Segunda, 09 Novembro 2020 15:01

Uma longa viagem começa por um passo

O provérbio chinês acima é o retrato de uma cultura milenar pautada na paciência e na disciplina. Tornar-se uma potência mundial foi apenas consequência

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Valquíria Carnaúba

Como o TikTok, febre entre os jovens em plena pandemia de covid-19, tornou-se um sintoma da rivalidade entre China e Estados Unidos? Consideradas atualmente as maiores potências mundiais, as duas nações passaram a se confrontar de forma aberta após Wuhan, cidade mais populosa da província de Hubei (China Central), ser apontada como o epicentro original do novo coronavírus. As acusações são constantes. A China acusa a potência norte-americana de interferência em Hong Kong, hoje em meio a uma batalha diplomática sobre a autonomia política e judicial do território. Os Estados Unidos acusam hackers do país asiático de roubar dados sobre a vacina contra a covid-19. 

A espionagem, aliás, recheia o discurso de Donald Trump, e suas acusações nesse sentido foram recentemente corroboradas até por ativistas do Anonymous. “Delete o TikTok imediatamente; se você conhecer alguém que o utiliza, explique que se trata basicamente de um malware operado pelo governo chinês para uma operação massiva de espionagem” – esta foi a mensagem proferida pela legião de ciberativistas em julho deste ano. 

O medo oculto dos norte-americanos (e do Anonymous) é a espionagem, mas o receio chinês (ao menos, o declarado) é o de uma Guerra Fria 2.0. E talvez esse seja o medo que o mundo inteiro enfrenta a cada nova escalada da tensão entre as duas potências. Não se trata de uma comparação impensada: as características do conflito atual se assemelham, em muitos aspectos, ao choque geopolítico entre a União Soviética e os Estados Unidos nos anos de 1947 a 1991. 

Se, no passado, citando os principais fatos da época, tivemos antagonismo militar, político e ideológico (capitalismo x socialismo), hoje encontramos um cenário bem parecido. Se, há cerca de 50 anos, as gerações passadas presenciaram a primeira viagem à Lua, 2020 foi o ano em que a SpaceX lançou o primeiro foguete tripulado nos últimos nove anos e a China entrou na corrida rumo a Marte. Mas se, naquele tempo, o avanço tecnológico fomentava a corrida armamentista, a pesquisa científica tempera a nova Guerra Fria com a disputa pela vacina contra o já considerado “maior desafio do século XXI”. 

O novo rival dos Estados Unidos também é diferente no cenário presente: a República Popular da China. Como o país asiático chegou a esse patamar é o que traremos nesta seção. De forma sucinta, o regime atual, comandado por Xi Jinping, tem suas raízes na própria Guerra Fria. Em 1949, os comunistas, sob a liderança de Mao Tsé-Tung, tomaram o poder e realizaram inúmeras mudanças, estatizando as empresas e as propriedades fundiárias. 

Enquanto a Guerra Fria avançava até o desfecho que já conhecemos, o gigante asiático passava por uma transição econômica importante após o falecimento de seu líder, em 1976. Apesar de permanecer com o regime político fechado, o país adotou as reformas econômicas, implantadas com a finalidade de colocá-lo nos “trilhos” da economia capitalista globalizada. É nesse período que surge a economia socialista de mercado e diversas empresas norte-americanas se instalam no país (atraídas pelos incentivos fiscais): a China assume o papel de “fábrica do mundo”. 

De 1999 a 2013 (segunda fase da expansão chinesa), a então considerada nação emergente estabelece diálogo com regiões como África, América Latina e Eurásia, a fim de expandir seu comércio exterior. Iniciava-se a era da aliança entre China, Brasil, Rússia, Índia e África do Sul, formando o promissor grupo dos Brics. A terceira fase, por fim, foi a que alçou o país à posição de segundo maior PIB mundial. No período compreendido entre 2013 e 2020, o projeto da Nova Rota da Seda chinesa foi lançado pelo presidente Xi Jinping como a principal estratégia econômica e de cooperação internacional do governo. 

Seu futuro, ao menos no campo tecnológico, será construído a partir do China Standards 2035, um ambicioso plano de 15 anos do governo para definir os padrões globais para a próxima geração de tecnologias. O gigante asiático quer influir globalmente na utilização de tecnologias como Inteligência Artificial (IA), redes de telecomunicação e fluxo e análise de dados. Mas o futuro chinês certamente terá outras nuances, e seis docentes da Unifesp, de quatro áreas distintas do conhecimento, abordaram essa expansão com enfoque nas relações com o Brasil.

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Em 2019, a população da China aumentou para 1,4 bilhão de habitantes. Fonte: Departamento Nacional de Estatísticas da China (Imagem: Jofreepik - Freepik)

 

Relações internacionais e comércio exterior

O “celeiro do mundo” e a “fábrica do mundo”

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Cristina Pecequilo
Professora associada do Departamento de Relações Internacionais - Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) - Campus Osasco 

É importante entender a diferença de tempo histórico entre Ocidente e Oriente. Aqui, principalmente no Brasil, tudo é “para ontem”, mas no mundo dito oriental as coisas caminham de maneira diferente. Há 42 anos, a China se impôs uma meta de Estado, incorporada pela própria sociedade chinesa: tornar-se uma potência mundial. A partir de 1978, o país asiático delimita, então, a política das quatro modernizações: agrícola, industrial, cultural e de defesa. 

Hoje, seus índices de crescimento superam os dos Estados Unidos, e quanto mais cresce mais fica aparente no mundo. A forma como sua imagem se consolida, contudo, não é um consenso: para muitos, é uma nação pautada na paz e na cooperação; para os demais, um império que se impõe na geopolítica como outros na história. O ponto comum entre as análises existentes é que a lógica da política externa chinesa é a do “ganha-ganha” (win-win) para todos os envolvidos. 

Em 2010, por exemplo, o país tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil ao propor inicialmente uma relação diplomática nos moldes de uma joint venture, pautada no desenvolvimento bilateral “pacífico e harmonioso”. Ao longo dessa parceria, porém, o próprio governo brasileiro, na época, decidiu-se por colocar nosso país na posição de vendedor exclusivo de commodities (energia e alimentos) em troca da captação de recursos financeiros. Desde 1989, vínhamos fechando indústrias, o que levou à desindustrialização brasileira e à abertura comercial. Esse processo, iniciado há 31 anos, foi o motivo original da desindustrialização e reprimarização da economia, e não a relação bilateral com a China. 

Enquanto a China tornou-se a “fábrica do mundo”, o Brasil fez a opção por ser o “celeiro do mundo”. Com o advento da pandemia, por questões sanitárias, a China optou por suspender as importações provenientes de diversos frigoríficos brasileiros. E nós dependemos daquele país para adquirir desde o celular até a máscara que será usada no hospital. Considerando o recente realinhamento político e econômico do Brasil com os Estados Unidos (desde 2018), a China tem-se voltado a outros parceiros vendedores de commodities, como a Austrália. 

A China tem capacidades, recursos de poder e visões de mundo que oferecem alternativas a outras nações. E melhor se beneficiarão aquelas que souberem aproveitar esse caminho com autonomia e transparência. É um momento desafiador para o Brasil, que pode inspirar-se na China – valores, formação de alianças estratégicas e busca de independência tecnológica, econômica e política.

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Doca de contêineres do porto de Yangshan, no leste da China; é considerado o maior terminal automatizado para contêineres do mundo (Imagem: Ake1150Sb/Freepik)

 

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Bolivar Godinho
Professor adjunto e chefe do Departamento Acadêmico de Administração - Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) - Campus Osasco

A China tem uma importância cada vez maior no mundo; possui muitas reservas internacionais e tem aumentado sua influência em outros países. Com a implantação da Nova Rota da Seda, o país será imensamente beneficiado pelo transporte de mercadorias e oferta de matéria-prima pelos países parceiros – minério de ferro, soja e petróleo. Hoje, a verdade é que o Brasil depende do país, principalmente o setor de agronegócio. Muito impactada com a desaceleração do comércio mundial em decorrência da pandemia, a China, crescendo menos, afetará o crescimento do Brasil.

