporinha, em São Paulo, estão promovendo a reversão simbólica, negativamente construída sobre o negro, e positivando-a no campo da cultura. Esse é, sem dúvida, um ato político”, argumenta.

José Carlos Gomes da Silva, ele está de gorro e jaqueta preta, em um bairro de periferia

Pesquisador José Carlos Gomes da Silva, docente do Departamento de Ciências Sociais da EFLCH/Unifesp - Campus Guarulhos

Além da atuação da Polícia Militar, o pesquisador ressalta que o racismo institucional existe até mesmo na universidade, onde se observa, por exemplo, a ausência de disciplinas sobre relações étnico-raciais. De acordo com ele, no ensino médio a taxa de matrículas da população branca é de aproximadamente 58%, e a da população negra é de 39%. Na graduação e pós-graduação a população branca está representada, respectivamente, em 78% e 84% do alunado, atribuindo-se à população negra percentuais de 19% e 13%. Gomes da Silva acredita que o racismo constitui um fenômeno estrutural da sociedade brasileira e que as instituições praticam atos racistas de maneira sutil, inconsciente ou explícita.

Na opinião do docente, o silêncio sobre o tema contribui para que o racismo se reproduza, impedindo a reflexão. “A sociedade que silencia, que a priori aceita como natural o embranquecimento dos espaços de prestígio, de cultura, de poder político e econômico, que prefere se refugiar entre os iguais nos condomínios fechados e que investe na construção de presídios e no fechamento de escolas públicas, aceita passivamente a reprodução do racismo”, finaliza.

Publicado em Edição 07
Fotografia mostra policiais, eles portam escudos e capacetes

Por ter sido criada à imagem e semelhança do exército, policiais militares não enxergam pessoas em manifestações de rua, mas sim alvos, o inimigo a ser derrotado

Lu Sudré

Denunciada junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e à Organização das Nações Unidas (ONU), a Polícia Militar brasileira tem sido cada vez mais criticada por sua atuação. Balas de borracha, cassetetes, bombas de gás lacrimogênio e prisões arbitrárias. Essa tem sido a resposta da PM às manifestações populares que acontecem nas grandes cidades. 

A violência policial em protestos voltou a ser discutida principalmente após as Jornadas de Junho de 2013, como ficaram conhecidos os atos organizados pelo Movimento Passe Livre (MPL) contra o aumento das tarifas no transporte público. E também com a resposta da tropa à mobilização do movimento secundarista contra a reforma educacional do governo Geraldo Alckmin, em São Paulo, mais recentemente.

Bruno Konder Comparato, cientista político e professor de Ciências Sociais da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos, realizou uma pesquisa na área de Segurança Pública intitulada O Policiamento de Manifestações e a Qualidade da Democracia, que foi apresentada no 10º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP). O estudo buscou analisar a atuação da polícia em manifestações e seus reflexos nas garantias constitucionais dos indivíduos. “O modo como é feito o policiamento de manifestações é um indício de como o Estado respeita os direitos dos cidadãos, de como os trata. Se a polícia não tolera o dissenso, joga bomba nas pessoas, atira. Como tratará essas mesmas pessoas no posto de saúde, nos hospitais e nas escolas?”, questiona.

Fotografia de Bruno Konder

Bruno Konder Comparato é professor no curso de Ciências Sociais na EFLCH/Unifesp e pesquisa temas como cidadania, direitos humanos e segurança pública

Segundo o professor, a polícia foi criada no século XIX na Europa, para controlar manifestações nos centros das cidades, com atuação e objetivos bem diferentes do exército. No Brasil, a PM foi criada durante a ditadura civil-militar (1964-1985), o que resultou em uma proximidade de atuação e lógica entre as duas forças.  “O policiamento não pode ser feito pelo Exército, porque ele é criado para destruir o que considera como inimigo. O problema da polícia quando se aproxima do Exército é exatamente esse. Ela não enxerga pessoas em manifestações, mas sim inimigos. Os manifestantes não são considerados cidadãos e sim criminosos”, critica o cientista político.

A pesquisa parte da premissa de que o direito de discordar é central para a democracia, um modo de governo que deveria resolver as diferenças por meio do diálogo e não da força. O professor explica que o policiamento precisa da confiança da população para ser eficiente, mas que, quando o policial se apresenta mascarado e fardado, muitas vezes sem identificação, passa a representar uma imagem sombria do Estado. O próprio comportamento das autoridades em relação às manifestações é um termômetro da violência. “É muito importante ver a sinalização das autoridades. Quando o governador [Geraldo Alckmin] liberou as catracas do metrô, fechou a avenida para os manifestantes, e enquanto isso, a televisão chamava para atos contra a presidenta, era garantindo que não haveria violência naquele ato. Isso, para o policial, é um sinal. Agora, quando o governo proíbe um protesto e a contragosto o autoriza, é um sinal para o policial que aqueles manifestantes ‘poderiam ou deveriam’ ser agredidos”.

Onde as balas não são de borracha

Os movimentos sociais erguem bandeiras pela desmilitarização da polícia, principalmente em resposta à atuação mais truculenta da PM na periferia, longe das principais ruas e avenidas do centro da cidade. Ali, o inimigo é, majoritariamente, a população pobre e negra. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2014 apresentou um total de 3.009 mortes decorrentes de intervenção policial, das quais 2.669 causadas por policiais durante o serviço. O restante ocorreu fora da jornada de trabalho. 

Estatísticas da Anistia Internacional, publicadas em 2015, confirmam essa realidade: 15,6% dos homicídios foram cometidos por policiais em 2014. De acordo com os dados, o Brasil é o país que tem o maior número geral de homicídios no mundo. O documento também aponta que policiais atiram em pessoas que já se renderam ou estão feridas, sem uma advertência que permitisse que o suspeito se entregasse. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), apenas no primeiro semestre de 2016, policiais de folga, ou seja, sem farda, mataram 115 pessoas, o maior número dos últimos 11 anos. “A polícia entra de maneira muito mais truculenta na periferia”, complementa Comparato. A pesquisa reforça a necessidade de uma formação específica de grupos policiais destacados para acompanhar as manifestações urbanas. O pesquisador contempla a possibilidade de uma refundação das instituições policiais, como resultado de uma reflexão ampla, em conjunto com a sociedade.

