Além de atender às demandas da própria Baixada Santista, estudos multi e interdisciplinares promovidos pelo IMar contemplam as áreas biológica, ambiental e social em uma fronteira do conhecimento que é, cada vez mais, fundamental para o desenvolvimento do país

Entreteses p20 especial Imar

Fábio dos Santos Motta, professor do IMar/Unifesp e um dos coordenadores do Laboratório de Pesquisa em Ecologia e Conservação Marítima (LabecMar), realizando censo visual de peixes em Abrolhos (BA) / (imagem: Leo Francini)

A criação do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) em 2004, no Campus Baixada Santista, expandiu a área de atuação e abrangência da Unifesp. A partir de 2012, quando o Departamento de Ciências do Mar (DCMar) é criado, a Unifesp passa a ocupar uma posição de vanguarda, alinhada com a Política Nacional para os Recursos do Mar (PNRM).

A implementação do Instituto do Mar (IMar/Unifesp), prevista para 2018, ampliará a atuação interdisciplinar na região e consolidará sua atuação pioneira como a primeira instituição federal de ensino superior a instalar-se na costa litorânea do Estado de São Paulo. As ações de ensino, pesquisa e extensão em Ciências do Mar do instituto estão alinhadas estrategicamente às demandas da região e, principalmente, contribuindo com o desenvolvimento do país na formação de pessoal e na produção do conhecimento, tecnologias e inovação. Além dos 3 cursos de graduação já reconhecidos, com avaliação de excelência pelo MEC, o futuro instituto já conta com o Programa de Pós-graduação em Biodiversidade e Ecologia Marinha e Costeira, recentemente aprovado com conceito 4 da Capes e um Programa Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia do Mar aguardando parecer da Capes.

As pesquisas multidisciplinares desenvolvidas no IMar/Unifesp contemplam as questões sociais, ambientais e biológicas de grande relevância para a Região Metropolitana da Baixada Santista, que possui o maior porto da América Latina e 39º do mundo por movimentação de contêineres. 

A presença do IMar/Unifesp na região é importante também em razão da cidade explorar os setores de turismo, serviços, pesca e desenvolver extensa prospecção da camada pré-sal de petróleo e gás na Bacia de Santos. Estas são as principais atividades que movimentam a economia da cidade, que ocupa o 6º lugar no ranking de qualidade de vida (IDH) entre os municípios brasileiros. 

Nas páginas seguintes, apresentamos uma pequena parte do trabalho que é produzido por pesquisadores do IMar/Unifesp.

Publicado em Edição 09

Crítico e sociólogo, militou no Partido Socialista Brasileiro, fez oposição aos regimes autoritários, foi mestre dedicado e produziu obra de raro valor nos estudos literários

Celina M. Brunieri e Felipe Costa

Agradecemos a Marina de Mello e Souza, professora livre-docente do Departamento de História da FFLCH-USP, pelo valioso depoimento que prestou sobre seu pai, Antonio Candido, contribuindo para a elaboração deste artigo

Expressamos também nosso reconhecimento a Laura Escorel de Moraes, que colaborou com a edição, cedendo material relativo a sua pesquisa de mestrado sobre o acervo fotográfico de Gilda e Antonio Candido de Mello e Souza, desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História da Arte da EFLCH da Unifesp – Campus Guarulhos

Antonio Candido fazendo uma conferência

Antonio Candido discursa sobre Oswald de Andrade na conferência de abertura da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2011 (imagem: Walter Craveiro / Divulgação Flip)

A unanimidade em torno de Antonio Candido de Mello e Souza, falecido aos 98 anos em maio, parece elevá-lo à categoria de mito na história cultural do país, tal o alcance e profundidade de sua obra, a erudição e clareza de pensamento, a competência como mestre e a fidelidade aos princípios de uma sociedade igualitária. Sociólogo, crítico literário e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Antonio Candido foi militante de causas sociais, cujos atributos de integridade, tolerância, generosidade e senso de justiça qualificam-no como um ser humano excepcional. 

É autor de obras fundamentais para os estudos literários e a cultura brasileira, entre as quais se enumeram: Formação da Literatura Brasileira, Literatura e Sociedade e O Discurso e a Cidade. A primeira situa-se no mesmo patamar dos grandes ensaios de interpretação da realidade brasileira como Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr.

Um intelectual em formação

Em julho de 1918 nasce, no Rio de Janeiro, Antonio Candido de Mello e Souza, filho mais velho de Aristides e Clarisse. Os dois jovens entroncam suas histórias em um dos frequentes bailes na casa do doutor Miguel Pereira. O médico, cunhado de Clarisse, fora o preceptor de Aristides enquanto estudante de Medicina na então capital federal. 

Oito meses após o nascimento de Antonio, ocorre a primeira de algumas mudanças significativas para a construção e compreensão da história do infante. 

Com a morte repentina de Miguel, Aristides e Clarisse mudam-se para Santa Rita de Cássia, em Minas Gerais, cidade natal do pai de Antonio. Nela o genitor ganha tal notoriedade que o governo do Estado o convida para dirigir os serviços termais de Poços de Caldas. Em 1929, antes de assumir o cargo, Aristides parte para a França, junto com a família, que já somava cinco pessoas, em busca de uma segunda especialização.

Os doze meses de permanência na Europa têm grande impacto na formação de Antonio e seus irmãos. Na França, aprendem francês e história europeia com Marie Rohlfs de Sussex, mulher com alto grau de instrução. O contato com Marie faz com que os garotos conheçam os museus de Paris, estudando obras e movimentos artísticos.

Durante a estada no velho continente, a família passa o verão em Berlim. O impacto desses dias torna-se indelével na vida do garoto. Sair às ruas significa ter de lidar com a dureza do forte militarismo alemão e com os primeiros sinais do nazismo. O fascínio pela cultura do país, entretanto, o acompanha. Cinco anos mais tarde, esse interesse motiva a escrita do seu primeiro artigo para o Jornal Ariel.

Em 1930 a família retorna ao Brasil. Estabelecem-se em Poços de Caldas. E no ano seguinte Antonio conhece a italiana Teresa Maria Carini. Teresina é uma senhora culta, que se torna a melhor amiga da mãe do garoto. Antifascista e ex-militante socialista, é a responsável por transmitir certa “afetividade socialista” a Antonio Candido e por sua inserção nas letras italianas.

O convívio escolar com os irmãos Andrada e Silva marca a vida do jovem. José Bonifácio e Antonio Carlos dividem com ele leituras de obras de cunho socialista e de romances regionalistas. Esse período em Poços de Caldas afeta profundamente o leitor voraz, de tal modo que falar sobre a cidade faz sua alma transbordar durante toda a vida.

Duas fotos: na primeira Antonio Candido criança está com os pais e irmãos e na segunda, é retratado já jovem

À esquerda, Antonio Candido entre os pais, Aristides Candido de Mello e Souza e Clarisse Tolentino de Mello e Souza, e com os irmãos, Roberto e Miguel, em pé, na casa da família em Poços de Caldas

À direita, Antonio Candido, em São Paulo, em abril de 1936; nos anos de 1937 e 1938, ele frequentaria o Colégio Universitário (1ª seção), curso complementar ao ensino médio, de caráter oficial, que também preparava para os exames vestibulares

(imagens: Acervo Ouro sobre Azul)

Os estudos superiores e a crítica literária 

A influência do meio familiar, as interações sociais e o impacto das leituras possivelmente ajudem a rastrear o processo de formação da personalidade sensível e multifacetada de Antonio Candido. E talvez expliquem sua inclinação para a militância social. É certo, porém, que obras como ABC do Comunismo, de Bukarin, e História do Socialismo e das Lutas Sociais, de Max Beer, tiveram importância fundamental na construção de valores associados à justiça social e na opção posterior pelo socialismo democrático. 

Em 1936, Antonio Candido transfere-se para São Paulo onde prosseguiria os estudos. Abandona provisoriamente o interesse pelas questões sociais e passa a frequentar a vida artística e cultural da cidade. Mário de Andrade, então nomeado diretor do Departamento de Cultura, havia criado a discoteca pública, o coral de música brasileira, o quarteto de cordas e as bibliotecas ambulantes em um esforço inédito de levar a cultura erudita às camadas populares. 

