Quinta, 27 Junho 2019 16:01

Frágil, extremamente frágil

Estudo descarta a ideia de que o mercado de trabalho do Brasil tenha vivenciado uma situação de pleno emprego

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(Imagem: Romerito Pontes)

 

Texto: Daniel Patini

Números recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que existem mais de 13.1 milhões de brasileiros desempregados. Com isso, a taxa de desocupação alcançou a marca de 12,4% no trimestre encerrado em fevereiro de 2019. Lendo esses dados, é improvável de imaginar que até pouco tempo atrás a economia do país vivenciava, supostamente, o que os especialistas chamam de uma situação de pleno emprego.

“O conceito teórico de pleno emprego pode ser entendido como um contexto no qual, considerando um determinado período de tempo, toda a população que se encontra apta e com o desejo de trabalhar encontra um posto de trabalho disponível, em razão da continuada expansão do nível de demanda efetiva”, explica o pesquisador André Corrêa Barros. "Dessa maneira, não existe desperdício dos fatores de produção disponíveis e a economia opera, então, em seu nível máximo de capacidade, o que, potencialmente, tenderia a proporcionar uma melhora nas condições de vida da população", continua.

Barros analisou o mercado de trabalho brasileiro recente e as condições de aproximação ao pleno emprego em sua dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Economia e Desenvolvimento da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) - Campus Osasco, orientada por Marcelo Soares de Carvalho. O objetivo do estudo foi contextualizar a experiência de crescimento da economia brasileira durante os anos de 2002 a 2015, bem como caracterizar os postos de trabalho gerados nesse período.

"Recentemente, a nossa economia passou por um período de crescimento atrelado a melhorias no mercado de trabalho, fato jamais ocorrido anteriormente. Essa condição inédita fez com que se instalasse uma acirrada discussão acerca da existência ou não de uma situação de pleno emprego no Brasil, principalmente pelas taxas historicamente baixas de desemprego registradas no período, que chegou a apenas 4,3% durante 2014", exemplica.

Não foi dessa vez...

De acordo com os resultados obtidos pelo trabalho, o pleno emprego brasileiro mostrou-se extremamente frágil, sendo essa condição descartada completamente. Após esse período analisado, como destaca o pesquisador, o mercado de trabalho registrou uma rápida inversão desses bons resultados, com sucessivas quedas na criação de empregos.

Uma característica que contribuiu para isso, segundo Barros, é o desemprego estrutural existente no país, resultante do próprio processo de sua formação histórica, marcada pelo escravismo, pela imigração europeia durante a transição para o trabalho assalariado, pela ineficiência da regulação pública no que diz respeito ao mercado de trabalho e também pela rápida transição populacional entre o campo e a cidade no período da industrialização brasileira.

"Após décadas marcadas por uma estagnação econômica seguidas pela desregulamentação e abertura econômica indiscriminada, o Brasil experimentou um ciclo de crescimento vigoroso, com o aumento do emprego e do rendimento real do trabalho. Assim, foi possível observar importantes mudanças quanto à inclusão social da população mais vulnerável e na recomposição dos quadros da gestão pública e de setores da proteção social, contribuindo efetivamente para uma melhora no que tange ao mercado de trabalho".

Porém, ele destaca que essa melhora observada fora alcançada sem a adoção de um novo e efetivo plano de desenvolvimento econômico, não estando atrelada a uma reversão estrutural. Dessa forma, houve uma forte geração de postos de trabalho no setor terciário – comércio e prestação de serviços –, os quais requerem pouca qualificação e resultam em baixa produtividade e remuneração, ao contrário da mão de obra absorvida pela indústria e em segmentos correlatos. Ademais, para o pesquisador, o menor crescimento da população economicamente ativa (PEA) estaria relacionado a esse perfil precário de absorção de mão de obra, o qual, por ser muito pouco atrativo para os trabalhadores, favoreceu a redução da população disposta a trabalhar, influenciando para baixo as taxas de desocupação.

"Sem dizer que boa parte do potencial de adensamento do mercado interno via expansão do consumo das famílias foi canalizado para as importações, em detrimento da produção interna", aponta Barros. "Além disso, para a existência de pleno emprego em economias subdesenvolvidas, como é o caso do Brasil, somente a elevação do nível de demanda efetiva não se mostra suficiente; é necessário também expandir o volume de investimento, a fim de absorver todo o contingente de trabalhadores existente, o chamado desemprego estrutural".

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André Corrêa Barros (à esquerda) e o orientador do trabalho, Marcelo Soares de Carvalho (à direita)

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Remuneração

Para Barros, é possível dizer que os anos 2000 foram marcados por um elevado grau de formalização das relações do trabalho no Brasil, período no qual a taxa da população ocupada com carteira assinada passou de 46,2% em 2002 para 54% em 2015 – atingindo 55,3% em 2014 –, refletindo na diminuição das taxas de ocupações sem carteira assinada, variando de 21% em 2002 para 13,3% em 2015.

Como consequência disso, o rendimento médio das pessoas ocupadas cresceu, aproximadamente, 16,2% entre os anos de 2002 a 2015, passando de um valor de R$ 1.973 para R$ 2.293. A maior variação ficou por conta da remuneração do setor público, que avançou 33,7% (passando de R$ 2.773 em 2002 para R$ 3.707 em 2015), seguido pelos trabalhadores sem carteira assinada, com variação de 29% (de R$ 1.228 para R$ 1.585), trabalhadores por conta própria, que cresceu 20,8% (de R$ 1.651 para R$ 1.993), e, com menor nível de crescimento, os ocupados com carteira de trabalho assinada, que passou de R$ 1.872 em 2002 para R$ 2.091 em 2015, variação de 11,7%.

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(Imagem: Romerito Pontes)

 

A economia em números

Conforme os dados apresentados pelo estudo, a configuração do emprego formal brasileiro passou por uma considerável transformação entre os anos de 2002 e 2014, com destaque para os aumentos da participação relativa do setor de serviços (de 32% para 34,9%), do comércio (de 16,8% para 19,6%) e da construção civil (de 3,9% para 5,7%). Contrariamente, houve diminuições relativas da administração pública (de 23,7% para 18,9%) e na indústria de transformação (de 18,2% para 16,5%).

Em 2004, a taxa de desemprego medida pelo IBGE, por meio da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), realizada em seis regiões metropolitanas, apontou um valor de 9,7%, ficando abaixo da registrada nos anos 2002 e 2003. Em 2005, em um cenário de menor crescimento econômico, a taxa subiu para 10,2%. Foi somente a partir de 2006 que o número de desocupados começou um ciclo de queda mais intenso, atingindo uma marca historicamente baixa de 4,3% em dezembro de 2014.

Ainda de acordo com a PME, o nível de ocupação, isto é, a proporção de pessoas efetivamente ocupadas em relação à população em idade ativa (PIA) passou de 49,5% em dezembro de 2002 para 51,3% em dezembro de 2015, enquanto que o nível de ocupação em relação à população economicamente ativa passou de 89,5% em dezembro de 2002 para 93,1% em dezembro de 2015.

De maneira geral, segundo informações disponibilizadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o número de trabalhadores formais no mercado de trabalho brasileiro cresceu aproximadamente 72,8% entre 2002 e 2014, o que equivale a uma média de pouco mais de 6% ao ano. Mais precisamente no período de 2011 a 2014, ainda que o Produto Interno Bruto (PIB) demonstrasse sinais de desaceleração, o mercado de trabalho formal cresceu 7,1% anualmente.

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Dissertação relacionada:
BARROS, André Corrêa. Mercado de trabalho brasileiro recente: uma análise das condições da aproximação ao “pleno emprego”. 2018. 105 f. Dissertação (Mestrado em Economia) – Escola Paulista de Política, Economia e Negócios, Universidade Federal de São Paulo, Osasco.

 
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Redução do tempo médio de viagens de coletivos e maior disciplina no trânsito afetam positivamente a vida dos paulistanos

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Texto: Daniel Patini

Dados comprovam os benefícios que as faixas exclusivas de ônibus trazem para o cotidiano dos passageiros que utilizam esse meio de transporte: em 2014, a duração das viagens foi reduzida em até 40 minutos por dia, segundo avaliação da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Mas qual é o impacto gerado pelas faixas sobre os veículos que trafegam fora delas? Em busca de resposta, o pesquisador Rafael Martins de Oliveira analisou a efetividade dessa política de mobilidade urbana em uma amostra de vias da cidade de São Paulo, com base nas medições de velocidade média fornecidas pela CET e pela São Paulo Transporte S. A. (SPTrans), disponíveis no Portal da Transparência.

O estudo em questão, elaborado sob a orientação de Eduardo Luiz Machado e coorientação de Diogo de Prince Mendonça, ambos docentes da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) - Campus Osasco, foi apresentado como dissertação de mestrado ao programa de pós-graduação em Economia e Desenvolvimento. Nele foram analisadas 139 vias importantes, 44,6% das quais possuem faixas exclusivas, implantadas entre 2010 e 2015, período em que foram inauguradas aproximadamente 446 km desses espaços demarcados para ônibus.

Parte dos resultados apontou que, nas vias onde foram instaladas faixas exclusivas, a velocidade média dos veículos que trafegavam fora delas variou entre 0% e +4,55%. Ou seja, a faixa exclusiva de ônibus, no máximo, aumentou a velocidade média dos demais veículos e, no mínimo, não a afetou.

O estudo também mostrou que os efeitos produzidos não foram homogêneos, variando entre 0% e +15,0%, em função do modo como a faixa foi utilizada em relação a seu horário de funcionamento e de acordo com a região da cidade na qual ela se situava – norte, sul, leste, oeste e centro. A zona oeste foi o local onde as faixas apresentaram os maiores resultados positivos, com o aumento da velocidade média entre 11,2% e 14,6%; na zona leste verificou-se um aumento de 7,96% e na zona central, de 8,9%.