Artigos relacionados:

COMPARATO, B. K. Os obstáculos institucionais à realização dos direitos humanos no Brasil: o exemplo das ouvidorias de polícia. In: FAR, Alessandra El; BARBOSA, Andréa; AMADEO, Javier. (Org.). Ciências sociais em diálogo - pensamento político e social, estado e ação coletiva. 1.ed. São Paulo: Fap Unifesp, 2014, v. 3, p. 309-336.

COMPARATO, B. K. Ouvidorias públicas como instrumentos para o fortalecimento da democracia participativa e para a valorização da cidadania. In: MENEZES, Ronald do Amaral; CARDOSO, Antonio Semeraro Rito. (Org.). Ouvidoria pública brasileira: reflexões, avanços e desafios. 1.ed. Brasília: Ipea, 2016, v.1, p. 43-53.

Publicado em Edição 07
Fotografia de uma mulher de costas, ela está usando uma bandeira do Brasil como capa, e está a frente de um inflável vermelho

Discurso de ódio e polarização resultam em empobrecimento da discussão política e autoritarismo

Lu Sudré

O ano de 2016 ficará marcado na história do Brasil: suas principais ruas e avenidas se tornaram palco de manifestações políticas constantes. O impeachment da presidenta Dilma Rousseff, aprovado pelo Senado no final de agosto, causou reverberações profundas na conjuntura política. A polarização entre os favoráveis e contrários ao impedimento trouxe à tona episódios de intolerância que colocam em xeque a democracia e o respeito à pluralidade.

Ao questionar se os indivíduos saíram às ruas apenas por questões políticas, Esther Solano, cientista social e docente no curso de Relações Internacionais da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (EPPEN/Unifesp) – Campus Osasco, coordenou uma pesquisa em conjunto com Pablo Ortellado, docente na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP), que identificou os aspectos sociais, valores morais e políticos da população que foi aos protestos pró e anti-impeachment.

Em São Paulo, no ato pró-impeachment de 12 de abril, um grupo de 30 alunos, coordenados pelos professores, realizou 571 entrevistas com os manifestantes. “Infelizmente, as pessoas não vão para rua só por questões políticas. Há um ódio e preconceito de classe muito forte. O repertório e a narrativa das pessoas é conservador. Existe uma frustração com o sistema em geral, que leva muitos desses sujeitos à buscarem soluções antidemocráticas e autoritárias”, comenta Esther Solano.

Entre os entrevistados, 68,5% declararam ter ensino superior completo, 77,4% são brancos, 24,3% têm renda de até R$ 7.880, 29,6% de até R$ 15.760 e 20% ganham até R$ 20.000 ao mês.

Na avaliação da cientista social, o país sempre teve uma dinâmica de classe muito perversa, com elites econômicas e políticas ao lado de uma massa social empobrecida. Esta estrutura de classes é responsável pelo discurso de ódio eminente contra os partidos de esquerda e contra os movimentos sociais.

“Existe um sentimento de raiva contra a política lulista, que promoveu um ascenso da classe C por meio do consumo e políticas de inclusão social. A maioria dos entrevistados pró-impeachment tem um discurso de classe e xenófobo muito forte, conservador, meritocrático e punitivo. São contra o Bolsa Família, contra cotas universitárias e contra o programa Mais Médicos, por exemplo”, explica Esther.

A pesquisadora aponta paradoxos no discurso dos entrevistados que, ao responder questões como descriminalização do aborto e da maconha, são liberais, mas só ao que concerne ao seu grupo social. “O discurso de classe e preconceituoso é acompanhado de uma liberdade no que se refere a eles, apenas à sua classe. ‘Eu posso fumar maconha, mas o pobre que trafica tem que ser preso e até mesmo morto pela polícia’. Na opinião deles, para resolver problemas de violência, a única solução é mais policiamento”, afirma.

Intolerância: coxinhas x mortadelas

Xingamentos, agressões, bandeiras pela volta da ditadura, apologia à tortura e faixas em defesa da democracia compuseram os cenários das milhares de pessoas que foram às ruas. Criou-se uma polarização intensa entre os “coxinhas” (pró-impeachment) e “mortadelas” (contra). Para Esther Solano, essa polarização vai na contramão de um governo democrático. “Isso gera um empobrecimento de informação. Formam-se dois grupos que não conseguem debater, escutam o que querem escutar e não têm espaço para o outro. As pessoas só escutam o que convêm. São dois bandos que se enfrentam; é a ausência total de diálogo”.

A internet e as redes sociais se concretizaram como um palco da intolerância. Segundo a professora, o Facebook, por exemplo, cria guetos ideológicos. “A internet pode ser uma plataforma democrática muito poderosa. Mas tem um outro lado. Criam-se bolhas de informação e uma espiral de afirmação da posição ideológica de um mesmo grupo, não um debate com aquele que tem outra informação ou opinião contrária. É uma incapacidade enorme de diálogo”, reforça a pesquisadora.

Para ela, as redes sociais dão um espaço ainda maior para intolerância a partir do momento em que permitem a “liberdade do anonimato”, que fomenta a transformação de confronto de ideias para conflitos pessoais e estabelece o que a cientista social chama de dialética do inimigo. “Aquele que tem uma opinião política diferente não é um adversário político, é um inimigo. É a política do ódio. Com o adversário político há uma troca de ideias, com inimigo não. O objetivo é aniquilá-lo. Aniquilar o pensamento, a voz. É uma dinâmica de guerra”, analisa. 

Foto de um protesto, as pessoas seguram cartazes com os dizeres Fora Golpistas

Populares ocupam as ruas e se posicionam contra o impedimento de Dilma Rousseff

Foto de um protesto, algumas pessoas seguram uma faixa Fora Dilma Intervenção Militar

As grandes capitais também foram palco de atos a favor do impeachment, convocados pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua

Reforma política

A pesquisa também abordou a confiança nas instituições políticas, entre elas partidos, políticos, ONGs, movimentos sociais e imprensa. Nos atos pró-impeachment, 69,9% das pessoas não confiavam em políticos e 73,2% não confiavam em partidos. De acordo com Esther, a democracia representativa está em crise e a figura inflexível da estrutura partidária não acompanha as mudanças dinâmicas da população. "É muito preocupante quando se tem uma democracia desgastada e atitudes antidemocráticas e autoritárias vêm à tona. É uma crise representativa e dentro dessa crise, personagens como Donald Trump, candidato à presidência dos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro se aproveitam desse vazio representativo".

Outra pesquisa foi realizada no dia 31 de março de 2016, em um ato na praça da Sé, mas com aqueles que se posicionavam contra o impeachment. Embora a confiança dos manifestantes nos partidos em geral seja razoavelmente baixa (37% não confiam).