No ensaio A Revolução de 1930 e a Cultura, Antonio Candido analisa as transformações culturais produzidas pela Revolução de 1930, que incluíram: a reforma educacional, com a adoção dos métodos da Escola Nova; a ampliação do número de escolas de nível médio e de ensino técnico; a criação de universidades públicas; a gradativa aceitação das inovações formais do Modernismo; e a publicação de livros didáticos elaborados por autores nacionais. A década de 1930 foi um período de intensa politização e de radicalização de posições ideológicas em face dos temas sociais em pauta: a crise econômica de 1929, a ascensão do fascismo e as repercussões da Revolução Russa de 1917. 

Em 1939, Antonio Candido ingressa simultaneamente na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (curso que abandonou no último ano) e na Faculdade de Filosofia (subseção de Ciências Sociais e Políticas), fundada em 1934. Esta última despertava uma atitude de reverência porque seu corpo docente era formado por intelectuais estrangeiros de alto nível, entre os quais: Claude Lévi-Strauss (antropólogo), Fernand Braudel (historiador), Roger Bastide (sociólogo) e Giuseppe Ungaretti (poeta e professor de literatura). Quem exerceu maior influência sobre os alunos e ouvintes foi, entretanto, Jean Maugüé, professor de filosofia e marxista não ortodoxo. 

Antonio Candido une-se, então, a outros jovens cultos e talentosos, que se interessavam como críticos diletantes por artes plásticas, cinema, teatro e literatura. Por iniciativa de Alfredo Mesquita, escritor e dramaturgo, fundam a revista Clima, da qual se tornam redatores. Apelidados de chato-boys por Oswald de Andrade em razão da seriedade de seus textos, responsabilizam-se pelos trabalhos editoriais, obtenção de anúncios e distribuição dos exemplares. O núcleo principal da revista, formado por Lourival Gomes Machado, Paulo Emilio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Ruy Coelho, Antonio Candido e Gilda de Moraes Rocha (sua futura esposa), vinculou-se por laços duradouros de afeto e amizade. Clima circulou entre 1941 e 1944 e, de certa forma, ajudou a definir o rumo intelectual de seus componentes.

O prestígio obtido em Clima permitiu que Antonio Candido assumisse a crítica de rodapé (inserida no espaço inferior da página) na Folha da Manhã (de 1943 a 1945) e, depois, no Diário de S. Paulo (de 1945 a 1947). A cada semana, o crítico era responsável por produzir um texto analítico sobre os novos lançamentos, e as avaliações, se inconsistentes, podiam custar o emprego ao profissional. Antonio Candido soube, entretanto, reconhecer o valor literário de autores iniciantes como Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto. E apontou alguns desacertos em Marco Zero (1943), de Oswald de Andrade, que ficou irritado e, por certo período, rompeu relações com o crítico. 

A colaboração com órgãos de imprensa perduraria por 24 anos, cabendo-lhe em 1956 a tarefa de elaborar, a convite de Julio de Mesquita Filho, o projeto editorial do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, que se tornaria um dos paradigmas do jornalismo cultural no país.

Da Sociologia à Literatura Brasileira

Em 1942 forma-se em Ciências Sociais e, por indicação de Fernando de Azevedo, assume as aulas de Sociologia como professor assistente. Antevendo que a literatura iria encaminhá-lo para outra área, decide concorrer, em 1944, à cadeira de Literatura Brasileira e, com esse objetivo, prepara a tese Introdução ao Método Crítico de Sílvio Romero. Classifica-se em segundo lugar, mas a aprovação no concurso permite-lhe obter o título de livre-docente, com o qual pretendia transferir-se para o ensino de Letras. 

Por dever moral (embora já portasse titulação suficiente), elabora em 1954 a tese de doutorado sobre a cultura material e imaterial de populações rurais do interior paulista, à qual denomina Os Parceiros do Rio Bonito. Após 16 anos como assistente, desliga-se da Sociologia e, a convite de Antonio Soares Amora, integra-se à recém-instalada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis como professor de Literatura Brasileira. Durante a permanência nessa instituição (1958-1960) aprofunda os estudos teóricos que serviriam de base à estruturação do curso de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP, por ele criado em 1961. 

Exerce a atividade docente até a aposentadoria, em 1978, continuando, porém, a orientar dissertações e teses até 1992. Do contingente de pesquisadores, professores e críticos que formou sobressaem os nomes de Roberto Schwarz, Walnice Nogueira Galvão, Davi Arrigucci Jr. e João Luiz Lafetá.

Quatro imagens: Antonio Candido com colegas, ministrando aula, em um ato político e com as filhas

Em sentido horário:

Em 1944, os amigos Décio de Almeida Prado, Paulo Emilio Salles Gomes, Antonio Candido e Lourival Gomes Machado (da esquerda para a direita), que integravam a equipe responsável pela revista Clima, reunidos na Praça da República, em São Paulo

Antonio Candido ministra aula, em agosto de 1963

Antonio Candido entre as filhas: Marina de Mello e Souza, Laura de Mello e Souza e Ana Luisa Escorel (da esquerda para a direita)

Em ato político, Antonio Candido participa de assembleia em campus universitário, durante mobilização grevista

(1ª, 2ª e 3ª imagens: Acervo Ouro sobre Azul; 4ª imagem - AC com as filhas: Guilherme Maranhão)

Militância política 

No início de 1943, por influência de Paulo Emilio Salles Gomes, jovem ativista que se especializaria em cinema e futuro professor da USP, Antonio Candido integra-se a grupos de ação política que se opõem à ditadura do Estado Novo. As discussões teóricas e o convívio com militantes como Germinal Feijó (líder estudantil), Eric Czaskes (litógrafo), Paulo Zing (jornalista) e Paulo Emilio foram decisivos para seu amadurecimento político. 

No início de 1945, participa do 1º Congresso Brasileiro de Escritores, evento que permitiu a tomada de posição dos intelectuais contrários ao Estado Novo. Com o afrouxamento do regime, a frente que aglutinara os movimentos de resistência divide-se e Antonio Candido ajuda a consolidar a União Democrática Socialista (UDS). Com a dissolução desta última, adere à Esquerda Democrática, que em 1947 altera o nome para Partido Socialista Brasileiro (PSB). Foi candidato a deputado estadual por essa sigla, na qual ocupou o cargo de dirigente da seção paulista e militou até 1954. 

Durante a ditadura instaurada em 1964, participa de comícios e atos públicos, nos quais denuncia episódios de violência e arbitrariedades cometidas pelo regime militar. Com outros intelectuais, publica a revista Argumento, censurada no quarto número. Torna-se membro da Comissão de Justiça e Paz, criada por D. Paulo Evaristo Arns, e milita na oposição, empenhando-se na luta pela anistia e redemocratização. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), cujo manifesto assinou em 1980.

Convívio familiar

Em 1943, Antonio Candido casou-se com Gilda de Moraes Rocha (1919-2005), que conhecera ao ingressar na Faculdade de Filosofia e seria sua interlocutora intelectual. Ensaísta e crítica de arte, Gilda fundou a cadeira de Estética do Departamento de Filosofia da USP. Dessa união nasceram três filhas: Ana Luisa, que se tornou designer e escritora; Laura e Marina, que seguiram a carreira acadêmica como docentes do Departamento de História da FFLCH-USP. 

Se a imagem pública de Antonio Candido suscitava admiração e respeito, o retrato intimista composto pela filha Marina revela-o como um ser humano notável. Para ela, o pai foi uma figura extremamente presente, que soube respeitar suas escolhas e oferecer apoio quando necessário. Era muito discreto, tinha um respeito genuíno pelo próximo e valorizava o trabalho de qualquer natureza, físico ou intelectual. 

