Quarta, 12 Julho 2017 15:38

Edição 8 - Entreteses

capa edição 8 entreteses

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Julho 2017

O Brasil está anos luz atrás de outros países no quesito de patentes e inovação tecnológica. O país ocupa a penúltima posição no ranking de patentes válidas, de acordo com o relatório de 2014 da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (Ompi), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU). Nesse cenário caótico, é preciso investir cada vez mais em pesquisa, ciência e tecnologia em ambientes que constroem conhecimento e promovem o desenvolvimento social, como as universidades.

Na matéria de capa, é possível acompanhar uma pequena fração do que pesquisadores da Unifesp desenvolvem nas áreas de tecnologia e inovação, que poderão beneficiar não apenas a sociedade com produtos úteis, mas revolucionar a educação e a saúde e fazer girar a economia de todo um país.

Tomógrafo portátil que dispensa o uso de substâncias radioativas nos pacientes; desenvolvimento de bomba de insulina nacional mais barata à população; uso de tecnologia tridimensional para compreender as doenças cerebrais, reconstruir órgãos e tecidos, desenvolver órteses e próteses e ajudar a desvendar crimes; tecnologia assistiva, que resgata parte da independência de pessoas com mobilidade comprometida, são algumas das pesquisas desenvolvidas dentro da instituição que, neste ano, comemora 10 anos da inauguração do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp), em São José dos Campos, e 50 anos do curso de Ciências Biomédicas da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp).

Também nesse número, os leitores poderão entender os gargalos e as dificuldades enfrentados no processo de registro de patentes no Brasil a partir do artigo de Jair Ribeiro Chagas, professor da universidade e especialista nas áreas de Biotecnologia, Gestão da Inovação e Proteção Intelectual, além de entrarem no universo de familiares de dependentes químicos e de quem sofre de depressão. Vários outros temas importantes e que permeiam o nosso dia a dia, como poluição, saúde, comportamento e violência doméstica, recheiam as páginas dessa edição. Boa leitura!

Expediente

Editorial :: Inovar é preciso... viver (bem) também é preciso

Carta da reitora :: Pesquisar com real autonomia

Entrevista • Paulo Lemos :: Empresas juniores dão nova face ao empreendedorismo

Perfil • José Roberto Ferraro :: Um tal de Zé e um hospital

C&T :: Caminhos para a sustentabilidade

Educação :: Cinema invade a ciência

Educação :: Vamos jogar?

Saúde :: Tomógrafo portátil aprimora exame de doenças gastrintestinais

Saúde :: Bomba de insulina nacional facilitará controle do diabetes tipo 1

3D :: Nova técnica ajuda a compreender as doenças cerebrais

3D :: Tecnologia promete revolucionar diversas áreas, da Medicina à Criminologia

Tecnologia assistiva :: Autonomia com o piscar dos olhos

Descelularização :: Esperança para quem aguarda transplante

Inteligência artificial :: Modelo facilita processamento de dados

Cidades inteligentes :: Faça como as formigas

Meio ambiente :: Convênio viabiliza desenvolvimento de calçados sustentáveis

ICT :: Uma década de muita Ciência e Tecnologia

Patentes :: Inovação e proteção intelectual enfrentam "gargalos"

Genética :: Meio século de história

Saúde pública :: Doença fúngica infecta gatos e atinge humanos

Cabeça e pescoço :: Marcador ajuda a prever eficácia da resposta ao tratamento

Estresse prematuro :: Privação materna produz impactos no crescimento

Violência doméstica :: Brutalidade atinge 1 em cada 6 brasileiros

Luto mal resolvido :: Perda ambígua afeta família de dependente químico

Saúde mental :: Depressão é a maior causa de incapacitação no mundo

Leptina :: Sintomas de depressão podem estar associados à obesidade em adolescentes

Diversidade sexual :: Espelhos da alma

Mulher e trabalho :: Publicidade doura a pílula da condição feminina

Guarapiranga :: Em 15 anos, custo do tratamento da água é multiplicado por 7

Farmacologia :: Composto sintético ajuda a combater doenças negligenciadas

Poluição :: Desprezo a normas da OMS custa 5 mil vidas e R$ 15 bilhões ao ano

Publicado em Entreteses

Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni
Professora livre-docente do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), ocupou o cargo de pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa até abril de 2017 e foi membro dos Conselhos Científico e Editorial da revista até o fechamento desta edição

Ao parafrasear a célebre frase do general e cônsul romano Pompeu (106 - 48 a.C.), com a qual Fernando Pessoa iniciou seu famoso poema, convido o leitor a refletir sobre a necessidade de a universidade desenvolver projetos de inovação que de fato contribuam para o desenvolvimento social e para a melhoria da qualidade de vida. Sob a ótica da universidade, tais projetos podem ser uma excelente oportunidade para concretizar a integração do tripé no qual se apoia: ensino, pesquisa e extensão.

Estudantes podem desenvolver sua criatividade, e se motivar, ao perceber a aplicabilidade das teorias. Pesquisadores podem obter mais financiamentos para suas pesquisas, em geral fortemente limitados pela pouca disponibilidade de recursos públicos para este fim. Projetos sociais podem sair do papel e se tornar realidade. Projetos de inovação podem mostrar à sociedade a aplicabilidade dos projetos científicos desenvolvidos na universidade, com importantíssimos impactos intelectuais/culturais, econômicos e sociais, justificando o investimento dos recursos públicos.

Entretanto, é preciso cautela no estabelecimento de parcerias com empresas, garantindo que os acordos estabelecidos sejam vantajosos para ambos e não fujam da missão universitária. Os aspectos éticos envolvidos na proteção à propriedade intelectual e no registro de patentes, importantes aspectos nestes acordos, são abordados pela coordenação do Núcleo de Inovação e Tecnologia (NIT/Unifesp).

Propostas sobre como deveria funcionar o ecossistema, envolvendo empresas juniores e instituições sem fins lucrativos, são levantadas na entrevista com Paulo Lemos. Neste número são apresentados diversos projetos inovadores que podem contribuir de modo significativo para a melhoria no diagnóstico e tratamento do câncer, depressão, obesidade e outros problemas de saúde.

O desenvolvimento de bombas de insulina, próteses e órteses de baixo custo, como a mão mecânica produzida em uma impressora 3D, o uso de games e técnicas de realidade virtual para potencializar a aprendizagem e a decelularização que pode reduzir a taxa de rejeição de transplantes são alguns exemplos de inovação baseada na efetiva integração de pesquisadores das áreas tecnológicas e de saúde.

Mas não basta inovação tecnológica. É preciso inovar também as relações sociais para reduzir a violência doméstica, frequentemente associada ao uso de bebidas alcoólicas, assim como entender e aceitar com naturalidade a transexualidade, temas também abordados nesta edição.

Embora muitas vezes a aplicabilidade do conhecimento gerado na universidade não seja imediata, é sua função manter viva nas novas gerações a chama da curiosidade e do idealismo, estimulando-as na busca por soluções inovadoras, que nos conduzam a melhores condições de vida, com ética e justiça social.

Publicado em Edição 08
Imagem em preto e branco de um homem deitado, escondendo o rosto com as mãos, ao lado estão algumas cartelas de pílulas

Doença já afeta 5% da população mundial; Brasil é o “campeão” na América Latina

Da Redação
Com a colaboração de Gabriela Tornich

De acordo com informações divulgadas em abril deste ano pela Organização Mundial da Saúde (OMS), há no mundo mais de 300 milhões de indivíduos, de todas as faixas etárias, que sofrem de depressão. Na América Latina, o Brasil figura como o país com maior prevalência nesse tipo de transtorno mental. Em âmbito global, a depressão é a principal causa de incapacidade entre as doenças, enumerando-se entre seus sintomas a ansiedade, perda de interesse, falta de concentração, sensação de cansaço, distúrbios do sono e do apetite e oscilações entre sentimento de culpa e baixa autoestima. As barreiras ao tratamento médico devem-se especialmente à insuficiência de recursos, à ausência de profissionais habilitados, ao estigma social que atinge os portadores e ao diagnóstico incorreto. 

Estudo também conduzido pela OMS e publicado em abril de 2016 pela revista The Lancet Psychiatry revelou que a estimativa de custos envolvidos na ampliação do tratamento antidepressivo – por meio do aconselhamento psicológico e da necessária medicação – gira em torno de 147 bilhões de dólares, enquanto a melhora dos pacientes acrescenta mais de 300 bilhões de dólares à economia. O Atlas da Saúde Mental 2014, elaborado pela mesma agência, informa – por sua vez – que o gasto médio per capita em saúde mental é de US$ 1,53 nos países de baixa renda e de US$ 58,73 nos países de renda elevada.