Relação PIB do país x PIB mundial 1990 2020
China  1,6% 15%
Estados Unidos 27% 24%
     
Reservas internacionais  1990 2017
China  US$ 34 bilhões US$ 3,3 trilhões
Estados Unidos US$ 173 bilhões US$ 451 bilhões
     
Exportação de alta tecnologia em relação ao total no mundo 1990 2016
China 7% 25%
Estados Unidos 32% 20%
     
Comércio exterior em relação ao PIB 1990 2017
China 24% 38%
Estados Unidos 20% 27%
     
Artigos científicos e técnicos  2000 2016
China  213 mil 2 milhões
Estados Unidos 300 mil 400 mil
     
Gastos com pesquisa e desenvolvimento em relação ao PIB  1996 2013
China  0,5% 2,1%
Estados Unidos 2,5% 2,8%

Fonte: www.google.com/publicdata/explore?ds=d5bncppjof8f9_

 

Meio ambiente

Desafios do crescimento sustentável

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Carla Grigoletto Duarte
Professora adjunta do Departamento de Ciências Ambientais - Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema

A poluição do ar é um tema central na política ambiental chinesa desde 2013. Naquele ano, houve protestos da população e até escolas foram fechadas devido à poluição nas cidades do norte do país. Dados oficiais de veículos de comunicação locais, como o China Daily e Global Times, apontaram 400 microgramas de partículas de poluição por metro cúbico de ar – segundo o padrão da Organização Mundial da Saúde (OMS), acima de 100 microgramas, o nível já não é considerado saudável. 

A insatisfação popular levou à mudança da política ambiental no país. Foram cancelados diversos projetos de termoelétricas a carvão nesse território, modalidade de geração de energia que estava em franca expansão, e passou-se a investir em geração de energia solar e eólica. Como o país possui um mercado gigante, as tecnologias são implantadas em larga escala, afetando os preços e a oferta no mundo todo – e proporcionando retornos financeiros rápidos.

Outras decisões foram tomadas ao longo do tempo, como a anunciada por Pequim, em 2017, numa reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC). A China, que importava mais da metade do lixo plástico (incluindo o eletrônico) do mundo para reciclá-lo, decidiu-se pela redução drástica desse montante. O anúncio forçou os países exportadores (como os europeus) a redefinirem suas cadeias de reciclagem.

A agenda ambiental da China, entretanto, ainda é pouco expressiva quanto a projetos de desenvolvimento levados a cabo fora de seu território. Investidores chineses seguem construindo termoelétricas a carvão em territórios previstos para integrar o Cinturão Econômico da Rota da Seda e a Rota da Seda Marítima do Século XXI, como a África, o Oriente Médio e, inclusive, o Brasil.

O plano denominado Linha Vermelha de Conservação Ecológica da China (ECRL) visa proteger mais de um quarto de seu território. Com o retorno da maior potência asiática às atividades normais, porém, a poluição tornou-se pior do que antes da pandemia de coronavírus. Mais informações em: energyandcleanair.org/tracker/covid-19-air-pollution-rebound-tracker/


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Em 2015, a poluição atmosférica atingiu um nível perigoso em Xangai, maior cidade do país e núcleo financeiro global. O incidente levou as escolas a proibirem atividades ao ar livre e as autoridades a limitarem o trabalho em locais de construção e fábricas (Imagem: Lifeonwhite/Freepik)

 

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Juliana de Souza Azevedo
Professora adjunta do Departamento de Ciências Ambientais - Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema

Outro aspecto que tem gerado preocupação na China diz respeito aos refugiados climáticos em decorrência dos impactos causados, por exemplo, na Cordilheira do Himalaia. A existência deles foi admitida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em janeiro deste ano. São cidadãos forçados a se deslocarem da terra natal em função de mudanças no meio ambiente. Com o derretimento das geleiras, aumentou o nível dos aquíferos no norte do país, inundando áreas povoadas e expulsando a população – o que tem acarretado problemas sociais.

O Himalaia tornou-se visível para a Índia após a quarentena contra o coronavírus dissipar a poluição. A imagem rodou as redes sociais, intensificando as discussões sobre poluição ambiental.

 

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Zysman Neiman
Professor associado do Departamento de Ciências Ambientais - Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema

Nos últimos 30 anos, a China tornou-se uma das maiores economias mundiais e uma das nações que mais degradaram o meio ambiente. A poluição da água afeta 75% dos rios e lagos e 90% das águas subterrâneas urbanas chinesas. Quase 30% das águas sequer servem para o uso agrícola tamanha é sua toxicidade. No relatório apresentado na sessão de abertura do 19º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, em outubro de 2017, o presidente chinês Xi Jinping estabeleceu o desenvolvimento futuro do país. Após isso, a China obteve dois recordes mundiais de energia limpa em 2015 – o primeiro, por instalar 30,5 gigawatts (GW) de energia eólica em um único ano, e o segundo, por instalar 16,5 GW de energia solar. Com isso, deu exemplo de como alterar sua atual matriz energética e ofereceu modelos – capazes de ser replicados em outros países – para a resolução de problemas ambientais e combate à pobreza.

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Imagem: Amenic181/Freepik

 

Tecnologia

O made in China em outro patamar

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Maria Elizete Kunkel
Professora adjunta do Departamento de Ciência e Tecnologia - Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) - Campus São José dos Campos

Tudo o que vinha da China, há dez anos, tinha pouco valor agregado, pois não era tecnologicamente confiável. Sua metodologia baseava-se na produção em alta escala e a baixo custo. Com o tempo, as indústrias chinesas focaram a melhoria da qualidade desses itens, fazendo com que o país passasse a ser visto como uma potência em desenvolvimento. Outras potências começaram a perder competitividade em relação à indústria chinesa, enviando suas empresas e seus trabalhadores para lá – o que aumentou a dependência em relação àquele país. 

Além da criação de produtos que atualmente superam outros em qualidade e preço (celulares, câmeras, equipamentos médicos, computadores e até impressoras 3D), a China (e suas empresas) têm-se destacado pelos investimentos em empresas inovadoras, que provocam disruptura no mercado – a exemplo da 99, empresa e aplicativo de transporte individual, comprada em 2018 pela Didi Chuxing. 

Grande parte da tecnologia assistiva utilizada no Brasil, por exemplo, é importada daquele país. Por esse motivo, é cara (devido aos impostos) e de difícil manutenção. Se investisse na fabricação desses itens, o Brasil contaria com bons profissionais em diversas áreas tecnológicas, e as próprias universidades disporiam de um amplo potencial de pesquisa aplicada que poderia ser explorado – produzindo os equipamentos que seriam utilizados pela indústria.

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Imagem: Pavlokravchenko/Freepik

 

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Luiz Leduíno
Professor associado do Departamento de Ciência e Tecnologia - Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) - Campus São José dos Campos

Existe uma mudança em curso na economia mundial em função da pandemia, e é difícil avaliar como ficará a cadeia de suprimentos, atualmente globalizada. Com as fronteiras dos países fechadas, muitas empresas não obtiveram suprimentos, inclusive no Brasil. Por isso, o processo de renacionalização de empresas poderá ser um fenômeno cada vez mais observado em médio e longo prazo.

Para sermos minimamente autossuficientes em relação à China, será preciso apostar em conversão industrial, mobilizando parte da indústria para a produção de itens que são de interesse nacional. Temos potencial: há setores em que somos muito avançados, como o da aviação – a Embraer é a terceira maior companhia do mundo – e o de petróleo. Um dos caminhos será investir em ciência e tecnologia.

A China tem investido bastante em tecnologia 5G (quinta geração de internet móvel). Essa expansão incomoda tanto os Estados Unidos que a empresa Google chegou a anunciar que deixará de dar suporte a aparelhos com essa tecnologia caso seja instalada.

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A imagem do rodapé desta matéria foi criada a partir da ilustração de Sweetjinkz/Freepik

 
Publicado em Edição 13

Lei nacional altera regras do setor de tratamento de água e esgoto e provoca debates na sociedade e na universidade

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Imagem: Nathan Dumlao / Unsplash

 

Tamires Tavares

No dia 15 de julho, o presidente Jair Bolsonaro sancionou com vetos a Lei 14.026/2020, que atualiza o marco legal do saneamento básico no Brasil. O Projeto de Lei 4.162/2019, da qual ela se origina, aprovado pelo Senado em 24 de junho, derivou da Medida Provisória 844/18, de 6 de julho de 2018, apresentada pelo então presidente Michel Temer e concede à Agência Nacional de Águas (ANA) a regulação não apenas de serviços de água, mas de esgotos, a fixação de tarifas e o estabelecimento de processo licitatório com chamamento público. A MP, que passou por mudanças e gerou polêmica no setor, considerada por alguns órgãos e movimentos como um favorecimento para privatização, é tema da pesquisa de Iniciação Científica de Paulo Roberto de Assis Franco, orientada por Magaly Marques Pulhez, docente adjunta no Instituto das Cidades (IC/Unifesp) – Campus Zona Leste e pesquisadora associada no Centro de Estudos da Metrópole.

“É uma pesquisa que, pela complexidade e relevância para a infraestrutura, a saúde, o turismo, a qualidade de vida da população, merece ser estudada com mais profundidade. Sendo o saneamento básico um direito humano universal e que sustenta pilares que quantificam e qualificam o acesso à urbanidade, é fundamental que tenhamos entendimento sobre o estágio atual de oferta, considerando os níveis baixos de cobertura que são oferecidos no momento”, justifica Franco, estudante de Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo (USP). 