Em relação à renda, o padrão desta manifestação foi um pouco inferior ao das manifestações anti-Dilma, com 54,5% dos participantes com renda familiar entre 3 e 10 salários mínimos. No tocante à escolaridade, 77% dos manifestantes tinham formação no ensino superior e 34,9% se declararam negros ou pardos. "Seja de esquerda ou direita, a única coisa que coincide nessa polarização é a necessidade da reforma política. O país está em uma situação de muito desequilíbrio, até mesmo histérico. Mas essa reforma tem que ocorrer em um momento mais calmo. Como fazer uma reforma com o Congresso mais conservador da história?", indaga.

Fotografia de Esther Solano

Esther Solano, pesquisadora e docente na EPPEN/Unifesp – Campus Osasco

Para ela, há projetos de lei no campo da segurança pública, gênero, sexualidade e liberdade de expressão que fomentam a intolerância. A redução da maioridade penal, Estatuto do Desarmamento, Lei Antiterrorismo, Estatuto da Família, Escola Sem Partido, Dia do Orgulho Hetero e projetos contra a legalização do aborto são alguns deles. 

"O discurso de ódio não se baseia em pesquisas científicas, dados, ele é muito emocional. Ninguém apresentou estudos, por exemplo, para defender a redução da maioridade penal. É um discurso emotivo, que tem como objetivo aumentar a punição e a intolerância", destaca.

Publicado em Edição 07

Referência nacional na defesa dos direitos humanos, padre Júlio Lancellotti dedica-se, há mais de 30 anos, à assistência à população marginalizada. Polêmico para uns, mártir para outros, sempre denuncia abusos e omissões do poder público, preenchendo manchetes de jornais

Ana Cristina Cocolo

Imagem do rosto de Julio Lancellotti - ele tem cabelos brancos, é idoso, usa óculos, camisa e um colete bege

Todos os dias, bem cedo, uma mesa de café da manhã é posta no pátio da pequena Igreja São Miguel Arcanjo, na Mooca, zona leste de São Paulo. À frente dela, padre Júlio Lancellotti, 67 anos, recepciona quem tem fome, com a ajuda de voluntárias que trabalham na secretaria da paróquia. Com a fala mansa, pergunta a cada um dos moradores de rua que lá adentram se precisam de alguma coisa a mais naquele dia: um sapato, uma blusa, um remédio ou até mesmo apenas uma bênção que, após dada, é complementada com um abraço sincero e um “Vá com Deus, meu filho!”

Quem conversa com ele, nem imagina as raízes que o levaram a ser considerado autor de uma obra humanística incalculável para a maioria e um perfeito anarquista para outros. Lancellotti sempre está brigando, ao lado da população carente, resistindo a processos de reintegração de posse e em manifestações de rua contra injustiças sociais. “Meu lema de ordenação de padre é o que está escrito na Bíblia Sagrada, no primeiro livro de Coríntios, capítulo um, versículo 27: ‘Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir os fortes’”.

Duas fotos - Julio com dois anos de idade, e com sua mãe

Padre Júlio Lancellotti com dois anos de idade e ao lado da mãe, Vilma, falecida em 2010

Natural do bairro Belém, centro-leste de São Paulo, a religião entrou em sua vida não porque seus pais tinham uma rotina dentro da igreja – apesar de católicos –, mas porque ingressar em colégio particular era mais fácil do que em escola pública.

Filho de um comerciante e uma dona de casa, sua infância foi marcada pelas brincadeiras nas ruas do Tatuapé, mais precisamente na praça Pádua Dias, junto com os irmãos, Milton, mais velho, e o caçula, José Luiz, ambos já falecidos. “O Milton era, depois da minha mãe, minha referência. Era aventureiro e corajoso”, conta. “Foi ele quem me ensinou a andar de bicicleta, jogar futebol, andar com carrinho de rolimã. Por tirar as melhores notas, era ele quem me ajudava na escola”.

Mas a vida não era só feita de brincadeiras. Os três também ajudavam a limpar a mercearia do pai e, ao final do trabalho executado, ganhavam como prêmio um copo de leite com groselha. “Era uma felicidade só”, sorri ao lembrar.

Padre Júlio teve a infância muito marcada pela presença da mãe que, antes de ser dona de casa por exigência do marido e do costume da época, falava espanhol e chegou a trabalhar como secretária de grandes advogados, além de passar pela empresa Hamilton Hunter e pela Câmara Argentina. “De excelente datilógrafa, estenógrafa e taquígrafa foi ser cozinheira para ajudar no sustento da família, dando pensão diariamente, em casa, para mais de 40 pessoas”, lembra o religioso. “Na imagem mais antiga que guardo estou dentro de um cesto, na cozinha, vendo minha mãe trabalhar”.

Alguns anos depois, conta ele, a mãe adoeceu do sistema nervoso e a formação rígida e machista do pai contribuiu para isso, apesar de classifica-lo como um homem sensível. Falecida em 2010, aos 88 anos, foi ela – uma leitora compulsiva de obras literárias nacionais, principalmente de Érico Veríssimo, e internacionais – quem o ensinou as primeiras letras do alfabeto.

Travesso e com um ‘quê’ de rebeldia, confessa que deixava as freiras de cabelos em pé. No Educandário Espírito Santo, ele e o amigo Augusto eram acompanhados por uma irmã chamada Inezita, que quase não enxergava. Em uma tarde, em que foram escalados para ajudar em uma missa, foi desafiado pelo amigo a colocar um morteiro na caixa de correio de uma vizinha da igreja. Não teve dúvidas e concluiu a molecagem. Explodiu o objeto, sem deixar uma parte sequer inteira. “Quando voltei, minha mãe me questionou sobre o ocorrido, já que ela justificou para a mulher que eu estava na missa e que era coroinha”, ri alto. “A mulher falou para ela que eu não era coroinha, mas sim um demônio”.

Lancellotti conheceu as amarguras de um sistema educativo autoritário ainda muito menino, aos 12 anos, quando ingressou dentro de um seminário, em Araraquara, distante seis horas de trem de São Paulo e da família. Lá, foi coroinha de um padre alemão muito bravo, que sofria com traumas de guerra. “Apanhávamos com vara de bambu e éramos humilhados na frente de todo mundo”, conta. A saudade de casa e o método rigoroso imposto à época fizeram com que ele abandonasse o seminário pela primeira vez.

