Quinta, 02 Dezembro 2021 16:18

Um trabalho que recompensa

Nancy Bellei, infectologista, pesquisadora e docente da Unifesp, estuda vírus respiratórios há mais de 20 anos e acompanhou a pandemia de covid-19 desde o início. Bellei é uma das principais fontes sobre a questão no país e seus estudos a tornaram também uma das maiores agentes no enfrentamento da crise sanitária

Juliana Cristina

Nancy Bellei é graduada em Medicina, especialista em virologia e doutora em infectologia pela Universidade de São Paulo (USP). A docente afiliada e pesquisadora da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, atua ainda como consultora ad-hoc do Ministério da Saúde - SVS para pandemia de coronavírus e como consultora científica da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/ OMS).

Bellei acompanhou o avanço da covid-19 no Brasil e, desse modo, pode ser considerada tanto como grande espectadora da pandemia quanto uma das maiores protagonistas diante do cenário pandêmico. A pesquisadora, inclusive, idealizou e participou de diversas pesquisas relacionadas ao Sars-CoV-2 realizadas até então, a exemplo do estudo da vacina da Universidade de Oxford (Reino Unido) para o qual ela e seu grupo de pesquisa estão avaliando a carga viral e mutações nos indivíduos vacinados. O grupo foi o primeiro a publicar sobre a diminuição da circulação de alguns vírus respiratórios durante as medidas de afastamento social (resultado de aplicação prática em saúde pública) e demonstrou resultados no laboratório que auxiliam no diagnóstico dos pacientes não apenas quanto à avaliação de gravidade com carga viral, como mostrou ser possível realizar e melhorar o diagnóstico de covid-19 detectando-o em outros materiais, como nas fezes.

Em conversa com a Entreteses, Bellei falou sobre como está sendo vivenciar o espectro da pandemia desde o começo, sua perspectiva a respeito da questão da pesquisa no Brasil e investimentos vinculados a esse fim, além de realizar uma breve análise acerca da administração e divulgação das questões relacionadas ao novo coronavírus no país.

Nancy Bellei infectologista

“Apesar das dificuldades, o hospital se manteve com as portas abertas e bem gerenciado para avaliar pacientes com covid-19”, Nancy Bellei 
(Fotografia: Alex Reipert)

Entreteses • Você está inserida no cenário decorrente da covid-19 desde o início. Como foi vivenciar a expansão da pandemia? E como foi seu trabalho durante esse período?

Nancy Bellei • Até outubro, atuamos com os(as) pós-graduandos(as) em nosso laboratório de pesquisa e, eventualmente, com reforços de pessoas do Laboratório Central. Era preciso responder de forma rápida, ou seja, realizar testes em menos de 24 horas para que o Hospital São Paulo (HSP/HU Unifesp) conseguisse adaptar da melhor forma possível a intensa demanda do serviço público. Por isso, o Laboratório de Virologia foi transformado em um “laboratório de rotina”. E, para que o hospital agilizasse as internações, tivemos que dispor de uma grande dedicação do grupo todo. Sem contar que uma estrutura de universidade não é de fato apropriada para esse tipo de diagnóstico. Diante do contexto da pandemia, algumas pessoas, como médicos(as) residentes, se aproximaram bastante do nosso grupo e se interessaram em contribuir tanto na rotina quanto na pesquisa. Conseguimos com que nossos(as) alunos(as) defendessem suas teses (sobre outras agências virais) nos prazos, publicamos um número significativo de artigos a respeito do coronavírus e também sobre outros vírus. Nosso grupo vivenciou a internação de pacientes e profissionais de saúde, algo de que o trabalho no laboratório às vezes nos afasta um pouco. O resultado é que apesar de alguns problemas técnicos que tivemos, o trabalho revelou-se muito estimulante, afinal essa é a minha linha de pesquisa. Durante a epidemia de H1N1 [vírus da gripe suína, considerada a primeira do século XXI (2009)], passei por uma experiência semelhante, pois também se tratava de um vírus novo. É uma área à qual me dedico há mais de 20 anos e o trabalho, ainda que por vezes seja desgastante, é muito gratificante.

 

E. Neste momento, estamos prontos(as) para administrar a vacinação da população brasileira ou ainda existem muitos obstáculos?

N.B. Nós ainda temos vários obstáculos para a vacinação. Um deles diz respeito à comunicação com a sociedade, pois há dissonância entre gestores(as) políticos(as) e as sociedades científicas. Acredito que a cada indivíduo cabe um papel e, quando determinado grupo extrapola seu dever com a sociedade, só temos prejuízo. Além disso, enfrentamos questões envolvendo logística difíceis de serem solucionadas. Não adianta serem comprados vários freezers, porque primeiro é preciso antecipar a solicitação e compra de determinadas vacinas com semanas ou meses anteriores à entrega. Por isso, a questão é entender toda essa rede, estabelecer compras previamente, entender faixas etárias e estabelecer estudos de custo-efetividade para, assim, determinar o melhor plano de vacinação possível. Temos uma série de obstáculos e estamos atrasados porque quanto mais rápido a população for vacinada, melhor. Temos diversas questões num país de tamanho continental, como questões políticas, a questão internacional do mercado, questões relacionadas à aplicação da vacina (uso de seringas, manutenção de cadeia de frio, distâncias...), então realmente são muitos desafios.

 

E. Existe uma corrida pela descoberta da melhor vacina e sabemos que países e empresas que detiverem a tecnologia melhor aceita sairão na frente em diversos aspectos. Por outro lado, recentemente foi publicada uma matéria citando a análise feita pela People's Vaccine Alliance que fala sobre como países mais pobres poderão ser afetados mediante ao estoque de vacina feito por países mais ricos. Em sua opinião, como fica o Brasil nessa história?

N.B. A maior parte dessas vacinas vem de outros países, e quem as produz e vende tem uma preocupação com o território onde elas serão introduzidas. Se há instabilidade política e econômica nesses locais, isso vai contra a política de farmacêuticas e indústrias internacionais, principalmente neste momento. Não podemos esquecer que elas têm acionistas e interesses econômicos próprios. Por isso, não existe interesse em enfrentar desafios desse tipo com situações instáveis em países como o nosso, por exemplo. São casos em que essas empresas buscam outros mercados que tenham interesse, ao invés de se ficar à espera desse mercado onde não há estabilidade e definição. Portanto, isso pode afetar o número de vacinas diferentes disponíveis que viremos a ter no país.

 

E. Sob seu ponto de vista, como o Brasil (poder público, SUS e hospitais) administrou o atendimento à população e a informação à sociedade sobre o problema?

N.B. Houve muito desacerto inicial, tanto no diagnóstico quanto no isolamento, atendimento e preparo para a pandemia. Faltou planejamento; sempre “apagando o fogo”, em vez de evitá-lo. Os laboratórios privados se anteciparam, possuíam reagentes e testes, enquanto o setor público justificava não conseguir comprar porque “estava faltando”. Com esse argumento, boa parte dos diagnósticos atrasou e boa parte da contenção inicial não foi feita. Penso que os hospitais de campanha seriam melhor aproveitados se usados para isolamento de parte da população e testagem do que somente para casos graves. As medidas iniciais se resumiram a sugerir que a população ficasse em casa de quarentena. Isso teve um papel importante sim, mas não é só o que se espera de uma gestão pública, mas principalmente organização e planejamento – como nos hospitais privados, laboratórios e até alguns hospitais públicos. No Hospital São Paulo, criamos um local para serem atendidos(as) os(as) pacientes com síndrome gripal, começamos a comprar reagentes para diagnósticos (na época com muita dificuldade), além de treinarmos pessoas. Acho que quanto a isso faltou muito para a gestão pública nacional em todos os sentidos.

 

E. Hoje as opiniões sobre a imprensa estão bastante polarizadas. Alguns grupos afirmam que veículos de comunicação são como “mensageiros da morte”, por exemplo. Qual a sua opinião sobre o tratamento da imprensa e reação da população brasileira em relação à pandemia?

N.B. Claro que existe um bom papel da imprensa, de veicular informações, otimismo, mas parte do que sustenta a mídia é polêmica. A imprensa tem um papel provocativo que, muitas vezes, acaba sendo só de polêmica ou de simular polêmica, o que pode chegar a um ponto nocivo. Estimular debate é interessante. Porém, estimular polêmica e polarização nessa questão de saúde é deletério. Assim que vejo a imprensa. Quanto à população, acho que se entre as próprias sociedades médicas não especialistas e os(as) próprios(as) especialistas já existe uma série de dúvidas e comportamentos não apropriados, imagina como a população pode entender e se colocar em relação à vacina nessa situação tão confusa, não é? É muito difícil. O ideal seria que as sociedades médicas, a imprensa e os(as) gestores(as) políticos(as) tivessem um olhar de planejamento integrado, mas não é o que vemos na prática.

 

E. Em relação às pesquisas no Brasil, você acredita que poderíamos estar em um nível melhor quanto aos investimentos? Como estaríamos melhor?

N.B. Durante muitos anos tivemos dificuldade para conseguir financiamento no país, porque os vírus respiratórios não estavam entre as prioridades dos financiamentos de pesquisa. No entanto, isso acabou se tornando prioridade máxima com a chegada da pandemia. Com isso, tivemos uma melhoria nas condições do laboratório, conseguimos adquirir equipamentos e recebemos financiamentos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que, embora fôssemos um grupo de liderança nacional, se tratando da pesquisa em vírus respiratórios, era algo difícil de conseguir. Ficou evidente que a questão dos vírus respiratórios é um desafio constante, levando em conta que não é possível determinar quando acontecerá um evento à semelhança da pandemia de coronavírus. Em janeiro, apesar de estarmos em condições estruturais e financeiras muito difíceis, nós conseguimos dar conta de estabelecer o diagnóstico. Depois, pouco a pouco, recebemos suporte da universidade, diretoria da escola e doações. Mas ficou visível que era preciso ter um grupo de pesquisa pronto para responder a essa demanda de proporção mundial.

