Estudante de Farmácia testa compostos sintéticos visando neutralizar os efeitos negativos da droga no sistema nervoso central

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Imagem: Ana Carolina Fagundes, arte com imagens do Pixabay

 

Valquíria Carnaúba

A cocaína é uma droga recreativa, consumida na maior parte do mundo, após ser extraída e purificada por complexos processos químicos. Hoje considerada ilícita, há 5 mil anos já era bem conhecida por sociedades peruanas, como a inca. A forma original de uso, distinta das mais comuns (aspirada, fumada ou injetada), consiste em mastigar as folhas de coca, hábito que persiste ainda hoje entre as populações andinas e tem a finalidade de suprimir o sono, a fome e a fadiga.

O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking dos maiores consumidores da substância psicoativa, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. De acordo com o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas - Lenad, de 2012, isso significa que mais de seis milhões de brasileiros já experimentaram a droga em diversas formas – seja por meio do fumo (que utiliza a base livre, como o crack e a merla), seja pela via intranasal (aspirada) ou pela injetável, sujeitando-se a seus efeitos nocivos. Diversos estudos, aliás, já enumeraram tais efeitos: complicações cardiovasculares, dificuldades respiratórias, transtornos psiquiátricos (como sintomas psicóticos), infecções transmitidas pelo sangue (como as hepatites B e C, introduzidas por vírus), comportamentos violentos e morte prematura. 

A maior parte desses problemas deriva da forma como a droga atua nos neurônios do sistema nervoso central, especialmente do sistema de recompensa do cérebro, ou seja, do circuito que processa a informação relacionada à sensação de prazer ou de satisfação. Essa interferência química cerebral constante pode-se manifestar como uma forma de toxicidade, conhecida por neurotoxicidade (descrita pelos efeitos nocivos permanentes ou reversíveis decorrentes da exposição do sistema nervoso a agentes físicos, biológicos ou químicos, que afetam sua estrutura e/ou função). O tema referido chamou a atenção de Laísa Aliandro dos Santos, estudante do curso de Farmácia do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema, que se lançou à Iniciação Científica para investigar o papel neuroprotetor das moléculas sintéticas LINS-01003, LINS-01004, LINS-01011 e LINS-01018. 

Sob a orientação de Raphael Caio Tamborelli Garcia e coorientação de João Paulo dos Santos Fernandes, docentes do Departamento de Ciências Farmacêuticas, a estudante testou essas moléculas em cultura de células SH-SY5Y. Seu estudo visou avaliar os efeitos neuroprotetores dessas novas moléculas diante da CL50 de cocaína, ou seja, diante da concentração da droga que costuma causar mortalidade de 50% às células expostas durante determinado intervalo de tempo. Serão avaliadas, ainda, as proteínas caspase-3, caspase-9 e caspase-8/-10, envolvidas com a apoptose (morte) celular.

As caspases são uma família de enzimas importantes para manter a homeostase por meio da regulação da apoptose (morte) e inflamação das células.

A estudante, moradora do bairro Jardim Monte Líbano (situado no município de São Paulo, na divisa com Diadema), sempre teve um imenso interesse nos efeitos das drogas de abuso. Já na universidade, percebeu a chance de contribuir, por meio dessa pesquisa e ainda que indiretamente, para a minimização dos efeitos negativos da cocaína entre seus usuários. "Onde moro, saber de pessoas tão próximas a mim, da minha idade, entrando por esse caminho, me preocupa muito", relata.

O projeto está em andamento, mas os resultados prévios mostraram que as células SH-SY5Y responderam positivamente ao efeito neuroprotetor de todas as moléculas LINS utilizadas no estudo. “Quando incubados com cocaína por 48 horas, todos os compostos LINS-01003, 01004, 01011 e 01018 foram capazes de prevenir, em parte, a neurotoxicidade causada pela cocaína, em diferentes níveis”, explica a orientanda.

Os pesquisadores notaram, porém, que três dos quatro grupos de moléculas não influenciaram a taxa de sobrevivência das células nervosas, mesmo após exposição à concentração mais alta, equivalente a 100 µM (micromolar). Nessa concentração, a porcentagem de células sobreviventes para os compostos LINS foi, respectivamente, 88% (LINS-01003), 93% (LINS-01004) e 91% (LINS-01011). Somente o composto LINS-01018 provocou uma ligeira diminuição na viabilidade celular quando utilizado em concentração mais alta, permitindo que 72% das células SH-SY5Y testadas sobrevivessem. “Com exceção desse grupo, a série LINS, em geral, não mostrou efeitos neurotóxicos nos testes in vitro”, resume Aliandro.

Relativamente à liberação da enzima LDH (lactato desidrogenase), que extravasa da célula para o meio de cultura quando há ruptura da membrana celular, observaram que todos os compostos LINS foram capazes de diminuir a atividade da enzima detectada no meio, quando associados à cocaína. “A enzima intracelular é rapidamente liberada para o meio de cultura quando a membrana celular é danificada”, explicam. “A cocaína, isoladamente, aumenta em cerca de 2,5 vezes a atividade da LDH, mas – quando associada aos compostos LINS – essa atividade diminui”. Esse resultado específico sugere que uma das vias de morte celular, a necrose, foi prevenida pela ação dos compostos sintetizados. 