Diante desse quadro, a psiquiatra Camila Tanabe Matsuzaka decidiu concentrar o foco de sua tese de doutorado na atenção primária aos transtornos depressivos. Por meio de um estudo randomizado controlado, a pesquisadora aplicou a técnica de aconselhamento interpessoal, versão adaptada da terapia clássica – específica do trabalho de psicoterapeutas –, que pode ser empregada por profissionais sem formação superior, em um menor número de sessões (geralmente em três ou quatro). O estudo serviu como teste para avaliar a eficácia da abordagem.

marcelo feijo

Marcelo Feijó de Mello, orientador do estudo

Sob a orientação de Marcelo Feijó de Mello, professor do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, a equipe de Camila treinou agentes comunitárias de saúde de uma unidade básica de saúde localizada no bairro de Sapopemba, na zona leste de São Paulo, para a aplicação dessa técnica. O grupo recebeu instruções para identificar sinais de depressão por meio de uma escala de rastreio, que verificava os sintomas e guiava as agentes sobre a necessidade de encaminhamento ao psicólogo da equipe de pesquisa, o qual comparava os indícios de suspeita com escalas e questionários mais rigorosos.

A escolha dos referidos profissionais de saúde foi planejada para que o cuidado com a saúde mental fosse mais bem aceito e a resistência à terapia, amenizada. Convém frisar que a capacitação de agentes comunitários e redistribuição de tarefas entre os profissionais de saúde vêm sendo estimuladas pela OMS. Os contextos de atendimento foram os mais diversos: muitas mulheres realizavam as sessões acompanhadas de filhos pequenos ou durante os serviços domésticos. Já os homens se mostraram menos flexíveis às orientações das agentes. “Desenvolvemos a capacitação para realizar o aconselhamento interpessoal de pacientes com depressão, que tinham filhos com problemas emocionais e comportamentais”, ressalta Feijó. 

No total, 86 moradores do bairro participaram das sessões, observando-se que a equipe de pesquisadores deslocou as agentes encarregadas de proceder ao aconselhamento para áreas diferentes daquelas em que normalmente atuavam para que suas funções não fossem confundidas. Registre-se que, nos bairros, os agentes de controle de saúde são normalmente distribuídos por territórios, responsabilizam-se pelo acompanhamento dos casos e estabelecem vínculos com os moradores.

O estudo foi fundamental para avaliar o atendimento oferecido pela rede pública no âmbito da saúde mental. Dados anteriores, veiculados em artigo de Gonçalves, Vieira e Delgado (2012) sobre a evolução dos gastos federais em saúde mental, revelam que nesse setor houve um crescimento total de 51% (de 1 bilhão para 1,5 bilhão de reais, em valores aproximados) entre 2001 e 2009. Nesse período, os investimentos extra-hospitalares (destinados inclusive aos centros de atendimento psicossocial) foram significativamente ampliados, enquanto os hospitalares sofreram considerável redução. Vale mencionar que os centros de atendimento psicossocial (Caps) constituem o símbolo da reforma psiquiátrica, movimento que buscou redefinir o modelo assistencial até então vigente para os portadores de transtornos mentais e que se transformou na Lei Federal nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Ocorre, entretanto, que tais centros – de acordo com a pesquisadora – não atendem à demanda relativa aos casos mais leves de depressão e ansiedade, que acabam negligenciados. “Ainda não existem ações psicoterápicas associadas à atenção primária. Quando existem, são baseadas em conhecimentos do século passado, em intervenções longas ou não estruturadas, sem evidência científica”, complementa o orientador. 

A principal conquista do projeto em questão está relacionada às mudanças na postura das agentes. Camila relatou que o retorno para as agentes comunitárias foi muito positivo, pois, além de se tornarem aptas a proceder adequadamente em casos de suspeita de depressão, desenvolveram um olhar mais sensível para a doença: “O legado antiestigmatizante permaneceu.”

Experiência internacional

Em 2013, em parceria com a Cruz Vermelha Internacional, a psiquiatra responsável treinou profissionais para aplicar a mesma técnica na República Democrática do Congo, embora não pudesse participar da supervisão de todo o processo de tratamento. No Brasil, entretanto, acompanhou de perto o desenvolvimento do projeto; os dados coletados em Sapopemba foram posteriormente utilizados para concluir o estudo durante seu doutorado-sanduíche na Universidade de Columbia, em Nova York, com a orientação de Milton Wainberg e colaboração de Myrna Weissman, criadora da terapia interpessoal. 

O plano agora é expandir o alcance do projeto. Feijó, Camila e sua equipe já participam de um estudo patrocinado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental, principal agência dos Estados Unidos nessa área, por meio do qual será aplicada a técnica de aconselhamento em Moçambique – cerca de 15 mil participantes deverão compor, no caso, a amostra selecionada. Em seguida, será necessário obter apoio do governo brasileiro para implementar ação semelhante em nosso país. “O objetivo do projeto é conseguir pensar em outras estratégias para aumentar o acesso ao tratamento”, declara a pesquisadora.

Foto de um grupo de agentes

Camila (terceira, de pé, da esquerda para a direita) e sua equipe com o grupo de agentes comunitárias em São Paulo

Agentes de saúde moçambique

Capacitação de agentes de saúde em Moçambique

Produção científica e artigos relacionados:

MATSUZAKA, Camila Tanabe. Capacitação de agentes comunitárias na aplicação de aconselhamento interpessoal para depressão: um estudo clínico randomizado controlado. 2016. 77 f. Tese (Doutorado em Psiquiatria e Psicologia Médica) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo.

LABOISSIÈRE, Paula. No Dia Mundial da Saúde, OMS alerta sobre depressão. Agência Brasil, Brasília, 7 abr. 2017. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-04/no-dia-mundial-da-saude-oms-alerta-sobre-depressao >. Acesso em: 13 abr. 2017.

LABOISSIÈRE, Paula. OMS: investir em tratamento para depressão gera retorno quatro vezes maior. Agência Brasil, Brasília, 13 abr. 2016. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2016-04/oms-investir-em-tratamento-para-depressao-gera-retorno-quatro-vezes >. Acesso em: 18 abr. 2017.

MENTAL Health Atlas 2014. Genebra: World Health Organization (WHO), 2015. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/178879/1/9789241565011_eng.pdf?ua=1&ua=1 >. Acesso em: 18 abr. 2017.

GONÇALVES, Renata Weber; VIEIRA, Fabíola Sulpino; DELGADO, Pedro Gabriel Godinho. Política de saúde mental no Brasil: evolução do gasto federal entre 2001 e 2009. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 46, n. 1, p. 51-58, fev. 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsp/v46n1/3113.pdf >. Acesso em: 2 maio 2017.

Publicado em Edição 08
Em uma mesa estão próteses de mão, equipamento de impressão, uma placa com a marca Unifesp e o texto impresso Mão 3D

Pesquisadores da Unifesp abrem caminhos cada vez mais amplos para o uso da técnica na produção de próteses e órteses, na regeneração de órgãos e no desvendamento de crimes

Ana Cristina Cocolo

Em um país onde 1,3% da população tem algum tipo de deficiência física e quase a metade deste total (46,8%) tem grau intenso ou muito intenso de limitações, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PSN) feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2013, uma iniciativa do Grupo de Pesquisa Biomecânica e Forense do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) promete revolucionar, no futuro, o mercado de órteses e próteses. 

Por não haver cobertura desses componentes por parte do Sistema Único de Saúde (SUS), um dos trabalhos desses pesquisadores está favorecendo principalmente crianças com amputações, traumas ou com deficiências físicas de nascença, já que as próteses para o público infantil são escassas, extremamente caras e precisam ser trocadas de acordo com a medida do desenvolvimento corporal. 

Desde 2014, Maria Elizete Kunkel, física e professora da disciplina de Biomecânica do curso de Engenharia Biomédica do instituto, dedica-se à tecnologia de impressão 3D de próteses de mão e vem não apenas aprimorando-as como ampliando seu uso para confecção de outros tipos de próteses e órteses.

O trabalho com próteses de mão desse grupo de pesquisa tem dado tão certo que virou um programa de extensão da Unifesp. Chamado Mao3D, o programa baseou-se em modelos estadunidenses da ONG E-Nable, que fabrica, distribui próteses de mão 3D e reabilita pacientes por todo o mundo, por meio de voluntariado. 

Além de bem mais leves que as convencionais, as próteses de mão 3D são reproduzidas e personalizadas de acordo com o corpo e tipo de amputação (parcial de mão ou de braço) e fixadas ao braço com velcro. O mecanismo também é simples e barato, pois não contém componentes eletrônicos – uma peça feita em uma impressora 3D de boa qualidade utiliza cerca de 300 gramas de filamento plástico e custa, em média, R$ 300. A abertura da mão artificial depende apenas do movimento do punho ou do cotovelo. “O processo é parecido com a ação dos tendões da mão”, afirma a pesquisadora. “Quando a criança dobra o punho ou o cotovelo, os dedos são flexionados pelos fios”. 

Para evitar que os objetos escorreguem, os pesquisadores acoplaram ponteiras de silicone às próteses. 