Dados apresentados pelo Instituto Trata Brasil – uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, formada por empresas privadas que atuam no setor do saneamento básico e na proteção dos recursos hídricos do país –, referentes ao ano de 2017, corroboram a tese de Franco sobre a cobertura: os brasileiros que recebem água tratada são 83,3% da população, já a porcentagem atendida pela coleta de esgoto é de 50,3% e somente 42,7% têm esgoto tratado.

A visão de parte dos agentes envolvidos com essa temática é de que o novo marco regulatório não pretende satisfazer essa demanda no setor. A Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento (Assemae), entidade que representa em torno de 2.000 municípios, a considera privatizante e um retrocesso por privilegiar o setor privado e a livre concorrência, tornando frágil a oferta universal dos serviços à população. “Sobretudo entre a sociedade civil, há uma série de questionamentos sobre o processo, sobre quais os impactos diretos que essa mudança acarretaria às populações mais carentes e sobre o próprio sentido de privatização da água, que é um bem comum e direito de todos”, comenta Pulhez.

As instituições que defenderam as modificações propostas desde o seu início, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), afirmam que é positivo o aprimoramento e a expansão da participação privada no setor. A Casa Civil declara que a privatização do setor não é o objetivo final e que não há intenção de retirar a competência das prefeituras, mas, que se pretende ampliar a concorrência entre as empresas públicas e privadas mantendo uma regulação feita pela ANA, impedindo abusos nos preços e assegurando a manutenção da qualidade do serviço. “Os argumentos giram em torno da necessidade de modernização do setor e da universalização da oferta dos serviços. Alega-se que a melhor saída para fazê-lo se daria mediante maior abertura à participação da iniciativa privada, facilitando a venda de empresas públicas e a ampliação dos contratos com empresas privadas, dada a incapacidade de investimento e de operacionalização dos serviços por parte do Estado”, explica a docente.

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A cooperação entre Paulo Franco (USP) e  Magaly Pulhez (Unifesp) permitiu o desenvolvimento de pesquisa entre as duas universidades sobre um dos temas mais discutidos neste ano (Imagens: arquivo pessoal)

O que muda 

Com as modificações, a Agência Nacional de Águas (ANA) – até então reguladora de recursos hídricos federais – passará a centralizar a regulação do setor. A cargo dela ficará o estabelecimento de normas e procedimentos das atividades que englobam o serviço de saneamento básico, que são abastecimento de água, limpeza urbana, manejo de resíduos sólidos, drenagem e esgotamento sanitário. Fica responsável também por decidir medidas de racionamento de água diante de crise hídrica ocasionada por escassez em rios.

A contratação de empresas pelos municípios para a execução destes serviços deve considerar tanto as públicas quanto as privadas, possibilitando a concorrência entre elas e abrindo consulta pública antes de qualquer alteração. Até o momento, era possível estabelecer convênios diretos entre as companhias estaduais de saneamento e os governos municipais por meio de contratos de programa, um mecanismo de cooperação interfederativa previsto na Constituição Federal.

Visando uma possível universalização do setor, serão aplicadas multas aos cidadãos que não utilizarem os serviços de saneamento regularizados, ou seja, que não utilizarem a rede de esgoto.

Além disso, será criado o Comitê Interministerial de Saneamento Básico (Cisb), que coordenará ações de órgãos federais no setor com a intenção de possibilitar planos individuais para os municípios.

Para estudiosos do tema, falta clareza a respeito da interferência de empresas privadas e das intenções nas mudanças. “Há um mapeamento de empresas privadas no exterior que se interessam pelo investimento no saneamento básico no país, mas isso é dito de forma ampla, sem justificativa de como se tornaria um negócio rentável e em quais áreas agiriam. Nada está claro e definido nessa nova proposta dos campos onde teriam de atuar esses investidores e qual a maneira de atuação”, analisa Franco. 

O estudante prevê que a falta de transparência no rearranjo entre o Governo Federal e as empresas possa culminar em cobranças de serviços ambientais, seja por meio de taxas, impostos, serviços implícitos de saneamento ou outras opções que possam surgir durante essas sedimentações das regras regulatórias do setor. 

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“Com a privatização, municípios deficitários tendem a ser preteridos pelas empresas na prestação de serviços, evidentemente contrastando com as metas de universalização apresentadas”, analisa Pulhez à luz da situação do saneamento básico em outros países (Imagem: Jeso Carneiro)

Prevendo o cenário atual

Franco acompanhou as propostas de alterações no funcionamento do setor nos últimos anos. Foram mapeadas as diversas propostas de conteúdo das duas medidas provisórias apresentadas em 2018 e 2019 – ambas extintas por ausência de votação em tempo hábil – que culminaram na Lei 14.026/2020. Ele conta que seu objeto de estudo foi desafiador em decorrência da multissetorialidade da questão e da dinâmica de movimento com mudanças, às vezes, diárias.

“Foi alterado o foco diversas vezes para não ficar uma pesquisa datada e sem interesse. Optamos por um mapeamento cronológico da Medida Provisória 844/18 e como se transformou em Lei Parlamentar. Investiguei quais os atores envolvidos, qual o modelo de política pública que está sendo implementado na questão de saneamento básico e fiz algumas análises e questionamentos, ao final, sobre como irá ficar o setor e quais os motivos”, explica o estudante. 

Apesar de estudar na Universidade de São Paulo (USP), Franco optou pelo desenvolvimento da pesquisa de iniciação científica no IC/Unifesp, sob a orientação de Pulhez. Para ela, estudos sobre o tema se fazem absolutamente necessários e urgentes, “de modo que se possa melhor informar a sociedade e qualificar o debate sobre um dos nossos maiores desafios, que é garantir o direito à água a todos os brasileiros e brasileiras e à preservação da vida, compromisso que deve ser assumido pelo Estado em detrimento de quaisquer ações que favoreçam interesses específicos”.

Com 52 anos de idade, o graduando concluiu o curso de Hospitality Management na Hunter College, em New York, e English as a Second Language (ESL), com complementação em tradução e interpretação, na New York University. Em 2018, ingressou na USP em busca de novos desafios e estilo de vida com foco em seu envelhecimento. “Sempre atuei em educação não regular, como professor de inglês, professor na área de hospitalidade, professor voluntário de cursinhos populares e decidi cursar Gestão de Políticas Públicas pela grade curricular apresentada e por acreditar que seria um curso que me acrescentaria muito pessoal e profissionalmente”, conta.

 
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Segunda, 09 Novembro 2020 14:05

Fenômeno social e direito humano

Estudante analisa políticas públicas de moradia para refugiados e imigrantes em São Paulo

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Refugiados venezuelanos embarcam em avião da Força Aérea Brasileira, em Boa Vista, com destino a Manaus e São Paulo (Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 

Matheus Campos

A única constante do ser humano é o movimento. É o que afirma o filósofo britânico Thomas Hobbes (1588-1679) em sua obra Leviatã. Segundo o pensador, uma coisa que está em movimento continua em movimento eternamente, a menos que algo a detenha. Não à toa, a história da humanidade tem como reflexo a história das migrações e dos grandes fluxos populacionais, que ocorreram por diversos motivos, entre eles a escassez de alimento, fuga de guerras, oportunidade de emprego ou busca de proteção e abrigo. 

A ideia de movimento, nesse contexto, se dá pela busca por melhores condições de vida. Os deslocamentos populacionais de grandes proporções até motivaram em parte a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e o estabelecimento dos conceitos de “migração” e “refúgio”, com legislações e tratados sobre o assunto. Políticas de moradia, por exemplo, são de suma importância para compreender e contextualizar imigrantes e refugiados em qualquer lugar do mundo. Em São Paulo, Lalik Loula, estudante de graduação em Arquitetura e Urbanismo e pesquisadora, sensibilizou-se pela temática, que constitui, inclusive, o eixo de seu projeto. Este foi realizado no âmbito do programa de Iniciação Científica Voluntária (ICV), que é vinculado ao Instituto das Cidades (IC/Unifesp) - Campus Zona Leste

Projeto de empatia

No início de 2018, milhares de venezuelanos buscaram refúgio no Brasil devido à crise humanitária que surgira em seu país de origem. Por outro lado, era também crescente o fluxo de deslocados no mundo por causa de conflitos externos e internos, principalmente em países do Oriente Médio, como a Síria. 

“Todas essas informações chegavam até mim e me incomodavam, pois, morando em São Paulo, via diariamente um grande número de pessoas em situação de rua”, explica Loula. “Sabia que muitos refugiados, que buscavam melhores condições na cidade, acabariam marginalizados, somando-se ao sem-número de pessoas em situação de carência. Sem oportunidade de melhoria de vida ou acesso à infraestrutura básica, recorreriam a moradias alternativas como abrigos, cortiços e ocupações ou optariam até mesmo pelas ruas.” Foi justamente essa circunstância que a motivou a direcionar o tema de seu trabalho final de graduação. Naquela mesma época, o Instituto das Cidades promoveu o programa de Iniciação Científica Voluntária, voltado para estudantes da Unifesp e de outras instituições de ensino superior.