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O mecanismo de ação da cocaína, no Sistema Nervoso Central, consiste em aumentar a liberação e prolongar o tempo de atuação dos neurotransmissores dopamina, noradrenalina e serotonina (responsáveis pelas sensações de prazer) nas fendas existentes entre os neurônios, onde ocorrem as sinapses / Imagem: Thiago Esser

Neurobiologia da cocaína

As células SH-SY5Y, cópias sintéticas de células de neuroblastoma (câncer que surge no tecido nervoso), são fundamentais para o estudo da neurotoxicidade da cocaína, pois sintetizam um dos principais neurotransmissores envolvidos na ação reforçadora da droga – a dopamina (C8H11NO2). Esse mediador químico é encontrado em grande quantidade na fenda sináptica do circuito de recompensa do cérebro de usuários. É nesse espaço entre os neurônios que ocorrem as sinapses, comunicação mediada por neurotransmissores (dopamina, noradrenalina, acetilcolina, serotonina, glicina e glutamato).

A cocaína bloqueia temporariamente a receptação neuronal de dopamina, prolongando seu tempo de atuação na sinapse, o que pode ser apontado como responsável pelo efeito estimulante da droga. "Com o acúmulo desses neurotransmissores excitatórios, a cocaína produz sensação de euforia e bem-estar, estado de alerta e outras manifestações", esclarecem os pesquisadores. 

Quimicamente, uma das consequências da alteração desse mecanismo é o estresse oxidativo – o desequilíbrio entre a quantidade de radicais livres e a sua remoção pelas células. Essas moléculas, capazes de atacar as células até destruí-las, possuem elétrons altamente instáveis e reativos, que podem causar doenças degenerativas de envelhecimento e morte dos neurônios por apoptose ou necrose. 

As substâncias H3R e H4R, sintetizadas pelo Laboratório de Insumos Naturais e Sintéticos (Lins), que é coordenado pelo professor Fernandes, são capazes de amenizar a degeneração dos neurônios imposta pela cocaína. Cada uma das numerações, por sua vez, indica um grupo específico de moléculas, catalogadas de acordo com a capacidade de se ligar a determinados receptores neurológicos sem ativá-los, ou seja, são capazes de interferir na liberação excessiva de dopamina por ter uma estrutura similar e afinidade forte com o receptor, impedindo assim a ativação do processo comandado pela cocaína nas fendas sinápticas. “Esses antagonistas são promissores para o tratamento de transtornos relacionados ao abuso de outras substâncias, como o etanol”, complementa Tamborelli.

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A estudante Laísa Aliandro dos Santos no Laboratório de Inflamação e  Farmacologia Vascular (Campus Diadema) / Imagem: arquivo pessoal

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Os alunos de IC de Raphael Caio Tamborelli Garcia, durante o XXI Congresso Brasileiro de Toxicologia: Gabriela Otofuji Pereira, Laísa Aliandro dos Santos, Rafaela Yolanda Silvino de Almeida e Emidio Piñeiro Lopez Junior (da esq. para a dir.), em 2019 / Imagem: arquivo pessoal

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A cultura de células SH-SY5Y em placas circulares / Imagem: arquivo pessoal

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Vista ao microscópio / Imagem: arquivo pessoal

Independência acadêmica

O orientador responsável pela pesquisa atua há algum tempo na investigação da neurotoxicidade causada por drogas de abuso. Quando Aliandro e mais três colegas de turma do curso de Farmácia se aproximaram do docente, interessados em desenvolver um trabalho nessa área de estudo, ele já havia elaborado um projeto pré-aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que carecia, porém, de elementos importantes para ser estruturado. 

“Estávamos, na época, montando nosso laboratório; então, contamos com o apoio de Gustavo Pereira e Rodrigo Ureshino, docentes dos campi São Paulo e Diadema, respectivamente. Ou seja, fizemos a ponte com a estrutura de São Paulo e iniciamos alguns experimentos no Instituto de Farmacologia e Biologia Molecular (Infar) com a cultura de células que escolhemos para essa pesquisa”, pontua Tamborelli.

De sua parte, Aliandro menciona os desafios inerentes a uma universidade pública na atualidade, tais como a estrutura deficitária. “Em nossa pesquisa compartilhamos um laboratório com estudantes e docentes do campus, com divisão nos horários de uso. Além disso, o apoio dos professores tem sido grande”, relata. 

Nesse sentido, o caminho encontrado por Tamborelli na busca pela supressão dessas dificuldades foi o do estímulo à independência de seus orientandos. “Tenho como base minha experiência como orientando, que sempre foi de muita autonomia. Essa é a visão que busco passar aos estudantes, diferentemente da atuação do orientador que insiste o tempo todo em determinar o que tem de ser feito. As dificuldades fazem parte do nosso cotidiano e precisamos encará-las com as condições que temos.” 

Aliandro pretende continuar na área acadêmica e, por isso, preocupa-se com a queda na oferta de bolsas na graduação e pós-graduação e com o consequente sucateamento da pesquisa no país. Seu orientador pensa o mesmo. “Prevejo que, seguindo nesse ritmo, a competição será tão grande que ficará cada vez mais difícil para os pesquisadores jovens, como nós, conseguir bolsas para ter espaço na pós-graduação”, finaliza.

 
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Sexta, 23 Outubro 2020 19:29

Olhando para o futuro

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Projeto do curso de Terapia Ocupacional revela a importância do envolvimento de pais, mães e cuidadores em atividades lúdicas na primeira infância

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Paula Garcia

Divertir-se infantilmente; entreter-se em jogos de crianças”, essa é a primeira definição do verbo intransitivo “brincar” no Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (2010). Brincar, porém, denota também um meio em si para alcançar objetivos sérios e valorosos, de acordo com Carla Cilene Baptista da Silva e Beatriz Ferreira Monteiro Correia, respectivamente docente e estudante do curso de Terapia Ocupacional do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista. Por meio do projeto O Brincar, as Famílias de Crianças com Deficiência Física ou Múltipla e a Terapia Ocupacional, realizado com cinco famílias de crianças de 2 a 5 anos, com deficiência física ou múltipla, ambas trouxeram à tona a importância da relação entre a visão de pais – ou cuidadores – e a principal atividade da infância.