Era um exímio narrador de histórias e aprazia-lhe conversar com as pessoas. Era conhecido pelos amigos mais próximos como um fantástico imitador de tipos humanos. Memorizava poemas e trechos de livros e possivelmente reequilibrava as energias ao percorrer longas distâncias a pé. 

Gilda e Antonio Candido retrados em seu apartamento

Gilda de Mello e Souza e Antonio Candido, em seu apartamento em São Paulo, em março de 2002; o casal manteve-se unido por mais de 60 anos, até a morte de Gilda em 2005

(imagem: Bob Wolfenson)

Vida e obra como legado

Antonio Candido pôde conviver com os netos e bisnetos. Há algum tempo, entretanto, declarou que se sentia “expulso do mundo contemporâneo”, talvez porque já não pudesse acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas ou porque – na percepção de Marina – observasse com tristeza e estranhamento os acontecimentos cotidianos: a violência do terrorismo, o genocídio na Síria, os níveis de corrupção, a instabilidade das relações e o desrespeito ao próximo. O fato inegável é que sua história de vida permanece como paradigma de conduta e sua obra, como referência para as novas gerações.

Uma obra voltada para a compreensão do Brasil

Elaborado entre 1945 e 1957, o livro Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos (1750-1880) estuda o arcadismo e o romantismo, períodos nos quais se configura um sistema literário – composto pela tríade autor-obra-público – e se estabelece uma tradição. 

Um de seus aspectos essenciais é a apresentação do juízo crítico das obras, que são selecionadas segundo uma perspectiva histórica. 

Sobre o movimento arcádico, mencione-se a congregação dos escritores em academias e, como marcas da composição, a naturalidade da linguagem, em oposição ao barroco, o bucolismo e a adaptação interna dos modelos europeus. 

No romantismo, que expressou o desejo de fundar uma literatura nacional, identificam-se o individualismo, a idealização do real, a religiosidade e o indianismo. Gonçalves Dias e José de Alencar aqui fixaram o padrão a ser imitado pelos sucessores. A crítica romântica, que representou a consciência literária do período, orientou os escritores e estabeleceu o cânone ao identificar autores do passado e publicar suas obras. 

Crítica e Sociologia (in Literatura e Sociedade)

A Sociologia da Literatura estuda a relação entre obra e público ou entre um gênero literário e as condições sociais. À crítica literária cabe investigar como o fator social integra-se à estrutura da obra e confere-lhe um valor estético. 

No século XIX, a crítica valorizava o grau de condicionamento da obra à realidade. Posteriormente, considerou a obra como uma estrutura fechada na qual importavam as operações formais entre seus elementos.

Dialética da Malandragem

Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, não constitui propriamente um romance documentário porque, entre outros pontos, não descreve a elite dirigente ou os escravos; seu herói é folclórico, do tipo malandro, e não picaresco (como se admitia). 

Em seu universo de relações humanas, o qual espelha a sociedade brasileira do século XIX, há dois hemisférios: o da ordem e o da desordem, entre os quais transitam, em um jogo dialético, os personagens. No mundo a que estes pertencem não há erro, pecado, repressão, remorso ou culpa.

A literatura como um direito

No ensaio O Direito à Literatura, Antonio Candido esclarece que todos os povos têm um acervo de criações literárias, pois a literatura é um fator de humanização que preenche a necessidade de fabulação do ser humano. A obra literária expressa uma visão de mundo, constitui uma forma de conhecimento e propõe-nos um modelo de organização (por palavras) que impressiona o intelecto. 

No Brasil, a estratificação social priva as camadas menos favorecidas do acesso à cultura erudita, confinando-as à literatura de massa e à sabedoria popular.

As principais publicações, prêmios e titulações de Antonio Candido, o perfil acadêmico/profissional de Gilda de Mello e Souza e das filhas – Ana Luisa Escorel, Laura de Mello e Souza e Marina de Mello e Souza – e, ainda, as referências que serviram de base à composição deste artigo poderão ser consultados no endereço: http://www.unifesp.br/reitoria/dci/publicacoes/entreteses/item/3115-perfil-antonio-candido-complemento

Publicado em Edição 09

O principal objetivo é educar a comunidade universitária no sentido de coibir a prática da fraude e do plágio na produção de artigos científicos, dissertações e teses

Ana Cristina Cocolo

Ilustração integridade academica

No Brasil, como em todo o mundo, cresce a preocupação com a prática da fraude em pesquisas científicas. Várias universidades, inclusive a Unifesp, buscam alternativas e ferramentas que ajudem a coibir procedimentos fraudulentos. Com esse objetivo, a Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Unifesp criou, em maio, a Comissão Institucional de Integridade Acadêmica. A sua missão é estimular a discussão sobre questões que envolvem a integridade e a responsabilidade dentro da comunidade universitária, propor medidas educativas e preventivas para impedir que fraudes ocorram em trabalhos científicos, além de colaborar com diretrizes para a implementação de ações corretivas em conformidade com os órgãos institucionais já existentes.

De acordo com Bruno Konder Comparato, presidente da comissão, esses objetivos foram definidos a partir das políticas já em vigor nas agências de fomento – como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes) – e de práticas adotadas, há alguns anos, por periódicos científicos para a admissão de propostas de artigos.

Para isso, ele explica que é extremamente importante a criação de uma estrutura dentro da universidade que atue diretamente sobre o tema, não em caráter punitivo, a princípio, mas preventivo, municiando alunos e docentes de uma educação mais aprofundada sobre a questão. “As agências de fomento são parceiras extremamente importantes das universidades. Nada mais justo que nos cobrem resultados concretos do dinheiro investido em produção científica de qualidade que atente para evitar a possibilidade de fraudes e plágios”, afirma. “Essa má conduta não é somente ruim para o pesquisador, mas também reflete negativamente para a imagem da instituição”.

Troca de experiências entre instituições

A primeira iniciativa realizada pela comissão ocorreu no dia 18 de agosto, com a realização do I Encontro de Integridade Acadêmica da Unifesp, que reuniu, além da reitora, Soraya Smaili, o pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa, Esper Abrão Cavalheiro, e o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, que abriu o evento com uma conferência sobre boas práticas em pesquisa. Os organizadores do encontro também reuniram representantes das instituições que integram a rede de ensino superior público no Estado de São Paulo em uma mesa redonda, cujo tema foi A Experiência de Implantação de uma Cultura de Integridade Acadêmica em Instituições Públicas de Ensino Superior. Dela, participaram os pró-reitores de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal do ABC (UFABC) e Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). 

evento integridade academica

A reitora da Unifesp, Soraya Smaili, abre o evento ao lado do pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa, Esper A. Cavalheiro

evento integridade academica

O diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, foi convidado para falar sobre boas práticas em pesquisa

evento integridade academica

O encontro também reuniu representantes das universidades estaduais para falar das experiências e cuidados adotados pelas instituições para coibir o plágio, como o pró-reitor de Pesquisa da USP, José Eduardo Krieger

As 15 reuniões realizadas pela Comissão de Integridade Acadêmica da Unifesp, desde sua criação, a troca de experiências entre as universidades e conhecer os anseios da comunidade interna, expostos durante o encontro, resultou em um vasto documento que propõe a criação do Escritório de Integridade Acadêmica, subordinado à Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa, e a aquisição do programa de verificação de similaridade de textos Turnitin, amplamente utilizado pelas instituições públicas de ensino superior do Estado de São Paulo, pela Fapesp e pela maior parte dos periódicos científicos. O escritório também contaria com uma Comissão de Integridade Acadêmica permanente para apoiar as atividades do órgão e garantir a representatividade das diferentes categorias da comunidade acadêmica e das especificidades das áreas de pesquisa às quais a Unifesp contempla.

A comissão espera que a proposta seja aprovada pela Câmara de Pós-Graduação e Pesquisa e pelo Conselho Universitário até o final de 2017 para implementação no início de 2018. O grupo acredita que, com esses dois investimentos, será possível a instituição trabalhar continuamente o tema, uma vez que o escritório terá como principal missão estimular e divulgar ideias e iniciativas que visem à promoção de uma cultura de respeito às boas práticas em pesquisa e à integridade acadêmica, além de encaminhar as denúncias embasadas e devidamente documentadas da má conduta aos órgãos competentes.

