Quinta, 21 Dezembro 2017 15:00

Ciência em colapso

Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), membro da Academia Mundial de Ciências e da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, analisa os impactos da crise orçamentária na ciência brasileira

Lu Sudré

Luiz Davidovich

(imagem: Divulgação / ABC)

Laboratórios fechados, pesquisas paralisadas, bolsas em atraso e cientistas desestimulados: 2017 carrega o título de pior orçamento da ciência nos últimos 12 anos. Dos R$ 5,8 bilhões previstos para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), apenas R$ 2,5 bilhões foram liberados para custeio e investimento na área. O corte do orçamento ameaça o protagonismo internacional do país e as conquistas já alcançadas pela ciência brasileira. É o que alerta Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciência (ABC), doutor em física pela Universidade de Rochester (EUA). Enquanto países da União Europeia, por exemplo, estimam aumentar seu investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) para 3% do seu Produto Interno Bruto (PIB) até 2020, o Brasil caminha na contramão. Em 2017, foram investidos apenas 1% do PIB e as estimativas para 2018 não são animadoras. A meta de investir 2% do PIB em P&D até 2019, estabelecida pelo documento Estratégia Nacional de Ciência e Tecnologia, lançado ano passado pelo governo federal, parece cada vez mais distante. 

Para Davidovich, é preciso corrigir o rumo das prioridades governamentais com urgência, para que o atraso não se torne irreversível. O físico, membro da Academia Mundial de Ciências (TWAS) e da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, recebeu diversos prêmios, entre eles a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (2000) e o Prêmio TWAS de Física em 2001. Em 2016, Davidovich deu início ao Projeto Ciência para o Brasil, com a finalidade de elaborar propostas para o fortalecimento de setores estratégicos para o desenvolvimento do país.

Entreteses - Qual a importância da ciência no desenvolvimento do país?

Luiz Davidovich - Vivemos em uma sociedade do conhecimento, na qual o protagonismo internacional e o bem-estar da população dependem da capacidade de inovação baseada no avanço científico. Basta ver que a expectativa de vida dos brasileiros aumentou de cerca de 34 anos, em 1900, para 75 anos, em 2015. A ciência nacional teve um papel fundamental nesse desenvolvimento, por meio da descoberta e da implementação de novas tecnologias para saneamento, vacinas, técnicas terapêuticas. Um exemplo recente foi a resposta imediata da ciência brasileira à epidemia de zika, elucidando sua relação com a microcefalia. Isso foi possível graças ao apoio recebido no passado, de agências como CNPq, Capes, Finep e as fundações estaduais de amparo à pesquisa (FAPs). 

Mas o papel fundamental da ciência no desenvolvimento econômico e social do Brasil tem se revelado em muitas outras áreas. A descoberta de um processo de fixação de nitrogênio no solo, por meio do uso de bactérias, a partir das pesquisas realizadas por Johanna Döbereiner, em seu laboratório na UFRJ, não apenas multiplicou por quatro a produtividade da soja, mas representa para o país uma economia de R$ 15 bilhões por ano, que seriam gastos na importação de fertilizantes nitrogenados. O desenvolvimento da tecnologia aeronáutica incorporou aviões como item importante da pauta de exportação. A cooperação entre a Petrobrás e grupos de pesquisa em diversas instituições conquistou para essa empresa prêmios internacionais por sua tecnologia de extração de petróleo em águas profundas. O pré-sal, tido como uma aventura arriscada há poucos anos, produz atualmente quase 50% do petróleo brasileiro. 

Carros movidos a álcool foram criados pela ciência brasileira. O Brasil enriquece urânio no Centro Tecnológico da Marinha em Iperó – graças à ciência desenvolvida no país. Empresas como a Embraco e a WEG – respectivamente, entre as maiores fabricantes de compressores e de equipamentos elétricos do mundo – conquistaram seu protagonismo internacional em estreita colaboração com grupos de pesquisa nacionais. Também é importante o papel das ciências sociais ao desvendar a organização, a cultura, os hábitos dos mais diversos setores da sociedade brasileira e analisar os efeitos de políticas sociais.

O papel da C&T torna-se especialmente importante em épocas de crise econômica. O investimento nessas áreas promove um caminho para sair da crise de forma sustentável. Por isso mesmo, a União Europeia planeja alcançar, em 2020, 3% do PIB investido em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e a China 2,5% do PIB. Os Estados Unidos investem 2,7%, Coreia do Sul e Israel mais que 4%. Em 2008, no auge da crise, o presidente da China anunciou que, apesar da redução da taxa de crescimento, o investimento em pesquisa básica aumentaria em 26%. Hoje, estão à frente dos Estados Unidos em tecnologias sofisticadas, como a comunicação quântica.

 

Luiz Davidovich

(imagem: Divulgação / ABC)

E. O Brasil passa pelo pior orçamento para C&T dos últimos 12 anos. Qual análise faz dessa conjuntura?

L.D. O orçamento de custeio e capital (isto é, os recursos para pesquisa, não incluindo salários e gastos administrativos) do Ministério de Ciência e Tecnologia, em 2010, corrigidos pela inflação até este ano, foi de R$ 10 bilhões. O orçamento de 2017, do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, é de R$ 3,2 bilhões, mas R$ 700 milhões vão para o setor de comunicações. Temos, assim, cerca de 25% do orçamento de 2010, situação agravada pelo colapso de diversas FAPs. Isso explica a grave crise atual; o CNPq não consegue pagar as bolsas, a Finep tem recursos extremamente reduzidos para inovação tecnológica e projetos de infraestrutura de instituições de ensino e pesquisa. Investimentos estão zerados em diversas FAPs, cientistas estão deixando o país, laboratórios estão parando por falta de recursos. A crise nos estados afeta universidades importantes, como a UERJ. 

A partir de 2014, cortes sucessivos levaram a essa crise. O maior deles, no entanto, ocorreu em 2017, um corte de 44% nos R$5,8 bilhões previstos para este ano, que ameaça o desenvolvimento científico e tecnológico do país e reduz o investimento em P&D para algo próximo de 1% do PIB. Esse percentual de corte atingiu todos os ministérios, exceto os de Educação e Saúde, que estão protegidos pela Constituição. Ao realizar um corte linear, o governo está de fato confessando sua incompetência em definir prioridades para o Brasil.

 

E. A fusão que deu origem ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações prejudicou a ciência e a pesquisa? 

L.D. A fusão foi apresentada pelo governo como uma vantagem para a área de C&T, pois a força do setor de comunicações ajudaria a trazer mais recursos para o ministério. A previsão não se confirmou. A verba para a ciência diminuiu. Além disso, a complexidade do novo ministério levou a uma reforma que afastou órgãos como CNPq e CNEN, reduzidos a seções dentro de uma estrutura hierárquica de secretarias e diretorias. Tudo indica, portanto, que houve uma inversão de prioridades.

 

E. Quais as consequências diretas desse desmonte?

L.D. Estamos perdendo terreno no cenário internacional. Vários laboratórios estão na iminência de fechar. O pior efeito, a meu ver, está no desestímulo dos jovens, os cientistas de amanhã.
Há poucos anos, o Brasil destacava-se na imprensa internacional como um país que estava resolvendo seus problemas sociais e que aumentava seu protagonismo, com sucessos científicos e tecnológicos reconhecidos mundialmente. Esse prestígio esfumou-se. É preciso corrigir o rumo, de modo a impedir que esse atraso seja irreversível.

