Segunda, 10 Julho 2017 11:09

Modelo facilita processamento de dados

Imagem de um trecho de código

Programação Kaizen, criada por pesquisador do ICT/Unifesp e aplicável a diversas áreas do conhecimento, aumenta eficácia do processo

Lu Sudré

Extremamente úteis para resolver problemas de diversas áreas do conhecimento, como Engenharia, Medicina, Física e Humanidades, as técnicas de Inteligência Computacional (IC) se propagam por meio dos algoritmos evolutivos, base da Computação Evolutiva (CE) inspirada na Teoria da Evolução de Charles Darwin. Esse ramo de pesquisa trabalha com a melhoria genética de indivíduos artificiais, que seriam as representações para soluções de determinado problema no processamento de diversos tipos de dados. 

Os indivíduos em questão – que compõem um grupo ou população – podem ser números, sistemas ou textos, que, quando combinados ou cruzados, assim como na Biologia, geram um terceiro indivíduo que será uma solução possivelmente melhor que os dois primeiros que lhe originaram. Dessa forma, os descendentes substituem aqueles que lhe originaram em um determinado processo. Na CE, essa combinação é feita de forma aleatória. Não se sabe exatamente como os dois indivíduos devem ser combinados para que o terceiro resultante seja melhor e a solução adequada seja encontrada. 

Para Vinícius Veloso de Melo, docente do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) – Campus São José dos Campos, a CE é eficaz, mas como funciona como um processo de apenas tentativa e erro, demanda tempo e, em áreas da Engenharia de Produção, por exemplo, um custo de gasto elevado. Após ter pesquisado técnicas de Estatística e de IC para aumento de eficiência de técnicas de CE em seu doutorado, Melo criou a Programação Kaizen (PK), um modelo alternativo à CE, que tem como finalidade fazer com que as soluções para os problemas sejam encontradas com mais assertividade e em um menor período de tempo. A principal tarefa da PK é a descoberta automática de conhecimento implícito nos dados para a aplicação em Aprendizado de Máquina (AM). Assim, as técnicas de AM para previsão numérica ou categórica podem utilizar o conhecimento descoberto pela PK e atingir melhor qualidade na previsão.

“A ideia da técnica proposta é que se consiga avaliar uma solução e extrair o máximo possível de informação para que, na próxima modificação, se tenha uma maior garantia de melhoria. Busca-se identificar, de maneira eficiente, quais partes das soluções estão incorretas ou precisam de melhorias e quais devem ser substituídas, em vez de ser um processo totalmente aleatório”, afirma o pesquisador.

Kaizen é uma palavra de origem japonesa que significa mudança para o melhor ou melhoria e refere-se a uma filosofia de aperfeiçoamento aplicado à gestão, processos de manufatura, engenharia, dentre outras áreas. Esse conceito, que se reflete na aplicação da PK no processamento dos dados, tem como objetivo reduzir a aleatoriedade do processo de busca por soluções de alta qualidade, viabilizando uma melhoria em sua eficiência. Nesse sentido, a PK utiliza técnicas de Estatística e de AM para identificar as partes relevantes da solução e guiar o processo.

“Enquanto na CE um indivíduo da população é a solução para um problema, na PK ele é parte da solução. Assim, na CE só é preciso um indivíduo para resolver o problema. A PK, por outro lado, usa um processo colaborativo em que as soluções parciais são combinadas de maneira determinística e eficiente, em vez de aleatória, para se obter uma solução completa para o problema. Justamente por serem parciais, pode-se identificar quais delas estão funcionando bem ou mal, influenciando de maneira positiva ou negativa. Aquilo que for negativo ao processo é retirado”, explica Melo. Depois de encontrar as soluções parciais mais adequadas para o problema em questão, a técnica as combina para obter uma resolução definitiva. Essas soluções parciais são então fornecidas à técnica de AM que é responsável por resolver o problema.

Gráfico ciclo características

Áreas de aplicação

A PK pode ser aplicada em diversas áreas do conhecimento com a finalidade de construir um modelo matemático, um conjunto de regras ou outro tipo de estrutura que forneça respostas para problemas como a previsão do clima do próximo dia em um horário específico. A partir de um conjunto de valores históricos (grupos de dados), que neste caso seria a temperatura dos dias anteriores naquele mesmo horário, velocidade do vento e umidade do ar, dentre outros, é possível construir uma equação que combine as informações do passado para fazer a previsão. Esse tipo de modelo matemático também pode ser obtido pela CE tradicional, mas não com a mesma garantia e rapidez que a PK proporciona.

“Ela fornece um conjunto de expressões matemáticas que pode ser interpretado por especialistas. Com a PK, a modelagem de diversos tipos de processos ou comportamentos pode ser feita. Em Ciências Sociais, por exemplo, é possível fazer uma regressão para saber o crescimento da taxa de desemprego a partir de diversas variáveis, buscando relacionamentos entre elas em vez de olhá-las de maneira independente. Na área da Biologia, pode-se descobrir uma função de crescimento da população de um determinado organismo ou saber a extensão da transmissão de um vírus”, exemplifica o docente.

Um artigo apresentado no XXV Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica, em 2016, intitulado Construção Automática de Covariáveis para Modelos de Regressão Aplicados em Estimativa Antropométrica, de autoria de Melo, em conjunto com outros pesquisadores, mostrou a aplicação da PK em pesquisa da área forense. Nesse estudo, a partir das medidas das mãos se tornou possível obter a previsão da estatura de uma pessoa, processo que pode ser utilizado para ajudar na identificação de corpos de indivíduos. Felipe Granado, orientando, no Mestrado, de Maria Elizete Kunkel, também docente do ICT/Unifesp, criou um banco de dados com informações com medidas de cada um dos dedos e da palma das mãos de centenas de pessoas e, a partir destas características, a PK gerou uma fórmula que prevê a altura de uma pessoa com uma estimativa numérica. 

pesquisador Vinicius Veloso de Melo

O pesquisador Vinícius Veloso de Melo

Saúde

Além da previsão numérica, a PK pode ainda prever por categoria e descobrir índices que podem ser aplicados na Medicina. “Por exemplo, um paciente tem uma mancha na pele e é possível extrair informações como medidas, simetria, variação de cor e outras características que seriam determinadas por um especialista da área, o qual também deve rotular essas manchas. Pode-se gerar um banco de dados com essas informações e a partir da PK determinar uma fórmula matemática (um índice) que pode ser usado para classificar as manchas como um melanoma benigno ou maligno. É uma previsão categórica como verdadeiro ou falso”, desenvolve Melo. 

O docente orientou o trabalho de conclusão de curso (TCC) do estudante Léo Françoso Dal Piccol Sotto, no ICT/Unifesp, no qual a PK foi usada para identificar, com sucesso, diferentes tipos de arritmias cardíacas a partir de um conjunto de dados de medidas obtidas de sinais de eletrocardiogramas, o que demonstrou a eficácia da PK. O que ainda precisa ser feito por um especialista é a análise e interpretação biológica dos índices descobertos pela PK.

Os índices podem ser criados, por exemplo, a partir de um conjunto de dados extraídos de um hemograma, como valores de colesterol, triglicérides ou glicemia, entre outros. A PK pode criar uma fórmula que define se uma pessoa tem determinada doença ou não. “Podem ser valores mínimos e máximos, por exemplo. Acima desse índice quer dizer que a pessoa está propensa a ter a doença, abaixo não. Esses índices costumam ser elaborados manualmente por um especialista ou pesquisador. Com uma ferramenta como a PK, esse processo é automatizado. Vamos supor: Quantos índices um especialista consegue propor e analisar por hora? Digamos que seja um a cada 10 minutos, 6 por hora. Com uma técnica desse tipo, podemos fazer milhares por hora. Se tivermos computadores suficientes, poderemos fazer milhões. É um ganho para a área da saúde”, ressalta o pesquisador.

Artigos relacionados:

MELO, Vinícius Veloso de. Breast cancer detection with logistic regression improved by features constructed by Kaizen programming in a hybrid approach. In: IEEE CONGRESS ON EVOLUTIONARY COMPUTATION, 2016, Vancouver. Proceedings... Vancouver: IEEE, 2016. p. 16–23. Disponível em: < http://ieeexplore.ieee.org/document/7743773/ >. Acesso em: 12 abr. 2017.

MELO, Vinícus Veloso de et al. Construção automática de covariáveis para modelos de regressão aplicados em estimativa antropométrica. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA BIOMÉDICA, 25., 2016, Foz do Iguaçu. Anais eletrônicos… Foz do Iguaçu:CBEB, 2016. p. 2201–2204. Disponível em: < https://drive.google.com/drive/folders/0B543adcG1FClQ21ZaFhCUmdwMlk >. Acesso em: 12 abr. 2017.

SOTTO, Léo F. D. P.; COELHO, Regina C.; MELO, Vinícius Veloso de. Classification of cardiac arrhythmia by random forests with features constructed by Kaizen programming with linear genetic programming. In: GENETIC AND EVOLUTIONARY COMPUTATION CONFERENCE, 2016, Denver. Proceedings... Denver:GECCO, 2016. p. 813–820. Disponível em: < http://dl.acm.org/citation.cfm?id=2908882 >. Acesso em: 12 abr. 2017.

Dissertação:

GRANADO, Felipe. Criação de uma base de dados de mãos e estaturas para geração de modelos de regressão em antropometria forense. 2014. Dissertação (Mestrado em Engenharia Biomédica) - Universidade Federal do ABC, Santo André, 2014.

Publicado em Edição 08
Segunda, 10 Julho 2017 11:00

Um tal de Zé e um hospital

São mais de 40 anos dedicados à instituição que o acolheu como estudante, residente, médico, professor e superintendente de um dos maiores hospitais universitários públicos do país

Juliana Narimatsu

José Roberto Ferraro de jaleco médico em um ambiente hospitalar

Esse é José Roberto Ferraro. Muitos o chamam de professor ou doutor Ferraro, mas são poucos que conhecem o Zé. Eu tive essa chance. Fui apresentada à sua história por meio de 11 relatos de diferentes pessoas que também tiveram essa oportunidade. O interessante é que todas, sem exceção, disseram que aquele lugar, o Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp), representa a sua vida. Da primeira à última. Dos familiares aos colegas de trabalho. Isso é possível. Peço licença, então, para contar a sua história. Essa é a história do Zé.

Grande Famiglia

Nossa história começa um tempo atrás, um pouco longe daqui, em Fagnano Castello, província de Cosenza, Itália. Uma cidadezinha onde todos conheciam todos. Por consequência da Grande Guerra, muitos sabiam que seus vizinhos estavam procurando refazer suas vidas em outros lugares. Ítalo Ferraro foi um deles. Seu destino, no caso, foi o Brasil. O irmão de seu pai, que já morava no país, o receberia. O emprego estava garantido em uma firma de móveis. Com a sorte lançada, Ítalo embarcou, aos vinte anos de idade, no navio, sozinho, de mala e cuia. 

Seguiu para São Paulo e foi parar no Cambuci. Instalou-se na residência do tio, junto com outros parentes. Fez seu pé de meia como marceneiro. Foram muitas camas, mesas, cadeiras e armários que construiu. Conseguiu, depois, alugar uma casa por ali mesmo. Com um teto, Ítalo recebeu a mãe, os dois irmãos e a esposa, que vieram da sua cidade natal. Mais tarde, a família deu boas-vindas a um novo integrante: seu primeiro filho, José Roberto.

Zé veio ao mundo em 2 de novembro de 1953, mas, para não carregar a tristeza do Dia dos Finados, seu Ítalo insistiu em registrar o primogênito no dia 3. A infância toda foi no bairro do Cambuci. Morou nas ruas José Bento, Barão de Jaguara e dos Alpes, como bem se lembra. Cresceu rodeado de patrícios, amigos imigrantes da Itália. Considerados praticamente tios, eles frequentavam a casa de seu pai para confraternizar. Uma macarronada com porpeta, um bom futebol e, de saideira, um jogo de cartas. As datas comemorativas, essas não passavam nunca em branco. Confetes eram jogados no Carnaval e o Papai Noel aparecia todo Natal. 

