Terça, 21 Junho 2016 15:38

Um desafio do século XXI

O constante e persistente crescimento do mercado mundial de drogas ilícitas, que atinge a cifra astronômica de quase 900 bilhões de dólares ao ano, desafia a compreensão de pesquisadores, governantes, formuladores de políticas sociais, autoridades responsáveis pelos órgãos de vigilância e repressão e da sociedade como um todo. Trata-se de um panorama agravado pela indústria e comércio de medicamentos e substâncias como o álcool e o tabaco que, embora legalizadas, são fonte de grandes prejuízos para a saúde e para a vida social. No dossiê que agora apresentamos, o leitor poderá acompanhar o que pensam e produzem pesquisadores de cinco setores da Unifesp ligados ao tema.

Valquíria Carnaúba com colaboração de Ana Cristina Cocolo

Fotografia escura, mostra copos, garrafa de bebida, pinos de cocaína e comprimidos

Marcelo*, hoje com 39 anos, fuma maconha há seis. Do “baseado”, passou para o ecstasy, GHB (conhecido como “ecstasy líquido”), poppers e cocaína. Faz suas compras por meio de dealers, pois prefere pagar mais caro (cada 30ml de GHB custa entre R$ 150 a R$ 200) a correr riscos inerentes a contatos com comunidades e vendedores mais expostos à abordagem policial. Já Flávio* consome cocaína, ecstasy e, eventualmente, maconha, às quais tem acesso por meio dos amigos. Flávio garante não ser dependente: utiliza as drogas aos finais de semana e delas se vale para potencializar o prazer durante as relações sexuais. 

A realidade de ambos é o retrato de um fenômeno global, o consumo de drogas, longe de ser recente ou mesmo restrito a classe social, gênero ou etnia. Durante a primeira década do milênio, o narcotráfico faturou, em média, 900 bilhões de dólares ao ano, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc). A cifra é equivalente a 35% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro ou a 1,5% de toda a riqueza produzida no globo. Trata-se de um mercado extremamente dinâmico, sempre alimentado por “novidades” (como as metanfetaminas e as sintéticas, em geral) ou por ondas renovadas de consumo de drogas antigas (como a heroína e os opiáceos, atualmente responsáveis por 40 mil mortes anuais nos Estados Unidos). 

O cenário é ainda mais grave quando se considera que o narcotráfico impulsiona e alimenta 40% das demais frentes de negócios mantidas pelo crime organizado, segundo a Unodc, com base em dados do final da década passada. As atividades, que incluem tráfico de armas, de pessoas e lavagem de dinheiro, entre outros, giraram 2,1 trilhões de dólares, ou seja, 3,6% do PIB global. Mas não é só. O narcotráfico ainda estabelece uma relação “cooperativa” com o mercado de drogas permitidas e socialmente aceitas, como o álcool e o tabaco, para gerar um quadro catastrófico para a saúde pública.

O Global Drugs Survey (GDS) desponta como uma ferramenta importante para compreensão do problema. Coordenado no Brasil por Clarice Sandi Madruga, psicóloga e professora afiliada da disciplina de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, a coleta on-line feita pela pesquisa contou, em 2015, com a participação de 107.624 pessoas. O relatório final revela dados surpreendentes, que envolvem consumo de álcool, versões alteradas de ecstasy, baixo preço da cocaína e, principalmente, o uso da maconha sintética no Brasil.

Mercado promissor no Brasil

O estudo detectou pela primeira vez o uso de maconha sintética no Brasil. A droga nada tem a ver com a versão natural. “O spice (nome comercial) é uma versão da molécula do THC sintetizada em laboratório. Por se ligar a receptores cerebrais de forma diferente que a molécula original, aumenta em até 60 vezes as chances do indivíduo desenvolver dependência química e em 30 as de ter uma emergência médica após o uso”, afirma Clarice. Das 434 entradas de emergência em hospitais detectadas pelo estudo, 50,9% ocorreram pelo seu uso. É vendido em forma de óleo para cigarros eletrônicos ou como fertilizante da planta Cannabis. 

Quanto ao álcool, os dados são alarmantes. “Comparado aos 21 países participantes do estudo, o Brasil fica abaixo apenas da Irlanda em indicadores como volume consumido e percepção de tolerância”. Cerca de 6,6% dos irlandeses do sexo masculino bebem mais de 10g de álcool para começar a sentir os efeitos da bebida, sendo que o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para consumo diário, é em média 30g. No caso do Brasil, esse número é apenas ligeiramente menor, em 6,3%. 

O GDS 2015 também revelou que cada pílula de ecstasy (em média R$ 40,00), há muito desprovida de seu constituinte original, a metilenodioximetanfetamina (MDMA), agora possui altas concentrações de similares às anfetaminas, além de catinonas sintéticas, altamente neurotóxicas e com poder de dependência superior ao do crack. As internações por complicações médicas pelo uso foram de 0,9%, contra 0,3% detectados no GDS 2013. 

O preço da cocaína brasileira é o mais baixo do mundo: em torno de R$ 50,00 o grama. O equivalente em crack também é barato – em torno de R$ 25,00, segundo órgãos brasileiros de entorpecentes. O “pó” também foi identificado como o mais potente, uma vez que o país apresentou os maiores índices de procura de serviços de emergência após o uso. 

Em 2012, o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) apontou que cerca de 1,8 milhão de brasileiros consumiu a “pedra” pelo menos uma vez na vida, número que salta para 5 milhões quando tratamos da cocaína. “Desde então, a demanda aumentou. Com isso, o tráfico optou por trabalhar a cocaína (última etapa de purificação) para voltar ao estágio de pedra”, pontua Clarice.

“O único exemplo nacional de combate às drogas bem-sucedido é o do tabaco”, relembra. Com efeito, a comparação entre o Lenad 2006 e o 2012 mostra que a prevalência de fumantes diminuiu tanto entre adultos (de 20,8% em 2006 para 16,9%) quanto entre menores de 18 anos (de 6,2% para 3,4%). Entretanto, o GDS apontou que o cigarro eletrônico, mesmo sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), já é comercializado em território nacional e consumido por 5% dos usuários avaliados pelo levantamento. “O acessório tem potencial de introduzir o vício em consumidores que não começariam a fumar devido a cheiro ou restrições em ambientes fechados”, alerta Clarice.

O impasse se estende

Vistos de cima - copos, pinos de cocaína e comprimido, em uma fotografia escura

As discussões sobre criminalização do porte, legalização e regulamentação das drogas devem se intensificar no Brasil, principalmente após a autorização da Anvisa para uso de maconha medicinal no país, concedida em março deste ano. Nossos personagens iniciais, por exemplo, têm opiniões distintas. Marcelo* defende apenas a legalização da maconha, pois já viu muitas pessoas “serem levadas pelo Samu” durante festas e outras que morreram de overdose, por exagerarem no consumo de entorpecentes. Porém, para Flávio*, o ideal é legalizar tudo. “A proibição não proporciona nenhum benefício fiscal ao Estado, que poderia investir em programas de prevenção com a tributação das drogas”.

O coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), Dartiu Xavier, reforça que a proibição não diminuiu o número de dependentes, mas dificulta seu acesso a tratamento e prevenção. “O uso de substâncias ilícitas estimula uma carga enorme de estigma e preconceito”.

Maurício Fiore, coordenador científico da Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD), afirma que a proibição gera um mercado ilícito gigantesco e, no caso brasileiro, extremamente violento, causando milhares de mortes todos os meses. 

De fato, projeções do Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça (Depen/MJ) mostram que o número de presos por tráfico cresceu 339% entre 2006 (31.520 presos), ano de entrada em vigor da lei 11.343 (Tráfico de Drogas e Associação para o Tráfico), e 2013 (138.366 presos). No entanto, contribuem para esses números os presos por contrabando de cigarro e álcool, drogas legais em território nacional. Segundo o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), pelo menos 30% das vendas de tabaco no Brasil correspondiam, em 2014, a produtos ilegais vindos do Paraguai.

“Não estamos preparados para a legalização total e a economia das drogas é a grande responsável por isso. Sempre vai existir o traficante vendendo mais barato over the counter (ilegalmente). Superar esse fenômeno demanda a estruturação de uma verdadeira política de drogas, apoiada no tripé prevenção, tratamento e controle da oferta”, afirma Ana Cecília Marques, psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead). 

“Outra medida imprescindível seria treinar e educar a polícia, que se trata hoje de uma instituição extremamente corrupta, que culpa o jovem em situação vulnerável e aquele com um ‘baseado’ no bolso, mas não prende o traficante”, complementa a coordenadora do GDS. Todos os profissionais consultados rejeitam a política de “guerra às drogas”. Para Fiore, abordar a questão no âmbito da Antropologia é entender o que a droga significa para o usuário, respeitando-se a diversidade. Mas Ana Cecília é enfática: “O meu direito é aquele que termina quando invado o seu. A partir do momento que estou sob efeito de algo e mudo meu comportamento, já passei do limite e posso ser um risco à sua vida”.

* os nomes dos personagens foram alterados para resguardar suas identidades

Publicado em Edição 06
Terça, 31 Maio 2016 15:40

Edição 6 - Entreteses

banner entreteses 06

Versão em PDF

Junho 2016

Nessa edição, Entreteses apresenta um amplo debate sobre a problemática das drogas lícitas e ilícitas em nosso país. Pesquisadores da Unifesp abordam, entre outros temas, a dependência, o tratamento, os impactos, já verificados, criados pela legalização total ou parcial do comércio da maconha, o mercado bilionário do tráfico, as mortes e doenças associadas ao consumo do álcool e tabaco – e que poderiam ser evitadas –, a importância da atuação das universidades na elaboração de políticas públicas nessa área e na capacitação de profissionais para lidar com a questão e quebrar o estigma que a envolve.

A edição também aborda o combate ao mosquito Aedes aegypti e a proliferação de doenças como dengue, zika e chikungunya. À frente dos estudos preparatórios para a introdução da vacina da dengue no Brasil, o infectologista e professor da instituição Marcelo Nascimento Burattini explica os motivos pelos quais a luta contra o mosquito – erradicado no Brasil em 1955 e reintroduzido 12 anos depois devido ao relaxamento das medidas de combate – é tão difícil.

A seção “perfil” é dedicada ao hematologista Michel Pinkus Rabinovitch. Sua paixão pela ciência e sua busca pela cura do câncer faz com que, aos 90 anos, ainda pesquise moléculas com efeito antitumoral.

As mais de 40 páginas seguintes divulgam pesquisas de diversas áreas do conhecimento e abrangem temas de várias áreas do conhecimento, incluindo câncer, igualdade de gênero, engenharia tecidual, nanotecnologia, toxicologia, dependência de redes sociais, além de um vírus ainda pouco divulgado: o HTLV (vírus T-linfotrópico humano). Considerado “primo” do HIV, seus impactos no organismo podem ser cruéis e levar o indivíduo a desenvolver até mesmo leucemia.

Expediente

Editorial :: Pesquisadores enfrentam os desafios de nossa época

Carta da reitora :: As drogas e a universidade pública

APG :: Quando a ciência provoca deslumbramento

Entrevista • Marcelo Burattini  :: “Só a vacina não resolve, temos que mudar a atitude”

Perfil • Michel Rabinovitch :: “Na ciência, é preciso ser anarquista”

História e filosofia da ciência  :: Contágio, miasmas e microrganismos

Especial • Drogas :: Um desafio do século XXI

Álcool :: Problemas causados pelo consumo custam 7,3% do PIB

Maconha  :: Um mercado de 300 bilhões de dólares

Tabaco :: Principal causa de mortes evitáveis no mundo

Drogas sintéticas  :: Uma nova ameaça à saúde pública

Políticas públicas :: Participação da universidade é decisiva no país

Prevenção :: Educação continuada capacita profissionais

Assistência :: Microrregulação do acesso aos serviços das UBSs ainda é um desafio

Câncer :: Nova esperança para o diagnóstico

Zika vírus :: Muito além da microcefalia

Mal dos tempos :: Jovens desenvolvem dependência de redes virtuais

Neurologia  :: Enxaqueca em crianças está associada a déficit de atenção

Nutrição :: Crianças brasileiras consomem mais frutas

Síndrome metabólica :: Tratamento de obesidade demanda cuidado interdisciplinar

DST • HTLV :: Doença negligenciada

Toxicologia :: Manganês: um risco invisível

Farmacologia :: Pesquisadores apostam em nanotecnologia verde

Polímeros :: A incorporação de biocerâmica em polímeros anuncia novidades na engenharia tecidual

Feminismo :: Preconceito distorce luta pela igualdade de gênero 

 


Outras edições da Entreteses:

banner entreteses 07
banner entreteses 05
banner entreteses04
Publicado em Entreteses
Quarta, 25 Maio 2016 16:54

Muito além da microcefalia

Crianças com o problema, associado à infecção por zika vírus, também podem apresentar lesões oculares graves

Ana Cristina Cocolo

Uma retinografia de olho, mostra uma lesão

Retinografia de olho direito de criança com microcefalia evidencia atrofia coriorretiniana em região macular associada a mobilização de pigmento

Transmitido pelo Aedes aegypti, o mesmo vetor biológico da dengue e o chikungunya, o zika vírus (ZIKV) não causa só febre, coceiras e manchas vermelhas pelo corpo. Em recém-nascidos de mulheres infectadas, além do risco da já devastadora microcefalia – anomalia que prejudica o desenvolvimento cerebral dos bebês e pode levar à deficiência motora, mental e à morte prematura –, podem também surgir graves alterações na visão. 

Estudos conduzidos pela Unifesp, em parceria com a Fundação Altino Ventura, em Recife (PE), e Hospital Roberto Santos, em Salvador (BA), indicam que cerca de 30% das crianças infectadas podem apresentar lesões graves na retina e nervo óptico com consequente e importante diminuição da visão ou até mesmo cegueira legal futura – quando a visão corrigida do melhor dos olhos é de 20/200 ou menos, ou seja, a pessoa pode ver a 20 pés (6 metros) o que outra, com visão normal, enxerga a 200 pés (60 metros). Esse tipo de cegueira impede o indivíduo de realizar atividades laborais. 

A relação das lesões no fundo de olho associada à infecção presumida por ZIKV e microcefalia, publicada em janeiro na revista científica The Lancet, é a primeira descrição na literatura científica que associa a presença de lesões oculares em recém-nascidos microcefálicos com infecção congênita presumida pelo ZIKV. Em seguida, outras publicações foram feitas pelo mesmo grupo nas revistas indexadas Arquivos Brasileiros de Oftalmologia e JAMA Ophthalmology. 

Segundo dados do artigo publicado no periódico JAMA, foram encontradas lesões oculares que incluem a degeneração da retina (área responsável pela captura da imagem) em diferentes níveis e também do nervo óptico, bem como lesões mistas. Entre abril e novembro de 2.015, foi registrado um aumento anual de casos em até 20 vezes. 

De acordo com os pesquisadores do Departamento de Oftalmologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, 138 olhos de recém-nascidos de mães presumidamente infectadas pelo ZIKV, bem como suas mães, já foram avaliados e os achados oculares são significativos e reprodutíveis. Além disso, cerca de 70% dos achados são bilaterais, o que torna as sequelas ainda mais importantes. Com um número crescente de casos de gestantes infectadas por ZIKV no país e as recentes evidências científicas da relação causa-efeito da infecção com a microcefalia (em especial nos Estados de Pernambuco e Bahia), em percentagens ainda desconhecidas pela literatura médica, o quadro tem uma importância alarmante em saúde pública.

Todas as mães, mesmo de recém-nascidos com anormalidades oculares, foram examinadas e nenhuma reportou sintomas de conjuntivite, uveíte ou, ainda, apresentou sinais de infecção ocular ativa. 