 

E. Há alguma perspectiva para reverter a situação?

L.D. Entre 2003 e 2014, o Brasil passou de 1,39% a 2,46% da produção científica mundial, o número de doutores formados por ano mais que dobrou, de 7.710 para 16.729. O Brasil ocupa o 13º lugar em número de publicações, nos rankings internacionais. Pesquisadores brasileiros têm recebido reconhecimento internacional, destacando-se a Medalha Fields, o prêmio mais importante da matemática, outorgada a Artur Ávila, em 2014. Grandes projetos internacionais, nas áreas de partículas, Astronomia e clima, contam com a colaboração de cientistas brasileiros. Há, no entanto, muito a avançar. O Brasil ocupa um lugar modesto nos rankings de inovação: passou da 47ª posição, em 2011, para a 69ª, em 2017. Entre as economias da América Latina e Caribe, o Brasil aparece em sétimo lugar, atrás de Chile (46º), Costa Rica (53º), México (58º), Panamá (63º), Colômbia (65º) e Uruguai (67º). No Brasil, a participação de empresas no investimento em P&D é menor que 50%, incluídas as estatais, como a Petrobrás, enquanto em países como a Coreia do Sul e a China esse percentual aproxima-se de 80%. As universidades brasileiras têm, também, presença modesta em rankings internacionais.

É necessário aumentar continuamente a qualidade da produção científica, reestruturar as universidades de modo a privilegiar a criatividade e o enfrentamento das grandes questões científicas, envolver a comunidade científica em projetos mobilizadores que focalizem as vantagens competitivas do país, como a inovação em Biotecnologia baseada na rica biodiversidade nacional – estima-se que apenas 5% das espécies são conhecidas. Esse é um rico tesouro, que corresponde a 20% da biodiversidade mundial. Esse e outros projetos mobilizadores, como o domínio da tecnologia para o lançamento e a confecção de satélites, o incentivo a energias alternativas, o desenvolvimento de novas tecnologias para a agropecuária e inovações na área de saúde. Todos esses projetos tornam-se inviáveis com um investimento em P&D da ordem de 1% do PIB. 

É esse caminho que está agora ameaçado.

 

E. Muito se fala do modelo estadunidense de investimento para a área. Ele é adequado ao Brasil? 

L.D. Podemos tirar algumas lições do modelo estadunidense. Por exemplo, as grandes empresas encaram positivamente o financiamento, pelo governo, de pesquisa básica em universidades e institutos de pesquisa. A razão desse apoio é clara: as empresas preferem desenvolver pesquisa aplicada, com potencial de ganhos a curto prazo, usando para isso os resultados obtidos pela comunidade acadêmica. É uma divisão de trabalho interessante para essas empresas. 

A contribuição direta de empresas para as universidades estadunidenses é pequena: de longe a maior contribuição vem do governo. Mesmo no Massachusetts Institute of Technology (MIT), a pesquisa patrocinada diretamente pela indústria totalizou 19% de todos os recursos para a pesquisa, em 2016. Por outro lado, a contribuição de ex-alunos para instituições de ensino superior totalizou 10,85 bilhões de dólares em 2015. Como se vê, é um modelo que, no presente momento, é difícil de imitar. Nos Estados Unidos, assim como na Europa, vigora há muito tempo uma Lei Rouanet para a ciência: contribuições a instituições de ciência e tecnologia podem ser deduzidas do imposto de renda.

 

E. O Ciência Sem Fronteiras ganhou muito destaque, mas foi encerrado abruptamente. Quais as consequências para o Brasil?

L.D. O Ciência Sem Fronteiras pecou pelo excesso. Apesar dos exemplos de sucesso, envolvendo estudantes em instituições internacionais de ponta, um grande número de bolsistas foi enviado para instituições que não se destacam internacionalmente e que cobram taxas altíssimas de matrícula. Por outro lado, é penoso ver os estudantes retornarem para um país que enfrenta uma crise grave, limitando a possibilidade desses bolsistas contribuírem para o país. Mas a crise afeta a juventude nacional. É a qualidade do emprego que está em causa.

Professor da Unifesp é empossado na Academia Brasileira de Ciências

Em março, Luiz Henrique Soares Gonçalves de Lima, professor e orientador no Programa de Pós-Graduação em Oftalmologia e Ciências Visuais da EPM/Unifesp, tomou posse como membro afiliado da regional São Paulo da Academia Brasileira de Ciências (ABC), para o período 2016-2020.

Lima foi selecionado para compor uma lista de jovens pesquisadores da ABC por sua atuação em pesquisas sobre degeneração macular e novas formas de liberação intraocular de fármacos.

Os integrantes da lista devem ter menos de 40 anos, trabalhos de relevância científica e serem radicados nas regionais Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. As indicações são feitas por membros titulares e levadas à votação por uma comissão de seleção.

Publicado em Edição 09
Quinta, 21 Dezembro 2017 10:00

Cortes em CT&I ameaçam o futuro do país

Soraya Smaili

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

O momento atual apresenta enormes desafios em relação ao futuro das pesquisas e da ciência em nosso país. Chegamos ao final de 2017, mas ainda não temos certeza se e como o ano irá acabar. O debate e a participação da comunidade científica na política de financiamento da ciência foram extremamente significativos. Há muito não víamos os cientistas e estudantes tão mobilizados e empenhados em demonstrar à sociedade os efeitos dos cortes anunciados na dotação de verbas públicas destinadas à ciência, tecnologia e inovação (CT&I).

A proposta de orçamento apresentada pelo governo federal reduz as verbas para o setor a um valor equivalente a 2/3 do investido em 2011. Caso isso se confirme, o país estará diante de uma catástrofe de grandes proporções, com o comprometimento de atividades essenciais ao desenvolvimento, bem como do processo de crescimento da nação.

Nossos pesquisadores foram firmes e consistentes na defesa do sistema público de CT&I e souberam iniciar um processo de interlocução com parlamentares e a sociedade, por todos os meios possíveis, incluindo a mídia, para demonstrar a importância dessa área. Dados recentes apresentados ao Conselho Universitário da Unifesp (Consu) pelo professor Marcos Cintra, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), revelam que cada unidade da moeda investida em CT&I em determinado país gera de três a quatro unidades da mesma moeda em desenvolvimento econômico e social. Não se trata, portanto, de um “gasto”, mas sim de um investimento no futuro de qualquer nação. Por essa razão, muitos têm atuado para a tomada de consciência em torno da defesa desse patrimônio fundamental.

Dentre as entidades que mais se destacaram nessa atuação, nos últimos meses, estão as universidades públicas, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Entreteses traz, nesta edição, uma importante entrevista sobre o tema com o presidente da ABC, Luiz Davidovich. Apontando para o perigo de um retrocesso desastroso, Davidovich afirma que o país tem os meios e os recursos para apostar no crescimento. Mas é preciso que o governo federal tenha vontade política de fazê-lo. A Unifesp coloca-se ao lado do movimento em questão, que visa recompor os orçamentos para essa área tão estratégica.