Nesse tempo, chegou Luiz Carlos, quatro anos mais novo que Zé. Quando pequenos, passavam o dia brincando no quintal. Depois, acabaram indo para a rua, bater uma bola até de tarde. Zé Roberto, mais. Ele tinha até um clubinho, o Haiti. Foi responsável pela escalação do time, as datas das próximas peladas, a contagem dos gols. Tudo bem organizado em um caderno. “Lembro de um pebolim diferenciado, com botões que mexiam os jogadores. Como a gente brincava com aquilo! Fora as outras coisas: pião, carrinho, diabolô. Esses brinquedos tinham um valor inestimável para nós, porque foram montadas pelo nosso pai”, conta o irmão caçula.

Quantas lembranças! Zé Roberto ganhou o apelido de Marcelino por sua franja parecer com a do personagem do filme religioso Marcelino pão e vinho. O salário era contado e a mãe, Anina Avoilio Ferraro, milagrosamente, não deixava faltar nada no lar. Contra as enchentes na região, seu Ítalo instalou comportas para a água do rio Tamanduateí não chegar nos pés da família. E a escola? Ele ia bem, sim. O pai dava apenas um acabamento nos projetos de Artes Manuais, até porque essa não estava entre as matérias preferidas de Zé.

Três imagens da infância de Ferraro - ele bebê, ele e o irmão ao lado do pai, ele ao centro de homens jogando baralho

Acima à esquerda, José Roberto Ferraro com menos de um ano de idade
Acima à direita, ao lado do irmão e do pai com o jogo de pebolim
Abaixo, Zé, ao centro, acompanhando a jogatina dos patrícios da família

Doutore Zé Roberto

“Você vai ser doutore!”, falava a mãe, Anina. Zé cresceu com o mesmo sonho. O gosto pela área de Biológicas, incrementado pela boa formação que os colégios públicos ofereciam, estimulou-o a decidir por essa carreira. Lógico, não foram só as aulas de dissecar ratos, analisar planárias e classificar insetos, além dos passeios esporádicos para o Museu de Zoologia e para a Serra do Mar que fortaleceram esse desejo, mas, também, e principalmente, o apoio constante dos seus pais.

A previsão da madre foi certeira. No dia do resultado do vestibular, Zé e sua companheira fiel, Lidia Stival, foram conferir a lista de aprovados. Uma folha de papel, pregada ao tapume de madeira, apresentava os nomes em ordem alfabética e as respectivas universidades. Lidia visualizou o seu registro de pronto. Ao lado, o código A02 sinalizava a sua entrada na Escola Paulista de Medicina (EPM). Zé, entretanto, não se encontrava. Foi a pior notícia de sua vida! Apesar de ter garantido a vaga na Faculdade de Medicina do ABC, ele sabia que o seu pai não teria condições de ajudá-lo nas mensalidades. 

Voltou para casa, triste. Conversou com a mãe e foi direto para cama. Dona Anina insistiu. No dia seguinte, no café da manhã, ela entregou o jornal para Zé, que conferiu novamente seu nome. Espere! Outra lista? José Roberto Ferraro-A02. Foi a melhor notícia de sua vida! Foram divulgadas, na verdade, duas relações de aprovados: uma com aqueles que optaram por inglês na prova e a outra com os que fizeram francês. Ele estava na segunda. “Nós esperávamos com muita ânsia o resultado. De repente, ele deu um grito: ‘Passei, mãe, passei!’. Foi uma choradeira toda”, relata seu Ítalo. 

Em dezembro de 1972, antes mesmo do período letivo começar, já era possível avistar um rapaz entusiasmado familiarizando-se com as redondezas da Vila Clementino, com mais frequência no percurso entre a Atlética e o Hospital. O engraçado foi que, em 1973, no primeiro dia de aula ainda era complicado para o Zé saber aonde ir. No meio de tantos calouros… com licença, como se chega ao anfiteatro? Juntou-se, no fim, a um grupinho de novatos perdidos, que foram gentilmente escorados pelo professor Nylceo Marques de Castro. “Vem aqui, eu vou proteger vocês”, lembra Zé, com carinho, as amistosas palavras. O docente ajudou, então, os meninos a se localizarem nos caminhos, que tinha de cor e salteado, da EPM. 

Bons tempos. Grandes amizades foram feitas e cultivadas na turma de classe sempre unida. Vale destacar um rosto em particular dentre os amigos. Na ocasião, namorada. “Os colegas nos chamavam de ‘a Lidia do Zé e o Zé da Lidia’ e isso ficou”, pontua Lidia Stival Ferraro. O jovem casal ralava de estudar junto. “Os livros comprados, nós dividíamos. Depois da aula, ficávamos na biblioteca até de noite. Não sei se era na Lanchonete Xaxim, mas a nossa janta se resumia a um ovo, uma pizza e um chocolate. Comíamos também um bendito bife à rolê com arroz à Catarina. Aquele gosto ficou na lembrança”, recorda ela. 

Os dois tentaram aproveitar plenamente cada ano na EPM. Participaram do coral de alunos regido pelo maestro Davi Reis, ele como barítono, ela como contralto. Inscreveram-se no programa de bolsa-auxílio do HSP, ele trabalhando no Banco de Sangue, ela, na Internação do Pronto-Socorro. Zé ainda foi monitor da Anatomia. Mas há de convir que um dos seus grandes papéis durante a graduação foi nas arquibancadas; não nas quadras. Fanático por esporte, até ganhou o troféu de Melhor Torcedor do Ano. Acompanhava cada time da Atlética, em especial o de vôlei. Lidia foi a número 7 da equipe. Jogadora e torcedor marcavam presença nos treinos e também nas competições. “Em um dos jogos da Intermed (evento esportivo universitário de Medicina), uma pessoa de outra faculdade começou a pegar no pé da Lidia. Zé Roberto ficou nervoso… italiano, né? Sangue quente! Ele queria ir no meio da torcida adversária e a gente teve que segurá-lo”, relembra Mario Monteiro, calouro do Zé.

Quatro fotos antigas - time de futebol de salão, casal Lidia e Ferraro, Ferraro com os pais, Ferraro segurando os filhos pequenos no colo

Acima à esquerda, time de futebol de salão composto pelos colegas da turma da EPM
Acima à direita, ao lado de Lidia em uma das competições da Intermed
Abaixo à esquerda, ao lado dos pais, na frente do Centro Cirúrgico
Abaixo à direita, com os filhos em aniversário de um ano da Lilian

Parceiros de vida

Foi em 1972 que o affair começou. Lidia era prima do amigo do amigo de Zé Roberto. Por acaso, ela frequentava o mesmo cursinho preparatório para o vestibular. Uma paquera de lá, outra de cá, até que finalmente oficializaram a relação. Aconteceu naquele mesmo ano, às margens do rio Ipiranga, no dia 6 de setembro. Foi na sequência do espetáculo de cores e luzes promovido pelo museu local, evento realizado em comemoração aos 150 anos da Independência. Zé marcou o momento com um presente, uma bonequinha de corda. De lá, proclamaram-se namorados.

Após a formatura da EPM, a família passou a cobrar o casamento. Só faltava o pedido. “No dia, meu pai, como bom italianão, esperou Zé Roberto em casa. Ele chegou nervoso, acompanhado da minha sogra, do meu sogro e do meu cunhado. Aí, vem aquele silêncio sepulcral! ‘Seu Fiore, eu vim aqui pedir a mão da sua filha’, com toda a formalidade que nem sei se existe hoje. Meu pai autorizou e celebramos com um champanhe”, relata Lidia. 

Trocaram as alianças em 31 de maio de 1979, uma das datas recorde de queda de temperatura. Os convidados vieram de casacos. A noiva tremia na igreja, já que seus nervos estavam congelados. E a lua de mel? A piscina do hotel em Monte Verde estava com uma fina camada de gelo. O chão, então, parecia coberto de neve por conta do orvalho. “Um frio do cão”, exclama Lidia.

Três anos depois, o casal compartilhou a primeira alegria: o nascimento de Bruno. Seu parto foi algo emblemático, porque ocorreu no HSP e foi feito por um colega da EPM, Pedro Lacordia. Na realidade, isso foi nada proposital. O dinheiro estava curto mesmo e eles nem tinham plano de saúde na época. A outra grande felicidade veio em 1984 com a chegada da filha, Lilian. Com duas crianças, pai, com mais responsabilidades nas costas, Zé Roberto precisou mergulhar fundo na labuta. 

Quatro fotos mais recentes - refeição em família, casal Lídia e Ferraro, Ferraro ao lado dos pais já idosos, Ferraro com os filhos adultos

Acima à esquerda, jantar com a família Ferraro
Acima à direita, com a esposa Lidia
Abaixo à esquerda, Lidia, Ítalo e Anina
Abaixo à direita, no Natal com os filhos Lilian e Bruno

De residente a administrador

No decorrer do curso de Medicina, Zé foi atraído pela área cirúrgica. O professor Boris Barone, da Gastroenterologia Cirúrgica da EPM, incentivou-o ainda mais, multiplicando convites para acompanhar o docente em cirurgias de pacientes vindos do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). Zé foi até instrumentador em algumas delas. Quando chegou a hora, ele escolheu, sem dúvida, a residência médica em Cirurgia Geral.

Foi difícil! A entrada na residência e a passagem por todo o estágio exigiu grande empenho dos recém-formados. Do Zé e dos seus colegas. Os estudos foram mais intensos, especialmente quando precisavam se preparar para a próxima cirurgia. Na maioria das vezes, iria ser o primeiro contato deles com aquela operação. Esse começo da profissão, uma das melhores fases para Zé, ficou registrado na memória. “A primeira cirurgia como residente foi uma hérnia epigástrica, se não me engano. Simples para o primeiro ano. Zé Roberto fez e eu o ajudei. Até hoje ele se recorda do nome do doente. É uma coisa que marca”, conta Gaspar Lopes Filho, professor do Zé na Gastroenterologia Cirúrgica.

Vários homens usando jalecos ou roupa branca

Com os colegas da Gastroenterologia Cirúrgica da EPM/Unifesp

Seja pelo caráter generalista de Zé, seja pela diversidade de patologias que a disciplina abrange, Gastrocirurgia foi a sua opção de especialidade e lá permaneceu. Foi docente e preceptor dos residentes. Alcançou, depois, o cargo de chefe do plantão das quartas-feiras no HSP. Preencheu, na sequência, sua agenda de segunda a segunda com outros plantões fora do quadrilátero da Vila Clementino, que permitiram dar um sustento melhor para a sua família. Afinal, Zé já era casado. Trabalhou, assim, em Arujá, para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), no Hospital Heliópolis e no Hospital Municipal do Jabaquara. 

Vale destacar um outro lugar frequentado por Zé: o Pronto-Socorro do HSP. Para ele, um locus fantástico de conhecimento. Aprende-se, ali, a Medicina como ela realmente é. Anos mais tarde, foi convidado a gerir o PS como coordenador-geral, além de assumir a chefia do Departamento de Cirurgia da EPM. “Lembro de uma vez quando nós, Zé Roberto e eu, entramos bem cedo no pronto-socorro. Nesse dia, fiz três cirurgias consecutivas de vesícula. Ele, chefe, me orientava o tempo todo. Foi um marco para mim. Zé Roberto deixava a gente bater asas e fazer as coisas com muita responsabilidade, pois ele nos cobrava isso”, narra Carlos Buchalla, residente do Zé.

O ápice dessa história, entretanto, aconteceu no ano de 1994. O professor Hélio Egydio, então candidato à Reitoria da Unifesp, chamou-o para uma conversa séria: a depender do resultado da eleição, o docente queria Zé Roberto como diretor-superintendente do HSP. Nossa Senhora! O senhor tem certeza disso? A carreira de Zé estava começando a ganhar uma forma definitiva. Além dos vínculos com a instituição, ele já realizava atendimentos em seu consultório. Dúvidas… essas apareceram, com certeza. Contudo, no ano seguinte, enquanto Hélio tomava posse como reitor, Zé encarava o novo desafio.

Um fôlego na labuta

Em todas as decisões importantes, Zé tinha a família ao seu lado. Sempre. Houve momentos, ele reconhece, que a balança pendeu mais para o lado do trabalho. “Nós não nascemos em berço de ouro. Tudo conseguimos na raça, então, não tínhamos escolha. O começo foi bem difícil, mas os meninos entendem isso e eu o apoiei e me orgulhei muito daquilo que ele fez”, explica Lidia.