Super poderes

Para diminuir a rejeição da mão artificial entre as crianças, os pesquisadores passaram a fabricar as próteses em cores diferentes e fazer modelos que remetam aos super-heróis, como Hulk, Batmam, Homem-Aranha, Super-Homem, Mulher Maravilha, Capitão América, entre outros. “Dessa forma, o objeto, além de suprir uma deficiência, estimula a criatividade e o lúdico das crianças”, afirma a professora. “Psicologicamente, também ameniza sua condição pelo lúdico, quando passam a imaginar que as próteses os colocam como os super-heróis, com poderes especiais”.

A produção das próteses – realizada no laboratório de Biomecânica e Forense do ICT/Unifesp – começa com a criança sendo fotografada e a imagem projetada para que o programa do computador reconstrua seu corpo, possibilitando a criação do artefato proporcional e ajustado ao seu tamanho. A modelagem das peças é feita e fatiada por um software específico, cada parte, construída camada por camada pela impressora 3D, em material termoplástico biodegradável. Todo o processo leva, em média, 20 horas para ser finalizado, antes de ir para a fase de montagem.

Maria Elizete explica que a prótese só é funcional se o usuário passar por um bom programa de reabilitação e em crianças a partir da idade escolar. “Antes desse período as crianças não entendem a deficiência em si, apenas se veem como diferentes”. 

A primeira parceria aconteceu com o Centro de Reabilitação Lucy Montoro, em São José dos Campos. Além de prescrever o uso da prótese, o centro faz a triagem e prepara a criança com exercícios de fisioterapia para fortalecer e preparar a articulação do membro que vai utilizar-se da prótese. “Como é um projeto complexo, que necessita de um acompanhamento minucioso que envolve desde a aceitação da prótese pela criança e o comprometimento da família até o treinamento do terapeuta ocupacional para lidar com a prótese, poucas crianças estão inseridas no projeto”, afirma. “No entanto, outras parcerias estão sendo viabilizadas para atender menores de outras regiões do Estado”.

De acordo com ela, o grupo trabalha para ampliar o acesso às próteses. Para isso, está agregando voluntários e parceiros nessa empreitada. Recentemente, dois voluntários foram inseridos ao grupo: a terapeuta ocupacional Patricia Abe, para a reabilitação, e o podólogo Israel Toledo, que faz o acabamento interno da prótese para garantir mais conforto à peça, adaptando revestimentos similares aos utilizados em próteses e sapatos indicados às pessoas com pé diabético. Além disso, várias empresas e pessoas físicas têm colaborado com doação dos filamentos plásticos, de impressoras 3D e no envio de itens importados, como o velcro duplo e as ponteiras de dedos de silicone, utilizados na confecção de cada prótese.

Imagens de um menino usando próteses nas mãos e manipulando uma bola

Paciente em reabilitação para adaptação ao uso das próteses

Parcerias e projetos futuros

Vários estudos que envolvem a impressão e processamento de imagem em 3D estão em andamento e contam com parcerias com diferentes instituições de ensino, como a Universidade Federal do ABC (UFABC), a Universidade do Vale do Paraíba (Univap), o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Faculdade de Tecnologia (Fatec) e outros campi da Unifesp, como o Campus São Paulo, composto pela Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) e pela Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp), e o Campus Baixada Santista, que abriga o Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) e o Instituto do Mar (Imar/Unifesp). Há também colaboração de empresas instaladas dentro do Parque Tecnológico de São José dos Campos, onde o ICT/Unifesp está inserido, e futuramente haverá com hospitais da região que já mostraram interesse em participar dos testes com órteses e próteses. 

De acordo com a pesquisadora, um modelo de prótese de mão automática, mioelétrica, para indivíduos com amputações maiores, nas quais as articulações do cotovelo não estão presentes, também está sendo desenvolvido. O sistema mioelétrico funciona por meio de um complexo processo biomecânico, onde a prótese pode ser acionada a partir de sensores colados na musculatura do usuário. “A cada contração muscular se produz uma tensão elétrica que é enviada a um microprocessador responsável pelo controle dos movimentos da mão”, explica. Esse projeto que foi desenvolvido em um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Engenharia Biomédica da Unifesp será continuado na forma de um mestrado no ICT/Unifesp, sob a orientação de Maria Elizete. 

Entre outras propostas, ainda em fase inicial, estão a confecção de próteses de orelha em silicone, órteses articuladas para pés, talas personalizadas de imobilização e peças removíveis que podem substituir o gesso no tratamento de displasia de quadril – problema caracterizado pela instabilidade ou frouxidão da articulação do quadril ao nascimento e que necessita do uso temporário de um tipo de suspensório ou gesso para manter as pernas abertas em um ângulo de 90 graus. “Todos, a um custo muito baixo, com vários benefícios agregados. Alguns, no entanto, são inéditos, com alto potencial para gerar futuras patentes”. 

Maria Elizete afirma que a órtese de quadril que está sendo desenvolvida, além de ajudar a pele a transpirar, pois é porosa, pode evitar que a criança necessite de anestesia geral toda vez que precisar colocar ou tirar o gesso, minimizando os riscos, e, por ser bem mais leve, também facilitando a higiene do paciente. 

São muitas as iniciativas do Grupo de Pesquisa Biomecânica e Forense do ICT/Unifesp voltadas para a área da saúde. Tantas que um novo grupo multidisciplinar, chamado Med3D, foi criado, agregando vários docentes da EPM/Unifesp com interesse no desenvolvimento de dispositivos que poderiam ser utilizados em aulas de Anatomia – como órgãos artificiais (ossos, coração, pulmão, etc) para substituir peças cadavéricas –, órteses de silicone utilizadas para o procedimento de traqueostomia, entre outras. 

Maria elizete kunkel - ela está sentada e na mesa à sua frente estão dispostas várias próteses e outros impressos 3D

Maria Elizete Kunkel entre as próteses confeccionadas com tecnologia 3D e desenvolvidas por professores e estudantes do Grupo de Pesquisa Biomecânica e Forense do ICT/Unifesp

Três orelhas de silicone

Próteses de orelhas em silicone, fabricadas a partir de moldes com tecnologia 3D

Órgãos e tecidos

Desde 2008, o casal Silvio e Mônica Duailibi, docentes da EPM/Unifesp, trabalham com a tecnologia 3D. Uma de suas linhas de pesquisa é a produção de dentes, por meio de impressões tridimensionais. Essas novas estruturas são moldadas em biomateriais, com base na estrutura original captada por imagem computacional. As macroestruturas impressas recebem, então, células-tronco para reproduzirem-se até formar o novo dente. 

De acordo com Duailibi, o uso dessa tecnologia está bem consolidada e avançou muito com a possibilidade de impressão com material biológico, além dos biomateriais. “Atualmente há impressoras nas quais pode-se utilizar oito tipos de materiais diferentes, entre eles células e esferoides de células, que já são microtecidos tecidos”, afirma. “A nossa dificuldade, no entanto, ainda se encontra na interação biológica do órgão ou tecido construído com o organismo e impedir que haja rejeição ou proliferação desordenada das células que pode levar à formação de tumores”.

Atualmente, o casal – que também é pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biofabricação e membro das comissões de Estudo de Implantes e Substitutos Biológicos da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e de Produtos Médicos de Engenharia Tecidual (Temps) da Organização Internacional de Normalização (ISO) – trabalha com a perspectiva da impressão 3D totalmente biológica, ou seja, que constrói a macroestrutura do órgão por meio de tecidos, organizando a microgeometria celular (interação celular na formação de diversos órgãos e tecidos). 

Criminologia 

O Grupo de Pesquisa Biomecânica e Forense do ICT/Unifesp está iniciando um trabalho que usa a tecnologia 3D para ajudar a elucidar crimes e diminuir o número de processos que são arquivados por falta de provas. 

O projeto de pesquisa, financiado pelo Fundo Newton, do British Council, envolve sete docentes da Unifesp e investiga os Crimes de Maio de 2006, sendo fruto de uma colaboração institucional entre o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF/Unifesp) e o Centro Latino–Americano da Escola de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Oxford. Nele, uma das primeiras engenheiras biomédicas formadas na Unifesp, Thabata Ganga, usa softwares livres para reconstruir cenas de crimes a partir de imagens 3D, baseadas no laudo médico, no boletim de ocorrência e nos depoimentos das testemunhas para projetar em que condições o crime ocorreu. 

De acordo com Maria Elizete, pesquisadora do projeto, a iniciativa faz parte das ações de Justiça Translacional e Forense para estabelecer protocolos junto ao Estado para a análise post mortem de vítimas de projéteis. “Com os dados é possível verificar se a vítima estava em posição de defesa ou ataque, avaliar a entrada e a saída do projétil no corpo, entre outras informações que podem ajudar a desvendar em que situação ocorreu o delito”.

