Fotografia de uma mulher de costas, ela está usando uma bandeira do Brasil como capa, e está a frente de um inflável vermelho

Discurso de ódio e polarização resultam em empobrecimento da discussão política e autoritarismo

Lu Sudré

O ano de 2016 ficará marcado na história do Brasil: suas principais ruas e avenidas se tornaram palco de manifestações políticas constantes. O impeachment da presidenta Dilma Rousseff, aprovado pelo Senado no final de agosto, causou reverberações profundas na conjuntura política. A polarização entre os favoráveis e contrários ao impedimento trouxe à tona episódios de intolerância que colocam em xeque a democracia e o respeito à pluralidade.

Ao questionar se os indivíduos saíram às ruas apenas por questões políticas, Esther Solano, cientista social e docente no curso de Relações Internacionais da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (EPPEN/Unifesp) – Campus Osasco, coordenou uma pesquisa em conjunto com Pablo Ortellado, docente na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP), que identificou os aspectos sociais, valores morais e políticos da população que foi aos protestos pró e anti-impeachment.

Em São Paulo, no ato pró-impeachment de 12 de abril, um grupo de 30 alunos, coordenados pelos professores, realizou 571 entrevistas com os manifestantes. “Infelizmente, as pessoas não vão para rua só por questões políticas. Há um ódio e preconceito de classe muito forte. O repertório e a narrativa das pessoas é conservador. Existe uma frustração com o sistema em geral, que leva muitos desses sujeitos à buscarem soluções antidemocráticas e autoritárias”, comenta Esther Solano.

Entre os entrevistados, 68,5% declararam ter ensino superior completo, 77,4% são brancos, 24,3% têm renda de até R$ 7.880, 29,6% de até R$ 15.760 e 20% ganham até R$ 20.000 ao mês.

Na avaliação da cientista social, o país sempre teve uma dinâmica de classe muito perversa, com elites econômicas e políticas ao lado de uma massa social empobrecida. Esta estrutura de classes é responsável pelo discurso de ódio eminente contra os partidos de esquerda e contra os movimentos sociais.

“Existe um sentimento de raiva contra a política lulista, que promoveu um ascenso da classe C por meio do consumo e políticas de inclusão social. A maioria dos entrevistados pró-impeachment tem um discurso de classe e xenófobo muito forte, conservador, meritocrático e punitivo. São contra o Bolsa Família, contra cotas universitárias e contra o programa Mais Médicos, por exemplo”, explica Esther.

A pesquisadora aponta paradoxos no discurso dos entrevistados que, ao responder questões como descriminalização do aborto e da maconha, são liberais, mas só ao que concerne ao seu grupo social. “O discurso de classe e preconceituoso é acompanhado de uma liberdade no que se refere a eles, apenas à sua classe. ‘Eu posso fumar maconha, mas o pobre que trafica tem que ser preso e até mesmo morto pela polícia’. Na opinião deles, para resolver problemas de violência, a única solução é mais policiamento”, afirma.

Intolerância: coxinhas x mortadelas

Xingamentos, agressões, bandeiras pela volta da ditadura, apologia à tortura e faixas em defesa da democracia compuseram os cenários das milhares de pessoas que foram às ruas. Criou-se uma polarização intensa entre os “coxinhas” (pró-impeachment) e “mortadelas” (contra). Para Esther Solano, essa polarização vai na contramão de um governo democrático. “Isso gera um empobrecimento de informação. Formam-se dois grupos que não conseguem debater, escutam o que querem escutar e não têm espaço para o outro. As pessoas só escutam o que convêm. São dois bandos que se enfrentam; é a ausência total de diálogo”.

A internet e as redes sociais se concretizaram como um palco da intolerância. Segundo a professora, o Facebook, por exemplo, cria guetos ideológicos. “A internet pode ser uma plataforma democrática muito poderosa. Mas tem um outro lado. Criam-se bolhas de informação e uma espiral de afirmação da posição ideológica de um mesmo grupo, não um debate com aquele que tem outra informação ou opinião contrária. É uma incapacidade enorme de diálogo”, reforça a pesquisadora.

Para ela, as redes sociais dão um espaço ainda maior para intolerância a partir do momento em que permitem a “liberdade do anonimato”, que fomenta a transformação de confronto de ideias para conflitos pessoais e estabelece o que a cientista social chama de dialética do inimigo. “Aquele que tem uma opinião política diferente não é um adversário político, é um inimigo. É a política do ódio. Com o adversário político há uma troca de ideias, com inimigo não. O objetivo é aniquilá-lo. Aniquilar o pensamento, a voz. É uma dinâmica de guerra”, analisa. 

Foto de um protesto, as pessoas seguram cartazes com os dizeres Fora Golpistas

Populares ocupam as ruas e se posicionam contra o impedimento de Dilma Rousseff

Foto de um protesto, algumas pessoas seguram uma faixa Fora Dilma Intervenção Militar

As grandes capitais também foram palco de atos a favor do impeachment, convocados pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua

Reforma política

A pesquisa também abordou a confiança nas instituições políticas, entre elas partidos, políticos, ONGs, movimentos sociais e imprensa. Nos atos pró-impeachment, 69,9% das pessoas não confiavam em políticos e 73,2% não confiavam em partidos. De acordo com Esther, a democracia representativa está em crise e a figura inflexível da estrutura partidária não acompanha as mudanças dinâmicas da população. "É muito preocupante quando se tem uma democracia desgastada e atitudes antidemocráticas e autoritárias vêm à tona. É uma crise representativa e dentro dessa crise, personagens como Donald Trump, candidato à presidência dos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro se aproveitam desse vazio representativo".

Outra pesquisa foi realizada no dia 31 de março de 2016, em um ato na praça da Sé, mas com aqueles que se posicionavam contra o impeachment. Embora a confiança dos manifestantes nos partidos em geral seja razoavelmente baixa (37% não confiam).

Em relação à renda, o padrão desta manifestação foi um pouco inferior ao das manifestações anti-Dilma, com 54,5% dos participantes com renda familiar entre 3 e 10 salários mínimos. No tocante à escolaridade, 77% dos manifestantes tinham formação no ensino superior e 34,9% se declararam negros ou pardos. "Seja de esquerda ou direita, a única coisa que coincide nessa polarização é a necessidade da reforma política. O país está em uma situação de muito desequilíbrio, até mesmo histérico. Mas essa reforma tem que ocorrer em um momento mais calmo. Como fazer uma reforma com o Congresso mais conservador da história?", indaga.

Fotografia de Esther Solano

Esther Solano, pesquisadora e docente na EPPEN/Unifesp – Campus Osasco

Para ela, há projetos de lei no campo da segurança pública, gênero, sexualidade e liberdade de expressão que fomentam a intolerância. A redução da maioridade penal, Estatuto do Desarmamento, Lei Antiterrorismo, Estatuto da Família, Escola Sem Partido, Dia do Orgulho Hetero e projetos contra a legalização do aborto são alguns deles. 

"O discurso de ódio não se baseia em pesquisas científicas, dados, ele é muito emocional. Ninguém apresentou estudos, por exemplo, para defender a redução da maioridade penal. É um discurso emotivo, que tem como objetivo aumentar a punição e a intolerância", destaca.

Publicado em Edição 07

Referência nacional na defesa dos direitos humanos, padre Júlio Lancellotti dedica-se, há mais de 30 anos, à assistência à população marginalizada. Polêmico para uns, mártir para outros, sempre denuncia abusos e omissões do poder público, preenchendo manchetes de jornais

Ana Cristina Cocolo

Imagem do rosto de Julio Lancellotti - ele tem cabelos brancos, é idoso, usa óculos, camisa e um colete bege

Todos os dias, bem cedo, uma mesa de café da manhã é posta no pátio da pequena Igreja São Miguel Arcanjo, na Mooca, zona leste de São Paulo. À frente dela, padre Júlio Lancellotti, 67 anos, recepciona quem tem fome, com a ajuda de voluntárias que trabalham na secretaria da paróquia. Com a fala mansa, pergunta a cada um dos moradores de rua que lá adentram se precisam de alguma coisa a mais naquele dia: um sapato, uma blusa, um remédio ou até mesmo apenas uma bênção que, após dada, é complementada com um abraço sincero e um “Vá com Deus, meu filho!”

Quem conversa com ele, nem imagina as raízes que o levaram a ser considerado autor de uma obra humanística incalculável para a maioria e um perfeito anarquista para outros. Lancellotti sempre está brigando, ao lado da população carente, resistindo a processos de reintegração de posse e em manifestações de rua contra injustiças sociais. “Meu lema de ordenação de padre é o que está escrito na Bíblia Sagrada, no primeiro livro de Coríntios, capítulo um, versículo 27: ‘Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir os fortes’”.