Confira algumas das estratégias a serem desenvolvidas pelo Escritório de Integridade Acadêmica, propostas pela comissão

Na divulgação:

  • Publicação de artigos na revista Entreteses, escritos por professores dos campi da Unifesp de diferentes áreas, para destacar as necessidades e particularidades de cada área.
  • Usar de recursos audiovisuais, apontando as ações necessárias a serem abordadas por todos (docentes, discentes e técnicos).
  • Divulgação constante de informativos internos.
  • Realização de eventos nos campi para discutir e apresentar o tema.

Na formação:

  • Oferecer cursos de formação continuada aos docentes e discentes interessados. Para os estudantes, propõe-se um curso obrigatório, preferencialmente à distância, como condição para confirmar a matrícula, no qual seriam abordadas as regras básicas de conduta, bem como orientações sobre o que é integridade acadêmica, porque é necessária a adoção de tais práticas, o que é plágio e como evitá-lo, além de programas de verificação de semelhança.
  • Criação de uma rede de docentes interessados no tema, para que possam contribuir na promoção e implementação das ações práticas a serem adotadas.
  • Elaboração de manuais de boas práticas e normas de condutas.

No acompanhamento:

  • Das dúvidas: as dúvidas relativas ao tema da integridade acadêmica serão o foco do escritório. Para lidar com elas, será criado um portal de atendimento eletrônico, por intermédio de e-mail e presencial.
  • Das queixas: as queixas serão ouvidas, registradas e, se necessário, encaminhadas como denúncias. Todas as queixas serão mantidas em sigilo.
  • Das denúncias: as denúncias serão devidamente ouvidas, registradas e encaminhadas. Caso a denúncia forneça subsídios ou provas claras que permitam o esclarecimento dos fatos, será aberto um processo de denúncia formal que, por sua vez, será devidamente encaminhado à instância jurídica competente na universidade.
  • Não serão aceitas denúncias anônimas, mas o sigilo da identidade do denunciante será preservado.
Publicado em Edição 09
Quinta, 21 Dezembro 2017 15:00

Ciência em colapso

Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), membro da Academia Mundial de Ciências e da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, analisa os impactos da crise orçamentária na ciência brasileira

Lu Sudré

Luiz Davidovich

(imagem: Divulgação / ABC)

Laboratórios fechados, pesquisas paralisadas, bolsas em atraso e cientistas desestimulados: 2017 carrega o título de pior orçamento da ciência nos últimos 12 anos. Dos R$ 5,8 bilhões previstos para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), apenas R$ 2,5 bilhões foram liberados para custeio e investimento na área. O corte do orçamento ameaça o protagonismo internacional do país e as conquistas já alcançadas pela ciência brasileira. É o que alerta Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciência (ABC), doutor em física pela Universidade de Rochester (EUA). Enquanto países da União Europeia, por exemplo, estimam aumentar seu investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) para 3% do seu Produto Interno Bruto (PIB) até 2020, o Brasil caminha na contramão. Em 2017, foram investidos apenas 1% do PIB e as estimativas para 2018 não são animadoras. A meta de investir 2% do PIB em P&D até 2019, estabelecida pelo documento Estratégia Nacional de Ciência e Tecnologia, lançado ano passado pelo governo federal, parece cada vez mais distante. 

Para Davidovich, é preciso corrigir o rumo das prioridades governamentais com urgência, para que o atraso não se torne irreversível. O físico, membro da Academia Mundial de Ciências (TWAS) e da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, recebeu diversos prêmios, entre eles a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (2000) e o Prêmio TWAS de Física em 2001. Em 2016, Davidovich deu início ao Projeto Ciência para o Brasil, com a finalidade de elaborar propostas para o fortalecimento de setores estratégicos para o desenvolvimento do país.

Entreteses - Qual a importância da ciência no desenvolvimento do país?

Luiz Davidovich - Vivemos em uma sociedade do conhecimento, na qual o protagonismo internacional e o bem-estar da população dependem da capacidade de inovação baseada no avanço científico. Basta ver que a expectativa de vida dos brasileiros aumentou de cerca de 34 anos, em 1900, para 75 anos, em 2015. A ciência nacional teve um papel fundamental nesse desenvolvimento, por meio da descoberta e da implementação de novas tecnologias para saneamento, vacinas, técnicas terapêuticas. Um exemplo recente foi a resposta imediata da ciência brasileira à epidemia de zika, elucidando sua relação com a microcefalia. Isso foi possível graças ao apoio recebido no passado, de agências como CNPq, Capes, Finep e as fundações estaduais de amparo à pesquisa (FAPs). 

Mas o papel fundamental da ciência no desenvolvimento econômico e social do Brasil tem se revelado em muitas outras áreas. A descoberta de um processo de fixação de nitrogênio no solo, por meio do uso de bactérias, a partir das pesquisas realizadas por Johanna Döbereiner, em seu laboratório na UFRJ, não apenas multiplicou por quatro a produtividade da soja, mas representa para o país uma economia de R$ 15 bilhões por ano, que seriam gastos na importação de fertilizantes nitrogenados. O desenvolvimento da tecnologia aeronáutica incorporou aviões como item importante da pauta de exportação. A cooperação entre a Petrobrás e grupos de pesquisa em diversas instituições conquistou para essa empresa prêmios internacionais por sua tecnologia de extração de petróleo em águas profundas. O pré-sal, tido como uma aventura arriscada há poucos anos, produz atualmente quase 50% do petróleo brasileiro. 

Carros movidos a álcool foram criados pela ciência brasileira. O Brasil enriquece urânio no Centro Tecnológico da Marinha em Iperó – graças à ciência desenvolvida no país. Empresas como a Embraco e a WEG – respectivamente, entre as maiores fabricantes de compressores e de equipamentos elétricos do mundo – conquistaram seu protagonismo internacional em estreita colaboração com grupos de pesquisa nacionais. Também é importante o papel das ciências sociais ao desvendar a organização, a cultura, os hábitos dos mais diversos setores da sociedade brasileira e analisar os efeitos de políticas sociais.

O papel da C&T torna-se especialmente importante em épocas de crise econômica. O investimento nessas áreas promove um caminho para sair da crise de forma sustentável. Por isso mesmo, a União Europeia planeja alcançar, em 2020, 3% do PIB investido em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e a China 2,5% do PIB. Os Estados Unidos investem 2,7%, Coreia do Sul e Israel mais que 4%. Em 2008, no auge da crise, o presidente da China anunciou que, apesar da redução da taxa de crescimento, o investimento em pesquisa básica aumentaria em 26%. Hoje, estão à frente dos Estados Unidos em tecnologias sofisticadas, como a comunicação quântica.

 

Luiz Davidovich

(imagem: Divulgação / ABC)

E. O Brasil passa pelo pior orçamento para C&T dos últimos 12 anos. Qual análise faz dessa conjuntura?

L.D. O orçamento de custeio e capital (isto é, os recursos para pesquisa, não incluindo salários e gastos administrativos) do Ministério de Ciência e Tecnologia, em 2010, corrigidos pela inflação até este ano, foi de R$ 10 bilhões. O orçamento de 2017, do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, é de R$ 3,2 bilhões, mas R$ 700 milhões vão para o setor de comunicações. Temos, assim, cerca de 25% do orçamento de 2010, situação agravada pelo colapso de diversas FAPs. Isso explica a grave crise atual; o CNPq não consegue pagar as bolsas, a Finep tem recursos extremamente reduzidos para inovação tecnológica e projetos de infraestrutura de instituições de ensino e pesquisa. Investimentos estão zerados em diversas FAPs, cientistas estão deixando o país, laboratórios estão parando por falta de recursos. A crise nos estados afeta universidades importantes, como a UERJ. 