Por meio da inscrição no programa, a jovem manifestou interesse na pesquisa por remoções forçadas, que é também a área de Giovanna Milano, professora de Direito Urbanístico e Ambiental no Instituto das Cidades. A partir daí, elas desenvolveram um projeto sobre políticas de habitação, cujo foco recaía sobre pessoas em situação de refúgio na cidade de São Paulo.

A professora ressalta que esse é um dos problemas fundantes da atualidade. “Passamos por um momento de imperiosa ampliação da imaginação e dos caminhos teóricos em suas potencialidades críticas. A produção de conhecimento na universidade, afinal, deve estar afinada com os problemas vividos na sociedade de nosso tempo, sem deixar de vislumbrar devires e horizontes de transformação”, pontua Milano. “Esse par de questões é, para mim, fonte de tensões permanentes que aparecem nos processos de orientação das pesquisas e, evidentemente, nas práticas extensionistas e vivências em sala de aula”, complementa a professora. 

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A estudante Lalik Loula / Arquivo pessoal

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A orientadora Giovanna Milano / Arquivo pessoal

Transformação urbana e social

Neste ano o Instituto das Cidades introduziu o nível de graduação, com o curso de Geografia, embora o campus já mostrasse força nas atividades de extensão. O tema estratégico e aglutinador, obviamente, são as cidades e as crises recentes que delas decorrem como a insuficiência de moradias e as desigualdades socioespaciais. 

De acordo com Milano, “o intuito de lançar o edital de Iniciação Científica Voluntária no Instituto das Cidades era, e permanece sendo, incentivar o desenvolvimento de pesquisas e a produção de conhecimento crítico na área dos estudos urbanos”. Trata-se também de uma ação de engajamento para promover transformações e a formulação de novas políticas públicas, no Brasil e no mundo. 

“Os problemas sociais precisam ganhar mais foco, e o conhecimento sobre eles contribui para chegarmos próximo da solução – isso ocorre também por meio do incentivo ao desenvolvimento científico”, analisa Loula. 

Para o avanço da pesquisa, a orientanda mergulhou no estudo sobre processos migratórios. Foi feita uma revisão bibliográfica das políticas públicas já existentes, mediante o acesso à literatura, à legislação nacional e aos programas governamentais dirigidos ao tema. 

A pesquisa foi, então, realizada a partir da sistematização da literatura especializada na relação de dois temas fundamentais: refugiados e habitação. O levantamento de dados foi feito a partir de informações disponibilizadas pelas seguintes instituições públicas que tratam do reconhecimento desses indivíduos: Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), Polícia Civil e, em âmbito internacional, Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), que produz o relatório anual Global Trends. 

Foram também necessárias as informações dadas por entidades filantrópicas nacionais que implementam programas assistenciais. A legislação nacional e internacional, por sua vez, foi imprescindível ao procedimento e possibilitou a evolução da pesquisa, além dos artigos científicos correlatos.

“Como docente, acompanhar o processo de amadurecimento dos orientandos – com leituras mais elaboradas e o desenvolvimento do pensamento crítico – é, sem dúvida, um privilégio que reforça a importância da missão da universidade pública na sociedade”, reflete Milano. 

Futuramente a estudante deseja dar prosseguimento à investigação. Os próximos passos consistirão em consolidar as análises que versam sobre os obstáculos à realização de políticas habitacionais destinadas especificamente aos refugiados na cidade de São Paulo. 

“Problemas sociais permitem compreender melhor a sociedade e o futuro que surge no horizonte, ensejando a busca de meios que possam aperfeiçoar as políticas públicas existentes. Desse modo, será possível prover melhor suporte para as populações que carecem de oportunidade de acesso aos bens e à infraestrutura básica de serviços, diminuindo o abismo da desigualdade social no Brasil”, conclui Loula.

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Ocupação em prédio no centro de São Paulo (Imagem: Rovena Rosa / Agência Brasil)

 

 
Publicado em Edição 13

Pesquisa estuda relação entre transtornos comportamentais e alterações do sistema nervoso central em decorrência da privação materna nos primeiros meses de vida

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Imagem: dwiputras/Freepik

 

Juliana Cristina de Paula

Na edição n° 8 da revista Entreteses, foi mencionado estudo da Unifesp que apontou os malefícios da privação materna nos primeiros anos de vida, como ansiedade, indícios precursores da esquizofrenia, perda de peso e maior consumo de sacarose. Diversos pesquisadores da área de Psicobiologia passaram a avaliar a fundo a questão a partir da década de 1990, especialmente após o grupo liderado pelo neurocientista Bart Ellenbroek descobrir que, quando o afastamento da mãe ocorre no nono dia pós-natal, os testes comportamentais no rato adulto evidenciaram transtornos semelhantes à esquizofrenia. Amanda Centenaro, aluna do 3° ano de graduação em Biomedicina no Centro Universitário São Camilo e voluntária do programa de Iniciação Científica na Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, de igual modo, está avaliando os possíveis efeitos do afastamento entre a prole e a progenitora no nono dia pós-natal. Sua observação considerará os dados coletados, que associam as influências desse fator estressor a alterações neurobiológicas e ao comportamento social desses indivíduos nos anos posteriores.

Qual o motivo de a privação materna ser um modelo para o estudo dos transtornos do neurodesenvolvimento? Carlos Girardi, orientador de Centenaro e docente do Departamento de Psicobiologia da EPM/Unifesp, esclarece que principalmente o autismo e a esquizofrenia sofrem grande influência do ambiente em que ocorre o desenvolvimento inicial do indivíduo. “Alterações no curso do desenvolvimento durante a formação e maturação do sistema nervoso central (SNC) podem acarretar transformações permanentes, que aumentam a vulnerabilidade do indivíduo a transtornos comportamentais – inclusive para desenvolvê-los tardiamente, como no caso da esquizofrenia. A presença e os cuidados maternos são importantes para manter o equilíbrio durante o neurodesenvolvimento. Afastar a mãe é o que chamamos de ‘estressor’, situação que causa um aumento na liberação de hormônios do estresse – que não poderia acontecer nesse momento – e um desequilíbrio, inclusive, em neurotransmissores”, explica. 

Para o estudo em questão, os filhotes foram distribuídos, no nono dia após o nascimento, em dois grupos: um deles passou pela privação materna durante o período de 24 horas, enquanto o outro continuou com a mãe. No décimo dia, a morfologia neuronal de dois filhotes de cada um desses grupos foi analisada. A partir do vigésimo primeiro dia, os filhotes foram desmamados e alojados em duplas do mesmo sexo, provenientes da mesma ninhada, em outra gaiola. Com pouco mais de 40 dias de vida, foram realizados os testes denominados Investigação Social e Interação Social, com base nos quais são observados os comportamentos sociais dos animais pelo ato de cheirar, brincar ou morder, por exemplo.

A estudante, orientada por Girardi, avaliou a quantidade e o comprimento das ramificações neuronais com técnicas de neuroimagem. O que já se sabe é que neurônios com ramificações mais curtas ou em número menor possuem alguma relação com alterações de comportamento. Além disso, no córtex pré-frontal, localizado no lobo frontal (parte da frente do cérebro), as alterações relativas ao formato, comprimento e número de dendritos (prolongamentos finos dos neurônios), verificadas após a morte dos indivíduos, convergem com alterações na morfologia (forma) dessas ramificações, observadas em indivíduos diagnosticados com esquizofrenia ou autismo. 

neurociencia privacao materna

Amanda Centenaro (à dir), em dia de experimento no laboratório, com seu orientador, o docente Carlos Girardi, ao lado das estudantes Raquel Laurentino (esq.) e Antonilde Ruiz (centro) / Imagem: arquivo pessoal

Um modelo universal

Os pesquisadores pontuam que o estudo foi realizado com ratos Wistar – estes são modelos desenvolvidos para a pesquisa biomédica, nativos da colônia criada pelo fisiologista Henry Donaldson no Instituto Wistar (Pensilvânia, EUA), em 1906. Os espécimes foram fornecidos pelo Centro de Desenvolvimento de Modelos Experimentais para Biologia e Medicina (Cedeme), onde os animais são criados e mantidos dentro dos padrões éticos. 

A utilização dos roedores nesse estudo é marcada pela necessidade de controle das situações e estressores para que se possam entender diferentes fatores. Para o docente da Unifesp, o estudo poderia ser desenvolvido a partir de relatos de crianças que tivessem passado pela privação materna ou algum tipo de estressor durante o neurodesenvolvimento. No entanto, pelo fato de serem baseadas apenas na memória, essas informações não teriam fidelidade suficiente para o estudo, havendo inclusive o risco de perda de informações essenciais. 