O projeto de Iniciação Científica tem como objetivo compreender como esses parentes enxergam o brincar e seu papel para o desenvolvimento das crianças. “Foi possível observar que, para os familiares entrevistados, a questão lúdica das crianças com deficiência física ou múltipla é complexa. Um ponto importante diz respeito ao retorno da pesquisa, pois, à medida que os resultados são apresentados e discutidos com a equipe, isso proporciona também uma reflexão por parte dos profissionais, principalmente os terapeutas ocupacionais, sobre a possibilidade de mais investimento em intervenções no cotidiano lúdico dessas crianças”, afirma Silva.

Na pesquisa, Correia e sua orientadora usaram um roteiro de entrevista semiestruturado com base em um instrumento de avaliação do Modelo Lúdico. “Trata-se de um material criado pela terapeuta ocupacional canadense Francine Ferland, cujo objetivo é o que ela descreve como ‘desejo de redescobrir a riqueza extraordinária do potencial terapêutico do brincar mediante a abordagem da criança em um domínio que lhe é próprio, o brincar’. O material é composto pela entrevista inicial com os pais (EIP) e a avaliação do comportamento lúdico (ACL). A EIP permite conhecer a criança e sua família, além de ter uma descrição de seu cotidiano lúdico, diante da visão dos pais – no caso deste projeto, dos familiares. Já a ACL é uma análise por meio da observação direta, feita pelo terapeuta ocupacional”, explica a estudante.

A família e o cotidiano lúdico da criança

O projeto se desenvolveu entre os anos de 2018 e 2019, no Centro de Reabilitação de Paralisia Infantil (CRPI), voltado para crianças com deficiência física e múltipla na cidade do Guarujá. De início, após a autorização da instituição e do Comitê de Ética, o CRPI ajudou no contato do público-alvo e na indicação das famílias que mais se encaixavam no tema proposto. A coleta de informações com esses parentes foi estabelecida por meio de entrevistas agendadas, sem a participação das crianças, que continuaram seu atendimento enquanto eram apenas observadas pelas pesquisadoras.

“Do nosso ponto de vista, as entrevistas aparentemente foram um desafio para as famílias, já que abordavam questões que muitas vezes passam despercebidas por seus membros. Ao falarem sobre o brincar de seus filhos, permitimos que essas pessoas refletissem sobre o tema, parassem para pensar sobre aquilo de que o filho gosta ou não, como ele brinca, com quem mais brinca, quais são suas atitudes lúdicas para com a criança, bem como sobre quais os impedimentos relativos ao brincar que encontra no cotidiano. Esse diálogo mostrou, inclusive, um espaço para os participantes trazerem outras questões sobre o desenvolvimento da criança”, comenta a orientadora. “Além disso, o trabalho tem permitido fomentar a discussão do brincar, no caso de crianças com desenvolvimento atípico, e trazer maior visibilidade ao Modelo Lúdico utilizado pela terapia ocupacional. Esse modelo acredita na importância do brincar pelo brincar, permitindo identificar as principais características do lúdico na criança e, a partir daí, estabelecer formas de proporcionar o desenvolvimento infantil”, completa.

Com os resultados obtidos ao longo do estudo, foi possível concluir que as entrevistas efetuadas confirmaram o que a literatura sobre o tema propõe a respeito das dificuldades que crianças com algum tipo de deficiência podem encontrar ao realizar brincadeiras, e a importância de estímulos e da participação dos familiares na atividade. Para além da diversão, o brincar tem relevância significativa não só para o desenvolvimento motor, cognitivo e social, mas também como estímulo ao prazer, à descoberta, à criatividade e à expressão de todos os pequenos.

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De cima para baixo: as estudantes Thyelly Romanin e Beatriz Correia com a docente responsável pela orientação das pesquisas, Carla Cilene B. da Silva

Avaliação do Modelo Lúdico: o brincar no cotidiano de crianças com deficiência 

“Por meio das matérias da grade comum comecei a me interessar pela infância. Quando procurei a professora Carla, minha atual orientadora, para ingressar em um programa de Iniciação Científica relacionado a crianças, ela me apresentou suas linhas de pesquisa. A questão da deficiência e o brincar foi a que despertou minha curiosidade de aprender mais”, relata Thyelly Brandão Romanin, estudante do curso de graduação em Terapia Ocupacional do ISS/Unifesp, que, após ler o livro de Ferland sobre o Modelo Lúdico e inspirada no trabalho de Correia, começa o seu projeto com uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Utilizando os mesmos instrumentos e a mesma metodologia do estudo anterior, a pesquisa desenvolvida por Romanin é realizada no Centro de Reabilitação II, em Santos. “Enquanto o outro projeto tinha por objetivo conhecer o cotidiano lúdico de crianças com deficiência física ou múltipla, no meu caso as entrevistas vêm ocorrendo com familiares de crianças com diagnóstico ou suspeita de transtorno do espectro autista (TEA)”, esclarece a estudante.