 

E. Em sua concepção, qual o patamar da pesquisa e da ciência brasileira em relação aos demais países?

N.B. Tempos atrás, no ano de 2017, saiu uma avaliação no jornal Folha de S. Paulo mostrando que, proporcionalmente, o Chile possuía um avanço maior do que o nosso em termos científicos. Foi uma análise feita em relação ao número de trabalhos, onde eram publicados… Fiquei surpresa quando a vi, considerando o tamanho do Brasil e o número de universidades que temos, ambos muito maiores em relação ao país vizinho. Existem recursos disponíveis para pesquisa em nosso país, mas é preciso haver organização e maximização desses recursos. Nós temos universidades federais muito produtivas, mas também temos um grande contingente de recursos humanos, em universidades públicas, pouco produtivo. Tudo isso teria que ser repensado.

 

E. Como foi a movimentação de pacientes e a administração dos atendimentos no Hospital São Paulo (HSP/ HU Unifesp) ao longo dos últimos 10 meses?

N.B. Montamos um comitê e começamos a discutir na diretoria do hospital. Então, criou-se uma ala de atendimento a pacientes não hospitalizados(as) com síndrome respiratória sugestiva de covid-19, alas específicas para o atendimento de pacientes com o novo coronavírus, e ambulatórios de pós-covid para pacientes que tinham quadro pulmonar grave. Essa movimentação revelou que, apesar das dificuldades, o hospital se manteve com as portas abertas e bem gerenciado para avaliar pacientes com covid-19 que o procuraram, mesmo quando vinham de regiões de São Paulo. Muitos(as) deixaram de ir a uma Assistência Médica Ambulatorial (AMA) ou às Unidades Básicas de Saúde (UBS), para serem atendidos(as) no HSP/HU Unifesp. Realizamos muitos treinamentos para várias especialidades (pediatras, cirurgiões(ãs), oftalmologistas, ortopedistas, enfermagem, fisioterapia…), no intuito de habilitar profissionais para lidar com os(as) pacientes de covid. Fizemos também parcerias privadas para ações e aquisições diversas, como ventiladores, testes e materiais de proteção individual. A Unifesp, na pessoa da reitora, considerou ser importante participarmos tanto da rede estadual quanto da rede federal de diagnóstico, o que viabilizou a aquisição de insumos e manutenção dos diagnósticos até o momento para pacientes e a comunidade de colaboradores(as).

 

E. Pensando em tudo o que você vivenciou, pesquisou e observou até o momento, qual é o seu horizonte de expectativa sobre o futuro?

N.B. Me preocupa muito a expectativa das pessoas com relação à vacina. Existem os horizontes individuais da população, e as pessoas estão completamente à deriva, sem saber como planejar seus próximos passos. Além do impacto econômico, existe um impacto psicossocial, ambos muito ruins. Isso me preocupa muito. O contexto econômico já vinha muito desfavorável. Por outro lado, minha expectativa é que, com a pressão vacinal no mundo todo, o pouco de manutenção de prevenção individual que as pessoas vão continuar fazendo e com o pouco de progressão da pandemia em pessoas suscetíveis, seja possível que em algum momento tenhamos uma certa “calmaria” - ainda que nem tudo isso seja possível no país. Talvez consigamos ter mais empregos, que as pessoas estabeleçam um plano pelo menos a médio prazo, e isso traga otimismo e uma espécie de crescimento individual e social para as pessoas, porque isso me preocupa muito.

 

Nancy Bellei docente da Unifesp

(Fotografia: Alex Reipert)

"É importante ressaltar que precisamos de planejamentos para estudos epidemiológicos e de efetividade de vacina; um investimento para que essas pesquisas continuem. Em 2020 tivemos bastante investimento em todas as esferas - por ter sido o ano da primeira onda de pandemia. Mas, com a chegada da vacina, a dificuldade econômica e questões políticas, me preocupa que a necessidade desses estudos fique de lado. Essas pesquisas, assim como a revisão de tudo isso, serão imprescindíveis para planejarmos os próximos anos.”

Estudos sobre Sars-CoV-2 desenvolvidos pela docente

Entre os trabalhos realizados pela infectologista e seu grupo de pesquisa acerca do Sars-CoV-2, destaca-se a aplicação prática em saúde pública, a qual pode ser observada, por exemplo, nos estudos realizados com visitantes e pacientes assintomáticos(as) em hospital e no teste diagnóstico realizado nas fezes dos(as) pacientes, iniciativa que permite diagnóstico de pacientes que chegam tardiamente no hospital - com aumento de até 20% no diagnóstico. Além disso, estão sendo conduzidas outras pesquisas, ensaios sorológicos em doentes crônicos(as), e estudos de vigilância em profissionais de saúde. De acordo com Nancy Bellei, todas essas pesquisas, dependendo do foco em que se inserem (diagnóstico, epidemiológico ou virológico), são pesquisas de impacto imediato.

Listagem de trabalhos:

  • Detected Sars-CoV-2 in Ascitic Fluid Followed by Cryptococcemia: a Case Report (Sars-CoV-2 detectado em Fluído Ascético seguido de Criptococcemia: um relatório de caso)
  • Asymptomatic coronavirus disease 2019 (COVID-19) in hospitalized patients (Doença coronavírus assintomática 2019 (Covid-19) em pacientes hospitalizados/as)
  • Covid-19 in health care workers in a university hospital during the quarantine in São Paulo city (Covid-19 em profissionais de saúde em hospital universitário durante quarentena em São Paulo)
  • Is Higher Viral Load in Sars-CoV-2 Associated with Death? (A carga viral mais alta no Sars-CoV-2 está associada à morte?)
  • Different patterns of Influenza A and B detected during early stages of COVID-19 in a university hospital in São Paulo, Brazil (Diferentes padrões de Influenza A e B detectados em estágios iniciais da covid-19 em um hospital universitário de São Paulo)
  • No benefit of hydroxychloroquine on Sars-CoV-2 tiral load reduction in noncritical hospitalized patient with COVID-19 (Não há benefício da hidroxicloroquina na redução da carga tiral Sars-S-CoV-2 em paciente hospitalar não crítico/a com covid-19)
  • Refractory Arterial Hypotension in a Patient with COVID-19: Could the Hypothalamic-Pituitary-Adrenal Axis Be Involved? Case Report and Mini Review (Hipotensão Arterial Refratária em paciente com covid-19: o Eixo Hipotalâmico-Pituitário-Adrenal poderia estar envolvido? Relatório de casos e mini revisão)
 
Publicado em Edição 14
Quinta, 02 Dezembro 2021 10:37

O que desafia, transforma

Nesta edição da Entreteses, abordamos todas as atuações possíveis da Unifesp e do Hospital São Paulo (HSP/HU Unifesp) em torno da pandemia de covid-19, desde o alerta oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 11 de março de 2020. Tanto a universidade quanto seu hospital universitário rapidamente se organizaram e, em 14 de março daquele ano, já se haviam posicionado pela preservação da vida da comunidade. Simultaneamente, seus (suas) gestores (as) começaram a trabalhar na busca de soluções para o prosseguimento das atividades de ensino, pesquisa, extensão, gestão e, principalmente, assistência aos (às) pacientes atendidos (as) por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) nas dependências do hospital e dos ambulatórios.

O ineditismo da situação global, nacional e local, trazido pelo novo coronavírus, escancarou a responsabilidade e o papel crucial da instituição perante a sociedade. Além disso, as discrepâncias observadas de forma ainda mais evidente durante a pandemia ampliaram nossa percepção sobre a necessidade de manutenção das ações de extensão, que se mostram tão importantes não somente para a continuidade da formação, mas também para a oferta de suporte à sociedade e aos (às) profissionais em questões diversas.

Por isso, não paramos! Pelo contrário, reestruturamos o que foi possível para enfrentar uma situação sem precedentes nas últimas décadas. Apostamos em determinadas providências, como:

1) criação de comitês para tomada de decisões; busca de recursos para melhorar o atendimento aos (às) pacientes e dar suporte aos (às) profissionais de saúde, servidores (as) e estudantes da instituição;

2) reorganização das atividades de ensino na graduação, pós-graduação e extensão para a modalidade remota; ampliação das ações extensionistas;

3) foco em pesquisa e inovação, de modo a contribuir para a solução da pandemia;

4) comunicação e divulgação ampla de todas essas iniciativas em um portal específico, localizado neste endereço: coronavirus.unifesp.br.

Ou seja, diante do paradoxo instalado em nosso país, onde há atualmente um grave corte orçamentário no ensino superior público, via de regra destinado à ciência, tecnologia e inovação, a Unifesp mostrou sua resistência, capacidade e imprescindível papel para a sociedade brasileira.

Neste número da revista, conseguimos elaborar um recorte bastante preciso do cenário delineado. No material ora disponibilizado, reunimos ações, estudos e relatos em torno dos temas que julgamos que sejam os mais relevantes para a sociedade nos meses de pandemia e nos próximos – saúde pública, vacina, educação, tecnologia, ciência e novos medicamentos, estruturas sociais, economia e meio ambiente. Contudo, é bom lembrar: hoje existem mais de 1.509 projetos registrados no Comitê de Ética e Pesquisa (CEP), dos quais 307 (20%) estão diretamente relacionados à covid-19. Somente em 2021, do total de 253 projetos registrados no CEP, 36 (14%) tratam do Sars-CoV-2. Por isso, as páginas seguintes constituem necessariamente um recorte.