Além disso, algumas técnicas específicas, como a análise do tamanho dos neurônios (uma etapa crucial), só podem ser realizadas após a morte. A única maneira viável de efetuar uma avaliação desse tipo em seres humanos adolescentes é por meio de técnicas de neuroimagem com o indivíduo vivo. "Nesses casos, não há como avaliar o neurônio em si – formato, tamanho e quais substâncias estaria produzindo; por isso, a importância desse estudo em modelos animais", assegura Girardi.

O orientador esclarece que o período do desenvolvimento do indivíduo em que ocorre um desequilíbrio bioquímico no cérebro determina o tipo de alterações que sobrevirá. Nos mamíferos, o desenvolvimento biológico continua após o nascimento. Considerando-se o SNC de seres humanos e roedores, no início do período pós-natal ainda ocorrem diversos eventos como a formação de novos neurônios e sinapses, mas ainda não são conhecidos todos os eventos afetados durante o desenvolvimento. 

Outras questões ainda desconhecidas dizem respeito ao motivo e aos mecanismos que geram essas alterações; por isso, uma das perguntas a que o projeto de Centenaro pretende responder é se a alteração na morfologia neuronal é, de fato, um dos efeitos da privação materna. A hipótese é que, quando observados, os neurônios dos espécimes pertencentes ao grupo que passou pela privação materna terão menos dendritos e/ou estes serão mais curtos. 

A reunião dos dados coletados ainda está em andamento, pois a estudante realiza, no momento, análises laboratoriais e seu relatório de pesquisa. Centenaro está imbuída de uma responsabilidade maior após ter ingressado no programa de Iniciação Científica. E acredita que os resultados obtidos terão impacto na sociedade, uma vez que poderão auxiliar no entendimento mais amplo da influência de adversidades no início da vida – época em que se origina a maior parte dos transtornos de neurodesenvolvimento.

 
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Estudante do quarto ano do curso de Medicina elaborou projeto que barateia o PCR quantatitativo em tempo real feito em pacientes com leucemia mieloide crônica

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Imagem: Belova59 - Pixabay

 

Valquíria Carnaúba

A leucemia é uma doença que atinge as células que formam os componentes do sangue humano. As chamadas células-tronco hematopoéticas estão presentes na medula óssea, um líquido gelatinoso encontrado no interior dos ossos, e dão origem às hemácias (glóbulos vermelhos), leucócitos (glóbulos brancos) e plaquetas. Nessa “fábrica”, subdividem-se em dois tipos, linfoides ou mieloides, que podem sofrer mutação genética durante a diferenciação em componentes sanguíneos, transformando-se em células cancerosas e substituindo as células sanguíneas saudáveis nascidas da medula óssea. 

O subtipo leucemia mieloide crônica (LMC) caracteriza-se pela mutação adquirida nas células-tronco hematopoéticas e, portanto, não estão presentes em nosso organismo ao nascermos. As células saudáveis ainda estão presentes, em maior ou menor quantidade a depender da fase da doença, e convivem com as cancerosas. A doença leva à produção exacerbada da maioria dos tipos de células brancas do sangue e de plaquetas. Com isso, as células leucêmicas espalham-se pelo corpo todo, podendo provocar sintomas como cansaço fácil, fraqueza, febre e manifestações hemorrágicas.

Atualmente, o tratamento de escolha para a doença é a terapia vitalícia de alto custo com uma droga que inibe a ação da proteína derivada a partir da mutação. Tornar essa opção menos onerosa para o Hospital São Paulo (HSP/HU Unifesp), hospital universitário da Universidade Federal de São Paulo, foi o desafio que Clara Cardoso Franco Avancini aceitou no ano passado. Ela é atualmente estudante do quinto ano de Medicina e autora de um projeto de Iniciação Científica orientado por Gisele Wally Braga Colleoni, docente do Departamento de Oncologia Clínica e Experimental da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), e co-orientado por Fábio Rodrigues Kerbauy, professor adjunto da Hematologia e responsável pelo ambulatório de Leucemias do HSP/HU Unifesp.

Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o projeto consiste na padronização e otimização de um kit comercial fabricado para diagnóstico da doença LMC, que contém material para realização do teste reação em cadeia por polimerase quantitativo (qPCR) em tempo real. Esse teste deve ser realizado periodicamente nos pacientes para verificar se o tratamento está sendo efetivo. Por meio dele, os médicos verificam a quantidade do material genético cancerígeno da leucemia mieloide crônica. O ideal é que o total seja tão baixo que o paciente venha a ser classificado como em remissão molecular profunda.

Apesar de necessário, o exame onera o orçamento da saúde: cada teste, quando o serviço é terceirizado, custa em torno de R$ 800,00. “No estudo, verificamos que aproximadamente 20 pacientes necessitam efetuar o teste qPCR cada mês. Por ano, isso poderia onerar o orçamento do HSP/HU Unifesp em quase R$ 200 mil”, pontua a docente. 

Colleoni e sua orientanda atuaram a fim de padronizar uma metodologia que visasse otimizar esse custo. A economia é de mais de R$ 140 mil anuais. “No caso do HSP/HU Unifesp, o grande gargalo era custo. O Laboratório Central do HSP/HU Unifesp faz alguns testes moleculares, mas essa demanda interna ainda não era atendida. Esse exame, que deve ser feito a cada três meses, no mínimo, era enviado para um laboratório externo, e seu valor final corresponde aos gastos do laboratório com reagentes, equipamentos e mão de obra. Quando propusemos trazer esses testes para nosso laboratório central, conseguimos reunir a mão de obra qualificada (que já existia aqui), compartilhamos e garantimos a manutenção dos equipamentos adquiridos com verbas de pesquisa e, com reserva técnica de outras pesquisas, adquirimos os insumos utilizados na padronização e otimização do teste”, complementa.

Dessa forma, foi possível reduzir o custo total de cada teste em aproximadamente R$ 600,00. Entretanto, essa não foi a única questão explorada na pesquisa. A outra grande pergunta com a qual a estudante - assim como médicos do mundo todo - se deparou durante sua Iniciação Científica foi a possibilidade de manter estáveis, sem a medicação fornecida pelo SUS, os pacientes que estivessem há dois anos sem manifestações clínicas, hematológicas e moleculares da LMC. Para levar adiante a tentativa de retirada da medicação, seria necessário verificar constantemente por meio do exame em questão, inicialmente todo mês, se a doença voltou a se manifestar em nível molecular.

Por meio do qPCR pode-se quantificar os genes transcritos do BCR/ABL, o marcador da doença LMC (e de sua presença no sangue). Como mencionado anteriormente, o câncer surge de uma alteração genética, e na leucemia mieloide crônica ela ocorre nos genes ABL e o BCR, que se fundem para formar o mutante conhecido como cromossomo Philadelphia (Ph). “Podemos usar o caso da covid-19 como exemplo. Para saber se o paciente possui a doença, também é feito hoje um teste qPCR. No caso da LMC, o teste é feito para verificar se há resquícios da doença mesmo após a suspensão da medicação”, explica a docente.

Otimização de processos

Avancini e Colleoni moldaram o projeto em algumas frentes, a fim de verificar em quais delas poderiam reduzir os custos dos kits destinados aos pacientes com LMC: testagem de reagentes, aquisição e manutenção de equipamentos para os testes qPCR, mapeamento da mão de obra e o acompanhamento de pacientes potencialmente em remissão clínica, hematológica e molecular após a suspensão do tratamento fornecido pelo SUS. 

As pesquisadoras avaliaram os prontuários de 100 pacientes com LMC. Excluíram 23, de pacientes que deixaram de ter acompanhamento no ambulatório do HSP/HU Unifesp; dois com óbitos confirmados; uma forma atípica de LMC; 68 que estavam em remissão molecular maior (RMM) há menos de dois anos; e um paciente que apresentava Índice de Sokal, indicador que avalia prognóstico da LMC, alto (e com maior risco de evolução desfavorável após a suspensão da medicação). Dessa forma, restaram cinco pacientes elegíveis para o estudo piloto. 

Os indivíduos selecionados, maiores de 18 anos e em fase crônica de LMC, tiveram então amostras de sangue coletadas no Ambulatório de Hematologia, atualmente sob a supervisão de Kerbauy, destinadas ao teste qPCR. Esses testes produziram resultados apenas qualitativos, e a análise quantitativa se mostrou prejudicada devido à ausência de insumos de referência necessários para os cálculos finais e geração de laudo. 

