Título do Projeto

Coordenador

Agência de Fomento

Período

Avaliação dos efeitos da acidificação dos oceanos sobre a biodisponibilidade de poluentes emergentes - Acidocean (Auxílio regular - Fapesp # 2017/07353-7)

Augusto Cesar

Fapesp

2017-2019

Desenvolvimento de plataforma para avaliação de risco ambiental em ecossistemas marinhos

Augusto Cesar

MCTI/Finep/CT-Infra

2013-2017

Avaliação ecotoxicológica escalonada do impacto de poluentes emergentes associado ao emissário submarino de Santos - Ecomar

Augusto Cesar

CNPq

2012-2015

Efeito do CO2 sobre a biodisponibilidade de contaminantes em sedimentos Marinhos associados a vazamentos de reservatórios petrolíferos (ECO2Mar).

Augusto Cesar

CNPq/Capes

2012-2015

Desenvolvimento de protocolos para a avaliação de risco ambiental de produtos farmacêuticos introduzidos em ecossistemas marinhos - Ambmar

Augusto Cesar

MCTI/Finep/CT-Infra

 

Análise das pescarias, dinâmica populacional e variabilidade genética da pescada-cambucu (Cynoscion virescens) e da pescada-amarela (Cynoscion acoupa) na bacia de Santos (23?29°S)

Bruno Leite Mourato

CNPq

2014-2017

Avaliação do risco ambiental de drogas ilícitas em ecossistemas marinhos

Camilo Dias Seabra Pereira

Fapesp

2016-2018

Avaliação do risco ambiental de fármacos em ambientes marinhos

Camilo Dias Seabra Pereira

Universal CNPq

2013-2016

Componentes da diversidade beta em peixes de riachos costeiros da Baixada Santista (SP)

Fabio Cop Ferreira

Fapesp

2016-2018

Avaliação da efetividade do Parque Estadual Marinho da Laje de Santos e das Estações Ecológicas Tupinambás e Tupiniquins, litoral do Estado de São Paulo

Fabio dos Santos Motta

Fundação SOS Mata Atlântica

2015 - 2016

Desenvolvimento de materiais de sensores baseados em filmes automontados de polímeros condutores e nanotubos de carbono para a determinação de Desreguladores Endócrinos em ambientes marinhos

Fábio Ruiz Simões

Fapesp

01/03/2015 a 28/02/2017

Biodiversidade molecular e conservação de tubarões: banco genético, estruturas populacionais e rede internacional de colaboração científica

Fernando Fernandes Mendonça

Fapesp

2012-2016

Avaliação espectral da irradiância solar no território Brasileiro e cenários de aproveitamento solar

Fernando Ramos Martins

CNPq

2014-2017

Programa Novas Parcerias (Nopa) Brasil/Alemanha – Otimização de sistemas fotovoltaicos para as condições ambientais brasileiras

Fernando Ramos Martins

Capes

2015-2017

The environmental impact of biofuel production. Functional bio-indicators for sustainable and optimal biofuel production

Flávia Talarico saia

Fapesp/Bebasic

2013-2016

Utilização da vinhaça para produção de hidrogênio e metano em reatores termofílicos de duas fases - reator acidogênico seguido de reator metanogênico

Flávia Talarico saia

Fapesp

2012-2015

A sub-bacia do rio Javari no contexto do projeto Peixes Amazônicos e Mudanças Climáticas - Amazonfish Brasil

Gislene Torrente Vilara

Fapesp

2016-2019

Influência da sedimentação na herbivoria de macroalgas do maior complexo recifal do Atlântico Sul: Banco dos Abrolhos

Guilherme Henrique Pereira Filho

CNPq

18/11/2014 a 30/11/2017

Avaliação de processos que determinam a formação e a biodiversidade associada a bancos de rodolitos em diferentes escalas espaciais

Guilherme Henrique Pereira Filho

Fapesp

01/03/2017 a 28/02/2019

Diversidade metagenômica do femto-, pico- e nanoplâncton em ambientes costeiros do Estado de SP

Gustavo Bueno Gregoracci

Fapesp

2015-2017

Aprimoramento dos hindcasts sazonais do modelo CFSv2 para o litoral de São Paulo e aplicação no estudo dos organismos do entremarés rochoso

Gyrlene Aparecida Mendes da Silva

CNPq

2017-2020

Alterações em conchas de Lottia subrugosa como possível biomarcador para áreas costeiras multi-impactadas

Ítalo Braga de Castro

Fapesp

02/02/2016 a 02/02/2018

Uso de halófitas costeiras no biomonitoramento e biorremediação de sedimentos contaminados por micropoluentes utilizados em sistemas anti-incrustantes

Ítalo Braga de Castro

Finep

05/06/2015 a 05/05/2019

Assimilação, acumulação e degradação do TBT por Spartina alterniflora

Ítalo Braga de Castro

CNPq

02/11/2014 a 02/11/2016

Orientador de Agentes Locais de Inovação (ALI) pelo CNPq e Sebrae (Santos e São Paulo-Centro)

José Alberto Carvalho dos Santos Claro

CNPq - Sebrae

2012-2014

Caracterização das heterogeneidades e modelagem de análogos de reservatórios em depósitos fluviais e eólicos

Liliane Janikian Paes de Almeida

Fapesp

2016-2018

Desenvolvimento de metodologias para determinar propriedades de petróleos brasileiros e a precipitação onset dos asfaltenos.

Lúcio Leonel Barbosa

Fapesp

2017-2019

Scenario, fishery, ecological-economic modelling and viability network (Seaview)

Luiz Felipe Mendes de Gusmão

Fapesp

2015-2017

Filogenômica da ordem Scleractinia (Cnidaria, Anthozoa): relações entre evolução da ordem e mudanças climáticas

Marcelo V Kitahara

Fapesp

2017-2020

Competências e condições psicológicas de universitários

Nancy Ramacciotti de Oliveira Monteiro

Fapesp

2016-2018

A governança das águas subterrâneas no Estado de São Paulo

Pilar Carolina Villar

CNPq Universal

2016-2018

Transferring climate knowledge in the science-policy interface for adaptation to drought in Uruguay

Renzo Romano Taddei

IAI

2014-2017

Towards usable climate science - Informing sustainable decisions and provision of climate services to the agriculture and water sectors of southeastern South America

Renzo Romano Taddei

IAI

2012-2017

Climate services through knowledge co-production: a Euro-South American initiative for strengthening societal adaptation response to extreme events

Renzo Romano Taddei

Fapesp/Belmont Forum

2016-2020

Efeito dos substratos artificiais na redução do estresse em camarões cultivados intensivamente com a tecnologia de bioflocos e estudo da diversidade bacteriana do sistema

Rodrigo Schveitzer

CNPq

17/11/2014 a 30/11/2017

Desenvolvimento de um Esquema Simples de Avaliação e Identificação da Toxicidade (AIT) de sedimentos marinhos utilizando um organismo bentônico (Nitokra sp.)