“Além das óbvias consequências gravíssimas para a família dos recém-nascidos, devido às sequelas, as crianças afetadas apresentarão não apenas problemas neurológicos, mas também visuais graves, resultando em um ônus econômico e social extremamente impactante ao Estado e impossível de ser calculado corretamente”, afirma Maurício Maia, professor do Departamento de Oftalmologia da EPM/Unifesp e um dos pesquisadores envolvidos nos estudos.

Retinografia, mostra o olho com uma lesão

Retinografia de olho esquerdo de criança com microcefalia evidencia lesão macular coriorretiniana escavada atrófica, associada a mobilização de pigmento perilesional

Foto do pesquisador, ele está sentado de jaleco, ao lado de computadores que mostram imagens da pesquisa

Maurício Maia, um dos responsáveis pelo estudo

Testes sorológicos negativos para outras infecções

Como a microcefalia – definida como perímetro encefálico inferior a 32 centímetros – pode ser resultado de causas genéticas ou de outras infecções perinatais TORCHS (toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, herpes e sífilis) e o vírus da imunodeficiência humana (HIV), todas as mães e crianças acompanhadas em Pernambuco e na Bahia realizaram testes específicos para essas doenças e apresentaram resultados negativos. Fatores como alcoolismo e casos de microcefalia na família foram excluídos. 

O quadro é ainda mais dramático porque sabe-se que a apresentação de alguns dos sinais e sintomas clássicos da infecção por ZIKV na gravidez, que são vermelhidão na pele, dores nas articulações e febre, são observados em apenas cerca de 20% a 30% das mães infectadas pelo ZIKV, sendo a maioria assintomática. Além disso, a confusão diagnóstica da infecção pelo ZIKV com outras viroses, como dengue e chikungunya, torna o diagnóstico da doença ainda mais difícil. 

A equipe de pesquisa tem focado muitos dos seus esforços na análise sorológica das mães e de seus recém-nascidos e, até o momento, todos que foram analisados para ZIKV pelo método da detecção de anticorpos IGG mostraram-se positivos, sugerindo contágio prévio. Entretanto, reações cruzadas com outras infecções virais podem ocorrer, o que dificulta a avaliação. 

Segundo Maia, o aspecto clínico das lesões encontradas é bem diferente das causadas por outras infecções como TORCHS e HIV, que também podem causar diversos prejuízos cerebrais ao feto, incluindo a microcefalia, se contraído nos primeiros meses de gestação.

Ações de saúde pública

A equipe de pesquisa recomenda que recém-nascidos microcefálicos de mães presumidamente infectadas pelo ZIKV devem ser submetidos a exame de fundo de olho para estimulação visual precoce, caso tais anormalidades sejam encontradas. 

Os autores ainda enfatizam que não se sabe ainda se as alterações oculares estão relacionadas diretamente ao efeito da infecção pelo ZIKV, à microcefalia ou a ambos os mecanismos e estudos adicionais são necessários para o melhor entendimento dessa questão. 

Os pesquisadores também afirmam que, como a vacina contra o ZIKV (que seria a situação ideal) ainda não está disponível no mercado, as ações devem ser focadas na prevenção do contágio da doença por meio do combate ao mosquito Aedes aegypti e de se evitar áreas endêmicas pelas grávidas, além do uso de repelentes em gestantes com risco de contágio da doença.

“É preciso mais investimentos públicos e privados para o melhor entendimento da doença”, afirma. “A falta de recursos financeiros para pesquisa é um fator limitador extremamente importante para esse processo, com profundo impacto para a saúde pública do Brasil e do mundo todo”.

Artigos relacionados:

VENTURA, Camila V., MAIA, Mauricio; BRAVO-FILHO, Vasco; GÓIS, Adriana L.; BELFORT JÚNIOR, Rubens. Zika virus in Brazil and macular atrophy in a child with microcephaly. The Lancet, v. 387, n. 10.015, p. 228, 16 jan. 2016. Disponível em: < http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(16)00006-4/fulltext >. Acesso em: 18 abr. 2016.

FREITAS, Bruno de Paula; DIAS, João Rafael de Oliveira; PRAZERES, Juliana; SACRAMENTO, Gielson Almeida; KO, Albert Icksang; MAIA, Mauricio; BELFORT JÚNIOR, Rubens. Ocular findings in infants with microcephaly associated with presumed Zika virus congenital infection in Salvador, Brazil. JAMA Ophthalmol. 9 fev. 2016. Disponível em: < http://archopht.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=2491896 >. Acesso em: 18 abr. 2016.

VENTURA, Camila V.; MAIA, Mauricio; VENTURA, Bruna V.; LINDEN, Vanessa Van Der; ARAÚJO, Eveline B.; RAMOS, Regina C.; ROCHA, Maria Angela W.; CARVALHO, Maria Durce C. G.; BELFORT JÚNIOR, Rubens; VENTURA, Liana O. Ophthalmological findings in infants with microcephaly and presumable intra-uterus Zika virus infection. Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, São Paulo, v. 79, n. 1, jan/fev. 2016. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-27492016000100002 >. Acesso em: 18 abr. 2016.

Publicado em Edição 06
Quarta, 25 Maio 2016 16:48

Uma nova ameaça à saúde pública

De acordo com pesquisadores da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), o aumento do consumo de drogas sintéticas tem sido um novo problema de saúde pública no Brasil e no exterior. Essa classe de drogas é composta por substâncias desenvolvidas a partir de alterações na estrutura molecular de substâncias previamente conhecidas e já proibidas, com o objetivo de burlar a lei, de modo que a sua comercialização possa ocorrer sem prescrições ou restrições legais. À luz da lei, essas substâncias ainda não são proscritas (proibidas), porém, sob o ponto de vista toxicológico, apresentam propriedades nocivas cujo impacto do consumo vem sendo estudado em vários países. O consenso é que estamos diante de substâncias neurotóxicas, com alto poder de dependência e capazes de causar importantes danos à saúde física e psicossocial dos seus usuários.

Vários saquinhos com comprimidos

Colaboraram neste artigo
Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp: Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) e Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Inpad/CNPq)
Departamento de Psicobiologia da EPM/Unifesp: Núcleo de Pesquisa em Saúde e Uso de Substâncias (Nepsis)

Produtos cada vez mais potentes burlam a vigilância

Infelizmente, a indústria da droga está à frente na criação de derivados de produtos já proibidos. No Brasil, desde 1999, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão que fiscaliza setores relacionados a produtos e serviços que possam afetar a saúde da população brasileira, realizou 37 atualizações na Portaria 344/1998 (que trata dos medicamentos de controle especial), sendo a última em 2014, a partir da lista de 2012.

Muitos países vêm tentando manter suas listas de drogas proscritas atualizadas, mas o aparecimento de novas substâncias psicoativas, conhecidas como New Psychoactive Substances (NPS), tem sido mais rápido que os processos burocráticos de inclusão. Como consequência, uma grande quantidade de novas substâncias psicoativas sintetizadas não regulamentadas é mundialmente comercializada, inclusive por meio da internet. Na Europa elas são conhecidas como "legal highs" ou "smart drugs". Estudos mostram que tais substâncias estão se tornando facilmente disponíveis também fora do eixo Europa-América do Norte.

De acordo com o efeito dessas substâncias no sistema nervoso central (SNC), elas podem ser classificadas em três categorias: psicoestimulantes, canabinóides e alucinógenos.

As ATS (amphetamine-type stimulants ou estimulantes do tipo anfetamina) são compostos sintéticos estimulantes que compreendem o grupo das anfetaminas, metanfetaminas, metacatinonas e substâncias análogas ao ecstasy (MDMA). Após os efeitos agudos do consumo, os usuários podem apresentar alterações de comportamento que evidenciem a dependência da substância. É relatado o aumento do risco de suicídio causado pela depressão nos períodos de abstinência e, vale acrescentar aqui, 87% dos usuários de estimulantes apresentam sinais de abstinência com a cessação do uso.

Diversos análogos sintéticos ao Δ9-THC (Δ-9-tetrahidrocanabinol) foram desenvolvidos. Do ponto de vista toxicológico, essas novas substâncias podem ser até 100 vezes mais potentes. Os canabinóides sintéticos são comercializados misturados a ervas em produtos chamados de K2, Spice ou incensos herbais. Alguns nomes comerciais do Spice incluem: Spice Silver, Spice Gold, Spice Diamond, Spice Arctic Synergy, Spice Tropical Synergy, Spice Egypt, Zombie World, Bad to the Bone, Black Mamba, Blaze, Fire and Ice, Dark Night, Earthquake, Berry Blend, The Moon e G-Force 2,3.

Ignorando o potencial tóxico desses compostos e a restrição nos rótulos indicando “impróprio para consumo humano”, na busca pelos efeitos semelhantes aos obtidos com o uso de maconha, os usuários consomem esta droga colocando em risco sua integridade física e mental. Constatou-se que após o uso, um em cada 30 usuários buscou serviços de atendimento médico de emergência no último ano. A Cannabis sintética é a substância que mais tem levado os usuários a buscarem esses serviços. As consequências do uso envolvem aumento de risco para o desenvolvimento de quadros psicóticos e chances 60 vezes maiores para instalação da síndrome de dependência.

Entre outros, os efeitos clínicos adversos relatados com o uso de Spice ou K2 estão relacionados a alterações no SNC, tais como convulsões, agitação, surtos psicóticos, acidentes vasculares cerebrais (AVC), perda de consciência, ansiedade, confusão e paranoia ou no sistema cardiovascular (taquicardia, hipertensão, dor no peito e isquemia cardíaca).

Os canabinóides sintéticos disponíveis atualmente no mercado ficaram mais potentes que os naturais, implicando em maiores prejuízos à saúde física e mental dos usuários. O uso desses derivados sintéticos da maconha foi relatado por 1,7% da amostra brasileira no último ano, ficando atrás apenas da Polônia, Hungria e Nova Zelândia, onde a Cannabis sintética era legalizada até a data da coleta dos dados.

Nos EUA, relatos de aumento do uso dos serviços de emergência, suicídio e assassinato já foram noticiados em razão do uso de Cannabis sintética e as autoridades continuam a alertar a população para o risco de novas ocorrências. Iniciativas de alerta e prevenção foram implementadas e a venda da droga passou a ser criminalizada em diversos Estados americanos.

Até pouco tempo atrás, o composto alucinógeno sintético mais conhecido era o LSD, porém, a busca por uma substância com preço mais barato e sem restrições legais que reproduzisse seus efeitos, introduziu uma nova série de drogas alucinógenas que ganhou destaque. Uma nova substância, o NBOMe, que apresenta um mecanismo de ação muito similar ao do LSD, surgiu na Alemanha em 2003, mas atualmente já se apresenta com 11 variações. Comercializado em muitos países como se fosse LSD, o NBOMe é mais forte e tóxico que a dietilamida do ácido lisérgico. A concentração do princípio ativo encontrado em doses de NBOMe pode ser até 40 vezes mais alta que no LSD, dependendo da forma como é consumido.

Os efeitos da droga no organismo podem durar até 12 horas, quase o dobro da duração média do ácido lisérgico. Ela começou a ser consumida no exterior em 2010 e chegou ao Brasil em 2011. Desde 2012, a comunicação do número de mortes e a busca de serviços de emergência após o uso está em ascensão. 

Fotografia que mostra vários saquinhos com comprimidos de ecstasy e uma mão que segura alguns comprimidos

Entre 2013 e 2015, triplicou o número de usuários de ecstasy que buscaram atendimento médico de emergência no país

Dados do II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (II Lenad), realizado no Brasil em 2012, e do The Global Drug Survey 2015 Findings, que apresenta dados mundiais relativos ao consumo de drogas no ano de 2015, incluindo uma amostra brasileira, apontam que o consumo de ATS entre as mulheres foi maior que em anos anteriores, tanto quanto ao uso na vida como quanto ao uso no último ano. O uso de ATS pelo menos uma vez na vida foi referida por 4,1% da amostra, sendo 4,6% entre as mulheres e 3,8% entre os homens. As prevalências mais altas foram observadas entre os indivíduos de 25 a 34 anos (6,6%), solteiros (4,9%), com níveis mais elevados de educação (7,4%) e maior renda (13,6%). O uso da substância no ano anterior ao da realização da pesquisa foi referido por 1,6% da amostra, verificando-se que o consumo entre as mulheres (2,2%) alcançou o dobro do consumo entre os homens (1,1%). Observa-se mudança de faixa etária, sendo os mais jovens, aqueles entre 15 e 24 anos, os maiores consumidores (2,2%).

Com relação ao uso associado a outras substâncias, usar estimulantes aumenta em sete vezes e meia a chance de um indivíduo usar maconha e outras drogas ilícitas, e em vinte e uma vezes a chance do uso de cocaína.

A prevalência de consumo de inibidores de apetite a base de anfetaminas no Brasil, considerando o uso na vida, é a mais alta entre todos os países pesquisados, sendo 4,1% entre os homens e 6,4% entre as mulheres. Estes dados reforçam a urgência de atenção para o uso de estimulantes entre mulheres na nossa população. 

Infográfico - Fatores associados ao consumo de estimulantes do tipo das anfetaminas (ATS). A chance de um usuário de ATS ( amphetamine-type stimulants ou estimulantes do tipo anfetamina) se envolver em episódios de violência urbana é duas vezes maior quando comparado ao usuário de cocaína e quase seis vezes maior quando comparado a um indivíduo que não consome nenhuma das duas substâncias.  (OR= Odds Ratio, razão de chances). / Ser mulher or: 2x mais chances. / 5 salários ou mais  or: 7,5x mais chances. / Consumo de outras drogas ilícitas or: até 21x mais chances. / Educação  Fator protetor. / Violência urbana: ATS X Cocaína. / ATS: or: 3,5x mais chances. / COCAÍNA: or: 5,6x mais chances

Em 2015, 12,2% dos pesquisados relataram o uso de ecstasy (MDMA). Entre 2013 e 2015, triplicou o número de usuários de ecstasy que buscaram atendimento médico de emergência. Há que se considerar não só os casos de overdose, situações onde há a ingestão de grande quantidade de substância de uma só vez, mas também, a mistura de adulterantes altamente tóxicos, pois mesmo o consumo de pequenas quantidades pode levar o indivíduo ao atendimento médico de emergência. Como consequência desta experiência, 55,6% dos usuários reduziram o uso da substância e 22,2% diminuíram o consumo concomitante de álcool. 

As intervenções de redução de danos partem de um conjunto de políticas, programas e práticas baseadas em evidências científicas, que tem por objetivo diminuir o impacto do uso de drogas lícitas e ilícitas, salvaguardando a saúde física, social e econômica dos usuários, de suas famílias e da comunidade. 

Com relação às drogas sintéticas, uma estrutura conhecida como “legal party pills” passou a ser usada em alguns países como uma alternativa segura para o consumo. A estratégia consiste em limitar o uso a determinados ambientes, principalmente festas e eventos ligados à música eletrônica, pontos onde o usuário tem a possibilidade de testar a substância antes de consumi-la, evitando, assim, a ingestão de adulterantes desconhecidos potencialmente perigosos, e até mesmo fatais, encontrados nas drogas de rua. O teste é rapidamente realizado por meio de reações químicas, utilizando uma pequena quantidade da substância que vai ser consumida e alguns produtos reagentes. Atualmente, os kits de testagem podem ser adquiridos pela internet e usados em casa.

• Ronaldo Ramos Laranjeira, Clarice Sandi Madruga e Luciana Massaro – Uniad/Inpad

Festas rave estimulam uso entre jovens

Fotografia de uma festa rave - várias pessoas em um ambiente com luzes coloridas

Festa rave, local onde o ecstasy surgiu e se disseminou nos anos 1.990

Na década de 1980, o estilo musical eletrônico se popularizou na Espanha, em festas rave. No decorrer dos anos 1990, as festas tornaram-se frequentes entre os jovens de várias nacionalidades. Foi nesse cenário que o uso de ecstasy (MDMA – metilenodioximetanfetamina) teve seu início e disseminação. A partir de então, muitas outras drogas sintéticas passaram a ser consumidas, bem como surgiram outros cenários de uso.