Nelas, há vários exemplos de projetos de pesquisa e inovação, como dos que falam sobre o desenvolvimento da vacina Oxford/AstraZeneca, que está levando esperança a milhares de pessoas, e da vacina por spray nasal, cuja tecnologia poderá auxiliar no combate a outras doenças. Além dessas iniciativas, mencionamos o aplicativo criado para planejar o retorno às atividades presenciais em escolas e escritórios, o qual será utilizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) no próximo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

O artigo Em Busca do Engajamento no Ensino Remoto traz à tona a brusca (e brutal) mudança pela qual os (as) professores (as), da educação infantil à universidade, tiveram de passar, mesmo sem o preparo adequado. Foi necessário descobrir tecnologias, metodologias e formas de ensino em um ambiente, em princípio, não destinado a isso: suas próprias casas. O pesquisador Camilo de Lellis Santos expressou sua preocupação em relação à falta de domínio da tecnologia ou acesso à internet de qualidade pelos (as) estudantes, uma dificuldade reiterada por outros (as) docentes no artigo Antes do Futuro Tecnológico, o Presente da Educação. Indagados pela Entreteses, tais docentes acreditam que a transferência das atividades educacionais para o ambiente digital foi necessária, mas está longe de ter sido bem-sucedida.

A Entreteses n° 14 expõe, por fim, a história de alguns (algumas) de nossos (as) pesquisadores (as), que bravamente se destacaram na instituição durante a crise sanitária, como Nancy Bellei, Álvaro Atallah, Ana Cristina Gales e Daniel Araki Ribeiro. A comunidade unifespiana agradece àqueles (as) que, diante de um dos maiores desafios que recaíram sobre as populações do planeta, a pandemia de covid-19, mantiveram-se erguidos (as) e atuaram em todas as frentes para que nossa universidade não parasse.

 

Taiza Stumpp Teixeira

Taiza Stumpp Teixeira, 
Pró-Reitora de Extensão e Cultura 

(Fotografia: Alex Reipert)

Ligia Ajaime Azzalis

Ligia Ajaime Azzalis
Pró-Reitora de Graduação

(Fotografia: Alex Reipert)

Lia Rita Azeredo Bittencourt

Lia Rita Azeredo Bittencourt,
Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa

(Fotografia: Alex Reipert)

Já que a pandemia transformou tantas situações, decidimos transformar este editorial em uma reflexão construída a três mãos. Ensino, pesquisa e extensão atuaram em conjunto pela busca de soluções durante todo esse período, e – neste espaço – suas representantes refletiram sobre o que foi necessário mudar para que a universidade continuasse fazendo o que deve fazer: servir à sociedade (Nota da Redação)

 
Publicado em Edição 14

Edição traz pesquisas e projetos de extensão desenvolvidos durante a pandemia

Sexta, 26 Novembro 2021 18:47

Edição 14 - Entreteses

Unifesp na linha de frente no combate à covid-19

Os anos de 2020 e 2021 foram desafiadores para toda a humanidade. De forma específica, contudo, a pandemia incitou as universidades públicas a reafirmar e comprovar sua função estrutural na sociedade contemporânea. Foi impossível enfrentar esse problema, chamado coronavírus, sem ciência e pesquisadores(as), sem instituições de ensino e medicina, sem verbas públicas para a saúde e a educação.

Hoje, o Brasil é um dos países com as maiores taxas de vacinação do mundo; 74,28% da população total vacinada com ao menos uma dose (MS) - ultrapassando países como os EUA. São, também, nacionais diversas pesquisas fundamentais no campo da imunização, como a vacina de spray nasal e a da AstraZeneca, cuja elaboração é fruto de parceria entre a Unifesp e a Universidade de Oxford.

Não por menos, SUS, ciência e universidades se valorizam na pandemia. A constatação é do Sou_Ciência, centro de estudos sediado na Unifesp, que entrevistou 1.268 pessoas em agosto de 2021. Os resultados da investigação - ainda que breve - revelam que o número de pessoas que confiam no SUS passou de 40% para 62%. As que percebem a importância da ciência passaram de 47% (antes da pandemia) para 70%.

A Entreteses n°14 foi produzida carinhosamente pensando em trazer a público essas e outras atuações cruciais da Unifesp durante os longos meses de pandemia. Enquanto profissionais de saúde pensavam em soluções para pacientes, pesquisadores(as) pensavam em soluções para a ciência, professores(as) pensavam em soluções para a educação, técnicos(as) pensavam em soluções para o atendimento à sociedade não parar, e comunicadores(as) pensavam em soluções para divulgar ao máximo tudo o que estava acontecendo.

As próximas páginas dificilmente resumirão o trabalho grandioso desenvolvido nesse período, mas certamente são um recorte sensível de uma época intensa e de enorme conscientização sobre o que precisamos manter de pé quando a tempestade passar.

Boa leitura!

Carta do reitor

Universidade pública traz esperança à sociedade

 

Editorial

O que desafia, transforma

 

Entrevista • Nancy Bellei

Um trabalho que recompensa

 

Perfil • Cientistas de impacto

Álvaro Nagib Atallah • “Não existe fim, não existe início, apenas a infinita paixão da vida”

Ana Cristina Gales • O que você quer ser quando crescer?

Daniel Araki Ribeiro • Tudo em seu lugar

 

Especial coronavírus

Despertar para a microbiologia

Com AstraZeneca, Unifesp protagoniza busca pela vacina

Tecnologia 100% nacional

Apps gratuitos para facilitar o retorno

“Uma oportunidade ímpar de aprendizado”

A jornada do profissional que cuida

Saúde na mira com geoprocessamento

 

Economia, relações internacionais e meio ambiente

Outras faces da invasão

Um alívio durante a pandemia

Impacto da covid-19 na percepção ambiental

Atuação de governos e organizações regionais

 

Educação e tecnologia

Antes do futuro tecnológico, o presente da educação

Eles contam como se reinventaram

A juventude por trás das telas

Em busca do engajamento no ensino remoto

 

Família e sociedade

O “novo normal” em dias normais

O vírus da desigualdade

Pandemia paralela

Uma ponte entre a periferia e o mundo acadêmico

 

Ciência e novos medicamentos

De viagem espacial a vida em Marte

ECA2 + spike = covid-19

Testes populares que vieram para ficar

 

Panorama

SUS: entre as conquistas e os desafios

 

Artigo

É hora de levar o compliance digital a sério

 

Expediente

Publicado em Entreteses
Segunda, 09 Novembro 2020 15:01

Uma longa viagem começa por um passo

O provérbio chinês acima é o retrato de uma cultura milenar pautada na paciência e na disciplina. Tornar-se uma potência mundial foi apenas consequência

china imagem rodape

Valquíria Carnaúba

Como o TikTok, febre entre os jovens em plena pandemia de covid-19, tornou-se um sintoma da rivalidade entre China e Estados Unidos? Consideradas atualmente as maiores potências mundiais, as duas nações passaram a se confrontar de forma aberta após Wuhan, cidade mais populosa da província de Hubei (China Central), ser apontada como o epicentro original do novo coronavírus. As acusações são constantes. A China acusa a potência norte-americana de interferência em Hong Kong, hoje em meio a uma batalha diplomática sobre a autonomia política e judicial do território. Os Estados Unidos acusam hackers do país asiático de roubar dados sobre a vacina contra a covid-19. 

A espionagem, aliás, recheia o discurso de Donald Trump, e suas acusações nesse sentido foram recentemente corroboradas até por ativistas do Anonymous. “Delete o TikTok imediatamente; se você conhecer alguém que o utiliza, explique que se trata basicamente de um malware operado pelo governo chinês para uma operação massiva de espionagem” – esta foi a mensagem proferida pela legião de ciberativistas em julho deste ano. 

O medo oculto dos norte-americanos (e do Anonymous) é a espionagem, mas o receio chinês (ao menos, o declarado) é o de uma Guerra Fria 2.0. E talvez esse seja o medo que o mundo inteiro enfrenta a cada nova escalada da tensão entre as duas potências. Não se trata de uma comparação impensada: as características do conflito atual se assemelham, em muitos aspectos, ao choque geopolítico entre a União Soviética e os Estados Unidos nos anos de 1947 a 1991. 

Se, no passado, citando os principais fatos da época, tivemos antagonismo militar, político e ideológico (capitalismo x socialismo), hoje encontramos um cenário bem parecido. Se, há cerca de 50 anos, as gerações passadas presenciaram a primeira viagem à Lua, 2020 foi o ano em que a SpaceX lançou o primeiro foguete tripulado nos últimos nove anos e a China entrou na corrida rumo a Marte. Mas se, naquele tempo, o avanço tecnológico fomentava a corrida armamentista, a pesquisa científica tempera a nova Guerra Fria com a disputa pela vacina contra o já considerado “maior desafio do século XXI”. 

O novo rival dos Estados Unidos também é diferente no cenário presente: a República Popular da China. Como o país asiático chegou a esse patamar é o que traremos nesta seção. De forma sucinta, o regime atual, comandado por Xi Jinping, tem suas raízes na própria Guerra Fria. Em 1949, os comunistas, sob a liderança de Mao Tsé-Tung, tomaram o poder e realizaram inúmeras mudanças, estatizando as empresas e as propriedades fundiárias. 

Enquanto a Guerra Fria avançava até o desfecho que já conhecemos, o gigante asiático passava por uma transição econômica importante após o falecimento de seu líder, em 1976. Apesar de permanecer com o regime político fechado, o país adotou as reformas econômicas, implantadas com a finalidade de colocá-lo nos “trilhos” da economia capitalista globalizada. É nesse período que surge a economia socialista de mercado e diversas empresas norte-americanas se instalam no país (atraídas pelos incentivos fiscais): a China assume o papel de “fábrica do mundo”. 

De 1999 a 2013 (segunda fase da expansão chinesa), a então considerada nação emergente estabelece diálogo com regiões como África, América Latina e Eurásia, a fim de expandir seu comércio exterior. Iniciava-se a era da aliança entre China, Brasil, Rússia, Índia e África do Sul, formando o promissor grupo dos Brics. A terceira fase, por fim, foi a que alçou o país à posição de segundo maior PIB mundial. No período compreendido entre 2013 e 2020, o projeto da Nova Rota da Seda chinesa foi lançado pelo presidente Xi Jinping como a principal estratégia econômica e de cooperação internacional do governo. 