Esse problema foi contornado com o apoio de Luis Gustavo Raimundo e de Gildo dos Santos, que são, respectivamente, médico e biomédico do Laboratório Central, que propuseram utilizar um novo kit a ser padronizado, esse contendo todas as ferramentas necessárias para quantificação e geração de laudo, com aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A parceria com o Laboratório Central da EPM/Unifesp está garantindo otimização de custos e utilização de equipamentos e de espaço físico de laboratório de pesquisa, em parceria com o HSP/HU Unifesp.

Hoje, o acompanhamento dos pacientes do HSP/HU Unifesp com LMC é possível mesmo após a interrupção temporária do tratamento. As pesquisadoras propuseram avaliar mensalmente os níveis de resposta molecular por um período de seis meses, e depois trimestralmente, no prazo de dois anos. Essa fase ainda não foi iniciada e ficará a cargo de Kerbauy levá-la adiante.

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Clara Cardoso Franco Avancini (à esquerda) foi orientada por Gisele Wally Braga Colleoni (à direita) durante a otimização do kit comercial fabricado para diagnóstico da leucemia mielóide crônica. A economia proporcionada pelo novo teste, por paciente, gira em torno de R$600,00 / Imagens: arquivo pessoal

De olho nos problemas contemporâneos

“O papel do orientador, seja ele de IC, mestrado ou doutorado, é ser um facilitador, fazendo com que os obstáculos sejam superados a cada semana. Num primeiro momento, orientei principalmente estudantes de doutorado, mas com o passar do tempo, após aumentar o meu contato com os de graduação da EPM/Unifesp, o meu papel como professora passou a ser exercido de forma plena, pois me desafiavam com perguntas que eu não sabia responder. Tive a felicidade de encontrar, nos últimos 10 anos, estudantes com perfis como o da Clara. São estudantes com interesse em pesquisa e que querem responder perguntas relevantes. Com a Clara, procurei dar um passo à frente: em vez de incluí-la na pesquisa básica, a levei para a pesquisa aplicada para a resolução de problemas com base na inovação social. Quando conseguimos baixar custos, ampliamos o acesso ao tratamento. Mas existem desvantagens: fazer um trabalho de bancada, utilizando testes in vitro e linhagens celulares, sempre trará resultados que podem originar um artigo científico. No caso da Clara, não temos um artigo, mas um produto, uma solução de ações perenes, gerando retorno social”. 

Clara, que já tinha um interesse natural pela área de Hematologia, após uma das aulas dessa disciplina, decidiu procurar Colleoni, sua professora, para entender como poderia se aprofundar no assunto. “Ela então me colocou em contato com o co-orientador do projeto, Kerbauy. No meu caso, iniciei esse projeto a partir de uma ideia previamente estruturada, devido ao interesse pela área e também pela afinidade natural com os docentes que me orientaram. Escrevi, então, o texto final a partir de uma pergunta clínica. Foi um primeiro contato com a pesquisa muito importante, pois me ajudou a entender melhor termos da área e a ter uma ideia melhor de como é a vivência em um laboratório. Pretendo continuar a pesquisa na pós-graduação e na Residência Médica, mas em outra área - possivelmente na Ginecologia”. 

Conforme relata Colleoni, os estudantes de IC podem ter dificuldade em escrever o projeto por ser um assunto novo, desafiador, ou pela própria falta de disponibilidade do professor, que normalmente está envolvido em muitas tarefas. Para ela, é preciso ter boa vontade de ambas as partes, pois sem o projeto não há aprovação pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) e, consequentemente, não há estudo sobre o assunto. “Se o graduando tem dificuldades, é papel do professor o acolher e manter a chama acesa. Se o professor tem muitos estudantes ou pouca disponibilidade para eles, perde-se um bom pesquisador”, finaliza.

 
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Facilidade de programação, preço e compatibilidade com diversos sistemas operacionais inspiraram estudante do Campus São José dos Campos

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Imagem: pch.vector / Freepik

 

Valquíria Carnaúba

A maior parte das pessoas, alguma vez, já realizou um exame por ultrassonografia, seja para diagnosticar uma gravidez, seja para investigar uma dor abdominal. O que é pouco difundida, de fato, é toda a engenharia por trás dos aparelhos de ultrassom. São máquinas e, como tais, podem estar sujeitas a uma cadeia de suprimentos – já que hoje é difícil encontrar equipamentos complexos que sejam integralmente fabricados por uma só empresa (ou empresas de um mesmo país). Entre os principais componentes dos aparelhos de ultrassonografia estão o gerador de pulso-eco e o transdutor piezoelétrico. O primeiro diz respeito ao mecanismo responsável pela emissão das ondas mecânicas produzidas pelo segundo, o transdutor de ultrassom, e pela recepção dessas ondas após ecoarem no corpo humano, traduzindo esses pulsos em sinais elétricos e posteriores comandos do aparelho de ultrassom (como a produção de imagens). 

No mercado, um bom gerador de pulso-eco não é encontrado por menos de 10 mil dólares. Apesar de corresponder a cerca de 10% do preço do equipamento completo de ultrassonografia, esse valor ainda é alto devido ao fato de ser totalmente importado. Avaliando os gastos públicos em saúde, Manusa Soares Leal idealizou e está construindo o protótipo de um gerador de pulso-eco, de baixo custo, que utiliza o Arduino, uma plataforma aberta de prototipagem eletrônica – trata-se de uma placa que permite a construção de modelos exclusivos de determinado tipo de equipamento. Orientada por Manuel Henrique Lente e Marcus Vinicius de Siqueira Silva, docentes lotados respectivamente no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) e no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia - IFSP (Campus São José dos Campos), a estudante do 4° ano de Engenharia Biomédica da Unifesp decidiu-se pela montagem e programação de um equipamento voltado à geração e à recepção de ultrassom para potenciais aplicações na ultrassonografia abdominal.

Uma resposta para a economia prevista está na substituição do gerador de pulso-eco comercial pelo circuito formulado. Com o desenvolvimento a partir do Arduino, foi possível programar o sistema para funcionar de forma semelhante ao dos dispositivos comerciais. O projeto possui inúmeros diferenciais, como o preço, o ambiente de programação simples de usar (inclusive para quem não possui uma boa base de eletrônica e programação), a operação multiplataforma (que roda nos sistemas operacionais Windows, Linux e Macintosh OS X) e, principalmente, o incentivo ao learning by doing (aprendendo na prática) – que proporciona ao estudante prática e experiência de mercado. 

Leal explica que a montagem do gerador poderá, futuramente, evoluir para uma produção em escala. No momento, o projeto, iniciado em 2019, está parado devido à pandemia. “A primeira parte do projeto, o desenvolvimento do gerador de pulso-eco em si, foi concluída ainda em dezembro do ano passado. Na segunda etapa, iremos construir dois transdutores piezoelétricos ultrassônicos, os quais serão acoplados ao nosso gerador de pulso-eco”, assegura. 

O orientador afirma que o estímulo para a concepção do mencionado produto foi justamente a lacuna da indústria nacional nesse setor. Segundo ele, não existem empresas no Brasil que produzam esse tipo de equipamento. Por isso, os pesquisadores acreditam na possibilidade de encaminhar o projeto a uma startup após a sua conclusão. “Como cada transdutor piezoelétrico é específico para determinada diagnose médica (de órgão ou tecido), o que implica algumas particularidades no gerador de pulso-eco, pretendemos definir posteriormente um nicho para a aplicação dessa estrutura, ocupando-nos então em criar a instrumentação final”, esclarece Lente.

Juntamente com Leal, os docentes apontam uma possível utilização da ultrassonografia no acompanhamento de pacientes com covid-19. “Tendo em vista que o coronavírus pode provocar edema pulmonar agudo em determinados pacientes, imagens por ultrassom podem tornar-se uma importante ferramenta para o acompanhamento da evolução do quadro do paciente. Assim que pudermos, retomaremos o desenvolvimento de nossos trabalhos, pois queremos o gerador de pulso-eco e os transdutores piezoelétricos funcionando no campus em atividades de ensino e pesquisa, como um modelo que inspire novos projetos, semelhantes ao atual”, frisam.

engenharia biomedica Manusa soares leal

engenharia biomedica Manuel

engenharia biomedica Marcus

A estudante Manusa Soares Leal, do 4° ano de Engenharia Biomédica, e seus orientadores, Manuel Henrique Lente (ao centro) e Marcus Vinicius de Siqueira Silva, docentes lotados respectivamente no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) e no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia - IFSP (Campus São José dos Campos)  / Imagens: arquivo pessoal

Experiências que motivam

Aos 21 anos, antes de prestar o vestibular, a orientanda já tinha uma noção de onde gostaria de atuar: na área médica. Como não pretendia dedicar-se especificamente ao atendimento, pesquisou alternativas e encontrou referências sobre o curso de Engenharia Biomédica. “Após assistir a vídeos no YouTube sobre candidatos que haviam ingressado no curso, inclusive da própria Unifesp, apaixonei-me pela profissão”, relembra. Sem ter ainda passado pelas aulas de instrumentação médica, ela soube que Lente procurava estudantes de graduação interessados em participar desse projeto. Foi quando decidiu abraçar a ideia.