As sintéticas se diferenciam das demais drogas, não apenas pela sua natureza e efeitos, mas também em relação ao perfil dos usuários. São predominantemente jovens, com boa inserção social e que adquirem as drogas em rede de comércio específico.

O ecstasy é uma das principais drogas sintéticas usadas atualmente. Estudos realizados pelo Nepsis sugerem que os jovens tendem a minimizar os danos da droga e os comportamentos de risco, como dirigir após usar e praticar relações sexuais sem preservativo. Os estudos mostram também que a percepção de risco pode ser um importante componente preventivo na tomada de decisões.

Vários pesquisadores da área ressaltaram a importância de ações de redução de danos em contextos de uso como forma de intervenção junto aos usuários do ecstasy e outras drogas sintéticas. Com o objetivo de minimizar os danos decorrentes do uso, existem iniciativas brasileiras de redução de danos em festas, como o Projeto Respire, da ONG É de Lei, idealizado por pós-graduandos da Unifesp.

• Ana Regina Noto - Nepsis

Publicado em Edição 06
Quarta, 25 Maio 2016 16:34

Doença negligenciada

Pesquisadora alerta para a falta de conhecimento dos impactos causados à saúde pelo vírus HTLV, que pode levar ao desenvolvimento de doenças como a leucemia de células T e a paraparesia de membros inferiores

Lu Sudré

Imagem de microscópio do htlv

Vírus T-linfotrópico humano (HTLV)

Ofuscada pela pandemia de HIV/Aids na década de 1980, a infecção causada pelo vírus T-linfotrópico humano (HTLV) permanece desconhecida. Endêmica, prevalece em regiões específicas como Japão, Caribe, África e Brasil e atinge entre 15 e 20 milhões de pessoas no mundo. Mesmo com um grande número de pessoas infectadas, a psicóloga Karina Zihlmann, do Departamento de Gestão e Cuidados em Saúde no Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista, explica que a falta de informação sobre a infecção leva à negligência das doenças associadas ao vírus, equivocadamente apelidado como ‘vírus primo do HIV’.

“O HTLV possui características epidemiológicas e patológicas específicas. A sociedade civil se organizou para combater a epidemia do HIV, mas os sujeitos portadores do HTLV seguem sem cuidados específicos para suas necessidades, completamente ignorados pelas políticas públicas em saúde, que pouco fazem quanto a investimentos na prevenção e tratamento dessa infecção ”, explica a psicóloga, que estudou as decisões reprodutivas desses indivíduos em sua tese de doutorado realizada na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) em 2009.

Primeiro retrovírus humano isolado, o HTLV infecta os linfócitos, que são células de defesa do organismo. A forma de infecção acontece por meio de relação sexual desprotegida com pessoa infectada, contato sanguíneo e compartilhamento de agulhas durante o uso de drogas. Entretanto, em razão das características virológicas da infecção, considera-se que a principal forma de transmissão ocorra de mãe para filho, especialmente durante o aleitamento materno, conhecida como transmissão vertical.

De acordo com o artigo Infecção pelo HTLV1/2 em Gestantes Brasileiras, publicado em 2014 na Revista Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e de autoria do Núcleo Perinatal do hospital universitário, a transmissão vertical ocorre em cerca de 20% dos filhos de mães infectadas. O estudo também revela que a maior soroprevalência do vírus no país – que possui a estimativa de 800.000 a 2,5 milhões de pessoas infectadas – é nos Estados do Norte e Nordeste, como Pará, Pernambuco, Bahia e Maranhão. 

Segundo Karina Zihlmann, a infecção por HTLV tem características distintas da infecção pelo HIV/Aids e é um problema de saúde pública negligenciado pela comunidade acadêmica e pela sociedade civil, incluindo o poder público. “Pouco se sabe sobre a real dimensão epidemiológica do HTLV, até porque pouco se estuda sobre o assunto. Trata-se de uma infecção de grande repercussão, mas pouco enfrentamento por parte das políticas públicas. Até mesmo os profissionais de saúde desconhecem o HTLV e, como consequência disso, observa-se a falta de identificação das pessoas infectadas, as mesmos seguindo sem evitar a transmissão para seus parceiros e filhos”, afirma Karina. As pesquisas sobre o retrovírus são escassas, sendo que a maioria dos dados epidemiológicos são obtidos a partir de bancos de doação de sangue, o que limita muito a leitura de uma prevalência ampla do retrovírus na população em geral.

A diferença crucial entre as infecções pelo HIV e pelo HTLV está relacionada ao tratamento. Enquanto o HIV responde ao uso dos antirretrovirais, o HTLV tem uma ação bem diferente no corpo humano e não responde a nenhum tratamento, ou seja, ainda não existe uma forma de intervenção específica para tratar a infecção, apenas alguns medicamentos usados como tentativa de controle dos sintomas das doenças associadas ao HTLV. Uma vez em contato com o retrovírus, não há como reverter o quadro infeccioso. Mas por que mesmo sendo tão grave, o HTLV ainda permanece às sombras? 

Segunda a pesquisadora, a invisibilidade que circunda o vírus existe porque apenas 1% das pessoas convivendo com o HTLV desenvolverão algum tipo de doença, ou seja, a maioria permanecerá assintomática por toda a vida, mas elas poderão infectar seus parceiros sexuais e sua prole. Para a psicóloga, embora exista um discurso em saúde pública sobre a importância das ações de prevenção em saúde, a infecção pelo HTLV é um caso elucidativo e explicita que as ações de políticas públicas ainda têm um enfoque no risco de adoecimento das pessoas. A partir dessa lógica, havendo “poucas” pessoas doentes em razão do HTLV, na prática, não haveria necessidade de maiores investimentos na busca e identificação das pessoas infectadas. 

A leucemia por células T (ATL) e a paraparesia espástica tropical (HAM/TSP) são as duas principais doenças causadas pelo vírus. “Esse tipo de leucemia é extremamente grave e a perspectiva de vida é muito restrita. A partir do momento em que o sujeito descobre que tem essa doença, viverá alguns meses, no máximo, e a quimioterapia pode fazer com que o quadro se agrave ainda mais. A infecção é tão desconhecida que muitos médicos, ainda que trabalhem com pacientes que tenham câncer hematológico, ignoram o HTLV”, comenta Karina. 

A paraparesia espástica tropical faz com que o infectado perca gradativamente a capacidade de locomoção e faz com que os membros inferiores sofram com espasmos. “O paciente que desenvolve a paraparesia por HTLV tem uma dor neuropática, progressiva, extremamente debilitante. Dificilmente esta pessoa voltará a andar”, observa a psicóloga, explicando que um dos mecanismos de ação da infecção pelo HTLV é inflamatório e afeta a região lombar da coluna e da medula óssea, o que resultará na paraparesia dos membros inferiores, ou seja, alteração no controle motor, mas o sujeito mantém a sensibilidade. 

A identificação desse vírus é, portanto, um fator chave para o enfrentamento da infecção. Em populações afetadas por quadros de perda de controle motor que são tratadas em instituições de saúde especializadas, ainda hoje, observa-se desconhecimento sobre a possibilidade de que as pessoas possam ser soropositivas para o HTLV. Em 2008, o neurologista Francisco Javier Carod Artal desenvolveu uma pesquisa com pacientes diagnosticados com paraparesia no ambulatório de neurologia do Hospital Sarah Kubitschek, na cidade de Brasília, e encontrou prevalência de sorologia positiva para HTLV-1 em 17% deles. 

Fotografia da pesquisadora, karina zihlmann

Karina Zihlmann

De acordo com a pesquisadora, esse trabalho explicita que mesmo as pessoas que apresentam sintomas continuarão negligenciadas como portadoras da infecção. Sendo assim, as atuais políticas públicas acabam por marcar o sujeito de forma a impedir a visibilidade da própria infecção, bem como das doenças associadas. Embora os sujeitos sintomáticos vivenciem uma série de limitações e estigmas sociais, na prática, observa-se que ter sintomas não é uma condição suficiente para “tornar visível” o HTLV. 

Como não há tratamento, o único modo de frear uma transmissão em massa da infecção é a prevenção. Além do uso de preservativos nas relações sexuais, existem outras medidas que poderiam ser tomadas pelo governo. Conforme Karina relata, no Japão havia alto índice da transmissão vertical e consequentemente maior ocorrência das doenças associadas ao HTLV, principalmente as leucemias. “O governo japonês, na década passada, tomou uma posição radical e baixou um decreto para que todas as mulheres grávidas fossem obrigatoriamente testadas para o HTLV e impedidas de amamentar, caso o resultado fosse positivo”. 

Com essa ação, a transmissão vertical que atingia índices de 30% a 40% passou para 3%. Dessa forma a infecção foi praticamente debelada em questão de uma década. Karina ressalta que ações dessa ordem podem não fazer sentido para um país com cultura distinta da japonesa, e, por isso, é crucial que as estratégias de prevenção sejam desenvolvidas a partir das características biopsicossociais de cada população.

Outra medida interessante seria disponibilizar o teste para o HTLV no pré-natal, assim como é feito para o HIV. Para isso, há necessidade de investimento em formação dos profissionais de saúde, principalmente aqueles que trabalham com gestantes, e campanhas de conscientização para que as mães portadoras da infecção interrompam a amamentação, com o devido suporte emocional para a tomada dessa decisão, que costuma ser bastante sofrida e complexa. A psicóloga ainda lembra que para as mulheres diagnosticadas como soropositivas para o HIV, antes da gestação ou na própria gestação, que interrompem o aleitamento materno, há uma portaria que garante acesso ao leite artificial substituto e gratuito, o que não acontece para as mães com HTLV.

A pesquisa na Unifesp e o olhar da saúde pública

Pouco depois de iniciado seu trabalho como docente na universidade em 2011, a psicóloga Karina Zihlmann foi selecionada para um projeto fomentado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ)*, cujo objetivo foi a divulgação de trabalhos para aprofundar o conhecimento sobre o HTLV. Intitulado Trajetórias de Vida de Pessoas Vivendo com o HTLV-1: os Sujeitos, suas Necessidades Complexas e o Desafio do Cuidado em Saúde Pública, o projeto se voltou para a vivência dos indivíduos portadores desse retrovírus para, então, promover uma discussão sobre políticas públicas e ações de enfrentamento.

“Apoiados pelo Departamento de Gestão e Cuidados em Saúde, desenvolvemos uma série de artigos científicos sobre o tema, além de participações em palestras e congressos. Apesar disso, os artigos produzidos seguem sendo rejeitados para divulgação em revistas científicas por desconhecimento do vírus”, lamenta a pesquisadora. 

Além do olhar da saúde pública, os aspectos subjetivos e psicológicos dos pacientes são considerados fundamentais nos estudos de Karina. Segundo ela, as próprias pessoas com HTLV têm dificuldade de se colocarem visíveis por medo de serem confundidas com portadoras de HIV e sofrerem com todo preconceito e estigmatização que existe em torno dessa outra infecção mais conhecida socialmente. Há pouca mobilização da sociedade civil e, desse modo, a endemia continua desconhecida, porque as pessoas com HTLV ainda não se organizam como as pessoas com HIV se organizaram no passado e atualmente, reivindicando seus direitos como cidadãos. 

“O HTLV nos mostra como ainda somos engessados em termos de saúde pública e pensamos só na doença e não em prevenção. Esses sujeitos são invisíveis perante o poder público”, pontua Karina. É urgente que os pacientes com HTLV sejam devidamente cuidados e acolhidos, além de terem a possibilidade de adotar condutas, não só quanto aos aspectos biomédicos, mas também quanto aos fatores emocionais. 

“A endemia do HTLV é paradigmática para a Saúde Pública. Ela exige que se assuma radicalmente uma posição ética de cuidado ao sujeito e não só considerá-los números e estatísticas. É preciso mudar a forma de pensar a própria saúde pública e, de fato, adotar aquilo que preconizamos e consideramos a base de nossa ética: o olhar da prevenção em saúde como fundamento”, finaliza a pesquisadora.

* Projeto CNPQ Chamada Universal 14/2012 nº471624/2012-8

Artigos relacionados:

ZIHLMANN, Karina Franco; ALVARENGA, Augusta Thereza de; CASSEB, Jorge. Living invisible: HTLV-1-infected persons and the lack of care in public health. Plos Neglected Tropical Diseases, v. 6, p. 1705, 12 jun. 2012. Disponível em:< http://journals.plos.org/plosntds/article?id=10.1371/journal.pntd.0001705 >. Acesso em: 14 abr. 2016. 

ZIHLMANN, Karina Franco; ALVARENGA, Augusta Thereza de; CASSEB, Jorge. Reproductive decisions among people living with human T-cell lymphotropic virus type 1 (HTLV-1). Journal of Infectious Diseases and Therapy, v. 1, n. 2, p. 108, 14 jun. 2013. Disponível em:< http://www.esciencecentral.org/journals/reproductive-decisions-among-people-living-with-human-tcell-lymphotropic-virus-type-htlv-2332-0877.1000108.php?aid=14908 >. Acesso em: 14 abr. 2016.

ZIHLMANN, Karina Franco; ALVARENGA, Augusta Thereza de; CASSEB, Jorge. Reflexões sobre o conhecimento e os cuidados em equipe multidisciplinar aos pacientes vivendo com HTLV-1: saindo da “obscuridade”. Prática Hospitalar, v. 11, p. 102-108, jan/fev. 2009. Disponível em:< http://dspace.fsp.usp.br/xmlui/bitstream/handle/bdfsp/564/art_ZIHLMANN_Reflexoes_sobre_o_conhecimento_e_os_cuidados_2009.pdf?sequence=1 >. Acesso em: 14 abr. 2016.

Publicado em Edição 06

Além de ser a primeira causa evitável de doenças, o álcool traz relevantes problemas sociais, causando prejuízo nas funções laborativas, além de gastos com emergências clínicas e psiquiátricas decorrentes do seu uso. Essa característica está intimamente ligada ao fato de o álcool ser culturalmente aceito em diversas sociedades e de ser uma droga lícita, afirmam pesquisadores do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad). De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), estima-se uma perda de 7,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, em decorrência de problemas relacionados ao álcool, ou seja, cerca de R$ 372 bilhões em 2014. Incluem-se, entre outros prejuízos para a economia, os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com o tratamento de doenças associadas ao uso de álcool e às perdas da capacidade de trabalho em decorrência de acidentes de trânsito provocados por motoristas bêbados, desemprego e afastamento do trabalho custeado pela Previdência Social.

Homem deitado ao lado de um copo de uísque, a fotografia é escura

Colaboraram neste artigo
Departamento de Medicina Preventiva da EPM/Unifesp: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid)
Departamento de Psicobiologia da EPM/Unifesp: Unidade de Dependência de Drogas (Uded) e Núcleo de Pesquisa em Saúde e Uso de Substâncias (Nepsis), setores que são da Disciplina de Medicina e Sociologia do Abuso de Drogas (Dimesad)
Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp: Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) e Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Inpad/CNPq)

47 milhões de anos de vida são perdidos por incapacitação, diz OMS

A dependência de álcool é um dos quatro principais problemas relacionados ao trabalho. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 47 milhões de anos de vida são perdidos por incapacitação atribuídos ao seu consumo. O número anual de mortes diretamente relacionadas à substância, em todo o mundo, é de 774 mil pessoas, além de sua associação com acidentes automobilísticos, episódios de violência e agressão, atividade sexual não planejada e conflitos com a lei.