Contudo, quando existia uma brecha, Zé Roberto aproveitava para curtir. “Não tem companheiro melhor de viagem do que ele”, descreve a esposa. Os inúmeros acampamentos com o irmão Luiz Carlos, os bate-volta para o apartamento do seu Ítalo em São Vicente, no qual, como no coração de mãe, cabiam todos, as idas ao sítio da cunhada em Campo Limpo para celebrar as datas festivas e os finais de semana com os amigos na casa na praia. “Morei no mesmo prédio que ele há 17 anos e isso criou uma amizade muito forte. Depois, compramos um terreno juntos na praia. Eu construí e, quando acabei, Zezinho começou o dele. Isso fortaleceu o nosso vínculo. Quando um não vai, já perdeu a graça para o outro. A gente realmente curte estar lá”, fala José Eduardo Dolci, ex-vizinho de porta do Zé. 

Há uma época extremamente importante para Zé Roberto. Tradição, a data conta com uma ceia bem farta, a presença dos familiares e a visita do bom velhinho. “O especial do Natal era quando chegava a madrugada do dia 24 e vinha o Papai Noel. Antes era o meu tio, depois acabou sendo meu pai. Sempre teve essa cultura na minha família. Desde quando nasce até um pouco antes dos dez anos você fica acreditando. Hoje, ele se veste para o meu primo que acabou de chegar”, comenta Bruno. “Desde a minha infância meu pai também foi mágico no Natal. Eu, quando pequena, era a partner dele. Ele me chamava da plateia e eu o ajudava. Ele gosta dessas coisas. Fica super contente com isso. Meu pai até se emociona com os comerciais de TV que passam nesse período!”, relembra Lilian. 

As suas horas livres também são aproveitadas com atividades de arquitetura ou paisagismo. “Quando ele acaba uma reforma na casa, ele me chama para festejar. Abrimos até um champanhe”, pontua o amigo Dolci. Zé desfruta ainda de uma boa agenda cultural ou gastronômica com a família. “A gente sempre vai junto para um teatro ou pegar um cineminha ou jantar em um restaurante novo”, diz Lilian. Seu gosto pelo esporte continua. Primeiro, acompanhando o seu Alviverde. “Todos. Todos são palmeirenses. O único que saiu foi eu. Torço para o Santos e eu sofri toda a pressão quando menininho. A gente ia para o campo assistir Palmeiras, porque eles queriam que eu me tornasse palmeirense”, comenta o irmão Luiz Carlos. Depois, indo para as quadras. Na verdade, Zé Roberto até tentou fazer alguns dribles no futebol com os colegas da EPM, mas se deu bem no saibro, jogando uma bela partida de tênis. 

Equipe reunida ao redor de uma mesa, ao fundo o símbolo do Hospital São Paulo

Ao lado da equipe da Diretoria do HSP/HU/Unifesp

Relação hospital e médico

Zé Roberto vivenciou o seu crescimento: vinte e quatro horas por dia, de segunda a segunda, durante todo o ano, ele zela pela saúde dos 1,5 mil cidadãos que passam diariamente por suas portas. Na realidade, é responsável pelo atendimento de cerca de 5,4 milhões de habitantes da capital e da Grande São Paulo, fora os pacientes oriundos de outros municípios e estados do país. Comporta 123 endereços ambulatoriais, 63 unidades de internação, três centros cirúrgicos e um dos maiores e mais importantes prontos-socorros do Estado de São Paulo. Além do seu caráter assistencial, também há o ensino e a pesquisa, em razão do vínculo com a Unifesp. É considerado, assim, um dos melhores centros formadores de profissionais da área da saúde, oferecendo ainda subsídios para o desenvolvimento de trabalhos acadêmicos e científicos de ponta. Circulam diariamente por seus corredores cerca de 1.160 estudantes de graduação, 2.630 pós-graduandos, 1.100 residentes médicos e 570 residentes multiprofissionais, sendo detentor do maior programa de residência do Brasil. Esse é o Hospital São Paulo.

Para isso, mudanças tiveram que ser feitas, sim. Do ponto de vista organizacional, a criação de protocolos, em especial os contábeis e financeiros, como forma de controle administrativo. Em relação à qualidade no atendimento, as reformas de infraestrutura dentro das normas vigentes, aprimorando a segurança, humanização e acessibilidade dos pacientes e usuários. Na formação, destaque para o aumento dos programas de residência médica e a inclusão dos multiprofissionais. Já na gestão, a compreensão do sistema hospitalar por inteiro, a aproximação das necessidades assistenciais, administrativas e acadêmicas e, por último, mas não menos importante, a construção de relacionamentos e diálogos com todas as instâncias. “Nós trabalhamos muito para dar uma melhor condição para a assistência. Um exemplo marcante, na minha opinião, foi o recebimento das novas caldeiras para a nossa Central de Processamento de Roupas”, coloca Ana Bahia, assessora da Superintendência do HSP/HU/Unifesp. “Foi um projeto grande de modernização da parte industrial do hospital. A Nutrição e a Central de Material e Esterilização também passaram por reformas e adquiriram novos equipamentos”, complementa o, agora médico, Mario Monteiro. 

José Roberto Ferraro, hoje, é diretor-superintendente de um dos maiores hospitais universitários da rede federal. Como é complicado resumir todo esse tempo em poucas palavras! Antes de tudo, buscou suporte com antigos gestores. Especializou-se na área de administração hospitalar. Integrou-se à Associação Brasileira de Hospitais Universitários e de Ensino (Abrahue), onde foi presidente em certas ocasiões. Acompanhou de perto o desenvolvimento da EPM e também da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), junto com o hospital.

Mas, com todas as obrigações que o cargo impõe, para José Roberto o dia a dia não foi feito apenas de assuntos administrativos. A convivência no hospital possibilitou ainda outros tantos episódios memoráveis. “Não sei se foi chuva ou vento, mas a castanheira, que ficava na entrada, não resistiu. Fazia anos que estava lá. Tombou inteira, sem machucar ninguém. A gente falava: ‘A árvore caiu! A árvore caiu!’. Já o professor Ferraro dizia: ‘Não. A árvore se debruçou nos braços do Hospital São Paulo’. Ninguém esquece essa frase. Inclusive, guardamos uma parte do tronco. Depois, replantamos uma nova muda e uma de suas primeiras castanhas eu guardei para ele”, fala Dulce Dias, secretária executiva da Superintendência do HSP/HU/Unifesp.

Dificuldades, no entanto, também existiram e algumas persistem. A equação numérica que não bate. A receita menor que a despesa. Decisões nada fáceis de serem tomadas. O HSP/HU/Unifesp passou por greves e paralizações. Por outro lado, viu a solidariedade. O apoio veio, por exemplo, em um simples gesto. De mãos dadas, pacientes, médicos, alunos, professores, funcionários e residentes percorreram os seus 590 metros de extensão. Zé também estava lá. Um abraço, assim, foi dado no hospital, possível somente com a união de todos. Indivíduos esses que fazem o coração do Hospital São Paulo não parar de bater.
Há 40 anos, um tal de Zé encontrou-se com um hospital. José Roberto Ferraro se encontrou no Hospital São Paulo. E essa é a sua história. E essa é a história desse encontro. Um encontro que permanece. E por permanecer, se vive. E por viver, marca. Afinal, Zé, o Hospital São Paulo representa o que para você? “Ele é tudo para mim. É tudo! Junto com minha família. O hospital me trouxe as coisas boas da minha vida e eu sou grato. Aprendi aqui e aprendi muito. Por isso, digo, até hoje, que o que eu me dedico será insuficiente para retribuir ao que essa instituição me deu. Há muito esforço para se formar uma pessoa, entende? Isso não é só bonito de se falar, eu acredito. Então, eu me considero um eterno devedor por tudo que, não só a EPM me deu, mas principalmente o Hospital São Paulo”, finaliza José Roberto Ferraro.

Publicado em Edição 08
Imagem da represa Guarapiranga

Estudo pioneiro faz uma estimativa do significado econômico da degradação ambiental na represa que compõe a segunda maior bacia hidrográfica da região metropolitana de São Paulo

Ana Cristina Cocolo

Ao contrário do que muitos acreditam, não é somente a falta de chuva e o desperdício de água que contribuem para um panorama assustador – já previsto pelos especialistas – de que dois terços da humanidade sofrerão alguma restrição do recurso até 2050. As atividades humanas ao redor dos mananciais, como os assentamentos irregulares e o descarte de esgoto não tratado, impactam tanto a qualidade quanto a quantidade de água a ser disponibilizada. E o custo disso, muitas vezes, não é mensurado. 

Um estudo pioneiro, apresentado como dissertação de mestrado no Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) – Campus Diadema, pelo biólogo Felipo Meireles de Brito, analisou temporalmente o custo da manutenção da qualidade da água de 1995 a 2010, considerando os impactos do uso e ocupação do solo da bacia da represa de Guarapiranga entre 1986 e 2010. As conclusões não são nada animadoras.

Localizada no sudoeste da região metropolitana de São Paulo, a bacia hidrográfica da represa de Guarapiranga abrange os municípios de Embu-Guaçu, Itapecerica da Serra e parcialmente os municípios de São Paulo (zonas sul e oeste), Cotia, Embu, São Lourenço da Serra e Juquitiba e é responsável pelo abastecimento de aproximadamente 20% da população desse território.

Os resultados da pesquisa apontam que a redução da cobertura vegetal está significativamente correlacionada ao acréscimo na dosagem média de produtos químicos utilizados para tratar a água bruta da represa de Guarapiranga, aumentando o custo do tratamento em sete vezes em um espaço de tempo de apenas 15 anos. Os valores do dano ambiental estimados no estudo saltaram de cerca de 927,5 mil dólares em 1996 para mais de 6,6 milhões de dólares em 2010. 

Brito explica que, uma vez que a remoção da vegetação repercute na dosagem média de produtos químicos utilizados, o aumento do custo para o tratamento da água pode ser considerado como um substituto para a valoração dos serviços ecossistêmicos – que são aqueles oferecidos pela natureza a todo o ecossistema – de suprimento de água com boa qualidade. “No entanto, esses valores estão subestimados, pois, de uma variedade de serviços ecossistêmicos fornecidos pelo reservatório, a falta de dados nos órgãos públicos ou a indisponibilidade dos mesmos fez com que esse trabalho analisasse somente o fornecimento de água de qualidade para fins de abastecimento público”, afirma. 

Décio Semensatto Júnior, professor do Departamento de Ciências Biológicas do ICAQF/Unifesp e orientador do trabalho, esclarece que, mesmo sendo uma avaliação subestimada, a gestão dos reservatórios deve ter como base esse cenário e reforçar a conservação dos mananciais com políticas públicas efetivas e participação massiva da sociedade, já que esses custos são repassados diretamente ao consumidor final. “Quando lidamos com a questão dos bens e serviços ecossistêmicos e a valoração deles, de saída, sabemos que esse número é subestimado, não por incapacidade técnica, mas porque não conhecemos os ecossistemas em plenitude, seus componentes e funcionamento”, afirma. “Essa dificuldade de mensuração e a utilização de apenas um outro componente de valor ocorre em todos os lugares do mundo”.

Para Simone Miraglia, professora do Departamento de Ciências Exatas e da Terra do ICAQF/Unifesp e coorientadora da pesquisa, a contribuição econômica desses serviços ecossistêmicos acaba sendo negligenciada nos mercados. 

“É necessário que haja empenho para estimar o real valor dos ecossistemas para a sociedade e os impactos de sua degradação ou conservação, para auxiliar os gestores a seguirem um caminho mais racional e sustentável”, afirma ela, que também é especialista em Gestão Ambiental e Valoração Econômica Ambiental e da Saúde.

imagem da superfície da água
Simone Miraglia

Simone Miraglia, coorientadora do estudo

Decio Semensatto

Décio Semensatto Júnior, orientador do trabalho

Metodologia 

Para chegar a esses valores, os especialistas aplicam a fórmula da Valoração Econômica dos Recursos Ambientais [VERA = (VUD + VUI + VO) + VE], usada para determinar o valor monetário dos recursos naturais em relação aos outros bens e serviços disponíveis na economia. 