A partir de 2014, cortes sucessivos levaram a essa crise. O maior deles, no entanto, ocorreu em 2017, um corte de 44% nos R$5,8 bilhões previstos para este ano, que ameaça o desenvolvimento científico e tecnológico do país e reduz o investimento em P&D para algo próximo de 1% do PIB. Esse percentual de corte atingiu todos os ministérios, exceto os de Educação e Saúde, que estão protegidos pela Constituição. Ao realizar um corte linear, o governo está de fato confessando sua incompetência em definir prioridades para o Brasil.

 

E. A fusão que deu origem ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações prejudicou a ciência e a pesquisa? 

L.D. A fusão foi apresentada pelo governo como uma vantagem para a área de C&T, pois a força do setor de comunicações ajudaria a trazer mais recursos para o ministério. A previsão não se confirmou. A verba para a ciência diminuiu. Além disso, a complexidade do novo ministério levou a uma reforma que afastou órgãos como CNPq e CNEN, reduzidos a seções dentro de uma estrutura hierárquica de secretarias e diretorias. Tudo indica, portanto, que houve uma inversão de prioridades.

 

E. Quais as consequências diretas desse desmonte?

L.D. Estamos perdendo terreno no cenário internacional. Vários laboratórios estão na iminência de fechar. O pior efeito, a meu ver, está no desestímulo dos jovens, os cientistas de amanhã.
Há poucos anos, o Brasil destacava-se na imprensa internacional como um país que estava resolvendo seus problemas sociais e que aumentava seu protagonismo, com sucessos científicos e tecnológicos reconhecidos mundialmente. Esse prestígio esfumou-se. É preciso corrigir o rumo, de modo a impedir que esse atraso seja irreversível.

 

E. Há alguma perspectiva para reverter a situação?

L.D. Entre 2003 e 2014, o Brasil passou de 1,39% a 2,46% da produção científica mundial, o número de doutores formados por ano mais que dobrou, de 7.710 para 16.729. O Brasil ocupa o 13º lugar em número de publicações, nos rankings internacionais. Pesquisadores brasileiros têm recebido reconhecimento internacional, destacando-se a Medalha Fields, o prêmio mais importante da matemática, outorgada a Artur Ávila, em 2014. Grandes projetos internacionais, nas áreas de partículas, Astronomia e clima, contam com a colaboração de cientistas brasileiros. Há, no entanto, muito a avançar. O Brasil ocupa um lugar modesto nos rankings de inovação: passou da 47ª posição, em 2011, para a 69ª, em 2017. Entre as economias da América Latina e Caribe, o Brasil aparece em sétimo lugar, atrás de Chile (46º), Costa Rica (53º), México (58º), Panamá (63º), Colômbia (65º) e Uruguai (67º). No Brasil, a participação de empresas no investimento em P&D é menor que 50%, incluídas as estatais, como a Petrobrás, enquanto em países como a Coreia do Sul e a China esse percentual aproxima-se de 80%. As universidades brasileiras têm, também, presença modesta em rankings internacionais.

É necessário aumentar continuamente a qualidade da produção científica, reestruturar as universidades de modo a privilegiar a criatividade e o enfrentamento das grandes questões científicas, envolver a comunidade científica em projetos mobilizadores que focalizem as vantagens competitivas do país, como a inovação em Biotecnologia baseada na rica biodiversidade nacional – estima-se que apenas 5% das espécies são conhecidas. Esse é um rico tesouro, que corresponde a 20% da biodiversidade mundial. Esse e outros projetos mobilizadores, como o domínio da tecnologia para o lançamento e a confecção de satélites, o incentivo a energias alternativas, o desenvolvimento de novas tecnologias para a agropecuária e inovações na área de saúde. Todos esses projetos tornam-se inviáveis com um investimento em P&D da ordem de 1% do PIB. 

É esse caminho que está agora ameaçado.

 

E. Muito se fala do modelo estadunidense de investimento para a área. Ele é adequado ao Brasil? 

L.D. Podemos tirar algumas lições do modelo estadunidense. Por exemplo, as grandes empresas encaram positivamente o financiamento, pelo governo, de pesquisa básica em universidades e institutos de pesquisa. A razão desse apoio é clara: as empresas preferem desenvolver pesquisa aplicada, com potencial de ganhos a curto prazo, usando para isso os resultados obtidos pela comunidade acadêmica. É uma divisão de trabalho interessante para essas empresas. 

A contribuição direta de empresas para as universidades estadunidenses é pequena: de longe a maior contribuição vem do governo. Mesmo no Massachusetts Institute of Technology (MIT), a pesquisa patrocinada diretamente pela indústria totalizou 19% de todos os recursos para a pesquisa, em 2016. Por outro lado, a contribuição de ex-alunos para instituições de ensino superior totalizou 10,85 bilhões de dólares em 2015. Como se vê, é um modelo que, no presente momento, é difícil de imitar. Nos Estados Unidos, assim como na Europa, vigora há muito tempo uma Lei Rouanet para a ciência: contribuições a instituições de ciência e tecnologia podem ser deduzidas do imposto de renda.

 

E. O Ciência Sem Fronteiras ganhou muito destaque, mas foi encerrado abruptamente. Quais as consequências para o Brasil?

L.D. O Ciência Sem Fronteiras pecou pelo excesso. Apesar dos exemplos de sucesso, envolvendo estudantes em instituições internacionais de ponta, um grande número de bolsistas foi enviado para instituições que não se destacam internacionalmente e que cobram taxas altíssimas de matrícula. Por outro lado, é penoso ver os estudantes retornarem para um país que enfrenta uma crise grave, limitando a possibilidade desses bolsistas contribuírem para o país. Mas a crise afeta a juventude nacional. É a qualidade do emprego que está em causa.

Professor da Unifesp é empossado na Academia Brasileira de Ciências

Em março, Luiz Henrique Soares Gonçalves de Lima, professor e orientador no Programa de Pós-Graduação em Oftalmologia e Ciências Visuais da EPM/Unifesp, tomou posse como membro afiliado da regional São Paulo da Academia Brasileira de Ciências (ABC), para o período 2016-2020.

Lima foi selecionado para compor uma lista de jovens pesquisadores da ABC por sua atuação em pesquisas sobre degeneração macular e novas formas de liberação intraocular de fármacos.

Os integrantes da lista devem ter menos de 40 anos, trabalhos de relevância científica e serem radicados nas regionais Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. As indicações são feitas por membros titulares e levadas à votação por uma comissão de seleção.

Publicado em Edição 09
Quinta, 21 Dezembro 2017 10:00

Cortes em CT&I ameaçam o futuro do país

Soraya Smaili

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

O momento atual apresenta enormes desafios em relação ao futuro das pesquisas e da ciência em nosso país. Chegamos ao final de 2017, mas ainda não temos certeza se e como o ano irá acabar. O debate e a participação da comunidade científica na política de financiamento da ciência foram extremamente significativos. Há muito não víamos os cientistas e estudantes tão mobilizados e empenhados em demonstrar à sociedade os efeitos dos cortes anunciados na dotação de verbas públicas destinadas à ciência, tecnologia e inovação (CT&I).

A proposta de orçamento apresentada pelo governo federal reduz as verbas para o setor a um valor equivalente a 2/3 do investido em 2011. Caso isso se confirme, o país estará diante de uma catástrofe de grandes proporções, com o comprometimento de atividades essenciais ao desenvolvimento, bem como do processo de crescimento da nação.

Nossos pesquisadores foram firmes e consistentes na defesa do sistema público de CT&I e souberam iniciar um processo de interlocução com parlamentares e a sociedade, por todos os meios possíveis, incluindo a mídia, para demonstrar a importância dessa área. Dados recentes apresentados ao Conselho Universitário da Unifesp (Consu) pelo professor Marcos Cintra, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), revelam que cada unidade da moeda investida em CT&I em determinado país gera de três a quatro unidades da mesma moeda em desenvolvimento econômico e social. Não se trata, portanto, de um “gasto”, mas sim de um investimento no futuro de qualquer nação. Por essa razão, muitos têm atuado para a tomada de consciência em torno da defesa desse patrimônio fundamental.