Rodrigo Brasil Choueri

CNPq

2013-2016

Avaliação ecotoxicológica de sedimentos contaminados em cenários futuros de acidificação e aquecimento do meio Marinho

Rodrigo Brasil Choueri

Fapesp

2017-2019

Força de interações ecológicas e a mediação ambiental em sistemas costeiros

Ronaldo Christofoletti

Fapesp

2017-2019

Interação entre processos ecológicos ascendentes e herbívoros regulando os produtores primários no entremarés rochoso subtropical

Ronaldo Christofoletti

CNPq

2014-2018

Rede de Monitoramento de Ecossistemas Bentônicos Estuarinos: Estação Ecológica Juréia-Itatins (SP) e Baía de Paranaguá (PR) como modelos regionais para estudos sobre mudanças climáticas

Ronaldo Christofoletti

Fundação Grupo Boticário

2013-2017

Balanço entre processos ascendentes e descendentes reguladores de um sistema presa-predador do entremarés de costões rochosos: uma comparação inter-hemisférica

Ronaldo Christofoletti

CNPq

2012-2015

Monitoramento ambiental do Parque Estadual Marinho da Laje de Santos: subprojeto Plâncton

Ronaldo Christofoletti

Petrobrás

2012-2016

Desenvolvimento de catalisadores sólidos baseados em óxidos semicondutores para produção de hidrogênio a partir da fotólise de água

Yvan Jesus Olortiga Asencios

Fapesp

01/02/2017 a 01/02/2019

Caracterização físico-química de materiais derivados de macroalgas do litoral da Baixada Santista e seu uso como filtro purificador de água.

Yvan Jesus Olortiga Asencios

CNPq

01/05/2017 a 01/05/2019
Publicado em Edição 09

Pesquisa, financiada pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com as universidades federais do Rio de Janeiro e do ABC, mede o impacto da proteção ambiental em unidades de conservação

Ana Cristina Cocolo

Barco com pesquisadores

Imagem: Fernando Moraes

Mergulhador instalando equipamento

Imagem: Fernando Moraes

Entreteses p39 arraia

Imagem: Leo Francini

Entreteses p39 pesquisadores

As pesquisas de Fábio Motta (de azul) e Guilherme Henrique Pereira Filho envolvem várias unidades de conservação ambiental e contam com a parceria de diversos institutos e órgãos, como a Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade / Imagem: arquivo pessoal

O litoral do Estado de São Paulo reserva belezas impressionantes e uma biodiversidade riquíssima que está sendo foco cada vez mais de estudos, principalmente, no que diz respeito à proteção ambiental.

Desde 2015, Fábio dos Santos Motta e Guilherme Henrique Pereira Filho, docentes e coordenadores do Laboratório de Pesquisa em Ecologia e Conservação Marinha (LabecMar) do Instituto do Mar (IMar/Unifesp) – Campus Baixada Santista, estão à frente de um projeto de monitoramento da biodiversidade marinha do litoral paulista, com o intuito de medir os impactos da conservação à longo prazo de três áreas já protegidas: o Parque Estadual Marinho da Laje de Santos – um dos principais destinos turísticos de mergulho, a 42 km da costa – e as estações ecológicas Tupinambás – que desde 1987 abrange parte das ilhas do Arquipélago dos Alcatrazes, localizado a 34 km da costa de São Sebastião – e Tupiniquins – que abrange as ilhas de Peruíbe, Camboriú, Castilho e Queimada Pequena, localizadas entre os municípios de Cananéia e Peruíbe. 

Além delas, a equipe também realiza estudos no entorno da Ilha da Queimada Grande, a 35 km do litoral de Itanhaém e de Peruíbe. A ilha é uma Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie) e suas águas integram a Área de Proteção Ambiental (APA) Marinha do Litoral Centro, onde a pesca é permitida. O local também é conhecido como Ilha das Cobras, devido ao elevado número de serpentes da espécie jararaca-ilhoa. Seu entorno é rico em corais, peixes e espécies ameaçadas de extinção, como as tartarugas marinhas. 

O projeto Avaliação da Efetividade do Parque Estadual Marinho da Laje de Santos e das Estações Ecológicas Tupinambás e Tupiniquins, que é financiado pela Fundação SOS Mata Atlântica e conta com a parceria das universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ) e do ABC (UFABC), inclui uma série de estudos que buscam inventariar a biodiversidade, mapear novos habitats e, sobretudo, medir o impacto da proteção ambiental dessas unidades de conservação (UCs). 

De acordo com Motta, resultados preliminares de mais de 400 mergulhos e 2 mil fotos realizadas até o momento possibilitaram a descoberta e a caracterização de ambientes marinhos pouco conhecidos, além de uma avaliação geral da “saúde” dessas áreas por meio da análise de organismos (algas, corais e outros invertebrados) nos recifes rochosos e da quantidade (biomassa) e da diversidade de peixes encontrados. “A biomassa de peixes registrada nas áreas protegidas de Laje de Santos e da Estação Ecológica de Tupinambás foi significativamente superior à encontrada na área desprotegida da Ilha da Queimada Grande, ainda que essa área compreenda atributos naturais de grande relevância como, por exemplo, uma cobertura significativa de corais”, afirma. 

Para seu companheiro de pesquisas, Guilherme Pereira Filho, apesar dos desafios relacionados à falta de recursos e às ameaças diversas, como a pesca ilegal, as UCs têm conseguido, por meio de parcerias com os centros de pesquisa, avançar e aprimorar suas gestões. Tendo em mente a importância do conhecimento científico na gestão da biodiversidade marinha, o LabecMar tem despendido esforços para implementar um acordo de cooperação técnica entre o Imar/Unifesp e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O acordo visa ao aprimoramento e expansão do programa de monitoramento que, agora, também terá a missão de subsidiar o ordenamento das atividades de mergulho contemplativo no Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes. Para essas novas atividades, o LabecMar conta com apoio do Instituto Linha D'Água.

Além das atividades no litoral paulista, o grupo liderado por Motta e Pereira Filho também integra a Rede Abrolhos, que desenvolve pesquisas aplicadas à conservação do Banco dos Abrolhos, localizado no sul do litoral da Bahia. No local, além de monitorarem a “saúde” dos recifes de corais, o grupo estuda a influência do sedimento depositado nas algas sobre o comportamento alimentar dos peixes e a diversidade dos bancos de algas calcárias (rodolitos, também chamados de rochas vivas). “Estamos demonstrando que o aumento de sedimento diminui o quanto os peixes conseguem comer das algas”, explica Pereira Filho. “Se os peixes comerem pouco das algas, elas proliferam-se, levando à morte dos corais”.

Artigos relacionados:

RIBEIRO, Felipe de Vargas; PADULA, Vinicius; MOURA, Rodrigo Leão de; MORAES, Fernando Coreixas de; SALOMON, Paulo Sergio; GIBRAN, Fernando Zaniolo; MOTTA, Fabio dos Santos; PEREIRA, Renato Crespo; AMADO FILHO, Gilberto Menezes; PEREIRA FILHO, Guilherme Henrique. Massive opisthobranch aggregation in the largest coralline reefs in the South Atlantic Ocean: are mesoherbivores underestimated top-down players? Bulletin of Marine Science, v. 93, n. 3, p. 915-916, jul. 2017. Disponível em: <http://www.ingentaconnect.com/contentone/umrsmas/bullmar/2017/00000093/00000003/art00017>. Acesso em: 8 nov. 2017.

AMADO FILHO, Gilberto Menezes; MOURA, Rodrigo Leão de; BASTOS, Alex C.; FRANCINI FILHO, Ronaldo B.; PEREIRA FILHO, Guilherme Henrique; BAHIA, Ricardo G.; MORAES, Fernando Coreixas de; MOTTA, Fabio dos Santos. Mesophotic ecosystems of the unique South Atlantic atoll are composed by rhodolith beds and scattered consolidated reefs. Marine Biodiversity, v. 46, n. 4, p. 933-936, dez. 2016. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007/s12526-015-0441-6>. Acesso em: 8 nov. 2017.