De volta à cidade natal, terminou o ginásio em uma escola de padres agostinianos, teve várias namoradinhas e entrou, novamente, para o seminário, quando chegou a ser frade e concluiu um curso de auxiliar de enfermagem na Santa Casa de Misericórdia de Bragança Paulista, também interior de São Paulo. Aos 19 anos, não aceitou mais o autoritarismo, rebelou-se e, pela segunda vez, largou a batina. O religioso lembra que os seminaristas não tinham acesso aos noticiários e às visitas familiares. “Não ficamos sabendo nem mesmo da morte de John Kennedy”, diz. “Fui convidado a sair. Esse tipo de atitude nada tinha a ver com religião”.

Julio Lancellotti mostrando um álbum de fotografias

Junto à sua caixa de fotografias e ao porta-retrato da menina Milene, para quem ele ajudou a achar um lar. Falecida após uma doença, Lancellotti a considera sua redenção

Momentaneamente longe da batina, mas nunca do social

Com o diploma de auxiliar de enfermagem e longe do sacerdócio, trabalhou nos hospitais São José do Brás, em São Paulo, e na Santa Casa de Misericórdia de Bragança Paulista. Ingressou nas Faculdades Oswaldo Cruz e concluiu o curso de Pedagogia. Em seguida, fez especialização em Orientação Educacional na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), onde atuou como professor-assistente do professor Carlos Alberto Andreucci, além de ministrar aulas nas faculdades Oswaldo Cruz, Castro Alves, Piratininga e no Instituto Nossa Senhora Auxiliadora. Neste, focado na formação para magistério. 

Lancellotti também trabalhou no Serviço Social de Menores, que, mais tarde, se transformou na Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, e no Centro de Apoio ao Imigrante, no Brás, dando aulas para crianças com dificuldade de aprendizado. 

Em 1980, conheceu Dom Luciano Mendes de Almeida e ficaram muito próximos. Juntos, fizeram toda a fundamentação da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo. No mesmo ano, durante a visita do Papa João Paulo II, Dom Luciano perguntou quando iria ordená-lo padre. “À época, ele nem sabia que eu estava namorando uma garota chamada Cecília, com quem fiquei por três anos”, conta. 

Um ano depois, começou a estudar Teologia e, em 1985, foi finalmente ordenado padre por Dom Luciano. “No dia da minha ordenação, ela compareceu e, furiosa, vomitou um monte de desaforos em mim”, lembra, sorrindo. “Hoje somos amigos e cheguei a celebrar seu casamento”. Com bom humor, ele observa que no dia da cerimônia de bodas de sua antiga namorada, metade dos presentes na igreja estavam lá para vê-la e a outra para observar como ele reagiria a tal situação, um tanto quanto inusitada para muitos. 

Prêmios e honrarias

Prêmio Franz de Castro Holzwarth, em 2000, concedido pela Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil por seu trabalho contra a violação sistemática dos direitos das crianças e dos adolescentes.

Prêmio Opas, em 2003, da Organização Panamericana de Saúde, dado à Casa Vida.

Prêmio Nacional de Direitos Humanos, em 2004, concedido pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos.

Prêmio Nacional de Direitos Humanos, categoria livre, em 2004, pela Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo.

Menção honrosa do Prêmio Alceu Amoroso Lima - Direitos Humanos, em 2005

Prêmio Direitos Humanos, em 2007, promovido pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República na categoria Enfrentamento da Pobreza.

Título de Doutor Honoris Causa, 2004, pelas universidades São Judas Tadeu e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Escudo dos fracos e oprimidos

Júlio Lancellotti participou da fundação da Pastoral da Criança e na formulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e tem atuado fortemente junto a menores infratores, detentos em liberdade assistida, pessoas carentes e em situação de rua, imigrantes sem teto e refugiados, além de crianças e adultos com o vírus da imunodeficiência humana (HIV) ou com a síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids). Em 1991, fundou a Casa Vida I e, em seguida, uma segunda unidade (Casa Vida II), que acolhem essa população.

Há mais de 25 anos, é vigário episcopal da Pastoral do Povo da Rua e lidera vários projetos municipais, como A Gente na Rua, composto por agentes comunitários de saúde e ex-moradores de rua e, mensalmente, realiza missas junto aos indivíduos que habitam a Cracolândia. 

Defensor ferrenho dos travestis em situação de rua, em 2015 protagonizou uma cena que foi condenada por muitos, inclusive vista como exagerada por alguns membros da Igreja Católica. Em um ato de desagravo, junto com pastor José Barbosa Júnior, líder do movimento Jesus Cura a Homofobia, lavou os pés da atriz transexual Viviany Beleboni, após ela ter se crucificado durante a 19º Parada Gay, em São Paulo. O ato, segundo ele, foi um pedido de perdão pelas críticas vorazes dirigidas a ela e à população LGBT. 

Não é a primeira vez, no entanto, que Lancellotti é visto lavando os pés de travestis. “Esse ato é muito marcante para mim, mais ainda para essa população em específico, pois já presenciei algumas dessas ‘meninas’ com os pés deformados pelo silicone, aplicado clandestinamente, que acaba descendo para o membro inferior”, explica. “Elas são sofridas no corpo e na alma; são incompreendidas, violadas, execradas. Se Deus está junto dos sofridos, não tenho dúvida que está ao lado delas incondicionalmente e as aceita como são”. 

Julio Lancellotti abaixado, lavando os pés de Viviany
Julio Lancellotti com moradores de rua - um deles segura a imagem de São Francisco
Julio Lancellotti missa na cracolandia

Lancellotti lavando os pés da atriz transexual, Viviany Beleboni; com moradores de rua que buscam ajuda na Igreja São Miguel Arcanjo, onde é pároco; na Cracolância, onde reza missas periodicamente

Outro episódio que o marcou foi a prisão de Fábio Hideki Harano, acusado de ser líder dos Black Blocs, durante protesto contra os gastos da Copa do Mundo, em junho de 2014. Participante de todas as manifestações do tema, o padre explica que estava com ele no momento da abordagem. “Foi uma atitude descabida, exagerada”, diz. “Na mochila dele não havia explosivos, mas salgadinhos e objetos pessoais”. 

De acordo com ele, os Black Blocs não têm nada de agressivos, conforme passado pela mídia. Ele os descreve como jovens idealistas, possuidores de muita força e coragem para cobrar seus direitos. “Só quem estava presente no dia pode explicar quem foi realmente que iniciou e incitou a violência. E não foram eles”.