Dentre as entidades que mais se destacaram nessa atuação, nos últimos meses, estão as universidades públicas, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Entreteses traz, nesta edição, uma importante entrevista sobre o tema com o presidente da ABC, Luiz Davidovich. Apontando para o perigo de um retrocesso desastroso, Davidovich afirma que o país tem os meios e os recursos para apostar no crescimento. Mas é preciso que o governo federal tenha vontade política de fazê-lo. A Unifesp coloca-se ao lado do movimento em questão, que visa recompor os orçamentos para essa área tão estratégica.

Como demonstração de que é possível adotar o caminho do crescimento, Entreteses traz também uma ampla reportagem sobre o trabalho realizado pelo Departamento de Ciências do Mar, localizado no Campus Baixada Santista. Em 2011, a Unifesp tomou a iniciativa de expandir as pesquisas científicas na área, com a contratação de jovens doutores. Inicialmente, foram oferecidos um bacharelado e engenharias; posteriormente, abrimos programas de pós-graduação. Hoje, formamos profissionais que produzem conhecimento essencial não só para a conservação da costa da Baixada Santista, como também para a propriedade brasileira em três vertentes: social, ambiental e biológica.

Em 2017, apesar das dificuldades enfrentadas pelo país, nossos pesquisadores – de todas as áreas – têm o que celebrar, pois a Unifesp foi indicada, em diversos sistemas de avaliação, como uma das três melhores universidades brasileiras em pesquisa. Vamos continuar: nossa única escolha é atuar e avançar pela ciência e pelo futuro.

Publicado em Edição 09

Esper Cavalheiro

Esper A. Cavalheiro
Pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa

A nova equipe que assumiu a direção da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (ProPGPq) apresenta suas propostas de trabalho para os próximos anos, os quais descortinam um horizonte econômico bastante sombrio, especialmente para a área de ciência, tecnologia e inovação (CT&I). O financiamento nacional da CT&I observado nos últimos 50 anos sempre oscilou, apesar de ser uma área fundamental para alavancar o desenvolvimento geral de uma nação. Por essa razão a entrevista com o presidente da Academia Brasileira de Ciências, professor Luiz Davidovich, publicada nesta edição, é tão importante para a reflexão conjunta de toda a sociedade.

Esse é o pano de fundo diante do qual estabelecemos as linhas mestras de nosso trabalho para os próximos quatro anos. Enfrentar o desafio demanda criatividade, tenacidade e compromisso com o novo, o inédito. Não é, portanto, com menos entusiasmo que assumimos essa missão institucional.

Assim, a nova equipe tem atuado no sentido de ampliar os instrumentos da ProPGPq e planejar ações de curto, médio e longo prazo, tal como delineado no Plano de Desenvolvimento Institucional da Unifesp (PDI 2016-2020). São cinco os principais projetos iniciados: 1. Reestruturação da ProPGPq. 2. Ampliação do Escritório de Apoio ao Pesquisador (EAP). 3. Recadastramento dos pós-doutorandos e organização do I Encontro Unifesp de Pós-Doutores. 4. Criação da Comissão Institucional de Integridade Acadêmica. 5. Avaliação interna dos programas de pós-graduação.

Em relação à reestruturação da ProPGPq (item 1), além das quatro coordenadorias já atuantes na Pró-Reitoria, foi criada a de Integração, cuja principal meta será estimular a convergência entre os pesquisadores e os programas de pós-graduação das diferentes áreas do saber. A reorganização e ampliação do EAP (item 2) visa, sobretudo, implementar ações que estimulem e facilitem as atividades-fim dos pesquisadores, proporcionando-lhes ambiente mais favorável na interface institucional e com o sistema nacional de pós-graduação e pesquisa. O item 3 diz respeito à atividade dos pós-doutores, espaço privilegiado e de constante desafio. A partir de portaria editada pela reitora Soraya Smaili, chegamos ao item 4, que levou à estruturação de uma política institucional de boas práticas acadêmicas e de ética em pesquisa. Esta prevê o estabelecimento de um escritório na nova estrutura da ProPGPq, o qual deverá organizar, em conjunto com a comunidade unifespiana, procedimentos e parâmetros atinentes à integridade acadêmica institucional.

A nova equipe da ProPGPq enfatiza também a necessidade de a Unifesp deflagrar seu próprio processo de avaliação (item 5). Demos início à primeira fase dessa avaliação a partir de um questionário proposto aos programas de pós-graduação. Contrariamente à avaliação da Capes, busca-se uma compreensão do potencial interno de cada programa que dê conta da formação de mestres e doutores – acadêmicos ou profissionais – e seja capaz de impactar o desenvolvimento do país. Para tanto, faz-se necessária a colaboração de toda a comunidade.

Não menos importante foi a incorporação do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) às atividades da ProPGPq. A integração proporcionará maior convergência entre as atividades de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação e facilitará a interação desse órgão com os agentes similares de outras instituições de ensino superior (IES) e institutos de pesquisa no país e no exterior.

Ao agradecer a confiança que em nós foi depositada, a nova equipe da ProPGPq coloca-se à disposição para ouvir, contribuir, estimular e, principalmente, criar alianças determinantes no aprimoramento do ambiente de pesquisa, no desenvolvimento tecnológico e na inovação em toda a Unifesp.

Publicado em Edição 09
Quinta, 21 Dezembro 2017 08:49

Expediente

A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.

ISSN 2525-5401 (publicação impressa)
ISSN 2525-538X (publicação on-line)

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Reitora: Soraya Soubhi Smaili

Vice-Reitor: Nelson Sass

Pró-Reitora de Administração: Tânia Mara Francisco

Pró-Reitor de Assuntos Estudantis: Anderson da Silva Rosa

Pró-Reitora de Extensão e Cultura: Raiane Patrícia Severino Assumpção

Pró-Reitor de Gestão com Pessoas: Murched Omar Taha

Pró-Reitora de Graduação: Isabel Marian Hartmann de Quadros

Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa: Esper Abrão Cavalheiro

Pró-Reitor de Planejamento: Pedro Fiori Arantes

Jornalista responsável/Editor: José Arbex Jr. (MTB 14.779/SP)

Coordenação: Ana Cristina Cocolo

Reportagens: Ana Cristina Cocolo, Celina M. Brunieri, Daniel Patini, Felipe Costa, José Luiz Guerra, Juliana Narimatsu, Lu Sudré, Mariane Santos Tescaro e Valquíria Carnaúba

Projeto gráfico e diagramação: Ana Carolina Fagundes 

Infográficos e ilustrações: Ana Carolina Fagundes 

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa 

Fotografias: Acervo Unifesp / Créditos indicados nas imagens

Tratamento de imagens: Ana Carolina Fagundes

Conselho Editorial: Esper Abrão Cavalheiro, Ruy Ribeiro de Campos Jr., Paulo Schor, Karina Ramalho Bortoluci, Daniel Campos de Carvalho e Ana Lúcia Lana Nemi 

Conselho Científico: Olgária Chain Feres Matos, Renato Janine Ribeiro, Ruy Ribeiro de Campos Junior, Paulo Schor, Fulvio Alexandre Scorza

Revista Entreteses n° 9 – Dezembro/2017

www.unifesp.br/entreteses
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Tiragem: 2.000 exemplares 

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL

Direção: Luciana de Arêa Leão Borges

Jornalismo: Ana Cristina Cocolo, Daniel Patini, José Luiz Guerra, Juliana Narimatsu, Mariane Santos Tescaro e Valquíria Carnaúba

Design: Ana Carolina Fagundes e Ângela Cardoso Braga

Audiovisual: Reinaldo Gimenez (coordenação), Jean Carlo Silva, Loiane Caroline Vilefort, Luciana de Arêa Leão Borges e Michelle Santana 

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Assistente administrativo: Luis Tadeu Ka Jin Mo

Assessoria de Imprensa: CDN Comunicação Corporativa

Redação e administração:
Rua Sena Madureira, nº 1.500 - 4º andar - Vila Clementino
CEP: 04021-001 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3385-4116 - Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. - www.unifesp.br

Publicado em Edição 09
Quinta, 23 Agosto 2018 09:33

Edição 10 - Entreteses

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Julho 2018

Mais do que nunca, numa época de crise como a que vivemos, “a coisa mais importante para nós, brasileiros, é inventar o Brasil que queremos”, como dizia Darcy Ribeiro. Esse é o desafio que a universidade pública deve enfrentar, e que remete ao lugar destinado à educação e ao conhecimento. Nessa edição, dedicamos uma reflexão aos caminhos postos para a universidade pública, no sentido de levar a bom termo a sua missão. Contamos, para isso, com a preciosa colaboração do professor visitante Renato Janine Ribeiro, convidado pela Unifesp para coordenar um grupo de trabalho destinado a criar e implantar o Instituto de Estudos Avançados (IEA), com a dupla vocação de estimular e ajudar a viabilizar tanto a realização de pesquisas situadas na fronteira do conhecimento como a formulação de políticas públicas capazes de superar alguns dos grandes desafios enfrentados pelo Brasil.