Publicado em Edição 09
Terça, 16 Janeiro 2018 15:27

Rei dos mares em perigo

Núcleo de pesquisa desenvolve marcadores genéticos que auxiliam na fiscalização da pesca ilegal de espécies de tubarão e raias

Lu Sudré

imagem de um tubarão no mar

Imagem: enz1m3 (CC BY-SA 2.0)

A captura de tubarões aumentou significativamente nos últimos anos e pode levar algumas espécies à extinção. O alarmante cenário é resultado, principalmente, da intensificação do consumo de uma sopa produzida com as nadadeiras do animal, muito apreciadas em algumas culinárias, especialmente a da China, além do consumo de sua carne. Atualmente a pesca movimenta um lucrativo mercado globalizado, tendo o Brasil como um grande exportador das nadadeiras, que são enviadas principalmente por meio dos portos em Itajaí (SC), Belém (PA) e Natal (RN). 

Legalizado no país, o comércio das barbatanas deve seguir regulamentações como a obrigatoriedade de identificação de todas as espécies no livro de bordo das embarcações e em todo o processo até o despacho para China, além da indispensabilidade do desembarque dos tubarões com suas nadadeiras naturalmente aderidas, como forma de combate à prática do finning, método em que apenas as nadadeiras são cortadas, seguido da devolução dos tubarões ao mar. Os poucos tubarões que resistem ao processo sofrem uma morte lenta e dolorosa. 

Apesar da lei, a prática ainda é muito registrada. Barcos estrangeiros já tiveram grandes lotes de barbatanas apreendidos devido a irregularidades quanto à declaração das espécies, fato que configura crime ambiental. 

A identificação morfológica dos tubarões é um dos empecilhos na fiscalização de diversas espécies protegidas, já que são animais muito semelhantes entre si e que, ainda por vezes, têm suas cabeças e nadadeiras cortadas antes do desembarque, fator que atrapalha o trabalho nas estatísticas pesqueiras. De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), apenas 20% do total das capturas de tubarões e raias no Brasil recebem alguma menção à classificação taxonômica e, mesmo assim, na maioria dos casos refere-se apenas aos nomes populares, e, muitas vezes, esta identificação é referência para mais de uma espécie.

Coordenado pelo docente Fernando Fernandes Mendonça, o Núcleo de Genética Pesqueira e Conservação (Genpesc) do Laboratório de Biotecnologia Marinha do Instituto do Mar (IMar/Unifesp) – Campus Baixada Santista passou a aplicar a genética forense em tubarões e raias, resultando no desenvolvimento de marcadores genéticos para a identificação das espécies mais frequentes nas pescarias e que pode até mesmo apoiar investigações e processos de órgãos oficiais do governo no combate à captura e comércio de espécies ameaçadas. 

mendonça

Mendonça aplica genética forense para a identificação de espécies desde sua pesquisa de mestrado, desenvolvida em 2006

“As amostras para estudos científicos, pequenos fragmentos de qualquer parte dos tubarões, são recolhidas nos desembarques da pesca e em pontos de venda. Em seguida são levadas ao laboratório para análise. Nesses estudos são comumente encontrados exemplares do tubarão-martelo Sphyrna lewini, dos cações-anjo Squatina guggenheim e Squatina oculta e da raia-viola Pseudobatus horkelli. Todas estas espécies ameaçadas e sob proteção legal com proibição da captura, embarque e comercialização”, afirma Mendonça. 

Após desenvolver métodos que utilizam regiões específicas do genoma e geram fragmentos de análises em eletroforese, técnica usada para separar fragmentos de DNA, o Genpesc passou a utilizar também a metodologia de DNA Barcoding, que possibilita a leitura das sequências de DNA em um determinado gene e permite a identificação de espécies de maneira semelhante a um código de barras comum.

Segundo Mendonça, em uma análise de DNA de uma apreensão de nadadeiras efetuada pelo Ibama no litoral do Rio Grande do Norte, foi comprovado o crime ambiental em ao menos 12% das nadadeiras destinadas à China, pela declaração falsa do nome das espécies. Além das declarações falsas, também foi identificado a pesca e comércio de espécies ameaçadas e atualmente protegidas no Brasil, dentre elas o tubarão-das-galápagos Carcharhinus galapagensis, (criticamente ameaçado), cação-fidalgo Carcharhinus obscurus (ameaçado) e tubarão-bico-fino Carcharhinus perezi (vulnerável).

Considerada uma iguaria na China e símbolo de ascensão social, a sopa de barbatanas é um consumo antigo dos povos chineses e, além do status social, foi difundida como um prato de características medicinais e afrodisíacas. Atualmente, existem diversos grupos de ambientalistas que combatem a exploração dos tubarões para este fim. “O fim da cultura do consumo deve ser ainda mais trabalhado do que o próprio combate à captura e comércio dos tubarões”, pontua Mendonça.

Artigos relacionados:

DE FRANCO, Bruno Alexandre; FORESTI, Fausto; MENDONÇA, Fernando Fernandes; OLIVEIRA, Claudio. Illegal trade of the guitarfish Rhinobatos horkelii on the coasts of central and southern Brazil: genetic identification to aid conservation. Aquatic Conservation, v. 22, n. 2, p. 272-276, mar. 2012. Disponível em: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/aqc.2229/abstract>. Acesso em: 10 nov. 2017.

MENDONÇA, Fernando Fernandes; HASHIMOTO, Diogo Teruo; DE FRANCO, Bruno Alexandre; FORESTI, Fábio Porto; GADIG, Otto Bismarck Fazzano; OLIVEIRA, Claudio; FORESTI, Fausto. Genetic identification of lamniform and carcharhiniform sharks using multiplex-PCR. Conservation Genetics Resources, v. 2, p. 31–35, dez. 2010. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/225758438_Genetic_identification_of_Lamniform_and_Carcharhiniform_sharks_using_multiplex-PCR>. Acesso em: 10 nov. 2017.

MENDONÇA, Fernando Fernandes; HASHIMOTO, Diogo Teruo; FORESTI, Fábio Porto; OLIVEIRA, Claudio; GADIG, Otto Bismarck Fazzano; FORESTI, Fausto. Identification of the shark species Rhizoprionodon lalandii and R-porosus (Elasmobranchii, Carcharhinidae) by multiplex PCR and PCR-RFLP techniques. Molecular Ecology Resources, v. 9, n. 3, p. 771–773, maio 2009. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/51119542_Identification_of_the_shark_species_Rhizoprionodon_lalandii_and_R-porosus_Elasmobranchii_Carcharhinidae_by_multiplex_PCR_and_PCR-RFLP_techniques>. Acesso em: 10 nov. 2017.

CAMARGO, Sâmia M.; COELHO, Rui; CHAPMAN, Demian; HOWEY-JORDAN, Lucy; BROOKS, Edward J.; FERNANDO, Daniel; MENDES, Natalia J.; HAZIN, Fabio H. V.; OLIVEIRA, Claudio; SANTOS, Miguel N.; FORESTI, Fausto; MENDONÇA, Fernando Fernandes. Structure and genetic variability of the oceanic whitetip shark, Carcharhinus longimanus, determined using mitochondrial DNA. Plos One, v. 11, n. 5, maio 2016. Disponível em: <http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0155623>. Acesso em: 10 nov. 2017.

Publicado em Edição 09
Terça, 16 Janeiro 2018 15:06

Até cocaína polui o mar

Grandes quantidades de fármacos e drogas ilícitas são encontradas na Baía de Santos, graças ao uso excessivo e descarte inadequado por parte da população e à falta de tratamento de esgoto

Lu Sudré

A imagem mostra vários pesquisadores com luvas processando água coletada

Pesquisadores analisam águas coletadas próximo ao emissário submarino da Baía de Santos (imagem: arquivo pessoal)

Anti-inflamatórios, anti-hipertensivos, analgésicos e até mesmo cocaína estão entre as substâncias encontradas em grande quantidade nas águas da Baía de Santos, litoral de São Paulo. A constatação é apresentada em estudo inédito coordenado pelo ecotoxicologista Camilo Seabra, do Instituto do Mar (IMar/Unifesp) – Campus Baixada Santista, com a colaboração dos docentes Daniel Araki Ribeiro e Augusto Cesar, do Departamento de Biociências e Ciências do Mar, respectivamente, além de Luciane Maranho, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Luciana Guimarães, da Universidade Santa Cecília (Unisanta) e do Centro de Espectrometria de Massas Aplicada (Cemsa). O monitoramento da água para estudos toxicológicos é feito desde 2014 em cinco pontos próximos ao Emissário Submarino de Santos, instalado em 1978 com o objetivo de difundir, em alto mar, o material tratado pela estação de esgoto da região.