Duas fotos - Julio com dois anos de idade, e com sua mãe

Padre Júlio Lancellotti com dois anos de idade e ao lado da mãe, Vilma, falecida em 2010

Natural do bairro Belém, centro-leste de São Paulo, a religião entrou em sua vida não porque seus pais tinham uma rotina dentro da igreja – apesar de católicos –, mas porque ingressar em colégio particular era mais fácil do que em escola pública.

Filho de um comerciante e uma dona de casa, sua infância foi marcada pelas brincadeiras nas ruas do Tatuapé, mais precisamente na praça Pádua Dias, junto com os irmãos, Milton, mais velho, e o caçula, José Luiz, ambos já falecidos. “O Milton era, depois da minha mãe, minha referência. Era aventureiro e corajoso”, conta. “Foi ele quem me ensinou a andar de bicicleta, jogar futebol, andar com carrinho de rolimã. Por tirar as melhores notas, era ele quem me ajudava na escola”.

Mas a vida não era só feita de brincadeiras. Os três também ajudavam a limpar a mercearia do pai e, ao final do trabalho executado, ganhavam como prêmio um copo de leite com groselha. “Era uma felicidade só”, sorri ao lembrar.

Padre Júlio teve a infância muito marcada pela presença da mãe que, antes de ser dona de casa por exigência do marido e do costume da época, falava espanhol e chegou a trabalhar como secretária de grandes advogados, além de passar pela empresa Hamilton Hunter e pela Câmara Argentina. “De excelente datilógrafa, estenógrafa e taquígrafa foi ser cozinheira para ajudar no sustento da família, dando pensão diariamente, em casa, para mais de 40 pessoas”, lembra o religioso. “Na imagem mais antiga que guardo estou dentro de um cesto, na cozinha, vendo minha mãe trabalhar”.

Alguns anos depois, conta ele, a mãe adoeceu do sistema nervoso e a formação rígida e machista do pai contribuiu para isso, apesar de classifica-lo como um homem sensível. Falecida em 2010, aos 88 anos, foi ela – uma leitora compulsiva de obras literárias nacionais, principalmente de Érico Veríssimo, e internacionais – quem o ensinou as primeiras letras do alfabeto.

Travesso e com um ‘quê’ de rebeldia, confessa que deixava as freiras de cabelos em pé. No Educandário Espírito Santo, ele e o amigo Augusto eram acompanhados por uma irmã chamada Inezita, que quase não enxergava. Em uma tarde, em que foram escalados para ajudar em uma missa, foi desafiado pelo amigo a colocar um morteiro na caixa de correio de uma vizinha da igreja. Não teve dúvidas e concluiu a molecagem. Explodiu o objeto, sem deixar uma parte sequer inteira. “Quando voltei, minha mãe me questionou sobre o ocorrido, já que ela justificou para a mulher que eu estava na missa e que era coroinha”, ri alto. “A mulher falou para ela que eu não era coroinha, mas sim um demônio”.

Lancellotti conheceu as amarguras de um sistema educativo autoritário ainda muito menino, aos 12 anos, quando ingressou dentro de um seminário, em Araraquara, distante seis horas de trem de São Paulo e da família. Lá, foi coroinha de um padre alemão muito bravo, que sofria com traumas de guerra. “Apanhávamos com vara de bambu e éramos humilhados na frente de todo mundo”, conta. A saudade de casa e o método rigoroso imposto à época fizeram com que ele abandonasse o seminário pela primeira vez.

De volta à cidade natal, terminou o ginásio em uma escola de padres agostinianos, teve várias namoradinhas e entrou, novamente, para o seminário, quando chegou a ser frade e concluiu um curso de auxiliar de enfermagem na Santa Casa de Misericórdia de Bragança Paulista, também interior de São Paulo. Aos 19 anos, não aceitou mais o autoritarismo, rebelou-se e, pela segunda vez, largou a batina. O religioso lembra que os seminaristas não tinham acesso aos noticiários e às visitas familiares. “Não ficamos sabendo nem mesmo da morte de John Kennedy”, diz. “Fui convidado a sair. Esse tipo de atitude nada tinha a ver com religião”.

Julio Lancellotti mostrando um álbum de fotografias

Junto à sua caixa de fotografias e ao porta-retrato da menina Milene, para quem ele ajudou a achar um lar. Falecida após uma doença, Lancellotti a considera sua redenção

Momentaneamente longe da batina, mas nunca do social

Com o diploma de auxiliar de enfermagem e longe do sacerdócio, trabalhou nos hospitais São José do Brás, em São Paulo, e na Santa Casa de Misericórdia de Bragança Paulista. Ingressou nas Faculdades Oswaldo Cruz e concluiu o curso de Pedagogia. Em seguida, fez especialização em Orientação Educacional na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), onde atuou como professor-assistente do professor Carlos Alberto Andreucci, além de ministrar aulas nas faculdades Oswaldo Cruz, Castro Alves, Piratininga e no Instituto Nossa Senhora Auxiliadora. Neste, focado na formação para magistério. 

Lancellotti também trabalhou no Serviço Social de Menores, que, mais tarde, se transformou na Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, e no Centro de Apoio ao Imigrante, no Brás, dando aulas para crianças com dificuldade de aprendizado. 

Em 1980, conheceu Dom Luciano Mendes de Almeida e ficaram muito próximos. Juntos, fizeram toda a fundamentação da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo. No mesmo ano, durante a visita do Papa João Paulo II, Dom Luciano perguntou quando iria ordená-lo padre. “À época, ele nem sabia que eu estava namorando uma garota chamada Cecília, com quem fiquei por três anos”, conta. 

Um ano depois, começou a estudar Teologia e, em 1985, foi finalmente ordenado padre por Dom Luciano. “No dia da minha ordenação, ela compareceu e, furiosa, vomitou um monte de desaforos em mim”, lembra, sorrindo. “Hoje somos amigos e cheguei a celebrar seu casamento”. Com bom humor, ele observa que no dia da cerimônia de bodas de sua antiga namorada, metade dos presentes na igreja estavam lá para vê-la e a outra para observar como ele reagiria a tal situação, um tanto quanto inusitada para muitos. 

Prêmios e honrarias

Prêmio Franz de Castro Holzwarth, em 2000, concedido pela Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil por seu trabalho contra a violação sistemática dos direitos das crianças e dos adolescentes.

Prêmio Opas, em 2003, da Organização Panamericana de Saúde, dado à Casa Vida.

Prêmio Nacional de Direitos Humanos, em 2004, concedido pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos.

Prêmio Nacional de Direitos Humanos, categoria livre, em 2004, pela Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo.

Menção honrosa do Prêmio Alceu Amoroso Lima - Direitos Humanos, em 2005

Prêmio Direitos Humanos, em 2007, promovido pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República na categoria Enfrentamento da Pobreza.

Título de Doutor Honoris Causa, 2004, pelas universidades São Judas Tadeu e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Escudo dos fracos e oprimidos

Júlio Lancellotti participou da fundação da Pastoral da Criança e na formulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e tem atuado fortemente junto a menores infratores, detentos em liberdade assistida, pessoas carentes e em situação de rua, imigrantes sem teto e refugiados, além de crianças e adultos com o vírus da imunodeficiência humana (HIV) ou com a síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids). Em 1991, fundou a Casa Vida I e, em seguida, uma segunda unidade (Casa Vida II), que acolhem essa população.

Há mais de 25 anos, é vigário episcopal da Pastoral do Povo da Rua e lidera vários projetos municipais, como A Gente na Rua, composto por agentes comunitários de saúde e ex-moradores de rua e, mensalmente, realiza missas junto aos indivíduos que habitam a Cracolândia. 

Defensor ferrenho dos travestis em situação de rua, em 2015 protagonizou uma cena que foi condenada por muitos, inclusive vista como exagerada por alguns membros da Igreja Católica. Em um ato de desagravo, junto com pastor José Barbosa Júnior, líder do movimento Jesus Cura a Homofobia, lavou os pés da atriz transexual Viviany Beleboni, após ela ter se crucificado durante a 19º Parada Gay, em São Paulo. O ato, segundo ele, foi um pedido de perdão pelas críticas vorazes dirigidas a ela e à população LGBT. 

Não é a primeira vez, no entanto, que Lancellotti é visto lavando os pés de travestis. “Esse ato é muito marcante para mim, mais ainda para essa população em específico, pois já presenciei algumas dessas ‘meninas’ com os pés deformados pelo silicone, aplicado clandestinamente, que acaba descendo para o membro inferior”, explica. “Elas são sofridas no corpo e na alma; são incompreendidas, violadas, execradas. Se Deus está junto dos sofridos, não tenho dúvida que está ao lado delas incondicionalmente e as aceita como são”. 