Como demonstração de que é possível adotar o caminho do crescimento, Entreteses traz também uma ampla reportagem sobre o trabalho realizado pelo Departamento de Ciências do Mar, localizado no Campus Baixada Santista. Em 2011, a Unifesp tomou a iniciativa de expandir as pesquisas científicas na área, com a contratação de jovens doutores. Inicialmente, foram oferecidos um bacharelado e engenharias; posteriormente, abrimos programas de pós-graduação. Hoje, formamos profissionais que produzem conhecimento essencial não só para a conservação da costa da Baixada Santista, como também para a propriedade brasileira em três vertentes: social, ambiental e biológica.

Em 2017, apesar das dificuldades enfrentadas pelo país, nossos pesquisadores – de todas as áreas – têm o que celebrar, pois a Unifesp foi indicada, em diversos sistemas de avaliação, como uma das três melhores universidades brasileiras em pesquisa. Vamos continuar: nossa única escolha é atuar e avançar pela ciência e pelo futuro.

Publicado em Edição 09

Esper Cavalheiro

Esper A. Cavalheiro
Pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa

A nova equipe que assumiu a direção da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (ProPGPq) apresenta suas propostas de trabalho para os próximos anos, os quais descortinam um horizonte econômico bastante sombrio, especialmente para a área de ciência, tecnologia e inovação (CT&I). O financiamento nacional da CT&I observado nos últimos 50 anos sempre oscilou, apesar de ser uma área fundamental para alavancar o desenvolvimento geral de uma nação. Por essa razão a entrevista com o presidente da Academia Brasileira de Ciências, professor Luiz Davidovich, publicada nesta edição, é tão importante para a reflexão conjunta de toda a sociedade.

Esse é o pano de fundo diante do qual estabelecemos as linhas mestras de nosso trabalho para os próximos quatro anos. Enfrentar o desafio demanda criatividade, tenacidade e compromisso com o novo, o inédito. Não é, portanto, com menos entusiasmo que assumimos essa missão institucional.

Assim, a nova equipe tem atuado no sentido de ampliar os instrumentos da ProPGPq e planejar ações de curto, médio e longo prazo, tal como delineado no Plano de Desenvolvimento Institucional da Unifesp (PDI 2016-2020). São cinco os principais projetos iniciados: 1. Reestruturação da ProPGPq. 2. Ampliação do Escritório de Apoio ao Pesquisador (EAP). 3. Recadastramento dos pós-doutorandos e organização do I Encontro Unifesp de Pós-Doutores. 4. Criação da Comissão Institucional de Integridade Acadêmica. 5. Avaliação interna dos programas de pós-graduação.

Em relação à reestruturação da ProPGPq (item 1), além das quatro coordenadorias já atuantes na Pró-Reitoria, foi criada a de Integração, cuja principal meta será estimular a convergência entre os pesquisadores e os programas de pós-graduação das diferentes áreas do saber. A reorganização e ampliação do EAP (item 2) visa, sobretudo, implementar ações que estimulem e facilitem as atividades-fim dos pesquisadores, proporcionando-lhes ambiente mais favorável na interface institucional e com o sistema nacional de pós-graduação e pesquisa. O item 3 diz respeito à atividade dos pós-doutores, espaço privilegiado e de constante desafio. A partir de portaria editada pela reitora Soraya Smaili, chegamos ao item 4, que levou à estruturação de uma política institucional de boas práticas acadêmicas e de ética em pesquisa. Esta prevê o estabelecimento de um escritório na nova estrutura da ProPGPq, o qual deverá organizar, em conjunto com a comunidade unifespiana, procedimentos e parâmetros atinentes à integridade acadêmica institucional.

A nova equipe da ProPGPq enfatiza também a necessidade de a Unifesp deflagrar seu próprio processo de avaliação (item 5). Demos início à primeira fase dessa avaliação a partir de um questionário proposto aos programas de pós-graduação. Contrariamente à avaliação da Capes, busca-se uma compreensão do potencial interno de cada programa que dê conta da formação de mestres e doutores – acadêmicos ou profissionais – e seja capaz de impactar o desenvolvimento do país. Para tanto, faz-se necessária a colaboração de toda a comunidade.

Não menos importante foi a incorporação do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) às atividades da ProPGPq. A integração proporcionará maior convergência entre as atividades de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação e facilitará a interação desse órgão com os agentes similares de outras instituições de ensino superior (IES) e institutos de pesquisa no país e no exterior.

Ao agradecer a confiança que em nós foi depositada, a nova equipe da ProPGPq coloca-se à disposição para ouvir, contribuir, estimular e, principalmente, criar alianças determinantes no aprimoramento do ambiente de pesquisa, no desenvolvimento tecnológico e na inovação em toda a Unifesp.

Publicado em Edição 09
Quinta, 21 Dezembro 2017 08:49

Expediente

A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.

ISSN 2525-5401 (publicação impressa)
ISSN 2525-538X (publicação on-line)

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Reitora: Soraya Soubhi Smaili

Vice-Reitor: Nelson Sass

Pró-Reitora de Administração: Tânia Mara Francisco

Pró-Reitor de Assuntos Estudantis: Anderson da Silva Rosa

Pró-Reitora de Extensão e Cultura: Raiane Patrícia Severino Assumpção

Pró-Reitor de Gestão com Pessoas: Murched Omar Taha

Pró-Reitora de Graduação: Isabel Marian Hartmann de Quadros

Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa: Esper Abrão Cavalheiro

Pró-Reitor de Planejamento: Pedro Fiori Arantes

Jornalista responsável/Editor: José Arbex Jr. (MTB 14.779/SP)

Coordenação: Ana Cristina Cocolo

Reportagens: Ana Cristina Cocolo, Celina M. Brunieri, Daniel Patini, Felipe Costa, José Luiz Guerra, Juliana Narimatsu, Lu Sudré, Mariane Santos Tescaro e Valquíria Carnaúba

Projeto gráfico e diagramação: Ana Carolina Fagundes 

Infográficos e ilustrações: Ana Carolina Fagundes 

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa 

Fotografias: Acervo Unifesp / Créditos indicados nas imagens

Tratamento de imagens: Ana Carolina Fagundes

Conselho Editorial: Esper Abrão Cavalheiro, Ruy Ribeiro de Campos Jr., Paulo Schor, Karina Ramalho Bortoluci, Daniel Campos de Carvalho e Ana Lúcia Lana Nemi 

Conselho Científico: Olgária Chain Feres Matos, Renato Janine Ribeiro, Ruy Ribeiro de Campos Junior, Paulo Schor, Fulvio Alexandre Scorza

Revista Entreteses n° 9 – Dezembro/2017

www.unifesp.br/entreteses
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Tiragem: 2.000 exemplares 

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL

Direção: Luciana de Arêa Leão Borges

Jornalismo: Ana Cristina Cocolo, Daniel Patini, José Luiz Guerra, Juliana Narimatsu, Mariane Santos Tescaro e Valquíria Carnaúba

Design: Ana Carolina Fagundes e Ângela Cardoso Braga

Audiovisual: Reinaldo Gimenez (coordenação), Jean Carlo Silva, Loiane Caroline Vilefort, Luciana de Arêa Leão Borges e Michelle Santana 

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Assistente administrativo: Luis Tadeu Ka Jin Mo

Assessoria de Imprensa: CDN Comunicação Corporativa

Redação e administração:
Rua Sena Madureira, nº 1.500 - 4º andar - Vila Clementino
CEP: 04021-001 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3385-4116 - Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. - www.unifesp.br

Publicado em Edição 09
Quinta, 23 Agosto 2018 09:33

Edição 10 - Entreteses

banner entreteses10

Versão em PDF

Julho 2018

Mais do que nunca, numa época de crise como a que vivemos, “a coisa mais importante para nós, brasileiros, é inventar o Brasil que queremos”, como dizia Darcy Ribeiro. Esse é o desafio que a universidade pública deve enfrentar, e que remete ao lugar destinado à educação e ao conhecimento. Nessa edição, dedicamos uma reflexão aos caminhos postos para a universidade pública, no sentido de levar a bom termo a sua missão. Contamos, para isso, com a preciosa colaboração do professor visitante Renato Janine Ribeiro, convidado pela Unifesp para coordenar um grupo de trabalho destinado a criar e implantar o Instituto de Estudos Avançados (IEA), com a dupla vocação de estimular e ajudar a viabilizar tanto a realização de pesquisas situadas na fronteira do conhecimento como a formulação de políticas públicas capazes de superar alguns dos grandes desafios enfrentados pelo Brasil.