Dentre os 32 fármacos encontrados na pesquisa, destacam-se o ibuprofeno, paracetamol, diclofenaco, losartan e valsartan. A cocaína e seu metabólito benzoilecgonina, que seria a substância transformada pelo fígado, assim como a cafeína presente nos medicamentos, foram identificadas em todas as amostras e em concentrações semelhantes às dos fármacos. “Essas substâncias estão presentes nas águas devido ao lançamento de esgoto sem tratamento e descarte inadequado, no caso dos fármacos. Em relação à cocaína, as concentrações demonstram altos níveis de consumo e manipulação nos municípios de Santos e parte de São Vicente, servidos pela rede de esgoto ligada ao emissário”, afirma Seabra. No monitoramento de 2017, a droga e seu metabólito foram detectadas em todas as estações do ano, com pico no final do verão, próximo ao carnaval.

Camilo Seabra

Camilo Seabra, do Instituto do Mar (IMar/Unifesp)

Coletadas a aproximadamente 4,5 km da praia e a dez metros de profundidade, as amostras evidenciam que essas substâncias não são eliminadas no tratamento do esgoto doméstico. O pesquisador acredita que é preciso um tratamento mais avançado do que o atualmente empregado nas cidades brasileiras, especialmente em municípios costeiros que fazem uso de emissários submarinos e jogam ao mar esgotos sem sequer tratamento primário. Na avaliação de Seabra, a redução da introdução dos fármacos em ambientes aquáticos também depende da conscientização da população e conhecimento sobre os pontos de coletas específicos, como, por exemplo, redes farmacêuticas, ao invés do descarte em pias e vasos sanitários. 

A automedicação e a medicamentação excessiva são apontadas pelo pesquisador como outro importante fator a ser discutido. Já em relação às drogas ilícitas, a única saída é a conscientização do usuário e tratamento dos dependentes. “A partir da contaminação ambiental, o usuário não está somente se intoxicando e comprometendo a sua saúde, mas está contaminando águas de abastecimento e contato primário, provocando um problema de saúde ambiental que atinge a todos”, comenta o docente.

O projeto identificou as consequências dessa poluição química, que tem seus efeitos adversos bem descritos para mamíferos, mas que são pouco conhecidos quando se trata da biota marinha. “Estudos recentes revelam a capacidade dessas substâncias de promoverem desregulação endócrina, danos em DNA e membranas. O mais alarmante é que esses efeitos têm sido observados em concentrações já detectadas em ambientes aquáticos, denotando risco ecológico. Além disso, essas substâncias já foram também detectadas em animais marinhos, que ao acumularem em seus organismos podem servir como via de contaminação e intoxicação de seres humanos, especialmente comunidades tradicionais que consomem grandes quantidades de pescado em sua dieta”, explica o pesquisador.

Primeiro estudo científico que trata sobre a presença de drogas no mar no Hemisfério Sul, a pesquisa, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), elucida o potencial tóxico e de bioaculumação - capacidade de certas substâncias se fixarem nos organismos marinhos - utilizando como modelo o molusco Perna perna, que se alimenta filtrando a água e que, além da relevância ecológica, é cultivado e extraído para consumo humano. 

Para Seabra, a oferta e o uso de um número cada vez maior de fármacos, além do aumento de usuários de drogas em adensamentos urbanos, levarão ao agravamento do quadro de poluição ambiental por essas substâncias e, consequentemente, tornará a questão um problema de saúde pública. ”Políticas públicas de saneamento básico, educação ambiental, educação em saúde e de combate ao uso e tráfico de drogas são necessárias, uma vez que a contaminação ambiental se relaciona intimamente ao nosso estilo de vida”, ressalta.

Artigos relacionados:

MARANHO, L. A.; FONTES, M. K.; KAMIMURA, A. S. S.; NOBRE, C. R.; MORENO, B. B.; PUSCEDDU, F. H.; CORTEZ, F. S.; LEBRE, D. T.; MARQUES, J. R.; ABESSA, D. M. S.; RIBEIRO, D. A.; Pereira, C. D. S. Exposure to crack cocaine causes adverse effects on marine mussels Perna perna. Marine Pollution Bulletin, v. 123, n. 1 e n. 2, p. 410-414, out. 2017. Disponível em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0025326X17307130?via%3Dihub>. Acesso em: 16 nov. 2017.

PEREIRA, Camilo D. Seabra; MARANHO, Luciane A.; CORTEZ, Fernando S.; PUSCEDDU, Fabio H.; SANTOS, Aldo R.; RIBEIRO, Daniel A.; CESAR, Augusto; GUIMARÃES, Luciana L. Occurrence of pharmaceuticals and cocaine in a Brazilian coastal zone. Science of the Total Environment, v. 548 e v. 549, p. 148-154, 1 abr. 2016. Disponível em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0048969716300511>. Acesso em: 16 nov. 2017.

Publicado em Edição 09

Governo paulista precisa dar mais espaço à participação da sociedade no processo de tomada de decisões, conclui estudo sobre a gestão dos aquíferos do Estado

Ana Cristina Cocolo

Entreteses p30 aguas subterraneas

Imagem: Otávio Nogueira

Em um cenário de escassez e grande demanda, o Estado de São Paulo faz uma boa governança de suas águas subterrâneas? De acordo com os primeiros resultados de um projeto que busca avaliar o tema, nem tanto. 

O projeto Governança das Águas Subterrâneas no Estado de São Paulo, aprovado o ano passado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que tem como autora Pilar Carolina Villar, professora do Instituto do Mar (IMar/Unifesp) – Campus Baixada Santista, utilizou a metodologia desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa Serra Geral/Guarani, aplicada para avaliar a governança nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. 

Pilar Carolina Villar

Pilar Carolina Villar, professora do Instituto do Mar (Imar/Unifesp)

“A ideia era construir um instrumento que permitisse a comparação do grau de governança no caso de aquíferos compartilhados entre as unidades federativas brasileiras”, explica a docente. “Dessa forma adaptamos 20 itens (veja o quadro), valendo até três pontos cada, divididos em quatro domínios: o técnico, o operacional/legal, o institucional/legal e a coordenação política intersetorial.” 

Segundo Villar, o quarto domínio (coordenação política intersetorial) está em processo de elaboração. Os dados avaliados foram retirados de consultas a documentos de órgãos governamentais, como Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SMA), Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), Instituto Geológico (IG), Comitês de Bacia, Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), entre outros, e apresentados como trabalho de conclusão de curso (TCC) ao Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia do Mar (BICT-Mar), do IMar/Unifesp, pelo estudante Valmir Pereira de Freitas Junior.

No quesito técnico, que avaliou a capacidade técnica de monitoramento, dados e base de conhecimento disponível, o Estado pode ser considerado referência nacional, já que alcançou pontuação máxima nos oito itens (24 pontos). “O bom desempenho nesse setor atribui-se ao volume de produções científicas realizadas por agências ambientais, que são atores fundamentais no real panorama da situação na qual se encontram os aquíferos do Estado de São Paulo”, afirma Villar. 