Julio Lancellotti abaixado, lavando os pés de Viviany
Julio Lancellotti com moradores de rua - um deles segura a imagem de São Francisco
Julio Lancellotti missa na cracolandia

Lancellotti lavando os pés da atriz transexual, Viviany Beleboni; com moradores de rua que buscam ajuda na Igreja São Miguel Arcanjo, onde é pároco; na Cracolância, onde reza missas periodicamente

Outro episódio que o marcou foi a prisão de Fábio Hideki Harano, acusado de ser líder dos Black Blocs, durante protesto contra os gastos da Copa do Mundo, em junho de 2014. Participante de todas as manifestações do tema, o padre explica que estava com ele no momento da abordagem. “Foi uma atitude descabida, exagerada”, diz. “Na mochila dele não havia explosivos, mas salgadinhos e objetos pessoais”. 

De acordo com ele, os Black Blocs não têm nada de agressivos, conforme passado pela mídia. Ele os descreve como jovens idealistas, possuidores de muita força e coragem para cobrar seus direitos. “Só quem estava presente no dia pode explicar quem foi realmente que iniciou e incitou a violência. E não foram eles”.

Júlio conta que não permitia que os policiais batessem nos jovens apreendidos. “Eu colocava o dedo em riste e falava bravo: 'Você tem coragem de bater em um irmão? Porque ele é seu irmão, assim como eu também sou, e você de nós'”, conta ele, sorrindo. “São tantas memórias que gostaria de escrever sobre elas, as quais intitularia Antes que eu me Esqueça, mas não tenho paciência para isso”.

Julio Lancellotti está com um grupo de transexuais

Acima, o padre com transexuais, contra a transfobia

Julio Lancellotti em uma manifestação, ele está de braços dados com vários jovens

Na manifestação dos Black Blocs contra o aumento da tarifa de ônibus, em 2015

Julio Lancellotti está falando para um grupo de pessoas na Alesp, ao fundo uma faixa com os texto CPI da merenda

Com estudantes que ocuparam a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) para forçar a abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Merenda, em maio de 2016

Vítima de extorsão por um ex-detento da antiga Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (Febem), em 2007, que o ameaçava de denunciá-lo de pedofilia, Lancellotti “comeu o pão que o diabo amassou”, até o rapaz e uma ex-funcionária da Casa Vida, também envolvida, serem presos, em 2011, por extorsão, já que não conseguiram provar nada contra ele. Até isso acontecer, no entanto, o sacerdote teve a vida vasculhada pela polícia, pelo Ministério Público e pela igreja. Foi perseguido impiedosamente pela imprensa, por igrejas de outras religiões, por colegas de batina, por políticos e até por aqueles que desconheciam o trabalho desenvolvido por ele. 

Teve que pedir até mesmo proteção policial ao governador Geraldo Alckmin. No sentido oposto, muitas foram as moções de apoio por parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB-I), pelo Partido dos Trabalhadores (PT), movimentos de sem teto e pela própria sociedade. “Hoje vejo esse episódio como uma articulação política muito forte, devido a minha ligação ao PT”, diz. 

Segundo ele, o que mais o marcou, na época, foi o sofrimento da mãe e a perseguição a quem ousava defendê-lo, como foi o caso de uma jornalista do Diário de S.Paulo, que o procurou e confessou que foi demitida porque se recusou a escrever uma matéria em tom acusatório. “Ela chegou na paróquia chorando muito, com uma medalhinha do beato neerlandês Titus Brandsma, padroeiro dos jornalistas católicos, com a qual eu a havia presenteado muito antes de sofrer a denúncia”.

Padre Júlio conta que já sofreu ameaças de vários políticos e já foi processado. “A pressão é grande. Enfrento isso com fé e coragem, pois sei que estou do lado certo. Do lado de quem vai apanhar e de quem vai perder”, afirma. 

“Sou um fracassado, pois essa é a lógica do sistema injusto e de exclusão ao qual pertencemos. Fazer sucesso é ser conivente com ele e isso eu não sou”.

De personalidade marcante, mas andar suave, o sacerdote termina a entrevista mostrando com orgulho a paróquia e a sala que transformou em um pequeno santuário com imagens de santos do mundo inteiro – todos eles com histórias de perseguição e sofrimento, as quais conhece com profundidade, por escolherem estar ao lado dos oprimidos. “Você reparou que meus santos são todos ferrados? ”, pontua.

Questionado se sentia-se realizado, responde: “Sinto-me humanizado. Eu sinto que estou do lado que Jesus gostaria que eu estivesse”.

Julio Lancellotti está em seu escritório, com muitos retratos e santos, ele mostra uma das santas à repórter

Em seu cantinho favorito, o padre conta à repórter a história de seus santos preferidos. Em suas mãos, segura Santa Marina, a Monja, considerada, por ele, padroeira da identidade de gênero

Publicado em Edição 07
Quarta, 07 Dezembro 2016 14:05

A base, as versões e a história

Arte com a Base Nacional Comum

Arte elaborada a partir de sobreposição de páginas do arquivo digital da 2ª edição do BNCC, disponível em <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/documentos/bncc-2versao.revista.pdf >

Fotografia de Elaine Lourenço

Elaine Lourenço
Docente e coordenadora do curso de licenciatura em História do Departamento de História da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos

O mundo moderno tem na escola uma instituição de aceitação unânime. A consagração da “forma escolar” como meio de socialização preferencial segue até hoje, e isso pode ser visto a cada eleição, quando os candidatos sempre recolocam a educação como prioridade. O mesmo não se pode dizer, entretanto, dos currículos. O que, quando, para quem ensinar é objeto de acirradas disputas, uma vez que ao currículo prescrito caberia a função de “moldar” os futuros cidadãos. Qualquer estudioso das teorias e práticas curriculares sabe que isso não é verdade: entre o previsto e o realizado há uma grande distância, em cujo percurso, inclusive, outras finalidades são atingidas. Ainda assim, considerando que as prescrições sinalizam o que se torna hegemônico em dado momento, tais documentos ganham relevância pelos caminhos que indicam e pelos que ocultam, ou buscam ocultar.

O debate sobre a Base Nacional Curricular Comum (BNCC) precisa ser interpretado sob essa chave: certamente não é o primeiro momento em que ele sai do campo dos legisladores educacionais e alcança a sociedade, bem como não é algo que possa ser simplificado na questão sobre “o que” ensinar. Em torno dele se revelam tanto posições quanto projetos sociais e, portanto, políticos, os quais importa conhecer antes que se transformem em “letra da lei”.

Significativo em relação ao tema é que a busca pela expressão “base nacional comum” no Google resulte, em primeiro lugar, no “anúncio” do Movimento pela Base Nacional Curricular Comum, patrocinado pela Fundação Lemann, que promete: “A Base Nacional Comum – Pense na educação que você quer. Agora vem com a gente realizar.” O que parece ser a concretização de um sonho é uma promessa inalcançável, que busca esconder que só é possível criar uma educação única sob regimes ditatoriais, ainda que a contestação sempre se faça presente.

O surgimento da primeira versão da BNCC para debate, em fins de 2015, já se fez em meio a críticas. É possível identificar duas modalidades nesse debate, ambas complementares: uma questiona sua necessidade, outra questiona os conteúdos apresentados e sugere modificações. Sob este último aspecto, a própria “consulta pública” aberta no site do MEC apresenta números impressionantes: foram 12.226.510 de contribuições feitas à primeira versão do documento.

Uma das principais vozes que articulam o movimento de resistência à base curricular é a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), a qual contesta sua pertinência e a forma apressada como foi apresentada ao debate. Uma das professoras envolvidas na discussão, Inês Barbosa de Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Currículo, participou de uma mesa sobre o tema na Unifesp em 18 de novembro de 2015, ocasião em que apresentou alguns dos argumentos do grupo, como a crítica à elaboração de uma base nacional, quando estão em vigor as Diretrizes Curriculares Nacionais; o problema da unificação nacional do currículo justamente no momento em que se ressalta a importância da diversidade; e a forma como a criação do documento favorece avaliações padronizadas, que controlam e dirigem o sistema de ensino a partir dos órgãos centrais.

Tal como em outras oportunidades em que o currículo ocupou o centro do debate educacional, as bases propostas para a disciplina de História foram as que ganharam mais visibilidade. Em torno dos conteúdos mobilizaram-se a imprensa, os profissionais da área, os movimentos organizados etc. Poucos se ativeram às questões pedagógicas ou de aprendizagem: a polêmica se concentrou nos temas propostos, sobretudo nas inovações. De modo geral, a primeira versão rompia com os currículos anteriores e propunha, no ensino fundamental, um eixo em torno da História do Brasil, a partir do qual outros povos e civilizações seriam introduzidos. No ensino médio, o destaque foi para o mundo africano, o ameríndio e o afro-brasileiro, nos dois primeiros anos, e para o mundo europeu e o asiático, no último.