Seu futuro, ao menos no campo tecnológico, será construído a partir do China Standards 2035, um ambicioso plano de 15 anos do governo para definir os padrões globais para a próxima geração de tecnologias. O gigante asiático quer influir globalmente na utilização de tecnologias como Inteligência Artificial (IA), redes de telecomunicação e fluxo e análise de dados. Mas o futuro chinês certamente terá outras nuances, e seis docentes da Unifesp, de quatro áreas distintas do conhecimento, abordaram essa expansão com enfoque nas relações com o Brasil.

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Em 2019, a população da China aumentou para 1,4 bilhão de habitantes. Fonte: Departamento Nacional de Estatísticas da China (Imagem: Jofreepik - Freepik)

 

Relações internacionais e comércio exterior

O “celeiro do mundo” e a “fábrica do mundo”

china Cristina Pecequilo

Cristina Pecequilo
Professora associada do Departamento de Relações Internacionais - Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) - Campus Osasco 

É importante entender a diferença de tempo histórico entre Ocidente e Oriente. Aqui, principalmente no Brasil, tudo é “para ontem”, mas no mundo dito oriental as coisas caminham de maneira diferente. Há 42 anos, a China se impôs uma meta de Estado, incorporada pela própria sociedade chinesa: tornar-se uma potência mundial. A partir de 1978, o país asiático delimita, então, a política das quatro modernizações: agrícola, industrial, cultural e de defesa. 

Hoje, seus índices de crescimento superam os dos Estados Unidos, e quanto mais cresce mais fica aparente no mundo. A forma como sua imagem se consolida, contudo, não é um consenso: para muitos, é uma nação pautada na paz e na cooperação; para os demais, um império que se impõe na geopolítica como outros na história. O ponto comum entre as análises existentes é que a lógica da política externa chinesa é a do “ganha-ganha” (win-win) para todos os envolvidos. 

Em 2010, por exemplo, o país tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil ao propor inicialmente uma relação diplomática nos moldes de uma joint venture, pautada no desenvolvimento bilateral “pacífico e harmonioso”. Ao longo dessa parceria, porém, o próprio governo brasileiro, na época, decidiu-se por colocar nosso país na posição de vendedor exclusivo de commodities (energia e alimentos) em troca da captação de recursos financeiros. Desde 1989, vínhamos fechando indústrias, o que levou à desindustrialização brasileira e à abertura comercial. Esse processo, iniciado há 31 anos, foi o motivo original da desindustrialização e reprimarização da economia, e não a relação bilateral com a China. 

Enquanto a China tornou-se a “fábrica do mundo”, o Brasil fez a opção por ser o “celeiro do mundo”. Com o advento da pandemia, por questões sanitárias, a China optou por suspender as importações provenientes de diversos frigoríficos brasileiros. E nós dependemos daquele país para adquirir desde o celular até a máscara que será usada no hospital. Considerando o recente realinhamento político e econômico do Brasil com os Estados Unidos (desde 2018), a China tem-se voltado a outros parceiros vendedores de commodities, como a Austrália. 

A China tem capacidades, recursos de poder e visões de mundo que oferecem alternativas a outras nações. E melhor se beneficiarão aquelas que souberem aproveitar esse caminho com autonomia e transparência. É um momento desafiador para o Brasil, que pode inspirar-se na China – valores, formação de alianças estratégicas e busca de independência tecnológica, econômica e política.

china Shanghai yangshan porto

Doca de contêineres do porto de Yangshan, no leste da China; é considerado o maior terminal automatizado para contêineres do mundo (Imagem: Ake1150Sb/Freepik)

 

china Bolivar Godinho

Bolivar Godinho
Professor adjunto e chefe do Departamento Acadêmico de Administração - Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) - Campus Osasco

A China tem uma importância cada vez maior no mundo; possui muitas reservas internacionais e tem aumentado sua influência em outros países. Com a implantação da Nova Rota da Seda, o país será imensamente beneficiado pelo transporte de mercadorias e oferta de matéria-prima pelos países parceiros – minério de ferro, soja e petróleo. Hoje, a verdade é que o Brasil depende do país, principalmente o setor de agronegócio. Muito impactada com a desaceleração do comércio mundial em decorrência da pandemia, a China, crescendo menos, afetará o crescimento do Brasil.

Relação PIB do país x PIB mundial 1990 2020
China  1,6% 15%
Estados Unidos 27% 24%
     
Reservas internacionais  1990 2017
China  US$ 34 bilhões US$ 3,3 trilhões
Estados Unidos US$ 173 bilhões US$ 451 bilhões
     
Exportação de alta tecnologia em relação ao total no mundo 1990 2016
China 7% 25%
Estados Unidos 32% 20%
     
Comércio exterior em relação ao PIB 1990 2017
China 24% 38%
Estados Unidos 20% 27%
     
Artigos científicos e técnicos  2000 2016
China  213 mil 2 milhões
Estados Unidos 300 mil 400 mil
     
Gastos com pesquisa e desenvolvimento em relação ao PIB  1996 2013
China  0,5% 2,1%
Estados Unidos 2,5% 2,8%

Fonte: www.google.com/publicdata/explore?ds=d5bncppjof8f9_

 

Meio ambiente

Desafios do crescimento sustentável

china carla duarte

Carla Grigoletto Duarte
Professora adjunta do Departamento de Ciências Ambientais - Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema

A poluição do ar é um tema central na política ambiental chinesa desde 2013. Naquele ano, houve protestos da população e até escolas foram fechadas devido à poluição nas cidades do norte do país. Dados oficiais de veículos de comunicação locais, como o China Daily e Global Times, apontaram 400 microgramas de partículas de poluição por metro cúbico de ar – segundo o padrão da Organização Mundial da Saúde (OMS), acima de 100 microgramas, o nível já não é considerado saudável. 

A insatisfação popular levou à mudança da política ambiental no país. Foram cancelados diversos projetos de termoelétricas a carvão nesse território, modalidade de geração de energia que estava em franca expansão, e passou-se a investir em geração de energia solar e eólica. Como o país possui um mercado gigante, as tecnologias são implantadas em larga escala, afetando os preços e a oferta no mundo todo – e proporcionando retornos financeiros rápidos.

Outras decisões foram tomadas ao longo do tempo, como a anunciada por Pequim, em 2017, numa reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC). A China, que importava mais da metade do lixo plástico (incluindo o eletrônico) do mundo para reciclá-lo, decidiu-se pela redução drástica desse montante. O anúncio forçou os países exportadores (como os europeus) a redefinirem suas cadeias de reciclagem.

A agenda ambiental da China, entretanto, ainda é pouco expressiva quanto a projetos de desenvolvimento levados a cabo fora de seu território. Investidores chineses seguem construindo termoelétricas a carvão em territórios previstos para integrar o Cinturão Econômico da Rota da Seda e a Rota da Seda Marítima do Século XXI, como a África, o Oriente Médio e, inclusive, o Brasil.

O plano denominado Linha Vermelha de Conservação Ecológica da China (ECRL) visa proteger mais de um quarto de seu território. Com o retorno da maior potência asiática às atividades normais, porém, a poluição tornou-se pior do que antes da pandemia de coronavírus. Mais informações em: energyandcleanair.org/tracker/covid-19-air-pollution-rebound-tracker/


china Air pollution over Shanghai

Em 2015, a poluição atmosférica atingiu um nível perigoso em Xangai, maior cidade do país e núcleo financeiro global. O incidente levou as escolas a proibirem atividades ao ar livre e as autoridades a limitarem o trabalho em locais de construção e fábricas (Imagem: Lifeonwhite/Freepik)

 

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Juliana de Souza Azevedo
Professora adjunta do Departamento de Ciências Ambientais - Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema

Outro aspecto que tem gerado preocupação na China diz respeito aos refugiados climáticos em decorrência dos impactos causados, por exemplo, na Cordilheira do Himalaia. A existência deles foi admitida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em janeiro deste ano. São cidadãos forçados a se deslocarem da terra natal em função de mudanças no meio ambiente. Com o derretimento das geleiras, aumentou o nível dos aquíferos no norte do país, inundando áreas povoadas e expulsando a população – o que tem acarretado problemas sociais.

O Himalaia tornou-se visível para a Índia após a quarentena contra o coronavírus dissipar a poluição. A imagem rodou as redes sociais, intensificando as discussões sobre poluição ambiental.

 

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Zysman Neiman
Professor associado do Departamento de Ciências Ambientais - Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema

Nos últimos 30 anos, a China tornou-se uma das maiores economias mundiais e uma das nações que mais degradaram o meio ambiente. A poluição da água afeta 75% dos rios e lagos e 90% das águas subterrâneas urbanas chinesas. Quase 30% das águas sequer servem para o uso agrícola tamanha é sua toxicidade. No relatório apresentado na sessão de abertura do 19º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, em outubro de 2017, o presidente chinês Xi Jinping estabeleceu o desenvolvimento futuro do país. Após isso, a China obteve dois recordes mundiais de energia limpa em 2015 – o primeiro, por instalar 30,5 gigawatts (GW) de energia eólica em um único ano, e o segundo, por instalar 16,5 GW de energia solar. Com isso, deu exemplo de como alterar sua atual matriz energética e ofereceu modelos – capazes de ser replicados em outros países – para a resolução de problemas ambientais e combate à pobreza.

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Imagem: Amenic181/Freepik

 

Tecnologia

O made in China em outro patamar

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Maria Elizete Kunkel
Professora adjunta do Departamento de Ciência e Tecnologia - Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) - Campus São José dos Campos

Tudo o que vinha da China, há dez anos, tinha pouco valor agregado, pois não era tecnologicamente confiável. Sua metodologia baseava-se na produção em alta escala e a baixo custo. Com o tempo, as indústrias chinesas focaram a melhoria da qualidade desses itens, fazendo com que o país passasse a ser visto como uma potência em desenvolvimento. Outras potências começaram a perder competitividade em relação à indústria chinesa, enviando suas empresas e seus trabalhadores para lá – o que aumentou a dependência em relação àquele país. 