Apesar das dificuldades de deslocamento entre as duas unidades do ICT/Unifesp (Talim e Parque Tecnológico), conforme relatado por ela, sua experiência tem como base o apoio dos docentes. De forma análoga, Lente defende que os estudantes passem pela experiência da Iniciação Científica. “No momento, estou montando um grupo de pesquisa voltado à área de Ciência de Materiais e ao desenvolvimento de instrumentação biomédica (ferramentas que transformam informações físicas em registros visíveis ou audíveis). Gosto de orientar e ver o laboratório com alunos que realizam seus projetos. As dificuldades de nossa instituição não são tão diferentes das de outras. Já estive em várias universidades, inclusive fora do país. Um grupo só prospera se tiver uma boa equipe. É o que enriquece e move a pesquisa”, finaliza.

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Sexta, 06 Novembro 2020 16:01

Uma luz que não brilhou

Projetos de Iniciação Científica analisam como a Light criou padrões de inversão e reprodução do capital na cidade de São Paulo que impactaram na ocupação e na valorização de áreas urbanas

Prédio Light no centro de São Paulo

Inaugurado em 1929, o Edifício Alexandre Mackenzie sediava a São Paulo Tramway, Light and Power Company e abriga atualmente o Shopping Light (Fotografia: Alex Reipert)

 

José Luiz Guerra 

Desde a oferta de transporte público para a cidade de São Paulo, com os bondes, até as profundas transformações em rios, córregos e várzeas para a exploração do potencial hídrico, visando a geração de energia elétrica e especulação imobiliária, foram muitas as intervenções promovidas pela São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited, popularmente conhecida como Light, na capital paulista. De que forma elas ocorreram? E como era a relação da empresa com o poder público durante o período de concessão? 

Este tema foi abordado em dois projetos de Iniciação Científica desenvolvidos por Giovanna Gonçalves de Souza e Kelvin Santos Souza, estudantes do curso de Ciências Econômicas da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) - Campus Osasco, ambos orientados por Fábio Alexandre dos Santos, docente de História Econômica no Departamento de Economia da Eppen/Unifesp. Com base na análise documental primária, que envolvia os relatórios anuais da empresa, e na leitura, fichamento e estudo da bibliografia fundamental relacionada ao tema, as pesquisas compreenderam o período entre 1955 e 1979. O trabalho de Giovanna Souza analisou as judicializações e resultados operacionais, enquanto o de Kelvin Souza falou sobre áreas negociadas, alienações e patrimônio. Os dois projetos foram contemplados com bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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Durante a apresentação dos painéis no Congresso Acadêmico Unifesp 2019 sobre estas mesmas pesquisas de IC. Fábio Alexandre dos Santos - orientador - em pé no centro;Giovanna Gonçalves de Souza, à esquerda, de blusa branca listrada. Kelvin Santos Souza - ajoelhado. Yasmin Geronimo da Silva - à direita (Yasmin teve bolsa do CNPq na primeira fase da IC, enquanto Giovanna e Kelvin eram voluntários. Na segunda fase, de 2019-2020, Yasmin deixou o projeto, e giovanna e Kelvin foram contemplados com bolsas do CNPq.) / Imagem: arquivo pessoal

A Light no Brasil

A Light chegou ao Brasil em 1899, período no qual o café era a principal base econômica nacional e o Estado de São Paulo o principal polo exportador. Na época a capital paulista passava por um processo de rápido aumento populacional e urbano, que ampliava a demanda por serviços públicos. A empresa canadense com capitais oriundos de mesma origem, mas também de ingleses e estadunidenses, aportou na capital com a finalidade primeira de oferecer serviços de transporte urbano, mas rapidamente passou a atuar em setores-chave do processo de urbanização da cidade, como geração e distribuição de energia elétrica, serviços de gás e telefone. “Logo as pessoas passaram a chamar a Light de 'Polvo Canadense'. Enquanto implantava os serviços de bonde, a empresa deixava áreas vazias para especulação imobiliária”, comenta Giovanna Souza. 

A partir de 1927, no entanto, recebeu autorização do Estado para sanear, canalizar e inverter o curso do Rio Pinheiros com a finalidade de utilizar as águas excedentes do Rio Tietê para gerar energia em sua usina em Cubatão e, como resultado, conferiu-lhe autoridade para intervir em uma grande área da cidade, desapropriando os proprietários após a inundação de 1929. “A Light contribuiu para o desenvolvimento econômico e social, mas atuava de tal forma a ponto de os vereadores a chamarem de Dona dos Rios”, explica Fábio Souza. A força que a empresa possuía, durante o período no qual atuou em São Paulo, lhe conferiu direitos de alienação e expropriação dentro da cidade, em especial para a construção de sua infraestrutura de bondes e de geração e distribuição de energia, na maioria das vezes em razão de uma estreita relação com o poder público e com veículos de imprensa. “A Light patrocinava jornais e financiava matérias favoráveis à sua atuação, o que acabava inibindo concorrentes e possíveis críticas à sua atuação”, completa Kelvin Souza, o que não a livrou de constantes questionamentos sobre os serviços que oferecia e sobre sua atuação em áreas urbanas sob sua responsabilidade. No ano de 1979, encerrou-se a concessão da empresa e a Light foi encampada pelo governo federal.

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Natação nos cochos do Rio Pinheiros em 1933 (Arquivo Centro Pró-Memória Hans Nobiling)

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Planta de 1924 da cidade de São Paulo, com o curso original do Rio Pinheiros

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Prédio da Light e Power, inaugurado em 1929 (Arquivo Público do Estado de São Paulo)

A atuação da Light

Com base na análise documental, foi possível verificar que as relações existentes entre a Light e o Estado brasileiro não apresentavam características homogêneas, alternando entre sucesso e conflitos de interesses. Um dos principais pontos dessa disputa diz respeito à retificação do Rio Pinheiros e à inundação de 1929, onde a Light se embasava no direito de declaração de utilidade pública as áreas necessárias às obras, entre elas alagadiças ou sujeitas a inundações, conforme autorizava o projeto de lei nº 74 de 1927, da então Câmara dos Deputados do Estado de São Paulo. Já em relação à alienação de terras, desde a sua instalação a empresa estabeleceu um procedimento de adquirir áreas visando futuros negócios, fossem para a sua estrutura operacional ou para obstruir ações de concorrentes. A análise dos relatórios, que eram meticulosamente tratados, também permitiu verificar que a empresa dava poucos detalhes sobre as suas operações, tanto para o poder público quanto para a sociedade, o que sugere, em especial, um conflito de interesses público e privado. 

Os trabalhos concluíram que, por meio de acordos firmados com órgãos públicos, a Light obteve valiosos direitos de exploração da cidade com respaldo de finalidade pública, na qual promoveu profundas transformações em rios, córregos e várzeas para a exploração do potencial hídrico, geração de energia elétrica e especulação imobiliária. “Apesar das obras e serviços públicos terem contribuído para a modernização da cidade e para a produção industrial, também houve impactos negativos no desenvolvimento de São Paulo, a exemplo dos distúrbios sociais, econômicos, ambientais, como a grande enchente de 1929, cujos impactos foram desde desapropriações, como as sofridas pelas populações ribeirinhas, até a valorização das áreas saneadas, que foram comercializadas pela empresa, em seguida”, explica Giovanna Souza. Assim, foi possível verificar como a empresa desempenhou papéis além daqueles que eram intrínsecos à sua atividade, formalmente designada pelo poder público de São Paulo. “Sua atividade de especulação imobiliária e ações favoráveis ao aumento do seu patrimônio ajudaram na criação de uma cidade ‘moderna’, mas, ao mesmo tempo, muito excludente, como é São Paulo nos dias atuais, especialmente por sua ingerência sobre os cursos d’água e o espaço urbano”, finaliza Kelvin Souza.

 
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Tema antes envolto em lendas e mistérios, agora é alvo da ciência para a discussão de suas implicações na vida dos indivíduos praticantes e da sociedade

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Imagem: Kayla Maurais / Unsplash

 

Tamires Tavares

Celebrada em sociedades ancestrais e alvo de distorções conceituais, discriminação e perseguição em algumas culturas ocidentais contemporâneas, a bruxaria desperta, ainda hoje, a curiosidade de milhares de pessoas em todo o mundo. Em um dos reinos onde esse interesse se faz mais evidente, a internet, são publicados diariamente conteúdos sobre astrologia e tarologia, associados ou não, das mais diversas vertentes. Sejam vídeos sobre astrologia védica, sejam previsões anuais com base no tarô mitológico, o que chama a atenção é a nova geração de tarólogos, composta por jovens que estudam formas de bruxaria cada vez mais descoladas do senso comum. No mês de setembro, somente um dos canais da plataforma YouTube que tratam dessa temática alcançou mais de 318 mil visualizações de seus vídeos (dados coletados em 9/set./2020).