Em nossa matéria de capa, abordamos uma questão que preocupa cada vez as autoridades públicas, cientistas e especialistas em todo o mundo: a questão da alimentação. Como uma espécie de “outro lado” perverso da moeda que, numa das faces, apresenta o problema da fome e da subnutrição que atinge quase um bilhão de seres humanos, enfrentamos a questão dos “desertos alimentares”, produzidos por uma combinação de fatores: comida ultraprocessada, desperdício e um modelo de produção e consumo estimulado pelo agronegócio. Trata-se de um quadro de crise que afeta negativamente os indivíduos e cria graves problemas de saúde pública.

Nosso “perfil” faz uma homenagem ao professor José Carlos Prates, que, aos 85 anos, desenvolveu uma trajetória profissional que se confunde com a história da própria Escola Paulista de Medicina, à qual dedicou boa parte de sua vida. Também trazemos como destaque uma importante pesquisa desenvolvida pelo escritor e pós-doutorando Ricardo Lísias sobre como são escritas as memórias e histórias que lidam com os efeitos da transição entre o regime instituído em 1964 e a redemocratização brasileira.

Oferecemos, enfim, uma edição bastante “movimentada” e conectada a alguns dos problemas mais centrais do mundo contemporâneo, sempre procurando oferecer análises em profundidade e perspectivas para sair da crise.

Desejamos a todos uma boa leitura!

Expediente

Editorial :: Avaliação de impacto permite aprimorar os programas da Unifesp

Carta da reitora :: Educação e conhecimento: um lugar para os estudos avançados na Unifesp

Entrevista • Renato Janine :: Nada é poupado pela velocidade das mudanças

Perfil • José Carlos Prates :: Querido Chefão da EPM

Capa :: Deserto alimentar faz soar alarme no Brasil

Nutrição :: Faca de dois gumes

Medicina :: O lado obscuro da beleza

Cobra-cega :: Novas perspectivas de cura para a cirrose

Genética :: Doença pulmonar negligenciada pode matar até 1% da população

Infecção sexualmente transmissível :: Adolescentes com HIV não sabem negociar o uso do preservativo

HIV :: Muito próximo da cura

Biodegradantes :: Cientistas descobrem bactérias que se alimentam de petróleo

Saúde pública :: Excesso de anti-inflamatório prejudica biota marinha

Saúde pública :: Efluentes causam lesões celulares graves no DNA de ratos

Vida virtual :: Uso abusivo da internet favorece problemas psiquiátricos

Neuroimagem :: Ressonância magnética promete ajudar na detecção precoce da depressão

THC :: Canabinoides contra o alcoolismo

Musicoterapia :: Sons da reintegração

Balões :: Festa no céu, conflito na terra 

Literatura :: Narradores indagam os tempos da ditadura e o seu legado

Biocerâmica :: Técnica de injeção garante cimento ósseo mais coeso e resistente

Osteogênese :: Nanotecnologia entre dentes

Tecnologia :: Estudantes constroem aparelho de baixo custo com impressora 3D

Efemérides
:: Simpósio e Diplomação de Novos Membros Afiliados da Academia Brasileira de Ciências
:: Homenagem a Celina Turchi Martelli
:: International Conference on Policy Diffusion and Development Cooperation

Publicado em Entreteses
Segunda, 18 Dezembro 2017 14:10

Edição 9 - Entreteses

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Versão em PDF

Dezembro 2017

No momento em que os cortes sucessivos no orçamento das universidades públicas e da ciência brasileira ameaçam o futuro do país, milhares de professores, pesquisadores e estudantes se recusam a abandonar seus projetos. E mostram, por meio de novas conquistas no campo da ciência, tecnologia e inovação (CT&I), que a produção do conhecimento é um componente indispensável ao processo de desenvolvimento da nação.

Nesta edição de Entreteses, o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich, é o entrevistado e faz um balanço da ciência nacional e do risco de colapso ao qual pode ser submetida se não houver a manutenção mínima de recursos.

Na série especial de capa, apresentamos parte da produção realizada pelo Instituto do Mar (IMar), que evidencia o pioneirismo da Unifesp como instituição federal ao instalar-se na costa litorânea do Estado de São Paulo. As ações de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas no âmbito das Ciências do Mar focam três grandes áreas (social, biológica e ambiental), atendem estrategicamente às demandas da região da Baixada Santista e fortalecem o país. Nessas páginas trazemos pesquisas voltadas à melhoria dos processos de extração de petróleo, proveniente tanto da camada de pré-sal quanto de reservatórios subterrâneos. A camada de pré-sal foi uma das descobertas mais significativas da última década em todo o mundo, que incluiu o Brasil entre os dez primeiros países no ranking de produção petrolífera.

Mostramos também que o Brasil tem um cinturão solar, não explorado, para a geração de energia e que uma parceria com a Argentina e o Paraguai permitirá obter informações relevantes sobre o clima, passíveis de ser aproveitadas para a gestão de recursos hídricos, a geração de energia elétrica e até mesmo a agricultura. Ainda nessa série, o leitor poderá aferir a riqueza da biodiversidade marítima brasileira e a importância do monitoramento de suas espécies.

No perfil, fazemos uma homenagem ao crítico e sociólogo Antonio Candido, compartilhando sua rica história de vida e o valor de seu legado para as futuras gerações. Esse trabalho de pesquisa primoroso, realizado por Celina M. Brunieri e Felipe Costa, membros da equipe de Entreteses, é complementado por conteúdos que figuram na versão digital desta edição.

Desejamos a todos uma boa leitura!

Publicado em Entreteses
Sexta, 15 Dezembro 2017 08:47

Perfil Antonio Candido - complemento

Professor Antonio Candido

Principais títulos acadêmicos

  • 1944 – Livre-docente em Literatura Brasileira – FFCL-USP
  • 1954 – Doutor em Ciências Sociais – FFCL-USP
  • 1964-1966 – Professor-associado da Universidade de Paris
  • 1968 – Professor-visitante da Universidade de Yale
  • 1974 – Professor titular de Teoria Literária – FFLCH-USP
  • 1984 – Professor emérito da USP
  • 1987 – Professor honoris causa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
  • 1988 – Professor emérito da Faculdade de Ciências e Letras de Assis (Unesp)
  • 2005 – Doutor honoris causa da Universidade Estadual Paulista (Unesp)
  • 2006 – Professor honoris causa da Universidade da República do Uruguai

Principais prêmios

  • 1960 – Prêmio Jabuti - Categoria: História Literária - Livro: Formação da Literatura Brasileira 
  • 1965 – Prêmio Jabuti - Categoria: Poesia - Livro: Os Parceiros do Rio Bonito
  • 1966 – Prêmios Jabuti - Categoria: Personalidade Literária do Ano/ Categoria: Estudos Literários (Ensaios) - Livro: Literatura e Sociedade 
  • 1978 – Prêmio Jabuti - Categoria: Personalidade Literária do Ano
  • 1993 – Prêmio Jabuti - Categoria: Estudos Literários (Ensaios) - Livro: Brigada Ligeira e Outros Escritos 
  • 1993 – Prêmio Machado de Assis - Academia Brasileira de Letras
  • 1994 – Prêmio Jabuti - Categoria: Estudos Literários (Ensaios) - Livro: O Discurso e a Cidade
  • 1996 – Prêmio Anísio Teixeira - Capes/ MEC
  • 1998 – Prêmio Camões de Literatura
  • 2000 – Prêmio Jabuti - Categoria: Amigo do Livro
  • 2005 – Prêmio Internacional Alfonso Reyes
  • 2007 – Prêmio Intelectual do Ano - Troféu Juca Pato - União Brasileira de Escritores