O uso do álcool está presente na nossa estrutura social, estando relacionado a momentos festivos e religiosos e, nos tempos atuais, estimulado por interesses econômicos. É a substância psicoativa lícita mais consumida no mundo e também uma das mais prejudicais à saúde pública, tanto em termos de morbidade como mortalidade. Das mortes atribuídas ao álcool, quase metade deve-se a acidentes (como afogamentos, queimaduras, intoxicações e quedas) ou a atos deliberados de violência contra si mesmo ou outros. Segundo o Relatório Global sobre Álcool e Saúde de 2014 da OMS, o álcool é consumido praticamente em todo o mundo.

Segundo estimativas, pessoas com 15 anos ou mais consumiram em torno de 6,2 litros de álcool puro em 2010 (equivalente a cerca de 13,5g por dia). No Brasil, estimava-se, na época, um consumo total de 8,7L por pessoa. Homens consumiam 13,6L por ano e mulheres 4,2L. Eliminados os abstêmios, a média sobe para 15,1L de álcool puro.

O uso nocivo de álcool destaca-se entre os fatores de risco de maior impacto para a morbidade, mortalidade e incapacidades em todo o mundo, estando associado a quase 6% de todas as mortes. Além disso, 22% dessas doenças e incapacidades estão relacionadas a violências interpessoais.

O consumo nocivo de bebidas alcoólicas, especialmente durante os episódios de intoxicação, está associado ao risco para a perpetração de atos violentos, incluindo homicídios, crimes sexuais e violência familiar. O abuso de álcool por agressores e/ou vítimas está presente em 30% a 70% dos casos de estupro. Uma proporção bastante variável de mulheres abusadas sexualmente (30 a 55%) refere história regular de uso de álcool e de outras substâncias. Estudos apontam para uma grande frequência de abuso e dependência de álcool entre mulheres vítimas de agressão sexual familiar, segundo as quais seus agressores estavam sob a influência de álcool em 53,3% dos casos.

Uma pesquisa realizada pelo Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, apurou que adolescentes que bebem excessivamente são influenciados pelo consumo dos pais. A pesquisa envolveu mais de 500 pacientes entre 12 e 17 anos, dos quais 86% são do sexo masculino. Desses, 256 afirmaram ter parentes que também fazem uso abusivo de álcool. O estudo mostra ainda que 4,36% dos entrevistados referem o álcool como droga que mais consomem. Dos entrevistados que apontaram o álcool como droga principal, 22% começaram a beber aos 13 anos de idade e 15% aos 11 anos.

Os efeitos do uso nocivo de álcool representam um relevante fardo na economia, uma vez que geram gastos públicos para o sistema de saúde, judiciário e de outras instituições. Estima-se em 30% as taxas de absenteísmo e de acidentes de trabalho causadas por dependência de álcool na Costa Rica. Na França, os acidentes de trabalho ocasionados pelo uso de álcool atingem números que variam de 10% a 20% do total de acidentes dessa natureza ocorridos no país.

• Dartiu Xavier da Silveira, Thiago Marques Fidalgo, Adriana Moro Maieski, Claudia Chaves Dallelucci – Proad

Binge potencializa os efeitos entre os jovens

A gravidade das consequências do consumo de álcool depende da frequência e das quantidades consumidas. Um padrão de consumo de risco que tem despertado interesse internacional e que nos últimos anos começou a ser investigado no Brasil é denominado de Binge Drinking (BD) ou “beber em binge”. Esse padrão é caracterizado pelo consumo de, no mínimo, quatro doses de álcool em uma única ocasião por mulheres e cinco doses por homens. Os episódios de uso abusivo agudo de álcool não apenas têm influência na mortalidade geral, mas contribuem para desfechos agudos como acidentes e agressões. O BD está associado a maiores índices de abuso sexual, tentativas de suicídio, sexo desprotegido, gravidez indesejada, overdose alcoólica, quedas, gastrite e pancreatite.

O álcool é a droga mais consumida pela população brasileira e, apesar de ser uma droga lícita, sua venda e consumo não são permitidos para menores de 18 anos. Apesar disso, estudo realizado pelo Cebrid, em 2010, em uma amostra nacional de estudantes de ensino fundamental e médio nas 27 capitais brasileiras, evidenciou que não só os adolescentes bebem, como o seu padrão mais comum é o BD. Cerca de três em cada dez adolescentes relatou que este comportamento ocorreu pelo menos uma vez no ano anterior à pesquisa.

O fato de uma criança experimentar bebida alcoólica na infância, mesmo que apenas um gole, aumenta em quase 60% a chance de ela ser uma praticante do beber em binge na adolescência. Além disso, este comportamento está associado a questões parentais, como a falta de percepção de punição. Adolescentes que acreditam que não serão punidos apresentam 2,2 vezes mais chance de se engajarem em binge na adolescência. Além disso, ser filho de mãe que bebe com frequência e estar em uma escola particular também aumentam a chance desta prática. Por fim, é mais comum que o binge ocorra entre adolescentes mais ricos. A associação entre classe socioeconômica e binge é mais forte nas regiões norte e nordeste do Brasil.

O BD também é o comportamento de risco mais prevalente em baladas em São Paulo. Estudo realizado em 2013, entre baladeiros dos mais diferentes perfis, evidenciou que cerca de 30% dos entrevistados saiu do estabelecimento com dosagem no sangue equivalente à prática de binge. O BD, nas baladas, multiplica por 9, para homens, e por 5, para mulheres, a chance de que ocorra um “apagão”, ou seja, que eles não saibam o que ocorreu após a saída do estabelecimento, quando comparados a baladeiros que beberam, mas não praticaram o binge.

As festas open bar favorecem este comportamento em ambos os sexos. O fato de cobrarem uma quantia fixa (em geral, baixa) e permitirem que o frequentador beba quanto quiser, “até cair”, faz com que este se sinta compelido a ingerir o máximo que pode. É crucial, por isso, que a sociedade debata a adequabilidade deste tipo de festas.

• Zila van der Meer Sanchez Dutenhefner – Cebrid

No Brasil, cresce a taxa de usuários frequentes

O Brasil tornou-se um dos principais mercados de substâncias psicoativas legais e ilegais. O aumento da renda per capita de uma nação é geralmente acompanhado por um elevado consumo de substâncias recreativas. Uma combinação de fatores, tais como uma indústria não regulamentada, um grande mercado e uma rede ampla e organizada de drogas ilícitas, pode levar a um resultado negativo e facilmente previsível. A obtenção de dados epidemiológicos é fundamental para estabelecer estratégias nacionais e locais para a prevenção, tratamento e controle do uso dessas substâncias.

No Brasil, como em muitas economias emergentes, há uma grande disponibilidade de álcool, graças à profusão de pontos de venda, à falta de regulamentação quanto a horários permitidos para sua comercialização e preços relativamente baixos. Embora as taxas de abstinência continuem idênticas nos últimos 6 anos (48% em 2006 e 52% em 2012, diferença não significativa), houve um aumento de 20% na proporção de bebedores frequentes (que bebem uma vez por semana ou mais), que subiu de 45% para 54%. Destaca-se um aumento maior entre as mulheres, de 29% em 2006 para 39% em 2012. Entre 2006 e 2012, houve um aumento significativo do consumo no padrão binge (5 ou mais doses na mesma ocasião), que passou de 45% para 59% entre bebedores.

Fotografia da equipe Uniad, aparecem seis mulheres e três homens. Eles estão na calçada, em frente a placa de identificação do local - Uniad/Inpad

Clarice Sandi Madruga, ao centro, com a equipe da Uniad/Inpad

Outra maneira de avaliar a forma como a população ingere álcool é calcular a distribuição do volume consumido: 5% dos adultos que mais bebem são responsáveis pela ingestão de 24% de todo álcool consumido por adultos e os 10% que mais consomem por 45%. A maioria (80%) da população bebe menos da metade (44%) de todo o álcool consumido no país e 20% bebem 56%.

O início do consumo do álcool na população jovem ocorre pouco abaixo dos 15 anos (3 anos antes da idade permitida por lei). Não há diferença entre os sexos na etapa inicial. Praticamente metade dos jovens consome álcool, e esta taxa é de 26% entre os menores de idade. Grande parte dos adolescentes e jovens que relataram beber fazem uso nocivo de álcool (em forma de binge).

A associação do consumo de álcool com violência é largamente conhecida. Contudo, a disponibilidade de dados referentes a este fenômeno ainda é escassa no Brasil. Na segunda edição do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), observou-se que 8% da população possuía pelo menos uma arma de fogo. Entre homens, a prevalência de andar armado era de 5% e esta proporção aumenta quando analisamos esse comportamento entre bebedores problemáticos (com abuso ou dependência de álcool), chegando a 10.3% entre adultos jovens (com menos de 30 anos de idade).

A proporção de homens que relatam terem se envolvido em alguma briga com agressão física, em 2015, aumenta exponencialmente quando são considerados fatores de risco, como uso de álcool e de substâncias ilícitas.

O consumo do álcool também aumenta a tendência a comportamentos agressivos, nas ruas e dentro de casa. A violência física na infância é um grande problema. Crianças que sofrem abuso precocemente têm maiores chances de desenvolverem doenças psiquiátricas e de se tornarem usuárias problemáticas de álcool e drogas ilícitas na vida adulta. O II Lenad constatou que dois a cada dez brasileiros já sofreram algum tipo de violência física na infância. Destes, em 20% dos casos a vítima relatou que o abusador havia ingerido alguma bebida alcoólica na situação de abuso.

Cerca de 6% dos brasileiros relataram terem sido vítimas de agressão física por seu parceiro(a). Observou-se relação com o consumo de álcool na metade destes casos.

• Clarice Sandi Madruga, Ilana Pinsky, Marcelo Ribeiro, Ronaldo Ramos Laranjeira, Sandro Mitsuhiro, Sergio Duailibi - Uniad/Inpad

Associação perigosa

A partir da década de 1990, aumentou o consumo de álcool associado a bebidas energéticas. Os primeiros estudos científicos controlados, em seres humanos e em animais de laboratório, sobre esta interação foram realizados no início dos anos 2000, pelos pesquisadores Sionaldo Eduardo Ferreira e Maria Lucia O. S. Formigoni. Eles demonstraram que as bebidas energéticas aumentam o efeito estimulante do etanol e potencializam a sensibilização (o efeito se torna progressivamente maior com uso crônico). Além disso, as bebidas energéticas induziram estimulação em animais que não apresentavam este efeito após a administração de etanol isoladamente. Se o mesmo ocorrer em seres humanos, o uso desta associação poderá levar a um aumento da proporção de pessoas com problemas associados ao uso de álcool. Usuários brasileiros relataram recorrer à combinação para reduzir os efeitos de sonolência e amplificar os efeitos estimulantes do álcool. Entretanto, foi demonstrado que embora a sensação subjetiva de embriaguez seja atenuada, os prejuízos na coordenação motora permanecem inalterados – ou seja há uma falsa sensação de estar menos bêbado, o que pode levar uma pessoa a julgar erroneamente que estaria em condições de dirigir ou realizar outras tarefas que requerem sobriedade.

Estudos realizados em outros países mostram que os sintomas de dependência surgem mais precocemente em jovens universitários que fazem uso de bebidas alcoólicas associadas a energéticos quando comparados àqueles que utilizam somente álcool em quantidades e frequência similares.

Efeitos prejudiciais do beber

32% dos adultos que bebem referiram já ter sido capaz de conseguir parar depois de começar a beber (21,8 milhões de pessoas).

10% referiram que alguém já se machucou em consequência do seu consumo de álcool (6,6 milhões de pessoas).

8% admitem que o uso de álcool já teve efeito prejudicial no seu trabalho (7,4 milhões de pessoas).

4,9% dos bebedores já perderam o emprego devido ao consumo de álcool (4,6 milhões de pessoas).

9% admitem que o uso de álcool já teve efeito prejudicial na sua família ou relacionamento (12,4 milhões de pessoas).

A fotografia mostra copos de chopp e outra bebida em uma mesa de bar

Medidas preventivas alcançam melhores resultados

O fato de o álcool ser uma substância legalizada e com poucas restrições quanto à sua comercialização contribui para a disseminação de uma falsa ideia de que ele não causaria sérios problemas. Além disso, apesar de haver uma legislação adequada, o mesmo não se aplica à sua fiscalização. A despeito de uma rigorosa lei de trânsito, que prevê punição para quem dirige sob qualquer nível de álcool no sangue, o Brasil ainda é recordista no número de acidentes e vítimas fatais associadas ao uso da droga.

As consequências desse uso são bem heterogêneas e variam em diversos países (questões culturais, econômicas, etc.). Segundo os dados do Relatório Global sobre Álcool e Saúde, da OMS, publicado em 2014, muitas destas mortes são decorrentes de acidentes, assassinatos ou suicídios e estão aumentando na maioria dos países monitorados. Além disso, na Rússia e em países do leste europeu, uma em cada cinco mortes de homens está relacionada ao uso de álcool, sendo esta substância associada a 8% das mortes de indivíduos entre 15 e 29 anos. Aproximadamente 3,3 milhões de mortes por ano, no mundo, estão relacionadas ao abuso de álcool, sendo 30% decorrentes de cirrose hepática.

No Brasil, alguns estudos indicam que 35% dos motoristas afirmam fazer uso de bebidas alcoólicas antes ou durante o ato de dirigir. Estudantes que ingeriram, pelo menos, uma dose de álcool tiveram uma chance quatro vezes maior de pegar carona com um motorista alcoolizado. Aqueles que relataram utilizar mais de cinco doses apresentaram uma chance cinco vezes maior de se envolverem em acidentes automobilísticos.

Os impactos do uso de álcool são consideráveis na sociedade. Por exemplo, há alguns anos, um grupo de pesquisadores da Unifesp analisou 726.429 internações hospitalares decorrentes do uso de substâncias psicotrópicas entre os anos de 1988 a 1999 e observou que o uso abusivo de álcool era responsável por 90% daquelas internações. Apesar dos dados alarmantes, segundo a OMS, até o início do ano 2000, somente 34 países adotavam oficialmente algum tipo de política para reduzir os danos provocados pelo uso do álcool. Existem poucas ações de prevenção com resultados comprovados cientificamente. O antigo modelo, baseado no amedrontamento, apresenta baixa efetividade e adesão.

As mais recentes linhas preventivas mostram melhores resultados na medida em que focam em habilidades, qualidade de vida e redução de riscos relacionados ao consumo. Na perspectiva de redução de riscos (potencial de dano), o projeto School Health and Alcohol Harm Reduction Project (SHAHRP), desenvolvido na Austrália pela professora Nyanda McBride, do National Drug Research Institute e adaptado na Irlanda do Norte, tem sido apontado como efetivo para mudança de comportamento e latência dos resultados ao longo dos anos. O projeto é conduzido por professores em dois anos subsequentes, com oito sessões/aulas no 1º ano e cinco sessões no 2º ano. As atividades são interativas e informativas, com técnicas de role-playing e exercícios de tomadas de decisões focadas na redução de riscos do álcool. No Brasil, com auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o projeto SHAHRP foi adaptado e avaliado em escolas particulares, recebendo o nome de Programa de Estímulo à Saúde e Redução de Riscos Associados ao Uso de Álcool Aplicado a Ambientes Educacionais (Perae). No primeiro ano, o programa foi aplicado pela equipe do Nepsis em quatro escolas, atingindo 266 alunos do oitavo ano do ensino fundamental. Com apoio do CNPq, está em curso um estudo exploratório para avaliar as adaptações do programa para estudantes de escolas públicas.

Apesar de existir uma regulamentação sobre horário de veiculação de propagandas sobre bebidas alcoólicas, as restrições são limitadas e as sobre bebidas com menor concentração alcoólica, como as cervejas, são muito frequentes. Além disso, as propagandas apelam para supostas propriedades do álcool como facilitador da desinibição social, associando seu uso a situações alegres, de riqueza e forte apelo sexual. A advertência obrigatória sobre riscos à saúde é veiculada em poucos segundos, de forma acelerada e ineficaz.