Em nossa matéria de capa, abordamos uma questão que preocupa cada vez as autoridades públicas, cientistas e especialistas em todo o mundo: a questão da alimentação. Como uma espécie de “outro lado” perverso da moeda que, numa das faces, apresenta o problema da fome e da subnutrição que atinge quase um bilhão de seres humanos, enfrentamos a questão dos “desertos alimentares”, produzidos por uma combinação de fatores: comida ultraprocessada, desperdício e um modelo de produção e consumo estimulado pelo agronegócio. Trata-se de um quadro de crise que afeta negativamente os indivíduos e cria graves problemas de saúde pública.

Nosso “perfil” faz uma homenagem ao professor José Carlos Prates, que, aos 85 anos, desenvolveu uma trajetória profissional que se confunde com a história da própria Escola Paulista de Medicina, à qual dedicou boa parte de sua vida. Também trazemos como destaque uma importante pesquisa desenvolvida pelo escritor e pós-doutorando Ricardo Lísias sobre como são escritas as memórias e histórias que lidam com os efeitos da transição entre o regime instituído em 1964 e a redemocratização brasileira.

Oferecemos, enfim, uma edição bastante “movimentada” e conectada a alguns dos problemas mais centrais do mundo contemporâneo, sempre procurando oferecer análises em profundidade e perspectivas para sair da crise.

Desejamos a todos uma boa leitura!

Expediente

Editorial :: Avaliação de impacto permite aprimorar os programas da Unifesp

Carta da reitora :: Educação e conhecimento: um lugar para os estudos avançados na Unifesp

Entrevista • Renato Janine :: Nada é poupado pela velocidade das mudanças

Perfil • José Carlos Prates :: Querido Chefão da EPM

Capa :: Deserto alimentar faz soar alarme no Brasil

Nutrição :: Faca de dois gumes

Medicina :: O lado obscuro da beleza

Cobra-cega :: Novas perspectivas de cura para a cirrose

Genética :: Doença pulmonar negligenciada pode matar até 1% da população

Infecção sexualmente transmissível :: Adolescentes com HIV não sabem negociar o uso do preservativo

HIV :: Muito próximo da cura

Biodegradantes :: Cientistas descobrem bactérias que se alimentam de petróleo

Saúde pública :: Excesso de anti-inflamatório prejudica biota marinha

Saúde pública :: Efluentes causam lesões celulares graves no DNA de ratos

Vida virtual :: Uso abusivo da internet favorece problemas psiquiátricos

Neuroimagem :: Ressonância magnética promete ajudar na detecção precoce da depressão

THC :: Canabinoides contra o alcoolismo

Musicoterapia :: Sons da reintegração

Balões :: Festa no céu, conflito na terra 

Literatura :: Narradores indagam os tempos da ditadura e o seu legado

Biocerâmica :: Técnica de injeção garante cimento ósseo mais coeso e resistente

Osteogênese :: Nanotecnologia entre dentes

Tecnologia :: Estudantes constroem aparelho de baixo custo com impressora 3D

Efemérides
:: Simpósio e Diplomação de Novos Membros Afiliados da Academia Brasileira de Ciências
:: Homenagem a Celina Turchi Martelli
:: International Conference on Policy Diffusion and Development Cooperation

Publicado em Entreteses
Segunda, 18 Dezembro 2017 14:10

Edição 9 - Entreteses

banner entreteses09

Versão em PDF

Dezembro 2017

No momento em que os cortes sucessivos no orçamento das universidades públicas e da ciência brasileira ameaçam o futuro do país, milhares de professores, pesquisadores e estudantes se recusam a abandonar seus projetos. E mostram, por meio de novas conquistas no campo da ciência, tecnologia e inovação (CT&I), que a produção do conhecimento é um componente indispensável ao processo de desenvolvimento da nação.

Nesta edição de Entreteses, o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich, é o entrevistado e faz um balanço da ciência nacional e do risco de colapso ao qual pode ser submetida se não houver a manutenção mínima de recursos.

Na série especial de capa, apresentamos parte da produção realizada pelo Instituto do Mar (IMar), que evidencia o pioneirismo da Unifesp como instituição federal ao instalar-se na costa litorânea do Estado de São Paulo. As ações de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas no âmbito das Ciências do Mar focam três grandes áreas (social, biológica e ambiental), atendem estrategicamente às demandas da região da Baixada Santista e fortalecem o país. Nessas páginas trazemos pesquisas voltadas à melhoria dos processos de extração de petróleo, proveniente tanto da camada de pré-sal quanto de reservatórios subterrâneos. A camada de pré-sal foi uma das descobertas mais significativas da última década em todo o mundo, que incluiu o Brasil entre os dez primeiros países no ranking de produção petrolífera.

Mostramos também que o Brasil tem um cinturão solar, não explorado, para a geração de energia e que uma parceria com a Argentina e o Paraguai permitirá obter informações relevantes sobre o clima, passíveis de ser aproveitadas para a gestão de recursos hídricos, a geração de energia elétrica e até mesmo a agricultura. Ainda nessa série, o leitor poderá aferir a riqueza da biodiversidade marítima brasileira e a importância do monitoramento de suas espécies.

No perfil, fazemos uma homenagem ao crítico e sociólogo Antonio Candido, compartilhando sua rica história de vida e o valor de seu legado para as futuras gerações. Esse trabalho de pesquisa primoroso, realizado por Celina M. Brunieri e Felipe Costa, membros da equipe de Entreteses, é complementado por conteúdos que figuram na versão digital desta edição.

Desejamos a todos uma boa leitura!