Quanto ao tempo de deslocamento, os efeitos foram maiores para os usuários que trafegavam nas vias com faixas exclusivas e naquelas com faixas que funcionavam durante a manhã, ambas na zona oeste, observando-se – em cada caso – a redução de 9,6% e 10,3%, respectivamente.

"Esses resultados são extremamente interessantes para o gestor público, pois ressaltam a heterogeneidade na eficácia da política, mostrando que não apenas o modo de funcionamento da faixa altera seu resultado, mas também a região onde está localizada. Constatamos que o horário da faixa parece afetar sua eficiência: assim, as faixas que funcionavam em períodos mais focalizados (manhã, tarde e manhã/ tarde), justamente os momentos de maior congestionamento, apresentaram um efeito maior sobre os outros veículos que trafegavam na via do que as faixas que operavam em períodos mais longos do dia (período crítico) e que abrangiam tanto o horário de pico como os momentos em que o trânsito era menos intenso na via", explica Oliveira, ao citar outros resultados importantes das análises.

Por fim, o autor ressalta que o estudo também indicou que a avaliação da política pública de incremento das faixas exclusivas deve ser feita em conjunto com outras ações públicas que impactam a mobilidade urbana, como – por exemplo – a redução de velocidade, uma vez que nas vias onde ocorreram a implantação das faixas e a redução da velocidade máxima permitida observou-se a alteração da velocidade média dos veículos.

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Metodologia

Na pesquisa, foi empregado o método de diferença-em-diferenças (DD), um instrumento de avaliação não experimental que mensura os impactos gerados pela política de faixas exclusivas de ônibus. 

"Devido à adoção desse modelo, foi necessária a definição do grupo de controle e do grupo de tratados: considerou-se como grupo de controle as vias em que não foram implantadas faixas exclusivas durante os anos de 2010 a 2015; já o grupo de tratados correspondeu às vias com faixas exclusivas no momento da medição – ou seja, uma via tornou-se tratada a partir do momento em que recebeu uma faixa exclusiva", esclarece o pesquisador.

 

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O pesquisador Rafael Martins de Oliveira e o orientador Eduardo Luiz Machado (dupla ao centro), durante apresentação do trabalho dissertativo

Corredores e faixas exclusivas de ônibus em São Paulo (2017)

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Cidade sobre rodas

Segundo dados da Pesquisa de Mobilidade Urbana de 2012, realizada pelo Metrô de São Paulo, o sistema de transporte da cidade de São Paulo atende aproximadamente a 25,3 milhões de passageiros por dia, os quais utilizam transporte motorizado para se deslocarem. Em mais da metade dessas viagens, os usuários utilizam o próprio automóvel (28,3%) ou ônibus coletivo (21,5%) – meios de transporte potencialmente afetados pelas faixas exclusivas de ônibus.

"Outro ponto importante que a pesquisa ressalta é o fato de o tempo de deslocamento dos usuários de ônibus ser mais que o dobro do tempo gasto pelos usuários de automóvel. A política de faixas exclusivas de ônibus visa justamente reduzir a disparidade entre o tempo médio dos que utilizam o transporte público e o privado”, justifica Oliveira.

Estratégia começou a ser adotada nos anos 1970

As faixas exclusivas para ônibus, uma das políticas adotadas para amenizar os problemas de mobilidade nas grandes cidades brasileiras, começaram a ser implantadas na cidade de São Paulo na década de 1970, de acordo com o pesquisador Rafael Martins de Oliveira. Baseando-se em dados da CET, o estudo lembra que a primeira faixa exclusiva de ônibus foi criada na avenida Celso Garcia.

Já o primeiro corredor, outra medida para facilitar o tráfego de ônibus nas vias da cidade, foi instalado em 1980, na avenida Paes de Barros. Enquanto os corredores de ônibus foram construídos paulatinamente, de tal modo que em 2015 existiam 18 corredores (95,9 km), as faixas exclusivas só ganharam importância a partir de 2013, ano em que foi demarcada a maior extensão em quilômetros (375,2 km) de faixas desde o início dessa política no município de São Paulo.

Oliveira salienta que existem diferenças consideráveis entre os corredores e as faixas exclusivas de ônibus: enquanto a implantação dos corredores exige obras de readequação das vias, com a construção de faixa própria para o tráfego e a adaptação dos pontos de parada, as faixas exclusivas são instaladas a partir da remarcação do asfalto, destacando o perímetro que será destinado ao tráfego dos ônibus (usualmente, a faixa à direita da via).

  • Década de 1970 - Início da implantação das faixas exclusivas
  • 1972 - Inauguração do primeiro trecho do metrô de São Paulo
  • 1980 - Inauguração do primeiro corredor de ônibus
  • 2012 - Aprovação do Plano Nacional de Mobilidade Urbana
  • 2013 - Inauguração de 370 km de faixas exclusivas
  • 09/2014 - Liberação do tráfego de táxis com passageiro em todas as faixas
  • 2016 - Proibição do tráfego de ônibus fretados em corredores e faixas exclusivas

Dissertação relacionada:
OLIVEIRA, Rafael Martins. Impactos da adoção de faixas exclusivas de ônibus: uma análise do caso de São Paulo. 2018. 81 f. Dissertação (Mestrado em Economia e Desenvolvimento) - Escola Paulista de Política, Economia e Negócios, Universidade Federal de São Paulo, Osasco.

 
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Quinta, 27 Junho 2019 15:22

E o rico cada vez fica mais rico...

A transmissão de bens é um mecanismo de reprodução das desigualdades de renda e riqueza entre gerações de brasileiros, mostra dissertação apresentada no Campus Osasco

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Texto: Daniel Patini

A distribuição de heranças no Brasil é altamente desigual e ainda mais acentuada que a concentração de renda. Essa conclusão está na dissertação de mestrado de Samir Luna de Almeida, apresentada ao programa de pós-graduação em Economia e Desenvolvimento do Departamento de Economia da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) - Campus Osasco. Orientado pela docente Luciana Rosa de Souza, o trabalho mensurou, pela primeira vez, a distribuição das heranças no país, usando as informações da Receita Federal, contidas nas declarações de imposto de renda das pessoas físicas e conhecidas como grandes números.

No ano-calendário de 2016, período utilizado como base pelo pesquisador, dos 206.081.432 brasileiros, 28.003.647 declararam imposto de renda; desse total de contribuintes, 335.036 declararam ter recebido herança ou doação. Isto é, naquele ano, os herdeiros corresponderam a apenas 0,2% da população brasileira e a 1,2% dos declarantes. Os valores herdados representaram 3,3% das rendas totais e a 11% dos rendimentos isentos. 

"No Brasil, embora a tributação sobre heranças seja estadual e não haja taxação em nível federal, os declarantes do imposto de renda também precisam informar à Receita Federal ganhos patrimoniais recebidos na forma de doação ou herança, que são considerados isentos de impostos. Em termos de valor, essas transferências constituem a segunda maior categoria de renda que compõe os rendimentos isentos", esclarece Almeida. 

E os valores extraídos dessas declarações são bastante significativos: os 10% contemplados com as maiores transferências em 2016 receberam, em média, uma herança ou doação de R$ 1.739.831,26 e, no mínimo, de R$ 543.613,09. Os 5% que concentraram as maiores quantias receberam, em média, R$ 2.995.438,93 e R$ 1.049.752,41, no mínimo. O percentual de 1% – que se enquadra nas mesmas condições – recebeu, em média, R$ 10.203.411,39 e R$ 4.198.667,49, no mínimo. Por fim, no topo, a parcela de 0,1% recebeu, em média, R$ 39.928.748,45 e, no mínimo, R$ 17.022.727,95. 

Outra conclusão importante mostrou uma desigual distribuição relativa e um alto grau de concentração das transferências: os 10% que se apropriaram dos maiores valores receberam 68,8% do total de doações e heranças; os 5% situados no topo ficaram com 59%; o percentual de 1%, com 39,6%; e a parcela de 0,1%, com 15,9%. Esses números reforçam o que já se previa teoricamente: a desigualdade na distribuição de heranças é mais acentuada que a de renda.

"Apesar de o estudo não tratar da mensuração da desigualdade de renda, obteve-se um resultado esperado, tanto do ponto de vista teórico quanto do ponto de vista empírico, a partir do que se conhece sobre outros países ao redor do mundo: o patrimônio tende a ser mais concentrado do que a renda. Mas foi a primeira vez em que isso foi medido no Brasil", reforça o autor.

Riqueza gerando mais riqueza

Como lembra Almeida, as heranças e doações representam riquezas distribuídas ao longo de gerações, que podem ser adicionadas às riquezas acumuladas por uma pessoa ou podem ser reinvestidas, resultando em uma fortuna ainda maior. E a possibilidade de reinvestir as heranças, gerando novos rendimentos, foi outro aspecto abordado pelo estudo. 

Para calcular esse ganho, o pesquisador simulou por quanto as heranças recebidas poderiam multiplicar-se, supondo que fossem reaplicadas com rendimento no valor da taxa Selic de dezembro de 2016 (13,75% ao ano), descontada a inflação acumulada desse mesmo ano, que ficou em 6,58%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do IBGE. Dessa forma, chegou-se a um rendimento anual de 7,17%. 

Nessa simulação, foram estimados rendimentos ao longo de 25 anos. Ou seja, alguém recebe uma herança aos 50 anos, com expectativa de vida de 75 anos; durante esse tempo, o valor herdado terá rendimento à taxa de 7,17% ao ano. Como resultado tem-se que a herança recebida em 2016 será 5,65 vezes maior em 2041.

Valores médios de heranças ou doações recebidas em 2016

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Mais transparência

Utilizada no estudo, a publicação dos grandes números para o ano-calendário de 2016 foi a que reuniu, até o momento, as informações mais amplas sobre as rendas com maior desagregação, sobre as categorias de gênero e faixa etária dos contribuintes e sobre os valores declarados de doações e heranças, conforme diversos modos de ordenação e organização. "Com esse tipo de dado foi possível avançar bastante na mensuração da transmissão de heranças no Brasil", afirma o pesquisador.