A ausência de conteúdos explicitamente vinculados à Antiguidade greco-romana foi uma das primeiras a serem sentidas, e as respectivas associações de profissionais da área se manifestaram. O deslocamento do eixo da Europa foi outro ponto bastante questionado. O próprio ministro da Educação responsável pela primeira versão, Renato Janine Ribeiro, ao ser demitido do cargo, escreveu em sua conta pessoal no Facebook: “Não havia, na proposta, uma história do mundo. Quando muito, no ensino médio, uma visão brasilcêntrica das relações com outros continentes.” O fato é que a versão inicial, muito contestada em público, mas pouco nos números apresentados pela consulta pública (na qual as críticas à área não chegaram a 10%), foi substituída por uma nova, na qual se recolocam a Antiguidade, o mundo europeu, a descoberta da América e outros temas consagrados pela tradição, o que serviu para apaziguar parte do coro dos descontentes.

Já o que os professores e os alunos, no cotidiano das milhares de escolas do Brasil, farão com esses documentos curriculares é outra história, que certamente será um tema muito importante a ser pesquisado pelos interessados.

* O referido documento e outros sobre o tema podem ser encontrados no portal da Unifesp, entre as notícias publicadas pelo DCI.

Publicado em Edição 07

Pós-doutor pelas Universidades do Colorado e da Califórnia, ex-diretor do Laboratório Nacional de Nanotecnologia e professor titular aposentado do Instituto de Química da Unicamp, Fernando Galembeck falou em entrevista à Entreteses sobre o recém-aprovado Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação, que pretende traçar um novo caminho para o desenvolvimento da pesquisa científica no Brasil

Da Redação
Com a colaboração de Gabriela Tornich

EntreTeses7 p09 Galembeck

Galembeck posa em frente ao Instituto de Química da Unicamp

Um avanço importante e necessário no percurso evolutivo da ciência no Brasil. É o que pensa Fernando Galembeck, ganhador dos prêmios Anísio Teixeira e Almirante Álvaro Alberto, sobre o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação, consolidado pela Lei nº 13.243/2016, que foi sancionada pela presidente Dilma Rousseff em janeiro deste ano.

Segundo Galembeck, que atualmente é professor convidado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o novo marco contempla questões cruciais até então ausentes da legislação, pois permite – entre outros pontos – a dispensa de licitação na compra de produtos destinados à pesquisa e ao desenvolvimento de produtos; autoriza o uso compartilhado de instalações, laboratórios e equipamentos próprios às universidades públicas por empresas de direito privado, visando à obtenção de produtos e processos de inovação; e amplia de 120 para 416 horas anuais (8h semanais) o tempo que docentes em regime de dedicação exclusiva podem despender em atividades no setor privado.

Para Galembeck, a lei diminui os obstáculos jurídicos ao desenvolvimento da pesquisa: agora, as instituições científicas terão respaldo legal para assinar acordos com parceiros privados, podendo transferir a estes, mediante compensação – financeira ou não –, os direitos de propriedade intelectual sobre os resultados obtidos. O poder público (União, Estados e municípios), por sua vez, poderá fomentar a inovação e solucionar demandas tecnológicas específicas por meio da contratação direta (sem licitação) ou da participação minoritária no capital social de empresas que estejam capacitadas a criar e executar projetos de pesquisa.

Ao contrário do que alguns profissionais argumentam, a pesquisa – na visão do entrevistado – não ficará refém dos interesses privados, pois a lei determina contrapartidas que deverão ser assumidas pelas empresas que desenvolvam projetos em parceria com instituições públicas. Além disso, o lucro – conforme enfatiza – é fundamental à sustentação do sistema econômico vigente em nosso país.

Otimista, Galembeck pondera que o momento é de criar um modelo efetivo que alavanque o desenvolvimento tecnológico no país. Sua contribuição nessa área – ressalte-se – é notável, conforme atestam as inúmeras distinções honoríficas que recebeu ao longo de sua trajetória acadêmica e as titulações como membro da Academia Mundial de Ciências (The World Academy of Sciences – TWAS) e da Royal Society of Chemistry, sediadas respectivamente em Trieste (Itália) e em Londres. Parte de seus trabalhos mais recentes analisam as interações entre partículas coloidais e nanopartículas, as superfícies de polímeros, a formação e propriedades de nanocompósitos, as propriedades de sólidos não cristalinos, a eletrização de isolantes e a triboeletricidade. Esse pesquisador mantém vários projetos com empresas, voltados principalmente à criação e desenvolvimento de novos materiais e a processos de fabricação. Obteve o licenciamento de sete patentes, com base nas quais três produtos foram lançados no mercado.

Ocupou postos de direção na Unicamp, no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e em sociedades científicas. Participou da elaboração e implementação do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT), lançado em 1985, que modernizou a estrutura da pesquisa científica e tecnológica no Brasil e possibilitou a aproximação entre as instituições acadêmicas e o setor produtivo.

Galembeck sendo entrevistado no laboratório

Galembeck em um dos laboratórios do Instituto de Química da Unicamp

Entreteses - A criação do Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação representa um avanço para o desenvolvimento da pesquisa no Brasil?

Fernando Galembeck - Sim, um avanço importante e necessário. O problema da pesquisa no Brasil está longe de ser apenas a quantidade de recursos investida. Há outros problemas, que reputo serem mais graves, e um deles é o emaranhado legal que cria incertezas jurídicas e onera as atividades de pesquisa com burocracia e com impostos nada estratégicos. O novo marco legal trata exatamente dessas questões.

 

E. O senhor crê que o modelo atual, sem o marco legal, poderia ser melhorado caso o governo decidisse investir mais em pesquisa?

F.G. Não existe um "modelo atual". O que há é uma falta de modelos, justamente por causa da falta de bons programas e da existência de complicadores legais. O que temos é um somatório confuso de ações desconexas, que a nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia & Inovação está tentando corrigir. Mas ainda falta muito.

 

E. Muitos especialistas são contra o texto do marco legal. Eles enxergam de forma negativa o fato de as pesquisas serem direcionadas ao mercado, ao lucro. Acreditam que a pesquisa pública ficará submissa aos interesses privados. Qual a sua posição sobre isso?

F.G. Também há muitíssimos especialistas a favor. Na sociedade do conhecimento, em que almejamos viver, a principal fonte de bens materiais é o conhecimento. Para que tenhamos abundância de bens materiais que sejam suficientes, pelo menos para garantir a inclusão social, precisamos usar o conhecimento. As extintas União Soviética e Alemanha Oriental não conseguiram fazer isso e desapareceram. A China atual valoriza o lucro e o mercado e está-se tornando a principal potência econômica do mundo. Fidel Castro, em Cuba, estimulou empresários de algumas áreas, especialmente a de biotecnologia, a desenvolverem suas empresas, e uma empresa só se desenvolve se produzir lucro. Em 2016, lucro não pode ser visto apenas como a mais-valia arrancada dos trabalhadores por empresários gananciosos. Lucro é, principalmente, o resultado de inovação tecnológica que atenda às necessidades do mercado. Sem lucro, a atividade econômica não se sustenta; ele é essencial para a própria sustentabilidade das atividades humanas – qualquer que seja o regime político.

 

E. Como ficam as fundações de amparo à pesquisa tendo em vista a criação do marco?

F.G. As fundações de amparo à pesquisa formam um conjunto excessivamente diverso para que se façam grandes afirmações gerais. Haverá casos e casos, que reagirão de acordo com o maior ou menor compromisso dos respectivos governos estaduais com o crescimento dos seus Estados e sua maior ou menor competência em usar ciência e tecnologia para o desenvolvimento. Itens importantes do marco já são praticados nas universidades estaduais de São Paulo, há décadas. Abraham Sicsú, que é o presidente da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe), mostrou uma posição favorável ao marco, em um artigo publicado em Ciência e Cultura (volume 68, número 2, abril-junho de 2016), intitulado Avanços e Retrocessos no Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação: Mudanças Necessárias.

 

E. Existem indicadores que mostrem quanto da pesquisa das universidades é voltado ao desenvolvimento de tecnologias? O que eles revelam sobre o estágio de desenvolvimento científico no Brasil?