Publicado em Entreteses
Sexta, 15 Dezembro 2017 08:47

Perfil Antonio Candido - complemento

Professor Antonio Candido

Principais títulos acadêmicos

  • 1944 – Livre-docente em Literatura Brasileira – FFCL-USP
  • 1954 – Doutor em Ciências Sociais – FFCL-USP
  • 1964-1966 – Professor-associado da Universidade de Paris
  • 1968 – Professor-visitante da Universidade de Yale
  • 1974 – Professor titular de Teoria Literária – FFLCH-USP
  • 1984 – Professor emérito da USP
  • 1987 – Professor honoris causa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
  • 1988 – Professor emérito da Faculdade de Ciências e Letras de Assis (Unesp)
  • 2005 – Doutor honoris causa da Universidade Estadual Paulista (Unesp)
  • 2006 – Professor honoris causa da Universidade da República do Uruguai

Principais prêmios

  • 1960 – Prêmio Jabuti - Categoria: História Literária - Livro: Formação da Literatura Brasileira 
  • 1965 – Prêmio Jabuti - Categoria: Poesia - Livro: Os Parceiros do Rio Bonito
  • 1966 – Prêmios Jabuti - Categoria: Personalidade Literária do Ano/ Categoria: Estudos Literários (Ensaios) - Livro: Literatura e Sociedade 
  • 1978 – Prêmio Jabuti - Categoria: Personalidade Literária do Ano
  • 1993 – Prêmio Jabuti - Categoria: Estudos Literários (Ensaios) - Livro: Brigada Ligeira e Outros Escritos 
  • 1993 – Prêmio Machado de Assis - Academia Brasileira de Letras
  • 1994 – Prêmio Jabuti - Categoria: Estudos Literários (Ensaios) - Livro: O Discurso e a Cidade
  • 1996 – Prêmio Anísio Teixeira - Capes/ MEC
  • 1998 – Prêmio Camões de Literatura
  • 2000 – Prêmio Jabuti - Categoria: Amigo do Livro
  • 2005 – Prêmio Internacional Alfonso Reyes
  • 2007 – Prêmio Intelectual do Ano - Troféu Juca Pato - União Brasileira de Escritores

Principais obras publicadas (1ªs edições)

  • Brigada Ligeira. Livraria Martins Editora, [1945].
  • Introdução ao método crítico de Sílvio Romero. Revista dos Tribunais, 1945 [tese de livre-docência].
  • Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. José Olympio, 1964 [tese de doutoramento].
  • Ficção e confissão: estudo sobre a obra de Graciliano Ramos. José Olympio, 1956.
  • Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Livraria Martins Editora, 1959 [dois volumes].
  • O observador literário. Conselho Estadual de Cultura, 1959.
  • Tese e antítese: ensaios. Companhia Editora Nacional, 1964.
  • Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. Companhia Editora Nacional, 1965.
  • Vários escritos. Duas Cidades, 1970.
  • Teresina etc. Paz e Terra, 1980.
  • Na sala de aula: caderno de análise literária. Ática, 1985.
  • A educação pela noite e outros ensaios. Ática, 1987.
  • O estudo analítico do poema. FFLCH-USP, [1987?]
  • Recortes. Companhia das Letras, 1993.
  • O discurso e a cidade. Duas Cidades, 1993.
  • Lembrando Florestan Fernandes. Fundação Perseu Abramo, 2001.
  • Iniciação à literatura brasileira (Resumo para principiantes). Humanitas, 1997.
  • O Romantismo no Brasil. Humanitas, 2002.
  • Um funcionário da Monarquia: ensaio sobre o segundo escalão. Ouro sobre Azul, 2002.
  • A personagem de ficção. Perspectiva, 1968 [em coautoria].
  • Presença da literatura brasileira: história e antologia. Difel, 1964 [três volumes]- [em coautoria].
  • Política cultural. Mercado Aberto/ Fundação Wilson Pinheiro, 1984 [em coautoria].
  • USP: 1968-1969. Hélio Lourenço de Oliveira. Edusp, 1995 [em coautoria].
  • Antonio Candido: Remate de Males [número especial]. Unicamp, 1999 [antologia].
  • Textos de intervenção. Duas Cidades/ Editora 34, 2002 [antologia].

 

Profª Gilda Rocha de Mello e Souza

Perfil acadêmico 

Nascida em São Paulo, em 24 de março de 1919, com o nome de Gilda de Moraes Rocha, foi criada em Araraquara, no interior do Estado. Foi uma das primeiras mulheres a estudar na Faculdade de Filosofia da USP, na qual ingressou em 1937 e se graduou como bacharel em 1940. Integrou-se à equipe de intelectuais que, entre 1941 e 1944, produziu a revista Clima e que exerceu importante papel na vida cultural do país.

Em 1942 foi nomeada assistente da cadeira de Sociologia I, então dirigida por Roger Bastide. Sob a orientação desse professor, defendeu – em 1950 – a tese de doutorado, que denominou A Moda no Século XIX e que, dois anos depois, seria publicada na Revista do Museu Paulista

Em 1954, a convite de João Cruz Costa (1904-1978), transferiu-se para o Departamento de Filosofia, incumbindo-se da área de Estética. Foi fundadora dessa cadeira, na qual lecionou até a aposentadoria, em 1973. 

Entre 1969 e 1972, durante a ditadura militar, exerceu a chefia do departamento em questão, período em que criou a revista Discurso, veiculada até hoje.

Em 1943 casou-se com Antonio Candido de Mello e Souza, que conhecera na Faculdade de Filosofia da USP e pertencia à equipe de Clima. Dessa união, que perdurou por mais de 60 anos, nasceram três filhas: Ana Luisa Escorel, Laura de Mello e Souza e Marina de Mello e Souza. 

Ensaísta, crítica de arte e eminente pesquisadora na área de Estética e Filosofia da Arte, recebeu o título de professora emérita da FFLCH-USP em maio de 1999. Faleceu em 25 de dezembro de 2005.

Entre as obras de sua autoria, citam-se: A Palavra Afiada (2014), O Tupi e o Alaúde: uma Interpretação de Macunaíma (1979), Exercícios de Leitura (1980), O Espírito das Roupas: a Moda no Século XIX (1987) e A Ideia e o Figurado (2005).

Fontes: Departamento de Filosofia - USP. CNPq - Memória/ Pioneiras. Agência Fapesp (vide referências).

 

Ana Luisa Escorel

Perfil profissional

Formada pela Escola Superior de Desenho Industrial, no Rio de Janeiro, atua como designer gráfica desde 1970 e é autora dos livros Brochura Brasileira: Objeto sem Projeto (1974) e O Efeito Multiplicador do Design (1999), ambos voltados para a área em questão. Fundou a editora Ouro sobre Azul, que vem publicando, entre outras, a obras de Antonio Candido. Tendo incursionado pelo terreno da literatura, escreveu O pai, a mãe e a filha (memórias), de 2010; Anel de vidro (2013), que em 2014 recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura, concedido pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo ao melhor romance do ano; e De tudo um pouco (crônicas), de 2016. Além de distinções específicas de sua área profissional de origem, recebeu em 2015 o Prêmio Jabuti de projeto gráfico, concedido pela Câmara Brasileira do Livro à obra Livro dos Ex-Libris. 

 

Profª Laura de Mello e Souza

Perfil acadêmico

Obteve os títulos de doutora em História Social e livre-docente em História Moderna pela USP. Desde 1983 foi docente do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, aposentando-se em 2014 como professora titular de História Moderna. Nesse mesmo ano, assumiu a cátedra de História do Brasil na Universidade de Paris IV- Sorbonne (França). Foi professora-visitante de universidades europeias e norte-americanas. Entre as linhas de pesquisa que desenvolveu, incluem-se a história de Minas Gerais no século XVIII e os estudos culturais e sociopolíticos do império português nos séculos XVI-XVIII. É membro da Academia Brasileira de Ciências, figurando como autora de importantes obras da historiografia nacional, tais como: Desclassificados do Ouro: a Pobreza Mineira no Século XVIII, O Diabo e a Terra de Santa Cruz: Feitiçaria e Religiosidade Popular no Brasil Colonial, Opulência e Miséria das Minas Gerais, O Sol e a Sombra: Política e Administração na América Portuguesa do Século XVIII e Cláudio Manuel da Costa: o Letrado Dividido. Dentre as várias distinções que lhe foram conferidas, destacam-se o Prêmio Casa-Grande e Senzala, da Fundação Joaquim Nabuco (1994); o Prêmio Jabuti (edições de 1998, 2007 e 2012), da Câmara Brasileira do Livro; a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico, da Presidência da República (2002); e o Prêmio da Academia Brasileira de Letras (2007). 