Nesse novo trabalho observou-se que os dados relativos ao brincar dessas crianças, a partir da perspectiva de seus pais e/ou responsáveis participantes, vêm ratificando o que a literatura afirma: que essas crianças demonstram pouco interesse por brincadeiras e brinquedos novos, sendo que a maioria brinca sozinha ou com adultos. “Esse dado nos leva a confirmar que os obstáculos ou dificuldades encontradas entre as crianças com deficiência física e múltipla são distintas das encontradas entre as crianças com TEA. Outro ponto importante é que a realização dessas pesquisas poderá contribuir para que a Terapia Ocupacional avance nas propostas de intervenção relativas às atividades lúdicas, que vão para além dos espaços de atendimento nos centros de reabilitação. Devem ser, portanto, repensadas as formas de intervenção no contexto do cotidiano dessas crianças – como, por exemplo, na escola, na própria casa, nos espaços comuns dos prédios ou nos bairros onde moram”, finaliza Silva. 

Com a conclusão do segundo projeto de Iniciação Científica, Silva pretende escrever um artigo com as estudantes envolvidas nas pesquisas, contemplando e discutindo os resultados encontrados nos dois centros de reabilitação.

 
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A graduação é o momento em que os estudantes começam a tatear as possibilidades profissionais dentro da área em que escolheram atuar. A Iniciação Científica é um dos caminhos pelos quais o estudante pode optar percorrer

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Imagem: Alexandre Souza / Alex Reipert

 

Valquíria Carnaúba

Uma das metas estabelecidas no Plano Nacional de Educação (PNE), em 2014, é a de expandir o ensino superior para que, até 2024, um terço dos jovens de 18 a 24 anos estejam matriculados em algum curso de graduação. Em 2017, segundo o Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 4,2 milhões de jovens entre 18 e 24 anos estavam na universidade (18% do total). 

Para comparação, naquele mesmo ano, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) contribuiu com aproximadamente 0,3% do percentual. Parece pouco, mas se considerarmos que a taxa de contribuição da universidade equivaleu, somente naquele ano, a 13.492 estudantes, é possível ter uma dimensão de quantos jovens ingressaram na pesquisa ou no mercado com uma formação sólida em suas áreas do conhecimento. Entre 2009 e 2019, 119.591 jovens iniciaram suas carreiras na Unifesp, distribuídos entre os mais de 40 cursos de nível superior (incluindo os que foram criados ao longo do período analisado). 

Grande parte desses indivíduos trilhou o caminho da pesquisa científica, optando pela carreira acadêmica por incentivo de docentes, colegas de sala de aula e das boas experiências vivenciadas na graduação – especialmente aqueles que passaram pela Iniciação Científica (IC). A modalidade de pesquisa acadêmica é desenvolvida, atualmente, por estudantes de graduação nas universidades brasileiras em diversas áreas do conhecimento. No Congresso Acadêmico da Unifesp 2020, por exemplo, foram submetidos 1.560 trabalhos de pesquisadores de IC, entre bolsistas e não-bolsistas. 

Um dos aspectos positivos dessa preocupação com a formação do graduando é o estímulo extra para que esse estudante permaneça pesquisando. Uma pesquisa realizada pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), em 2017, revelou que os egressos do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) têm 2,2 vezes mais chances de completar suas dissertações de mestrado e 1,51 vez maior de concluir as teses de doutorado, quando comparados aos que não passaram pela experiência.

Nossos dados confirmam essa tendência. Desde 1933, os cursos de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) registram 3.940 concluintes que são, também, egressos da graduação na mesma universidade. De 2014 a 2020, 7.726 indivíduos ingressaram em algum dos cursos de pós-graduação stricto sensu da Unifesp. Desses, 1.767 estudantes advêm da graduação na mesma universidade. Afinando ainda mais a lupa, 470 passaram pela experiência da Iniciação Científica.

A pesquisa refere-se aos estudantes que atendem às exigências do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq), órgão responsável pelo financiamento da maioria dos projetos de pesquisa de graduação e pós-graduação no país. Entretanto, os estudantes de graduação que levam seus projetos de forma autônoma são, de igual maneira, transformados pela Iniciação Científica, uma experiência que desenvolve diversas competências, como empreendedorismo, olhar analítico e redação científica – ainda que se debrucem, futuramente, sobre outras áreas do conhecimento.

De acordo com Deborah Suchecki, docente associada do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, e coordenadora institucional do Pibic-Pibiti na universidade, a IC é o primeiro passo para a carreira acadêmica. “Muitos pesquisadores de IC seguem para a pós-graduação stricto sensu, pois desenvolvem habilidades necessárias para se tornar um cientista”, afirma. Para ela, a curiosidade e a inquietação são características muito desejáveis, que os levam a formular perguntas e a querer respondê-las. “Não é necessário que o estudante chegue com todo o conhecimento teórico do assunto que pretende estudar, mas é necessário que tenha fome de aprender, que goste de ler e queira adquirir conhecimento, direta e indiretamente relacionado com o tema da pesquisa”. 

Seu conselho para os estudantes que arriscam a Iniciação Científica é que vivenciem ao máximo os grupos mais experientes (de mestrado e doutorado), pois essa bagagem torna-se um divisor de águas na vida acadêmica. “Por meio da IC, o estudante mergulha mais profundamente em um assunto pelo qual tem certo interesse. Quando participa de congressos, conhece colegas de outras universidades e troca ideias, conhecimentos e vivências com os orientadores – algo muito gratificante”, pontua. 

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A Prograd e a IC

A Pró-Reitoria de Graduação (Prograd/Unifesp) é o órgão da Reitoria que tem como propósito promover o ensino de qualidade e garantir a formação geral e profissional dos estudantes de graduação, preparando-os tanto para uma atuação competente, crítica e ética quanto para o prosseguimento de estudos em nível de pós-graduação.