Tributação federal 

E de que forma a tributação de heranças em nível federal contribuiria para a menor concentração de renda? Almeida explica que há um relativo consenso entre estudiosos das desigualdades de que, de modo geral, taxa-se pouco o patrimônio no Brasil e muito o consumo e a produção. "A tributação sobre heranças em nível federal poderia ajudar a tornar o sistema tributário brasileiro menos injusto e até, talvez, contribuir para tornar possível a diminuição de impostos indiretos." 

O autor acredita que esse debate é bastante bem-vindo, mas é preciso elaborar propostas concretas, inclusive para torná-las politicamente possíveis de executar. "Um melhor entendimento sobre o assunto poderia, portanto, subsidiar a implementação ou alteração de políticas tributárias ou políticas públicas que afetam o acúmulo e a distribuição de patrimônio", complementa.

Embora o estudo tenha trazido importantes contribuições para a melhor compreensão acerca da transmissão de heranças e doações, Almeida ressalta que ainda resta muito por fazer quando o assunto recai sobre heranças. Afinal, ele questiona, quão subestimados estão os dados da Receita Federal se forem comparados com os dados dos inventários e cartórios? Quais são os componentes das heranças: imóveis urbanos, terras? Qual o impacto dos impostos estaduais sobre as heranças?

"Apesar de essas perguntas ainda necessitarem de respostas, o presente trabalho avança no entendimento sobre a desigualdade na distribuição das heranças, bem como nas questões empíricas implicadas no uso dos grandes números da Receita Federal", conclui.

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Samir Luna de Almeida e a orientadora do trabalho, Luciana Rosa de Souza

 

Falta de dados dificulta elaboração de políticas contra a desigualdade

Uma dificuldade muito comum nos estudos tributários, também detectada por Samir Luna de Almeida, foi a indisponibilidade de microdados. "Como não houve acesso a estes, efetuamos uma série de operações matemáticas – como interpolações – com as tabelas disponibilizadas para poder extrair delas alguma informação mais elaborada. Ainda assim, foi necessária muita parcimônia na hora de tirar conclusões." 

Outros empecilhos estavam relacionados aos dados divulgados pela Receita Federal, os quais se revelaram "engessados", embora melhores quando comparados aos de alguns anos atrás, de acordo com o pesquisador. 

A desigualdade – para ele – é um tema urgente, que se apresenta como um fenômeno multifacetado. Torna-se, pois, necessário estudá-lo e discuti-lo em seus aspectos moral, teórico e empírico. "Para tanto, precisamos reforçar o acesso aos dados, especialmente os tributários, e ampliar os recursos destinados ao estudo do assunto", alerta.

Almeida considera, ainda, que as heranças equiparam-se a outros bens patrimoniais declarados no imposto de renda, no tocante à definição de preço, que costuma ocorrer apenas em momentos de compra e venda. Os valores são, em geral, atualizados conforme o valor nominal, e não de mercado; e no ato da transferência por doação ou herança, o incentivo à declaração pelo preço nominal é mantido.

"Neste trabalho, ao tratar de doações e heranças com base no imposto de renda, foi possível fazer uma abordagem nacional; porém, a restrição temporal ainda é grande. E, além disso, os dados da Receita Federal tendem à subestimação dos valores reais, diferentemente do que consta em documentos de cartório ou em testamentos", assegura.

Dissertação relacionada:
ALMEIDA, Samir Luna de. Distribuição de heranças no Brasil: o que dizem os dados da Receita Federal. 2018. 46 f. Dissertação (Mestrado em Economia e Desenvolvimento) - Escola Paulista de Política, Economia e Negócios, Universidade Federal de São Paulo, Osasco.

 
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Desde sua implantação, foram desenvolvidos 72 projetos de iniciação científica, 48 deles por meio do Pibic/CNPq e 24 com o apoio do programa Jovens Talentos para a Ciência da Capes

Entreteses11 p104 Osasco

 

Em funcionamento desde 2011, a Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) - Campus Osasco oferece, atualmente, cinco cursos de graduação: Administração, Ciências Atuariais, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas e Relações Internacionais. Criado com o objetivo de proporcionar formação profissional múltipla e diversificada, o campus visa à inserção proativa do estudante na sociedade brasileira.

Estão matriculados na Eppen/Unifesp 1.809 estudantes de graduação nas turmas de período integral e noturno. Seu projeto pedagógico inovador inclui uma área interdisciplinar e multiprofissional, denominada eixo comum, que contribui para a formação cidadã e profissional de seus estudantes, buscando a interação entre as áreas constitutivas da escola e promovendo a troca de experiências intelectuais, pessoais, sociais e profissionais.

São quatro os eixos comuns que compõem o Projeto Pedagógico da Graduação do campus: Compreensão da Realidade Brasileira e Relações Internacionais, Formação Humanística (FH), Formação Científica e Desenvolvimento de Pesquisa (FC) e Célula de Negócios (CN).

Já os eixos específicos são compostos pelas disciplinas relativas a cada curso de graduação. Para ampliar a possibilidade de formação interdisciplinar, muitas das disciplinas dos eixos específicos podem ser frequentadas como disciplinas eletivas por estudantes de outros cursos da Eppen/Unifesp.

Ela abriga também dois programas de pós-graduação, modalidade stricto sensu: o Mestrado Profissional em Gestão de Políticas e Organizações Públicas e o Mestrado Acadêmico em Economia e Desenvolvimento. Na modalidade a distância, oferece ainda dois programas de pós-graduação lato sensu (especialização), por meio da Universidade Aberta do Brasil: Gestão Pública e Gestão Pública Municipal.

Formado por 106 profissionais, o corpo docente da Eppen/Unifesp – em sua maioria – possui titulação de doutorado e obedece ao regime de dedicação exclusiva. O campus conta ainda com 53 técnicos administrativos em educação.

Desde sua implantação, foram desenvolvidos 72 projetos de iniciação científica, 48 deles por meio do Pibic-CNPq e 24 com o apoio do programa Jovens Talentos para a Ciência, da Capes. Ciente de seu papel na vida pública do país, atualmente são mantidos dez projetos de extensão, com o objetivo de manter um estreito relacionamento com a comunidade local, regional e nacional.

Pós-graduação em números:

2 programas de pós-graduação
2 cursos de pós-graduação
1 cursos de mestrado acadêmico
1 curso de mestrado profissional
29 estudantes de mestrado acadêmico
31 estudantes de mestrado profissional
37 docentes/orientadores credenciados
88 estudantes titulados até 2018


Dados extraídos do Sistemas Integrado de Informações Universitárias (SIIU) em 28/3/2019

 
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Estudo elucida pontos ainda desconhecidos sobre sistema imunológico de bactérias termofílicas (adaptadas a altas temperaturas)

Texto: Valquíria Carnaúba

Guarde esses termos: terapia genética e edição de genoma. A tecnologia baseada na introdução de genes sadios em células “doentes” com o uso de técnicas de DNA recombinante, apesar de estudada desde a década de 1970, ganhou protagonismo na ciência contemporânea após a conclusão do projeto Genoma Humano, em 2003. As manchetes à época anunciavam novas possibilidades para aqueles que sofrem com males causados por desordens genéticas. Após 16 anos, os estudos avançam na área. Cientistas ao redor do mundo têm se debruçado sobre tecnologias de edição genética, como a Crispr-Cas (pronunciada simplesmente “crisper”), que permite ativar ou desativar genes de interesse em organismos vivos por meio de “tesouras moleculares” - como certas nucleases, proteínas que podem quebrar ligações entre os nucleotídeos (os blocos construtores dos ácidos nucleicos DNA e RNA). 

Essas proteínas são hoje classificadas em três grandes grupos (tipos) de acordo com sua capacidade de cortar fitas de DNA em pontos específicos e ativar vias de reparo para “consertá-la”. Um deles possui como representante a, agora famosa, nuclease Cas9, que forma o sistema Crispr-Cas9 quando associado a um RNA guia, que direciona esse sistema para a região do DNA que será editada. 

Porém, há outros tipos de sistemas Crispr-Cas competentes para a função de corte de genes, como o sistema Csm, objeto de artigo publicado por Martin Wurtele, docente no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) – Campus São José dos Campos. Dedicado a uma linha de pesquisa sobre Biologia Estrutural de proteínas de importância biomédica, Wurtele publicou em 2016, junto a Claudia Campos, Marcelo Mori e André Zelanis, também docentes da universidade, artigo sobre a formação de complexos Crispr-Csm em bactérias da espécie Thermotoga maritima, capazes de viver em altas temperaturas.

Crispr é a sigla para Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou seja, repetições palindrômicas curtas agrupadas e regularmente interespaçadas. Essas repetições correspondem a regiões do DNA bacteriano onde se encontram sequências que contêm instruções para produzir moléculas de RNA não codificantes para proteínas que são capazes de reconhecer moléculas de DNA de bacteriófagos (um tipo de vírus) que as infectam. Normalmente, após o contato dessas bactérias com seus invasores naturais, os RNAs produzidos guiam as nucleases do sistema Crispr para o DNA (ou também para o RNA) do bacteriófago invasor para cortá-lo e inutilizá-lo, e, assim, bloquear a infecção.

O acionamento dessas áreas no genoma bacteriano funciona como um mecanismo de defesa contra infecções, neutralizando a reprodução do material genético viral por um processo denominado RNA de interferência. Da mesma forma, quando pegamos uma gripe, os vírus presentes no corpo também introduzem seu material genético em nossas células. No entanto, a cura, nesse caso, ocorre não pela presença de um sistema Crispr, que é exclusivo de bactérias, mas graças a um verdadeiro exército de células do sistema imunológico, que combate a maior parte dos vírus que encontra.