 

Profª Marina de Mello e Souza

Perfil acadêmico

Doutorou-se em História Social pela Universidade Federal Fluminense e, em 2001, ingressou como docente do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Por essa mesma instituição obteve o título de livre-docente em História da África (séculos XVI-XIX). Dedica-se à pesquisa da história da África, escravidão e cultura afro-brasileira – entre outras vertentes conexas –, paralelamente aos temas da cultura popular, folclore e artesanato. Publicou artigos em periódicos especializados e é autora das obras África e Brasil Africano, Paraty: a Cidade e as Festas e Reis Negros no Brasil Escravista: História da Festa de Coroação de Rei Congo. Entre as distinções que recebeu, destaca-se o Prêmio Jabuti (edição de 2007), concedido pela Câmara Brasileira do Livro à obra África e Brasil Africano, na categoria de livro didático e paradidático.

 

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Camila Almeida Vaz. Os anos de aprendizagem de Antonio Candido (1930-1940). In: SEMINÁRIO NACIONAL DO CENTRO DE MEMÓRIA - UNICAMP, 8., 2016, Campinas. Programa e resumos. Campinas: Unicamp, 2016. p. 140.

AGUIAR, Flávio (Org.). Antonio Candido: pensamento e militância. São Paulo: Fundação Perseu Abramo; Humanitas/ FFLCH-USP, 1999.

ARANTES, José Tadeu. Livro resgata entrevistas, cartas e ensaios de Gilda de Mello e Souza. Agência Fapesp, 23 abr. 2014. Disponível em: <http://agencia.fapesp.br/livro_resgata_entrevistas_cartas_e_ensaios_de_gilda_de_mello_e_souza/18962/>. Acesso em: 5 set. 2017.

BRASIL, Ubiratan; SOBOTA, Guilherme. Morre Antonio Candido aos 98 anos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 12 maio 2017. Disponível em: <http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,morre-antonio-candido-aos-98-anos,70001776504>. Acesso em: 2 out. 2017.

CANDIDO, Antonio. Teresina etc. 3. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2007.

______. Vários escritos. 4. ed. reorganizada pelo autor. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul; São Paulo: Duas Cidades, 2004.

______. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 3. ed. revista. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1973.

______. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos (1750 – 1880). 10. ed. revista pelo autor. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.

______. O discurso e a cidade. 5. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2015.

______. A educação pela noite. 6. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.

______. O método crítico de Sílvio Romero. 4. ed. revista pelo autor. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.

______. Tese e antítese. 6. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2012.

CARIELLO, Rafael. Antonio Candido relança clássico e defende rigor do pensamento. Folha de S. Paulo, São Paulo, 9 nov. 2006. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u65898.shtml>. Acesso em: 26 set. 2017.

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 7. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

DANTAS, Vinicius. Bibliografia de Antonio Candido. 1. ed. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2002. Coleção Espírito Crítico.

ESCOREL, Ana Luisa. Antonio Candido e a menina. Revista Piauí, São Paulo, ed. 20, maio 2008. Disponível em: <http://piaui.folha.uol.com.br/materia/antonio-candido-e-a-menina/>. Acesso em: 23 ago. 2017.

______. O pai, a mãe e a filha. 2. ed. revista. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2012.

FISHER, Luís Antonio. Limites do esquema crítico de um pioneiro. Folha de S. Paulo, São Paulo, 21 maio 2017. Ilustríssima, p. 4-5.

GILDA Rocha de Mello e Souza (1919-2005). Portal CNPq. Disponível em: <http://memoria.cnpq.br/web/guest/pioneiras-view/-/journal_content/56_INSTANCE_a6MO/10157/1144224>. Acesso em: 2 nov. 2017.

JACKSON, Luiz; PINHEIRO FILHO, Fernando; SORÁ, Gustavo. Entrevista com Davi Arrigucci Jr. Tempo Social: Revista de Sociologia da USP, São Paulo, v. 23, n. 2, p. 163-188, nov. 2011. Disponível em:<http://www.scielo.br/pdf/ts/v23n2/v23n2a07.pdf>. Acesso em: 6 set. 2017.

MAMMI, Antonio. Socialista democrático, Candido participou da fundação do PT. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 maio 2017. Ilustrada, p. C5.

MOURA, Flávio. Refinamento de sua vida e obra anda em falta no debate político e intelectual. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 maio 2017. Ilustrada, p. C4-C5.

PONTES, Heloisa. Entrevista com Antonio Candido. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 16, n. 47, p. 5-30, out. 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v16n47/7717.pdf>. Acesso em: 15 ago. 2017.

RAMASSOTE, Rodrigo Martins. Antonio Candido em Assis e depois. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 50, p. 103-128, mar. 2010. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/34651/37389>. Acesso em: 16 out. 2017.

______. Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. Tempo Social: Revista de Sociologia da USP, São Paulo, v. 23, n. 2, p. 41-70, nov. 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ts/v23n2/v23n2a03.pdf>. Acesso em: 4 set. 2017.

RENZI, José Pedro. Um terceiro partido nos caminhos da liberdade: socialistas brasileiros na redemocratização em 1945. 1994. 174 f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas (SP). Disponível em: <http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/281435/1/Renzi_JosePedro_M.pdf>. Acesso em: 16 ago. 2017.

RIZZO, Sérgio. Antonio Candido (1918 - 2017). Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 maio 2017. Ilustrada, p. C4-C5.

SÁ, Nelson de. Dos 24 aos 26 anos, 96 colunas publicadas na Folha da Manhã formaram o crítico. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 maio 2017. Ilustrada, p. C6.

PINTO, Manuel da Costa. A vocação crítica de Antonio Candido. Revista Cult, São Paulo, 11 mar. 2010. Disponível em: <https://revistacult.uol.com.br/home/vocacao-critica-de-antonio-candido/>. Acesso em: 3 out. 2017.

Publicado em Edição 09
Quarta, 12 Julho 2017 15:38

Edição 8 - Entreteses

capa edição 8 entreteses

Versão em PDF

Julho 2017

O Brasil está anos luz atrás de outros países no quesito de patentes e inovação tecnológica. O país ocupa a penúltima posição no ranking de patentes válidas, de acordo com o relatório de 2014 da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (Ompi), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU). Nesse cenário caótico, é preciso investir cada vez mais em pesquisa, ciência e tecnologia em ambientes que constroem conhecimento e promovem o desenvolvimento social, como as universidades.

Na matéria de capa, é possível acompanhar uma pequena fração do que pesquisadores da Unifesp desenvolvem nas áreas de tecnologia e inovação, que poderão beneficiar não apenas a sociedade com produtos úteis, mas revolucionar a educação e a saúde e fazer girar a economia de todo um país.