Além da criação de produtos que atualmente superam outros em qualidade e preço (celulares, câmeras, equipamentos médicos, computadores e até impressoras 3D), a China (e suas empresas) têm-se destacado pelos investimentos em empresas inovadoras, que provocam disruptura no mercado – a exemplo da 99, empresa e aplicativo de transporte individual, comprada em 2018 pela Didi Chuxing. 

Grande parte da tecnologia assistiva utilizada no Brasil, por exemplo, é importada daquele país. Por esse motivo, é cara (devido aos impostos) e de difícil manutenção. Se investisse na fabricação desses itens, o Brasil contaria com bons profissionais em diversas áreas tecnológicas, e as próprias universidades disporiam de um amplo potencial de pesquisa aplicada que poderia ser explorado – produzindo os equipamentos que seriam utilizados pela indústria.

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Imagem: Pavlokravchenko/Freepik

 

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Luiz Leduíno
Professor associado do Departamento de Ciência e Tecnologia - Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) - Campus São José dos Campos

Existe uma mudança em curso na economia mundial em função da pandemia, e é difícil avaliar como ficará a cadeia de suprimentos, atualmente globalizada. Com as fronteiras dos países fechadas, muitas empresas não obtiveram suprimentos, inclusive no Brasil. Por isso, o processo de renacionalização de empresas poderá ser um fenômeno cada vez mais observado em médio e longo prazo.

Para sermos minimamente autossuficientes em relação à China, será preciso apostar em conversão industrial, mobilizando parte da indústria para a produção de itens que são de interesse nacional. Temos potencial: há setores em que somos muito avançados, como o da aviação – a Embraer é a terceira maior companhia do mundo – e o de petróleo. Um dos caminhos será investir em ciência e tecnologia.

A China tem investido bastante em tecnologia 5G (quinta geração de internet móvel). Essa expansão incomoda tanto os Estados Unidos que a empresa Google chegou a anunciar que deixará de dar suporte a aparelhos com essa tecnologia caso seja instalada.

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A imagem do rodapé desta matéria foi criada a partir da ilustração de Sweetjinkz/Freepik

 
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Lei nacional altera regras do setor de tratamento de água e esgoto e provoca debates na sociedade e na universidade

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Imagem: Nathan Dumlao / Unsplash

 

Tamires Tavares

No dia 15 de julho, o presidente Jair Bolsonaro sancionou com vetos a Lei 14.026/2020, que atualiza o marco legal do saneamento básico no Brasil. O Projeto de Lei 4.162/2019, da qual ela se origina, aprovado pelo Senado em 24 de junho, derivou da Medida Provisória 844/18, de 6 de julho de 2018, apresentada pelo então presidente Michel Temer e concede à Agência Nacional de Águas (ANA) a regulação não apenas de serviços de água, mas de esgotos, a fixação de tarifas e o estabelecimento de processo licitatório com chamamento público. A MP, que passou por mudanças e gerou polêmica no setor, considerada por alguns órgãos e movimentos como um favorecimento para privatização, é tema da pesquisa de Iniciação Científica de Paulo Roberto de Assis Franco, orientada por Magaly Marques Pulhez, docente adjunta no Instituto das Cidades (IC/Unifesp) – Campus Zona Leste e pesquisadora associada no Centro de Estudos da Metrópole.

“É uma pesquisa que, pela complexidade e relevância para a infraestrutura, a saúde, o turismo, a qualidade de vida da população, merece ser estudada com mais profundidade. Sendo o saneamento básico um direito humano universal e que sustenta pilares que quantificam e qualificam o acesso à urbanidade, é fundamental que tenhamos entendimento sobre o estágio atual de oferta, considerando os níveis baixos de cobertura que são oferecidos no momento”, justifica Franco, estudante de Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo (USP). 

Dados apresentados pelo Instituto Trata Brasil – uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, formada por empresas privadas que atuam no setor do saneamento básico e na proteção dos recursos hídricos do país –, referentes ao ano de 2017, corroboram a tese de Franco sobre a cobertura: os brasileiros que recebem água tratada são 83,3% da população, já a porcentagem atendida pela coleta de esgoto é de 50,3% e somente 42,7% têm esgoto tratado.

A visão de parte dos agentes envolvidos com essa temática é de que o novo marco regulatório não pretende satisfazer essa demanda no setor. A Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento (Assemae), entidade que representa em torno de 2.000 municípios, a considera privatizante e um retrocesso por privilegiar o setor privado e a livre concorrência, tornando frágil a oferta universal dos serviços à população. “Sobretudo entre a sociedade civil, há uma série de questionamentos sobre o processo, sobre quais os impactos diretos que essa mudança acarretaria às populações mais carentes e sobre o próprio sentido de privatização da água, que é um bem comum e direito de todos”, comenta Pulhez.

As instituições que defenderam as modificações propostas desde o seu início, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), afirmam que é positivo o aprimoramento e a expansão da participação privada no setor. A Casa Civil declara que a privatização do setor não é o objetivo final e que não há intenção de retirar a competência das prefeituras, mas, que se pretende ampliar a concorrência entre as empresas públicas e privadas mantendo uma regulação feita pela ANA, impedindo abusos nos preços e assegurando a manutenção da qualidade do serviço. “Os argumentos giram em torno da necessidade de modernização do setor e da universalização da oferta dos serviços. Alega-se que a melhor saída para fazê-lo se daria mediante maior abertura à participação da iniciativa privada, facilitando a venda de empresas públicas e a ampliação dos contratos com empresas privadas, dada a incapacidade de investimento e de operacionalização dos serviços por parte do Estado”, explica a docente.

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A cooperação entre Paulo Franco (USP) e  Magaly Pulhez (Unifesp) permitiu o desenvolvimento de pesquisa entre as duas universidades sobre um dos temas mais discutidos neste ano (Imagens: arquivo pessoal)

O que muda 

Com as modificações, a Agência Nacional de Águas (ANA) – até então reguladora de recursos hídricos federais – passará a centralizar a regulação do setor. A cargo dela ficará o estabelecimento de normas e procedimentos das atividades que englobam o serviço de saneamento básico, que são abastecimento de água, limpeza urbana, manejo de resíduos sólidos, drenagem e esgotamento sanitário. Fica responsável também por decidir medidas de racionamento de água diante de crise hídrica ocasionada por escassez em rios.

A contratação de empresas pelos municípios para a execução destes serviços deve considerar tanto as públicas quanto as privadas, possibilitando a concorrência entre elas e abrindo consulta pública antes de qualquer alteração. Até o momento, era possível estabelecer convênios diretos entre as companhias estaduais de saneamento e os governos municipais por meio de contratos de programa, um mecanismo de cooperação interfederativa previsto na Constituição Federal.

Visando uma possível universalização do setor, serão aplicadas multas aos cidadãos que não utilizarem os serviços de saneamento regularizados, ou seja, que não utilizarem a rede de esgoto.

Além disso, será criado o Comitê Interministerial de Saneamento Básico (Cisb), que coordenará ações de órgãos federais no setor com a intenção de possibilitar planos individuais para os municípios.

Para estudiosos do tema, falta clareza a respeito da interferência de empresas privadas e das intenções nas mudanças. “Há um mapeamento de empresas privadas no exterior que se interessam pelo investimento no saneamento básico no país, mas isso é dito de forma ampla, sem justificativa de como se tornaria um negócio rentável e em quais áreas agiriam. Nada está claro e definido nessa nova proposta dos campos onde teriam de atuar esses investidores e qual a maneira de atuação”, analisa Franco. 

O estudante prevê que a falta de transparência no rearranjo entre o Governo Federal e as empresas possa culminar em cobranças de serviços ambientais, seja por meio de taxas, impostos, serviços implícitos de saneamento ou outras opções que possam surgir durante essas sedimentações das regras regulatórias do setor. 

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“Com a privatização, municípios deficitários tendem a ser preteridos pelas empresas na prestação de serviços, evidentemente contrastando com as metas de universalização apresentadas”, analisa Pulhez à luz da situação do saneamento básico em outros países (Imagem: Jeso Carneiro)

Prevendo o cenário atual

Franco acompanhou as propostas de alterações no funcionamento do setor nos últimos anos. Foram mapeadas as diversas propostas de conteúdo das duas medidas provisórias apresentadas em 2018 e 2019 – ambas extintas por ausência de votação em tempo hábil – que culminaram na Lei 14.026/2020. Ele conta que seu objeto de estudo foi desafiador em decorrência da multissetorialidade da questão e da dinâmica de movimento com mudanças, às vezes, diárias.

“Foi alterado o foco diversas vezes para não ficar uma pesquisa datada e sem interesse. Optamos por um mapeamento cronológico da Medida Provisória 844/18 e como se transformou em Lei Parlamentar. Investiguei quais os atores envolvidos, qual o modelo de política pública que está sendo implementado na questão de saneamento básico e fiz algumas análises e questionamentos, ao final, sobre como irá ficar o setor e quais os motivos”, explica o estudante. 

Apesar de estudar na Universidade de São Paulo (USP), Franco optou pelo desenvolvimento da pesquisa de iniciação científica no IC/Unifesp, sob a orientação de Pulhez. Para ela, estudos sobre o tema se fazem absolutamente necessários e urgentes, “de modo que se possa melhor informar a sociedade e qualificar o debate sobre um dos nossos maiores desafios, que é garantir o direito à água a todos os brasileiros e brasileiras e à preservação da vida, compromisso que deve ser assumido pelo Estado em detrimento de quaisquer ações que favoreçam interesses específicos”.

Com 52 anos de idade, o graduando concluiu o curso de Hospitality Management na Hunter College, em New York, e English as a Second Language (ESL), com complementação em tradução e interpretação, na New York University. Em 2018, ingressou na USP em busca de novos desafios e estilo de vida com foco em seu envelhecimento. “Sempre atuei em educação não regular, como professor de inglês, professor na área de hospitalidade, professor voluntário de cursinhos populares e decidi cursar Gestão de Políticas Públicas pela grade curricular apresentada e por acreditar que seria um curso que me acrescentaria muito pessoal e profissionalmente”, conta.