Produção científica relacionada:

MUNHOZ, Rodrigo; MORAES, Cícero André da Costa; TANAKA, Harki; KUNKEL, Maria Elizete. A digital approach for design and fabrication by rapid prototyping of orthosis for developmental dysplasia of the hip. Research on Biomedical Engineering, v. 32, n. 1, p. 63-73, mar. 2016. Disponível em:< http://www.scielo.br/pdf/reng/v32n1/2446-4740-reng-2446-474000316.pdf >. Acesso em: 02 maio 2017.

SOUZA, Felipe Granado de. Criação de uma base de dados de mãos e estaturas e obtenção de modelos de regressão em antropometria forense. 2016. 165f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Biomédica), Universidade Federal do ABC, Santo André, 2016.

GANGA, Thabata Alcântara Ferreira. Modelagem 3D, manufatura aditiva e análise computacional de uma prótese mioelétrica infantil de membro superior. 2016. 120f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Engenharia Biomédica) – Instituto de Ciência e Tecnologia, Universidade Federal de São Paulo, São José dos Campos, 2016.

KUNKEL, Maria Elizete; ARTIOLI, Bárbara Olivetti; GANGA, Thabata Alcântara Ferreira. FEM analysis of a myoelectrical upper limb prosthesis produced by additive manufacturing. In: ANNUAL INTERNATIONAL CONFERENCE OF THE IEEE ENGINEERING IN MEDICINE AND BIOLOGY SOCIETY, 38., 2016, Orlando. Proceendings… Orlando:EMBC, 2016.

Publicado em Edição 08
Imagem do tomográfo

Sistema de 36 canais - BAC

Nova tecnologia, desenvolvida por pesquisador do ICT/Unifesp, dispensa o uso de substâncias radioativas e salas blindadas, e tem custo mais acessível à rede pública

Mariane Santos

A área da saúde demanda equipamentos de alta tecnologia com uma boa relação custo-benefício. Em contrapartida, técnicas como a radiografia e a cintilografia – indicadas para a identificação de doenças e para estudar parâmetros do trato gastrintestinal – fazem uso de radiação ionizante ou materiais radioativos que, além de caros, podem ser nocivos à saúde, necessitam de pessoal com formação específica e espaço adaptado, limitando o uso a grandes hospitais e instituições de pesquisa. 

Fabiano Paixão

Fabiano Paixão, docente do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp)/Campus São José dos Campos

No entanto, um projeto inovador, desenvolvido por Fabiano Paixão, docente do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) - Campus São José dos Campos, promete revolucionar a área de diagnóstico por imagem. A nova tecnologia trata-se de um novo equipamento de tomografia, portátil e de baixo custo, que dispensa o uso de substâncias radioativas, como tecnécio, e salas blindadas, pois utiliza-se da aplicação de um campo magnético de baixa intensidade projetado sobre o órgão a ser analisado. Nesse caso, o contraste – substância introduzida no órgão para a realização do exame – administrado ao paciente é constituído por pó de ferro, sem contra-indicação, uma vez que não é absorvido pelo organismo. Quanto à infraestrutura, é necessário apenas uma sala de consultório.

O projeto de pesquisa, intitulado Uso de Tecnologias para Avaliações de Técnica Biomagnética: Tomógrafo Biomagnético, foi desenvolvido a partir da técnica de Biossusceptometria de Corrente Alternada (BCA) e obteve recursos pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) no valor de cerca de R$ 2,5 milhões.

A BCA (ou BAC, na sigla em inglês) é baseada em uma das propriedades magnéticas dos materiais, a susceptibilidade. A susceptibilidade magnética é uma constante que indica o grau de magnetização de um material em resposta a um campo magnético aplicado (M = χm H, onde M é a magnetização do material, H é o campo magnético aplicado e χm é susceptibilidade magnética). A BAC é composta por um par de bobinas de excitação magnética e por um par de sensores magnéticos ligados gradiometricamente, isto é, de maneira diferencial. Em seu princípio de funcionamento, a BAC aplica um campo magnético alternado, gerado por bobinas de excitação, e mede a resposta desse campo, que é originado pela presença do contraste magnético próximo a seus sensores. 

Uma vez que a detecção do sinal da BAC depende da distância entre o sensor e o contraste magnético, bem como da quantidade de contraste em uma região, as mudanças na sua posição e quantidade durante a contração e o relaxamento gástrico modulam o sinal medido pelos sensores magnéticos. Dessa forma, a contração gástrica e o trânsito gastrintestinal podem ser avaliados pela técnica de maneira segura e não invasiva.

De 1950 para cá...

Na literatura há indicativos de estudos sobre atividade gástrica em 1950 utilizando-se um magnetômetro e um pequeno marcador magnético para estudar a motilidade gástrica e o tempo de trânsito. Em 1977 desenvolveu-se a técnica Biosusceptometria de Corrente Alternada (BCA) para a medição da motilidade gástrica e o tempo de trânsito gastrintestinal utilizando o traçador magnético e muitas outras exposições para a aprimoração da técnica.

Paixão explica que na década de 1990 Oswaldo Baffa Filho, docente da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto, trabalhava no melhoramento dessa inovação e orientou outro pesquisador, José Ricardo de Arruda Miranda, atual professor da Unesp, no desenvolvimento da BCA.

“Em 1970 havia um aparelho rudimentar com baixa resolução. Em 1990 José Ricardo começou a desenvolver algo mais preciso e até mudou a estrutura desse equipamento, tornando-o mais sensível a ponto de estudar diferentes partes do trato gastrintestinal. De 1990 para cá eles vieram aperfeiçoando a tecnologia e, então, em 2002, 10 anos depois, eu entrei para contribuir com os estudos”.

imagem do equipamento

Sistema de 36 canais - BAC e equipamento para funcionamento

imagens de telas

Imagens magnéticas geradas pelo software

Tecnologia

O desempenho da nova tecnologia é baseado na resposta gerada pelo contraste (pó de ferro) quando excitado por um campo magnético, gerando um sinal que é medido por uma matriz de sensores que analisa a área desejada e adquire uma imagem magnética. Para isso, Paixão teve o desafio de adaptar vários parâmetros e peças do equipamento convencional de BAC.

Uma das ações foi substituir o sistema de aquisição do sinal que necessitava da utilização de amplificadores lock-in’s, com custo de 5 mil dólares, por uma estrutura eletrônica, com valor estimado em 80 reais. 

Os amplificadores lock-in’s tem a capacidade de extrair um sinal de um ambiente extremamente ruidoso. Dependendo do instrumento, os sinais até um milhão de vezes menores do que os componentes de ruído podem ser detectados de forma confiável. Para seu funcionamento, o amplificador lock-in aplica um sinal alternado e mede a resposta, travando (lock) sua medida na mesma frequência e fase do sinal aplicado. Essa tecnologia foi substituída por um sistema de canais compostos por sensores economicamente mais acessíveis e teve o pedido de patente depositado no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi).

Além disso, o pesquisador substituiu as bobinas de indução, utilizadas como sensores de fluxo magnético, por sensores magnetorresistivos. Criou-se, também, um projeto com quatro sensores para capturar uma imagem e, na sequência, desenvolveu-se um sistema de 36 canais para medir o trânsito gastrintestinal, que originou o sistema tomográfico. “Construí as estruturas eletrônicas para suporte e funcionamento dos sensores magnetorresistivos e obtive um sistema que captava um sinal muito mais localizado e com capacidade de captar um número maior de informações na mesma área de uma única bobina de indução. Consequentemente, foi possível obter uma imagem magnética.” 

Os sensores magnetorresistivos variam sua resistência elétrica conforme o campo magnético aplicado sobre eles. Esse tipo de sensor apresenta a vantagem de ser extremamente pequeno, quando comparado com as bobinas de indução, e apresenta sensibilidade compatível com a BAC. A pequena dimensão permitiu o desenvolvimento de uma matriz de sensores para a captura de imagens magnéticas com maior resolução espacial, que não poderia ser obtida com o uso das bobinas de indução.

O cientista esclarece ainda que o equipamento não faz imagens tomográficas do órgão, mas do contraste magnético, muito similar à tecnologia aplicada na Medicina Nuclear. 

Paixão explica que começou a estudar o sistema para uso médico em 2002, ainda na graduação, na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) – Campus Botucatu e que prosseguiu no doutorado direto. “A base da tecnologia foi desenvolvida em 2005, com a redução de custos e, a partir daí, a criação de um tomógrafo magnético”, afirma. “Basicamente, a tecnologia estava voltada para o trato gastrintestinal e, com o projeto que temos hoje, podemos aplicar para o rim e o coração, e futuramente para o câncer”.

O tomógrafo está em construção e a expectativa é que daqui a quatro anos esteja disponível no mercado.

As vantagens dessa técnica não estão relacionadas somente à área médica, mas também à veterinária, à farmacêutica (análise e distribuição de drogas in vivo - “drug delivery”) e à pesquisa científica que necessita de experimentos em animais.