Tomógrafo portátil que dispensa o uso de substâncias radioativas nos pacientes; desenvolvimento de bomba de insulina nacional mais barata à população; uso de tecnologia tridimensional para compreender as doenças cerebrais, reconstruir órgãos e tecidos, desenvolver órteses e próteses e ajudar a desvendar crimes; tecnologia assistiva, que resgata parte da independência de pessoas com mobilidade comprometida, são algumas das pesquisas desenvolvidas dentro da instituição que, neste ano, comemora 10 anos da inauguração do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp), em São José dos Campos, e 50 anos do curso de Ciências Biomédicas da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp).

Também nesse número, os leitores poderão entender os gargalos e as dificuldades enfrentados no processo de registro de patentes no Brasil a partir do artigo de Jair Ribeiro Chagas, professor da universidade e especialista nas áreas de Biotecnologia, Gestão da Inovação e Proteção Intelectual, além de entrarem no universo de familiares de dependentes químicos e de quem sofre de depressão. Vários outros temas importantes e que permeiam o nosso dia a dia, como poluição, saúde, comportamento e violência doméstica, recheiam as páginas dessa edição. Boa leitura!

Expediente

Editorial :: Inovar é preciso... viver (bem) também é preciso

Carta da reitora :: Pesquisar com real autonomia

Entrevista • Paulo Lemos :: Empresas juniores dão nova face ao empreendedorismo

Perfil • José Roberto Ferraro :: Um tal de Zé e um hospital

C&T :: Caminhos para a sustentabilidade

Educação :: Cinema invade a ciência

Educação :: Vamos jogar?

Saúde :: Tomógrafo portátil aprimora exame de doenças gastrintestinais

Saúde :: Bomba de insulina nacional facilitará controle do diabetes tipo 1

3D :: Nova técnica ajuda a compreender as doenças cerebrais

3D :: Tecnologia promete revolucionar diversas áreas, da Medicina à Criminologia

Tecnologia assistiva :: Autonomia com o piscar dos olhos

Descelularização :: Esperança para quem aguarda transplante

Inteligência artificial :: Modelo facilita processamento de dados

Cidades inteligentes :: Faça como as formigas

Meio ambiente :: Convênio viabiliza desenvolvimento de calçados sustentáveis

ICT :: Uma década de muita Ciência e Tecnologia

Patentes :: Inovação e proteção intelectual enfrentam "gargalos"

Genética :: Meio século de história

Saúde pública :: Doença fúngica infecta gatos e atinge humanos

Cabeça e pescoço :: Marcador ajuda a prever eficácia da resposta ao tratamento

Estresse prematuro :: Privação materna produz impactos no crescimento

Violência doméstica :: Brutalidade atinge 1 em cada 6 brasileiros

Luto mal resolvido :: Perda ambígua afeta família de dependente químico

Saúde mental :: Depressão é a maior causa de incapacitação no mundo

Leptina :: Sintomas de depressão podem estar associados à obesidade em adolescentes

Diversidade sexual :: Espelhos da alma

Mulher e trabalho :: Publicidade doura a pílula da condição feminina

Guarapiranga :: Em 15 anos, custo do tratamento da água é multiplicado por 7

Farmacologia :: Composto sintético ajuda a combater doenças negligenciadas

Poluição :: Desprezo a normas da OMS custa 5 mil vidas e R$ 15 bilhões ao ano

Publicado em Entreteses

Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni
Professora livre-docente do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), ocupou o cargo de pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa até abril de 2017 e foi membro dos Conselhos Científico e Editorial da revista até o fechamento desta edição

Ao parafrasear a célebre frase do general e cônsul romano Pompeu (106 - 48 a.C.), com a qual Fernando Pessoa iniciou seu famoso poema, convido o leitor a refletir sobre a necessidade de a universidade desenvolver projetos de inovação que de fato contribuam para o desenvolvimento social e para a melhoria da qualidade de vida. Sob a ótica da universidade, tais projetos podem ser uma excelente oportunidade para concretizar a integração do tripé no qual se apoia: ensino, pesquisa e extensão.

Estudantes podem desenvolver sua criatividade, e se motivar, ao perceber a aplicabilidade das teorias. Pesquisadores podem obter mais financiamentos para suas pesquisas, em geral fortemente limitados pela pouca disponibilidade de recursos públicos para este fim. Projetos sociais podem sair do papel e se tornar realidade. Projetos de inovação podem mostrar à sociedade a aplicabilidade dos projetos científicos desenvolvidos na universidade, com importantíssimos impactos intelectuais/culturais, econômicos e sociais, justificando o investimento dos recursos públicos.

Entretanto, é preciso cautela no estabelecimento de parcerias com empresas, garantindo que os acordos estabelecidos sejam vantajosos para ambos e não fujam da missão universitária. Os aspectos éticos envolvidos na proteção à propriedade intelectual e no registro de patentes, importantes aspectos nestes acordos, são abordados pela coordenação do Núcleo de Inovação e Tecnologia (NIT/Unifesp).

Propostas sobre como deveria funcionar o ecossistema, envolvendo empresas juniores e instituições sem fins lucrativos, são levantadas na entrevista com Paulo Lemos. Neste número são apresentados diversos projetos inovadores que podem contribuir de modo significativo para a melhoria no diagnóstico e tratamento do câncer, depressão, obesidade e outros problemas de saúde.

O desenvolvimento de bombas de insulina, próteses e órteses de baixo custo, como a mão mecânica produzida em uma impressora 3D, o uso de games e técnicas de realidade virtual para potencializar a aprendizagem e a decelularização que pode reduzir a taxa de rejeição de transplantes são alguns exemplos de inovação baseada na efetiva integração de pesquisadores das áreas tecnológicas e de saúde.

Mas não basta inovação tecnológica. É preciso inovar também as relações sociais para reduzir a violência doméstica, frequentemente associada ao uso de bebidas alcoólicas, assim como entender e aceitar com naturalidade a transexualidade, temas também abordados nesta edição.

Embora muitas vezes a aplicabilidade do conhecimento gerado na universidade não seja imediata, é sua função manter viva nas novas gerações a chama da curiosidade e do idealismo, estimulando-as na busca por soluções inovadoras, que nos conduzam a melhores condições de vida, com ética e justiça social.

Publicado em Edição 08
Imagem em preto e branco de um homem deitado, escondendo o rosto com as mãos, ao lado estão algumas cartelas de pílulas

Doença já afeta 5% da população mundial; Brasil é o “campeão” na América Latina

Da Redação
Com a colaboração de Gabriela Tornich

De acordo com informações divulgadas em abril deste ano pela Organização Mundial da Saúde (OMS), há no mundo mais de 300 milhões de indivíduos, de todas as faixas etárias, que sofrem de depressão. Na América Latina, o Brasil figura como o país com maior prevalência nesse tipo de transtorno mental. Em âmbito global, a depressão é a principal causa de incapacidade entre as doenças, enumerando-se entre seus sintomas a ansiedade, perda de interesse, falta de concentração, sensação de cansaço, distúrbios do sono e do apetite e oscilações entre sentimento de culpa e baixa autoestima. As barreiras ao tratamento médico devem-se especialmente à insuficiência de recursos, à ausência de profissionais habilitados, ao estigma social que atinge os portadores e ao diagnóstico incorreto. 