Júlio conta que não permitia que os policiais batessem nos jovens apreendidos. “Eu colocava o dedo em riste e falava bravo: 'Você tem coragem de bater em um irmão? Porque ele é seu irmão, assim como eu também sou, e você de nós'”, conta ele, sorrindo. “São tantas memórias que gostaria de escrever sobre elas, as quais intitularia Antes que eu me Esqueça, mas não tenho paciência para isso”.

Julio Lancellotti está com um grupo de transexuais

Acima, o padre com transexuais, contra a transfobia

Julio Lancellotti em uma manifestação, ele está de braços dados com vários jovens

Na manifestação dos Black Blocs contra o aumento da tarifa de ônibus, em 2015

Julio Lancellotti está falando para um grupo de pessoas na Alesp, ao fundo uma faixa com os texto CPI da merenda

Com estudantes que ocuparam a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) para forçar a abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Merenda, em maio de 2016

Vítima de extorsão por um ex-detento da antiga Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (Febem), em 2007, que o ameaçava de denunciá-lo de pedofilia, Lancellotti “comeu o pão que o diabo amassou”, até o rapaz e uma ex-funcionária da Casa Vida, também envolvida, serem presos, em 2011, por extorsão, já que não conseguiram provar nada contra ele. Até isso acontecer, no entanto, o sacerdote teve a vida vasculhada pela polícia, pelo Ministério Público e pela igreja. Foi perseguido impiedosamente pela imprensa, por igrejas de outras religiões, por colegas de batina, por políticos e até por aqueles que desconheciam o trabalho desenvolvido por ele. 

Teve que pedir até mesmo proteção policial ao governador Geraldo Alckmin. No sentido oposto, muitas foram as moções de apoio por parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB-I), pelo Partido dos Trabalhadores (PT), movimentos de sem teto e pela própria sociedade. “Hoje vejo esse episódio como uma articulação política muito forte, devido a minha ligação ao PT”, diz. 

Segundo ele, o que mais o marcou, na época, foi o sofrimento da mãe e a perseguição a quem ousava defendê-lo, como foi o caso de uma jornalista do Diário de S.Paulo, que o procurou e confessou que foi demitida porque se recusou a escrever uma matéria em tom acusatório. “Ela chegou na paróquia chorando muito, com uma medalhinha do beato neerlandês Titus Brandsma, padroeiro dos jornalistas católicos, com a qual eu a havia presenteado muito antes de sofrer a denúncia”.

Padre Júlio conta que já sofreu ameaças de vários políticos e já foi processado. “A pressão é grande. Enfrento isso com fé e coragem, pois sei que estou do lado certo. Do lado de quem vai apanhar e de quem vai perder”, afirma. 

“Sou um fracassado, pois essa é a lógica do sistema injusto e de exclusão ao qual pertencemos. Fazer sucesso é ser conivente com ele e isso eu não sou”.

De personalidade marcante, mas andar suave, o sacerdote termina a entrevista mostrando com orgulho a paróquia e a sala que transformou em um pequeno santuário com imagens de santos do mundo inteiro – todos eles com histórias de perseguição e sofrimento, as quais conhece com profundidade, por escolherem estar ao lado dos oprimidos. “Você reparou que meus santos são todos ferrados? ”, pontua.

Questionado se sentia-se realizado, responde: “Sinto-me humanizado. Eu sinto que estou do lado que Jesus gostaria que eu estivesse”.

Julio Lancellotti está em seu escritório, com muitos retratos e santos, ele mostra uma das santas à repórter

Em seu cantinho favorito, o padre conta à repórter a história de seus santos preferidos. Em suas mãos, segura Santa Marina, a Monja, considerada, por ele, padroeira da identidade de gênero

Publicado em Edição 07
Quarta, 07 Dezembro 2016 14:05

A base, as versões e a história

Arte com a Base Nacional Comum

Arte elaborada a partir de sobreposição de páginas do arquivo digital da 2ª edição do BNCC, disponível em <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/documentos/bncc-2versao.revista.pdf >

Fotografia de Elaine Lourenço

Elaine Lourenço
Docente e coordenadora do curso de licenciatura em História do Departamento de História da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos

O mundo moderno tem na escola uma instituição de aceitação unânime. A consagração da “forma escolar” como meio de socialização preferencial segue até hoje, e isso pode ser visto a cada eleição, quando os candidatos sempre recolocam a educação como prioridade. O mesmo não se pode dizer, entretanto, dos currículos. O que, quando, para quem ensinar é objeto de acirradas disputas, uma vez que ao currículo prescrito caberia a função de “moldar” os futuros cidadãos. Qualquer estudioso das teorias e práticas curriculares sabe que isso não é verdade: entre o previsto e o realizado há uma grande distância, em cujo percurso, inclusive, outras finalidades são atingidas. Ainda assim, considerando que as prescrições sinalizam o que se torna hegemônico em dado momento, tais documentos ganham relevância pelos caminhos que indicam e pelos que ocultam, ou buscam ocultar.

O debate sobre a Base Nacional Curricular Comum (BNCC) precisa ser interpretado sob essa chave: certamente não é o primeiro momento em que ele sai do campo dos legisladores educacionais e alcança a sociedade, bem como não é algo que possa ser simplificado na questão sobre “o que” ensinar. Em torno dele se revelam tanto posições quanto projetos sociais e, portanto, políticos, os quais importa conhecer antes que se transformem em “letra da lei”.

Significativo em relação ao tema é que a busca pela expressão “base nacional comum” no Google resulte, em primeiro lugar, no “anúncio” do Movimento pela Base Nacional Curricular Comum, patrocinado pela Fundação Lemann, que promete: “A Base Nacional Comum – Pense na educação que você quer. Agora vem com a gente realizar.” O que parece ser a concretização de um sonho é uma promessa inalcançável, que busca esconder que só é possível criar uma educação única sob regimes ditatoriais, ainda que a contestação sempre se faça presente.

O surgimento da primeira versão da BNCC para debate, em fins de 2015, já se fez em meio a críticas. É possível identificar duas modalidades nesse debate, ambas complementares: uma questiona sua necessidade, outra questiona os conteúdos apresentados e sugere modificações. Sob este último aspecto, a própria “consulta pública” aberta no site do MEC apresenta números impressionantes: foram 12.226.510 de contribuições feitas à primeira versão do documento.