F.G. Há vários indicadores para avaliar a atividade de pesquisa no Brasil, mas não creio que haja um esforço de compô-los de forma a responder à sua pergunta. Portanto, respondo com base na minha vivência: só uma fração muito pequena da pesquisa nas universidades brasileiras contribui para o desenvolvimento de tecnologias. Uma evidência que sustenta essa afirmação é a pouca presença de grupos universitários nos projetos da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

 

E. O investimento das empresas no setor vai aumentar com o marco legal?

F.G. Eu, os autores do marco e muitas outras pessoas esperamos que sim. Infelizmente, o governo federal tem mostrado uma infinita capacidade de criar obstáculos às suas próprias iniciativas. Basta ver a pobreza dos dados relativos à Lei de Inovação (Lei nº 10.973/2004), apesar dos discursos grandiloquentes de que era uma "política de Estado". Nesse momento, os principais obstáculos são os vetos presidenciais a vários artigos do marco.

 

E. Hoje, no Brasil, as pesquisas e os pesquisadores estão concentrados nas universidades públicas, diferentemente do que acontece nos países desenvolvidos. O marco pode mudar esse cenário? Qual o impacto que o marco traz do ponto de vista dos pesquisadores?

F.G. O marco poderá propiciar um aumento importante na população de pesquisadores, nas indústrias e mesmo nas universidades. Eu aprecio muito o que se passa em qualquer país desenvolvido, onde professores universitários produzem ciência de alto nível, que é transformada, mediante a participação deles, em produtos colocados no mercado, gerando receitas, lucros que garantem a sustentabilidade das empresas, empregos bem remunerados em empresas viáveis etc. Isso permite até mesmo que os grupos de pesquisa nas próprias universidades se expandam, sem ter como única opção as receitas derivadas de impostos.

 

E. Podemos prever um aumento no número de patentes brasileiras? De que maneira isso aconteceria?

F.G. Isso é muito provável e necessário. Patentes não são sinônimo de inovação nem de tecnologia, mas são uma etapa importante no processo de desenvolvimento tecnológico e de inovação. O mais provável é que ocorra, em muitas universidades e empresas, o mesmo que ocorreu nos Estados Unidos, depois do Bayh-Dole Act, ou na Unicamp, depois de 1988, ou em algumas empresas brasileiras, depois da nova Lei de Patentes (Lei nº 9.279/96): as pessoas perceberam que depositar patentes, em vez de simplesmente publicar resultados ou optar pelo sigilo, aumenta muito o significado e alcance dos resultados obtidos pelos pesquisadores e engenheiros. Patente é um ativo que pode ser contabilizado e é uma ótima maneira de difundir resultados de pesquisas, universalmente e de graça, pela internet.

 

E. A lei também vai causar impacto na formação de capital humano preparado para atuar nas empresas?

F.G. Isso também é muito provável. Melhor ainda, teremos capital humano preparado para que este país se desenvolva, a renda per capita aumente, mais impostos sejam arrecadados para financiar a saúde e a educação públicas etc.

 

E. Em quanto tempo será possível sentir essas mudanças na prática? O marco pode tornar o Brasil mais competitivo no mercado internacional?

F.G. Neste momento, é necessário superar o desfiguramento do marco, causado por vetos presidenciais que tinham como única justificativa evitar um aumento nos problemas fiscais do país. Esses vetos são uma boa demonstração de como as sucessivas leis, mesmo as bem-intencionadas, tornam-se pouco efetivas. Eles mostram como governos são incapazes de implementar as políticas que eles mesmos criam, por causa de apuros circunstanciais. Se isso não for feito, não haverá mudanças substanciais. Se o marco for preservado, o Brasil será mais competitivo. Isso é o esperado, segundo o inciso VII do parágrafo único do artigo 1º da Lei nº 10.973/2004.

Repito o que disseram Abraham Sicsú e Mariana Silveira, no artigo que citei ao tratar das fundações de amparo à pesquisa: "É consenso, na atualidade, que a inovação é fundamental para o desenvolvimento de um país. Claro, não deixamos de comemorar o avanço do marco legal. Mas o próximo passo agora é superar um certo clima de frustração que foi criado com os vetos que, no nosso entender, continuam a dificultar que um país, moderno e dinâmico, mas com baixa taxa de inovação, possa superar suas crises." Está ocorrendo uma forte mobilização nesse sentido. Espero que tenha sucesso.

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Quarta, 07 Dezembro 2016 13:21

Recursos em tempo de crise

Juliano Quintella Dantas Rodrigues é doutor em Ciências pela EPM/Unifesp, foi presidente da APG/Unifesp (2010-2012) e diretor da ANPG (2012-2014)

Julio Alves da Silva Neto é mestre em Ciências pela EPM/Unifesp, foi diretor da APG/Unifesp (2011-2012) e da ANPG (2010-2012).

Mapa mundial

Em momentos de crise, impõe-se a necessidade de se refletir sobre as alternativas para o desenvolvimento de pesquisas. No Brasil, a produção acadêmica e científica no âmbito da pós-graduação enfrenta, entre outros fatores, a redução de investimentos e cortes orçamentários nas pastas da educação, ciência e tecnologia e inovação tecnológica. Como sobreviver a essa difícil realidade? Qual caminho podemos perseguir ou construir? Sem o programa Ciência sem Fronteiras, como poderemos internacionalizar?

Aqui colocaremos algumas sugestões para colocar à prova nossa resiliência e fazer nossa pesquisa sobreviver diante da carência de recursos. A sugestão permeia os diversos programas de internacionalização existentes pelo mundo. Vamos começar.

O Human Frontier, o Fulbright e a Pew são provenientes de agências sediadas nos Estados Unidos, nas quais sempre há editais abertos para todas as categorias de pesquisa (da iniciação cientifica ao pós-doutorado). A EducationUSA é a fonte oficial sobre estudo e afiliada ao Departamento de Estado dos Estados Unidos. Na Feira EducationUSA se tem contato direto com representantes que vão ajudar o interessado a se informar sobre os mais diversos tipos de programas de estudo no país: cursos intensivos de inglês, cursos de curta duração, graduação, pós-graduação profissional, mestrado e doutorado.

O objetivo das agências é financiar projetos de pesquisa e facilitar sua vinculação a algum orientador/supervisor em universidades. No âmbito das Américas, o Canadá também tem a experiência de lançar editais para oferecer bolsas de estudo.

Existem diversos programas nos países da Europa, como a Alemanha, que tem a agência DAAD, com escritório no Brasil, Inglaterra, Suécia, Suíça, Espanha, Itália, entre outros. Para encontrar as agências relacionadas com cada país da Europa, sugerimos o site Passaporte Mundo.

As regras são, basicamente, como as americanas: escrever um projeto e ter um aceite de um orientador.

Programas nacionais gerenciados pela iniciativa privada como a Fórmula Santander, a fundação Estudar e a Bayer também divulgam auxílio à pesquisa no exterior. O rito é a inscrição após lançamento de editais disponíveis para todas as categorias de pesquisador. Em algumas capitais, como São Paulo e Brasília, há feiras para promover o estudo no exterior. Elas promovem uma série de palestras sobre diversos temas, como morar, estudar e trabalhar no exterior.

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Foto da reitora Soraya Smaili, ela está em pé, de camisa verde e sorri

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

O inferno é o outro, dizia Jean-Paul Sartre. O inferno, na perspectiva posta pelo filósofo e escritor francês, é construído pela recusa – não importam os motivos – em aceitar aquilo que diferencia os outros de nós: valores religiosos, culturais, étnicos, ideológicos, políticos e morais. A não aceitação dos outros, marca distintiva da intolerância, estimula e propaga o ódio e a prática da violência. O Brasil vive tempos infernais, se quisermos adotar a conceituação de Sartre. 

Em 2014, o país bateu o recorde de quase 60 mil homicídios (mais de 42 mil por armas de fogo), o que representa uma alta de 21,9% em relação a 2004, segundo o Atlas da Violência 2016, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ocupamos o nada honroso 10º lugar em taxas de homicídio por 100 mil habitantes, considerando-se os cem países analisados pelo documento. 

Os números assumem uma característica ainda mais perversa, quando se considera que a imensa maioria das vítimas é formada por jovens negros que vivem em bairros periféricos das metrópoles – alguns estudos sugerem uma cifra superior a 70% do número de vítimas. Também a violência de gênero atinge proporções estarrecedoras: 13 mulheres são assassinadas todos os dias, segundo o Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde. Entre 2004 e 2014, cerca de 4,8 mil mulheres foram mortas por agressão.