No domínio operacional/legal, que avaliou a implementação de planos de ação, o desempenho deixou a desejar. O estudo aponta que o Estado apresentou dificuldades em atender dois critérios importantes desse domínio. Um deles foi o enquadramento dos corpos de água subterrânea conforme os usos preponderantes, que, ao contrário das águas superficiais, até hoje não foi regulamentado pelo Estado. O outro fator questionável é com relação às informações sobre os recursos hídricos subterrâneos, já que seu status permanece como regulamentação, mesmo existindo um sistema denominado Sistema de Informação de Águas Subterrâneas (Sidas), este ainda não se encontra implementado. Dos oito itens avaliados, foram alcançados 21 pontos do total de 24. 

O terceiro domínio avaliado, institucional/legal, que afere a política de gestão, bases normativas para regulação e administração das águas subterrâneas, foi o que obteve o pior desempenho. Do total de nove pontos, o Estado agregou seis. “Verificamos que a participação civil na gestão de aquíferos nunca foi um tema prioritário pelo Estado”, explica. “O Estado precisa avançar nesse tema para melhorar sua governança; a nós, como sociedade civil, cabe cobrar de nossos governantes a participação na tomada de decisões, possibilitando a implementação real dos instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos para águas subterrâneas”. 

Segundo dados de 2010 da Agência Nacional de Águas (ANA), 331 municípios do Estado de São Paulo, ou seja, mais da metade do total (645), são abastecidos por mananciais exclusivamente de águas subterrâneas. O restante é abastecido por sistemas divididos entre mananciais de águas superficiais (184 municípios) e por um sistema misto de água superficial e subterrânea (126 municípios).

 

Critérios

Pontos atribuídos

Domínio Técnico

        

1. Existência de mapa hidrogeológico básico

3

2. Caracterização da água subterrânea

3

3. Rede de monitoramento piezométrico

3

4. Rede de monitoramento de qualidade da água subterrânea

3

5. Avaliação de risco de contaminação da água subterrânea

3

6. Base de dados referente à prospecção geofísica

3

7. Existência de mapa potenciométrico

3

8. Modelos numéricos de gestão de aquíferos

3

TOTAL

24

Domínio Operacional/Legal

        

9. Enquadramento dos corpos de água subterrânea/usos preponderantes

1

10. Outorga de direito de uso de recursos hídricos subterrâneos

3

11. Cobrança pelo uso de recursos hídricos subterrâneos

3

12. Sistema de informações sobre recursos hídricos subterrâneos

2

13. Plano Estadual de Recursos Hídricos / Plano de ação de gestão

3

14. Licenciamento ambiental para perfuração de poços

3

15. Licenciamento ambiental de atividades poluidoras

3

16. Sanções pelo descumprimento da legislação

3

TOTAL

21

Domínio Institucional/Legal

   

17. Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos

3

18. Organização comunitária de gestão de aquíferos

0

19. Participação da sociedade civil na gestão de recursos

3

TOTAL

6

Domínio Coordenação Política Intersetorial

20. Coordenação entre as políticas de recursos hídricos, ambiental, agrícola, energética, econômica, prevenção de desastres e ordenamento territorial

não avaliado

Trabalho de conclusão de curso (TCC) relacionado:

FREITAS JUNIOR, Valmir Pereira de. Avaliação da governança de água subterrânea no estado de São Paulo. 2016. 80 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia do Mar) – Instituto do Mar, Universidade Federal de São Paulo, Santos, 2016.

Publicado em Edição 09
Segunda, 15 Janeiro 2018 10:19

Por um “meteorologuês” mais utilizável

Pesquisadores criam rede de cooperação entre Brasil, Argentina e Paraguai para suprir as demandas da provisão de informações sobre as variações do clima ao universo de usuários de cada país

Ana Cristina Cocolo

Nuvens

Entender os contextos culturais, sociais e políticos de como as informações sobre o clima são recebidas pela comunidade geral e por alguns setores econômicos – como a agricultura, a gestão de recursos hídricos e a geração de energia elétrica, por exemplo – não é tarefa fácil, mas extremamente importante para um país. Entender os estudos e previsões sobre o clima, e utilizá-los de forma prática, em cada região e área específica, é no que muitos pesquisadores vêm trabalhando incessantemente, como é o caso de Renzo Taddei, professor do Instituto do Mar (Imar/Unifesp) – Campus Baixada Santista. 

“O clima sempre foi uma coisa importante, tanto na vida política quanto religiosa da sociedade, muito antes da existência da Meteorologia”, afirma ele. “Uma das hipóteses de o porquê a civilização maia, que era um império, ruiu, foi a ocorrência de uma seca muito grande que acabou desorganizando-a politicamente”.

As linhas de pesquisa do docente, voltadas aos estudos sociais da ciência e da tecnologia, aos conflitos ambientais, à percepção de risco e às controvérsias climáticas, resultaram em uma parceria entre pesquisadores de quatro países – Brasil, Argentina, Paraguai e Estados Unidos – que pretendem, juntos, facilitar esse trabalho com a pesquisa Rumo à uma Ciência do Clima Utilizável. O estudo tem o financiamento do Instituto Interamericano para Pesquisa em Mudanças Globais (IAI) e conta com a participação de pesquisadores não só da Unifesp, mas também do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe), do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), da Universidade de Passo Fundo (UPF), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Embrapa Trigo. 

Pesquisadores do projeto

Pesquisadores do projeto, com Renzo Taddei sentado à direita, reunidos na Universidade de Buenos Aires

A coordenação geral da pesquisa está a cargo da antropóloga e filósofa Cecilia Hidalgo, da Universidade de Buenos Aires. “O projeto é uma tentativa de construir redes de cooperação entre meteorologistas e outros cientistas, particularmente aqueles que trabalham no campo das ciências aplicadas, e, no caso desse projeto, hidrólogos e agrônomos, para que a informação já saia da Meteorologia formatada de uma maneira que se encaixe produtivamente nas formas de trabalho dessas áreas”, explica Taddei.

O estudo pretende entender as causas da dificuldade do uso das informações meteorológicas pela população em geral e por setores econômicos selecionados, integrar estratégias de comunicação climática entre os três países da Bacia do Prata (Argentina, Paraguai e Brasil) e traçar um diagnóstico das necessidades institucionais para suprir as demandas da provisão de serviços climáticos ao universo de usuários de cada país. O foco, à princípio, serão as regiões sul do Brasil, nordeste da Argentina e oeste do Paraguai.

De acordo com ele, a dificuldade de percebermos, mesmo com os melhores equipamentos científicos, as variações e ciclos dos ecossistemas é decorrente do monitoramento sistemático dos ecossistemas e da atmosfera ser ainda recente – datada de 1960 –, o que limita a base de dados históricos a ser usada nos estudos. Além disso, o conhecimento agregado por populações tradicionais que habitam os ecossistemas há centenas de anos – no caso do Brasil, por índios, caboclos, ribeirinhos, etc – é desvalorizada e interpretada como uma visão atrasada e supersticiosa frente ao conhecimento científico atual. “São muito poucas, ao redor do mundo, as iniciativas de transformação de conhecimento tradicional em material que possa engajar-se de forma significativa com as discussões técnicas e científicas a respeito de como entender o meio ambiente e os desastres a eles relacionados”. 

Um dos frutos do projeto em andamento consiste na publicação do livro Meteorologistas e Profetas da Chuva, de autoria de Taddei, e a tradução, no ano passado, do guia A Comunicação das Mudanças Climáticas, produzido por um grupo de estudiosos da Universidade de Columbia (EUA), do qual o pesquisador também é membro.