 
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Segunda, 09 Novembro 2020 14:05

Fenômeno social e direito humano

Estudante analisa políticas públicas de moradia para refugiados e imigrantes em São Paulo

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Refugiados venezuelanos embarcam em avião da Força Aérea Brasileira, em Boa Vista, com destino a Manaus e São Paulo (Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 

Matheus Campos

A única constante do ser humano é o movimento. É o que afirma o filósofo britânico Thomas Hobbes (1588-1679) em sua obra Leviatã. Segundo o pensador, uma coisa que está em movimento continua em movimento eternamente, a menos que algo a detenha. Não à toa, a história da humanidade tem como reflexo a história das migrações e dos grandes fluxos populacionais, que ocorreram por diversos motivos, entre eles a escassez de alimento, fuga de guerras, oportunidade de emprego ou busca de proteção e abrigo. 

A ideia de movimento, nesse contexto, se dá pela busca por melhores condições de vida. Os deslocamentos populacionais de grandes proporções até motivaram em parte a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e o estabelecimento dos conceitos de “migração” e “refúgio”, com legislações e tratados sobre o assunto. Políticas de moradia, por exemplo, são de suma importância para compreender e contextualizar imigrantes e refugiados em qualquer lugar do mundo. Em São Paulo, Lalik Loula, estudante de graduação em Arquitetura e Urbanismo e pesquisadora, sensibilizou-se pela temática, que constitui, inclusive, o eixo de seu projeto. Este foi realizado no âmbito do programa de Iniciação Científica Voluntária (ICV), que é vinculado ao Instituto das Cidades (IC/Unifesp) - Campus Zona Leste

Projeto de empatia

No início de 2018, milhares de venezuelanos buscaram refúgio no Brasil devido à crise humanitária que surgira em seu país de origem. Por outro lado, era também crescente o fluxo de deslocados no mundo por causa de conflitos externos e internos, principalmente em países do Oriente Médio, como a Síria. 

“Todas essas informações chegavam até mim e me incomodavam, pois, morando em São Paulo, via diariamente um grande número de pessoas em situação de rua”, explica Loula. “Sabia que muitos refugiados, que buscavam melhores condições na cidade, acabariam marginalizados, somando-se ao sem-número de pessoas em situação de carência. Sem oportunidade de melhoria de vida ou acesso à infraestrutura básica, recorreriam a moradias alternativas como abrigos, cortiços e ocupações ou optariam até mesmo pelas ruas.” Foi justamente essa circunstância que a motivou a direcionar o tema de seu trabalho final de graduação. Naquela mesma época, o Instituto das Cidades promoveu o programa de Iniciação Científica Voluntária, voltado para estudantes da Unifesp e de outras instituições de ensino superior.

Por meio da inscrição no programa, a jovem manifestou interesse na pesquisa por remoções forçadas, que é também a área de Giovanna Milano, professora de Direito Urbanístico e Ambiental no Instituto das Cidades. A partir daí, elas desenvolveram um projeto sobre políticas de habitação, cujo foco recaía sobre pessoas em situação de refúgio na cidade de São Paulo.

A professora ressalta que esse é um dos problemas fundantes da atualidade. “Passamos por um momento de imperiosa ampliação da imaginação e dos caminhos teóricos em suas potencialidades críticas. A produção de conhecimento na universidade, afinal, deve estar afinada com os problemas vividos na sociedade de nosso tempo, sem deixar de vislumbrar devires e horizontes de transformação”, pontua Milano. “Esse par de questões é, para mim, fonte de tensões permanentes que aparecem nos processos de orientação das pesquisas e, evidentemente, nas práticas extensionistas e vivências em sala de aula”, complementa a professora. 

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A estudante Lalik Loula / Arquivo pessoal

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A orientadora Giovanna Milano / Arquivo pessoal

Transformação urbana e social

Neste ano o Instituto das Cidades introduziu o nível de graduação, com o curso de Geografia, embora o campus já mostrasse força nas atividades de extensão. O tema estratégico e aglutinador, obviamente, são as cidades e as crises recentes que delas decorrem como a insuficiência de moradias e as desigualdades socioespaciais. 

De acordo com Milano, “o intuito de lançar o edital de Iniciação Científica Voluntária no Instituto das Cidades era, e permanece sendo, incentivar o desenvolvimento de pesquisas e a produção de conhecimento crítico na área dos estudos urbanos”. Trata-se também de uma ação de engajamento para promover transformações e a formulação de novas políticas públicas, no Brasil e no mundo. 

“Os problemas sociais precisam ganhar mais foco, e o conhecimento sobre eles contribui para chegarmos próximo da solução – isso ocorre também por meio do incentivo ao desenvolvimento científico”, analisa Loula. 

Para o avanço da pesquisa, a orientanda mergulhou no estudo sobre processos migratórios. Foi feita uma revisão bibliográfica das políticas públicas já existentes, mediante o acesso à literatura, à legislação nacional e aos programas governamentais dirigidos ao tema. 

A pesquisa foi, então, realizada a partir da sistematização da literatura especializada na relação de dois temas fundamentais: refugiados e habitação. O levantamento de dados foi feito a partir de informações disponibilizadas pelas seguintes instituições públicas que tratam do reconhecimento desses indivíduos: Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), Polícia Civil e, em âmbito internacional, Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), que produz o relatório anual Global Trends. 

Foram também necessárias as informações dadas por entidades filantrópicas nacionais que implementam programas assistenciais. A legislação nacional e internacional, por sua vez, foi imprescindível ao procedimento e possibilitou a evolução da pesquisa, além dos artigos científicos correlatos.

“Como docente, acompanhar o processo de amadurecimento dos orientandos – com leituras mais elaboradas e o desenvolvimento do pensamento crítico – é, sem dúvida, um privilégio que reforça a importância da missão da universidade pública na sociedade”, reflete Milano. 

Futuramente a estudante deseja dar prosseguimento à investigação. Os próximos passos consistirão em consolidar as análises que versam sobre os obstáculos à realização de políticas habitacionais destinadas especificamente aos refugiados na cidade de São Paulo. 

“Problemas sociais permitem compreender melhor a sociedade e o futuro que surge no horizonte, ensejando a busca de meios que possam aperfeiçoar as políticas públicas existentes. Desse modo, será possível prover melhor suporte para as populações que carecem de oportunidade de acesso aos bens e à infraestrutura básica de serviços, diminuindo o abismo da desigualdade social no Brasil”, conclui Loula.

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Ocupação em prédio no centro de São Paulo (Imagem: Rovena Rosa / Agência Brasil)

 

 
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Pesquisa estuda relação entre transtornos comportamentais e alterações do sistema nervoso central em decorrência da privação materna nos primeiros meses de vida

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Imagem: dwiputras/Freepik

 

Juliana Cristina de Paula

Na edição n° 8 da revista Entreteses, foi mencionado estudo da Unifesp que apontou os malefícios da privação materna nos primeiros anos de vida, como ansiedade, indícios precursores da esquizofrenia, perda de peso e maior consumo de sacarose. Diversos pesquisadores da área de Psicobiologia passaram a avaliar a fundo a questão a partir da década de 1990, especialmente após o grupo liderado pelo neurocientista Bart Ellenbroek descobrir que, quando o afastamento da mãe ocorre no nono dia pós-natal, os testes comportamentais no rato adulto evidenciaram transtornos semelhantes à esquizofrenia. Amanda Centenaro, aluna do 3° ano de graduação em Biomedicina no Centro Universitário São Camilo e voluntária do programa de Iniciação Científica na Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, de igual modo, está avaliando os possíveis efeitos do afastamento entre a prole e a progenitora no nono dia pós-natal. Sua observação considerará os dados coletados, que associam as influências desse fator estressor a alterações neurobiológicas e ao comportamento social desses indivíduos nos anos posteriores.

Qual o motivo de a privação materna ser um modelo para o estudo dos transtornos do neurodesenvolvimento? Carlos Girardi, orientador de Centenaro e docente do Departamento de Psicobiologia da EPM/Unifesp, esclarece que principalmente o autismo e a esquizofrenia sofrem grande influência do ambiente em que ocorre o desenvolvimento inicial do indivíduo. “Alterações no curso do desenvolvimento durante a formação e maturação do sistema nervoso central (SNC) podem acarretar transformações permanentes, que aumentam a vulnerabilidade do indivíduo a transtornos comportamentais – inclusive para desenvolvê-los tardiamente, como no caso da esquizofrenia. A presença e os cuidados maternos são importantes para manter o equilíbrio durante o neurodesenvolvimento. Afastar a mãe é o que chamamos de ‘estressor’, situação que causa um aumento na liberação de hormônios do estresse – que não poderia acontecer nesse momento – e um desequilíbrio, inclusive, em neurotransmissores”, explica. 

Para o estudo em questão, os filhotes foram distribuídos, no nono dia após o nascimento, em dois grupos: um deles passou pela privação materna durante o período de 24 horas, enquanto o outro continuou com a mãe. No décimo dia, a morfologia neuronal de dois filhotes de cada um desses grupos foi analisada. A partir do vigésimo primeiro dia, os filhotes foram desmamados e alojados em duplas do mesmo sexo, provenientes da mesma ninhada, em outra gaiola. Com pouco mais de 40 dias de vida, foram realizados os testes denominados Investigação Social e Interação Social, com base nos quais são observados os comportamentos sociais dos animais pelo ato de cheirar, brincar ou morder, por exemplo.