Nesse cálculo, utilizam-se a somatória dos valores de uso direto (VUD) – relativo à utilização de um recurso na forma de extração, visitação ou outra atividade de produção ou consumo direto –, de uso indireto (VUI) – derivado das funções ecossistêmicas, como a estabilidade climática –, de opção (VO) – atribuído aos usos direto e indireto, que poderão ser usados no futuro, como para o caso do desenvolvimento de fármacos com base em propriedades medicinais ainda não descobertas de plantas de áreas de preservação ambiental –, e de existência (VE) – dissociado do uso e derivado de uma posição moral, cultural, ética ou altruística em relação à biodiversidade.

Devido à restrita disponibilidade de informações, a valoração ambiental, nessa pesquisa, ficou limitada ao valor de uso direto (VUD), relativo ao suprimento de água. “Tem outros valores que tentamos usar, como a desvalorização imobiliária da região, mas não tivemos acesso a dados públicos”, explica Simone.

As informações utilizadas para embasar o estudo foram colhidas no Sistema Integrado de Informações ao Cidadão (SIC) da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). De acordo com elas, a represa de Guarapiranga produziu aproximadamente 357,7 milhões de metros cúbicos, em 1996, a um custo médio de tratamento da água bruta de U$ 2,58 para cada 1.000 metros cúbicos. Em 2010, a produção foi de 411 milhões de metros cúbicos, 20% a mais quando comparado com a década anterior, porém com o custo de tratamento de U$ 16,11 - sete vezes maior – para cada 1.000 metros cúbicos. 

Declínio contínuo de qualidade

Semensatto explica que, nas últimas décadas, o reservatório tem sofrido um contínuo declínio na qualidade de suas águas, causado, principalmente, pelo lançamento direto de esgoto não tratado, causando uma crescente concentração de nutrientes na coluna d´água, da poluição por metais e poluentes emergentes, como fármacos e hormônios. 

O docente, que lidera o Grupo de Pesquisa em Planejamento e Processos em Meio Ambiente do campus, adianta que um outro estudo, que será iniciado pela bióloga Mariana Arantes Adas, simulará dois cenários distintos a partir dos resultados dessa pesquisa. 

Em um deles, a pesquisadora simulará a substituição da área ocupada pela urbanização na bacia hidrográfica do Guarapiranga por cobertura vegetal, em um cenário considerado o ideal para a região, aplicando o Código Florestal na íntegra, para estimar o quanto teríamos de serviços ecossistêmicos prestados. No outro, ela estimará como estará a mancha urbana no local daqui a 10 anos, mantendo-se o ritmo atual de urbanização, e o quanto de serviços ecossistêmicos serão perdidos. A previsão é que esses dados estejam disponíveis em dois anos.

infografico Serviços ecossistemicos

Dissertação relacionada:

BRITO, Felipo Meireles de, Bens e serviços ecossistêmicos da bacia hidrográfica da Represa Guarapiranga: análise da evolução histórica e valoração ambiental, entre os anos de 1986, 1996 e 2010. 2015. 46 f. Dissertação (Mestrado em Ecologia e Evolução) – Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas, Universidade Federal de São Paulo, Diadema, 2015.

Publicado em Edição 08

Anúncios e campanhas de marketing veiculadas em revistas brasileiras especializadas em negócios reforçam um universo idealizado e conservador em relação ao “sexo frágil”

Juliana Narimatsu

Entreteses p095 ilustracao mulher

"Muito se diz sobre as transformações em relação à condição feminina, mas estudos revelam que, apesar de hoje serem mais escolarizadas e [de constituírem a] maioria nas universidades, as mulheres ainda ganham menos que os homens, encontram mais resistência para se inserirem no mercado de trabalho, ocupam postos menos privilegiados e estão concentradas em carreiras ditas femininas”, esclarece Elizabeth Queijo, pesquisadora do programa de pós-graduação em Letras da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos, responsável por trazer à tona essa temática em sua dissertação de mestrado.

Elizabeth discute as tensões em torno das relações sociais de sexo no universo corporativo, tendo em vista os anúncios em revistas de negócios. A análise foi feita a partir das publicações Exame e Você S/A, de grande circulação nacional, pertencentes ao Grupo Abril. A pesquisa, financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e apresentada no segundo semestre de 2016, foi realizada sob orientação de Anderson Salvaterra Magalhães, docente do Departamento de Letras da EFLCH/Unifesp. O material analisado totalizou 3.570 anúncios, coletados em 75 edições de ambos os periódicos, cuja veiculação ocorreu entre abril de 2013 e abril de 2015. 

As revistas de negócios fazem parte da realidade social do mundo do trabalho, observa Elizabeth. As relações entre homens e mulheres são apresentadas por essas publicações, não apenas por meio do conteúdo jornalístico propriamente dito, mas também por meio das peças de publicidade e propaganda. “Os anunciantes, no caso, participam da construção de valores simbólicos para a satisfação das necessidades materiais e, principalmente, das necessidades sociais do público, construindo subjetividades, ao mesmo tempo em que refletem tendências já existentes na sociedade”, explica a pesquisadora. “Há um ponto em comum nesse movimento recíproco que achamos interessante analisar: a publicidade produz valores que influenciam o cotidiano das pessoas, porém é a partir desses valores que a própria publicidade reproduz suas palavras e imagens.”

Motivações pessoais, além do interesse acadêmico, despertaram a atenção de Elizabeth. “A ideia surgiu a partir da experiência em um ambiente corporativo ainda refratário a algumas transformações, quer fosse pela persistente diferença salarial, quer fosse pelos cargos de liderança, que se restringiam ao marketing e aos recursos humanos, considerados como áreas de apoio ao negócio. Não posso deixar de mencionar as piadas [que circulavam] sobre a contratação ou a promoção de alguma funcionária, adjetivos como ‘mandona’ ou ‘mulher-macho’ [dirigidos] às gestoras, exigências estéticas e manifestações de assédio sexual. A vivência profissional nesse espaço como mulher apontava para um cenário complexo e cheio de detalhes.”

Mulheres ganham 76% pelo mesmo trabalho feito por homens

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 207.160.000 pessoas vivem atualmente no Brasil. Desse total, 50,65% são mulheres. Apesar de, em termos percentuais, a igualdade entre os sexos praticamente existir na população, esse valor não se reflete nas relações sociais de gênero, sobretudo no mundo dos negócios. Na presença ou na ausência de crise, as mulheres continuam trabalhando mais e recebendo menos por isso.

O cenário é expressivo em números: em 2015, o rendimento médio das mulheres equivalia a 76% da renda dos homens. Por semana, foram 34,9 horas dedicadas ao emprego e 20,5 horas, às tarefas domésticas. Nesse último quesito, a jornada masculina foi de apenas dez horas, ou seja, a metade do tempo das mulheres. Essas informações estão contidas na Síntese de Indicadores Sociais: uma Análise das Condições de Vida da População Brasileira (SIS - 2016), divulgada em 2016 pelo IBGE e que traz dados do período entre 2005 e 2015.

Na população com até quatro anos de estudo, o salário-hora das mulheres – em 2015 – correspondeu a 90% do valor auferido pelos homens. Para a categoria mais escolarizada, com 12 anos ou mais de estudo, tal comparativo foi de 68,5%. À medida que avançou o nível escolar, aumentou também a desigualdade entre os gêneros.

Os dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em março de 2017, no âmbito do projeto intitulado Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, apontaram que nos últimos vinte anos (1995-2015) o índice de presença e participação feminina no mercado de trabalho oscilou entre 54-55%. Especificamente em 2015, registrou-se que 55,3% das mulheres eram economicamente ativas (ocupadas ou em busca de ocupação). Por sua vez, a proporção de homens ativos, nesse ano, foi de 78,3%. 

Vale destacar o crescimento de lares chefiados por mulheres. Em 1995, os domicílios que tinham as mulheres como pessoa de referência alcançavam 23%. Vinte anos depois, esse índice saltou para 40%. Do mesmo modo, o patamar de famílias em que as mulheres não tinham cônjuge, mas possuíam filhos, permaneceu elevado: 16,35% em 2015, conforme relatório da SIS - 2016.

Dois gráficos, o primeiro deles mostra como o rendimento médio de homens, seja em trabalho formais ou informais, é superior ao de mulheres. O segundo gráfico mostra como média de horas semanais trabalhadas, ao somar o trabalho e os afazeres domésticos, é maior entre as mulheres

Relações sociais de sexo no mundo do trabalho: dissimetrias

Elizabeth queijo - a pesquisadora está com vários exemplares das revistas

Elizabeth Queijo e seu objeto de pesquisa

A dissimetria entre homens e mulheres pode ser exemplificada pela publicidade de um banco. A imagem apresenta seis personagens (duas mulheres e quatro homens), sugerindo que cada um deles representa diferentes ambientes de trabalho e profissões. Dois deles são nitidamente cozinheiros, mas, pelas roupas, conclui-se que a mulher é uma auxiliar e o homem é o chef. Os outros rapazes estão caracterizados em espaços mais valorizados socialmente (escritório, escola de idiomas e clínica veterinária), enquanto a segunda mulher está associada a um salão de beleza.

Outro anúncio publicitário reproduz a capa de uma das edições da revista Você S/A, cuja reportagem principal – identificada pelo título As Vantagens de Ter Duas Carreiras – também aborda as diferenças específicas que caracterizam as atividades profissionais exercidas por homens e mulheres. O anúncio é ilustrado por uma faixa vermelha que guarnece a parte inferior da página, na qual se lê: “Quando a jornada dupla vale a pena”. No fac-símile da capa destaca-se, ao centro, a fotografia do diretor de tecnologia de uma loja de artigos esportivos on-line, que – após o expediente – é professor de mergulho (segundo informa a legenda). A característica em foco é a menção aos termos dupla jornada. No caso do diretor, por tratar-se de trabalho convencional, uma atividade ocorre após o expediente da outra. Em relação às mulheres, entretanto, a dupla jornada consiste no fato de as obrigações familiares e domésticas – pelas quais são, em grande parte, responsáveis – atravessarem o curso das tarefas profissionais. 

Há discriminação até entre as representantes do próprio gênero feminino. Alguns anúncios expõem a imagem de diferentes modelos, todas jovens, loiras, de olhos azuis e magras, inclusive os de uma mesma marca de roupas. “A distinção pode ser percebida visualmente na totalidade das propagandas veiculadas no período observado, isto é, trata-se majoritariamente de enunciados com mulheres não negras”, ressalta a pesquisadora. Por outro lado, as referências a comunidades, famílias de baixa renda ou pessoas que buscam o empreendedorismo apontam quase sempre para um recorte de raça/etnia, ou seja, para as mulheres negras. “Parece pertinente dizer que determinados traços físicos, bem como atribuições que sugerem classe social mais baixa, limitam ainda mais as possibilidades de representação de avanço atreladas ao tipo de imagem de mulher que foge do modelo legitimado pela sociedade.”

Entre os valores conferidos às mulheres, os principais pontos abordados são: a vinculação com a feminilidade e sensualidade, a busca da beleza física (corpo perfeito e vestimenta impecável), a representação da mulher sob o olhar do homem, a nudez implícita, as atribuições comuns ao gênero e o desconhecimento de tarefas impostas como masculinas. “Nota-se a presença de imagens femininas quantitativa e qualitativamente menos expressivas; mesmo quando relacionadas ao ambiente de trabalho, são homogêneas e utilizam-se da beleza e do erotismo. As valorações, como os conceitos teóricos de separação e hierarquização do trabalho, estão cristalizadas e organizam a estrutura da cadeia discursiva, não admitindo qualquer mudança e fundindo-se como fenômenos da vida de forma implícita”, pontua.

Os enunciados publicitários integram, portanto, os discursos da sociedade e funcionam como vetores de transformação nas relações sociais de sexo quando propõem um avanço em relação às mulheres e ao mundo do trabalho – como a representação daquelas que buscam ser empreendedoras. Por outro lado, tentam ainda estabilizar valores cristalizados e conservadores – o modelo de mulher que consegue conciliar profissão e tarefas do lar, por exemplo. “É preciso reconhecer que as diferenças ainda se sustentam para que possamos superar essas dissimetrias. Declarar que as mulheres avançam não faz sentido se avanços não fossem considerados necessários. A igualdade social não se confunde com o não reconhecimento de diferenças entre homens e mulheres; ao contrário, a busca por uma igualdade exige o reconhecimento dessas diferenças. Os resultados são um tanto pessimistas, mas uma ‘aposta’ teórica da pesquisa no campo discursivo é a ideia do devir como algo transformador”, finaliza.