Publicações relacionadas:

SHOME, Debika; MARX, Sabine. A comunicação das mudanças climáticas: um guia para cientistas, jornalistas, educadores, políticos e demais interessados. Edição em português organizada por Renzo Taddei e Ana Laura Gamboggi. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisas sobre Decisões Ambientais, 2016.

capa do livro Comunicação das mudanças climáticas

TADDEI, Renzo. Meteorologistas e profetas da chuva: conhecimentos, práticas e políticas da atmosfera. São Paulo: Terceiro Nome, 2017.

Capa do livro meteorologistas e profetas da chuva
Publicado em Edição 09
Segunda, 15 Janeiro 2018 09:47

Trabalho em equipe e ética profissional

Estudo mostra que estudantes estão cada vez mais focados à exigência do mercado de trabalho

Ana Cristina Cocolo

O mercado de trabalho e a rapidez com que a tecnologia avança exigem dos profissionais mais do que habilidades ligadas à sua área de formação (competências específicas), mas também aquelas relacionadas às competências genéricas, ou seja, a capacidade de mobilizar recursos pessoais, como conhecimento, habilidades e atitudes (que, entre outros exemplos, podem ser traduzidos em boa comunicação e trabalho em equipe), aos recursos do ambiente, que refletem diretamente no bom desempenho profissional.

Esses parâmetros já permeiam os cursos de bacharelados interdisciplinares no Brasil, de acordo com Nancy Ramacciotti de Oliveira-Monteiro, coordenadora do Laboratório de Psicologia Ambiental e Desenvolvimento Humano (LADH) do Instituto do Mar (Imar/Unifesp) – Campus Baixada Santista. “É preciso entender e avaliar as condições psicológicas e as competências desses estudantes para traçar possíveis intervenções, tanto no âmbito de aprimoramento do curso, quanto na saúde deles”, afirma. 

Um estudo conduzido por ela e que faz parte do projeto Competências e Condições Psicológicas de Universitários, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pretende fazer exatamente isso. 

A pesquisadora utilizou o Inventário de Autoavaliação para adultos de 18 a 59 anos (ASR, do inglês Adult Self Report) – para identificar problemas psicológicos – e a Escala de Competências Genéricas (ECG) – para avaliar graus de valoração de 19 competências genéricas – em 224 estudantes do Bacharelado Interdisciplinar de Ciência e Tecnologia do Mar (BICTMar). O trabalho teve a colaboração dos companheiros de departamento, os professores Fernando Ramos Martins e Rodolfo Eduardo Scachetti.

Entreteses p28 NancyRamacciotti

Nancy Ramacciotti de Oliveira-Monteiro, coordenadora do Laboratório de Psicologia Ambiental e Desenvolvimento Humano (LADH) 

“A escala é derivada de um instrumento utilizado no Projeto Tuning (http://www.unideusto.org/tuningeu/home.html), que avaliou competências genéricas e específicas de estudantes, profissionais e empregadores em diversos países da América Latina e Europa”, explica. “A ECG utilizada foi uma validação semântica da escala que vem sendo usada na Universidade de La Coruña, com a qual temos um convênio de colaboração mútua no ensino, na pesquisa e na extensão”.

Aptidões 

Dados parciais do estudo apontam que, das 19 aptidões mencionadas (veja o gráfico), seis delas destacaram-se entre os estudantes: capacidade de trabalhar em equipe, compromisso ético, responsabilidade no trabalho, capacidade de aprender, preocupação por qualidade e melhoria e a habilidade de adaptar-se a novas situações. “Essas competências não são estranhas àquelas que o mundo do trabalho contemporâneo e a própria Organização Internacional do Trabalho (OIT) defendem, com ênfase para o trabalho em equipe”, explica Oliveira-Monteiro. “Chama a atenção a alta menção à categoria ‘compromisso ético’, que contrasta com o atual cenário do país”.

“Já a baixa relevância autorreferida sobre as competências adquiridas no curso (conhecimentos básicos da profissão) pode estar relacionada ao fato de ser um curso interdisciplinar, com perfil profissional aberto e flexível, e não de um curso tradicional de áreas clássicas, como Direito, Medicina ou Engenharia”, explica Scachetti. “Outra possibilidade é a característica do próprio mercado de trabalho atual, em que as fronteiras profissionais parecem se erguer com menos rigidez”. 

Conhecer para intervir

O desafio de avançar as fronteiras, tanto pessoais quanto sociais, e alcançar o sucesso ou a satisfação profissional pode acarretar no aumento da ansiedade e, em alguns casos, no surgimento de transtornos de ordem psicológica. Entender o que envolve esse processo para conduzir os estudantes para uma formação mais plena e saudável também faz parte do projeto. 

Dos estudantes avaliados, 28% apresentaram algum problema psicológico, sendo que 43% apresentam problemas psicológicos de ordem internalizante (como ansiedade, depressão e queixas somáticas) e, 24%, externalizantes (problemas comportamentais, como atitudes antissociais ou ato não pensado). As mulheres parecem ser as mais afetadas. Contudo, a maioria dos estudantes (89%) apresentou recursos, como família e amigos, para lidar com esses problemas.

Em uma análise do conjunto integral dos dados obtidos nas entrevistas percebe-se que as competências capacidades de trabalhar em equipe e de aprender, preocupação por qualidade e melhoria e capacidade de adaptação a situações novas são as com maior frequência de indicação de muito relevantes. Por outro lado, as competências conhecimentos básicos da profissão, resolução de problemas, motivação para o trabalho, capacidade de aplicar os conhecimentos à prática e habilidade de gestão da informação foram as que receberam menor indicação de muito relevante entre todos os entrevistados.

Entreteses p29 grafico
Publicado em Edição 09
Sexta, 12 Janeiro 2018 15:04

Ouro negro sob diagnóstico

Técnica utiliza a ressonância magnética nuclear para impedir a paralisação da produção de petróleo

Ana Cristina Cocolo

plataforma de petróleo

(Imagem: Stéferson Faria / Ag. Petrobras)

Atualmente o Brasil se encontra na décima posição entre os maiores produtores de petróleo do mundo e na primeira entre os países da América Latina, graças ao pré-sal. Na geologia do petróleo, o pré-sal corresponde às reservas situadas a mais de 7 km de profundidade, entre a superfície do mar e os reservatórios, que ficam abaixo de uma extensa camada de sal.

Para se manter como grande produtor ou superar os líderes, os países precisam de tecnologias cada vez mais avançadas que forneçam informações sobre os métodos adequados de intervenção nos poços, de modo a evitar a precipitação (deposição) de asfaltenos – compostos orgânicos pesados, constituídos por componentes químicos como carbono, hidrogênio, nitrogênio e enxofre –, durante a extração do petróleo cru, e também a obstrução das tubulações de produção. Esse é um dos mais graves problemas operacionais enfrentados pela indústria de petróleo, os quais podem paralisar parcial ou totalmente a extração do “ouro negro”. 

pesquisador Lucio Barbosa

Prof. Lucio Barbosa, coordenador do estudo

“Tais compostos são sólidos e ficam suspensos no petróleo, que é líquido. Quando certas condições, como temperatura e pressão, sofrem alterações durante o processo de extração, esses compostos tendem a ficar instáveis, o que leva à sua deposição na coluna de produção”, explica Lúcio Leonel Barbosa, químico e professor do Instituto do Mar (IMar/Unifesp) - Campus Baixada Santista. 

De acordo com ele, isso ocorre porque a temperatura na camada de rocha da qual o petróleo é extraído é muito alta, podendo ultrapassar os 100°C. Quando o óleo passa pela coluna de produção, submetido à temperatura da água do mar, normalmente de até 20°C, ocorrem as alterações nos compostos orgânicos. Estes podem, então, ficar depositados nas tubulações, cuja área útil interna é reduzida, diminuindo a taxa de vazão do petróleo. 