A estudante, orientada por Girardi, avaliou a quantidade e o comprimento das ramificações neuronais com técnicas de neuroimagem. O que já se sabe é que neurônios com ramificações mais curtas ou em número menor possuem alguma relação com alterações de comportamento. Além disso, no córtex pré-frontal, localizado no lobo frontal (parte da frente do cérebro), as alterações relativas ao formato, comprimento e número de dendritos (prolongamentos finos dos neurônios), verificadas após a morte dos indivíduos, convergem com alterações na morfologia (forma) dessas ramificações, observadas em indivíduos diagnosticados com esquizofrenia ou autismo. 

neurociencia privacao materna

Amanda Centenaro (à dir), em dia de experimento no laboratório, com seu orientador, o docente Carlos Girardi, ao lado das estudantes Raquel Laurentino (esq.) e Antonilde Ruiz (centro) / Imagem: arquivo pessoal

Um modelo universal

Os pesquisadores pontuam que o estudo foi realizado com ratos Wistar – estes são modelos desenvolvidos para a pesquisa biomédica, nativos da colônia criada pelo fisiologista Henry Donaldson no Instituto Wistar (Pensilvânia, EUA), em 1906. Os espécimes foram fornecidos pelo Centro de Desenvolvimento de Modelos Experimentais para Biologia e Medicina (Cedeme), onde os animais são criados e mantidos dentro dos padrões éticos. 

A utilização dos roedores nesse estudo é marcada pela necessidade de controle das situações e estressores para que se possam entender diferentes fatores. Para o docente da Unifesp, o estudo poderia ser desenvolvido a partir de relatos de crianças que tivessem passado pela privação materna ou algum tipo de estressor durante o neurodesenvolvimento. No entanto, pelo fato de serem baseadas apenas na memória, essas informações não teriam fidelidade suficiente para o estudo, havendo inclusive o risco de perda de informações essenciais. 

Além disso, algumas técnicas específicas, como a análise do tamanho dos neurônios (uma etapa crucial), só podem ser realizadas após a morte. A única maneira viável de efetuar uma avaliação desse tipo em seres humanos adolescentes é por meio de técnicas de neuroimagem com o indivíduo vivo. "Nesses casos, não há como avaliar o neurônio em si – formato, tamanho e quais substâncias estaria produzindo; por isso, a importância desse estudo em modelos animais", assegura Girardi.

O orientador esclarece que o período do desenvolvimento do indivíduo em que ocorre um desequilíbrio bioquímico no cérebro determina o tipo de alterações que sobrevirá. Nos mamíferos, o desenvolvimento biológico continua após o nascimento. Considerando-se o SNC de seres humanos e roedores, no início do período pós-natal ainda ocorrem diversos eventos como a formação de novos neurônios e sinapses, mas ainda não são conhecidos todos os eventos afetados durante o desenvolvimento. 

Outras questões ainda desconhecidas dizem respeito ao motivo e aos mecanismos que geram essas alterações; por isso, uma das perguntas a que o projeto de Centenaro pretende responder é se a alteração na morfologia neuronal é, de fato, um dos efeitos da privação materna. A hipótese é que, quando observados, os neurônios dos espécimes pertencentes ao grupo que passou pela privação materna terão menos dendritos e/ou estes serão mais curtos. 

A reunião dos dados coletados ainda está em andamento, pois a estudante realiza, no momento, análises laboratoriais e seu relatório de pesquisa. Centenaro está imbuída de uma responsabilidade maior após ter ingressado no programa de Iniciação Científica. E acredita que os resultados obtidos terão impacto na sociedade, uma vez que poderão auxiliar no entendimento mais amplo da influência de adversidades no início da vida – época em que se origina a maior parte dos transtornos de neurodesenvolvimento.

 
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Estudante do quarto ano do curso de Medicina elaborou projeto que barateia o PCR quantatitativo em tempo real feito em pacientes com leucemia mieloide crônica

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Imagem: Belova59 - Pixabay

 

Valquíria Carnaúba

A leucemia é uma doença que atinge as células que formam os componentes do sangue humano. As chamadas células-tronco hematopoéticas estão presentes na medula óssea, um líquido gelatinoso encontrado no interior dos ossos, e dão origem às hemácias (glóbulos vermelhos), leucócitos (glóbulos brancos) e plaquetas. Nessa “fábrica”, subdividem-se em dois tipos, linfoides ou mieloides, que podem sofrer mutação genética durante a diferenciação em componentes sanguíneos, transformando-se em células cancerosas e substituindo as células sanguíneas saudáveis nascidas da medula óssea. 

O subtipo leucemia mieloide crônica (LMC) caracteriza-se pela mutação adquirida nas células-tronco hematopoéticas e, portanto, não estão presentes em nosso organismo ao nascermos. As células saudáveis ainda estão presentes, em maior ou menor quantidade a depender da fase da doença, e convivem com as cancerosas. A doença leva à produção exacerbada da maioria dos tipos de células brancas do sangue e de plaquetas. Com isso, as células leucêmicas espalham-se pelo corpo todo, podendo provocar sintomas como cansaço fácil, fraqueza, febre e manifestações hemorrágicas.

Atualmente, o tratamento de escolha para a doença é a terapia vitalícia de alto custo com uma droga que inibe a ação da proteína derivada a partir da mutação. Tornar essa opção menos onerosa para o Hospital São Paulo (HSP/HU Unifesp), hospital universitário da Universidade Federal de São Paulo, foi o desafio que Clara Cardoso Franco Avancini aceitou no ano passado. Ela é atualmente estudante do quinto ano de Medicina e autora de um projeto de Iniciação Científica orientado por Gisele Wally Braga Colleoni, docente do Departamento de Oncologia Clínica e Experimental da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), e co-orientado por Fábio Rodrigues Kerbauy, professor adjunto da Hematologia e responsável pelo ambulatório de Leucemias do HSP/HU Unifesp.

Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o projeto consiste na padronização e otimização de um kit comercial fabricado para diagnóstico da doença LMC, que contém material para realização do teste reação em cadeia por polimerase quantitativo (qPCR) em tempo real. Esse teste deve ser realizado periodicamente nos pacientes para verificar se o tratamento está sendo efetivo. Por meio dele, os médicos verificam a quantidade do material genético cancerígeno da leucemia mieloide crônica. O ideal é que o total seja tão baixo que o paciente venha a ser classificado como em remissão molecular profunda.

Apesar de necessário, o exame onera o orçamento da saúde: cada teste, quando o serviço é terceirizado, custa em torno de R$ 800,00. “No estudo, verificamos que aproximadamente 20 pacientes necessitam efetuar o teste qPCR cada mês. Por ano, isso poderia onerar o orçamento do HSP/HU Unifesp em quase R$ 200 mil”, pontua a docente. 

Colleoni e sua orientanda atuaram a fim de padronizar uma metodologia que visasse otimizar esse custo. A economia é de mais de R$ 140 mil anuais. “No caso do HSP/HU Unifesp, o grande gargalo era custo. O Laboratório Central do HSP/HU Unifesp faz alguns testes moleculares, mas essa demanda interna ainda não era atendida. Esse exame, que deve ser feito a cada três meses, no mínimo, era enviado para um laboratório externo, e seu valor final corresponde aos gastos do laboratório com reagentes, equipamentos e mão de obra. Quando propusemos trazer esses testes para nosso laboratório central, conseguimos reunir a mão de obra qualificada (que já existia aqui), compartilhamos e garantimos a manutenção dos equipamentos adquiridos com verbas de pesquisa e, com reserva técnica de outras pesquisas, adquirimos os insumos utilizados na padronização e otimização do teste”, complementa.

Dessa forma, foi possível reduzir o custo total de cada teste em aproximadamente R$ 600,00. Entretanto, essa não foi a única questão explorada na pesquisa. A outra grande pergunta com a qual a estudante - assim como médicos do mundo todo - se deparou durante sua Iniciação Científica foi a possibilidade de manter estáveis, sem a medicação fornecida pelo SUS, os pacientes que estivessem há dois anos sem manifestações clínicas, hematológicas e moleculares da LMC. Para levar adiante a tentativa de retirada da medicação, seria necessário verificar constantemente por meio do exame em questão, inicialmente todo mês, se a doença voltou a se manifestar em nível molecular.

Por meio do qPCR pode-se quantificar os genes transcritos do BCR/ABL, o marcador da doença LMC (e de sua presença no sangue). Como mencionado anteriormente, o câncer surge de uma alteração genética, e na leucemia mieloide crônica ela ocorre nos genes ABL e o BCR, que se fundem para formar o mutante conhecido como cromossomo Philadelphia (Ph). “Podemos usar o caso da covid-19 como exemplo. Para saber se o paciente possui a doença, também é feito hoje um teste qPCR. No caso da LMC, o teste é feito para verificar se há resquícios da doença mesmo após a suspensão da medicação”, explica a docente.

Otimização de processos

Avancini e Colleoni moldaram o projeto em algumas frentes, a fim de verificar em quais delas poderiam reduzir os custos dos kits destinados aos pacientes com LMC: testagem de reagentes, aquisição e manutenção de equipamentos para os testes qPCR, mapeamento da mão de obra e o acompanhamento de pacientes potencialmente em remissão clínica, hematológica e molecular após a suspensão do tratamento fornecido pelo SUS. 

As pesquisadoras avaliaram os prontuários de 100 pacientes com LMC. Excluíram 23, de pacientes que deixaram de ter acompanhamento no ambulatório do HSP/HU Unifesp; dois com óbitos confirmados; uma forma atípica de LMC; 68 que estavam em remissão molecular maior (RMM) há menos de dois anos; e um paciente que apresentava Índice de Sokal, indicador que avalia prognóstico da LMC, alto (e com maior risco de evolução desfavorável após a suspensão da medicação). Dessa forma, restaram cinco pacientes elegíveis para o estudo piloto. 

Os indivíduos selecionados, maiores de 18 anos e em fase crônica de LMC, tiveram então amostras de sangue coletadas no Ambulatório de Hematologia, atualmente sob a supervisão de Kerbauy, destinadas ao teste qPCR. Esses testes produziram resultados apenas qualitativos, e a análise quantitativa se mostrou prejudicada devido à ausência de insumos de referência necessários para os cálculos finais e geração de laudo. 