Mas a violência não se manifesta “apenas” como atos de agressão física. Ela se expressa também na forma de bullying, ataques verbais e incitamento ao ódio nas redes sociais, órgãos de comunicação, salas de aula, ambiente de trabalho e até em áreas de lazer. Tudo isso, além do mais, tem implicações econômicas: os custos da violência, em todo o mundo, somam 7,16 trilhões de dólares (ou o equivalente a três vezes o PIB brasileiro). No Brasil, o custo é avaliado em 255 bilhões de dólares (11,5% do PIB), valor que corresponde à quinta posição no ranking dos que mais gastam com violência, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, China, Rússia e Índia.

Como algo construído, e não natural, o “inferno” tem raízes históricas, sociais, culturais, políticas e ideológicas. Pode e deve, portanto, ser estudado, compreendido e superado com a ajuda da investigação e da reflexão científicas. É aqui que a Unifesp encontra sua inserção no debate e busca, por meio da pesquisa, oferecer sua contribuição à sociedade brasileira. Por essa razão, e com esse objetivo, adotamos a intolerância e a violência como temas centrais desta edição.

Publicado em Edição 07
Terça, 06 Dezembro 2016 14:22

Com o dedo na ferida…

Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni
Pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa

Muito mais que conhecer as pesquisas realizadas na Unifesp, neste número somos desafiados a encarar alguns dos principais problemas que nos afligem todos os dias. A matéria de capa apresenta estudos e reflexões sobre os diversos tipos de violência: da urbana, escancarada diariamente na TV e em manchetes de jornais, à doméstica, escondida em milhões de lares brasileiros. Violência que muitas vezes somos tentados a não ver para não termos de agir, saindo de nossa zona de conforto. Violência dissimulada e disseminada, impregnada de preconceitos, atingindo crianças, adolescentes, mulheres e homossexuais. Violência que se transforma em trauma e repete-se, perpetua-se em um ciclo vicioso e perverso. Violência banalizada e institucionalizada. Violência nas escolas e universidades. Justamente onde se deveria esperar que fosse combatida, encontra-se um palco para o bullying – violência disfarçada de brincadeira, que mina a sensibilidade e a tolerância. A sociedade precisa mudar. A sociedade somos nós. Nós precisamos mudar. 

A educação precisa mudar, e a reforma curricular é um dos temas polêmicos discutidos neste número. Será esta a mudança que queremos e de que precisamos? Alterar só o currículo não basta, é preciso mudar as atitudes, recuperar o bom senso (e o bom humor) para não cairmos “no avesso, do avesso, do avesso”, como diria Caetano. Para que tudo não passe a ser “politicamente incorreto”, gerando ainda mais intolerância. 

Felizmente, ainda há espaço para a solidariedade e a esperança em mudanças positivas. Há também quem tenha coragem para enfrentar interesses econômicos e políticos que beneficiam a poucos, em defesa dos direitos humanos, como o padre Júlio Lancelloti, cujo perfil é descrito nesta edição. Ele mostra que humanidade, respeito e amor ao próximo não são palavras piegas, comuns à pregação religiosa, mas valores a serem resgatados, sob o risco de a humanidade não sobreviver a si mesma. 

Valores positivos e superação de limites também permeiam os estudos sobre atletismo paraolímpico apresentados no ICSEMIS, congresso realizado na Baixada Santista, sob a coordenação local de pesquisadores da Unifesp, que ocorre uma vez a cada quatro anos, sempre no país-sede dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. 

Ressurgem também esperanças para o desenvolvimento da pesquisa com a redução da burocracia que poderá advir da aplicação do Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei nº 13.243/2016), como esclarece o entrevistado Fernando Galembeck, pós-doutor pelas Universidades do Colorado e da Califórnia, ex-diretor do Laboratório Nacional de Nanotecnologia e atual professor convidado da Unicamp. 

Nesta edição, conheça também um pouco da história de nosso curso de Ciências Biomédicas, que em 2016 completou 50 anos de existência e cuja história se confunde com a da pesquisa científica na Unifesp e no Brasil. E há muito mais... Boa leitura!

Publicado em Edição 07
Terça, 06 Dezembro 2016 13:57

Expediente - Entreteses 7

A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.

ISSN 2525-5401 (publicação impressa)
ISSN 2525-538X (publicação on-line)

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Reitora: Soraya Soubhi Smaili

Vice-Reitora: Valeria Petri

Pró-Reitora de Administração: Isabel Cristina Kowal Olm Cunha

Pró-Reitora de Assuntos Estudantis: Andrea Rabinovici

Pró-Reitora de Extensão e Cultura: Florianita Coelho Braga Campos

Pró-Reitora de Gestão com Pessoas: Rosemarie Andreazza

Pró-Reitora de Graduação: Maria Angélica Pedra Minhoto

Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa: Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni

Pró-Reitor de Planejamento: Esper Abrão Cavalheiro

Jornalista responsável/Editor: José Arbex Jr. (MTB 14.779/SP)

Coordenação: Ana Cristina Cocolo

Reportagens: Ana Cristina Cocolo, Antonio Saturnino Jr., Gabriela Tornich, Lu Sudré, Maria Eduarda Gulman, Marianna Rosalles, Valquíria Carnaúba

Projeto gráfico e diagramação: Ana Carolina Fagundes

Infográficos e ilustrações: Ana Carolina Fagundes

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Fotografias: Acervo Unifesp / Créditos indicados nas imagens

Tratamento de imagens: Ana Carolina Fagundes

Conselho Editorial: Maria Lucia O. de Souza Formigoni, Débora Amado Scerni, Cristiane Reis Martins, João A. Alves Amorim, Sérgio B. Andreoli, Tania A. T. Gomes do Amaral e João Valdir Comasseto

Conselho Científico desta edição: Eliane Beraldi Ribeiro, João Valdir Comasseto, Maria Lucia O. de Souza Formigoni, Mavilde da Luz Gonçalves Pedreira e Tereza da Silva Martins

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Revista Entreteses n° 7 – Novembro/2016

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Tiragem: 2.500 mil exemplares

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DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL

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Equipe de jornalismo: Ana Cristina Cocolo, Antonio Saturnino Jr., Daniel Patini, José Luiz Guerra, Juliana Narimatsu, Mariane Santos Tescaro e Valquíria CarnaúbaDesign: Ana Carolina Fagundes e Ângela Cardoso Braga

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Publicado em Edição 07
Sexta, 11 Novembro 2016 14:25

Edição 7 - Entreteses

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Novembro 2016

A prática da violência, em todas as esferas da vida, imprime a sua marca no mundo contemporâneo, como resultado de uma crescente intolerância para com o outro. O Brasil, em outros tempos conhecido pela suposta cordialidade que sua população demonstrava no trato interpessoal do dia a dia, vive tempos de barbárie: uma sociedade cada vez mais dividida nos planos social, político e ideológico mostra-se incapaz de lidar com as diferenças, por menores que sejam.

Tema central dessa edição, a violência foi abordada nos diversos setores da vida cotidiana e apresentada com base em estudos de pesquisadores da Unifesp.  Entre os tipos de violência analisados estão a intolerância institucional, política e religiosa, o racismo, a violência de gênero, doméstica e urbana e – como um problema crescente e preocupante – o bullying, que já transpôs os muros das escolas e se propaga rapidamente pela internet.   

Para oferecer uma outra perspectiva, como contraponto ao quadro de desalento, entrevistamos o padre Júlio Lancellotti, referência nacional na defesa dos direitos humanos. Há mais de 30 anos, ele se dedica à assistência à população marginalizada e não tem medo em denunciar abusos e omissões do poder público.

Na área de pesquisa, contamos com a participação de Fernando Galembeck, ex-diretor do Laboratório Nacional de Nanotecnologia e professor titular aposentado do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (IQ/Unicamp), para falar sobre o recém-aprovado Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação, que pretende traçar um novo caminho para o desenvolvimento da pesquisa científica no Brasil. Já o Campus Baixada Santista tornou-se, em setembro, a capital mundial das Ciências do Esporte ao sediar a 3ª edição do Icsemis (sigla em inglês para Convenção Internacional de Ciência, Educação e Medicina no Esporte), congresso que acontece uma vez a cada quatro anos, sempre no país-sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos e que, nesse ano, reuniu pesquisadores de 46 países.

Na educação, Elaine Lourenço, professora do Departamento de História e coordenadora do curso de licenciatura em História da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/ Unifesp) – Campus Guarulhos, contempla a edição com um artigo sobre a Base Nacional Curricular Comum (BNCC), proposta pelo governo federal.

Nessa edição, também trazemos um pouco da história do curso de Ciências Biomédicas da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, que completou 50 anos de existência e comemorou a data em um grande evento no Teatro Marcos Lindenberg, localizado no campus.  Na matéria, incluímos parte do discurso emocionante da professora e pesquisadora renomada Helena Bonciani Nader, oriunda do curso – formou-se em 1970 – e primeira biomédica a presidir a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O discurso, no entanto, pode ser acessado na íntegra na versão digital da revista. 