Expansão do projeto

A empresa Siemens Healthineers, que corresponde à área de saúde gerida separadamente da Siemens AG, firmou, em novembro de 2016, um acordo de cooperação com a Unifesp, por meio do ICT/Unifesp, que dará apoio para o desenvolvimento do projeto de pesquisa de Paixão.

A empresa fará um investimento de cerca de R$ 8 milhões, que será utilizado na readequação do espaço físico de parte do ICT/Unifesp, bem como na instalação de equipamentos de diagnósticos clínico e por imagem. Os aparelhos serão utilizados para propiciar o desenvolvimento e validação do tomógrafo biomagnético e também poderão ser utilizados em outras pesquisas do professor. 

Imagem de ambiente vazio

Futuras instalações do Centro de Inovação de Engenharia Biomédica

Para a viabilização do projeto, a Unifesp fez um investimento de R$ 3 milhões, os quais foram utilizados na compra do prédio que abrigará o Centro de Inovação de Engenharia Biomédica. 

O termo de cooperação também contempla a cessão de materiais técnicos para o aprimoramento das aulas do curso de Engenharia Biomédica, o uso dos equipamentos nas aulas de graduação, parceria de estágio e o desenvolvimento em conjunto de cursos de especialização para os engenheiros e profissionais que atuam nas áreas da saúde relacionadas aos equipamentos. Os mesmos equipamentos também ficarão à disposição para agenda de treinamentos técnicos da equipe de engenheiros de serviço e os assessores científicos da Siemens.

Paixão ressalta a importância do acordo. “Acreditamos que essa parceria propiciará o desenvolvimento significativo do ensino, pesquisa e extensão, bases da universidade. Além disso, promoverá a aproximação do conhecimento acadêmico da instituição com o conhecimento tecnológico do setor produtivo”.

Artigo relacionado:

PAIXÃO, Fabiano C.; CORÁ, Luciana A.; AMÉRICO, Madileine F.; OLIVEIRA, Ricardo Brandt de; BAFFA, Oswaldo; MIRANDA, José Ricardo A. Development of an AMR-ACB array for gastrointestinal motility studies. Transactions on Biomedical Engineering, vol. 59, nº. 10, p. 2737-2743, out 2012. Disponível em: < http://ieeexplore.ieee.org/stamp/stamp.jsp?arnumber=6239579 >. Acesso em: 24 abr. 2017.

Publicado em Edição 08

Análise de proteínas presentes em vesículas extracelulares no plasma do paciente pode auxiliar na escolha do método mais adequado de ataque a tumores

Da Redação
Com colaboração de Gabriela Tornich

Imagem de dois frascos de soro

O câncer de cabeça e pescoço é o segundo mais frequente entre homens no Brasil, atrás somente do câncer de próstata, segundo dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca). Apesar de relativamente comum, o diagnóstico costuma ocorrer já em estados avançados da doença, quando as chances de cura diminuem em 50% e os métodos de tratamento mais comuns, cirurgia e radioterapia, são bastante agressivos. Diante desse cenário, o doutorando em Biologia Molecular Dorival Mendes Rodrigues Junior, sob orientação de André Vettore, professor do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/ Unifesp) – Campus Diadema, está utilizando uma técnica para prever a eficácia, por meio de marcadores moleculares, do tratamento da quimioterapia e radioterapia antes mesmo de realizá-las, evitando desgastes desnecessários ao organismo. 

Com parte do seu doutorado sanduíche, Rodrigues Junior estudou o processo de isolamento de vesículas extracelulares (VEs) do plasma, no Centro Nacional de Câncer de Cingapura (NCCS). No Brasil, Vettore orientou o projeto que analisou o conteúdo das vesículas extracelulares presentes no plasma de pacientes com carcinomas espinocelulares de cabeça e pescoço (CECP) – tipo mais comum de câncer de cabeça e pescoço. As amostras de plasma foram colhidas de pacientes submetidos à ressecção do tumor, sem qualquer tipo de tratamento prévio ou outras doenças associadas. 

A indicação do melhor método de tratamento é dificultada pelo fato de os diagnósticos geralmente ocorrerem em fases mais avançadas do tumor e por se tratar de uma neoplasia que frequentemente apresenta recidivas tumorais, que é o retorno da atividade da doença. A abordagem mais eficaz no tratamento dos CECPs envolve o uso de radioterapia e cirurgia, entretanto, as sequelas podem ser severas: o tratamento de tumores de boca, por exemplo, pode causar problemas de fala e deglutição. Por isso, muitos esforços têm sido empregados no uso de abordagens que visam à preservação de órgãos, baseadas em quimioterapia associada à radioterapia. Todavia, cerca de 30% dos pacientes tratados com este procedimento não respondem a esta abordagem e são submetidos a complexas cirurgias de resgate. Ainda não há meios de segregar os pacientes sensíveis e que responderão à quimio-radioterapia daqueles resistentes que não se beneficiarão desta abordagem terapêutica. 

O intuito desse estudo foi identificar potenciais marcadores presentes em VEs do plasma associados à efetividade do tratamento, e compreender a função biológica desempenhada pelas proteínas identificadas, por meio de ensaios com linhagens celulares de CECP sensíveis e resistentes a drogas quimioterápicas utilizadas no tratamento desse tipo de tumor. A inovação desse estudo foi utilizar as VEs para que a abundância de proteínas do plasma não ocultasse os marcadores interessantes e, assim, permitisse a identificação daqueles que pudessem ser úteis para a predição da resposta do organismo à terapia. 

As 38 amostras de casos de CECP avançados utilizadas na pesquisa foram cedidas pelo Hospital do Câncer de Barretos, pois as mesmas faziam parte de um estudo clínico em andamento naquela instituição e, por isso, estavam bem caracterizadas clinicamente. Cerca de 93% dos pacientes eram do sexo masculino, sendo a maioria tabagista (96,7%). A maioria dos tumores acometeu a orofaringe (53,3%) e o Papiloma Vírus (HPV) foi detectado em apenas 3% dos casos. 

Inicialmente, amostras do plasma de seis pacientes respondedores e de seis pacientes não respondedores à quimio-radioterapia foram analisadas por meio de ensaios de Antibody Array. Essa análise identificou cinco proteínas com níveis elevados de expressão (três nos pacientes que responderam ao tratamento e duas nos pacientes que não responderam) e foram as primeiras candidatas selecionadas para serem validadas na fase seguinte desse estudo que envolverá a avaliação do grupo total de pacientes.

Rodrigues Júnior explica que, além do nível de expressão observado nos ensaios, para a validação e continuidade do estudo, também tem sido considerado a possível função biológica do marcador no organismo. “Estudos sugerem que esse marcador parece regular a resposta à radioterapia como também modular a resistência celular a fármacos de drogas anticâncer”, afirma o pesquisador. 

Álcool e Tabaco, os grandes vilões 

A grande incidência do CECP está associada à maior expectativa de vida e ao consumo de álcool e tabaco. Segundo um estudo realizado pela área de oncologia clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), órgão ligado à Secretaria de Estado da Saúde, cerca de 95% dos pacientes portadores desse tipo de patologia são usuários de cigarro e de bebidas alcoólicas. O hábito de beber e fumar multiplica em até 20 vezes as chances de uma pessoa saudável desenvolver algum tipo de tumor de cabeça e pescoço, indica outro estudo divulgado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP).

Geralmente, o maior número de ocorrências verifica-se entre homens com idade acima de 50 anos. Mas, nos últimos anos, pessoas mais jovens estão sendo diagnosticadas com a doença e um dos principais agentes causadores é o Papiloma Vírus Humano, o HPV. Esse microrganismo está ocasionando infecções que facilitam a formação desses tumores. De acordo com estudos realizados pelo A. C. Camargo Cancer Center, há 10 anos o HPV representava 25% dos casos de câncer de amígdala, hoje em dia corresponde a 80% dos tumores. 

Estudo Premiado

Os dados preliminares desse estudo renderam aos pesquisadores o Prêmio de Inovação do Grupo Fleury (PIF), em 2016, que reconhece os trabalhos científicos empreendedores e estimula parcerias. 

O pesquisador premiado participou de uma vivência no Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento do Grupo Fleury por duas semanas e pôde compreender o potencial de entrada de sua produção no mercado. Ele comentou que na academia muitas vezes não é possível ter a dimensão do avanço de uma criação e expressou um desafio enfrentado por pesquisadores: “Como transformar a nossa descoberta em uma inovação de fato?”. 

Em 2015, Vettore orientou um dos trabalhos vencedores desse mesmo prêmio, a tese de Ana Carolina de Carvalho, com o título Avaliação do Perfil de Expressão de MicroRNAs (miRNAs) como Marcador de Diagnóstico de Metástases Cervicais em Pacientes com Carcinoma Epidermoide de Cabeça e Pescoço, que trouxe novas possibilidades aos diagnósticos de metástases em linfonodos de pacientes que sofrem com esse câncer.