Por ser uma molécula pequena (CH3-CH2-OH), o álcool penetra facilmente nos tecidos do corpo humano, afetando praticamente todos os órgãos e causando os mais diversos problemas, incluindo gastrite, úlceras, cirrose, vários tipos de câncer (esôfago, intestino), problemas cognitivos, de memória, demência, hipertensão, alterações ósseas, etc. O seu uso abusivo durante a gravidez pode causar danos irreversíveis ao feto, tais como malformações craniofaciais, redução de peso e perímetro cefálico ao nascer e, o mais grave, problemas cognitivos e retardo mental.

Um dos primeiros estudos nesta área resultou na tese de doutorado Álcool e Teratogênese (1981) de Vilma A. Silva, orientada por Jandira Masur (1940-1990), na época, docente do Departamento de Psicobiologia e que havia sido autora da primeira tese de doutorado defendida no Programa de Farmacologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), em 1971, e uma das cientistas brasileiras pioneiras no estudo dos efeitos do álcool no sistema nervoso central. Foi desenvolvido sob sua orientação um estudo que mostrou não existir tolerância, mas sim sensibilização aos efeitos estimulantes do álcool. Essa linha de pesquisa foi continuada pelas pesquisadoras Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni e Isabel Marian Hartmann de Quadros, que, com diversos pós-graduandos, estudaram por mais de uma década, em animais, a importância da variabilidade individual no efeito estimulante do álcool. Assim como em seres humanos, alguns animais apresentavam efeitos estimulantes, reforçadores, mas outros não e isto pode ter uma importante relação com desenvolvimento do uso abusivo. Estes estudos ajudaram a entender as bases biológicas da dependência de álcool, um transtorno que atinge entre 10% e 15% da população adulta e traz muitas consequências deletérias à saúde física, mental e ao relacionamento social.

Para evitar problemas decorrentes do uso crônico de álcool, é essencial a sua detecção precoce e a oferta de intervenções breves – utilizadas para ajudar o usuário a reconhecer seus problemas e a motivá-lo a mudar seus hábitos. Esta é uma das principais linhas de atuação da equipe da Unidade de Dependência de Drogas (Uded) do Departamento de Psicobiologia, setor criado na década de 1980 por Jandira Masur e atualmente coordenado por Maria Lucia Formigoni e por José Carlos F. Galduróz. O desenvolvimento e validação, no Brasil, de um importante instrumento para detecção do uso de risco de álcool e outras drogas (Alcohol, Smoking and Substance Involvement Screening Test - Assist) associado à realização de intervenções breves, para adultos, foi desenvolvido na década de 1990 pela equipe da Uded em parceria com pesquisadores de diversos países, com o apoio da OMS, gerando alguns dos artigos mais citados na literatura da área. Na década seguinte, essas técnicas foram adaptadas para adolescentes por Denise De Micheli. De modo complementar às abordagens psicossociais, a equipe liderada por José Carlos F. Galduróz têm avaliado a efetividade de novas ferramentas farmacológicas para tratamento da compulsão de dependentes de álcool, tabaco e cocaína/crack.

O uso excessivo de bebidas alcoólicas e os problemas físicos decorrentes têm sido fortemente associados ao absenteísmo e aos inúmeros problemas de relacionamento no ambiente de trabalho e familiar. Em especial, a violência doméstica é um problema bastante complexo, que tem sido alvo de estudos do grupo coordenado por Ana Regina Noto.

• Ana Regina Noto, Denise De Micheli, José Carlos Fernandes F. Galduróz e Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni - Nepsis/Uded

Simbolo Lenad, desenho de uma garrafa sobre uma peça de quebra-cabeça Síntese dos resultados do II Lenad quanto ao consumo de álcool no Brasil

• Embora não tenha aumentado a quantidade de pessoas que bebem álcool no Brasil, houve um aumento do comportamento de uso nocivo.

• As mulheres são a população em maior risco, apresentam índices de aumento entre 2.006 e 2.012 e bebendo de forma mais nociva.

• Quase dois a cada dez bebedores consomem álcool de forma nocivas sendo bebedores abusivos ou dependentes.

• Houve uma diminuição no comportamento de beber e dirigir entre 2.006 e 2.012.

• Quase um a cada dez brasileiros possui arma de fogo, sendo que 5% dos homens andam armados. Este índice sobe para mais de 10% entre homens jovens bebedores abusivos.

• Quase um terço dos homens jovens bebedores abusivos já se envolveu em uma briga com agressão física no último ano. Este índice sobe para 57% entre os que também usam cocaína.

• Mais de dois a cada dez brasileiros relataram terem sido vítimas de violência física na infância. Em 20% dos casos, os pais ou cuidadores que agrediram haviam bebido.

• 6% dos brasileiros(as) sofreram violência doméstica no último ano. Em metade destes casos, o(a) parceiro(a) que exerceu a violência havia bebido.

• A depressão está associada ao beber problemático.

Fonte: http://inpad.org.br/lenad/

Publicado em Edição 06

À frente do projeto Estudos Preparatórios para a Introdução da Vacina da Dengue no Brasil, o infectologista e professor na Unifesp Marcelo Nascimento Burattini explica o atual panorama da epidemia de zika no país

Ana Cristina Cocolo
Com colaboração de Valquíria Carnaúba

Fotografia do mosquito aedes aegypti

Entreteses - Como se deu a participação da Unifesp em estudos que definirão o esquema de vacinação contra a dengue?

Marcelo Burattini - Em 2009, propus ao Ministério da Saúde (MS) uma série de estudos para caracterizar o perfil epidemiológico do país e, assim, definir a campanha de vacinação mais adequada quando a vacina estivesse disponível. A proposta ficou em discussão nos comitês Técnico Assessor de Imunizações (CTAI) e Técnico Assessor de Controle do Programa Nacional de Controle da Dengue (CTA - PNCD) durante três anos. Em 2012, definiu-se por quatro estudos que, juntos, vão avaliar diversos aspectos da ocorrência da dengue no Brasil para que possamos definir quais populações, em quais localidades e o melhor esquema a ser adotado, baseado em evidência científica.

 

Retrato do pesquisador Marcelo Burattini

Marcelo Burattini, em frente à diretoria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp)

E. Que estudos são esses? 

M.B. O primeiro estudo será uma revisão para levantar os casos de dengue que ocorreram no Brasil nos últimos 15 anos e fazer uma descrição clínicoepidemiológica (como se comporta, quais os sintomas, como se apresenta em diferentes regiões, qual a frequência de casos graves, quais as complicações, fatores de risco para hospitalização e óbito). Além dessa análise, está sendo realizado um inquérito nacional de soroprevalência, estratificado por idade. Ou seja, estamos em 63 municípios, cobrindo os estados do Brasil, com exceção do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, fazendo uma amostragem de 1.200 pessoas por município, com idades entre 1 e 20 anos. Os dados vão nos permitir calcular uma série de parâmetros epidemiológicos que são críticos para se definir a melhor política de vacinação. Temos mais dois estudos interligados que avaliam o tipo de resposta imunológica do nosso sistema de defesa ao vírus da dengue. Como acontece, quais são os antígenos principais envolvidos e outra questão, que é a dengue grave estar relacionada a uma hiperresposta inflamatória do sistema imune. Estamos tentando descobrir como funciona esse mecanismo.Por último, fechando a linha de pesquisa, com posse dessas informações e das características das vacinas disponíveis, que são providenciadas dentro dos ensaios clínicos de responsabilidade dos produtores, será elaborado um processo de tomada de decisão, baseado em lógica nebulosa, que vai considerar diferentes estratégias possíveis e escolher qual delas é mais adequada para o perfil epidemiológico de morbiletalidade da dengue no Brasil.

 

E. Por que Santa Catarina e Rio Grande do Sul foram excluídos da amostragem?

M.B. Por não apresentarem um perfil de Dengue endêmica. São estados muito frios. Se, em 2015, São Paulo registrou 650 mil casos, Santa Catarina apontou 1.200. Esse número não tem relevância em saúde pública. Escolhemos municípios com população entre 100 mil e 1 milhão de habitantes, que sejam polos regionais e que tenham tido, em ao menos três dos cinco anos analisados, ocorrência de dengue com incidência superior a 300 casos por 100 mil habitantes.

 

Histórico do mosquito Aedes aegypti e da dengue no Brasil

O mosquito Aedes aegypti tem origem africana e chegou ao país nos navios negreiros, reproduzindo-se nos depósitos de água dos barcos nas viagens da África para o Brasil

1865

Descrito o primeiro caso de dengue, em Recife (PE)

1872

Primeira epidemia no país, em Salvador, mata 2 mil pessoas

1903

Oswaldo Cruz implantou um programa de combate à febre amarela, também transmitida pelo mosquito

1916/ 1923

Há referências de epidemias de dengue em São Paulo e, em 1923, em Niterói (RJ), sem comprovação laboratorial

1955

O Aedes foi erradicado

1967

Relaxamento das medidas permitiu a reintrodução do vetor

1976

Falhas na vigilância epidemiológica e urbanização acelerada possibilitaram reinfestações no Rio Grande do Norte e no Rio de Janeiro

1981

Nova epidemia de dengue atinge Boa Vista (RR), onde foram isolados os vírus DEN-1 e DEN-4. Esse episódio marca o ressurgimento da doença no país

1986

Epidemia de dengue DEN-1 no Rio de Janeiro e várias áreas do Sudeste

1990

Introdução da dengue DEN-2 no Rio de Janeiro. Primeiro surto de dengue hemorrágica

1998

Epidemia com mais de 500 mil casos. A região Nordeste foi a mais afetada

2000

O vírus DEN-3 foi isolado no Rio de Janeiro, levando à nova epidemia que ocorreu entre 2001 e 2003 e atingiu vários estados do Sul

Fontes: Ministério da Saúde, Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), Aedes aegypti: histórico do controle no Brasil (artigo de Ima Aparecida Braga e Denise Valle, publicado no periódico Epidemiologia e Serviços de Saúde)

E. Quais desses estudos já possuem dados fechados?

M.B. Já temos compilado a revisão das análises clínicas e epidemiológicas da ocorrência da dengue no Brasil até 2015, em uma análise de morbiletalidade que permitiu a adequada caracterização e dimensionamento dos problemas de saúde relacionados à dengue no Brasil. O inquérito nacional de soroprevalência está sendo realizado em 63 municípios indicados conjuntamente pela coordenação do estudo e pelo Programa Nacional de Controle da Dengue. Esse trabalho está 85% concluído. Temos aproximadamente 50 mil soros analisados dos 66 mil previstos. Já sabemos hoje que a hospitalização e a mortalidade por dengue em relação à idade se concentra em crianças menores de 9 anos, com pico entre 5 e 6 anos, e em adultos acima de 60. O agravamento da dengue, a hospitalização e óbito estão relacionados com a região geográfica. As regiões Norte e Nordeste apresentam um risco maior que as regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste. Nós mostramos também que o risco de hospitalização e o óbito tem relação com o tipo da dengue. Os vírus 2 e 3 são os que oferecem maiores riscos de casos graves. Também identificamos que o intervalo de tempo entre o sintoma e o primeiro atendimento interfere na gravidade, hospitalização e óbito. Uma demora superior a três dias oferece um risco de 2 a 3 vezes maior; acima de 5 dias, até 6 vezes mais chances de hospitalização e morte. As gestantes também correm mais risco, particularmente a partir do terceiro trimestre. O resultado do terceiro estudo, que avaliará a resposta imune do organismo infectado pelo vírus da dengue, deverá ser finalizado no início do segundo semestre. No entanto, dados preliminares apontam que existe um componente de resposta imune celular que é muito importante na proteção à doença.

 

E. Quais são as perspectivas das vacinas que estão em desenvolvimento ou já em fase de testes?

M.B. Hoje temos seis vacinas. Cinco delas, bem adiantadas. Uma é da Sanofi Pasteur, licenciada para uso no Brasil, Nicarágua, México e mais alguns países. No Brasil, ela já tem registro na Anvisa, mas não tem o preço definido. Tem a vacina do Butantã, em conjunto com os National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos, que começou o protocolo de fase três, no início de março, e a previsão é que esse estudo se estenda por mais três anos, no mínimo. As demais estão no final do protocolo de fase dois.

 

E. Qual o motivo da resistência do Ministério da Saúde em adotar a imunização com a vacina da Sanofi?

M.B. Tem uma série de características da vacina descritas e promovidas pelo laboratório fabricante que não batem com os perfis prioritários que temos no Brasil. É por isso que o Ministério da Saúde ainda está estudando a forma de usá-la no programa. Por exemplo, a vacina da Sanofi está licenciada para a população com idade entre 9 e 45 anos. Ela deixa fora os dois extremos (menores de 9 e maiores de 60 anos) em que a doença oferece maior risco e não deve ser usada em gestantes. Essa vacina tem uma eficácia fraca, entre 50% e 60%, e é mais fraca para o sorotipo 2 da dengue, que oferece maior risco da doença grave. No sudeste da Ásia, o estudo de fase 3 expandida da vacina da Sanofi levou a um maior risco de hospitalização entre as crianças vacinadas quando comparadas às que não receberam a vacina, entre 2 e 9 anos de idade. Existe um comitê técnico assessor misto do Programa Nacional de Imunizações e do Programa Nacional de Controle da Dengue que está avaliando todas essas questões e deve propor se, quando e como a vacina deverá ser incorporada no Programa Nacional de Imunizações. Promover abaixo-assinados para que o governo adote a vacinação imediatamente é atitude de quem não conhece o assunto, porque, caso seja usada sem critério, pode inclusive piorar a situação: se a população e os governos, uma vez disponível a vacina, se sentirem seguros e relaxarem no combate ao vetor, a situação vai piorar. Exemplo dessa preocupação é o fato da dengue não causar mais alarme na população e nos governos, apesar dos números crescentes de casos e óbitos nas epidemias anuais. Assim, o combate ao vetor não era uma prioridade nacional até aparecer o Zika. Além disso, estudos que simulam intenção, feitos com a população, mostram que haveria um relaxamento nas medidas de controle do vetor se fosse oferecida uma vacina eficaz. Portanto, ainda existem muitos aspectos que precisam ser melhor conhecidos.

 

E. Pesquisadores verificaram uma rápida mutação genética mediante a qual o Aedes aegypti consegue sobreviver a temperaturas mais amenas, além de apresentar tamanhos e formatos de asas variados. Essa evolução genética pode comprometer o sucesso da vacina?

M.B. Toda variação que permita ao mosquito se adaptar melhor ao ambiente aumenta o risco da doença, mas não necessariamente compromete a vacina. Se a vacina for muito boa, com uma eficácia acima de 90%, ela vai levar a uma boa proteção da população humana em qualquer cenário. Mas se a vacina for intermediária, com uma eficácia entre 50% e 80%, pode ser pior vacinar a população se houver um aumento da população do mosquito.

 

E. Qual será o impacto de epidemia, caso seja comprovada a possibilidade de transmissão do zika pelo Culex quinquefasciatus, o pernilongo comum? 

M.B. Esse é um cenário bastante preocupante, mas ainda não está confirmado. Há maior população de Culex no mundo do que a de Aedes e a área de Culex é muito maior também. O Aedes é encontrado principalmente no cinturão intertropical estendendo-se na faixa de climas subtropicais e temperados quentes. Na região temperada não tem essa espécie. O Culex está presente no mundo inteiro, até no Canadá. Nas cidades, a população do Culex pode ser de até 50 a 100 vezes mais abundante que a do Aedes, porque ele aproveita água suja e limpa para se reproduzir. Se o vírus se adaptar ao Culex e o ciclo humano culex/homem/culex se confirmar, a epidemia vai ganhar outra dimensão.