Principais obras publicadas (1ªs edições)

  • Brigada Ligeira. Livraria Martins Editora, [1945].
  • Introdução ao método crítico de Sílvio Romero. Revista dos Tribunais, 1945 [tese de livre-docência].
  • Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. José Olympio, 1964 [tese de doutoramento].
  • Ficção e confissão: estudo sobre a obra de Graciliano Ramos. José Olympio, 1956.
  • Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Livraria Martins Editora, 1959 [dois volumes].
  • O observador literário. Conselho Estadual de Cultura, 1959.
  • Tese e antítese: ensaios. Companhia Editora Nacional, 1964.
  • Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. Companhia Editora Nacional, 1965.
  • Vários escritos. Duas Cidades, 1970.
  • Teresina etc. Paz e Terra, 1980.
  • Na sala de aula: caderno de análise literária. Ática, 1985.
  • A educação pela noite e outros ensaios. Ática, 1987.
  • O estudo analítico do poema. FFLCH-USP, [1987?]
  • Recortes. Companhia das Letras, 1993.
  • O discurso e a cidade. Duas Cidades, 1993.
  • Lembrando Florestan Fernandes. Fundação Perseu Abramo, 2001.
  • Iniciação à literatura brasileira (Resumo para principiantes). Humanitas, 1997.
  • O Romantismo no Brasil. Humanitas, 2002.
  • Um funcionário da Monarquia: ensaio sobre o segundo escalão. Ouro sobre Azul, 2002.
  • A personagem de ficção. Perspectiva, 1968 [em coautoria].
  • Presença da literatura brasileira: história e antologia. Difel, 1964 [três volumes]- [em coautoria].
  • Política cultural. Mercado Aberto/ Fundação Wilson Pinheiro, 1984 [em coautoria].
  • USP: 1968-1969. Hélio Lourenço de Oliveira. Edusp, 1995 [em coautoria].
  • Antonio Candido: Remate de Males [número especial]. Unicamp, 1999 [antologia].
  • Textos de intervenção. Duas Cidades/ Editora 34, 2002 [antologia].

 

Profª Gilda Rocha de Mello e Souza

Perfil acadêmico 

Nascida em São Paulo, em 24 de março de 1919, com o nome de Gilda de Moraes Rocha, foi criada em Araraquara, no interior do Estado. Foi uma das primeiras mulheres a estudar na Faculdade de Filosofia da USP, na qual ingressou em 1937 e se graduou como bacharel em 1940. Integrou-se à equipe de intelectuais que, entre 1941 e 1944, produziu a revista Clima e que exerceu importante papel na vida cultural do país.

Em 1942 foi nomeada assistente da cadeira de Sociologia I, então dirigida por Roger Bastide. Sob a orientação desse professor, defendeu – em 1950 – a tese de doutorado, que denominou A Moda no Século XIX e que, dois anos depois, seria publicada na Revista do Museu Paulista

Em 1954, a convite de João Cruz Costa (1904-1978), transferiu-se para o Departamento de Filosofia, incumbindo-se da área de Estética. Foi fundadora dessa cadeira, na qual lecionou até a aposentadoria, em 1973. 

Entre 1969 e 1972, durante a ditadura militar, exerceu a chefia do departamento em questão, período em que criou a revista Discurso, veiculada até hoje.

Em 1943 casou-se com Antonio Candido de Mello e Souza, que conhecera na Faculdade de Filosofia da USP e pertencia à equipe de Clima. Dessa união, que perdurou por mais de 60 anos, nasceram três filhas: Ana Luisa Escorel, Laura de Mello e Souza e Marina de Mello e Souza. 

Ensaísta, crítica de arte e eminente pesquisadora na área de Estética e Filosofia da Arte, recebeu o título de professora emérita da FFLCH-USP em maio de 1999. Faleceu em 25 de dezembro de 2005.

Entre as obras de sua autoria, citam-se: A Palavra Afiada (2014), O Tupi e o Alaúde: uma Interpretação de Macunaíma (1979), Exercícios de Leitura (1980), O Espírito das Roupas: a Moda no Século XIX (1987) e A Ideia e o Figurado (2005).

Fontes: Departamento de Filosofia - USP. CNPq - Memória/ Pioneiras. Agência Fapesp (vide referências).

 

Ana Luisa Escorel

Perfil profissional

Formada pela Escola Superior de Desenho Industrial, no Rio de Janeiro, atua como designer gráfica desde 1970 e é autora dos livros Brochura Brasileira: Objeto sem Projeto (1974) e O Efeito Multiplicador do Design (1999), ambos voltados para a área em questão. Fundou a editora Ouro sobre Azul, que vem publicando, entre outras, a obras de Antonio Candido. Tendo incursionado pelo terreno da literatura, escreveu O pai, a mãe e a filha (memórias), de 2010; Anel de vidro (2013), que em 2014 recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura, concedido pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo ao melhor romance do ano; e De tudo um pouco (crônicas), de 2016. Além de distinções específicas de sua área profissional de origem, recebeu em 2015 o Prêmio Jabuti de projeto gráfico, concedido pela Câmara Brasileira do Livro à obra Livro dos Ex-Libris. 

 

Profª Laura de Mello e Souza

Perfil acadêmico

Obteve os títulos de doutora em História Social e livre-docente em História Moderna pela USP. Desde 1983 foi docente do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, aposentando-se em 2014 como professora titular de História Moderna. Nesse mesmo ano, assumiu a cátedra de História do Brasil na Universidade de Paris IV- Sorbonne (França). Foi professora-visitante de universidades europeias e norte-americanas. Entre as linhas de pesquisa que desenvolveu, incluem-se a história de Minas Gerais no século XVIII e os estudos culturais e sociopolíticos do império português nos séculos XVI-XVIII. É membro da Academia Brasileira de Ciências, figurando como autora de importantes obras da historiografia nacional, tais como: Desclassificados do Ouro: a Pobreza Mineira no Século XVIII, O Diabo e a Terra de Santa Cruz: Feitiçaria e Religiosidade Popular no Brasil Colonial, Opulência e Miséria das Minas Gerais, O Sol e a Sombra: Política e Administração na América Portuguesa do Século XVIII e Cláudio Manuel da Costa: o Letrado Dividido. Dentre as várias distinções que lhe foram conferidas, destacam-se o Prêmio Casa-Grande e Senzala, da Fundação Joaquim Nabuco (1994); o Prêmio Jabuti (edições de 1998, 2007 e 2012), da Câmara Brasileira do Livro; a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico, da Presidência da República (2002); e o Prêmio da Academia Brasileira de Letras (2007). 

 

Profª Marina de Mello e Souza

Perfil acadêmico

Doutorou-se em História Social pela Universidade Federal Fluminense e, em 2001, ingressou como docente do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Por essa mesma instituição obteve o título de livre-docente em História da África (séculos XVI-XIX). Dedica-se à pesquisa da história da África, escravidão e cultura afro-brasileira – entre outras vertentes conexas –, paralelamente aos temas da cultura popular, folclore e artesanato. Publicou artigos em periódicos especializados e é autora das obras África e Brasil Africano, Paraty: a Cidade e as Festas e Reis Negros no Brasil Escravista: História da Festa de Coroação de Rei Congo. Entre as distinções que recebeu, destaca-se o Prêmio Jabuti (edição de 2007), concedido pela Câmara Brasileira do Livro à obra África e Brasil Africano, na categoria de livro didático e paradidático.

 

REFERÊNCIAS

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Publicado em Edição 09