O pesquisador parte de referências que já demostraram como a proteína Cas9 defende bactérias durante invasões virais. A bactéria infectada produz a nuclease Cas9 associada a moléculas de RNA guia. Caso o material genético do invasor (DNA ou RNA) possua sequência idêntica ao RNA da “memória”, esse material genético será picotado e neutralizado. Mais precisamente, somente quando a Cas9 se associa a uma estrutura formada por dois tipos de RNA, o Crispr RNA (crRNA) e o RNA de transcrição (tracrRNA), esse processo ocorre com sucesso. Assim, quando os componentes de RNA reconhecem o DNA alvo do vírus, permitem que a nuclease Cas9 destrua o material genético dos inimigos.

Já a defesa exercida pelo sistema Csm, segundo o estudo, ocorre de maneira distinta. Essa proteína associa-se a um complexo ribonucleoproteínas do sistema Crispr (CrRNP), formando o sistema Csm-crRNP para efetuar o corte de genes invasores. Wurtele explica que a análise do arranjo proteína-RNA do Csm-crRNP envolve etapas de purificação, cristalização e determinação das proteínas que formam o complexo Csm da Thermotoga maritima.

“Comparamos características estruturais de uma proteína denominada Csm2 com diversos métodos de análise, como, por exemplo, simulação por dinâmica molecular com objetivo de adquirir mais conhecimento sobre como obter proteínas resistentes a altas temperaturas”, explica. Suas observações indicaram que o Csm forma uma estrutura dimérica em cristais e in vitro, ocorrendo muito provavelmente o mesmo in vivo. “Esses dímeros passam a ser considerados importantes também para o entendimento das semelhanças e diferenças entre os diversos sistemas Crispr-Cas”, comemora o pesquisador.

Wurtele define a descoberta como um grande exemplo de como a pesquisa básica pode beneficiar a pesquisa aplicada. “Tanto o estudo do sistema Crispr-Cas como o de proteínas resistentes a altas temperaturas são temas importantes e atuais na política científica de demanda por aplicabilidade. No caso do estudo de enzimas resistentes a altas temperaturas, abre-se caminho para aplicações industriais interessantes, como a degradação de biomassa para fins de obtenção de biocombustíveis. São exemplos de como uma estratégia acadêmica que promove pesquisa básica pode fomentar aplicações industriais muito relevantes mesmo que não necessariamente grupos de pesquisa acadêmica tenham os recursos e o tempo necessários para o desenvolvimento de um produto final comercial. Muito importante ter em mente que desenvolvimento de produtos exige, muitas vezes, um compromisso de investimento elevado demais para institutos acadêmicos”, finaliza.

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O docente Martin Wurtele (ICT/Unifesp) junto à doutoranda Camila Coelho,  do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia, verificaram que a proteína Csm2 forma estruturas diméricas (um caso especial de polímero), constatação de grande importância para entender o sistema de defesa da Thermotoga marítima

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Thermotoga maritima

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O que é?

Uma espécie de bactéria do filo dos Termotogas (Thermotogae), organismos caracterizados por dois principais aspectos: sobrevivem em temperaturas extremamente altas (acima de 60°C, de onde vem o prefixo termo, do grego therme, que significa calor) e formam um envelope semelhante a uma bainha (daí vem toga que também compõe seu nome).

Onde vive? 

Foi descoberta em 1986, na Ilha Vulcano (Itália), por dois pesquisadores da Universidade de Ratisbona (Alemanha), Karl Stetter e Robert Huber. A Thermotoga maritima vive em nascentes termais e chaminés hidrotermais.

Do que se alimenta? 

A Thermotoga maritima é um bacilo anaeróbico: o oxigênio é tóxico para ela. Alimenta-se por meio de fermentação: metaboliza carbohidratos, ou seja, açúcares e polímeros, e produz dióxido de carbono e gás hidrogênio como subprodutos da fermentação. Pode também metabolizar a celulose e o xilano, rendendo H2 (hidrogênio). Adicionalmente, esta espécie de bactéria pode reduzir íons de Ferro (Fe), para produzir energia, utilizando a respiração anaeróbica.

Como se reproduz? 

As bactérias se reproduzem assexuadamente por bipartição (processo em que uma célula se divide em duas). Ocorre a duplicação do DNA bacteriano e uma posterior divisão em duas células.

Para que serve?

Martin Wurtele, docente no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) – Campus São José dos Campos, assim como pesquisadores no mundo todo, vêm estudando proteínas oriundas da Thermotoga maritima. Seus mecanismos de defesa podem inspirar a produção de novos tipos de antibióticos.

Artigos relacionados:

GALLO, G.; AUGUSTO, G.; RANGEL, G.; ZELANIS, A.; MORI, M. A.; CAMPOS, C. B.; WÜRTELE, M. Structural basis for dimer formation of the CRISPR-associated protein Csm2 of Thermotoga maritima. FEBS Journal, v. 283, p. 694-703, fev. 2016. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26663887 >. Acesso em: 22 abr. 2019.

GALLO, G.; AUGUSTO, G.; RANGEL, G.; ZELANIS, A.; MORI, M. A.; CAMPOS, C. B.; WÜRTELE, M. Purification, crystallization, crystallographic analysis and phasing of the CRISPR-associated protein Csm2 from Thermotoga maritima. Acta Crystallographca Section F Structural Biology Communications, v. 71, n. 10, p. 1223-1227, out. 2015. Disponível em: <https://doi.org/10.1107/S2053230X15014776 >. Acesso em: 22 abr. 2019.

 
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Quinta, 27 Junho 2019 14:29

Genética digital

Pesquisa pioneira aposta na capacidade evolutiva de algoritmos para criar uma solução inédita em classificação de dados: o algoritmo evolucionário hiper-heurístico HEAD-DT

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Texto: Valquíria Carnaúba

Qual seria a melhor e mais simples forma de resolver problemas de classificação de dados, como no caso de serviços bancários, controle de entrada e saída de pessoas e diagnósticos médicos? Existem diversos métodos, como as funções matemáticas e as redes neurais (sistemas computacionais inspirados no sistema nervoso central). E existem as árvores de decisão, aplicações baseadas no fornecimento de dados a computadores específicos, de modo a permitir que aprendam por si mesmos. Seu pleno funcionamento apoia-se nos algoritmos, sequências de instruções executáveis que oferecem soluções a determinados problemas. Cada árvore de decisão, por sua vez, opera a partir de um nó interno com perguntas-chave, cujas respostas levam a outras perguntas mais específicas, gerando por fim nós terminais – conjuntos de dados convertidos em informações. A sequência completa de comandos é, então, incluída em um nó folha (rótulo), como é chamado o resultado de cada operação (vide infográfico).

As árvores de decisão são amplamente utilizadas no aprendizado de máquina (machine learning), método de análise de dados que automatiza a construção de modelos analíticos. Sua vantagem em relação a outras ferramentas está na facilidade de interpretação dos dados, conforme observa Márcio Porto Basgalupp, docente da disciplina de Ciência da Computação do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) - Campus São José dos Campos. Ele coordena o projeto Programação Genética para Evolução de Algoritmos de Indução de Árvores de Decisão, que faz parte do Programa de Apoio a Jovens Pesquisadores da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Baseado nas recentes descobertas da área, o pesquisador propôs o HEAD-DT, algoritmo evolucionário (que se aperfeiçoa sem a intervenção humana), hiper-heurístico, que gera automaticamente outros comandos, capazes de formar novas árvores de decisão. 

Heurística parece uma palavra estranha, mas o termo se aplica a diversos campos do conhecimento. O dicionário Michaelis, por exemplo, contém uma definição, relativa à Pedagogia, que dá pistas interessantes para entender seu conceito na Ciência da Computação: significa o método educacional que incentiva o estudante a buscar soluções diante de uma situação-problema, promovendo o aprendizado baseado na experiência pessoal. Quando falamos de máquinas, a heurística consistiria na aplicação de métodos de aprendizado automatizado. Logo, uma hiper-heurística reuniria, em um só sistema, várias heurísticas mais simples (diversas formas de solução para um mesmo problema), de modo a resolver os impasses da pesquisa computacional de forma eficiente.

O projeto de programação genética para evolução de algoritmos resultou do doutorado-sanduíche de Basgalupp na Universidade de Kent (Inglaterra), orientado por Alex Freitas, docente da referida instituição. A tese de doutorado, propriamente dita, foi inspirada em Charles Darwin, tendo sido orientada no Brasil por André Carlos Ponce de Leon Ferreira de Carvalho, docente da Universidade de São Paulo (USP). Basgalupp, na época, decidiu explorar a hiper-heurística evolutiva, uma etapa mais avançada que a heurística computacional. “O algoritmo HEAD-DT parte de operações tradicionais de indução de árvores de decisão – desenvolvidas manualmente por programadores. Conduzido por um algoritmo típico de busca evolutiva, combina os componentes mais adequados para o problema em questão. No final, espera-se que o algoritmo genérico fabrique, automaticamente, um novo comando para, então, obter uma nova árvore de decisão. Cada solução é uma gênese, e o conjunto de soluções passa a ser combinada para que outras melhores apareçam”, explica o docente. 

Aprendizado de máquina x inteligência artificial

Embora o machine learning e a forma como opera nos remetam facilmente à inteligência artificial (AI), ambas tratam de tecnologias distintas. Enquanto a AI envolve máquinas que podem realizar tarefas que são características da inteligência humana, o aprendizado de máquina seria uma ferramenta para alcançar a AI. Associar os dois termos é natural: afinal o desenvolvimento desses dois campos está diretamente ligado à revolução digital, que modifica – dia após dia – o modo como produzimos e lidamos com um volume crescente de dados (no formato de vídeos, fotos, posts em redes sociais e blogs, entre outros de uma extensa lista). 

As árvores de decisão tornaram-se cruciais para aperfeiçoar negócios em plataformas de e-commerce, por exemplo, facilitando transações, antecipando as necessidades de clientes e otimizando preços. Mas o que indica se um algoritmo é bom ou não? A resposta depende do refinamento dos atributos que compõem o algoritmo. Quanto maior a taxa de acerto, melhor o algoritmo. Os pesquisadores trabalham com comandos personalizados, criando diferentes softwares para determinados domínios de aplicação. “Tentamos encontrar qual o algoritmo mais específico para um dado problema. É mais simples encontrar uma solução específica do que uma geral”, complementa o autor.