Um estudo coordenado por Barbosa no Laboratório de Pesquisa em Engenharia/Química de Petróleo (Labpetro) do instituto propõe, no entanto, uma nova técnica, que está em fase de patenteamento. Esse recurso é capaz de prever, in loco, exatamente em que momento a deposição pode tornar-se um risco à produção, utilizando pela primeira vez a ressonância magnética nuclear (RMN) como aliada. “Com as informações sobre a temperatura e pressão locais e a análise de cristais pela ressonância, que emprega um aparelho portátil e despende só 30 segundos para o diagnóstico, é possível ao engenheiro de petróleo tomar medidas preventivas para evitar a precipitação, mudando as condições termodinâmicas da produção”, explica. 

A RMN também permite avaliar amostras do petróleo bruto quanto ao teor de água e determinar suas propriedades físicas (viscosidade, acidez e densidade) e químicas (relativas aos compostos orgânicos). Desse modo, é possível estabelecer para qual refinaria de derivados de petróleo (piche, lubrificantes ou combustíveis) a produção deverá ser encaminhada, de acordo com a quantidade e conteúdo de asfaltenos, bem como de outros compostos químicos como parafinas e aromáticos. “A RMN apresenta inúmeras vantagens sobre os métodos convencionalmente adotados pela American Society for Testing and Materials (ASTM), que utilizam solventes tóxicos e são mais demorados e onerosos”, afirma. 

Liderança na América Latina

No país, as reservas do pré-sal alcançam uma faixa de cerca de 800 km ao longo do litoral brasileiro e abrangem três bacias, relacionadas a seguir, que se estendem pelos respectivos Estados: Bacia do Espírito Santo (Estado do Espírito Santo), Bacia de Campos (Estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro) e Bacia de Santos (Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina). Esta última jazida é, inclusive, uma das mais promissoras. 

De acordo com o Anuário Estatístico 2017 da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Brasil tornou-se o maior produtor de petróleo da América Latina, ultrapassando o México e a Venezuela. Entre as nações que não integram a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), foi a que apresentou a maior produção em 2016, superando a Noruega, na Europa, e Omã, país do extremo leste da Península Arábica.

A ANP divulgou que, até o mês de setembro deste ano, a produção do pré-sal correspondeu a 49,8% do total extraído em todo o Brasil. A produção diária, oriunda de 82 poços, foi de 1,351 milhão de barris de petróleo e de 52 milhões de metros cúbicos de gás natural.

Produção de petróleo na América Latina (mil barris/dia)

Fonte: ANP

 

2013

2014

2015

2016

2016/2015

Brasil

2.110

2.341

2.525

2.605

3,16 %

México

2.875

2.784

2.587

2.456

-5,05 %

Venezuela

2.680

2.692

2.644

2.410

-8,85 %

Colômbia

1.004

990

1.006

924

-8,12 %

Argentina

655

641

641

619

-3,31 %

Equador

527

557

543

545

0,40 %

Peru

167

169

145

135

-6,63 %

Trinidade e Tobago

115

114

109

96

-11,18 %

Artigos relacionados:

BARBOSA, Lúcio L.; SAD, Cristina M. S.; MORGAN, Vinícius G.; FIGUEIRAS, Paulo R.; CASTRO, Eustáquio V. R. de. Application of low field NMR as an alternative technique to quantification of total acid number and sulphur content in petroleum from Brazilian reservoirs. Fuel: The Science and Technology of Fuel and Energy, [s.l.], v. 176, p. 146-152, 15 jul. 2016. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0016236116300205>. Acesso em: 10 nov. 2017.

BARBOSA, Lúcio L.; KOCK, Flávio V.C.; ALMEIDA, Vinícius M. D. L.; MENEZES, Sônia M. C.; CASTRO, Eustáquio V. R. de. Low-field nuclear magnetic resonance for petroleum distillate characterization. Fuel Processing Technology, [s.l.], v. 138, p. 202-209, out. 2015. Disponível em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0378382015300242?via%3Dihub>. Acesso em: 10 nov. 2017.

MORGAN, Vinícius G.; BARBOSA, Lúcio L.; LACERDA JR., Valdemar; CASTRO, Eustáquio V. R. de. Evaluation of the physicochemical properties of the postsalt crude oil for low-field NMR. Industrial and Engineering Chemistry Research, Washington, D. C.: ACS Publications, v. 53, n. 21, p. 8.881-8.889, 28 maio 2014. Disponível em: <http://pubs.acs.org/doi/10.1021/ie500761v>. Acesso em: 10 nov. 2017.

CARNEIRO, Giovanna F.; SILVA, Renzo C.; BARBOSA, Lúcio L.; FREITAS, Jair C.C.; SAD, Cristina M. S.; TOSE, Lilian V.; VAZ, Boniek G.; ROMÃO, Wanderson; CASTRO, Eustáquio V. R. de; CUNHA NETO, Álvaro; LACERDA JR., Valdemar. Characterisation and selection of demulsifiers for water-in-crude oil emulsions using low-field 1H NMR and ESI–FT-ICR MS. Fuel: The Science and Technology of Fuel and Energy, [s.l.], v. 140, p. 762-769, 15 jan. 2015. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0016236114010151>. Acesso em: 10 nov. 2017.

Publicado em Edição 09

Estudantes do IMar/Unifesp são capacitados para entender como funcionam reservatórios subterrâneos de hidrocarbonetos por meio da análise de rochas na superfície

Lu Sudré

Paredão de pedra, dois pesquisadores examinam ele

(Imagem: arquivo pessoal)

A exploração de reservatórios de hidrocarbonetos, substâncias orgânicas que compõem o petróleo, é um dos fatores essenciais para o desenvolvimento econômico de um país. As moléculas do principal recurso não renovável produtor de energia, formadas por carbono e hidrogênio, estão presentes nos poros mais profundos e extensos de rochas sedimentares, e, em busca de facilitar o acesso humano ao ouro negro, projetos têm sido aperfeiçoados a cada dia para otimizar o processo de extração. 

Uma formação interdisciplinar para os profissionais da área se faz cada vez mais necessária. Com esse objetivo, a docente Liliane Janikian, coordenadora do curso de Engenharia do Petróleo do Instituto do Mar (IMar/Unifesp) – Campus Baixada Santista, tem se dedicado a projetos de pesquisa com os estudantes da graduação dos cursos de Engenharia de Petróleo e Recursos Renováveis. A investigação busca identificar reservatórios complexos a partir de análises dos afloramentos (rochas expostas na superfície da Terra), com características análogas aos corpos sedimentares e estruturas subterrâneas. 

A partir dos conhecimentos da área de Geologia, os futuros profissionais aprendem a analisar as dimensões do material em diversas escalas, suas relações espaciais, e a reconhecer descontinuidades estruturais difíceis de serem imageadas nos reservatórios profundos. Quando estes dados são utilizados de forma complementar aos dados de subsuperfície dos reservatórios, coletados por métodos geofísicos e pelos dados obtidos diretamente nos poços de petróleo, é possível planejar o posicionamento de poços com maior assertividade para uma produção do óleo mais efetiva.

Liliane Janikian

Liliane Janikian, coordenadora do curso de Engenharia do Petróleo do Instituto do Mar

Adquiridas por meio de drones e visitas a campo, as informações - que também são coletadas por pós-graduandos da Universidade de São Paulo (USP), orientados pela docente - são usadas pelos estudantes para a aplicação de diversas técnicas que visam obter uma correlação entre a permeabilidade e as diversas fácies (c0mposição mineral) e elementos arquiteturais das rochas, gerados em bacias sedimentares de distintas idades. Os dados são posteriormente aplicados em um software para criar um modelo geológico análogo ao de subsuperfície. Os pesquisadores trabalham com materiais de unidades sedimentares depositadas em ambientes fluviais, depósitos gerados por rios, mas o conhecimento pode ser aplicado em outras áreas de exploração do hidrocarboneto. 