 

fisioterapeuta atendendo uma bebê

Em Recife, a fisioterapeuta Cynthia Ximenes atende bebês com microcefalia e orienta as mães sobre como fazer os exercícios em casa para melhorar o desenvolvimento das crianças

E. Há a suspeita de que os casos de microcefalia estejam associados ao zika vírus. O que se cogita é que, provavelmente, muitos casos registrados como dengue são, na verdade, zika ou chikungunya. Esses vírus possuem características morfológicas e de proliferação semelhantes ou apenas a forma de apresentarem os sintomas?

M.B. A única coisa em comum entre o chikungunya, o zika e a dengue é o vetor. O quadro clínico é parecido nos três casos, assim como nas parvoviroses e nas infecções por outros enterovírus. Mesmo a febre amarela apresenta um quadro muito parecido em 70% a 80% dos casos, em uma determinada fase da doença. As pessoas apresentam febre, mal-estar, dor no corpo, cefaleia e manchas vermelhas no corpo. A intensidade e frequência dos sintomas varia de uma infecção para a outra. Um artigo recente mostra que os vírus da dengue são geneticamente muito relacionados, mas apresentam uma capacidade de produzir anticorpos muito distinta. Mesmo assim, há reação cruzada de um sorotipo com outro. Quem foi exposto ao sorotipo 1 pode ter teste positivo para o sorotipo 2, 3 ou 4. Quem for exposto a qualquer sorotipo e ficar imune, pode pegar a doença por outro sorotipo, com uma probabilidade menor, ou, se pegar, tê-la em uma forma mais branda. Contudo, em uma minoria dos casos, a pessoa nessas condições pode apresentar uma forma mais severa da doença. Discutiu-se muito tempo isso referente à dengue e à febre amarela. Quem vacinou para febre amarela e pegar dengue, por causa dessa reação cruzada, vai sofrer esse fenômeno de amplificação da doença? Isso não foi demonstrado até hoje. Com relação ao zika, ainda não temos essa informação. Esse é um vírus que está em estudo ainda. Como ele se comporta, como ele atinge uma população, se a pessoa que teve zika fica protegida o resto da vida, se ela tem chance de ter novamente, se ela pode pegar a infecção e não desenvolver sintomas clínicos, se isso tem implicação na transmissão ao feto, por exemplo, quanto tempo deve-se evitar a gestação pós-infecção, são respostas que ainda temos que buscar.

 

E. Em nenhum país do mundo esse problema da microcefalia atingiu proporções epidêmicas como no Brasil. Por quê?

M.B. A explicação oferecida pelo grupo que acompanha os casos do Nordeste é a de que o número de nascimentos no Brasil é muito maior que nos outros países afetados; isso, associado à grande epidemia de zika no Nordeste, permitiu a concentração de casos em um período de tempo curto o suficiente para levantar a suspeita e permitiu o reconhecimento da ocorrência. Por outro lado, o Brasil, seguramente, não notificava, nem de perto, a totalidade dos casos de microcefalia existentes. Isso faz com que o número atual, de mais de 5 mil, pareça muito grande comparado com os 150 casos ao ano que o Brasil notificava até então, amplificando o alerta ao máximo. Os Estados Unidos, que têm um número de nascidos vivos parecido com o nosso, computam entre 15 a 20 mil casos ao ano. Há um grupo que faz um trabalho com má-formação congênita cardiológica no Nordeste que tem um banco de dados com mais de 100 mil partos. Eles publicaram, em fevereiro, uma análise retrospectiva de 16 mil fichas de neonatos, de 2012 para cá, na qual relatam 6% de microcefalia. Isso corresponde a quase 6 mil casos só na região. Não houve um aumento de casos nesse período, apontando que a incidência é estável. Provavelmente, temos uma realidade não percebida de 5 a 10 mil casos de microcefalia por ano, na forma leve, que deve ser só de cabeça pequena, sem nenhuma repercussão clínica, e temos uma fração de casos extremos, que são as microcefalias graves, com alterações morfológicas importantes, que é semelhante à prevalência mundial (0,02%, 2 casos em cada 10 mil partos). Se for isso mesmo, o zika poderia ter despertado o alerta, mas não geraria o pânico que está gerando. Não falaríamos em um aumento de 20 ou 30 vezes no número de casos, estaríamos falando em um aumento de 15% ou 20%, significante, mas com menor alarme, sem dúvida. Então, isso também precisa ser melhor esclarecido. Estamos conduzindo um estudo na EPM/Unifesp, junto ao Amparo Maternal, ao Hospital São Paulo e às maternidades dos hospitais afiliados da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), sobre qual é a ocorrência prévia de microcefalia, de acordo com os critérios adotados pelo Ministério da Saúde. Os resultados serão apresentados até o final do ano.

 

Agente saúde trabalhando em um local com acúmulo de água parada

Atuação de agente de saúde durante o Programa de Combate à Dengue, em Curitiba, para o Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti (LIRAa), segundo o portal do Sistema Único de Saúde
(portalsaude.saude.gov.br)

E. Há possibilidade de haver uma epidemia conjunta por esses três vírus?

M.B. Há uma possibilidade de haver uma epidemia, vamos dizer assim, provocada pela ocorrência dos três vírus em uma mesma localidade. Em uma cidade grande, sim, mas em bairros diferentes. Em Biologia existe um teorema comprovado que se chama Princípio da Competição Excludente. Se você tiver três vírus competindo no mesmo ambiente, com o mesmo vetor, só um deles vai predominar e vai deslocar os outros dois. Mas em uma cidade como São Paulo é totalmente possível que na Zona Norte, por exemplo, ocorra a infecção por chikungunya, na Oeste dengue e Sul, zika. Não existe, de modo epidemiologicamente relevante, a possibilidade de um mesmo vetor transmitir os três vírus simultaneamente. O que é muito raro, mas pode acontecer, é a pessoa ser picada por mosquitos diferentes, cada um com um tipo de vírus e desenvolver as três infecções.

 

E. Sempre se estima que uma vacina leve entre três e cinco anos para sua distribuição. No entanto, um grupo liderado pelo Canadá promete a vacina contra o zika, para uso emergencial, já para novembro deste ano. Como explicar isso?

M.B. Esses três a cinco anos é quando tudo dá certo. Eles vão fazer uma vacina de Engenharia Genética, uma vacina recombinante, em que se pega parte do segmento do genoma do vírus zika e o coloca em algum cavalo ou em um ambiente de vacina inativada, que normalmente são muito seguros. Para ter um protocolo para uso em emergência, é permitido pular a etapa dos testes de segurança e eficácia em humanos. Então é possível ter uma vacina que vai ser usada sem estar propriamente validada. Isso oferece um risco maior e só deveria ser pensado em situações críticas. Para o ebola, por exemplo, foi pensado nisso e mesmo assim, no surto recente dessa doença, não se conseguiu fazer uma vacina em tempo hábil para sustar a epidemia. Em relação ao zika o risco é muito menor. O risco maior do zika é a má-formação do concepto. Como aplicar a vacina em uma gestante sem saber qual a reação que pode causar? Essa é uma questão que terá que ser discutida depois que se souber as características dessa vacina, como sua imunogenicidade, que é a capacidade de gerar a defesa do organismo, e qual a reatogenicidade, que é a capacidade de provocar reações.

 

E. Como o poder público deveria enfrentar os mais de 5 mil casos de microcefalia registrados no Brasil, suspeitos de ligação com o zika? 

M.B. O poder público está estruturando ambulatórios especializados em neurologia infantil para acompanhamento dessas crianças. Ainda tem muita coisa para ser feita, como exames oftalmológicos, pois a frequência de lesão ocular é muito grande; tem que fazer exame otológico para verificar alterações na audição; tem que aguardar essas crianças atingirem idade pré-escolar para ver se tem retardo mental, epilepsia, transtornos de atenção e hiperatividade ou de fala. Todas essas alterações menores, menos impactantes, são frequentes em doenças que afetam o sistema nervoso.

 

E. Houve pouco investimento no combate à dengue por parte do poder público? O que ocorreu para que a epidemia chegasse ao patamar que chegou?

M.B. Não creio que houve problema de investimento, mas sim de organização de resposta à saúde pública. Aí temos alguns mandamentos constitucionais, uma estruturação do sistema público brasileiro, com papéis definidos com relação aos governos federal, estadual e municipal. Existem conflitos na esfera administrativa das atribuições de responsabilidade. O Brasil tem um governo federal, 27 instâncias estaduais e cerca de 5.500 governos municipais. Quem tem que executar as ações em saúde pública é a instância municipal. Essas ações são planejadas e propostas centralmente. Depois são discutidas nas comissões tripartites, com a participação do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), para ser executado na esfera municipal, sob supervisão estadual, que se reporta ao governo federal. Obviamente, a adesão é diferente nos governos municipais. Há diferentes performances nas políticas públicas de combate à dengue e ao Aedes aegypti. Tem prefeito que atua de forma eficaz, outros são relapsos. Tem questões políticas inclusive. Esse é o primeiro fator, mas existe um outro pior em relação ao controle do mosquito: o controle do vetor não é feito como deveria pela população. A maior parte dos casos de procriação do mosquito está dentro das próprias residências. No domicílio e no peridomicílio imediato. E as pessoas estão alertas, sabem disso. O governo faz campanhas de como combater desde 1982.

 

E. Qual a saída para sensibilizar as pessoas sobre os riscos das epidemias desses vírus? 

M.B. Nós estamos acostumados a colocar a responsabilidade nos ombros de outras pessoas e até do próprio governo. O combate ao vetor não é obrigação do governo. Isso é uma obrigação nossa. Quando vou olhar o vaso de plantas da minha casa, a caixa d’água, um tambor onde armazeno água porque não tenho água suficiente. Jogar lixo nas ruas, resíduos, frascos, garrafas, pneus, sofás... Não adianta falar que a prefeitura não recolhe. Ela recolhe, mas no dia seguinte a montanha de lixo está igualzinha. Cada um de nós precisa fazer o que é necessário. Hoje, está sendo propagandeado que o agente de saúde pode entrar na residência. Essa lei existe há 15 anos. Foi proposta dentro de uma das ações do Programa Nacional de Controle da Dengue. O que acontece é que ela nunca foi aplicada. Precisamos parar de discutir essas questões. O Estado tem que exercer o seu poder e isso não é ser autoritário. Isso é cumprir a sua responsabilidade perante a sociedade. Agora, a sociedade tem que entender isso também. A pessoa que deixa uma laje cheia de água tem que entender que se a polícia entrar e multar, age corretamente, pois ela está pondo em risco não apenas a sua saúde, mas a de um conjunto de pessoas.

 

E. O senhor acredita que o surgimento de dois novos vírus no país, transmitidos pelo mesmo vetor da dengue, amadureça a questão do combate pela população?

M.B. Do ponto de vista de que as pessoas “se acostumaram” com o problema da dengue, o zika é uma vantagem. Foi um fato novo que voltou a despertar a atenção da sociedade e do governo para o controle do Aedes aegypti. O que está errado é que esse fato está sendo usado politicamente. Essa história de colocar guarda municipal, polícia militar e exército nas ruas, renumerando o pessoal, é propaganda política e não ação efetiva. Não adianta colocar 500 mil homens na rua para combater focos do mosquito, porque, 15 dias depois, surgirão os mesmos focos. Por isso, o Brasil abandonou a proposta de erradicação. A proposta é de controle. E controle implica ações permanentes, organizadas, com eficácia e efetividade, com distribuição e atribuições de responsabilidades entre todos os atores da sociedade. O resto é tapar o sol com a peneira. O zika é foco da mídia agora devido a ser um vírus novo e também em razão da microcefalia. Tivemos cinco mortes pelo zika. Já pela dengue foram quase 850, somente em 2015, e não teve o destaque da imprensa como deveria.

Casos de dengue e óbitos pela doença no Brasil (1990 a 2015) - dois gráficos mostram como o número de casos e óbitos vem aumentando ao longo dos anos
Fotografia em zoom de vários mosquitos

Breve histórico dos vírus da dengue, zika e chikungunya

Dengue

Transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, a dengue é uma doença viral que se espalha rapidamente no mundo. De origem espanhola, dengue significa melindre ou manha, referindo-se justamente à fraqueza e debilidade causada pela doença.

Nos últimos 50 anos, a incidência aumentou 30 vezes, com ampliação da região geográfica afetada para novos países e, na presente década, para pequenas cidades e áreas rurais. É estimado que 50 milhões de infecções por dengue ocorram anualmente e que aproximadamente 3,5 bilhões de pessoas morem em países onde a dengue é endêmica.

Nas Américas, a doença tem se disseminado com surtos cíclicos ocorrendo a cada 3 a 5 anos. No Brasil, a transmissão vem ocorrendo de forma continuada desde 1986, intercalando-se com a ocorrência de epidemias, geralmente associadas com a introdução de novos sorotipos em áreas anteriormente indenes ou alteração do sorotipo predominante. Os maiores surtos no Brasil ocorreram em 2013, com aproximadamente 1,3 milhão de casos notificados, e em 2015, com mais de 1,6 milhão de infectados que levou a 863 óbitos, o que representa um aumento de 82,5% em comparação ao ano anterior. Atualmente, circulam no país os quatro sorotipos da doença: DENV-1 (93,8%), DENV-2 (0,7%), DENV-3 (0,4%) e DENV-4 (5,1%).

Em mulheres grávidas, a infecção congênita não ocorre com frequência, mas é importante ficar atento aos riscos, como abortamento, óbito fetal e baixo peso ao nascer.

Zika

O zika vírus (ZKV) tem sua origem na floresta de Zika, perto de Entebbe (Uganda), onde foi isolado pela primeira vez, em 1947. Até o momento, são conhecidas e descritas duas linhagens: uma africana e outra asiática. Embora a primeira evidência de infecção humana pelo ZKV seja de 1952, o vírus permaneceu relativamente desconhecido até 2007.

O principal modo de transmissão ocorre por vetores. No entanto, está descrita na literatura científica a ocorrência de transmissão ocupacional em laboratório de pesquisa, perinatal e sexual, além da possibilidade de transmissão transfusional. Mais de 80% das pessoas infectadas não desenvolvem manifestações clínicas. A doença por vírus zika é descrita como uma doença febril aguda, autolimitada, com duração de 3 a 7 dias. 

Recentemente, foi observada uma possível correlação entre a infecção e a ocorrência de síndrome de Guillain-Barré (SGB) em locais com circulação simultânea do vírus da dengue. O aumento do número de recém-nascidos com malformações congênitas, particularmente a microcefalia, ocorrido em 2015 no país, tem sido associado à infecção pelo ZKV nos primeiros meses de gestação. Até janeiro desse ano, cerca de 3,8 mil crianças haviam nascido com microcefalia no país.

Chikungunya

É uma doença infecciosa febril, causada pelo vírus chikungunya (Chikv), que pode ser transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus. O termo chikungunya significa tornar-se dobrado ou contorcido, em referência à aparência curvada dos pacientes, motivada pelas intensas dores articulares e musculares.

O vírus circula em alguns países da África e da Ásia. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), desde o ano de 2004, o vírus já foi identificado em 19 países. Naquele ano, um surto na costa do Quênia propagou o vírus para Comores e outras ilhas do oceano Índico, chegando, em 2006, à Índia, Sri Lanka, Maldivas, Cingapura, Malásia e Indonésia. Nesse período, foram registrados aproximadamente 1,9 milhão de casos – a maioria na Índia. 

Em 2007, o vírus foi identificado na Itália. França e Estados Unidos também registraram casos em 2010, mas sem transmissão autóctone (quando a pessoa se infecta no local onde vive). Recentemente o vírus foi identificado nas Américas.

Em 2014, foram notificados 3.657 casos autóctones suspeitos da doença. Em 2015, esse número chegou a quase 21 mil. Destes, 7,8 mil foram confirmados, com três óbitos. 