Para executar seu trabalho, a Prograd/Unifesp conta com cinco coordenadorias (Sistema de Seleção para Ingresso de Estudantes na Universidade, Projetos e Acompanhamento Pedagógico, Programas e Projetos Institucionais, Avaliação, e Desenvolvimento Docente), além de uma assessoria para assuntos de internacionalização e do Comitê Gestor Institucional de Formação Inicial e Continuada de Profissionais da Educação Básica. A responsabilidade pelos trabalhos de cada coordenadoria é conferida a um docente e a uma comissão composta por representantes das unidades universitárias.

Por meio da Coordenadoria de Programas e Projetos Institucionais, são articulados os projetos e programas vinculados à Pró-Reitoria de Graduação, induzidos pela política de educação superior do Ministério da Educação, com demandas e ações internas para a definição de políticas próprias da Unifesp para a graduação.

É nessa instância que Suchecki organiza a concessão de bolsas aos solicitantes. Todos os anos, são ofertadas bolsas de Iniciação Científica para estudantes de ensino médio e para estudantes de graduação. Os solicitantes do nível superior, ao ingressarem com pedido de aquisição de uma, podem se candidatar de acordo com o programa específico para sua atividade.

A pergunta que não quer calar: como as bolsas são atribuídas aos estudantes? 

“Dividimos a cota pelos campi a partir no número de graduandos de cada campus. Em uma primeira fase, os projetos submetidos são avaliados por assessores internos que levam em consideração três itens: histórico escolar, projeto e orientador. Com base nessa avaliação, os pedidos recebem uma graduação de prioridades, sendo P1 a maior prioridade e P3 a menor. Montamos comissões em cada campus compostas por professores internos e externos à Unifesp que selecionarão os melhores pedidos. Não levamos em consideração o critério do governo que privilegia áreas estratégicas, pois todas as áreas de conhecimento e toda geração de excelência de conhecimento são estratégicas”.

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Deborah Suchecki

Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – Pibic

O Pibic é voltado para o desenvolvimento do pensamento científico e iniciação à pesquisa de estudantes de graduação do ensino superior, visando contribuir para a formação de recursos humanos para a pesquisa que se dedicarão a qualquer atividade profissional. O programa busca reduzir o tempo médio de permanência dos estudantes na pós-graduação, incentivar as instituições à formulação de uma política de Iniciação Científica, bem como possibilitar maior interação entre a graduação e a pós-graduação, e qualificar graduandos para os programas de pós-graduação. Ele tende ainda a estimular pesquisadores produtivos a envolverem estudantes de graduação nas atividades científica, tecnológica, profissional e artístico-cultural e também proporcionar ao bolsista, orientado por pesquisador qualificado, a aprendizagem de técnicas e métodos de pesquisa, bem como estimular o desenvolvimento do pensar cientificamente e da criatividade, decorrentes das condições criadas pelo confronto direto com os problemas de pesquisa.

Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação - Pibiti

O Pibiti foi criado com o intuito de estimular estudantes do ensino técnico e superior ao desenvolvimento e transferência de novas tecnologias e inovação, visando contribuir para a formação e engajamento de recursos humanos para atividades de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação. O programa busca a formação de recursos humanos que se dedicarão ao fortalecimento da capacidade inovadora das empresas no país, bem como para reduzir o tempo médio de permanência dos estudantes na pós-graduação e incentivar as instituições à formulação de uma política de Iniciação Científica. É seu objetivo também possibilitar maior interação entre a graduação e a pós-graduação, qualificar graduandos para os programas de pós-graduação e estimular pesquisadores produtivos a envolverem estudantes de graduação nas atividades científica, tecnológica, profissional e artístico-cultural; e ainda proporcionar ao bolsista, orientado por pesquisador qualificado, a aprendizagem de técnicas e métodos de pesquisa, bem como estimular o desenvolvimento do pensar cientificamente e da criatividade, decorrentes das condições criadas pelo confronto direto com os problemas de pesquisa.

Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – Pibic nas Ações Afirmativas (Pibic-AF)

O Pibic nas Ações Afirmativas tem como objetivo complementar as ações afirmativas já existentes nas universidades. Seu objetivo é oferecer aos estudantes beneficiários dessas políticas a possibilidade de participação em atividades acadêmicas de Iniciação Científica.

Esse programa está inserido no Pibic e é resultado de uma parceria entre a Subsecretaria de Políticas de Ações Afirmativas da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SUBPAA / SEPPIR-PR) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Bolsista de IC tem mais chances de concluir pós-graduação, aponta estudo do MCTIC 

O estudo de 2017 intitulado A Formação de Novos Quadros para CT&I (Ciência, Tecnologia e Inovação): avaliação do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), do CGEE, é composto por análises quantitativas e qualitativas sobre a visão dos egressos e orientadores sobre a experiência Pibic, com pesquisa de opinião no período de 1 de agosto de 2013 a 31 de julho de 2014, além de avaliações comparativas entre graduandos bolsistas e não bolsistas Pibic da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Mais informações: https://www.cgee.org.br/documents/10182/734063/PIBIC-pdf

 

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Publicado em Edição 13
Quarta, 21 Outubro 2020 19:05

Profissão: amor

A história de como Fábio Cruz tornou-se docente e pesquisador e a influência da IC em sua carreira

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Docente em seu laboratório na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) / Fotografia: Alex Reipert

 

Juliana Cristina

Alguns acreditam que o lugar de onde vêm, suas experiências, a forma como são criados, as coisas que aprendem e começam a defender, são guias de suas escolhas. Outros acreditam que aquilo que nascem para ser, de alguma forma, mora dentro de si. A teoria das inteligências múltiplas, de Howard Gardner, nos diz, basicamente, que cada um possui uma inteligência diferente e predominante. Talvez, apesar de tudo, sempre haja algo que grite mais alto em nosso ser. Algo que nos inspire, nos impulsione. Algo que nos faça sorrir e sentir cada centímetro de si pulsar. Talvez, em certos casos, possamos chamar esse algo de “fazer exatamente o que sentimos ter nascido para fazer”. 