“O objetivo é treinar o futuro pesquisador e profissional da indústria do petróleo para lidar com todas as etapas de aquisição dos dados e as escalas de estudo de reservatórios de hidrocarbonetos, que é um trabalho bastante complexo", afirma Janikian. “As pesquisas auxiliam na criação de modelos geológicos que podem ser utilizados na indústria, mas, principalmente, permitem que os estudantes aprendam a previsibilidade de reconhecimento de camadas menos permeáveis ou mais permeáveis no reservatório análogo ao ambiente que está sendo estudado”. 

A docente comenta que, geralmente, os engenheiros da indústria petrolífera são treinados somente quando iniciam no mercado, ao passo que os estudantes da Unifesp já recebem este conhecimento ao longo do curso, além de obterem um conhecimento interdisciplinar mais amplo, e consequentemente iniciam suas carreiras com uma diferença de know-how muito relevante. 

“Quanto mais abrangência o profissional tiver em uma formação multidisciplinar, mais chance terá de desenvolver novas tecnologias”, explica a pesquisadora. “Os estudos têm resultados lentos, que às vezes são caros, mas são necessários e compensam. Se conseguirmos uma previsibilidade de uma característica do reservatório que aumente 2% da recuperação do petróleo, já é um grande ganho econômico”.

Estudantes em campo

Estudantes em campo para coleta de amostras dos afloramentos com o objetivo de mapear e descrever suas características (imagens: Arquivo pessoal)

Artigos relacionados:

ALMEIDA, Renato Paes de; GALEAZZI, Cristiano Padalino; FREITAS, Bernardo Tavares; JANIKIAN, Liliane; IANNIRUBERTO, Marco; MARCONATO, André. Large barchanoid dunes in the Amazon River and the rock record: implications for interpreting large river systems. Earth and Planetary Science Letters, v. 454, p. 92–102, 15 nov. 2016. Disponível em: < http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0012821X16304587>. Acesso em: 17 nov. 2017.

ALMEIDA, Renato Paes de; FREITAS, Bernardo T.; TURRA, Bruno B.; FIGUEIREDO, Felipe T., MARCONATO, André; JANIKIAN, Liliane. Reconstructing fluvial bar surfaces from compound cross-strata and the interpretation of bar accretion direction in large river deposits. Sedimentology, v. 63, n. 3, p. 609–628, abr. 2016. Disponível em: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/sed.12230/abstract>. Acesso em: 17 nov. 2017.

TAMURA, Larissa Natsumi; ALMEIDA, Renato Paes de; TAIOLI, Fabio; MARCONATO, André; JANIKIAN, Liliane. Ground Penetrating Radar investigation of depositional architecture: the São Sebastião and Marizal formations in the Cretaceous Tucano Basin (Northeastern Brazil). Brazilian Journal of Geology, v. 46, n. 1, p. 15-27, mar. 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2317-48892016000100015>. Acesso em: 17 nov. 2017.

Publicado em Edição 09
Terça, 09 Janeiro 2018 15:41

Potencial não explorado

Brasil desconhece “cinturão solar” como fonte energética

Lu Sudré

Linhas de transmissão de energia, ao fundo o sol nascente

(imagem: Designed by evening_tao / Freepik)

Apesar de o Brasil receber uma insolação superior a de outros países, graças à sua extensão e localização geográfica, a energia solar ainda tem participação incipiente em sua matriz energética: representa apenas 0,2% da produção de eletricidade, de acordo com dados disponíveis no Banco de Informações de Geração da Agência Nacional de Energia Elétrica (BIG/Aneel). Com o intuito de contribuir para o planejamento do setor, a segunda edição do Atlas Brasileiro de Energia Solar, publicado no primeiro semestre de 2017, disponibilizou uma base de dados pública com informações cientificamente embasadas sobre o potencial e a variabilidade espacial e temporal do recurso energético solar no território brasileiro.

A partir de informações levantadas ao longo de 17 anos, o estudo foi produzido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com a participação de pesquisadores de várias universidades brasileiras. Fernando Ramos Martins, docente adjunto do Instituto do Mar (Imar/Unifesp) – Campus Baixada Santista, participa do projeto desde a década passada, quando ainda atuava no Centro de Ciência do Sistema Terrestre, no Inpe, e trouxe a pesquisa para a Unifesp. 

Fernando Ramos Martins

Fernando Ramos Martins, docente adjunto do Instituto do Mar (Imar/Unifesp)

O atlas indica que há um grande potencial de geração de energia solar não explorado. Martins explica que mesmo a região no país com menor disponibilidade dessa energia, a região litorânea de Santa Catarina e Paraná, ainda apresenta maior disponibilidade que as consideradas melhores regiões da Alemanha, país onde a energia solar tem grande participação na matriz energética e um mercado consolidado.

“O nordeste brasileiro é a região com maior disponibilidade de energia solar, em razão das características climáticas no semiárido. No entanto, grande parte do território que cobre o nordeste, sudeste e centro-oeste do país apresenta recursos de energia solar muitos favoráveis. Essa região vem sendo denominada como o Cinturão Solar do Brasil”, afirma Martins. Mais especificamente, a área vai do nordeste ao Pantanal, incluindo o norte de Minas Gerais, o sul da Bahia e o norte e o nordeste de São Paulo.

Segundo o pesquisador, a energia solar é temporalmente intermitente (ocorre com interrupções) e apresenta elevada variabilidade em razão de sua relação com condições meteorológicas locais, como a cobertura de nuvens, concentração de gases atmosféricos e sistemas sinóticos, que é a área da Meteorologia que descreve, analisa e faz a previsão do tempo em grande escala. Fatores astronômicos associados aos movimentos orbitais e de rotação da Terra também influenciam na variabilidade temporal, e, por isso, estudos como o do atlas, que apresenta informações confiáveis sobre esses aspectos, são imprescindíveis para dar suporte ao desenvolvimento de projetos que visem o aproveitamento dessa fonte de energia. 

O atlas foi elaborado com informações de um modelo computacional chamado Brasil-SR, que está adaptado para simular as condições atmosféricas e ambientais típicas observadas no Brasil. O modelo utiliza imagens digitais do satélite geoestacionário Goes, posicionado sobre a América do Sul para estimar a nebulosidade do território brasileiro. O modelo também precisa de dados sobre a topografia e informações meteorológicas que incluem a temperatura da superfície terrestre e umidade relativa do ar.

Martins contribuiu para o aprimoramento da modelagem numérica dos processos físicos da atmosfera para o território brasileiro, assim como no processo de obtenção das informações da nebulosidade a partir das imagens de satélite, etapas fundamentais para a redução das incertezas no aproveitamento da energia solar brasileira.

As dificuldades para o crescimento do uso dessa fonte energética envolvem o custo de investimento e o desconhecimento sobre a disponibilidade da variabilidade temporal do recurso e das tecnologias disponíveis para a conversão da energia solar. De acordo com Martins, os custos estão sendo reduzidos drasticamente com o desenvolvimento tecnológico e o crescimento do mercado a nível internacional. “Acredita-se que em mais dois a cinco anos o custo da energia solar estará equivalente ao da eletricidade produzida pela queima de combustíveis fósseis. O atlas contribui para a disseminação de conhecimento sobre o recurso disponível e fornece dados para elaboração de cenários de uso e estudo de viabilidade econômica do aproveitamento da energia solar”, ressalta o pesquisador.

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Publicado em Edição 09