Uma ilustração organizada com a figura do yan yang, em um dos lados estão objetos domésticos e no outro, objetos de mundo corporativo

Desvalorização das “tarefas domésticas” revela perfil conservador da sociedade

As mulheres nunca estiveram fora do mundo do trabalho. Nas últimas décadas, muitas deixaram a vida de donas de casa. Na maior parte dos casos, entretanto, as mulheres tiveram de combinar as tarefas domésticas, familiares e profissionais com o serviço assalariado ou não. Só que isso nem sempre foi devidamente reconhecido e levado em consideração pelas estatísticas.

“No Brasil, cuja formação deitou raízes em um sistema escravocrata, ainda se ignora a força de trabalho feminina empregada pelas mulheres negras – escravizadas ou livres, brasileiras ou africanas”, assegura Elizabeth Queijo. As diferenças sociais, em especial as relacionadas à raça, engendraram tensões que atingem ambos os gêneros. No caso dos homens negros, o conflito é fundamentado em um prestígio social inferior quando comparado ao do homem não negro, e os efeitos da desigualdade aparecem até mesmo na comparação com as mulheres brancas. Dessa forma, a autora reforça a necessidade de entender as múltiplas características e questões entrepostas nas relações de sexo.

A divisão sexual de trabalho, mesmo que modulada histórica e socialmente, revela que os homens são destinados prioritariamente à esfera produtiva, enquanto as mulheres, à esfera reprodutiva. As funções de forte valor social – sejam políticas, religiosas ou militares, entre outras – são reservadas à parcela masculina da população. Há, assim, a apresentação de dois conceitos: o de separação, pressupondo o que é dever do homem e da mulher, e o de hierarquização, valorizando o trabalho de um em detrimento do do outro.

Há ainda o modelo de conciliação, associado recorrentemente à expressão dupla jornada, que visa combinar as tarefas domésticas e familiares com a vida profissional. Essas responsabilidades são atribuídas, de forma implícita, às mulheres. O cuidado com os filhos e com a casa, entretanto, é visto como desvantagem pelo mercado de trabalho. Diante desse cenário, surge o modelo de delegação, que dirige as referidas atividades a outras pessoas – faxineiras, empregadas ou babás.

“As identidades – assim construídas – são fundamentadas em valores sociais e culturais, inscritos historicamente, determinando lugares e papéis compreendidos como de homens ou de mulheres”, resume a pesquisadora.

Dissertação de mestrado e artigos relacionados:

QUEIJO, Maria Elizabeth da Silva. Imagens de mulher e o mundo do trabalho: uma análise discursivo-dialógica de enunciados publicitários em revistas de negócios. 2016. 292 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos (SP).

RETRATO das desigualdades de gênero e raça – 1995 a 2015. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2017. Disponível em: < http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/170306_retrato_das_desigualdades_de_genero_raca.pdf >. Acesso em: 16 mar. 2017.

SÍNTESE de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira – 2016. Rio de Janeiro: IBGE, 2016. 146 p. (Estudos e Pesquisas. Informação demográfica e socioeconômica, n. 36). Disponível em: < http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv98965.pdf >. Acesso em: 16 mar. 2017.

Publicado em Edição 08
Segunda, 10 Julho 2017 10:24

Esperança para quem aguarda transplante

Estudo indica possibilidade de criar novos órgãos com a utilização da estrutura dos já existentes

José Luiz Guerra

descelularização

Acima, imagem de microscopia confocal dos esferoides ou microtecidos

Uma pessoa está na fila de transplante há anos, à espera de um doador, mas o tão sonhado dia não chega, seja pela demanda, seja pela incompatibilidade do órgão. E se a questão fosse resolvida a partir de seu próprio órgão? A possibilidade é indicada pela dissertação de mestrado de Luciana Iwamoto, do programa de pós-graduação em Cirurgia Translacional da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo.

O estudo teve como objetivo encontrar a solução química mais adequada para a descelularização, ou seja, a retirada do material biológico de um órgão ou de parte dele, por meio de lavagens com enzimas e detergentes específicos, mantendo apenas a estrutura proteica como um scaffold, uma espécie de arcabouço. “Utilizamos dentes naturais no estudo porque, na matriz natural, existem a macro e a microgeometria adequadas para promover a função tecidual”, explica Monica Duailibi, coorientadora da pesquisa e professora afiliada da disciplina de Cirurgia Plástica e do programa de pós-graduação em Cirurgia Translacional.

O estudo utilizou 50 dentes pré-molares, que foram divididos em cinco grupos iguais e armazenados, ao longo de 12 semanas, em soluções químicas diferentes. O primeiro (G1), que era o grupo controle, permaneceu em solução de formaldeído a 10%; o segundo (G2), em tampão fosfato salino (PBS), com 28g de etilenodiaminotetracético tetrassódico (EDTA) e hipoclorito de sódio na concentração de 2,5% (SH); o terceiro (G3), em PBS, EDTA e peróxido de hidrogênio 40v (HP); o quarto (G4), em PBS, EDTA, SH e detergente enzimático (ED); o quinto (G5), em PBS, EDTA, HP e ED. “Nós submetemos o material a várias soluções para criar um protocolo e descobrir qual era a melhor delas para produzir a descelularização”, sintetiza Monica.

Após as 12 semanas, os dentes passaram por análises, que indicaram que a solução aplicada ao grupo G5 conseguiu retirar o material biológico e mineral sem comprometer a estrutura de proteínas, responsável pelo agrupamento das células. “O organismo criou uma base capaz de colar as células; então, o segredo está em encontrar uma composição química que retire o material biológico e o mineral, quando for o caso, e deixar essa cola natural intacta”, afirma Silvio Duailibi, docente da disciplina de Cirurgia Plástica da EPM/Unifesp e orientador do estudo. A estrutura obtida após a descelularização é o scaffold, que está pronto para receber novas células e se reorganizar naturalmente. Para isso, no entanto, é necessária a utilização de células-tronco. 

Os dentes, que também são órgãos, constituem-se de células e proteínas. Sendo assim, um órgão, mesmo que afetado por alguma doença, pode ser descelularizado. “No caso de um tecido organizado – como, por exemplo, o coração –, você irá tratá-lo, retirar dele todas as células e deixá-lo só com a rede de proteínas (scaffold), sem perder o formato original, isto é, sua macroestrutura. Dentro dele ficará uma estrutura, pronta para semear novas células”, relata Silvio. Após a descelularização, a estrutura obtida será colonizada por células do paciente que receberá esse órgão, e elas serão responsáveis por reestruturá-lo. Na visão de Monica, entretanto, é fundamental que se estabeleçam protocolos específicos. “Para cada tecido e cada estrutura, haverá protocolos diferentes. Muito provavelmente o protocolo que foi estudado no caso dos dentes não deverá ser o mesmo a ser utilizado para cartilagens, o qual – por sua vez – não deverá ser o mesmo para órgãos sólidos, como rim, fígado e pâncreas, por exemplo.”

A técnica de descelularização já é utilizada em países como os Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão e Inglaterra. Córneas, cartilagens e curativos biológicos para grandes queimaduras são produzidos a partir de membrana placentária e, por serem regulamentados, podem ser comprados para fins de transplante. 

Com o estabelecimento dos protocolos específicos, abre-se a possibilidade de que a retirada das células possa ocorrer também com órgãos, inclusive do próprio paciente. “No futuro, todos os órgãos que forem desprezados poderão ser reaproveitados”, ressalta Monica. 

Duas imagens microscopia eletrônica de varredura

Imagens de microscopia eletrônica de varredura (MEV). À esquerda, polpa dentária. À direita, dente descelularizado

Próximos passos

Após a descoberta da solução ideal para a descelularização do material biológico, o próximo desafio será identificar a forma de esterilização dessas estruturas, antes de reimplantá-las. Esse estudo já está em andamento, também sob a orientação de Silvio e Monica Duailibi. A técnica consiste em limpar a estrutura obtida, retirando-se os resíduos que, porventura, possam danificar o novo órgão que será formado por meio das células-tronco e de outros materiais. 

“Essa estrutura pode estar contaminada e, quimicamente, as células entendem que não podem aderir àquela parte. É necessário ter certeza de que não restou nenhum elemento nocivo”, alerta Silvio. Em linhas gerais, um paciente que necessitasse de um transplante de fígado, por exemplo, poderia receber um novo órgão, fabricado a partir de outro, mesmo que danificado. Essa esterilização seria responsável por eliminar qualquer agente que pudesse causar danos ao novo material.

Pesquidadores Monica e Silvio Duailibi

Os pesquidadores Monica e Silvio Duailibi

Experiências com a produção de biomateriais em 3D

Uma das linhas de pesquisa desenvolvidas por Silvio e Monica Duailibi é a produção de dentes por meio da impressão em 3D. As unidades são moldadas com base na estrutura original de um dente, recebem material biológico e podem ser implantadas no paciente, embora haja risco de rejeição. No caso de um dente ou outro órgão natural, esse risco é menor, uma vez que foram produzidos com o próprio material biológico do paciente.

Outra frente em que atua o casal Duailibi é a reconstrução de meniscos, estudo que está na fase experimental e que visa ao estabelecimento de protocolo para futuras pesquisas. Trata-se da primeira estrutura óssea a ser reconstruída e reimplantada. “A partir do momento em que se determina sua estrutura anatômica, por meio de imagens, precisamos verificar qual a melhor forma de transferência dessa estrutura para o laboratório e estabelecer os protocolos de descelularização a partir dos já estudados no caso dos dentes”, resume Monica.

Novos protocolos para engenharia tecidual 

Silvio e Monica Duailibi são membros da International Organization for Standardization (ISO), da American Society for Testing and Materials (ASTM) e da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Atuam diretamente, em conjunto com pesquisadores de diversas partes do mundo, na elaboração de normas técnicas e protocolos para a engenharia tecidual (TEMPs, do inglês tissue engineered medical products). 

Os pesquisadores explicam que há necessidade de serem definidas normas que forneçam parâmetros para as pesquisas, especialmente em relação ao armazenamento de células-tronco. “Não existe uma certificação de que esse material esteja completamente adequado para uso daqui a dez ou 15 anos, por exemplo. Os protocolos começam a ser estabelecidos, mas não estão totalmente prontos”, explica Monica. “As normas são uma orientação para que as pesquisas e as futuras terapias sejam produzidas com qualidade”, finaliza Silvio.

Artigos relacionados:

MACHADO, Natasha; DUAILIBI, Silvio Eduardo; SANTOS, Jennifer Adriane dos; PENNA, Vanessa; FERREIRA, Lydia Masako; DUAILIBI, Monica Talarico. Effects of glucose and glutamine concentrations in human dental pulp stem cells viability: an approach for cell transplantation. Acta Cirúrgica Brasileira, São Paulo, v. 29, n. 10, p. 658-666, out. 2014. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/acb/v29n10/0102-8650-acb-29-10-00658.pdf >. Acesso em: 7 abr. 2017.

PISCIOLARO, Ricardo Luiz; DUAILIBI, Monica Talarico; NOVO, Neil Ferreira; JULIANO, Yara; PALLOS, Debora; YELICK, Pamela Crotty; VACANTI, Joseph Phillip; FERREIRA, Lydia Masako; DUAILIBI, Silvio Eduardo. Tooth tissue engineering: the importance of blood products as a supplement in tissue culture medium for human pulp dental stem cells. Tissue Engineering Part A, New Rochelle (Nova York, EUA): Mary Ann Liebert, Inc., v. 21, n. 21-22, p. 2.639-2.648, nov. 2015. Disponível em: < http://online.liebertpub.com/doi/pdfplus/10.1089/ten.tea.2014.0617 >. Acesso em: 7 abr. 2017.

PENNA, Vanessa; LIPAY, Monica V.N.; DUAILIBI, Monica Talarico; DUAILIBI, Silvio Eduardo. The likely role of proteolytic enzymes in unwanted differentiation of stem cells in culture. Future Science OA, Londres, v. 1, n. 3, FSO28, nov. 2015. Disponível em: < http://www.future-science.com/doi/pdf/10.4155/fso.15.26 >. Acesso em: 7 abr. 2017.