Uma das principais vozes que articulam o movimento de resistência à base curricular é a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), a qual contesta sua pertinência e a forma apressada como foi apresentada ao debate. Uma das professoras envolvidas na discussão, Inês Barbosa de Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Currículo, participou de uma mesa sobre o tema na Unifesp em 18 de novembro de 2015, ocasião em que apresentou alguns dos argumentos do grupo, como a crítica à elaboração de uma base nacional, quando estão em vigor as Diretrizes Curriculares Nacionais; o problema da unificação nacional do currículo justamente no momento em que se ressalta a importância da diversidade; e a forma como a criação do documento favorece avaliações padronizadas, que controlam e dirigem o sistema de ensino a partir dos órgãos centrais.

Tal como em outras oportunidades em que o currículo ocupou o centro do debate educacional, as bases propostas para a disciplina de História foram as que ganharam mais visibilidade. Em torno dos conteúdos mobilizaram-se a imprensa, os profissionais da área, os movimentos organizados etc. Poucos se ativeram às questões pedagógicas ou de aprendizagem: a polêmica se concentrou nos temas propostos, sobretudo nas inovações. De modo geral, a primeira versão rompia com os currículos anteriores e propunha, no ensino fundamental, um eixo em torno da História do Brasil, a partir do qual outros povos e civilizações seriam introduzidos. No ensino médio, o destaque foi para o mundo africano, o ameríndio e o afro-brasileiro, nos dois primeiros anos, e para o mundo europeu e o asiático, no último.

A ausência de conteúdos explicitamente vinculados à Antiguidade greco-romana foi uma das primeiras a serem sentidas, e as respectivas associações de profissionais da área se manifestaram. O deslocamento do eixo da Europa foi outro ponto bastante questionado. O próprio ministro da Educação responsável pela primeira versão, Renato Janine Ribeiro, ao ser demitido do cargo, escreveu em sua conta pessoal no Facebook: “Não havia, na proposta, uma história do mundo. Quando muito, no ensino médio, uma visão brasilcêntrica das relações com outros continentes.” O fato é que a versão inicial, muito contestada em público, mas pouco nos números apresentados pela consulta pública (na qual as críticas à área não chegaram a 10%), foi substituída por uma nova, na qual se recolocam a Antiguidade, o mundo europeu, a descoberta da América e outros temas consagrados pela tradição, o que serviu para apaziguar parte do coro dos descontentes.

Já o que os professores e os alunos, no cotidiano das milhares de escolas do Brasil, farão com esses documentos curriculares é outra história, que certamente será um tema muito importante a ser pesquisado pelos interessados.

* O referido documento e outros sobre o tema podem ser encontrados no portal da Unifesp, entre as notícias publicadas pelo DCI.

Publicado em Edição 07

Pós-doutor pelas Universidades do Colorado e da Califórnia, ex-diretor do Laboratório Nacional de Nanotecnologia e professor titular aposentado do Instituto de Química da Unicamp, Fernando Galembeck falou em entrevista à Entreteses sobre o recém-aprovado Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação, que pretende traçar um novo caminho para o desenvolvimento da pesquisa científica no Brasil

Da Redação
Com a colaboração de Gabriela Tornich

EntreTeses7 p09 Galembeck

Galembeck posa em frente ao Instituto de Química da Unicamp

Um avanço importante e necessário no percurso evolutivo da ciência no Brasil. É o que pensa Fernando Galembeck, ganhador dos prêmios Anísio Teixeira e Almirante Álvaro Alberto, sobre o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação, consolidado pela Lei nº 13.243/2016, que foi sancionada pela presidente Dilma Rousseff em janeiro deste ano.

Segundo Galembeck, que atualmente é professor convidado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o novo marco contempla questões cruciais até então ausentes da legislação, pois permite – entre outros pontos – a dispensa de licitação na compra de produtos destinados à pesquisa e ao desenvolvimento de produtos; autoriza o uso compartilhado de instalações, laboratórios e equipamentos próprios às universidades públicas por empresas de direito privado, visando à obtenção de produtos e processos de inovação; e amplia de 120 para 416 horas anuais (8h semanais) o tempo que docentes em regime de dedicação exclusiva podem despender em atividades no setor privado.

Para Galembeck, a lei diminui os obstáculos jurídicos ao desenvolvimento da pesquisa: agora, as instituições científicas terão respaldo legal para assinar acordos com parceiros privados, podendo transferir a estes, mediante compensação – financeira ou não –, os direitos de propriedade intelectual sobre os resultados obtidos. O poder público (União, Estados e municípios), por sua vez, poderá fomentar a inovação e solucionar demandas tecnológicas específicas por meio da contratação direta (sem licitação) ou da participação minoritária no capital social de empresas que estejam capacitadas a criar e executar projetos de pesquisa.

Ao contrário do que alguns profissionais argumentam, a pesquisa – na visão do entrevistado – não ficará refém dos interesses privados, pois a lei determina contrapartidas que deverão ser assumidas pelas empresas que desenvolvam projetos em parceria com instituições públicas. Além disso, o lucro – conforme enfatiza – é fundamental à sustentação do sistema econômico vigente em nosso país.

Otimista, Galembeck pondera que o momento é de criar um modelo efetivo que alavanque o desenvolvimento tecnológico no país. Sua contribuição nessa área – ressalte-se – é notável, conforme atestam as inúmeras distinções honoríficas que recebeu ao longo de sua trajetória acadêmica e as titulações como membro da Academia Mundial de Ciências (The World Academy of Sciences – TWAS) e da Royal Society of Chemistry, sediadas respectivamente em Trieste (Itália) e em Londres. Parte de seus trabalhos mais recentes analisam as interações entre partículas coloidais e nanopartículas, as superfícies de polímeros, a formação e propriedades de nanocompósitos, as propriedades de sólidos não cristalinos, a eletrização de isolantes e a triboeletricidade. Esse pesquisador mantém vários projetos com empresas, voltados principalmente à criação e desenvolvimento de novos materiais e a processos de fabricação. Obteve o licenciamento de sete patentes, com base nas quais três produtos foram lançados no mercado.

Ocupou postos de direção na Unicamp, no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e em sociedades científicas. Participou da elaboração e implementação do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT), lançado em 1985, que modernizou a estrutura da pesquisa científica e tecnológica no Brasil e possibilitou a aproximação entre as instituições acadêmicas e o setor produtivo.

Galembeck sendo entrevistado no laboratório

Galembeck em um dos laboratórios do Instituto de Química da Unicamp

Entreteses - A criação do Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação representa um avanço para o desenvolvimento da pesquisa no Brasil?