Essa história é sobre alguém que possui um brilho intenso no olhar, uma voz gentil e uma leveza ímpar ao narrar seu próprio caminho. Talvez também seja a história de alguém que nasceu para fazer o que faz. Ela começa há quarenta e um anos, em Presidente Prudente, quando o bancário João Cruz e a auxiliar de enfermagem Maria Cecília conceberam o menino Fábio. Desde seus primeiros passos, os pais decidiram que deixariam aquela que acreditavam ser a maior e melhor herança para o filho: a oportunidade de estudar. Seus pais foram seus primeiros mestres.

No primeiro dia de aula na Pré-escola Pingo de Gente, todas as crianças pareciam desesperadas! Tristes, chorando, segurando os braços de seus pais, implorando para não entrarem naquele novo lugar incomum às suas vidas. Fábio não entendia bem as outras crianças, porque sentia ansiedade em poder entrar na escola, queria logo estudar! E essa era uma alegria esperada por ele. Sua formação começou ali, nas primeiras coisinhas ensinadas pela “tia” Célia, em cada número e em cada nova letra do alfabeto. A Pingo de Gente não foi apenas onde estudou quando criança, mas tornou-se o símbolo de onde deu seus primeiros passos.

 

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Infância em Presidente Prudente ao lado dos pais João e Maria Cecilia Cruz (Arquivo pessoal)

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Estudantes da Pré-escola Pingo de Gente com professora Célia ao fundo (Arquivo pessoal)

Fábio prosseguiu seus estudos nas escolas públicas do município onde morava, carregando consigo as palavras edificantes de seus pais sobre o imensurável valor de estudar. Quando concluiu os ensinos Fundamental e Médio, decidiu que gostaria de ser médico. Prestou vestibular para cursos de Medicina, mas, apesar de sua determinação, esse não era seu caminho. Também pensou em cursar Farmácia e, dessa vez, passou no vestibular para estudar na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara. Sua mãe logo arregaçou as mangas e voltou a trabalhar para ajudar o filho com as despesas na nova cidade. Pouco tempo depois, Fábio foi morar em uma república. Lá viviam doze ou treze pessoas, doze ou treze universos particulares. Todos muito diferentes, com diferentes níveis sociais, criações, ideias e visões de mundo. Por um lado, pode ser um tanto complicado e bastante caótico. Por outro, o lado que Fábio decidiu ver, havia a oportunidade de conviver com a grande diversidade dentro daquele ambiente compartilhado e aprender a ser mais aberto, mais tolerante.

No primeiro dia de faculdade, João Aristeu da Rosa apresentou aos calouros o Programa Especial de Treinamento (PET), um programa de formação para graduandos interessados no ingresso em cursos de pós-graduação depois de formados. A ideia era preparar os estudantes para seguirem com seus estudos na área acadêmica e o programa possuía as vertentes de pesquisa, ensino e extensão. Fábio se interessou no instante em que o professor apresentou o programa e inscreveu-se para participar. O PET lhe trouxe muitas experiências construtivas e uma das mais marcantes costumava acontecer no início do ano: todos os participantes ficavam alojados em um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra. Os graduandos realizavam exames parasitológicos, exames da água e ministravam cursos de formação de líderes em saúde. Ali, Fábio aprendeu muito. Primeiro porque, de certa forma, se identificava com a realidade daquelas pessoas – apesar de não ter uma origem fundiária, sua procedência era também bastante humilde. E, desde aquele momento, sentiu que estava devolvendo um pouco do investimento que as pessoas estavam fazendo nele. Apesar de não ter férias nos meses de janeiro e fevereiro, sentia felicidade em estar trabalhando com aquela população e poder ensinar um pouco do que era parte de sua formação - além de aprender. Aprendia com eles sobre diversas coisas, inclusive sobre plantas medicinais que poderiam ser levadas para o meio acadêmico a fim de pesquisar suas funções e propriedades. Enquanto trabalhavam no acampamento, Fábio e seus colegas também observavam aqueles que poderiam vir a ser irradiadores das informações que eles levavam. Além disso, nos meses de julho, realizavam uma ação chamada Férias na Universidade, na qual levavam os jovens para conhecer e, acima de tudo, mostrar que a universidade pública também era deles, que tinham o direito de sonhar em estar ali.

 

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Período da Iniciação Científica de Fábio, ao lado dos colegas Adrien Falco Pizzi, Gabriela Cristina dos Santos e Marinaide Naegele (Arquivo pessoal)

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Realização de experiências durante a IC no laboratório da docente Cleópatra da Silva Planeta (Arquivo pessoal)

Do PET à IC

O PET trouxe mais uma base importante para a formação de Fábio: a Iniciação Científica. No início de seus projetos, os estudantes deveriam encontrar professores que pudessem auxiliá-los. Foi então que conheceu Cleópatra da Silva Planeta. Na época a pesquisadora havia voltado há pouco da Universidade de Harvard, em Massachussetts, e realizava seu trabalho acerca da dependência de drogas e abuso. Cleo, como prefere ser chamada, sempre demonstrou grande preocupação de que seus orientandos fossem além da pesquisa realizada no laboratório, por isso aconselhava que os pesquisadores estivessem sempre em contato com os dependentes, seus pais ou parentes próximos, para que pudessem ver realmente quem suas pesquisas poderiam impactar. Além disso, os incentivava a levarem seu conhecimento acadêmico também para a população.