IWAMOTO, Luciana Aparecida de Sousa; DUAILIBI, Monica Talarico; IWAMOTO, Gerson Yoshinobu; JULIANO, Yara; DUAILIBI, Michel Silvio; TANAKA, Francisco André Ossamu; DUAILIBI, Silvio Eduardo. Tooth tissue engineering: tooth decellularization for natural scaffold. Future Science OA, Londres, v. 2, n. 2, FSO121, jun. 2016. Disponível em: < http://www.future-science.com/doi/pdf/10.4155/fsoa-2016-0016 >. Acesso em: 7 abr. 2017.

MORETTI, Rani da Cunha; DUAILIBI, Monica Talarico; MARTINS, Paulo Oliveira; SANTOS, Jennifer Adriane dos; DUAILIBI, Silvio Eduardo. Osteoinductive effects of preoperative dexamethasone in human dental pulp stem cells primary culture. Future Science OA, Londres. Publicado on-line em 3 abr. 2017. Disponível em: < http://www.future-science.com/doi/full/10.4155/fsoa-2016-0083 >. Acesso em: 7 abr. 2017.

SANTOS, J. A.; DUAILIBI, Monica Talarico; MARIA, D. A.; WILL, S. E. A.; SIMÕES, P.; GOMES, L. F.; DUAILIBI, Silvio Eduardo. Tooth tissue engineering: human dental pulp stem cells migration in Gallus domesticus model. Tissue Engineering Part C: Methods, New Rochelle (Nova York, EUA): Mary Ann Liebert, Inc., 2017. Manuscript ID TEC-2017-0092.

Publicado em Edição 08
Segunda, 10 Julho 2017 10:10

Espelhos da alma

Estudo avaliou o comportamento de pessoas que passaram por transição corporal por meio de análise de imagens fotográficas da infância

José Luiz Guerra

Duas fotografias de infância, com costuras

À esquerda, foto da infância de Leo costurada por Marcela Vasco
À direita, foto de infância de Julia costurada por Marcela Vasco

Como uma pessoa transexual lida com suas fotos de infância? Essa foi a temática central da dissertação de mestrado de Marcela Vasco, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos, e orientada por Andréa Claudia Miguel Marques Barbosa, docente do Departamento de Ciências Sociais. 

Em seu estudo, a pesquisadora analisou a história de vida de três pessoas: Carla, Leo e Júlia (os nomes verdadeiros foram preservados). Os entrevistados relataram a trajetória de suas vidas desde a infância, por meio da relação com as fotografias da época, até os dias atuais. Os relatos incluíram as memórias familiares, brincadeiras de criança e o processo de transição corporal pelos quais passaram, utilizando-se de cirurgias e hormônios, com o intuito de aproximarem seus corpos da forma como se identificavam.

marcela vasco

Marcela Vasco, autora da pesquisa

Ao se deparar com as fotos de infância, Leo as classificou como um documento histórico que atesta suas mudanças corporais e afirmou que se sente como se estivesse em pedra sendo esculpido com o cinzel e o martelinho. Júlia viu nas imagens uma parte de seu tesouro e a ligação afetiva com sua família e com a memória de seu pai, já falecido. Já para Carla, a única entrevistada que não possuía fotos de infância, essas memórias remetiam a ela a ligação com uma família que ela pretende esquecer.

Posteriormente, Leo e Júlia, os únicos que possuíam fotos de infância, foram incentivados pela pesquisadora a identificar, por meio de costuras, os detalhes que lhes chamavam mais atenção nas fotos. “A costura nas fotos é uma metáfora. O que eu tentei mostrar na dissertação é que a fotografia não é a cópia exata do real, como muitas vezes tendemos a acreditar. Para alguns dos meus interlocutores, suas fotos de infância estavam bem longe de representar a realidade, como de fato se identificavam. Costurar era uma tentativa de representar com as linhas essa relação deles com suas fotos”, explica Marcela. 

Contradições impostas pela puberdade 

Em suas fotos, Leo destacou o fato de não usar brincos e roupas que o caracterizavam como menina quando ainda era bebê. “Ela (sua mãe) não furou. Ela esperou eu pedir. Eu que escolhi se queria ter brinco. O que eu acho que é a forma mais correta. Você só deve mexer no corpo de alguém se esse alguém quiser, não é? Então ela não furou a minha orelha”, afirma Leo. Também apontou em uma das fotos, o fato de usar saia, mas não como um acessório caracteristicamente feminino e sim como uma forma de brincar, já que ele descreveu que se sentia como um peão rodando. Entretanto, perante uma foto com 10 anos de idade, ele a classificou como “o fim da época de paz com seu corpo”, quando a puberdade começou a se manifestar e a modificar o corpo reto, com o qual se identificava, passando a adquirir curvas indesejadas. “Lembro que nessa época eu não queria crescer, porque crescer para mim significava virar mulher, ser uma mulher e isso eu não conseguia nem imaginar”, completa Leo.

No caso de Júlia, mesmo possuindo fotos de sua infância, ela destacou uma de seu pai quando era criança. Ele aparece jogando futebol, fato que, segundo o próprio pai, não correspondia com a realidade. “A história é: meu pai nunca gostou de futebol. Ele diz que o avô o obrigou a chutar a bola e depois da foto ele apanhou porque não soube chutar direito”. Para Júlia, a foto retrata o que seu avô queria que seu pai fosse e, estando aquele momento registrado em imagem, mostra uma tentativa dos pais de guardarem aquele instante como a forma que querem que o filho seja visto no futuro. “Não é a imagem na fotografia que fala sobre a relação de Júlia com suas fotografias de infância, mas a relação com esta outra fotografia que aponta uma possível explanação sobre como Júlia olha e compreende suas próprias imagens”.

Com o estudo, Marcela conclui que, da mesma forma como o corpo de seus interlocutores passou por uma transformação, as fotos, consideradas como objetos imutáveis, também poderiam sofrer intervenções. “Se o assombro inicial da pesquisa residia no fato da fotografia ser imutável, enquanto o corpo era passível de transição por meio de cirurgias, hormônios e inúmeras outras intervenções, por fim se pode perceber que a fotografia costurada também passa por suas transformações específicas”, finaliza a pesquisadora.

Dissertação relacionada:
VASCO, Marcela Roberta Guimarães. Imagens trans: as relações de transexuais com suas fotografias de infância. 2015. 115 f. Dissertação (mestrado em Ciências Sociais) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos, 2015.

Publicado em Edição 08

Associações formadas por universitários complementam o ensino da sala de aula por meio da prática profissional e do desenvolvimento de competências conectadas às demandas do mercado

Valquíria Carnaúba

Vários jovens estão em circulo em uma sala, segurando uma linha vermelha que forma uma rede

Evento de integração da Epeq Jr. 2014, realizado no auditório da Unidade José de Alencar (Campus Diadema)

É conhecido o significado mais comum para o termo “ecossistema”. Trata-se de uma unidade natural constituída de parte viva (plantas, animais e microrganismos) e de parte não viva (água, gases atmosféricos, sais minerais e radiação solar), que interagem entre si, formando um sistema estável. Paulo Lemos, doutor em Empreendedorismo Tecnológico e Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), transfere o modelo para o ambiente acadêmico, considerando-o como mais adequado para as universidades de pesquisa brasileiras. 

Para Lemos, o conceito de ecossistema sintetiza a crescente integração das atividades de inovação e empreendedorismo à realidade acadêmica e organizacional de universidades no mundo todo. Sintoma dessa tendência é o surgimento cada vez maior de organizações como empresas juniores (EJs) – associações civis sem fins lucrativos, formadas e geridas por estudantes de curso superior.

Segundo dados do Censo e Identidade da Confederação Brasileira de Empresas Juniores (Brasil Júnior), nosso país tornou-se líder mundial no segmento de EJs, ultrapassando a quantidade de negócios do gênero desenvolvidos dentro de universidades em toda a Europa. Hoje, há mais de 11 mil jovens profissionais distribuídos por cerca de 280 universidades brasileiras, compondo 1.200 dessas entidades. É possível que esse número se expanda ainda mais com a sanção da Lei Federal nº 13.267/2016, cuja matéria prevê a normatização das EJs no país.

Responsáveis pela concentração de alunos interessados em desenvolver competências como empreendedorismo e liderança, as EJs funcionam como verdadeiros laboratórios onde os universitários podem galgar uma carreira e experimentar, durante o período de graduação, cargos que vão de trainee a presidente. Uma experiência, segundo o professor da Unicamp, que pode ser convertida em oportunidade na hora de ingressar na iniciativa privada, no setor público ou em instituições sem fins lucrativos.

Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), já existem oito dessas organizações, pulverizadas entre os diferentes campi e compostas por estudantes de diversos cursos. São elas: Empresa Paulista de Engenharia Química Júnior (Epeq Jr.), Pharminder Jr. Consultoria em Projetos Farmacêuticos, Principia Jr., BUD Jr. e Sustentare Jr., estabelecidas no Campus Diadema; Empresa de Ciência e Tecnologia Multidisciplinar Júnior (ECTM Jr.), no Campus São José dos Campos; Instituto do Mar Júnior (IMar Jr.), no Campus Baixada Santista; e Eppen Jr. Consultoria, no Campus Osasco.

Em entrevista à Entreteses, Lemos aborda pontos como ensino, empreendedorismo e inovação, passando pelos possíveis rumos das EJs nas instituições federais de nível superior e pelas políticas de inovação nas universidades públicas – a exemplo da Unifesp.

Retrato de Paulo Lemos

Segundo Lemos, a empresa júnior é um espaço que propicia ao estudante a expressão e o desenvolvimento de competências que normalmente não encontram espaço nas salas de aula, ao longo da formação convencional

Entreteses - Qual a importância das empresas juniores (EJs) para a universidade pública e para o conhecimento?

Paulo Lemos - As EJs consistem em uma oportunidade de aprendizado complementar ao da sala de aula. Para compreender essa importância, cito o campo do empreendedorismo e da inovação. Um dos papéis exercidos pelas EJs consiste em funcionar como canal de expressão para competências como liderança, comunicação, relacionamento e capacidade gerencial. Nessas organizações, os estudantes podem fazer aflorar seus pontos fortes e envolver-se em práticas de gestão e empreendedorismo. Nelas, muitas vezes, é preciso simular situações de empresas reais, como a liderança de grupos e o desenvolvimento de uma atividade ou projeto. 

 

E. A empresa júnior costuma formar-se em torno de determinadas áreas do conhecimento?

P.L. O surgimento das EJs em torno de áreas do conhecimento depende muito da configuração da própria universidade ou instituição de ensino superior onde elas estão sendo implementadas. Um exemplo: uma universidade com forte atuação nas áreas de Administração de Empresas, Economia ou desenvolvimento de negócios, tanto em termos de graduação, como de pós-graduação, é uma situação muito diferente da de uma universidade ou instituição onde não há essa oferta de cursos. Se sou aluno de Biologia e estudo em uma universidade onde tenho acesso a cursos de Economia ou Administração e posso fazer cursos formais para complementar minha formação em Biologia, estarei em uma situação muito diferente de outra em que monto ou participo de uma EJ e não teria aquela alternativa. Cada organização tem a sua especificidade e sua necessidade. Por outro lado, é importante vislumbrar inovação onde não havia esse horizonte. Vamos tomar um exemplo mais clássico: uma EJ que surge a partir da iniciativa de estudantes de um curso de Artes. Teoricamente, o setor de artes e o lado mais comercial seriam coisas incompatíveis, mas não é essa a realidade. Até em um campus onde o surgimento de EJs seria inusitado, você pode presenciar EJs que trabalham com a parte cultural, artística e social, e até oferecem um espaço onde o artista é incentivado a gerenciar a própria carreira como empreendedor. É o espaço onde você pode expressar e buscar competências que não se encontram na sala de aula durante a formação convencional. Na área de Ciências Sociais, fazer toda a parte de levantamento de dados é uma competência que provavelmente será desenvolvida plenamente instalando-se uma empresa para abrir esse tipo de mercado; e uma EJ pode ser o local onde um aluno de Ciências Sociais irá aprender a gerenciar, projetar atividades, gerir projetos e adquirir outros conhecimentos.