Julho Verde contra o câncer de cabeça e pescoço

laço verde

Em 2014, uma sessão do congresso mundial da Federação Internacional das Sociedades Oncológicas de Cabeça e Pescoço escolheu 27 de julho como o Dia Mundial de combate à doença. A medida, acatada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP), reforça a estratégia prevista pela Portaria 874 de 16 de maio de 2013, do Ministério da Saúde, que instituiu a Política Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer na Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

A Portaria considera a importância epidemiológica do câncer, coloca a doença como um problema de saúde pública e propõe reduzir a mortalidade e a incapacidade causadas pela patologia, por intermédio de ações de promoção à saúde e detecção precoce para diminuir a incidência da enfermidade.

Fique atento aos sintomas:

  • Lesões na cavidade oral ou nos lábios que não cicatrizam por mais de 15 dias
  • Manchas, placas vermelhas ou esbranquiçadas na língua, gengivas, céu da boca e bochechas
  • Nódulos (caroços) no pescoço
  • Rouquidão persistente
  • Dificuldade na mastigação e na deglutição
  • Dificuldade na fala
  • Sensação de que há algo preso na garganta

Principais fatores de risco:

  • HPV: Está associado a alguns tipos de cânceres de cabeça e pescoço, como o de orofaringe (amígdalas ou base da língua) 
  • Cigarro: Fumantes tem mais chances de desenvolver o problema
  • Álcool: Mais de três unidades para homens e duas para mulheres por dia aumentam o risco da doença (cada unidade de álcool corresponde a cerca de meia lata de cerveja, um cálice de vinho ou meia dose de destilado)
Publicado em Edição 08
Uma quarto vazio

Pesquisa analisa as tensões causadas por um ente querido adicto de drogas

Da Redação
Colaborou Marianna Rosalles

O conceito de perda ambígua é o foco de interesse de Celina Daspett, membro do Grupo de Estudo e Pesquisa Família e Comunidade (Gepfac) da Unifesp. Foi criado pela doutora estadunidense Pauline Boss e designa o sentimento decorrente de uma situação na qual um ente querido está fisicamente e/ou psicologicamente ausente. A perda não é concretizada ou confirmada, o que dificulta o processo de luto de um ou mais membros da família. Em outros termos, o luto não é realizado, prolonga-se indefinidamente e pode comprometer a saúde mental dessas pessoas.

Celina é graduada em Psicologia pela Universidade de Guarulhos, mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e doutora em Ciências, com tese defendida na Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp), orientada por Ana Lúcia Horta. A pesquisadora relata que o conceito despertou seu interesse após duas décadas de estudos sobre luto.

Crianças sequestradas, desaparecidos políticos e portadores de Alzheimer são os casos mais comuns de perda ambígua na literatura. Visto a lacuna nos estudos realizados sobre familiares de adictos de drogas, Celina adotou a ausência do dependente de narcóticos como enfoque da tese. A intenção era descobrir “quais as vivências, quais as crenças, quais os valores que estão intrínsecos a essa relação e principalmente quais foram as estratégias de enfrentamento que as famílias encontraram para lidar com essa situação”, complementa a pesquisadora.

Para a metodologia da pesquisa, Celina optou por entrevistas com sete famílias que relataram suas experiências. A escolha da forma oral como registro se deu de modo a ter uma ideia de contexto, de processo e de como as comunicações e relacionamentos estavam presentes no núcleo de cada casa.

O maior obstáculo da pesquisa foi chegar até as famílias. Frente à dificuldade de coletar dados na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, os acessos às famílias se deram por meio de instituições que cuidam de dependentes químicos e unidade básica de saúde, que ajudaram na busca dos familiares para a realização das entrevistas. Os participantes estavam bastante apreensivos. Em decorrência dos traumas que viveram, muitas vezes tinham vergonha de suas histórias e medo de julgamentos. Além disso, era frequente que essas pessoas não se sentissem merecedoras de ajuda e tratamento.

O aspecto em comum entre as famílias, constatado a partir desses encontros, foi a angústia de viver um problema que, aparentemente, não tem solução. Há um desgaste dos familiares a cada nova tentativa de internação e de criação de estratégias para fazer o dependente se recuperar, o que em muitos casos não dá certo. Ao mesmo tempo, dentro da própria ambiguidade, há uma esperança que os motiva a não desistir e a alimentar uma expectativa de que a qualquer momento seu ente querido venha a aceitar algum tipo de tratamento e consiga sair da dependência.

Quando um de seus membros é um dependente químico, a família é afetada de todas as formas possíveis. A questão dos papéis familiares fica muito abalada, seja por uma aproximação, por um cuidado excessivo ou até mesmo pelo contrário, a negligência dos pais. A turbulência gerada pelo adicto impacta toda a dinâmica dos que o cercam.

A pesquisadora afirma que foi possível verificar, nas casas das famílias, o vazio revelado pela ausência de bens materiais que pertenciam aos entes queridos. Nas paredes do domicílio era comum ver buracos nas estantes de objetos que foram trocados por drogas entre as idas e vindas do dependente à casa. A mobília era reflexo da história daquelas pessoas e expressava seu vazio emocional.

Uma outra constatação da pesquisa foi a negligência no cuidado com essas famílias. Há uma falta de apoio. Segundo Celina, era constante nas histórias contadas pelos entrevistados a dificuldade de não ter com quem falar, como falar, de não ter um espaço para criar estratégias para enfrentar o problema. A reincidência desse sentimento nos depoimentos comprova a relevância do estudo e a necessidade de criar oportunidades para que essas pessoas tenham um espaço de fala e de troca.

Celina afirma que as políticas públicas ainda são insuficientes, por focarem apenas no indivíduo. “Essa pessoa não vive só, ela tem um contexto familiar, ela tem um contexto social e isso tem que ser olhado de uma forma ampla. Às vezes a questão da droga é transgeracional; há um comportamento da dependência se repetindo na família com substâncias diferentes”, afirma. E ressalta que o conhecimento, por si só, embora necessário, não muda o comportamento. Os usuários, não raro, se sentem no controle e acham que a qualquer momento podem parar de utilizar os narcóticos.

A pesquisadora aponta que o tipo de assistência que pode ser dada à família no contexto da perda ambígua de modo a amenizar ou trabalhar esse processo estressante é justamente dar voz a essas pessoas e legitimar o seu sofrimento. “A partir do momento em que elas se sentirem acolhidas e contidas na dor, isso vai facilitar na busca de estratégias para lidar com isso. Não somos nós que vamos dar, mas podemos oferecer condições para que eles criem possibilidades de enfrentar esses problemas”, finaliza.

Tese relacionada:
DASPETT, Celina. Perda ambígua na família desenvolvida a partir da ausência do dependente químico. 2016. 113 f. Tese (Doutorado em Ciências) - Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2016.

Publicado em Edição 08
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Primeiro prédio que abrigou o ICT/Unifesp na Vila Nair

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Segunda unidade do instituto no terreno da Vila Nair, construída para abrigar mais salas de aulas

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Entrada da sede definitiva do ICT/Unifesp no Parque Tecnológico da cidade

Entreteses p065 ICTd

O novo edifício possui cinco pavimentos que abrigam 18 laboratórios, 20 salas de aulas, auditório, biblioteca e restaurante universitário

Fonte: ICT/Unifesp

Há 10 anos nascia o Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) – Campus São José dos Campos, no Vale do Paraíba, região caracterizada pela evidente vocação científica e tecnológica. 

O campus começou em 2007 no Parque Tecnológico. Em 2008 foi para a Vila Nair e, em 2014, teve a inauguração da sede definitiva no Parque Tecnológico. As atividades acadêmicas iniciaram com a implantação do curso de graduação em Ciência da Computação, no ano em que a Unifesp começou a atuar na cidade. Em 2009, foi criado o curso de Matemática Computacional. Em 2011 foi introduzido o Bacharelado em Ciência e Tecnologia (BCT), um projeto pedagógico interdisciplinar, sendo facultado aos alunos optar, após a sua conclusão, pela continuidade de estudos. 

O ingresso na instituição passou a ser unicamente por meio do BCT em 2013, com a opção dos seguintes cursos de formação específica: Biotecnologia, Ciência da Computação, Engenharia Biomédica, Engenharia de Computação, Engenharia de Materiais e Matemática Computacional.

O campus no Parque Tecnológico da cidade fica no terreno doado à Unifesp pela prefeitura da cidade. Nele foi construído um prédio com estrutura para atender às atividades de graduação, o qual possui cinco pavimentos, 18 laboratórios, 20 salas de aula, auditório com 300 lugares, biblioteca com aproximadamente 11.780 volumes e 2.470 títulos, e restaurante universitário com capacidade para servir 1.200 refeições ao dia. 

A localização estratégica facilita o contato de alunos e docentes com centros de pesquisa e desenvolvimento de grandes empresas, além da possibilidade de colaboração com outras universidades voltadas à inovação tecnológica, no complexo do parque. 