A pesquisadora era uma pessoa muito responsável e empolgada com o que fazia. Mais do que ensinar, ela estimulava seus orientandos a participarem de congressos científicos, apresentarem seus trabalhos e, de alguma forma, cativá-los em relação à ciência. 

Fábio trabalhou investigando a influência do estresse na dependência de drogas e abuso e desenvolveu esse tema durante seus cinco anos de graduação. Seu gosto por aquele universo aumentava exponencialmente e, quando terminou o curso, percebeu que estava completamente apaixonado pela vida acadêmica. 

— Aquilo me transformou! Talvez se tivesse feito Medicina eu não teria essa oportunidade. Talvez eu não fizesse aquilo que tenho vocação pra fazer. 

Faltando pouco tempo para o fim da graduação, o estudante foi visitar seus pais em Presidente Prudente. Seu João estava levando o filho para casa quando simplesmente desviou o caminho. O jovem achou estranho, mas não disse nada. Então o pai passou em frente a uma farmácia pequenininha, virou para o filho e disse, orgulhosamente: “Ó, isso aqui é nosso!". 

Ele não soube como reagir instantaneamente e, em seus pensamentos, surgiu um grande dilema. Sabia que seu pai aposentado, embora não ganhasse muito, tinha seu fundo de garantia e, com isso, fez aquela surpresa. Fábio imaginava quantos de sua turma gostariam de ter a oportunidade que seu pai estava lhe dando. No entanto, ao mesmo tempo, apesar do medo de parecer ingrato, não sentia ter vocação para ser o profissional que atua em uma farmácia. Achava bonito, mas desejava profundamente seguir com a vida acadêmica – para a qual havia se preparado. De repente, viu-se atônito em meio àquele dilema. 

O impasse fez com que Fábio decidisse tentar dividir seu tempo. E então, nas férias e feriados, passou a trabalhar na farmácia. Esses meses foram suficientes para que tivesse certeza do que queria: ser farmacêutico, mas na vida acadêmica. A parte difícil seria contar para o pai sobre o caminho que escolheu. Mesmo assim, estava decidido. E, no dia de sua formatura, a mãe disse uma frase que o ajudou e marcou para sempre: “A gente é feliz fazendo aquilo que gosta”. No fim, o pai e a mãe entenderam o caminho de Fábio e o apoiaram plenamente em suas escolhas. Com isso, o jovem farmacêutico sentia que deveria se dedicar ainda mais e dar o melhor de si para mostrar aos pais que realmente “era aquilo”. 

Pouco tempo depois Fábio entrou para o Programa de Pós-Graduação em Ciências Fisiológicas na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). E, no dia da defesa de sua dissertação, os pais choraram emocionados junto ao filho. Naquele momento, não tinham mais dúvidas de que ele era feliz - feliz fazendo exatamente o que gostava. Seu João e dona Maria Cecília continuam incentivando o filho em cada um de seus passos. Sofrem, choram e vibram juntos. Acima de tudo, reconhecem a importância da educação. Seus pais são seus maiores influenciadores e sua inspiração.

Fábio prosseguiu no doutorado com a pesquisa iniciada em sua Iniciação Científica. Escolheu continuar trabalhando com o tema, não apenas por ter se identificado, mas também por uma motivação social. Desde o início de sua pesquisa, via que pessoas na situação de dependência eram deixadas de lado, como se tivessem escolhido e não quisessem mudar. Ele queria mostrar que a dependência tinha uma base neurobiológica e deveria ser tratada tal como ansiedade ou depressão. E, embora trabalhando na pesquisa básica, entendendo a Neurobiologia, sentia que seu estudo poderia influenciar na sociedade, ajudar a desconstruir o estigma em torno do tema e, consequentemente, ajudar as pessoas. Ele enxerga que a dependência é tratada como assunto de polícia, quando, na verdade, é assunto de saúde pública. 

Depois de algum tempo, já no pós-doutorado, Fábio passou em um concurso público e teve que cancelar sua bolsa de estudos. Porém, por motivos que nem ele sabe, o concurso simplesmente foi invalidado e a única coisa que havia sobrado da bolsa era um congresso nos Estados Unidos. Como já estava pago, ele resolveu ir. Surpreendentemente, um professor o reconheceu e perguntou se ele era orientando de Cleo. Os dois conversaram e, então, surgiu um convite de trabalho. Fábio, meio cabisbaixo, explicou que não teria como ir, pois estava sem a bolsa. O professor então ofereceu um salário para que ele trabalhasse contratado em seu laboratório no National Institute on Drug Abuse como pesquisador. E, claro, Fábio aceitou. Durante quatro anos ele aprendeu muito sobre o estudo molecular e teve um aprofundamento de técnicas de vanguarda. Bruce Hope, o professor que o contratou, mostrava-se grande entusiasta em desenvolver técnicas, metodologias e inovações para que as pessoas pudessem usar em seus experimentos. Lá, Fábio começou a desenvolver a linha de pesquisa que mantém até hoje, chamada neuronal ensembles, na qual procura entender a dependência como algo que envolve comportamentos de aprendizado e memória. 