 

E. Existe uma tendência de as empresas e instituições, ao absorverem os profissionais recém-formados, exigirem cada vez mais competências como capacidade empreendedora, liderança e autonomia? 

P.L. Há uma tendência – não somente no mercado de trabalho, mas também no âmbito social, de forma geral – de exigir que as pessoas sejam cada vez mais empreendedoras e que tenham a autonomia como uma característica empreendedora. Isso porque hoje, mesmo na mais antimercado das organizações, uma pessoa será exigida em sua capacidade empreendedora, envolvendo características como agilidade, autonomia e liderança. É uma tendência geral. A EJ, como um espaço onde o aluno desenvolve determinadas atividades, irá realmente complementar essas exigências. 

imagem de um auditório, pessoas sentada escutando e Paulo Lemos à frente proferindo palestra

O docente Paulo Lemos, da Unicamp, durante o evento Universidade Empreendedora e o Papel das EJs, no auditório térreo da Reitoria (2016)

E. As universidades públicas, em sua opinião, estão preenchendo essa condição, necessária ao profissional recém-formado?

P.L. Antes de abordar essa questão, sempre reforço a diferença entre instituição de ensino superior e universidade, pois são dois tipos de organização diferentes. A primeira tem como foco apenas o ensino; já a segunda agrega atividades de pesquisa, e isso deve ser considerado quando falamos das chances e oportunidades das EJs. A princípio, o papel da universidade depende da grade de cursos e de sua estrutura. Posteriormente, é necessário fazer a seguinte reflexão: qual é o projeto que a universidade ou a instituição de ensino superior tem para essas organizações denominadas EJs? Definições sobre a forma como essas EJs devem funcionar, dividir o trabalho e alinhar-se a atividades acadêmicas mais convencionais, dependem de projeto. Isso tudo é um passo enorme que exige a estruturação de um projeto específico para o desenvolvimento desejado, instalação, manutenção e a própria vida das EJs. 

 

E. Qual a infraestrutura que uma universidade deve oferecer para o bom funcionamento dessas EJs?

P.L. Podemos pensar em dois níveis: o físico e o conceitual. O primeiro trata dos recursos físicos mais básicos que devem ser fornecidos pela universidade para a operacionalização das EJs. É importante que estas disponham de uma infraestrutura que permita a operação diária e a definição de identidade e endereço. Com ela, os próprios alunos integrantes das EJs podem alavancar mais recursos. Por exemplo, se eles precisarem de itens como computadores e móveis, vão ter autonomia e capacidade de adquiri-los. Já quando falamos de infraestrutura conceitual devemos pensar em ecossistema: a infraestrutura como oferta de apoio e recursos propriamente dita. O conceito tem sido bastante trabalhado no contexto atual de gestão das organizações e consiste no reconhecimento da EJ, bem como na divulgação das atividades e em sua conexão com outras organizações. Se o integrante de uma EJ precisa do contato com outra universidade, onde pretende aprender uma atividade específica e fundamental para administrá-la, como a universidade de origem vai incentivar e mediar esse contato? Esse suporte implica a valorização da EJ e o estímulo ao seu funcionamento. 

 

foto de Paulo Lemos, ele está em pá e segura um livro nas mãos

Paulo Lemos

E. De que maneira a nova lei para regulamentação das EJs e organizações como o Movimento Empresa Júnior (MEJ) e Brasil Júnior podem ter contribuído para a expansão das EJs?

P.L. Podemos pensar sobre isso dentro de um contexto maior: a necessidade de haver um marco regulatório para a atuação das EJs, que pontue diretrizes jurídicas e legais, e também um marco regulatório de instituições. Movimentos como o MEJ, por exemplo, tiveram grande importância na concretização do marco regulatório, uma vez que se trata de organizações suprauniversitárias que dão diretrizes, espaço para maior troca de experiências e troca de aprendizado entre as EJs do Brasil todo, mesmo em nível estadual. Esse lado legal, portanto, já existia. Houve o reconhecimento de que as atividades desenvolvidas pelas EJs são relevantes, que demandam um arcabouço que coloca as regras para definir como elas devem funcionar. A outra questão referente ao marco é a possibilidade de atuação dos estudantes em patamar superior ao das próprias EJs. Se um estudante participa de uma EJ e depois atua no MEJ ou outra organização suprauniversitária, isso lhe proporcionará outras competências e exigirá mais quanto à coordenação de atividades e relacionamento. Os alunos mais interessados sabem que, ao se aprofundarem no mundo das EJs, sua atuação, que havia começado com elas, poderá estender-se a organizações maiores, implicando a aquisição de novas e importantes experiências para sua formação.

 

E. Críticos da criação de empresas juniores acreditam que essa iniciativa significa uma rendição da universidade pública ao mercado. Alegam que o empreendedorismo obedece a determinações como eficácia, produtividade e urgência, que são alheias às características inerentes à pesquisa científica de caráter público, porque esta não tem como horizonte a busca do lucro. Qual a sua opinião sobre isso?

P.L. Não existem contradições entre o conceito de EJ e o papel básico da universidade, mas sim possibilidades de conciliação. Qual é a principal missão da universidade, principalmente daquela que tem suas atividades voltadas ao ensino e à pesquisa? É a produção de conhecimento científico e tecnológico de excelência. Por isso, não podemos ser induzidos a crer que as atividades ligadas à inovação, ao empreendedorismo e à abertura da universidade atrapalhem essa missão principal, mas sim que a complementem. São atividades absolutamente conciliáveis, dependendo do propósito da universidade em gerenciá-las. Esse é um dos segredos das grandes universidades no mundo todo, as quais mantêm excelência na produção científica e tecnológica e, ao mesmo tempo, trabalham muito bem a inovação e o empreendedorismo. Como fazer isso? Apostando na prática, pois não existe uma fórmula mágica. Cada atividade deve ter seu próprio espaço.

 

E. Essa resistência pode estender-se à questão das patentes? Como a inovação pode sobreviver no Brasil, já que a inovação pode ser medida pela quantidade de patentes? 

P.L. Certamente. Se estou numa universidade que vai partir para uma política de incentivo à propriedade intelectual de sua produção científica e tecnológica, quais serão as diretrizes dessa política? Se isso estiver claro e definido, as resistências passam a ser mais bem equacionadas, pois desse modo é possível ter uma noção melhor do que fazer com a produção científica. Outro ponto é que o aprendizado, a compreensão do processo de patenteamento pelo pesquisador favorece imensamente a abrangência do conhecimento desse cientista. Não é em toda área que a produção científica tem potencial de patenteamento, mas nas áreas favorecidas pelas patentes é evidente que, tecnicamente, o trabalho do cientista será melhor quanto mais ele souber patentear, pois terá acesso a uma base de informações ampla, mais do que se acessasse bases bibliográficas. É preciso ter bem claro o propósito assumido pela universidade em relação à sua política de propriedade intelectual. Se estiver claro, a chance de haver resistência será muito menor. É uma questão antiga, recorrente e legítima, para a qual não existe resposta pronta. 

 

Sala com várias pessoas assistindo uma palestra

Membros da Principia Jr. ministrando palestra para os colaboradores da Basf, multinacional do ramo da Química, durante a Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho (SIPAT), em São Bernardo do Campo

Grupo de jovens em pé

Parte dos membros da Principia Jr. durante dinâmica do processo seletivo de 2017

Vários jovens posando para a fotografia

Equipe da atual gestão da Epeq Jr. (2016/2017)

E. A existência das startups está de alguma forma relacionada à das EJs?

P.L. Não são apenas as EJs que hoje estão atuando nas universidades: há uma série de organizações que estão surgindo, de forma independente. Os próprios alunos sentem que podem e devem renovar o ambiente acadêmico e – a partir dessa concepção – estão encabeçando movimentos de empreendedorismo. Na Universidade de São Paulo (USP) e na Unicamp, por exemplo, alunos montaram centros e núcleos de empreendedorismo, organizações quase informais dentro da instituição para trabalhar com essa questão, que é uma realidade. Essa renovação está em andamento e é positiva para o ambiente acadêmico – em essência, um ambiente muito dinâmico. As startups, como um movimento global, estão estimulando esses novos tipos de organização.

Publicado em Edição 08

Maioria de jovens submetidos a tratamento interdisciplinar para redução de peso apresentou altos níveis do hormônio, responsável pela regulação do balanço energético do organismo

José Luiz Guerra

Equipe do projeto

Lian Tock, Ana Dâmaso, Joana Ferreira, Raquel Campos, Flavia Corgosinho e Deborah Masquio

Uma pesquisa, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências da Saúde do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista, concluiu que o aumento da concentração de leptina no sangue pode ter relação com a ocorrência de sintomas depressivos em adolescentes obesos. O trabalho é fruto da tese de doutorado defendida pela psicóloga Joana Pereira de Carvalho Ferreira, sob orientação de Ana Dâmaso.

A leptina é um hormônio produzido no tecido adiposo responsável pela regulação do balanço energético do organismo. Quando liberado em excesso, no entanto, aumenta o processo inflamatório e age com efeito contrário, aumentando o apetite e reduzindo o gasto energético. Isso ocorre devido a uma provável resistência à ação do hormônio quando produzido em excesso, quadro conhecido como hiperleptinemia.

Participaram do estudo 75 adolescentes obesos, sendo 30 do sexo masculino e 45 do feminino, com idade entre 13 e 19 anos. Foram excluídos do protocolo aqueles que apresentaram alterações nos exames cardiológicos, os portadores de doenças relacionadas ao sistema imunológico, genéticas, osteomusculares e endócrinas. Também não foram incluídos os indivíduos que fizeram dietas suplementares para alteração do metabolismo nos últimos seis meses, além daqueles que já faziam acompanhamento psicológico ou farmacológico para o tratamento da depressão. 

Durante o período de um ano, esses voluntários foram submetidos a um tratamento interdisciplinar que incluiu atividade física, acompanhamento médico, nutricional e psicológico. No início e no final do tratamento, os adolescentes passaram por exames de sangue, ultrassonografia de carótida e abdômen e avaliação de composição corporal. Para a medição dos sintomas depressivos foi aplicada a Escala de Depressão de Beck.

Após o período de tratamento, a pesquisadora verificou melhora no quadro psicológico. “Antes da terapia, 60% dos adolescentes apresentavam sintomatologia de depressão, e destes, 91% apresentaram redução dos sintomas após a terapia”, explica Joana. Os resultados indicaram ainda que a melhora do estado de hiperleptinemia e, consequentemente, da resistência à ação desse hormônio podem ter influenciado na redução dos episódios de depressão, especialmente entre as meninas. 

Os resultados da pesquisa sugerem que a redução dos níveis de leptina para níveis dentro da normalidade favoreceu a restauração da característica protetora deste hormônio. “Esses resultados podem contribuir para o levantamento de estratégias de tratamento para essa população. No entanto, é importante ressaltar que não se pode reduzir a causa da depressão a um único fator, já que essa é uma doença extremamente complexa e multifatorial”, completa a pesquisadora.

Artigo relacionado:
CARVALHO-FERREIRA, Joana Pereira de; MASQUIO, Deborah Cristina Landi; CAMPOS, Raquel Munhoz da Silveira; NETTO, Bárbara Dal Molin; CORGOSINHO, Flavia Campos; SANCHES, Priscila L.; TOCK, Lian; TUFIK, Sergio; MELLO, Marco Túlio de; FINLAYSONE, Graham; DÂMASO, Ana R. Is there a role for leptin in the reduction of depression symptoms during weight loss therapy in obese adolescent girls and boys? Peptides, v. 65, p. 20–28, mar. 2015. Disponível em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0196978115000078 >. Acesso em: 29 mar. 2017.

Publicado em Edição 08
Segunda, 10 Julho 2017 09:57

Autonomia com o piscar dos olhos

Sistema de navegação a partir da leitura do movimento da pupila resgata parte da independência de indivíduos sem mobilidade. Outros projetos também envolvem a acessibilidade barata usando canos de PVC

Ana Cristina Cocolo

Imagem mostra o equipamento colocado no rosto de um homem

Equipamento rastreia o movimento ocular e substitui o joystick no comando da cadeira

Um protótipo funcional de navegação autônoma, para controlar uma cadeira de rodas motorizada a partir da identificação do movimento ocular, está sendo desenvolvido por um grupo de docentes e estudantes do Núcleo de Neuroengenharia e Computação do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) – Campus São José dos Campos. A ideia é levar a tecnologia assistiva com inovação e baixo custo à população, contemplando as necessidades de cada indivíduo e auxiliando, principalmente, pessoas com severos problemas motores, como a tetraplegia e esclerose lateral amiotrófica (ELA).