Na mesma área do campus planeja-se a edificação de outro prédio, para o desenvolvimento de pesquisa e pós-graduação, atividades atualmente desenvolvidas nas instalações da Vila Nair, que contribuirá para a consolidação do instituto como um centro de excelência em pesquisa, ensino e extensão. 

O ICT/Unifesp oferece oito programas de pós-graduação: Biotecnologia (Mestrado e Doutorado), Ciência da Computação (Mestrado e Doutorado), Engenharia Biomédica (Mestrado), Engenharia e Ciência de Materiais (Mestrado e Doutorado), Matemática Aplicada (Mestrado), Mestrado Profissional Interdisciplinar em Inovação Tecnológica, Mestrado Profissional em Matemática, Pesquisa Operacional (Mestrado e Doutorado).

Na área de Extensão, o ICT/Unifesp é responsável por 11 programas e 12 projetos. 

Hoje o instituto conta com aproximadamente 1.550 alunos de graduação, 200 de pós-graduação, 94 docentes e 62 técnicos administrativos em suas duas unidades – Parque Tecnológico e Vila Nair.

Publicado em Edição 08
Imagem mostra rede de vazos do cerebelo

Vasos do cerebelo visualizados em 3D pela nova técnica

Uso de tinta nanquim e gelatina proporciona imagem tridimensional e em alta resolução dos vasos sanguíneos

Daniel Patini

Gerar imagens de alta resolução em 3D, por meio de um método simples, barato e acessível a grande parte dos laboratórios no mundo, que possibilite examinar e quantificar os vasos sanguíneos do cérebro. Foi com esse objetivo que pesquisadores da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo e da Universidade de Surrey, no Reino Unido, desenvolveram uma técnica inovadora cujos resultados foram publicados no Journal of Anatomy.

“Essa nova técnica de dissolver tinta nanquim (China ink) em gelatina, injetar a mistura nos vasos cerebrais e, em seguida, mergulhar o cérebro em soluções que o tornem transparente tem a vantagem de proporcionar alta resolução de imagem, ser facilmente executada e utilizar materiais acessíveis e de baixo custo. O processo de preparação do material também é bastante rápido, levando cerca de 24 horas”, explica o pesquisador responsável Robson Campos Gutierre, que realiza o pós-doutorado no Departamento de Neurologia e Neurocirurgia, sob a orientação de Ricardo Arida, docente do Departamento de Fisiologia.

O trabalho possibilitará que cientistas examinem a circulação sanguínea no cérebro, compreendam com maior clareza como ela funciona e investiguem como doenças cerebrais – demência, câncer, epilepsia e derrame, por exemplo – podem afetar o sistema vascular desse órgão. Atualmente, as técnicas para obtenção de imagens de vasos sanguíneos em cérebros tornados transparentes são de difícil execução e dependem do uso de anticorpos e proteínas fluorescentes, que têm alto custo.

Apesar de os experimentos terem sido realizados com animais eutanasiados após anestesia, os dados obtidos poderiam ser potencialmente aplicados em seres humanos, auxiliando no desenvolvimento de terapias para doenças neurodegenerativas e de medicamentos para tumores, o que reduziria o número de mortes decorrentes de várias patologias cerebrais. "Outra vantagem é a possibilidade de obter imagens de estruturas cerebrais ao microscópio, sem prévios cortes em equipamentos mecânicos, pois os cortes são ópticos, digitalizados, e um programa de computador encarrega-se de montar a imagem em 3D ", relata Gutierre, que já estuda patentear uma nova lâmina histológica que desenvolveu para a técnica em questão.

Com o uso de um microscópio confocal a laser, que “varre” as amostras em diferentes planos e monta uma imagem em 3D, essa técnica torna os vasos sanguíneos visíveis, permitindo aos cientistas e patologistas realizarem – com o auxílio de um software – a leitura precisa de seu número, comprimento e área de superfície. Além disso, possibilita a utilização das imagens tridimensionais, que podem ajudar a identificar mudanças quantitativas, consideradas indicadores-chave de uma série de doenças relacionadas à circulação sanguínea no cérebro.

Outras finalidades

O procedimento também poderá ser aplicado em biópsias de tecidos animal e humano e em exames post-mortem, facilitando aos patologistas a determinação das causas de morte e a identificação rápida de alterações na circulação cerebral, tais como a formação de coágulos ou tumores.

Além disso, esse método inovador poderá trazer maior compreensão sobre como o exercício físico afeta o cérebro. Haverá a possibilidade de os cientistas analisarem – no campo cerebral – os efeitos circulatórios decorrentes do aumento ou diminuição da frequência cardíaca, a pressão arterial e a criação de novos vasos, a chamada angiogênese. Este último processo desempenha, inclusive, um importante papel sob determinadas condições fisiológicas e patológicas de nosso organismo, tornando essenciais novos métodos de visualização da microvasculatura.

Coautor do estudo, Augusto Coppi, médico veterinário, anatomista veterinário e especialista em estereologia da Escola de Medicina Veterinária da Universidade de Surrey, explica que ainda há uma lacuna na compreensão humana sobre a circulação sanguínea no cérebro, que é um órgão fascinante.

“Anteriormente, fomos incapazes de fazer uma amostragem completa e realizar a quantificação acurada dos vasos sanguíneos do cérebro em 3D, pois simplesmente não conseguíamos ver todos os vasos devido a seu tamanho minúsculo e, às vezes, devido à sua distribuição espacial irregular”, observa.

Juntamente com Gutierre, Arida e Coppi, assinam ainda o estudo Renato Mortara, professor titular da disciplina de Parasitologia, do Departamento de Microbiologia, Imunobiologia e Parasitologia, e Diego Vannucci Campos, doutor em Neurociências pela Unifesp.

Artigo relacionado:

GUTIERRE, R. C.; CAMPOS, D. Vannucci; MORTARA, R. A.; COPPI, A. A.; ARIDA, R. M. Reflection imaging of China ink-perfused brain vasculature using confocal laser-scanning microscopy after clarification of brain tissue by the Spalteholz method. Journal of Anatomy, [s. l.], v. 230, n. 4, p. 601-606, 5 jan. 2017. Disponível em: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/joa.12578/full >. Acesso em: 16 mar. 2017.

Publicado em Edição 08

Experiências na infância reforçam padrões agressivos que se manifestam nas práticas de adultos

Valquíria Carnaúba

Imagem de um casal brigando, o homem esconde a cabeça com as mãos e a mulher está gritando com ele

Os números impressionam: 16,6% dos brasileiros já foram vítimas de violência doméstica; 13% já testemunharam agressões entre seus pais durante a infância e, desses, quase 60% foram vítimas de violência física direta, quando crianças, dentro de suas próprias casas. Essas são as principais conclusões de um recente estudo produzido por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Psicologia Médica da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp).

Como parte de seu pós-doutorado, orientado por Ronaldo Laranjeira, professor do Departamento de Psiquiatria, Clarice Sandi Madruga debruçou-se sobre uma questão contemporânea de extrema relevância: as possíveis causas das altas taxas de violência doméstica no Brasil. Considerando dados do 2° Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), eles avaliaram a relação entre consumo de entorpecentes, contato com violência doméstica durante a infância e o envolvimento futuro em relacionamentos pautados pela violência.

Foram coletados dados sobre exposição à violência na infância e experiências de agressão pelos pares de 4.607 pessoas com idade igual ou superior a 14 anos. Considerando a amostra estudada, os autores do artigo concluíram que, independentemente do indivíduo ter sido vítima de violência na infância, só o fato de testemunhar agressões entre os pais ou cuidadores aumenta as chances de se envolver em relacionamentos abusivos na vida adulta. O modelo de transmissão entre gerações, segundo os autores, foi o escolhido para explicar a questão. 

Os altíssimos índices de violência na infância detectados pelo levantamento e a gravidade das consequências mostram a importância da elaboração de estratégias de prevenção para quem realmente precisa: as vítimas de experiências adversas prematuras. “Testemunhar agressões físicas dentro da família pode ser tão prejudicial para as crianças quanto sofrer a violência, e ambos estão associados com transtornos de humor e consumo de drogas. “Tanto o consumo de cocaína quanto de álcool são parte desta trajetória, que vai do testemunho da violência em casa até a experiência de ser vítima de violência doméstica na vida adulta”, afirma Clarice. 

Violência abrange relacionamentos íntimos

A violência entre parceiros íntimos é um dos principais problemas de saúde pública em todo o mundo, principalmente nos países em desenvolvimento, com taxas globais que variam de 15% no Japão a 71% na Etiópia. Estima-se que mais de um terço das mulheres tenham experimentado tanto a violência do parceiro íntimo com a violência sexual de não parceiro. 

Dada a dimensão do problema, a estudante Elizabeth Ally, sob a supervisão da orientadora do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Psicologia Médica, Clarice Madruga, comparou dados compreendidos entre os anos de 2006 (promulgação da lei Maria da Penha) e 2012. Ambas analisaram as taxas de violência entre parceiros e investigaram sua relação com o perfil sociodemográfico e o uso de substâncias (com dados do Lenad).