O maior desafio encontrado durante o desenvolvimento do projeto – segundo Basgalupp – foi justamente seu caráter pioneiro. Houve vantagens óbvias no fato de ser novidade, mas os pesquisadores foram obrigados a enfrentar a ausência de trabalhos relacionados para serem usados como base. Verificou-se, inclusive, a dificuldade de entendimento por parte de pessoas que eram da mesma área. Para além do ônus, entretanto, o ineditismo trouxe o bônus: a pesquisa originou o artigo A Hyper-Heuristic Evolutionary Algorithm for Automatically Designing Decision-Tree Algorithms, premiado na conferência Genetic and Evolutionary Computation Conference (Gecco), sobre computação evolutiva, que se realizou na Filadélfia (EUA). O prêmio resultou em um convite para os pesquisadores submeterem uma versão ampliada do trabalho ao periódico Evolutionary Computation Journal.

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Dedicado à computação evolutiva, Márcio Basgalupp explica como o algoritmo HEAD-DT, proposto em seu estudo, pode facilitar tomadas de decisão para a geração automática de árvores de decisão

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Artigos relacionados:

BASGALUPP, Márcio P.; CARVALHO, André C. P. L. F. de; BARROS, Rodrigo C.; RUIZ, Duncan D.; FREITAS, A. A. Lexicographic multi-objective evolutionary induction of decision trees. International Journal of Bio-Inspired Computation, [s.l.], v. 1, n. 1/2, p. 105–117, 2009. Disponível em: <https://www.inderscience.com/info/inarticle.php?artid=22779 >. Acesso em: 12 abr. 2019.

BARROS, Rodrigo Coelho; BASGALUPP, Márcio Porto; CARVALHO, André C. P. L. F. de; FREITAS, Alex A. A survey of evolutionary algorithms for decision-tree induction. IEEE Transactions on Systems, Man, and Cybernetics - Part C: Applications and Reviews, [s.l.], v.42, n.3, p. 291-312, maio 2012. Disponível em: <https://ieeexplore.ieee.org/stamp/stamp.jsp?tp=&arnumber=5928432 >. Acesso em: 12 abr. 2019.

BARROS, Rodrigo Coelho; RUIZ, Duncan D.; BASGALUPP, Márcio Porto. Evolutionary model trees for handling continuous classes in machine learning. Information Sciences, [s.l.], v. 181, n. 5, p. 954–971, mar. 2011. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.ins.2010.11.010 >. Acesso em: 12 abr. 2019.

BARROS, Rodrigo C.; BASGALUPP, Márcio P.; CARVALHO, André C. P. L. F. de. Investigating fitness functions for a hyper-heuristic evolutionary algorithm in the context of balanced and imbalanced data classification. Genetic Programming and Evolvable Machines, [s.l.], v. 16, n. 3, p. 241-281, set. 2015. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007/s10710-014-9235-z >. Acesso em: 16 abr. 2019.

 
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Aplicação na Farmacologia de técnicas emprestadas da Engenharia de Materiais permite explicar e resolver a dificuldade de bioabsorção pelo corpo humano do ativo Efavirenz, utilizado no “coquetel” contra o HIV

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Texto: Valquíria Carnaúba

Em 2013, Silvia Lucia Cuffini recebeu lotes do medicamento genérico Efavirenz (EFV), cuja patente original pertence ao laboratório Merck Sharp & Dohme. O fármaco, administrado no tratamento antiviral de adultos, adolescentes e crianças infectados pelo vírus da imunodeficiência humana tipo I (HIV-1), é fornecido por duas instituições brasileiras que o produzem desde 2007: o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz) e o Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco Governador Miguel Arraes (Lafepe). Pesquisadora e professora adjunta do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) - Campus São José dos Campos, Cuffini percebeu que tinha em mãos um enigma a ser desvendado: dos seis lotes de EFV, aprovados em todos os controles farmacêuticos de rotina da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), um não havia passado no teste de bioequivalência, algo inexplicável de acordo com o conhecimento atual.

Bioequivalência, quando tratamos de medicamentos, significa a capacidade de um genérico exercer em um paciente o mesmo efeito que o original. Essa comprovação é fornecida por meio de testes in vitro e in vivo, cada um com suas particularidades. O estudo in vitro (literalmente, “em vidro”) envolve experiências realizadas fora de qualquer organismo vivo e permite acompanhar um processo bioquímico em ambiente "simplificado". Apesar de muito úteis, estudos in vitro são obviamente limitados, já que em um organismo vivo ocorrem inúmeros outros processos que podem interferir na ação de uma substância. Por isso, nenhuma conclusão pode ser extraída antes dos estudos in vivo (ou seja, realizados em organismos vivos). 

Nessa etapa, alguns lotes do EFV revelaram grande dificuldade de absorção pelo organismo humano, ao contrário do observado nos testes in vitro. “O corpo não espera, possui seu metabolismo, e o caminho natural dos itens que não são absorvidos a tempo é seu descarte pelo organismo”, explica a docente. O princípio ativo do EFV compõe o “coquetel” antiaids, fornecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 1996; integra um combinado de 21 medicamentos que atuam no combate ao HIV, impedindo que o vírus se reproduza e diminua a defesa do paciente. 

Nove desses medicamentos são produzidos no país, entre os quais o EFV, que desde 2007 é sintetizado pelo Farmanguinhos, após licenciamento compulsório autorizado pelo governo federal. Chamado também de “quebra de patente”, o licenciamento compulsório é um mecanismo acionado por órgãos governamentais em casos de interesse público, que autoriza um terceiro a explorar o objeto patenteado sem o consentimento prévio do detentor da patente. O caso do EFV é inédito no Brasil e na América Latina – uma conquista que contribuiu efetivamente para o barateamento do fármaco, que pôde ser produzido em território nacional. 

Quando tomou conhecimento dos fatos, Cuffini descartou fatores como pureza química, tamanho de partículas e polimorfismo (mesma composição e diferentes organizações atômicas). Como atua em Engenharia de Materiais – uma área aparentemente desconectada da Farmacologia –, observou que a microestrutura causa mudanças significativas nas propriedades físico-químicas de alguns materiais. “Essa poderia ser uma possibilidade já que é um ensaio comum na área de materiais metálicos e cerâmicos. Muitas partículas continham moléculas cuja estrutura cristalina lembrava a de cerâmicas, com elevada dureza, resistência a altas temperaturas e grande fragilidade. Pense em um tijolo de cerâmica e no pó que produz: qual deles dissolve mais rápido? Certamente, o pó”, argumenta. Tais discrepâncias moleculares – segundo ela – surgem ainda na síntese da matéria-prima do medicamento. 

Ainda que a baixa solubilidade seja um ponto crítico dos fármacos, a pesquisadora considera que a análise microestrutural permanece restrita à área de Engenharia de Materiais e é pouco praticada pela indústria farmacêutica. Nesse contexto, todos os lotes foram considerados seguros para consumo por não apresentarem, em tese, nenhum problema de fabricação. “Para confirmar minha dedução, tive de recorrer, inclusive, aos especialistas em estudo de microestruturas da Universidade de Trento (Itália) – Luca Rebuffi, Cristy Leonor Azanza Ricardo e Paolo Scardi –, que forneceram os equipamentos necessários para avaliar os lotes de EFV ‘suspeitos’ e que ensinaram como efetuar essa análise.”

Para a docente, a ausência de bioequivalência significa, sobretudo, um risco à vida da população que depende do referido medicamento. Entretanto, a melhora nos controles pode assegurar a reprodutibilidade em sua qualidade. O estudo, realizado em parceria com pesquisadores de várias instituições, rendeu importantes premiações no 9° Encontro Nacional de Inovação em Fármacos e Medicamentos (ENIFarMed/ 2015) e no 3rd International Symposium on Challenges and New Technologies in Drug Discovery & Pharmaceutical Production (Farmanguinhos - Fiocruz/ 2015), além do 1º lugar no Prêmio de Incentivo em Ciência, Tecnologia e Inovação para o SUS/ Categoria - tese de doutorado (Ministério da Saúde/2017).

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Descobrir como a estrutura cristalina de moléculas afeta a solubilidade e o efeito do Efavirenz em pacientes acometidos pela aids rendeu às pesquisadoras Silvia Cuffini (à esq.) e Cinira Fandaruff (à dir.), pertencentes – nessa ordem – à Unifesp e à UFSC, o 1º lugar no Prêmio de Incentivo em Ciência, Tecnologia e Inovação para o SUS (2017), na categoria de tese de doutorado

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Representação da estrutura da molécula de Efavirenz (Imagem: Fvasconcellos / Wikimedia commons)

Caracterização microestrutural

Cuffini apostou em duas formas de caracterização, bastante utilizadas na ciência de materiais, a estrutural e a microestrutural, juntamente com os pesquisadores que colaboraram no estudo: Cinira Fandaruff e Marcos Antônio Segatto Silva, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Danilo Cesar Galindo Bedor e Davi Pereira de Santana, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Helvécio Vinícius Antunes Rocha, do Laboratório de Sistemas Farmacêuticos Avançados do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/ Fiocruz); Luca Rebuffi, Cristy Leonor Azanza Ricardo e Paolo Scardi, da Universidade de Trento (Itália).

Para a análise estrutural, valeram-se de diversas técnicas de foco nas dimensões moleculares, a saber: difração de raios X em pó (XRPD), calorimetria exploratória diferencial (XRPD) e espectroscopia no infravermelho (FTIR). Entretanto, o tamanho médio das partículas de EFV não foi suficiente para explicar os perfis de dissolução (in vitro) ou os resultados de bioequivalência (in vivo) do medicamento. “Todos os seis lotes seriam aprovados com os ensaios convencionais para a análise de matéria-prima antes da produção”, assegura a docente. 