Edições anteriores da Entreteses:

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Publicado em Entreteses
Terça, 08 Novembro 2016 08:11

Cinquenta anos de história

Curso comemora conquistas acumuladas no desenvolvimento da pesquisa e na formação de cientistas

Da Redação
Com a colaboração de Gabriela Tornich e Marianna Rosalles

Foto antiga em preto e branco, mostra um grupo de 13 pessoas, entre homens e mulheres

Na foto acima, figuram – entre outros integrantes – os professores: A. C. M. Paiva, Eline Prado, J. Ribeiro do Valle e J. Leal Prado (primeira fileira); Catharina Brandi e Zuleika P. Ribeiro do Valle (segunda fileira)

Em 2016, o curso de Ciências Biomédicas da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo completou 50 anos de existência, iniciando-se suas comemorações em junho com um grande evento no teatro Marcos Lindenberg. Docentes, discentes, servidores e interessados reuniram-se com o objetivo de refletir sobre a criação e evolução do curso, cuja história reproduz a crescente inserção da EPM no contexto social e econômico do país.

Há meio século, no período pós-guerra, a ciência repercutiu um momento de profundas transformações no Brasil e no mundo. O desenvolvimento da Genética e da Biologia molecular redirecionou o rumo da pesquisa e abriu debates. A formação superior nessas áreas foi reformulada, de modo a atualizar e acompanhar continuamente as novas descobertas científicas e seus desdobramentos. Nesse quadro, foi criado em março de 1966 o curso de Ciências Biomédicas, no Campus São Paulo, pelos professores José Leal Prado e José Ribeiro do Valle, que contaram com o apoio de Nylceo de Castro e Antonio Cechelli de Mattos Paiva, titulares de Histologia e de Biofísica.

Marilia de Arruda Cardoso Smith, hoje titular de Genética do Departamento de Morfologia da EPM, ingressou na primeira turma e recorda-se de que, naquele momento, assistir às aulas desses mestres e pesquisadores – entusiasmados com o início das atividades – era um verdadeiro privilégio. Convém enfatizar que as primeiras turmas eram pequenas – formadas por dez estudantes –, o que possibilitava um convívio intenso e uma relação de proximidade entre docentes e alunos.

Na época, o objetivo do curso, que agregava novas disciplinas para a EPM – entre elas, Matemática, Física, Química Orgânica e Analítica, Genética e Evolução –, era desenvolver a pesquisa e a docência nas chamadas “cadeiras básicas” da Medicina, de acordo com o professor Leal Prado. Marilia comenta a importância da abertura desse novo programa de formação: “A Escola Paulista de Medicina expandiu-se significativamente na área básica, com repercussões inéditas na área clínica.”

Apesar de sua motivação inicial estar ligada fundamentalmente à pesquisa e à docência, a graduação em Ciências Biomédicas ampliou-se, anos depois, para o campo das análises clínicas, em razão da demanda dos alunos e das novas oportunidades surgidas no mercado de trabalho.

Quando questionada sobre os grandes marcos do curso, Marilia cita as várias contribuições de alunos graduados, que ocupam postos de liderança científica ou funções de destaque, dignas de reconhecimento profissional, e especialmente a posse de Helena Nader na presidência da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Docente titular do Departamento de Bioquímica da EPM, Helena Nader foi a primeira biomédica a presidir essa entidade. 

Silvia Ihara, professora associada do Departamento de Patologia, até recentemente coordenadora da área biomédica, lembra a acolhida que recebeu quando ingressou na quarta turma do curso. Diz que escolheu a Biomedicina em virtude de sua vocação para a pesquisa laboratorial e que, agora, avalia ter escolhido o lugar certo para estudar. O curso manteve a ênfase tradicional na docência e na pesquisa, mas modernizou-se em decorrência da demanda apresentada pelos alunos interessados em atuar também no mercado laboratorial.

Formatura da primeira turma, três homens e três mulheres vestidos de beca

Formatura da 1ª turma de graduados em Ciências Biomédicas pela EPM (1969)

EntreTeses7 p52 professores

Da esquerda para a direita: professores J. Leal Prado (fundador), Nylceo M. de Castro (cofundador), A.C. M. Paiva (cofundador), J.C. Prates (docente e homenageado)

Participação discente

Cinco décadas após sua fundação, o curso ocupa o terceiro lugar em qualidade de ensino entre 204 instituições avaliadas pelo Ranking Universitário Folha (RUF 2016), as quais oferecem essa modalidade de formação profissional.

Por outro lado, a intensa mobilização do corpo discente em torno da prestação de serviços à comunidade propicia, em parte, o atendimento à função social que cabe à universidade exercer. Assim, muitos estudantes dedicam seu tempo livre a atividades voluntárias, apesar de cumprirem uma densa grade curricular, em período integral. Um exemplo é o trabalho que desempenham no Cursinho Pré-Vestibular Jeannine Aboulafia (Cuja), gerido por estudantes de diversas áreas do Campus São Paulo e que oferece gratuitamente aos vestibulandos mais de 160 vagas por ano. São também organizadas oficinas e visitas monitoradas para escolas públicas e particulares, com o intuito de apresentar aos secundaristas a carreira de biomédico e o ambiente universitário.

Um marco recente para a comunidade estudantil foi a internacionalização, realizada por meio do programa Ciência sem Fronteiras, permitindo que os interessados participassem de intercâmbios e frequentassem aulas em diferentes universidades do mundo, fato inédito na história do curso. Silvia ressalta que os bolsistas sempre causam boa impressão por onde passam: “Os alunos retornam com cartas de recomendação elogiosas e com boas notas. Assim, percebemos que não estamos em descompasso com as universidades estrangeiras.”

Após 50 anos, a graduação em Ciências Biológicas (modalidade médica) da EPM consolida sua trajetória de excelência, na qual a pesquisa inscreve-se como um marco tradicional, além de anualmente prover a academia e o mercado de trabalho com docentes e pesquisadores qualificados.

Foto do evento, mostra o palco com uma apresentação
Ftoo de Helena Nader

Uma questão de alma

Discurso proferido por Helena Bonciani Nader durante a realização do evento na Unifesp

Estamos aqui reunidos para celebrar nesta data o jubileu de ouro da criação do curso de Ciências Biomédicas, inaugurado de forma pioneira pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), à época Escola Paulista de Medicina (EPM).

Sinto-me duplamente honrada por poder proferir essas palavras, pois sou ex-graduanda da 2ª turma do curso biomédico da nossa EPM e, hoje, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que foi o espaço onde ocorreram as primeiras discussões que deram origem à proposta.

A ideia da criação de um curso com o perfil de Ciências Biomédicas, graduação e pós-graduação, foi inicialmente apresentada pelo Prof. Dr. José Leal Prado e discutida em um simpósio realizado durante a reunião da SBPC em 10 de novembro de 1950, na cidade de Curitiba. Infelizmente, em uma reunião posterior, no dia 7 de dezembro, com a participação de professores da Escola Paulista, da Universidade de São Paulo, de pesquisadores do Instituto Butantan e Instituto Biológico, a ideia considerada interessante e relevante foi abandonada, tendo em vista que a EPM era uma escola médica particular e que atravessava várias dificuldades financeiras.

No entanto, os professores da EPM, entre eles os professores Leal e Ribeiro do Valle, que já lideravam a pesquisa nas áreas básicas da Medicina, não abandonaram o projeto, mas intensificaram seus esforços no sentido de garantir formação adequada aos que trabalhavam ou buscavam oportunidades complementares em seus laboratórios.

A federalização da EPM ocorreu em 1956, transformando a instituição em uma faculdade pública. Em razão das pesquisas desenvolvidas pela escola, em 1964, a Capes, em associação com a Fundação Ford, reconheceu os departamentos de Bioquímica e Farmacologia e o de Microbiologia e Imunologia da EPM como Centros de Treinamento Avançado para pós-graduação. O ambiente científico no Brasil na década de 1960 era bastante modesto. Existiam somente 22 universidades federais, e em São Paulo, as únicas universidades públicas eram a USP e a Unicamp, além de várias escolas isoladas, como o ITA e institutos e faculdades que, reunidos em 1976, dariam origem à Unesp. As pesquisas nas áreas biomédicas contavam também com o Instituto Butantan, fundado em 1901, e o Instituto Biológico, que data de 1927 e que, devemos lembrar, também foi o palco para a criação da SBPC, proposta pelo nosso querido Maurício Rocha e Silva.