Esse problema foi contornado com o apoio de Luis Gustavo Raimundo e de Gildo dos Santos, que são, respectivamente, médico e biomédico do Laboratório Central, que propuseram utilizar um novo kit a ser padronizado, esse contendo todas as ferramentas necessárias para quantificação e geração de laudo, com aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A parceria com o Laboratório Central da EPM/Unifesp está garantindo otimização de custos e utilização de equipamentos e de espaço físico de laboratório de pesquisa, em parceria com o HSP/HU Unifesp.

Hoje, o acompanhamento dos pacientes do HSP/HU Unifesp com LMC é possível mesmo após a interrupção temporária do tratamento. As pesquisadoras propuseram avaliar mensalmente os níveis de resposta molecular por um período de seis meses, e depois trimestralmente, no prazo de dois anos. Essa fase ainda não foi iniciada e ficará a cargo de Kerbauy levá-la adiante.

teste molecular clara cardoso

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Clara Cardoso Franco Avancini (à esquerda) foi orientada por Gisele Wally Braga Colleoni (à direita) durante a otimização do kit comercial fabricado para diagnóstico da leucemia mielóide crônica. A economia proporcionada pelo novo teste, por paciente, gira em torno de R$600,00 / Imagens: arquivo pessoal

De olho nos problemas contemporâneos

“O papel do orientador, seja ele de IC, mestrado ou doutorado, é ser um facilitador, fazendo com que os obstáculos sejam superados a cada semana. Num primeiro momento, orientei principalmente estudantes de doutorado, mas com o passar do tempo, após aumentar o meu contato com os de graduação da EPM/Unifesp, o meu papel como professora passou a ser exercido de forma plena, pois me desafiavam com perguntas que eu não sabia responder. Tive a felicidade de encontrar, nos últimos 10 anos, estudantes com perfis como o da Clara. São estudantes com interesse em pesquisa e que querem responder perguntas relevantes. Com a Clara, procurei dar um passo à frente: em vez de incluí-la na pesquisa básica, a levei para a pesquisa aplicada para a resolução de problemas com base na inovação social. Quando conseguimos baixar custos, ampliamos o acesso ao tratamento. Mas existem desvantagens: fazer um trabalho de bancada, utilizando testes in vitro e linhagens celulares, sempre trará resultados que podem originar um artigo científico. No caso da Clara, não temos um artigo, mas um produto, uma solução de ações perenes, gerando retorno social”. 

Clara, que já tinha um interesse natural pela área de Hematologia, após uma das aulas dessa disciplina, decidiu procurar Colleoni, sua professora, para entender como poderia se aprofundar no assunto. “Ela então me colocou em contato com o co-orientador do projeto, Kerbauy. No meu caso, iniciei esse projeto a partir de uma ideia previamente estruturada, devido ao interesse pela área e também pela afinidade natural com os docentes que me orientaram. Escrevi, então, o texto final a partir de uma pergunta clínica. Foi um primeiro contato com a pesquisa muito importante, pois me ajudou a entender melhor termos da área e a ter uma ideia melhor de como é a vivência em um laboratório. Pretendo continuar a pesquisa na pós-graduação e na Residência Médica, mas em outra área - possivelmente na Ginecologia”. 

Conforme relata Colleoni, os estudantes de IC podem ter dificuldade em escrever o projeto por ser um assunto novo, desafiador, ou pela própria falta de disponibilidade do professor, que normalmente está envolvido em muitas tarefas. Para ela, é preciso ter boa vontade de ambas as partes, pois sem o projeto não há aprovação pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) e, consequentemente, não há estudo sobre o assunto. “Se o graduando tem dificuldades, é papel do professor o acolher e manter a chama acesa. Se o professor tem muitos estudantes ou pouca disponibilidade para eles, perde-se um bom pesquisador”, finaliza.

 
Publicado em Edição 13

Facilidade de programação, preço e compatibilidade com diversos sistemas operacionais inspiraram estudante do Campus São José dos Campos

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Imagem: pch.vector / Freepik

 

Valquíria Carnaúba

A maior parte das pessoas, alguma vez, já realizou um exame por ultrassonografia, seja para diagnosticar uma gravidez, seja para investigar uma dor abdominal. O que é pouco difundida, de fato, é toda a engenharia por trás dos aparelhos de ultrassom. São máquinas e, como tais, podem estar sujeitas a uma cadeia de suprimentos – já que hoje é difícil encontrar equipamentos complexos que sejam integralmente fabricados por uma só empresa (ou empresas de um mesmo país). Entre os principais componentes dos aparelhos de ultrassonografia estão o gerador de pulso-eco e o transdutor piezoelétrico. O primeiro diz respeito ao mecanismo responsável pela emissão das ondas mecânicas produzidas pelo segundo, o transdutor de ultrassom, e pela recepção dessas ondas após ecoarem no corpo humano, traduzindo esses pulsos em sinais elétricos e posteriores comandos do aparelho de ultrassom (como a produção de imagens). 

No mercado, um bom gerador de pulso-eco não é encontrado por menos de 10 mil dólares. Apesar de corresponder a cerca de 10% do preço do equipamento completo de ultrassonografia, esse valor ainda é alto devido ao fato de ser totalmente importado. Avaliando os gastos públicos em saúde, Manusa Soares Leal idealizou e está construindo o protótipo de um gerador de pulso-eco, de baixo custo, que utiliza o Arduino, uma plataforma aberta de prototipagem eletrônica – trata-se de uma placa que permite a construção de modelos exclusivos de determinado tipo de equipamento. Orientada por Manuel Henrique Lente e Marcus Vinicius de Siqueira Silva, docentes lotados respectivamente no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) e no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia - IFSP (Campus São José dos Campos), a estudante do 4° ano de Engenharia Biomédica da Unifesp decidiu-se pela montagem e programação de um equipamento voltado à geração e à recepção de ultrassom para potenciais aplicações na ultrassonografia abdominal.

Uma resposta para a economia prevista está na substituição do gerador de pulso-eco comercial pelo circuito formulado. Com o desenvolvimento a partir do Arduino, foi possível programar o sistema para funcionar de forma semelhante ao dos dispositivos comerciais. O projeto possui inúmeros diferenciais, como o preço, o ambiente de programação simples de usar (inclusive para quem não possui uma boa base de eletrônica e programação), a operação multiplataforma (que roda nos sistemas operacionais Windows, Linux e Macintosh OS X) e, principalmente, o incentivo ao learning by doing (aprendendo na prática) – que proporciona ao estudante prática e experiência de mercado. 

Leal explica que a montagem do gerador poderá, futuramente, evoluir para uma produção em escala. No momento, o projeto, iniciado em 2019, está parado devido à pandemia. “A primeira parte do projeto, o desenvolvimento do gerador de pulso-eco em si, foi concluída ainda em dezembro do ano passado. Na segunda etapa, iremos construir dois transdutores piezoelétricos ultrassônicos, os quais serão acoplados ao nosso gerador de pulso-eco”, assegura. 

O orientador afirma que o estímulo para a concepção do mencionado produto foi justamente a lacuna da indústria nacional nesse setor. Segundo ele, não existem empresas no Brasil que produzam esse tipo de equipamento. Por isso, os pesquisadores acreditam na possibilidade de encaminhar o projeto a uma startup após a sua conclusão. “Como cada transdutor piezoelétrico é específico para determinada diagnose médica (de órgão ou tecido), o que implica algumas particularidades no gerador de pulso-eco, pretendemos definir posteriormente um nicho para a aplicação dessa estrutura, ocupando-nos então em criar a instrumentação final”, esclarece Lente.

Juntamente com Leal, os docentes apontam uma possível utilização da ultrassonografia no acompanhamento de pacientes com covid-19. “Tendo em vista que o coronavírus pode provocar edema pulmonar agudo em determinados pacientes, imagens por ultrassom podem tornar-se uma importante ferramenta para o acompanhamento da evolução do quadro do paciente. Assim que pudermos, retomaremos o desenvolvimento de nossos trabalhos, pois queremos o gerador de pulso-eco e os transdutores piezoelétricos funcionando no campus em atividades de ensino e pesquisa, como um modelo que inspire novos projetos, semelhantes ao atual”, frisam.

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A estudante Manusa Soares Leal, do 4° ano de Engenharia Biomédica, e seus orientadores, Manuel Henrique Lente (ao centro) e Marcus Vinicius de Siqueira Silva, docentes lotados respectivamente no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) e no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia - IFSP (Campus São José dos Campos)  / Imagens: arquivo pessoal

Experiências que motivam

Aos 21 anos, antes de prestar o vestibular, a orientanda já tinha uma noção de onde gostaria de atuar: na área médica. Como não pretendia dedicar-se especificamente ao atendimento, pesquisou alternativas e encontrou referências sobre o curso de Engenharia Biomédica. “Após assistir a vídeos no YouTube sobre candidatos que haviam ingressado no curso, inclusive da própria Unifesp, apaixonei-me pela profissão”, relembra. Sem ter ainda passado pelas aulas de instrumentação médica, ela soube que Lente procurava estudantes de graduação interessados em participar desse projeto. Foi quando decidiu abraçar a ideia.

Apesar das dificuldades de deslocamento entre as duas unidades do ICT/Unifesp (Talim e Parque Tecnológico), conforme relatado por ela, sua experiência tem como base o apoio dos docentes. De forma análoga, Lente defende que os estudantes passem pela experiência da Iniciação Científica. “No momento, estou montando um grupo de pesquisa voltado à área de Ciência de Materiais e ao desenvolvimento de instrumentação biomédica (ferramentas que transformam informações físicas em registros visíveis ou audíveis). Gosto de orientar e ver o laboratório com alunos que realizam seus projetos. As dificuldades de nossa instituição não são tão diferentes das de outras. Já estive em várias universidades, inclusive fora do país. Um grupo só prospera se tiver uma boa equipe. É o que enriquece e move a pesquisa”, finaliza.

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Publicado em Edição 13
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