Já a análise microestrutural trouxe respostas mais completas. Para tanto, os pesquisadores apostaram no modelamento total do padrão de difração em pó (em inglês, whole powder pattern modelling), técnica de investigação microestrutural de materiais nanocristalinos que conta com o aporte do software 

PM2K, desenvolvido pela Universidade de Trento, especificamente para utilização em casos similares. Com essa técnica, foi possível detectar os valores médios de tamanho e a distribuição dos domínios cristalinos nas partículas de EFV. “A difração de raios X é sensível ao tamanho dos domínios cristalinos (ou cristalitos), que são as regiões mais cristalinas devido a uma organização das moléculas a longo alcance”, relata Cuffini. 

“A dissolução e a biodisponibilidade de matérias-primas e produtos farmacêuticos têm sido tradicionalmente correlacionadas com várias características físico-químicas, como cristalinidade, polimorfismo, tamanho de partícula, carga de superfície molecular (presença de íons), densidade e porosidade, para citar algumas, fatores ainda desconsiderados por analistas e formuladores farmacêuticos”, acrescenta. A discussão sobre a correlação do tamanho das nanopartículas com a dissolução e a solubilidade é – para ela – muito recente e deve abrir um novo e amplo campo interdisciplinar entre a Engenharia de Materiais e a Farmacologia.

Tamanho de partículas e disposição espacial são coisas bem diferentes...

A pesquisadora Silvia Lucia Cuffini, do ICT/Unifesp, elucida um aspecto importante para a compreensão da ciência de materiais e, por conseguinte, de seu trabalho de análise do Efavirenz. A princípio, é necessário pontuar que os materiais sólidos podem ser classificados de acordo com a regularidade na qual os átomos ou íons se dispõem em relação a seus vizinhos. Caso os átomos estejam ordenados sobre longas distâncias, formando uma estrutura tridimensional chamada rede cristalina, são denominados materiais cristalinos. Normalmente se encaixam nessa categoria os sais, os metais e a maior parte dos minerais. São considerados amorfos (não cristalinos) os materiais em que inexiste ordem de longo alcance na disposição dos átomos. As partículas de todos os materiais cristalinos, inclusive as matérias-primas de insumos farmacêuticos, apresentam uma estrutura cristalina e uma nanoestrutura.

Estrutura cristalina Nanoestrutura
Determina as posições dos átomos, moléculas, íons etc., podendo também ser indicadas as distâncias, os tipos de interação inter e intramolecular e as conformações moleculares Determina o tamanho das áreas cristalinas, denominadas domínios cristalinos ou cristalitos
Medidas utilizadas: escala ångström (Å)
1 Å = 10-10 m
Medidas utilizadas: escala nanométrica (nm)
1 nm = 10-9 m
Material cristalino: aquele no qual os átomos encontram-se ordenados sobre longas distâncias formando uma estrutura tridimensional chamada rede cristalina Material amorfo: aquele cuja estrutura não possui ordenação espacial a longa distância

Artigos relacionados:

FANDARUFF, Cinira; RAUBER, Gabriela S.; ARAYA-SIBAJA, Andrea M.; PEREIRA, Rafael N.; CAMPOS, Carlos E. M. de; ROCHA, Helvécio V. A.; MONTI, Gustavo A.; MALASPINA, Thaciana; SILVA, Marcos A. S.; CUFFINI, Silvia L. Polymorphism of anti-HIV drug Efavirenz: investigations on thermodynamic and dissolution properties. Crystal Growth & Design, Washington, DC: ACS Publications, v. 14, n. 10, p. 4.968-4.975, out. 2014. Disponível em: <https://pubs.acs.org/doi/pdf/10.1021/cg500509c >. Acesso em: 29 mar. 2019.

FANDARUFF, Cinira; SILVA, Marcos Antônio Segatto; BEDOR, Danilo Cesar Galindo; SANTANA, Davi Pereira de; ROCHA, Helvécio Vinícius Antunes; REBUFFI, Luca; RICARDO, Cristy Leonor Azanza; SCARDI, Paolo; CUFFINI, Silvia Lucia. Correlation between microstructure and bioequivalence in anti-HIV drug Efavirenz. European Journal of Pharmaceutics and Biopharmaceutics, [s.l.], v. 91, p. 52-58, abr. 2015. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.ejpb.2015.01.020 >. Acesso em: 29 mar. 2019.

FANDARUFF, Cinira; CHELAZZI, Laura; BRAGA, Dario; CUFFINI, Silvia Lucia; SILVA, M. A. S.; RESENDE, Jackson A. L. C.; DICHIARANTE, Elena; GREPIONI, Fabrizia. Isomorphous salts of anti-HIV Saquinavir Mesylate: exploring the effect of anion-exchange on its solid-state and dissolution properties. Crystal Growth & Design, Washington, DC: ACS Publications, v. 15, n. 11, p. 5.233-5.239, nov. 2015. Disponível em: <https://pubs.acs.org/doi/pdf/10.1021/acs.cgd.5b00696 >. Acesso em: 29 mar. 2019.

KUMINEK, G.; RODRÍGUEZ-HORNEDO, N.; SIEDLER, S. ; ROCHA, H. V. A.; CUFFINI, S. L.; CARDOSO, S. G. How cocrystals of weakly basic drugs and acidic coformers might modulate solubility and stability. Chemical Communications, [s.l.], v. 52, n. 34, p. 5.832-5.835, mar. 2016. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1039/C6CC00898D >. Acesso em: 29 mar. 2019.

 
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Quinta, 27 Junho 2019 13:55

Instituto de Ciência e Tecnologia

Proposta pedagógica do campus é pautada pelo desafio imposto pelas transformações do mundo atual, inerentes à 4a Revolução Industrial

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Dois contextos são fundamentais para entender onde se insere a demanda preenchida pelo Campus São José dos Campos, pertencente à Unifesp. Por um lado, há o município em que ele se situa – São José dos Campos, um dos maiores e mais importantes do Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade é a 26ª mais populosa (com 713.943 habitantes) e tem o 19ª maior produto interno bruto (PIB) no país. Por outro, a opção pela instalação do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) nessa área mostra-se acertada em face da reconhecida vocação do município: em São José dos Campos, estão localizam-se renomados institutos de pesquisa em ciência e tecnologia, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), além de empresas como a Embraer, a General Motors, a Johnson & Johnson e a Petrobras.

A decisão da Unifesp de implantar o Campus São José dos Campos em um terreno de quase dez mil m², estrategicamente integrado ao Parque Tecnológico para contribuir com demandas de ideias e desenvolver conceitos científico-tecnológicos, contou com o apoio do Ministério da Educação e da Prefeitura do município. Em 2011, iniciou-se o bacharelado em Ciência e Tecnologia (BCT), um curso de graduação interdisciplinar, com duração de três anos, que permite aos alunos – após um ou dois anos adicionais – obter um novo diploma de Engenharia ou de bacharel em área específica da ciência e tecnologia. Atualmente, na graduação, o aluno pode escolher entre o bacharelado em Biotecnologia (BB), bacharelado em Ciência da Computação (BCC), bacharelado em Matemática Computacional (BMC), Engenharia Biomédica (EB), Engenharia de Computação (EC) e Engenharia de Materiais (EM). Futuramente, serão criadas a Engenharia de Controle e Automação e a Engenharia de Energia.

A proposta pedagógica do ICT/Unifesp é pautada pelo desafio imposto pelas transformações do mundo atual, caracterizado pela inovação e a alta tecnologia inerentes à 4a Revolução Industrial. Essa mudança de paradigma solicita da educação superior o desenvolvimento de habilidades e competências relacionadas com o pensamento sistêmico, a investigação, a abstração e a solidariedade – esta no sentido de cooperação. Dessa forma, o ensino no Campus São José dos Campos visa garantir condições para que os estudantes alcancem um desempenho profissional coerente com o contexto em que se inserem; melhorem a capacidade de trabalhar em equipe e de utilizar a informação de maneira autônoma; desenvolvam o espírito criativo e as próprias potencialidades no sentido da autorrealização; e, finalmente, elaborem um pensamento complexo em relação ao funcionamento do mundo.

Pós-graduação em números:

8 programas de pós-graduação
12 cursos de pós-graduação
6 cursos de mestrado acadêmico
2 cursos de mestrado profissional
4 cursos de doutorado
159 estudantes de mestrado acadêmico
84 estudantes de mestrado profissional
100 estudantes de doutorado
144 docentes/orientadores credenciados
170 estudantes titulados até 2018

 

Dados extraídos do Sistemas Integrado de Informações Universitárias (SIIU) em 28/3/2019

 
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Resultado da colaboração entre a Unifesp e a Prefeitura de Diadema, ferramenta permite interação com a sociedade e busca cultivar a consciência ecológica no município

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Texto: Valquíria Carnaúba

Diadema ocupa uma área de 30,73 km² na região do Grande ABCD, em São Paulo. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), seu território possui atualmente 420.934 habitantes; 97,4% dos domicílios dispõem de esgotamento sanitário adequado; 76,3% dos domicílios urbanos situam-se em vias públicas arborizadas; e em 42,3% deles as vias públicas são urbanizadas (com calçadas, pavimentação, meio-fio e escoadouro de águas pluviais). O bairro de Eldorado, pertencente ao município, é área de proteção de manancial e abriga dois braços da represa Billings, fundamental para o abastecimento de milhões de pessoas. 

Apesar de sua evidente importância ambiental, a cidade ainda esbarra na inexistência de um conjunto de dados e informações integradas, considerando os componentes do meio físico, biótico, socioambiental e econômico. Essas lacunas deverão ser supridas com o Atlas Ambiental de Diadema, um projeto que está sendo desenvolvido pelo Departamento de Ciências Ambientais do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema, em parceria com a Prefeitura Municipal de Diadema.