A transmissão do vírus de mãe para filho na gravidez é incomum. Mas se a gestante for infectada no período próximo ao parto, o bebê pode apresentar sintomas da doença e manifestações graves (em até 50% dos casos). Entre os casos graves, a maioria envolve danos ao sistema nervoso central, complicações cardíacas e na pele (bolhas).

 

Fontes: 

Ministério da Saúde (MS); 

Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS); 

Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC);

BRAGA, Ima Aparecida; VALLE, Denise. Aedes aegypti: histórico do controle no Brasil. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, v. 16, n. 2, p. 113-118, abr/jun. 2007. Disponível em: <http://scielo.iec.pa.gov.br/scielo.php?pid=S1679-49742007000200006&script=sci_arttext>. Acesso em: 31 mar. 2016.

Publicado em Edição 06

Principal causa de mortes evitáveis no mundo

O tabaco é hoje a principal causa de mortes evitáveis em todo o mundo e está associado a aumento no risco de múltiplos problemas de saúde, como doenças cardiovasculares, respiratórias e diversos tipos de cânceres, afirma Zila van der Meer Sanchez Dutenhefner, do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabagismo é a principal causa de morte evitável no mundo. Dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) mostram que 10% dos fumantes chegam a reduzir sua expectativa de vida em 20 anos. No entanto, o controle publicitário sobre o tabaco, ocorrido a partir de 1988, já reflete mudanças de comportamento bastante significativas, explicam pesquisadores do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad).

Fotografia mostra uma gestante segurando um cigarro

Colaboraram neste artigo
Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp: Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) e Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad)
Departamento de Medicina Preventiva da EPM/Unifesp: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid)
Departamento de Psicobiologia da EPM/Unifesp: Núcleo de Pesquisa em Saúde e Uso de Substâncias (Nepsis)

Campanha reduz consumo no Brasil

Os danos do cigarro à saúde são amplamente conhecidos. Desde o estudo clássico de Doll e Hill, que comprovou a relação causal do cigarro com o câncer de pulmão, a literatura médica vem associando o tabagismo às mais variadas doenças. O cigarro é considerado o principal fator de risco modificável para as doenças do sistema cardiovascular, por estar intimamente relacionado ao processo de aterosclerose e seus desdobramentos. Além dos acometimentos letais, o tabagismo predispõe a uma série de doenças incapacitantes: fumar aumenta o risco de demências, como a doença de Alzheimer e a demência vascular, assim como acelera a piora de condições neurodegenerativas, como a esclerose múltipla. 

Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP), o tabagismo associado ao uso de álcool aumenta em 20 vezes a chance de desenvolver algum câncer. O espectro de morbidade que o cigarro deflagra inclui doença pulmonar obstrutiva crônica, doenças autoimunes, disfunção erétil e menopausa precoce. O tabagismo passivo também é perigoso, especialmente na gestação, estando associado a sofrimento fetal e descolamento de placenta. 

Uma importante estratégia de combate ao tabagismo é a restrição publicitária. No Brasil, medidas que regulamentam a veiculação de publicidade dos cigarros ocorrem desde 1988, com a implementação da obrigatoriedade da frase "O Ministério da Saúde adverte: fumar é prejudicial à saúde" nas embalagens de derivados de tabaco. A partir de então, outras medidas de grande relevância foram instituídas, como impressão de imagens agressivas nas embalagens de cigarro e proibição de publicidade em revistas, outdoors, televisão e rádio. O impacto de tais medidas é altamente significativo em níveis epidemiológicos: pesquisa da Organização Panamericana da Saúde (Opas), divulgada em 2013, aponta que um em cada três fumantes cessaram o tabagismo desde 1988, ano de início da restrição publicitária. Além disso, pesquisa do Ministério da Saúde de 2008 aponta que cerca de 65% dos entrevistados pensaram em parar de fumar devido à influência das imagens de advertência presentes nos maços de cigarros.

Um estudo de 2005 sobre custos diretos do tabagismo à saúde pública no Sistema Único de Saúde (SUS) revela dados alarmantes. Nele, foram mensurados custos totais e atribuíveis ao tabagismo para três grupos de doenças relacionadas ao uso de tabaco (câncer, doenças do aparelho circulatório e do respiratório) em indivíduos maiores de 35 anos. Foram considerados valores gastos com internações e quimioterapia (em caso de neoplasias). Dos cerca de 1,3 bilhão de reais gastos pelo governo federal para tratamento desses grupos de doenças, aproximadamente 338,7 milhões de reais foram atribuíveis diretamente ao tabagismo (27,6% do total). Relatou-se, ainda, que esses valores estão subestimados, por não considerar gastos municipais e estaduais. Além disso, os custos indiretos (diminuição de produtividade) e os custos intangíveis, como sofrimento dos pacientes e familiares, também não foram considerados.

A prevalência do tabagismo no Brasil sofreu uma queda substancial nas últimas décadas. Tal redução pode ser atribuída às ações desenvolvidas pelo Programa Nacional de Controle do Tabagismo e outros fatores de Risco de Câncer (PNCTOFRC), como restrição da disponibilidade, controle do marketing e comercialização, atividades educativas nas escolas, melhora no atendimento primário e controle do consumo em locais públicos e de trabalho. Dados disponíveis no Observatório da Política Nacional de Controle do Tabaco, do Inca, mostram que, em 1989, 34,8% da população acima de 18 anos era fumante, de acordo com a Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN). Uma queda expressiva foi observada no ano de 2003, segundo a Pesquisa Mundial de Saúde (PMS), no qual o percentual observado foi de 22,4%. No ano de 2008, a Pesquisa Especial de Tabagismo (Petab) apontou 18,5% de fumantes e, em 2013, o índice total de adultos fumantes foi de 14,7%, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS).

Fotografia da equipe Proad, são quatro homens e duas mulheres, sentados em um muro baixo. Eles olham para a câmera e sorriem.

Thiago Marques Fidalgo com a equipe do Proad

A regulamentação publicitária, como já descrito, teve papel importante nos resultados encontrados. Em estudo realizado entre adolescentes dos 11 aos 18 anos, foi encontrada em apenas sete anos uma diminuição de 24% do uso dos derivados de tabaco. A proibição total do fumo em ambientes fechados de uso coletivo, privados ou públicos, foi aprovada por 71,1% da população que participou de uma consulta pública de 2007, evidenciando o interesse da população em promover ambientes saudáveis. Em pesquisa realizada um mês após a implementação da lei, o apoio foi de 94%, com aumento de cerca de 30% na procura de tratamentos para abandonar o uso.

• Dartiu Xavier da Silveira, Thiago Marques Fidalgo, Cláudio Augusto Bernardelli de Gaspar, Marcelo Polazzo Machado, Mariana Pimentel Padua do Lago, Vitor Soares Tardelli - Proad

Também os jovens fumam cada vez menos

Um estudo comparativo das tendências no uso de tabaco entre adolescentes brasileiros identificou uma redução significativa em 9 das 10 capitais de Estados brasileiros investigadas nos últimos 20 anos, tendo atingido suas menores prevalências históricas em anos recentes. A maior queda foi encontrada em Fortaleza, onde o predomínio era de 23% em 1993 e chegou a 8% em 2010. 

Essa queda ocorreu muito provavelmente como reflexo das ações de ponta do Brasil no controle do tabagismo, tendo sua liderança no processo de elaboração da Convenção-Quadro para Controle do Tabaco, da Organização Mundial da Saúde, refletido na mudança radical da legislação brasileira para esse tema. 

A referida convenção, um marco na história da saúde pública mundial, sugere medidas restritivas nas áreas de publicidade, patrocínio, tabagismo passivo, comércio, preços e tratamento para fumantes, reduzindo, assim, tanto a oferta, quando a demanda de tabaco e estipulando regras claras para o consumo em ambientes públicos.

No entanto, apesar da importante queda no consumo de tabaco entre brasileiros nos últimos anos, em decorrência da sólida política antitabagista, que engloba especialmente a proibição de propagandas e ambientes livre de fumo, o tabaco ainda tem um impacto significativo na saúde pública brasileira, sendo a segunda droga mais consumida pela população, perdendo espaço apenas para o álcool.

Fatores psicossociais diversos têm sido associados ao início do uso de cigarros por adolescentes, incluindo a pressão dos colegas, falta de supervisão dos pais, tabagismo dos familiares próximos e atividades noturnas de lazer. Estudo brasileiro realizado com estudantes da cidade de São Paulo evidenciou que cerca de 4% dos estudantes de ensino médio reportaram uso pesado de álcool, isto é, consumo em 20 dias ou mais nos últimos 30 dias, enquanto cerca de 14% deles declarou ter fumado pelo menos uma vez nesse mesmo período.

Ser mais velho e estar exposto a fumo passivo em casa aumentou em cerca de 70% a chances de um adolescente paulistano ter relatado uso recente de tabaco. Adolescentes que reportaram constante frequência a festas e baladas tinham de 9 a 14 vezes mais chance de fumar do que os que saíam com menor frequência para esses eventos. Para as meninas, os dados sugerem que o consumo recente de tabaco esteve também associado a uma percepção de falta de atenção e cuidados dos pais e ausência de frequência a práticas religiosas. 

Por fim, destaca-se um esforço do governo nos últimos anos na divulgação de serviço integral de tratamento do tabagismo em todas as regiões do Brasil. Por meio do número de telefone 136, a população pode ser informada sobre formas e motivos para abandonar o consumo de tabaco e locais de tratamento no Sistema Único de Saúde mais próximos de sua moradia. 

• Zila van der Meer Sanchez Dutenhefner – Cebrid

Gráficos 'Prevalência de Fumantes' São gráficos que mostram a porcentagem de fumantes em regiões do Brasil, por genêro e adolescentes, nos anos de 2006 e 2012. O número de fumantes diminuiu entre 2006 e 2012.

Dependência desafia programas

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 17,1% das pessoas de 15 anos ou mais fumam cigarros no Brasil, sendo que 85,4% delas o fazem diariamente. Desemprego, baixo grau de escolaridade e poder aquisitivo, idade entre 30 e 59 anos, foram fatores associados ao maior risco de fumar. Apesar das estratégias do governo brasileiro de combate ao tabagismo terem avançado nos últimos anos, os dados ainda confirmam o considerável impacto que o consumo do tabaco tem na saúde pública. Embora a maioria dos fumantes declararem intenção de parar de fumar, apenas cerca de 3% conseguem sem ajuda formal.

O tratamento foi padronizado e disseminado no país. Apesar dos avanços conquistados, as recaídas ainda são bastante frequentes no processo de tentativa de parar de fumar. Assim, o programa de prevenção de recaída (PR), desenvolvido por Marlatt e Gordon (1993), passou a ser uma importante ferramenta terapêutica.

Um dos mais recentes avanços da prevenção de recaídas é a incorporação de práticas de Mindfulness Based Relapse Prevention (MBRP). Mindfulness é a habilidade de manter atenção plena que pode ser desenvolvida por práticas baseadas em conhecimentos orientais de meditação. Estudos clínicos indicam que o MBRP apresenta resultados superiores aos de abordagens de prevenção de recaída tradicionais. No Brasil, a nova abordagem está sendo estudada pelo MBRP-Brasil, um núcleo de pesquisas vinculado ao Nepsis, do Departamento de Psicobiologia, que visa o desenvolvimento de pesquisas e formação profissional. Com apoio da Fapesp e do CNPq, estão sendo concluídos os primeiros ensaios clínicos de efetividade do MBRP entre fumantes. Os resultados são positivos na medida em que indicam a aceitação pela população e melhores índices de resposta ao tratamento. O MBRP também está sendo avaliado como alternativa para mulheres com insônia em uso crônico de benzodiazepínicos. Os resultados também têm sido promissores, tendo o MBRP como adjunto ao processo de redução ou retirada da medicação.

• Ana Regina Noto – Nepsis

Publicado em Edição 06
Quarta, 25 Maio 2016 16:11

Nova esperança para o diagnóstico

Pesquisa abre perspectivas para a identificação de metástases em linfonodos de pacientes acometidos por carcinomas de cabeça e pescoço

Valquíria Carnaúba

Ilustração de uma cabeça de perfil, com sinal vermelho na área do pescoço

Em 2015, Ana Carolina de Carvalho, doutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Biologia Molecular da Unifesp, venceu a primeira edição do Prêmio de Inovação do Grupo Fleury (PIF), na categoria Jovem Pesquisador, graças à sua tese intitulada Avaliação do Perfil de Expressão de MicroRNAs (miRNAs) como Marcador de Diagnóstico de Metástases Cervicais em Pacientes com Carcinoma Epidermóide de Cabeça e Pescoço. O trabalho traz novas perspectivas ao diagnóstico de metástases em linfonodos de pacientes acometidos por carcinomas epidermoides de cabeça e pescoço (CECP). 

Orientada por André Luiz Vettore, professor adjunto do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp – Campus Diadema, a pesquisadora avaliou o comportamento de 667 microRNAs (miRNAs) colocados em contato com amostras de gânglios linfáticos de pacientes com CECP. Dentre as conclusões, destaca-se a identificação de duas dessas moléculas como potenciais marcadoras da presença de células tumorais devido ao seu alto nível de expressão em linfonodos malignos.

O doutorado revela conceitos inéditos no meio científico, a exemplo do miRNA. Composto por cerca de 20 a 22 nucleotídeos, compõe uma nova classe de reguladores da expressão gênica em plantas e animais cuja existência, até meados de 2001, era desconhecida. “Antes acreditávamos que a célula regulava apenas a produção do RNA mensageiro (RNAm) e que uma vez sintetizado ele iria ao citoplasma atuar na síntese de proteínas. Agora sabemos que os miRNAs também são importantes reguladores nesse processo, podendo aderir ao RNAm e impedir a produção de proteínas”, afirma Vettore.

A literatura médica inclusive aponta que o miRNA influencia diversos processos relacionados ao câncer, como apoptose (morte celular programada), proliferação celular, controle do ciclo celular, migração e metabolismo. E, segundo Vettore, variações nos níveis de determinados miRNAs podem ser associadas ao fenótipo tumoral.

Atualmente, mais de 1.400 dessas moléculas foram decifradas no ser humano, porém a análise conduzida no âmbito da Unifesp, iniciada há cinco anos, considerou o comportamento de apenas 667, em amostras de gânglios linfáticos de pacientes com CECP. 

Os carcinomas, de modo geral, são distinguidos de acordo com sua extensão (TI, TII, TIII e TIV) e com a presença de metástases (células tumorais primárias) em linfonodos regionais. Quanto mais avançado o tumor, maiores as chances de enviar metástases por meio do sistema linfático. O estudo avaliou a variação e o comportamento dos miRNAs em amostras de linfonodos metastáticos e não metastáticos.

Metodologia de seleção

Ana Carolina analisou o caso de 48 pacientes (cujo perfil consta no gráfico da próxima página) acometidos por carcinomas epidermoides na parte inferior da cavidade oral (assoalho bucal, gengiva inferior, língua, região retromolar inferior e vestíbulo), classificados clinicamente nos estágios TI, TII e TIII e tratados cirurgicamente no Hospital do Câncer de Barretos entre os anos de 2000 e 2012. 

Amostras de gânglios linfáticos emblocados em parafina dos 25 casos metastáticos foram submetidas a cortes histológicos e dissecadas manualmente. O RNA foi extraído apenas da região contendo o depósito metastático; dos 23 casos não metastáticos, o RNA total foi extraído de cortes obtidos dos diferentes níveis dos linfonodos. 

A comparação da expressão global dos 667 microRNAs nas amostras metastáticas e não metastáticas foi feita por meio da Reação em Cadeia da Polimerase (RT-PCR, do inglês Reverse Transcription Polymerase Chain Reaction), método que combina amplificação (criação de múltiplas cópias) de ácidos nucleicos com um mecanismo de quantificação baseado em emissão de fluorescência, permitindo simultâneos aumento, detecção e quantificação desses ácidos nucleicos.