Estudo também conduzido pela OMS e publicado em abril de 2016 pela revista The Lancet Psychiatry revelou que a estimativa de custos envolvidos na ampliação do tratamento antidepressivo – por meio do aconselhamento psicológico e da necessária medicação – gira em torno de 147 bilhões de dólares, enquanto a melhora dos pacientes acrescenta mais de 300 bilhões de dólares à economia. O Atlas da Saúde Mental 2014, elaborado pela mesma agência, informa – por sua vez – que o gasto médio per capita em saúde mental é de US$ 1,53 nos países de baixa renda e de US$ 58,73 nos países de renda elevada.

Diante desse quadro, a psiquiatra Camila Tanabe Matsuzaka decidiu concentrar o foco de sua tese de doutorado na atenção primária aos transtornos depressivos. Por meio de um estudo randomizado controlado, a pesquisadora aplicou a técnica de aconselhamento interpessoal, versão adaptada da terapia clássica – específica do trabalho de psicoterapeutas –, que pode ser empregada por profissionais sem formação superior, em um menor número de sessões (geralmente em três ou quatro). O estudo serviu como teste para avaliar a eficácia da abordagem.

marcelo feijo

Marcelo Feijó de Mello, orientador do estudo

Sob a orientação de Marcelo Feijó de Mello, professor do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, a equipe de Camila treinou agentes comunitárias de saúde de uma unidade básica de saúde localizada no bairro de Sapopemba, na zona leste de São Paulo, para a aplicação dessa técnica. O grupo recebeu instruções para identificar sinais de depressão por meio de uma escala de rastreio, que verificava os sintomas e guiava as agentes sobre a necessidade de encaminhamento ao psicólogo da equipe de pesquisa, o qual comparava os indícios de suspeita com escalas e questionários mais rigorosos.

A escolha dos referidos profissionais de saúde foi planejada para que o cuidado com a saúde mental fosse mais bem aceito e a resistência à terapia, amenizada. Convém frisar que a capacitação de agentes comunitários e redistribuição de tarefas entre os profissionais de saúde vêm sendo estimuladas pela OMS. Os contextos de atendimento foram os mais diversos: muitas mulheres realizavam as sessões acompanhadas de filhos pequenos ou durante os serviços domésticos. Já os homens se mostraram menos flexíveis às orientações das agentes. “Desenvolvemos a capacitação para realizar o aconselhamento interpessoal de pacientes com depressão, que tinham filhos com problemas emocionais e comportamentais”, ressalta Feijó. 

No total, 86 moradores do bairro participaram das sessões, observando-se que a equipe de pesquisadores deslocou as agentes encarregadas de proceder ao aconselhamento para áreas diferentes daquelas em que normalmente atuavam para que suas funções não fossem confundidas. Registre-se que, nos bairros, os agentes de controle de saúde são normalmente distribuídos por territórios, responsabilizam-se pelo acompanhamento dos casos e estabelecem vínculos com os moradores.

O estudo foi fundamental para avaliar o atendimento oferecido pela rede pública no âmbito da saúde mental. Dados anteriores, veiculados em artigo de Gonçalves, Vieira e Delgado (2012) sobre a evolução dos gastos federais em saúde mental, revelam que nesse setor houve um crescimento total de 51% (de 1 bilhão para 1,5 bilhão de reais, em valores aproximados) entre 2001 e 2009. Nesse período, os investimentos extra-hospitalares (destinados inclusive aos centros de atendimento psicossocial) foram significativamente ampliados, enquanto os hospitalares sofreram considerável redução. Vale mencionar que os centros de atendimento psicossocial (Caps) constituem o símbolo da reforma psiquiátrica, movimento que buscou redefinir o modelo assistencial até então vigente para os portadores de transtornos mentais e que se transformou na Lei Federal nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Ocorre, entretanto, que tais centros – de acordo com a pesquisadora – não atendem à demanda relativa aos casos mais leves de depressão e ansiedade, que acabam negligenciados. “Ainda não existem ações psicoterápicas associadas à atenção primária. Quando existem, são baseadas em conhecimentos do século passado, em intervenções longas ou não estruturadas, sem evidência científica”, complementa o orientador. 

A principal conquista do projeto em questão está relacionada às mudanças na postura das agentes. Camila relatou que o retorno para as agentes comunitárias foi muito positivo, pois, além de se tornarem aptas a proceder adequadamente em casos de suspeita de depressão, desenvolveram um olhar mais sensível para a doença: “O legado antiestigmatizante permaneceu.”

Experiência internacional

Em 2013, em parceria com a Cruz Vermelha Internacional, a psiquiatra responsável treinou profissionais para aplicar a mesma técnica na República Democrática do Congo, embora não pudesse participar da supervisão de todo o processo de tratamento. No Brasil, entretanto, acompanhou de perto o desenvolvimento do projeto; os dados coletados em Sapopemba foram posteriormente utilizados para concluir o estudo durante seu doutorado-sanduíche na Universidade de Columbia, em Nova York, com a orientação de Milton Wainberg e colaboração de Myrna Weissman, criadora da terapia interpessoal. 

O plano agora é expandir o alcance do projeto. Feijó, Camila e sua equipe já participam de um estudo patrocinado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental, principal agência dos Estados Unidos nessa área, por meio do qual será aplicada a técnica de aconselhamento em Moçambique – cerca de 15 mil participantes deverão compor, no caso, a amostra selecionada. Em seguida, será necessário obter apoio do governo brasileiro para implementar ação semelhante em nosso país. “O objetivo do projeto é conseguir pensar em outras estratégias para aumentar o acesso ao tratamento”, declara a pesquisadora.

Foto de um grupo de agentes

Camila (terceira, de pé, da esquerda para a direita) e sua equipe com o grupo de agentes comunitárias em São Paulo

Agentes de saúde moçambique

Capacitação de agentes de saúde em Moçambique

Produção científica e artigos relacionados:

MATSUZAKA, Camila Tanabe. Capacitação de agentes comunitárias na aplicação de aconselhamento interpessoal para depressão: um estudo clínico randomizado controlado. 2016. 77 f. Tese (Doutorado em Psiquiatria e Psicologia Médica) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo.

LABOISSIÈRE, Paula. No Dia Mundial da Saúde, OMS alerta sobre depressão. Agência Brasil, Brasília, 7 abr. 2017. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-04/no-dia-mundial-da-saude-oms-alerta-sobre-depressao >. Acesso em: 13 abr. 2017.

LABOISSIÈRE, Paula. OMS: investir em tratamento para depressão gera retorno quatro vezes maior. Agência Brasil, Brasília, 13 abr. 2016. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2016-04/oms-investir-em-tratamento-para-depressao-gera-retorno-quatro-vezes >. Acesso em: 18 abr. 2017.

MENTAL Health Atlas 2014. Genebra: World Health Organization (WHO), 2015. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/178879/1/9789241565011_eng.pdf?ua=1&ua=1 >. Acesso em: 18 abr. 2017.

GONÇALVES, Renata Weber; VIEIRA, Fabíola Sulpino; DELGADO, Pedro Gabriel Godinho. Política de saúde mental no Brasil: evolução do gasto federal entre 2001 e 2009. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 46, n. 1, p. 51-58, fev. 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsp/v46n1/3113.pdf >. Acesso em: 2 maio 2017.

Publicado em Edição 08