Fernando Galembeck - Sim, um avanço importante e necessário. O problema da pesquisa no Brasil está longe de ser apenas a quantidade de recursos investida. Há outros problemas, que reputo serem mais graves, e um deles é o emaranhado legal que cria incertezas jurídicas e onera as atividades de pesquisa com burocracia e com impostos nada estratégicos. O novo marco legal trata exatamente dessas questões.

 

E. O senhor crê que o modelo atual, sem o marco legal, poderia ser melhorado caso o governo decidisse investir mais em pesquisa?

F.G. Não existe um "modelo atual". O que há é uma falta de modelos, justamente por causa da falta de bons programas e da existência de complicadores legais. O que temos é um somatório confuso de ações desconexas, que a nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia & Inovação está tentando corrigir. Mas ainda falta muito.

 

E. Muitos especialistas são contra o texto do marco legal. Eles enxergam de forma negativa o fato de as pesquisas serem direcionadas ao mercado, ao lucro. Acreditam que a pesquisa pública ficará submissa aos interesses privados. Qual a sua posição sobre isso?

F.G. Também há muitíssimos especialistas a favor. Na sociedade do conhecimento, em que almejamos viver, a principal fonte de bens materiais é o conhecimento. Para que tenhamos abundância de bens materiais que sejam suficientes, pelo menos para garantir a inclusão social, precisamos usar o conhecimento. As extintas União Soviética e Alemanha Oriental não conseguiram fazer isso e desapareceram. A China atual valoriza o lucro e o mercado e está-se tornando a principal potência econômica do mundo. Fidel Castro, em Cuba, estimulou empresários de algumas áreas, especialmente a de biotecnologia, a desenvolverem suas empresas, e uma empresa só se desenvolve se produzir lucro. Em 2016, lucro não pode ser visto apenas como a mais-valia arrancada dos trabalhadores por empresários gananciosos. Lucro é, principalmente, o resultado de inovação tecnológica que atenda às necessidades do mercado. Sem lucro, a atividade econômica não se sustenta; ele é essencial para a própria sustentabilidade das atividades humanas – qualquer que seja o regime político.

 

E. Como ficam as fundações de amparo à pesquisa tendo em vista a criação do marco?

F.G. As fundações de amparo à pesquisa formam um conjunto excessivamente diverso para que se façam grandes afirmações gerais. Haverá casos e casos, que reagirão de acordo com o maior ou menor compromisso dos respectivos governos estaduais com o crescimento dos seus Estados e sua maior ou menor competência em usar ciência e tecnologia para o desenvolvimento. Itens importantes do marco já são praticados nas universidades estaduais de São Paulo, há décadas. Abraham Sicsú, que é o presidente da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe), mostrou uma posição favorável ao marco, em um artigo publicado em Ciência e Cultura (volume 68, número 2, abril-junho de 2016), intitulado Avanços e Retrocessos no Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação: Mudanças Necessárias.

 

E. Existem indicadores que mostrem quanto da pesquisa das universidades é voltado ao desenvolvimento de tecnologias? O que eles revelam sobre o estágio de desenvolvimento científico no Brasil?

F.G. Há vários indicadores para avaliar a atividade de pesquisa no Brasil, mas não creio que haja um esforço de compô-los de forma a responder à sua pergunta. Portanto, respondo com base na minha vivência: só uma fração muito pequena da pesquisa nas universidades brasileiras contribui para o desenvolvimento de tecnologias. Uma evidência que sustenta essa afirmação é a pouca presença de grupos universitários nos projetos da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

 

E. O investimento das empresas no setor vai aumentar com o marco legal?

F.G. Eu, os autores do marco e muitas outras pessoas esperamos que sim. Infelizmente, o governo federal tem mostrado uma infinita capacidade de criar obstáculos às suas próprias iniciativas. Basta ver a pobreza dos dados relativos à Lei de Inovação (Lei nº 10.973/2004), apesar dos discursos grandiloquentes de que era uma "política de Estado". Nesse momento, os principais obstáculos são os vetos presidenciais a vários artigos do marco.

 

E. Hoje, no Brasil, as pesquisas e os pesquisadores estão concentrados nas universidades públicas, diferentemente do que acontece nos países desenvolvidos. O marco pode mudar esse cenário? Qual o impacto que o marco traz do ponto de vista dos pesquisadores?

F.G. O marco poderá propiciar um aumento importante na população de pesquisadores, nas indústrias e mesmo nas universidades. Eu aprecio muito o que se passa em qualquer país desenvolvido, onde professores universitários produzem ciência de alto nível, que é transformada, mediante a participação deles, em produtos colocados no mercado, gerando receitas, lucros que garantem a sustentabilidade das empresas, empregos bem remunerados em empresas viáveis etc. Isso permite até mesmo que os grupos de pesquisa nas próprias universidades se expandam, sem ter como única opção as receitas derivadas de impostos.

 

E. Podemos prever um aumento no número de patentes brasileiras? De que maneira isso aconteceria?

F.G. Isso é muito provável e necessário. Patentes não são sinônimo de inovação nem de tecnologia, mas são uma etapa importante no processo de desenvolvimento tecnológico e de inovação. O mais provável é que ocorra, em muitas universidades e empresas, o mesmo que ocorreu nos Estados Unidos, depois do Bayh-Dole Act, ou na Unicamp, depois de 1988, ou em algumas empresas brasileiras, depois da nova Lei de Patentes (Lei nº 9.279/96): as pessoas perceberam que depositar patentes, em vez de simplesmente publicar resultados ou optar pelo sigilo, aumenta muito o significado e alcance dos resultados obtidos pelos pesquisadores e engenheiros. Patente é um ativo que pode ser contabilizado e é uma ótima maneira de difundir resultados de pesquisas, universalmente e de graça, pela internet.

 

E. A lei também vai causar impacto na formação de capital humano preparado para atuar nas empresas?

F.G. Isso também é muito provável. Melhor ainda, teremos capital humano preparado para que este país se desenvolva, a renda per capita aumente, mais impostos sejam arrecadados para financiar a saúde e a educação públicas etc.

 

E. Em quanto tempo será possível sentir essas mudanças na prática? O marco pode tornar o Brasil mais competitivo no mercado internacional?