De acordo com Henrique Alves de Amorim, professor do ICT/Unifesp e um dos coordenadores do projeto, o modelo substitui o uso do joystick (alavanca de controle de comando) por uma estrutura composta pelo sistema Eye Tracking, que rastreia o movimento ocular, um notebook, um microcontrolador Arduino (plataforma de prototipagem eletrônica de hardware livre) e circuitos amplificadores. 

Financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o protótipo, segundo o pesquisador, visa atender à necessidade de mobilidade de pessoas com deficiência, tanto em ambientes internos – nos quais os movimentos da cadeira precisam ter menores velocidades e amplitudes de movimentos – quanto externos – que possibilitam maior fluidez e velocidade e necessitam de mais agilidade nas manobras, com menor demanda de comandos do usuário. 

O projeto foi um entre os dez brasileiros escolhidos para serem apresentados como tecnologias inovadoras, com potencial de startups, em evento promovido pela fundação Swissnex Brasil durante uma semana no Rio de Janeiro e uma semana na Suíça, em Lausanne e Zurique. O pedido de patente do sistema já está em andamento. 

Sistema de rastreamento e controle

Para capturar o movimento da pupila, o grupo utilizou-se do dispositivo Pupil Pro, que possui duas câmeras acopladas a uma armação que se acomoda ao rosto do usuário. Uma das câmeras é dirigida a um dos olhos para registrar as imagens da pupila e a outra é direcionada para capturar imagens do ambiente à frente. 

No projeto, como o controle de navegação é baseado somente na posição da pupila, o grupo utilizou-se apenas de uma das câmeras. “Com isso, o sistema criado torna-se mais barato, pois, além de diminuir custo de uma câmera, o processamento computacional torna-se mais rápido, uma vez que ele não precisa processar o reconhecimento do ambiente, mas apenas a imagem dos olhos”, afirma Jean Faber, professor do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, que também coordena o projeto em parceria com Amorim.

Três fotos - as duas primeiras mostram a equipe de pesquisadores e a última mostra o equipamento

Acima à esquerda, os estudantes Matheus Sousa Franco e Alexandre Loos Agra, com o professor do ICT/Unifesp, Henrique Alves de Amorim
Acima à direita, Jean Faber, professor da EPM/Unifesp, que também coordena o trabalho junto com Amorim
Abaixo, Agra manobrando a cadeira com o novo sistema desenvolvido pelo grupo

O protocolo de navegação utiliza sequências de posicionamento da pupila (1-acima, 2- direita, 3- esquerda, 4- abaixo) e uma posição chamada de “zero”, que corresponde aos olhos fechados e determina o gerenciamento do início do movimento ou da parada por piscadas do olho. Assim que as imagens da pupila são captadas, elas são processadas em tempo real e convertidas em comandos de direção (frente, atrás, esquerda, direita), na velocidade pré-programada, pelo software desenvolvido pelo grupo. Os comandos interpretados pelo software são enviados para um microcontrolador ligado a um circuito de amplificação que aciona os motores da cadeira. 

“Os comandos funcionam igual a um joystick”, explica o pesquisador. “Para iniciar o movimento, o usuário da cadeira precisa olhar, por exemplo, para baixo por mais ou menos meio segundo para enviar o comando correspondente à direção ‘para frente’, e então, com uma piscada curta, aciona os motores propriamente; depois, utiliza uma nova piscada curta para parar a cadeira. Já os comandos 2 e 3, que ficam nas laterais, acionam o giro em torno do próprio eixo. É importante dizer que o controlador fica inteiramente livre para olhar para onde quiser, uma vez ativada a direção desejada”. 

De acordo com Faber, o sistema de navegação também possui um modo de segurança autônomo que auxilia no desvio de obstáculos e evita colisões ou possíveis riscos para quem está manobrando a cadeira. Três sensores instalados no apoio dos pés do usuário medem a distância entre a cadeira e a possível barreira e levam a informação como estímulos vibrotáteis gerados por minimotores fixados ao pescoço do indivíduo. 

Amorim afirma que o projeto desenvolvido pelo grupo, que envolve três estudantes de graduação do ICT/Unifesp, Alexandre Loss Agra (Engenharia Biomédica), Bruno Sales (Engenharia Biomédica) e Mateus Franco (Engenharia da Computação), além de um pós-graduando da EPM/Unifesp, Damien Depannemaecker (PPG em Neurologia e Neurociências), pode ser facilmente adaptado para qualquer cadeira motorizada, pois ele opera de forma independente ao tipo de bateria ou características elétricas dos motores. “O sistema de resposta aos comandos também pode ser alterado de acordo com as necessidades ou preferências do usuário”.

A próxima etapa, de acordo com Faber, é integrar a detecção de imagens da pupila à identificação de padrões neurais, associados a intenções do usuário, por meio da captação de sinais eletroencefalográficos (EEG), em tempo real. Além disso, um novo sistema de detecção dos movimentos da pupila está sendo também incorporado por meio de uma parceria com François Jouen, professor da École Pratique des Hautes Études (Ephe), França. “Já estamos implementando um sistema de registro de sinais eletroencefalográficos que possibilita novos graus de liberdade, ou seja, fornece ao usuário novas funções, como ligar, desligar e efetuar outros comandos da cadeira ‘apenas com o pensamento’”, diz Faber. “Já começamos a testar algumas ferramentas computacionais para identificação desses padrões neurais com ótimos resultados”. 

Cadeira de PVC

Cadeira desenvolvida em PVC

Acessibilidade barata

No Brasil, assim como as próteses, as cadeiras de rodas não são disponibilizadas pelo SUS para crianças abaixo dos 12 anos. Com foco ainda nesse público, outro projeto, orientado por Maria Elizete Kunkel e Henrique Amorim, docentes do ICT/Unifesp, em parceria com a Universidade Federal do ABC (UFABC), visa o desenvolvimento de uma cadeira de rodas motorizada de baixo custo, para crianças de 3 a 9 anos de idade.

Confeccionada inteiramente com canos de plástico de policloreto de polivinila, o famoso PVC, a cadeira também é composta por artefatos de baixo custo, leves e resistentes, como motor de limpador de para-brisa de carro, catracas e coroas de bicicletas e baterias de nobreak de computadores.

A Cadeira de Rodas Infantil Automatizada (Cria), como está sendo chamado o projeto, é tema do mestrado do engenheiro biomédico Filipe Loyola Lopes na UFABC. O protótipo possui tecnologia passível de reprodução de acordo com o conceito do it yourself (DIY) – prática de fabricar ou reparar algo por conta própria – e foi desenvolvida com base no projeto americano Opendesign (design aberto) da Open Wheelchair Foundation, ONG que constrói cadeiras nesses mesmos moldes para crianças em necessidade. Já para o sistema de controle, foi utilizada a plataforma de desenvolvimento eletrônico Arduino e um joystick de videogame. 

Lopes explica que testes baseados em normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) ainda serão realizados no instituto para garantir que o produto desenvolvido ofereça a segurança necessária aos usuários.

De acordo com ele, outro aplicativo está em desenvolvimento. Com ele, a cadeira poderá ser controlada por meio do celular ou outros dispositivos móveis, utilizando a tecnologia de rede sem fio (Bluetooth). “No futuro, o controle poderá ser substituído por outros dispositivos de tecnologia assistiva, como capacete com acelerômetro, sensores de mercúrio ou sopro, entre outros”, afirma. 

“Dessa forma, o usuário terá mais autonomia, uma vez que poderá manejar a cadeira à distância e trazê-la para perto sem precisar de ajuda para realizar a própria transferência da cama para a cadeira, por exemplo”.

Outro projeto no qual Lopes também está envolvido, junto com Bruno Amarante, estudante do bacharelado em Ciência e Tecnologia do ICT/Unifesp, e Eliel Guimarães, fisioterapeuta voluntário, consiste na construção de um suporte automático usando a mesma plataforma eletrônica para que tetraplégicos acamados possam usar um tablet com uma ponteira de boca.

Artigo relacionado:

DEPANNEMAECKER, Damien T; AGRA, Alexandre L.; SALLES, Bruno A.; FRANCO, Mateus S.; JOUEN, François, AMORIM; Henrique A., FABER, Jean. Sistema de navegação para cadeirantes através do rastreamento do movimento ocular (eye-tracking). In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA BIOMÉDICA, 25., 2016, Foz do Iguaçu. Anais... Foz do Iguaçu: CBEB, 2016. p. 1478-1481. Disponível em: <http://cbeb.org.br/pt/anais-e-certificados >. Acesso em 30 mar. 2017.

Publicado em Edição 08
Segunda, 10 Julho 2017 09:43

Pesquisar com real autonomia

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

Imagem da reitora Soraya Smaili

A instituição universitária reflete os dilemas, contradições e correntes de opinião da sociedade na qual se insere, mas o faz de forma muito particular: ela não é apenas uma imagem especular de seu tempo – estática, muda e inexpressiva. Ao contrário, constitui um espaço de elaboração, experimentação, crítica e reflexão que a torna uma instituição indispensável ao desenvolvimento das ideias, das técnicas e da ciência. 

A universidade pública, na sua forma mais plena e realizada de funcionamento republicano, cumpre o papel de oferecer as possibilidades necessárias ao processo de elaboração do pensamento crítico e ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia em consonância com as demandas sociais. E pode fazê-lo por não ser acossada pelo ritmo de produção imposto pelo mercado, nem medir seu tempo por índices de produtividade e pelo lucro. 

Nesse sentido, a instituição pública de ensino superior opõe-se à “universidade de resultados”, subordinada à concepção segundo a qual o mercado é portador da racionalidade necessária e suficiente à organização da sociedade. Para a “universidade de resultados”, a lógica do mercado, não o interesse público, orienta o ensino, a pesquisa e a extensão. E é no setor de produção de pesquisas que o embate entre as duas concepções aparece de forma mais clara. A razão é bem simples e imediata: pesquisar para quem? Com que fim? Com qual financiamento? 

Para a “universidade de resultados”, trata-se de pesquisar em nome de interesses privados, com o objetivo de elevar a produtividade e gerar lucro, assegurando-se financiamento por meio de recursos privados e/ou públicos, sempre orientados para o mercado. Segundo essa concepção, a autonomia universitária reduz-se a um simples método de gerenciamento empresarial. “Produtividade” e “eficácia” são as palavras-chave.

A universidade pública acata uma lógica integralmente diversa. A instituição está vinculada ao Estado, ente responsável pela dotação de verbas e pelo estabelecimento de normas de funcionamento. Na medida em que os recursos advindos do Estado são oriundos da receita de impostos, a universidade pública deve submeter-se prioritariamente às demandas da sociedade. E justamente por isso sua existência é tão necessária: ela oferece a possibilidade de elaborar projetos de interesse público.

Para cumprir sua missão, a universidade pública deve, entretanto, afirmar-se como espaço autônomo, plural e democrático de construção do saber e da crítica, não subordinado à lógica do mercado, nem submetido aos jogos políticos e partidários daqueles que controlam e administram o Estado. Do ponto de vista da universidade pública, portanto, a autonomia universitária, longe de constituir um mero processo de gerenciamento de recursos, consiste na garantia de abertura ao livre embate das ideias como pressuposto da construção do saber. É a realização mais elevada da vocação que se atribui à instituição pública de ensino de nível superior.

Na Unifesp, defendemos uma concepção republicana de universidade pública. Para nós, o desenvolvimento de pesquisas voltadas à inovação tecnológica deve, como consequência, atender às demandas da sociedade e priorizar a melhoria das condições de vida dos setores mais necessitados da população. Às vezes conseguimos, outras vezes, nem tanto. Em qualquer hipótese, nunca perdemos de vista o princípio que nos norteia, e que fundamenta e justifica a nossa própria existência.

Publicado em Edição 08