A fundação da SBPC ocorreu em 8 de julho de 1948 na sede da Associação Paulista de Medicina (APM), em reunião convocada por Paulo Sawaya, José Reis, e, claro, Maurício Rocha e Silva, o idealizador. O cenário científico biomédico da época contava ainda com a Fundação Oswaldo Cruz, antigo Instituto Soroterápico Federal, criado em 1900.

Trago estes dados, com datas e origens dessas instituições, porque quero ressaltar um aspecto que me parece bastante interessante: a maioria desses movimentos foram liderados por médicos voltados à pesquisa biológica e biomédica, que entendiam a necessidade de incentivar a ciência e a tecnologia para o desenvolvimento do país. Assim, relembro também que a criação do curso de Ciências Biomédicas foi aprovada por unanimidade pela Congregação da EPM, constituída – ela também - exclusivamente por profissionais médicos.

Analisar a história do curso, olhando, em especial para sua criação em 1966, também nos leva a relembrar o ambiente político, em pleno início da longa ditadura militar que nosso país viveu. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, professores da nossa EPM foram perseguidos e cassados, junto a tantos outros pesquisadores, das mais variadas instituições do país, que não aceitaram a ideologia propagada pelo regime. Ao mesmo tempo, infelizmente, tivemos professores que pactuaram com o governo, colaborando tanto com o cerceamento da nossa liberdade e atividade política, quanto com as violentas punições a quem ousava desafiar a ordem vigente.

Tomo a liberdade de trazer a minha experiência enquanto estudante, dessa 2ª turma. Nós tínhamos professores e colegas infiltrados pelo regime que fiscalizavam e emitiam relatórios sobre as nossas atividades; delatavam e denunciavam ações de resistência aos órgãos da repressão. Muitos colegas –esses sim, estudantes de verdade – foram presos e barbaramente torturados, alguns nunca retornaram. Enquanto a ditadura fazia recrudescer a censura, o pensamento acadêmico alçava voo e fazia-se ouvir, pelo menos dentro das próprias instituições. Passeatas, manifestações, exílios, prisões e torturas nos lembram do velho lema: “Conhecimento é poder”. Esse poder era perigoso para o regime e, portanto, deveria ser eliminado. Nesse cenário de oposições, enquanto alguns colaboravam com o sistema, outros resistiam. Alguns na linha de frente, em ações de enfrentamento, outros no próprio fazer educativo, tentando sustentar e garantir a formação dos estudantes e a produção científica baseadas em princípios éticos e democráticos.

Por outro lado, esse mesmo regime ditatorial, em 1968, implementou uma reforma universitária determinante para o desenvolvimento do ensino superior e da ciência no país. Entre as ações propostas na reforma, ressalto a abolição da cátedra vitalícia, que impedia a ascensão de novas lideranças, o incentivo para cooperação entre disciplinas, a flexibilização curricular e o estímulo à pós-graduação.

Então, diante desses cenários – político, científico e acadêmico – o curso de Ciências Biomédicas iniciou, de forma pioneira, sua trajetória para formar profissionais capazes de exercer a docência e a pesquisa nas diferentes disciplinas básicas das áreas da saúde.

Sobre a importância do curso nesse contexto, destaco as palavras do professor Leal, publicadas na revista Ciência e Cultura, em 1966: “Uma instituição ativa, como a Escola Paulista de Medicina, sente-se muito limitada dentro da estrutura de um instituto isolado de ensino superior. A criação do curso de Ciências Biomédicas tornará mais amplo seu campo de atividade cultural e mais importante sua contribuição social. Se tivermos êxito nessa iniciativa, estaremos armazenando uma experiência valiosa, ao mesmo tempo que teremos maiores possibilidades para fazer uma segunda tentativa no caminho da universidade federal. Só o futuro dirá a melhor conduta a seguir”.

Ao longo desses 50 anos, formamos profissionais que têm sólido conhecimento das disciplinas básicas dentro das especialidades da área biomédica, capacidade de autoaprendizagem, espírito crítico, conhecimento e grande familiaridade com o método científico e capacidade de formular e desenvolver planos de pesquisa e relatar resultados e conhecimentos com clareza.

Os egressos do nosso curso são lideranças em diferentes áreas do conhecimento, ocupando posições de destaque em atividades de ensino, pesquisa e extensão no país e no exterior.

Muitos são membros da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp), da Academia Brasileira de Ciências (ABC), presidentes de sociedades científicas, membros e coordenadores de comitês assessores do CNPq, da Capes, da Finep e de fundações de apoio à pesquisa, diretores, pró-reitores, conferencistas convidados e organizadores dos principais congressos nacionais e internacionais, entre tantas outras ações. Esses egressos também desempenham funções importantes na indústria e em outras atividades de tecnologia e inovação. A existência do curso criou uma ambiência de alta relevância científica e tecnológica nas áreas básicas e profissionalizantes da saúde, impactando diretamente a criação e a qualidade dos programas de pós-graduação da EPM. Os primeiros foram os programas de pós-graduação em Biologia Molecular, em 1970, e o de Microbiologia e Imunologia, em 1971, seguidos de uma grande expansão para diferentes áreas, o que tornou a EPM uma referência na oferta e qualidade da pós-graduação nacional.

Em 1994, diante da intensa produção científica e da qualidade do ensino, a EPM foi transformada em universidade temática da área da saúde e que hoje figura entre as melhores instituições do país. Segundo recente levantamento do Times Higher Education (THE), mesmo após nossa gigantesca expansão para todas as áreas do conhecimento, em seis diferentes campi no Estado de São Paulo, iniciada em 2003, seguimos em destaque, ocupando a 6ª posição entre as melhores universidades da América Latina.

Outras instituições públicas, federais e estaduais, investiram na criação de cursos biomédicos tomando a nossa proposta como referência, ressaltando mais uma vez nossa contribuição para o desenvolvimento da educação superior e da ciência no país. Por outro lado, é preciso dizer que algumas instituições de ensino superior privadas viram no curso um nicho para formar profissionais voltados ao trabalho com análises clínicas, em hospitais e laboratórios, objetivo totalmente desvinculado da proposta idealizada na nossa universidade.

Entre outras muitas características e destaques do nosso curso biomédico, ressalto a contribuição na produção científica indexada internacional. Quando o curso foi criado, o Brasil publicava anualmente cerca de cem artigos e hoje esse número chega a 40 mil. Com certeza a graduação e a pós-graduação biomédica, como idealizadas pelo nosso fundador, contribuíram para esse crescimento exponencial.

Ressalto também o papel fundamental que nossos egressos tiveram na regulamentação das profissões de biomédico e biólogo. Conquistas importantes que garantiram a especificidade do trabalho desses profissionais.

E ainda trago os nossos estudantes, que, entre outras atividades, entendendo o papel da extensão universitária, criaram o Cursinho Pré-Vestibular Jeaninne Aboulafia (Cuja/Unifesp), que há 14 anos prepara estudantes para inserção no ambiente acadêmico.

Poderia ainda elencar muitos outros pontos para lembrar a importância e a qualidade da nossa proposta formativa, mas optei por trazer o que, a meu ver, nos diferenciou e segue ainda hoje nos diferenciando.

Nós tínhamos e temos os melhores professores dentro da sala de aula, com capacidade para ensinar;
Nós tínhamos e temos os melhores professores no relacionamento com os alunos, com capacidade para orientar;
Nós tínhamos e temos os melhores pesquisadores nas suas áreas de atuação;
Nós tínhamos e temos estudantes, funcionários e professores, ou seja, a comunidade mais criativa diante das adversidades;
Nós tínhamos e temos aqueles que lideraram mudanças importantes na trajetória da ciência nacional;
Nós tínhamos e temos aqueles estudantes, funcionários e professores que acreditam profundamente no país e não perdem a capacidade de sonhar.
Por fim, acredito que o espírito arrojado e inovador de Leal Prado e Ribeiro do Valle segue presente. Quando iniciaram a pesquisa nos porões do Hospital São Paulo, esses mestres lançaram as bases para nosso curso de graduação e para a universidade que somos hoje.

Eu tenho até hoje na memória o discurso proferido pelo professor Leal na Palavra aos Pais, em nossa formatura. Ele disse: “Dos vossos filhos vamos querer quase tudo, mas sobretudo a alma! ”. Gostaria muito que Leal estivesse aqui presente para comemorar conosco esses 50 anos e visse que demos muito, inclusive, as nossas almas.

Em tempos novamente difíceis para o nosso país, encerro emprestando as palavras de Manoel de Barros no poema O Menino que Carregava Água na Peneira, que diz:

“Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos”

Acredito que nós, estudantes, funcionários, professores e egressos do curso de Ciências Biomédicas, assim como os poetas, enchemos os vazios com as nossas peraltagens e alguns vão nos amar pelos nossos despropósitos.
Obrigada.

Publicado em Edição 07