O comportamento desses miRNAs foi averiguado em quatro amostras de linfonodos metastáticos e duas amostras de linfonodos não metastáticos de pacientes com tumores de língua. Essa observação revelou que 439 microRNAs apareciam em pelo menos uma das amostras avaliadas.

Duas fotos. Na primeira delas, um homem com jaleco branco trabalha em um laboratório. Na segunda foto, é mostrada uma caixa com as amostras.

A extração dos miRNAs é feita a partir de amostras de linfonodos cervicais emblocados em parafina

Para selecionar os candidatos mais relevantes que pudessem diferenciar os dois grupos, os pesquisadores utilizaram o critério de False Discovery Rate (FDR), que evidencia a proporção esperada de hipóteses nulas rejeitadas erroneamente. Com isso, restaram 220 miRNAs diferencialmente manifestos entre os dois grupos. Os 25 que apresentavam níveis maiores de expressão foram submetidos à clusterização hierárquica não supervisionada, ou seja, exame de semelhanças e confronto entre dados sem critérios preestabelecidos. 

Nessa classificação prévia, a expressão de oito microRNAs foi maior ou igual a 100 vezes nas amostras metastáticas, a saber: hsa-miR-139-3p, hsa-miR-200a, hsa-miR-200c, hsa-miR-203, hsa-miR-205, hsa-miR-382, hsamiR-628-5p e hsa-miR-758.

Vale ressaltar que o nome de cada miRNA é composto pela junção de determinadas informações. Tomando como exemplo o hsa-miR-200c, a sigla HSA se refere à Albumina Sérica Humana (Human Serum Albumin), proteína mais abundante no soro sanguíneo; o 200 indica que foi a ducentésima família descoberta; e o c informa que esse miRNA está relacionado a outro miRNA, provavelmente o denominado hsa-miR-200a.

Grafico - Características demográficas dos pacientes incluídos neste estudo. Idade 25% < 50 anos, 75%> 50 anos. Sexo 79,2% Masculino, 20,8% Feminino. Tabagismo 25% não, 66,7% sim, 8,3% dados não disponíveis. Etilismo 39,6% não, 52,1% sim, 8,3% dados não disponíveis.

Resultados

Após a primeira fase exploratória, o comportamento dos oito miRNAs citados foi testado em um grupo independente de 14 amostras de linfonodos com macrometástases, 5 amostras de linfonodos com micrometástases e 15 amostras de linfonodos não metastáticos. 

Nenhuma alteração em amostras não metastáticas foi detectada, mas as proteínas hsa-miR-200a, hsa-miR-200c, hsa-miR-203, hsa-miR-205 e hsa-miR-382 apresentaram uma resposta diferencial significativa entre os três grupos – por isso, foram considerados 100% específicos.

Os miRNAs hsa-miR-200a, hsa-miR-200c, hsa-miR-203 e hsa-miR-205, finalmente, que melhor distinguiam os linfonodos metastáticos dos não metastáticos, foram novamente testados, dessa vez em todas as amostras incluídas nesse estudo (25 linfonodos metastáticos e 23 não metastáticos), considerando sensibilidade, especificidade, acurácia, valor preditivo positivo e negativo e área sob a curva ROC (Receiver Operator Characteristic, ferramenta que descreve a quantidade total de metabólitos presentes no organismo).

Dois deles, hsa-miR-203 e hsa-miR-205, tiveram os melhores desempenhos em todos os indicadores. Assim sendo, são promissores marcadores moleculares para o diagnóstico de metástases nos linfonodos de pacientes acometidos pelo CECP.

Relevância e aplicações práticas

O câncer de cabeça e pescoço é uma doença com alta incidência e mortalidade. Ele aparece comumente na cavidade oral (lábios, palato duro, língua, gengiva e assoalho), na faringe e na laringe. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) estimou para o ano de 2012 cerca de 14.000 novos casos de tumores de cavidade oral, a quinta neoplasia mais frequente em homens - com 9.900 casos. Desses tumores, mais de 90% são do tipo CECP.

Os dados alarmantes refletem o grande desafio da Medicina no que diz respeito ao diagnóstico e ao tratamento da doença. “O câncer de cabeça e pescoço pode ser confundido com uma afta que não sara. Mesmo quando identificado e tratado, reaparece com frequência. As chances de sucesso da terapia, que consiste na retirada cirúrgica da lesão e tratamento com rádio e quimioterapia, giram em torno de 50%, principalmente por causa da reincidência apresentada pelos tumores”, pontua o professor.

Fotografia da premiação. São três homens em um palco, o professor está no centro segurando o prêmio

O trabalho orientado pelo professor da Unifesp André Luiz Vettore foi classificado no Prêmio de Inovação do Grupo Fleury na categoria Jovem Pesquisador

Já para os estágios iniciais, conforme Vettore, não há rotina preestabelecida. “Algumas instituições ao redor do mundo adotam o protocolo ‘esperar para ver’: tratar o tumor sem abordar o pescoço, porém, as estatísticas mostraram que de 30 a 60% desses pacientes desenvolveram a doença no pescoço e precisaram ser tratados no futuro. Outras instituições adotam a prática de retirar os linfonodos, mesmo em casos de tumores iniciais, mas, de 50% a 80% dos casos operados não apresentaram a doença no local, ou seja, não precisariam ser tratados. Não há um consenso, a decisão é muito difícil”.

Por isso, o futuro reserva grandes utilidades para esses miRNAs. “Existe um exame que se faz nos gânglios linfáticos para saber se há neles células tumorais, por meio de Punção Aspirativa Por Agulha Fina (PAAF), cujo diagnóstico é feito por um citopatologista. Com o novo método, a detecção seria mais simples e poderia ser feita em um pequeno tubo de análise. Uma segunda utilidade para esse teste seria que, às vezes, na sala de cirurgia, para tomar a decisão de esvaziar ou não o pescoço, um patologista examina os linfonodos e verifica se há células tumorais. Estamos propondo que, em um futuro próximo, o teste seja executado durante o ato cirúrgico, auxiliando a equipe médica na tomada de decisão. A terceira utilidade poderia ser a ajuda na classificação dos linfonodos como metastáticos ou não, contribuindo para uma melhor definição da forma de tratamento a ser empregada”, afirma o professor da Unifesp.

Genética Molecular: Mais de 140 Anos de Descobertas

DNA • Apesar de o ácido desoxirribonucleico ter sido descoberto em 1869 por Johann Miescher, foram os cientistas James Watson e Francis Crick que ganharam o Prêmio Nobel por desvendarem, em 1953, a estrutura da molécula de DNA. Comumente designada como um longo polímero de unidades simples (monômeros) de nucleotídeos, sua cadeia principal é formada por moléculas intercaladas de fosfato e de açúcares; a estas últimas sempre se liga uma base nitrogenada, que pode ser adenina, guanina, timina ou citosina. A descoberta, que prometia revolucionar a Medicina e a Biologia, tomou tamanha proporção que culminou na criação do Projeto Genoma Humano (1990), cujo sequenciamento foi concluído em 2003 com 99,99% de precisão.

RNA • Miescher encontrou o ácido ribonucleico (RNA) em núcleos celulares na mesma época da descoberta do DNA. No entanto, o papel do RNA na síntese de proteínas só foi definido em 1939. Após 1951, foram identificados os tipos de RNA úteis a esse processo: o RNA mensageiro (mRNA), o RNA de transferência (tRNA) e o RNA ribossomal (rRNA).

RNA de Interferência • Células saudáveis possuem DNA de fita dupla e RNA de fita simples. A aparição de um RNA de fita dupla (fdRNA) geralmente indica a presença do genoma de um vírus de RNA. A interferência por RNA (RNAi) foi descoberta em 1986 pelo geneticista molecular Richard Jorgensen e descrita na década de 1990 pelos pesquisadores Andrew Fire e Craig Mello como um mecanismo de proteção da célula contra esse tipo de vírus de RNA. Quando um fdRNA se forma, é identificado pela enzima Dicer, que o corta em fragmentos menores com até 23 pares de bases. A fita de RNA que permanece intacta, chamada de RNA de interferência, busca fitas de mRNA correspondentes às sequência de fdRNA original. Quando mRNA desse tipo é detectado, ocorre o pareamento com o RNAi, sendo então clivado e degradado. Como o mRNA não pode ser traduzido, o gene tem sua expressão reduzida.

* Com a colaboração de Neusa Pereira Silva, Professora Associada da Disciplina de Reumatologia do Departamento de Medicina da Unifesp, atualmente aposentada

Artigos relacionados:

SONAGLIO, Viviane; CARVALHO, Ana C.; TOLEDO, Silvia R. C.; SOUZA, Carolina S.; CARVALHO, André L.; PETRILLI, Antonio S.; CAMARGO, Beatriz; VETTORE, André L. Aberrant DNA methylation of ESR1 and P14ARF genes could be useful as prognostic indicators in osteosarcoma. OncoTargets and Therapy, v.6, p. 713 – 723, 17 jun. 2013. Disponível em:< http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23836983 >. Acesso em: 28 jan. 2016.

LONGO, Ana L. B.; RETTORI, Marianna M.; CARVALHO, Ana C.; KOWALSKI, Luiz P.; CARVALHO, André L.; VETTORE, André L. Evaluation of the methylation profile of exfoliated cell samples from patients with head and neck squamous cell carcinoma. Head and Neck, v. 36, n. 5, p. 631-637, maio 2014. Disponível em: < http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23595968 >. Acesso em: 28 jan. 2016.

CARVALHO, Thais G.; CARVALHO, Ana C.; MAIA, Danielle C. C.; OGAWA, Juliana K.; CARVALHO, André L.; VETTORE, André L. Search for mutations in signaling pathways in head and neck squamous cell carcinoma. Oncology Reports, v. 30, n. 1, p. 334-340, jul. 2013. Disponível em: < http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23670291 >. Acesso em: 28 jan. 2016.

RETTORI, Marianna M.; CARVALHO, Ana C.; LONGO, Ana L. B.; OLIVEIRA, Cleyton Z.; KOWALSKY, Luiz P.; CARVLHO, André L.; VETTORE, André L. Prognostic significance of TIMP3 hypermethylation in post-treatment salivary rinse from head and neck squamous cell carcinoma patients. Carcinogenesis, v. 34, n. 1, p. 20-27, jan. 2013. Disponível em: < http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23042095 >. Acesso em: 28 jan. 2016.

Publicado em Edição 06

Carolina R. Córdula
Pós-Doc do Programa de Biologia Molecular da Unifesp

Crianças e professora sentadas em círculo, mexendo com plantas

Estudantes participam de oficina sobre meio ambiente, ministrada pela Prof.ª Aline Mendes

O conceito de extensão universitária ainda me era confuso quando ingressei na universidade. Somente tive oportunidade de vivenciar tais ações em toda sua magnitude na pós-graduação. Durante o mestrado e doutorado, fui orientada pela professora Helena Nader dentro do Programa de Pós-graduação em Biologia Molecular da Unifesp. Em 2008, ela convocou os alunos de pós-graduação, técnicos e docentes para propor a remontagem de um curso de atualização para professores de Ciências e Biologia do ensino básico da rede pública (denominado Papem, à época). O curso já havia acontecido em 1999 e em 2002, como resultado final de um curso de didática para pós-graduandos, coordenado pela professora Marimélia Porcionatto.

Na edição de 2002, o Papem foi selecionado pelo governo do Estado de São Paulo para capacitar os professores dentro do Programa Pró-Ciências. Ao final dele, foi proposto aos professores-cursistas o planejamento e execução de uma atividade com seus estudantes cujo tema estivesse ligado a temas discutidos durante as aulas. Após dois meses, os professores retornaram com os resultados. Na edição de 2011, os 41 professores-cursistas atingiram 2.290 alunos com atividades práticas em laboratórios, peças teatrais, produção de materiais didáticos, etc. Com o sucesso, o Papem tornou-se anual, desde 2008, e não paramos mais de atuar em cursos e oficinas para estudantes e professores. No mesmo ano, passamos a integrar a Rede Nacional de Educação e Ciência, que reúne atualmente 30 grupos em 19 universidades de renome por todo o Brasil.

A Rede Nacional de Educação e Ciência é um programa que visa à melhoria das condições de ensino de Ciências à jovens carentes de todo o país, buscando diferentes maneiras de se ensinar e praticar ciência, desmistificando-a. A iniciativa deste projeto deve-se ao prof. Leopoldo de Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que, no final dos anos 1980, realizou os primeiros cursos. Quando começou a organizar cursos de férias para jovens de baixa renda da periferia do Rio de Janeiro, percebeu que alguns deles se destacavam pelo interesse e dedicação aos experimentos. Esses jovens talentosos foram convidados, então, a estagiar em seu laboratório, sob a supervisão de estudantes de pós-graduação. 

O curso acontece nesse formato até hoje.Nele os selecionados são familiarizados com o trabalho científico e ajudam seus monitores no desenvolvimento de pesquisas. Nessa relação, ainda é possibilitado ao pós-graduando um maior contato com a realidade social brasileira. Segundo a professora Vivian Rumjanek, da UFRJ e integrante da Rede, 91% dos alunos cursistas já completaram o ensino médio, 53% dos jovens entraram na universidade e 11,6% fazem ou fizeram pós-graduação. Além disso, um ex-aluno fez pós-doutorado na Escola de Medicina da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Várias outras ações são desenvolvidas pelos integrantes da rede, de acordo com a realidade de cada universidade participante. Em todos os grupos que a integram, a atuação dos estudantes de pós-graduação é absolutamente essencial para realização das atividades.

No ano de 2009, Helena Nader, à época vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) – que atualmente a preside –, Marimélia e mais quatro pós-graduandos (incluo-me nesse grupo) se reuniram para montar uma oficina de Biologia direcionada a estudantes do ensino fundamental e médio que participariam da Reunião Regional da SBPC em Tabatinga, no meio da selva amazônica, a 1.105 km de Manaus, na fronteira com a Colômbia e o Peru. Para nós, uma incrível aventura e imersão cultural que transformaria nossa visão de Brasil e de mundo. 

Montamos a oficina com o título Vivenciando a Biologia na quadra esportiva da Escola Estadual Pedro Teixeira e recebemos todas as escolas municipais de Tabatinga, além de algumas escolas da cidade colombiana de Letícia e da comunidade indígena Ticuna. 

Na oficina, abordamos temas como saúde pública, nutrição, meio ambiente, sustentabilidade e biologia dos seres vivos, com observação de células ao microscópio, extração de DNA de frutas e identificação de proteínas em alimentos. Com a oficina estruturada, começamos a ministrá-la nas reuniões regionais e nacionais da SBPC, desde 2009 até os dias de hoje. Já estivemos em Recife (PE), Cruz das Almas (BA), Natal (RN), Goiânia (GO), Mossoró (RN), São Luís (MA), Oriximiná (PA) e Manaus (AM). Em 2010, submetemos o projeto para ao edital do Programa Novos Talentos, da Capes, sob a coordenação da Marimélia, permitindo-nos expandir o número de oficinas realizadas, de pessoas envolvidas com o projeto e de lugares alcançados em todo país. 

De olho na integração da educação básica com a pós-graduação, o CNPq criou um edital destinado a bolsas de iniciação científica júnior para contemplar estudantes do ensino médio que fazem iniciação científica em universidades. Atualmente, o Programa de Pós-Graduação em Biologia Molecular da Unifesp possui 13 bolsistas nesta categoria.

Os pós-graduandos que, além da pesquisa, se envolvem em atividades de ensino e extensão, mesmo pressionados por prazos e cobranças focadas na produção científica, desenvolvem maior autonomia e consciência social, tornam-se profissionais que desejam e são capazes de contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária, por meio da ação de educar, de divulgar e despertar a curiosidade de jovens e adultos pela ciência. O deslumbramento de uma criança ao vivenciar a ciência é um momento mágico. Não há recompensa maior.

Publicado em Edição 06