Aos entrevistados do 1º Lenad (2006) e 2º Lenad (2012) foram feitas nove perguntas sobre a ocorrência de diferentes tipos de comportamentos violentos nos últimos 12 meses, incluindo violência leve (jogar alguma coisa, empurrar, agarrar, estapear) e violência grave (chutar, morder, bater, tentar acertar com alguma coisa, queimar ou jogar água quente, forçar ao sexo, ameaçar com uma faca ou arma, usar uma faca ou arma). Inicialmente os entrevistados foram questionados sobre serem ou não autores desses atos contra seu(sua) parceiro(a) e, em seguida, foram solicitados a relatar se seu(sua) parceiro(a) tinha cometido esses mesmos atos contra eles.

Mulher hoje agride mais

O número de mulheres vítimas de violência doméstica reduziu quase 30% desde 2006, passando de 8,8% para 6,3% da população brasileira. Já em relacionamentos onde os homens são as vítimas de violência, houve uma redução menor, de 22%, no percentual de mulheres que atuam como agressoras (7,7% para 6%). 

Quanto à autoria, o período revelou uma pequena diferença entre os sexos: o número de mulheres que perpetraram violência em relação ao homem foi de 12%, enquanto que o de homens que praticaram o mesmo foi de 9,2%. Comparadas aos homens, as mulheres também apresentaram taxas mais altas de prática de agressões em relacionamentos marcados pela violência mútua (3,3% entre as mulheres e 2,6% entre os homens).

De modo geral, não foi possível estabelecer uma associação significativa entre gênero e perfil socioeconômico. Os homens mais velhos e escolarizados foram os menos propensos a efetuar violência; no caso das mulheres, a idade avançada também coincidiu com menores chances de praticar agressões. Entretanto, chama a atenção a diminuição da vitimização acentuada entre a classe C (11,3% em 2006 para 7,8% em 2012) e da perpetração entre homens e participantes de classe média baixa, com apenas o ensino médio completo.

A relação entre o consumo de substâncias e violência foi expressiva, especialmente entre os homens que praticam as agressões: cerca de 45% dos participantes com esse perfil foram identificados como bebedores compulsivos. Entre os enquadrados na violência bidirecional, metade da amostra apresenta consumo excessivo de álcool. “A violência mútua, nesse caso, mais do que duplicou as chances de beber em demasia”, explica Clarice.

Os resultados revelam, de modo geral, a diminuição da vitimização da mulher em relacionamentos marcados pelo abuso. Para a pesquisadora da Unifesp, o fenômeno sugere que a lei Maria da Penha pode ter tido um impacto positivo ao promover uma redução da violência contra as mulheres no Brasil. Porém, conforme alerta Clarice, as taxas de perpetração ainda são altas entre elas, mostrando a necessidade de campanhas de prevenção que busquem o combate à violência doméstica de forma geral, não se limitando a especificidades de gênero. 

“Em relacionamentos marcados pela agressão mútua, o revide de mulheres atacadas pelo parceiro pode explicar as altas taxas de perpetração de violência entre o gênero. Além disso, é possível afirmar que o uso de substâncias é fortemente associado à violência bidirecional, evidenciando o quanto estratégias de combate ao uso de substâncias podem, por tabela, diminuir casos de violência doméstica", pondera a pesquisadora. 

Outro ponto de relevância, segundo Elizabeth, foi a prevalência da vitimização em relacionamentos abusivos entre as camadas mais jovens e menos escolarizadas da população, o que pode indicar que as iniciativas de prevenção tiveram menos impacto nesse setor da sociedade. 

As autoras reforçam que iniciativas de prevenção precisam ser amplificadas para ambos os gêneros e buscar extinguir a violência doméstica como um todo, envolva ela crianças ou parceiros íntimos. “O conhecimento da magnitude da violência entre parceiros no Brasil e os fatores associados a esse problema devem contribuir para o desenvolvimento de intervenções mais eficazes. É fundamental que se comece a implementar medidas tanto de prevenção quanto de assistência às vítimas de violência doméstica no país, sem deixar de lado a ampliação da discussão sobre a igualdade de gênero", finalizam as pesquisadoras.

A vida como ela é

Reproduzimos, em seguida, dois depoimentos de vítimas de agressão doméstica, uma mulher e um homem, praticada pelos respectivos cônjuges. Os nomes foram preservados.

Depoimento de F.
Ex-companheiro: J.

Fui casada com J., que em alguns momentos já foi agressivo comigo. Nos divorciamos e, tempos depois, voltamos a namorar, mas as coisas não caminharam bem novamente e terminamos de vez. Mais à frente, comecei a namorar outra pessoa, até então escondida, com medo de retaliações. Mesmo assim, J. descobriu e passou a me perturbar de todas as maneiras: mensagens por celular, e-mail, telefone pessoal e corporativo, e até pessoalmente em meu trabalho.

Quando ele bloqueou meu celular e invadiu meu e-mail, descobrindo que eu moraria junto com meu novo parceiro, tudo piorou: todos os contatos passaram a ser em tons de ameaça física explícita, envolvendo meu namorado, que também recebia mensagens e ligações com informações que tentavam denegrir minha imagem e de minha família perante ele. E os textos de ameaça eram do tipo “vou quebrar todos os ossos”, “vou mandar seu namoradinho ao hospital”, “vou aí na sua casa pegar vocês”, e outras piores.

Tudo só se resolveu quando decidimos registrar um Boletim de Ocorrência de ameaça, juntando todas as mensagens e e-mails recebidos até então. A polícia ouviu as partes, julgou a denúncia procedente e encaminhou ao Ministério Público, que resolveu processar J. Após a audiência preliminar, foi celebrada, então, uma transação penal e, depois disso, nunca mais J. nos procurou.

 

Depoimento de L. 
ex-companheira: S.

Namorei S. por cinco anos, entre 2009 e 2014. Ela tinha dois filhos anteriores ao nosso relacionamento: um de três anos (que mora com ela) e o outro de 14, que mora com a avó. Quando passamos a morar juntos, comecei a perceber que ela sempre estava muito nervosa, irritada e implicante. Desde o início, ela usava o filho mais novo para me convencer a fazer coisas que eu não concordava ideológica e moralmente. Ao passo que procurava dar uma vida digna a eles, S. mudou de emprego sete vezes no prazo de cinco anos.

Certa vez, tivemos uma briga à noite que durou até o outro dia. Sem a menor razão, ela tentou me agredir com tapas e eu a segurei nos pulsos tentando acalmá-la, sem sucesso. Ela me acusava de trair, enganar e tudo o mais. Foram centenas (sem exagero) de brigas com total falta de respeito e educação. Por causa dessas brigas, desde então, passei a chegar atrasado no trabalho com grande frequência.

Minha própria família questionou o motivo pelo qual permanecia no relacionamento e chegamos à conclusão de que o motivo central dessa permanência era o amor pelo filho dela. Ciente disso, decidi conversar com ela sobre a separação definitiva no dia 22 de julho de 2014. Resultou em uma discussão que durou das 19h às 5h do dia seguinte. Durante esse desentendimento, que ocorreu na frente do filho dela, S. bateu nele, jogou todas as minhas roupas na sala e quebrou móveis. 

Saí de casa, fui morar com minha irmã, e aluguei outra casa menor para S. e seu filho durante três meses. Ela passou a me seguir perto do trabalho e a fazer ronda na porta da casa da minha irmã, da minha tia e dos meus amigos. Pedia dinheiro para meu pai, meus amigos e minha família, no intuito de me acusar de não fornecer assistência a ela. 

Quando, pela última vez, tentei por fim no impasse por meio de uma conversa em uma lanchonete, ao sairmos de lá fui surpreendido no estacionamento: ela avançou com o carro, junto ao seu filho, na tentativa de me atropelar. Não hesitei em ligar para a polícia e registrar um Boletim de Ocorrência. Desde então, tenho procurado manter distância e me manter no anonimato em relação a ela.

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ALLY, Elizabeth Z.; LARANJEIRA, Ronaldo; VIANA, Maria C.; PINSKY, Ilana; CAETANO, Raul; MITSUHIRO, Sandro; MADRUGA, Clarice S. (2016). Intimate partner violence trends in Brazil: data from two waves of the Brazilian National Alcohol and Drugs Survey. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 38, n. 2, p.98-105, 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbp/v38n2/1516-4446-rbp-38-02-00098.pdf >. Acesso em: 27 mar. 2017.

MADRUGA, Clarice S.; VIANA, Maria Carmen; ABDALLA, Renata Rigacci; CAETANO, Raul; LARANJEIRA, Ronaldo. Pathways from witnessing parental violence during childhood to involvement in intimate partner violence in adult life: The roles of depression and substance use. Drug Alcohol Review, v. 36, n. 1, p. 107-114, jan. 2017. Disponível em: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/dar.12514/full >. Acesso em: 27 mar. 2017.

Publicado em Edição 08