Coordenado por Ana Luisa Bitencourt, Cláudio Benedito Baptista Leite e João Alexandrino, o projeto envolve uma equipe múlti e interdisciplinar de docentes, técnicos administrativos e estudantes de diversos departamentos do ICAQF/Unifesp, além de técnicos da administração municipal. Seus idealizadores empenham-se na concretização da proposta com o intuito de possibilitar o acesso às informações e dados sobre o meio ambiente, orientar as atividades de gestão ambiental e contribuir com o Plano Diretor do município e o Sistema Nacional de Informação sobre Meio Ambiente, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente.

A construção do Atlas Ambiental de Diadema é norteada por um sistema de informações geográficas (SIG), composto por hardwares, softwares, informações espaciais e recursos humanos, permitindo a análise, gestão e representação do espaço e seus fenômenos. De acordo com Bitencourt, atualmente chefe do Departamento de Ciências Ambientais, a base de dados constitui-se de informações socioambientais e geográficas oriundas do IBGE e de pesquisa especialmente realizada pela prefeitura. Em sua criação, serão adotadas ferramentas como informações espaciais cruzadas, tabelas e geração de mapas, tudo com o apoio de programas computacionais – entre eles, ArcGIS, QGIS e Idrisi. 

A primeira etapa do projeto, que consistiu no levantamento de dados sobre o meio físico, biótico e socioambiental, foi apresentada durante o I Workshop Atlas Ambiental de Diadema, em novembro de 2018. Conforme relata Alexandrino, o fato marcou a intensificação do diálogo entre o campus e a prefeitura, responsável por abraçar a proposta desde o início. “Seu mecanismo pode tornar-se estratégico para a aplicação de um modelo de cidade inteligente em Diadema, já que facilita e promove o acesso a informações relativas ao meio ambiente, orientadas às atividades de gestão ambiental”, complementa.

Entreteses11 p091 ClaudioBenedito

Entreteses11 p091 AnaLuisa

Entreteses11 p091 JoaoAlexandrino

Para os coordenadores do projeto – Cláudio Benedito Baptista Leite, Ana Luisa Bitencourt e João Alexandrino (da esquerda para a direita) –, o Atlas Ambiental auxiliará no estabelecimento de relações com órgãos governamentais na busca do aprimoramento de políticas públicas

Consciência ambiental e inclusão social

Atualmente o IBGE define atlas de duas maneiras: o termo pode indicar tanto um conjunto de mapas ou cartas geográficas como um volume de dados sobre determinado assunto, sistematicamente organizados e que servem de referência para a construção de informações, de acordo com a necessidade do usuário. Um atlas ambiental baseia-se nisso, pois é um instrumento que reúne, por meio de figuras, tabelas e mapas, diferentes temáticas relacionadas ao meio ambiente local. Sua conclusão, prevista para 2021, nos formatos digital e impresso, mapeará recursos hídricos, solo, vegetação e ar da cidade, além de outros aspectos, tais como educação ambiental, saúde, arte e cultura.

Nesse trabalho, os pesquisadores visam ultrapassar as fronteiras acadêmicas e administrativas: o propósito é interagir com a sociedade local, de modo a reforçar o papel da universidade na produção e disseminação do conhecimento, a fim de integrar a visão sobre a complexa ocupação do espaço urbano e sua relação com os problemas ambientais. Para que se alcance essa meta, eles apontam medidas que poderiam ser adotadas como cursos de formação, capacitação e qualificação, bem como o desenvolvimento de ações articuladas com a comunidade, contemplando os saberes e práticas das populações locais. 

Seguindo a linha da educação ambiental crítica, pautada na transformação social, os autores realizarão um mapeamento que promova a igualdade de direitos e a qualidade de vida. Para eles, o documento é um importante instrumento de diálogo com órgãos e instituições governamentais na formulação de políticas públicas.

Elementos que compõem o projeto Atlas Ambiental de Diadema

O projeto estabelece que a decodificação dos dados ambientais exige uma compreensão de fenômenos espaciais e sociais, com vista a gerar informações geográficas que poderão ser utilizadas para diversas finalidades (em áreas como sociologia, saúde e economia). Os autores afirmam que, “para essa tarefa, torna-se essencial a adoção de um sistema de informações geográficas”, abreviado pela sigla SIG. Na elaboração do Atlas Ambiental de Diadema, optou-se por um modelo próprio de SIG, que opera com tecnologias voltadas à organização dos dados ambientais do município. 

  • Sistema de geoprocessamento - É o processamento informatizado de dados georreferenciados. Utiliza programas de computador que permitem a manipulação de informações cartográficas (mapas, cartas topográficas e plantas) e de informações às quais se podem associar coordenadas desses mapas, cartas ou plantas. Possui diversas aplicações, mencionando-se entre elas os sistemas de cartografia automatizada (CAC), de processamento de imagens e CAD (destinado a engenheiros e projetistas). 
  • Banco de dados espaciais - É utilizado para armazenamento de informações sobre o espaço geográfico. 
  • Mapas e cartografia - A confecção de um mapa requer um conjunto de informações, incluindo a seleção de características, classificações e agrupamentos, legendas, escalas, amplificação de determinados dados e simbologias para representar diferentes classes de elementos.
  • Dados geográficos - São dados georreferenciados em atributos qualitativos e quantitativos, relativos à localização, relacionamento topológico e tempo. 
  • Atributos quali e quantitativos - Referem-se às características das entidades mapeadas, podendo ser representados por dados alfanuméricos; possuem aspectos não gráficos e podem ser tratados por sistemas de gerenciamento de bancos de dados convencionais. 
  • Localização geográfica - Envolve geometria dos objetos, conceitos de métricas, sistemas de coordenadas e medidas de distância (lineares e angulares), entre outros itens. 
  • Identidade visual - Nesta etapa, serão utilizados diversos instrumentos de trabalho, envolvendo captura, análise e tratamento de imagem para representação visual, mediante o emprego de softwares gráficos como Illustrator e Photoshop.
  • Temáticas gerais - O projeto estrutura-se em cinco temáticas principais: meio físico (geologia, geomorfologia, solos, recursos hídricos, fauna, flora, biodiversidade e atmosfera); meio urbano (evolução do meio urbano, clima urbano/qualidade do ar, solos urbanos, áreas de risco, resíduos, fontes poluidoras, saneamento/tratamento); saúde e meio ambiente; educação, arte, cultura e etnologia (educação ambiental, arte, cultura e etnologia); gestão e políticas públicas (prognósticos atuais, perspectivas futuras e direito ambiental).

Labs da Unifesp integram programa multidisciplinar

A produção do Atlas Ambiental de Diadema, além de uma equipe ampla e qualificada, envolve dez laboratórios de pesquisa do ICAQF/Unifesp, no Campus Diadema, que abrangem múltiplas áreas. Tais laboratórios estão instalados nas unidades José de Filippi e José Alencar (Edifício de Pesquisas).

  • Laboratório de Paleoecologia e Ecologia da Paisagem
  • Laboratório de Ecofisiologia e Monitoramento Ambiental
  • Laboratório de Ecologia, Zoologia e Fisiologia Comparada
  • Laboratório de Processos Ambientais, Bioquímicos e Químicos
  • Laboratório de Genética Evolutiva
  • Laboratório de Engenharia e Controle Ambiental
  • Laboratório de Economia, Saúde e Poluição Ambiental
  • Laboratório de Clima e Poluição do Ar
  • Laboratório Multidisciplinar em Mineralogia, Águas e Solos
  • LabInSciences (Laboratory of Integrated Sciences)

Artigos e sites relacionados:

SILVA, Laiane Tamion da; ABE, Karina Camasmie; MIRAGLIA, Simone Georges El Khouri. Avaliação de impacto à saúde da poluição do ar no município de Diadema, Brasil. Revista Brasileira de Ciências Ambientais, Rio de Janeiro, n. 46, p. 117-129, dez. 2017. Disponível em: <https://www.yumpu.com/pt/document/fullscreen/59678406/edicao-46-rbciamb >. Acesso em: 9 abr. 2019.

ROMERO, Amanda Caetano; ISSII, Thais Martins; PEREIRA-SILVA, Erico Fernando Lopes; HARDT, Elisa. Effects of urban sprawl on forest conservation in a metropolitan water source. Revista Árvore: Brazilian Journal of Forest Science, Viçosa, MG, v. 42, n. 1, p. 1-11, 2018. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rarv/v42n1/0100-6762-rarv-42-01-e420114.pdf >. Acesso em: 9 abr. 2019.

FONSECA, Frederico; CÂMARA, Gilberto; DAVIS, Clodoveu. Bridging ontologies and conceptual schemas in geographic information integration. GeoInformatica, [s.l.], v. 7, n. 4, p. 355-378, dez. 2003. Disponível em: <https://link.springer.com/content/pdf/10.1023%2FA%3A1025573406389.pdf >. Acesso em: 9 abr. 2019.

DIADEMA (Estado de São Paulo). Prefeitura do Município de Diadema. Lei complementar nº 273, de 8 de julho de 2008. Dispõe sobre o Plano Diretor do município de Diadema, estabelecendo as diretrizes gerais da política municipal de desenvolvimento urbano, e dá outras providências. Disponível em: <https://leismunicipais.com.br/a/sp/d/diadema/lei-complementar/2008/27/273/lei-complementar-n-273-2008-dispoe-sobre-o-plano-diretor-do-municipio-de-diadema-estabelecendo-as-diretrizes-gerais-da-politica-municipal-de-desenvolvimento-urbano-e-da-outras-providencias >. Acesso em: 10 abr. 2019.

EMPRESA PAULISTA DE PLANEJAMENTO METROPOLITANO S.A. Atlas de uso e ocupação do solo do município de Diadema. São Paulo, SP, [entre 2004 e 2007]. Disponível em: <https://www.emplasa.sp.gov.br/Cms_Data/Sites/EmplasaDev/Files/Documentos/Cartografia/Atlas/RMSP/Atlas_Diadema.pdf >. Acesso em: 10 abr. 2019.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Subordinado ao Ministério da Economia. Provê informações sociodemográficas, geográficas e econômicas sobre o país. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br >. Acesso em: 2 fev. 2018.