Quando voltou para o Brasil, trabalhou por dois anos no Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid), liderado por Glaucius Oliva, no Centro de Desenvolvimento de Fármacos do Instituto de Física de São Carlos. Em paralelo, recebeu o Auxílio à Pesquisa Jovem Pesquisador da Fapesp e, com isso, conseguiu montar seu laboratório. Nesse meio tempo, Isabel Quadros, que havia sido sua co-orientadora nos Estados Unidos, telefonou avisando que havia sido aberto um concurso para trabalhar na Unifesp na área de Psicofarmacologia. Ele dizia que não iria, porque passar em um concurso para trabalhar na Unifesp era um sonho inatingível. Mas Quadros insistiu, incentivou e ele acabou indo. Seu sonho quase impossível, graças à sua dedicação e ao estudo, foi alcançado. Fábio passou no concurso, colocou seu laboratório dentro de um caminhão, mudou-se para São Paulo e começou a desenvolver suas pesquisas dentro da universidade. 

Hoje também realiza um projeto na cracolândia, o qual considera um intenso aprendizado e uma grande realização por poder ajudar as pessoas que vivem ali. Embora muito difícil, é também muito gratificante. Sente que vale a pena trabalhar com aquelas pessoas e o fato de tentar mudar a realidade de, pelo menos alguns, o motiva.

Hoje Fábio é docente na Unifesp e orienta estudantes de diversos níveis acadêmicos. Sempre procura convidar professores visitantes para que seus orientandos tenham oportunidades, assim como ele teve, especialmente aqueles que estão iniciando suas vidas acadêmicas realizando projetos de Iniciação Científica. Para ele, a IC mudou tudo em sua vida. Foi a partir dela que decidiu seguir na área acadêmica e que, hoje, se tornou o profissional que é. Além disso, foi uma das grandes motivações para que se tornasse uma pessoa entusiasta e que busca estimular e cativar seus orientandos em relação à ciência.

— Toda vez que eles chegam com o mesmo brilho nos olhos que eu cheguei em Araraquara, muito tempo atrás, me sinto responsável por eles. Nem todo dia acordo bem, mas penso: “Não, hoje tenho que ficar bem, porque o Ben, a Camila, a Giovanna, o Ricardo, a Michele vão estar no laboratório, e eu tenho a responsabilidade de não deixar eles se frustrarem com aquilo”. Toda vez que acordo, lembro deles e falo: “Vou pro laboratório e esquecer qualquer coisa adversa acontecendo fora dele”, porque acho que eles merecem o melhor, então tento ser o melhor pra eles. A Iniciação Científica foi uma oportunidade pra mim e quero que seja uma oportunidade pra eles. 

Para Fábio, mesmo os estudantes que não queiram seguir na área acadêmica, deveriam fazer Iniciação Científica, porque a pesquisa é também uma oportunidade de desenvolverem senso crítico – não repetirem métricas e receitas, mas irem além do técnico e entenderem o motivo pelo qual estão fazendo isso ou aquilo. Além disso, acredita que é preciso olhar com cuidado para os orientandos de Iniciação Científica. Que os orientadores não devem simplesmente depositar suas solicitações nesses estudantes, mas suas esperanças. Que os incentivem para que continuem fazendo o que gostam, busquem novos projetos, bolsas e tenham o melhor. Afinal, além de tudo, são eles que darão continuidade àquilo que os próprios docentes são hoje. Fábio se sente como uma extensão de Cleo e enxerga que seus orientandos serão como uma extensão dele. Como ela costumava dizer a ele: “É como um barco, uma arca na qual vão se colocando pessoas dentro e criando uma família científica muito grande”. Na ciência ou na vida, ele acredita que nada se constrói sozinho. Tudo é construído em conjunto, conversando com os colegas e com outros professores, aumentando a visão do próprio projeto e criando um caminho de coletividade. 

— É o que a gente precisa. Sermos mais coletivos dentro da universidade pública.

Ele relembra com carinho de um bom exemplo disso: Rodrigo Molini Leão também fez Iniciação Científica no laboratório de Cleo. No início, seus anseios, sonhos e incertezas eram exatamente os mesmos dos outros pesquisadores de IC. Quando iniciou seu doutorado, Rodrigo foi orientado por Cleo e co-orientado por Fábio. Mas, mais do que orientadores e orientando, os pesquisadores criaram o caminho de coletividade do qual Fábio se orgulha. Um sempre esteve ao lado do outro, dando forças quando necessário e colaborando na construção de suas carreiras. Hoje Rodrigo é professor de Farmacologia na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e, apesar da distância física, sempre estão colaborando entre si e seus laboratórios muitas vezes são como extensões um do outro. Fábio acredita que sem a ajuda e apoio de seu amigo, muitas coisas provavelmente não teriam sido possíveis em sua própria carreira. E que, além de Rodrigo, outros de seus colegas, como Paulo Carneiro de Oliveira, Paula Bianchi, Paola Palombo, Sheila Engi, Caroline Zaneboni, Augusto Anésio, Thais Yokoyama, Natália Bertagna, Thamires Righi, Fernando Bezerra, Mayara Perillo, Gabrielle Tavares, Lara Fonteles e Jaqueline Moreira são parte importante de sua caminhada. Para ele, como diria Raul Seixas: “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”.

 

Fabio Cruz MG 0242

Fábio ao lado de seus orientandos de Iniciação Científica Giovanna Victória e Ben Tagami (Fotografia: Alex Reipert)

 
Publicado em Edição 13