F.G. Neste momento, é necessário superar o desfiguramento do marco, causado por vetos presidenciais que tinham como única justificativa evitar um aumento nos problemas fiscais do país. Esses vetos são uma boa demonstração de como as sucessivas leis, mesmo as bem-intencionadas, tornam-se pouco efetivas. Eles mostram como governos são incapazes de implementar as políticas que eles mesmos criam, por causa de apuros circunstanciais. Se isso não for feito, não haverá mudanças substanciais. Se o marco for preservado, o Brasil será mais competitivo. Isso é o esperado, segundo o inciso VII do parágrafo único do artigo 1º da Lei nº 10.973/2004.

Repito o que disseram Abraham Sicsú e Mariana Silveira, no artigo que citei ao tratar das fundações de amparo à pesquisa: "É consenso, na atualidade, que a inovação é fundamental para o desenvolvimento de um país. Claro, não deixamos de comemorar o avanço do marco legal. Mas o próximo passo agora é superar um certo clima de frustração que foi criado com os vetos que, no nosso entender, continuam a dificultar que um país, moderno e dinâmico, mas com baixa taxa de inovação, possa superar suas crises." Está ocorrendo uma forte mobilização nesse sentido. Espero que tenha sucesso.

Publicado em Edição 07
Quarta, 07 Dezembro 2016 13:21

Recursos em tempo de crise

Juliano Quintella Dantas Rodrigues é doutor em Ciências pela EPM/Unifesp, foi presidente da APG/Unifesp (2010-2012) e diretor da ANPG (2012-2014)

Julio Alves da Silva Neto é mestre em Ciências pela EPM/Unifesp, foi diretor da APG/Unifesp (2011-2012) e da ANPG (2010-2012).

Mapa mundial

Em momentos de crise, impõe-se a necessidade de se refletir sobre as alternativas para o desenvolvimento de pesquisas. No Brasil, a produção acadêmica e científica no âmbito da pós-graduação enfrenta, entre outros fatores, a redução de investimentos e cortes orçamentários nas pastas da educação, ciência e tecnologia e inovação tecnológica. Como sobreviver a essa difícil realidade? Qual caminho podemos perseguir ou construir? Sem o programa Ciência sem Fronteiras, como poderemos internacionalizar?

Aqui colocaremos algumas sugestões para colocar à prova nossa resiliência e fazer nossa pesquisa sobreviver diante da carência de recursos. A sugestão permeia os diversos programas de internacionalização existentes pelo mundo. Vamos começar.

O Human Frontier, o Fulbright e a Pew são provenientes de agências sediadas nos Estados Unidos, nas quais sempre há editais abertos para todas as categorias de pesquisa (da iniciação cientifica ao pós-doutorado). A EducationUSA é a fonte oficial sobre estudo e afiliada ao Departamento de Estado dos Estados Unidos. Na Feira EducationUSA se tem contato direto com representantes que vão ajudar o interessado a se informar sobre os mais diversos tipos de programas de estudo no país: cursos intensivos de inglês, cursos de curta duração, graduação, pós-graduação profissional, mestrado e doutorado.

O objetivo das agências é financiar projetos de pesquisa e facilitar sua vinculação a algum orientador/supervisor em universidades. No âmbito das Américas, o Canadá também tem a experiência de lançar editais para oferecer bolsas de estudo.

Existem diversos programas nos países da Europa, como a Alemanha, que tem a agência DAAD, com escritório no Brasil, Inglaterra, Suécia, Suíça, Espanha, Itália, entre outros. Para encontrar as agências relacionadas com cada país da Europa, sugerimos o site Passaporte Mundo.

As regras são, basicamente, como as americanas: escrever um projeto e ter um aceite de um orientador.

Programas nacionais gerenciados pela iniciativa privada como a Fórmula Santander, a fundação Estudar e a Bayer também divulgam auxílio à pesquisa no exterior. O rito é a inscrição após lançamento de editais disponíveis para todas as categorias de pesquisador. Em algumas capitais, como São Paulo e Brasília, há feiras para promover o estudo no exterior. Elas promovem uma série de palestras sobre diversos temas, como morar, estudar e trabalhar no exterior.

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Foto da reitora Soraya Smaili, ela está em pé, de camisa verde e sorri

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

O inferno é o outro, dizia Jean-Paul Sartre. O inferno, na perspectiva posta pelo filósofo e escritor francês, é construído pela recusa – não importam os motivos – em aceitar aquilo que diferencia os outros de nós: valores religiosos, culturais, étnicos, ideológicos, políticos e morais. A não aceitação dos outros, marca distintiva da intolerância, estimula e propaga o ódio e a prática da violência. O Brasil vive tempos infernais, se quisermos adotar a conceituação de Sartre. 

Em 2014, o país bateu o recorde de quase 60 mil homicídios (mais de 42 mil por armas de fogo), o que representa uma alta de 21,9% em relação a 2004, segundo o Atlas da Violência 2016, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ocupamos o nada honroso 10º lugar em taxas de homicídio por 100 mil habitantes, considerando-se os cem países analisados pelo documento. 

Os números assumem uma característica ainda mais perversa, quando se considera que a imensa maioria das vítimas é formada por jovens negros que vivem em bairros periféricos das metrópoles – alguns estudos sugerem uma cifra superior a 70% do número de vítimas. Também a violência de gênero atinge proporções estarrecedoras: 13 mulheres são assassinadas todos os dias, segundo o Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde. Entre 2004 e 2014, cerca de 4,8 mil mulheres foram mortas por agressão.

Mas a violência não se manifesta “apenas” como atos de agressão física. Ela se expressa também na forma de bullying, ataques verbais e incitamento ao ódio nas redes sociais, órgãos de comunicação, salas de aula, ambiente de trabalho e até em áreas de lazer. Tudo isso, além do mais, tem implicações econômicas: os custos da violência, em todo o mundo, somam 7,16 trilhões de dólares (ou o equivalente a três vezes o PIB brasileiro). No Brasil, o custo é avaliado em 255 bilhões de dólares (11,5% do PIB), valor que corresponde à quinta posição no ranking dos que mais gastam com violência, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, China, Rússia e Índia.

Como algo construído, e não natural, o “inferno” tem raízes históricas, sociais, culturais, políticas e ideológicas. Pode e deve, portanto, ser estudado, compreendido e superado com a ajuda da investigação e da reflexão científicas. É aqui que a Unifesp encontra sua inserção no debate e busca, por meio da pesquisa, oferecer sua contribuição à sociedade brasileira. Por essa razão, e com esse objetivo, adotamos a intolerância e a violência como temas centrais desta edição.

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