O resgate dessa atividade pelas novas gerações, que garante a transmissão de conhecimentos tão antigos a um número crescente de pessoas, é objeto da pesquisa de Iniciação Científica realizada pela estudante Rafaela Sampaio de Souza, da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos. A veterana do curso de Ciências Sociais pretende discutir, em sua investigação antropológica, a retomada de ensinamentos sobre magia e bruxaria e a prática do Tarô de Marselha como reinvenção de tradições.

Para Marcos Rufino, doutor em Antropologia Social e docente do Departamento de Ciências Sociais, a pesquisa promove a reflexão sobre a constituição da esfera do sagrado no contexto urbano atual. “Vemos, ao longo das últimas décadas, um interesse crescente pelo resgate da magia e da bruxaria por parte de inúmeros grupos. Apesar de acreditarem que estão retomando práticas antigas e ‘autênticas’, o trabalho mostra que estamos diante de uma experiência social de reinvenção do passado, sobretudo a partir da produção de um simbolismo que revela muito acerca da vontade e das estratégias de atribuir certa significação à vida cotidiana”, analisa o professor, responsável pela orientação de Souza.

Segundo a estudante, não há definição única para o termo “bruxaria”, em razão da existência de diferentes grupos que utilizam práticas mágicas e se autodenominam bruxos. Contudo, “bruxaria ancestral” refere-se ao culto de deuses anteriores às religiões modernas e ao surgimento das civilizações atuais. Para a antropóloga britânica Margaret Murray, uma das pioneiras no estudo sobre o tema, o aparecimento da bruxaria ancestral foi contemporânea dos cultos greco-romanos. A presente pesquisa questiona e discute as obras de Murray, pois delas derivam a Wicca e outras religiões de crenças pré-cristãs de grupos bruxos. 

Diversos movimentos buscaram recuperar essas crenças, destacando-se o neopaganismo, iniciado pela elite cultural da Europa Ocidental no final do século XVIII, e o New Age, na década de 1960. O primeiro pretendia ressignificar tradições e se autodeclarava portador e transmissor de uma sabedoria antiga, sendo influenciado pela literatura e por sociedades secretas. Já o segundo, nasceu a partir do esoterismo ocidental, com a proposta de uma contracultura, reavaliando conhecimentos rejeitados pela cultura dominante. Com o declínio da religião cristã, esses grupos neopagãos, principalmente a Wicca – que defende a existência de magia e de interação física e espiritual com a natureza –, popularizaram-se.

Souza destaca, em seu trabalho, que a busca por origens míticas é característica da cultura jovem, que procura por interpretações da realidade distintas das religiões predominantes, como o cristianismo, ganhando espaço nas sociedades modernas. “Como observou o filósofo e especialista em história das religiões Mircea Eliade, a busca por outros métodos de salvação e a inter-relação estabelecida entre diversas práticas com origens diferentes, que foram perseguidas ou não totalmente aceitas pela Igreja cristã, como a astrologia, gnose e ritos orgiásticos, entre outras, estão cada vez mais presentes”, observa a estudante em texto de sua produção.

Isso é exemplificado por meio da tarologia, que atualmente surge como uma reinterpretação de procedimentos mágicos tradicionais. O uso do tarô – um baralho de 78 cartas com figuras – é um método esotérico para a previsão do futuro.

Souza enfatiza que a tarologia (especificamente o uso do Tarô de Marselha) pode ser compreendida pela abordagem da Psicologia Analítica, pois é desenvolvida como ferramenta de orientação para um caminho de autoconhecimento. “Utilizam-se as cartas do tarô e interpreta-se conforme o sistema simbólico no qual se está inserido; para isso, a pessoa não precisa necessariamente fazer parte de grupos de bruxos ou tarólogos, como se autodenominam, porque as imagens contidas nas cartas remetem a representações de coisas do cotidiano”, explica a graduanda. 

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A participação de Rafaela Souza nas aulas ministradas por Marcos Rufino, pesquisador em Antropologia Social, culminou na orientação prestada por esse docente à sua pesquisa de Iniciação Científica / Imagens: Arquivo pessoal

Para os participantes desses grupos, as figuras contidas no Tarô de Marselha representam personagens de diferentes culturas ao longo dos séculos. Isso confere a essas personagens um potencial arquétipo. Os arquétipos foram definidos pelo psiquiatra Carl Gustav Jung como expressões, por meio de imagens, de elementos e experiências comuns entre as pessoas, que se manifestam – por exemplo – nos sonhos, arte, mitos e rituais. Eles formam o inconsciente coletivo – representações coletivas que induzem a interpretações sobre a realidade. Ou seja, as cartas exibem figuras que têm significado em qualquer cultura; ainda que haja alteração de nome e de forma nas ilustrações, tais figuras estão presentes dentro de qualquer sistema de representações. Assim, ao ler as cartas, o indivíduo consegue “conectar-se” com elas, com o que nelas é representado, sem saber especificamente seu significado.

A orientanda observou a relação dos grupos analisados com os arquétipos do Tarô de Marselha e a aplicação do autoconhecimento. “Os arcanos maiores do tarô, conjunto composto por 22 cartas, contam a história A Jornada do Louco, por exemplo. Ao tirar as cartas de determinada forma, é preciso interpretá-las para entender qual jornada se deve realizar a partir deste plano. Todos começam do zero – um plano inicial – e, ao estudar o tarô, pretende-se saber como evoluir e transcender a outro plano. De certa forma, o objetivo é compreender qual o seu papel aqui e o que fazer para adquirir determinado conhecimento, que só é alcançável por meio do uso da magia antiga – as cartas do tarô, entre outros elementos –, atingindo-se, após isso, outro plano”, explica Souza. 

O tarô foi a porta de entrada da estudante para as discussões sobre bruxaria e para a escolha de seu tema de pesquisa. No início da graduação interessou-se pela antropologia das religiões, mas foi durante o terceiro ano que teve contato com tarólogos, que lhe deram uma nova perspectiva sobre novos movimentos religiosos e diferentes interpretações da espiritualidade. “Usavam o tarô como elemento ritual. Não apenas profissional, mas espiritual”, esclarece. Nesse período, a mãe de Souza também se interessou pelo assunto e se tornou taróloga. Com tal reforço para sua atividade, a estudante encontrou o tema que pretendia desenvolver e confirmou, por meio do aconselhamento de seu orientador, a relevância do estudo. “O trabalho de Rafaela soma-se a outros que procuram entender o lugar das formas de ‘neopaganismo’ na maneira como esses grupos compreendem a si mesmos”, avalia Rufino.

A influência da figura materna também foi importante na escolha do curso. Antes de ingressar no ensino médio, a curitibana de 21 anos teve contato com as áreas de Sociologia e Antropologia graças à mãe, que é pedagoga. Ao se formar em uma escola técnica estadual, aos 16 anos, optou pelo ensino superior a distância em Ciências Sociais enquanto trabalhava. No ano seguinte, prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e foi aprovada na Unifesp. A localização do campus da EFLCH/Unifesp pesou na escolha, pois, durante a infância, havia morado em Guarulhos, e seus avós ainda residem nessa cidade.

No curso de Ciências Sociais, optou pela licenciatura e decidiu completar o estágio antes de se inserir no programa de Iniciação Científica. Por meio deste, pôde explorar um ramo de seu interesse e discuti-lo com outros docentes, além do orientador. Nesse processo, encontrou alguns desafios, como a falta de financiamento. Com o projeto concluído, teve de escolher entre abandonar a pesquisa ou desenvolvê-la voluntariamente, pois o corte de verbas impediu a conquista de uma bolsa de estudos. “Era importante ter financiamento, principalmente para frequentar os rituais que estudo, que ocorriam em regiões distantes”, comenta. O tempo também representava um obstáculo. Durante a pesquisa não poderia perder os rituais sazonais que se realizavam nos meses de recesso acadêmico. “Eu já estava com o projeto pronto, e era um assunto que gostaria de compreender melhor; foi o que me motivou a prosseguir apesar das dificuldades”, lembra a estudante, que pretende aprofundar-se no tema na pós-graduação.

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Reprodução/Youtube - Paula Prado Tarot

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Reprodução/Youtube - Amada Evolução

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Reprodução/Youtube - Amanda Eliazar Tarot

Milhares de internautas buscam conteúdo sobre magia na plataforma YouTube. Praticantes e especialistas em tarologia, astrologia, búzios e runas difundem essas e outras atividades por meio de vídeos com orientações – desde o ensino voltado a principiantes até previsões mensais sobre o futuro

 
Publicado em Edição 13
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