 
Publicado em Edição 11
Quinta, 27 Junho 2019 10:50

Empreender para integrar

Projeto desenvolvido no Campus Diadema agrega valor, eficácia e segurança sanitária a produtos vendidos por pequenos comerciantes locais

Entreteses11 p085 economia

 

Texto: Valquíria Carnaúba

Em 2015, um grupo de seis pesquisadores do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema, pertencentes às áreas de Ciência e de Engenharia de Alimentos, decidiu enviar seu projeto de pesquisa ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), visando atender a um edital que oferecia apoio financeiro a projetos de pesquisa que possuíssem como objeto a incubação de empreendimentos econômicos solidários (EES). Mal sabiam que esse trabalho se tornaria algo tão importante na vida de muitos vendedores de comida de rua em Diadema, onde o setor de comércio e serviços possui grande representatividade econômica. 

O projeto, posteriormente intitulado Melhoria da Qualidade de Alimentos Comercializados por Empreendimentos Solidários: Os Casos da Associação de Tapioqueiros e da Associação de Churrasqueiros de Diadema, previa a intervenção da universidade no comércio de churrasquinhos e tapiocas naquela cidade, de forma a aprimorar e agregar valor aos produtos comercializados. Contando com o apoio da Casa da Economia Solidária, programa ligado à Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho do município e incubadora de diversos empreendimentos, os pesquisadores atuaram por mais de dois anos conscientes da importância social, econômica, sanitária e nutricional do setor de alimentos de rua para os vendedores locais.

Classius Ferreira da Silva, professor adjunto do Departamento de Ciências Exatas e da Terra do ICAQF/Unifesp e coordenador do projeto, explica que toda a pesquisa foi norteada por quatro frentes de ação: avaliar a percepção dos consumidores, certificar que os alimentos atendiam aos pré-requisitos básicos de segurança microbiológica, reforçar as boas práticas de manipulação de alimentos e capacitar os vendedores para a correta manipulação de comida de rua e para o desenvolvimento de alimentos funcionais. Ao lado de Anna Cecília Venturini, Cristiana Maria Pedroso Yoshida, Fabiana Perrechil Bonsanto, Patrícia Santos Lopes e Rogério Scabim Morano, docentes no ICAQF/Unifesp, o pesquisador contou com a participação de 150 empreendedores oriundos das duas associações.

Silva relata que o projeto enfrentou diversos desafios ao longo de sua execução. Ele destaca a resistência dos vendedores ao serem convidados para conhecer os resultados das análises microbiológica e de percepção dos consumidores, embora as coletas tenham sido feitas anonimamente. Outro ponto que avaliou como problemático foi a dificuldade de comunicação com os empreendedores, o que contribuiu para que apenas 30 deles concluíssem a capacitação. “Foi complicado reunir todos ao longo das quatro semanas de curso, uma logística que se revelou desgastante para eles por causa do deslocamento”. 

Entretanto, o pesquisador avalia que o aproveitamento foi grande entre os que chegaram até o final do curso. “Eles sentiram-se incluídos e a entrega de certificados mostrou essa comoção. Muitos desconheciam a universidade e, durante a capacitação, perguntavam se a Unifesp era pública, há quanto tempo estávamos na cidade”, conta. A capacitação, com aulas que abordaram temas como qualidade de serviços, marketing, microbiologia de alimentos, higiene e alimentos funcionais, forneceu aos empreendedores a oportunidade de serem confrontados com informações que enriqueceriam sua atuação, aprendendo com estudantes da universidade a preparar desde espetinhos de carne moída (kafta) enriquecidos com fibra até tapiocas preparadas com chia, linhaça, aveia e beterraba. 

Análises microbiológicas

A avaliação microbiológica foi efetuada após coletas aleatórias e anônimas em diversos pontos de venda de churrasco e tapioca na cidade de Diadema. Apesar de pequena, Diadema possui bairros que mais parecem pequenas cidades, com regiões onde o comércio fervilha, como os bairros Eldorado, Serraria e Piraporinha. Porém, ainda que a Associação de Tapioqueiros de Diadema conte com 30 associados e a Associação de Churrasqueiros com 120, os pesquisadores encontraram um número bem menor de vendedores pelas ruas. “Quando abordamos os churrasqueiros por telefone, por exemplo, parte deles afirmou não atuar mais na atividade. Pareceu-me muito mais uma opção de trabalho temporária”, afirma Silva. 

Já a avaliação sobre percepção de consumidores contou com 603 respondentes, que compartilharam suas percepções acerca da tapioca e do churrasquinho de rua. Para tanto, foram desenvolvidos dois questionários, um para cada alimento, com 21 afirmações cada um a respeito de percepção de qualidade dos fatores: produto, praça, atendimento e preço, além de algumas perguntas para caracterização da amostra obtida. Ademais, foram realizadas visitas anônimas a 20 pontos de venda para mensuração qualitativa de três aspectos: limpeza e organização da área próxima do carrinho, limpeza geral do carrinho e aparência quanto à limpeza. Nessa etapa, os pesquisadores recolheram de forma anônima alimentos para análise microbiológica com base na presença (ou ausência) das bactérias Staphylococcus aureus, Escherichia coli e Salmonella ss.

Clientes satisfeitos 

A partir do trabalho, os pesquisadores chegaram a várias conclusões importantes. A principal constatação foi que os clientes estão relativamente satisfeitos com o atendimento e os preços praticados. A qualidade e a limpeza dos pontos de venda são aspectos que merecem atenção redobrada, já que os respondentes revelaram associar a imagem do carrinho à ideia de alimento saudável e livre de contaminação. Assim sendo, os comerciantes de comida de rua deveriam focar seus esforços no asseio pessoal, no bom atendimento e em maneiras de passar ao consumidor a imagem de que seus produtos são saudáveis.

De forma geral, os consumidores de tapioca fizeram uma boa avaliação do produto, do ponto de venda, do atendimento e do preço. A análise sensorial das amostras coletadas em seis diferentes pontos de venda deixou evidente o quanto a textura e o sabor estão relacionados com a impressão global do alimento. A cor foi o principal aspecto a afetar a percepção de aparência das tapiocas, atributo mais importante para os clientes do que textura e sabor. Os pesquisadores concluíram que as vendas do produto apontam para a expansão, uma vez que mais de um quarto dos respondentes consome pouco o produto.

Já as médias obtidas junto aos consumidores de churrasquinho foram menores que as obtidas com os de tapioca. O que fez com que churrasqueiros perdessem pontos perante os consumidores na análise sensorial, embora no quesito oferta tenham superado as expectativas, foi a falta de padronização dos espetinhos. Além disso, os respondentes desassociaram churrasquinho da ideia de alimentação saudável, sinalizando ser necessário aprimorar procedimentos de limpeza nos pontos de venda. Foi detectada uma oportunidade maior de expansão nas vendas desse aperitivo em relação às tapiocas – mais da metade dos avaliados consomem churrasco de rua regularmente.

Entreteses11 p086 coordenador

Classius Ferreira da Silva, professor adjunto do Departamento de Ciências Exatas e da Terra do ICAQF/Unifesp e coordenador do projeto

 

Aprimoramento com foco na coletividade

Embora sejam comerciantes e o que seja mais comum nesse meio seja a busca de diferenciais que fidelizem o consumidor, os tapioqueiros e churrasqueiros fazem parte de uma associação, com carrinhos padronizados, e se algo "pegar mal" com o cliente, como uma contaminação alimentar, a imagem da classe toda será prejudicada. Por isso, o grupo de pesquisa reforçou com os vendedores, ao longo das quatro semanas de capacitação, a consciência de coletividade. “Os dados microbiológicos não foram alarmantes, porém muitos nos procuraram para efetuar avaliações individuais, refletindo essa preocupação”, afirma Silva. 

Os participantes do programa de iniciação científica envolvidos no projeto, sob supervisão dos docentes, efetuaram diversos experimentos no Laboratório de Tecnologia de Alimentos do ICAQF/Unifesp, junto com os vendedores, para a produção de tapiocas enriquecidas com diversos tipos de grãos, espetinhos de Kafta com a adição de aveia, além do amaciamento de carne. Essa etapa envolvera testes preliminares para definir as melhores formulações, testes sensoriais de aceitação junto aos consumidores e preço dos ingredientes. Foram escolhidos semente de linhaça, farinha de linhaça, semente de chia, farinha de chia, farelo de aveia e beterraba, todos adquiridos no comércio local.

Adicionalmente, no caso dos churrasqueiros, optou-se também pelo estudo de técnicas de amaciamento da carne tendo em vista a padronização e a redução dos custos. “Essa etapa despertou bastante a curiosidade deles. Muitos achavam que aquele bife suculento servido em restaurantes razoáveis da cidade tratava-se de filé mignon, quando na verdade trata-se de acém amaciado. E na busca de qualidade semelhante, havia churrasqueiros que vendiam espetinhos de carnes nobres (filé mignon, contrafilé, alcatra). Nossa intenção era mostrar a eles que é possível adquirir carnes mais populares, amaciá-las e alcançar uma ótima aceitação, padronização e qualidade”, relata. No caso dos tapioqueiros, foi proposta a inclusão de chia na massa. “Fica gostoso, mas ainda existe o medo de oferecer um ingrediente diferente e sofrer rejeição pela clientela”. 

As informações de cunho sanitário tiveram um grande impacto para ambas as classes. “Realizar esse tipo de treinamento com pessoas leigas na área de manipulação de alimentos é desafiador, demandando aulas práticas, com observação no microscópio. E contar com a estrutura do campus da universidade para oferecer esse conhecimento, com seus laboratórios e o anfiteatro, foi fundamental para fornecer a eles a oportunidade de praticar o que aprenderam ao longo do curso”, finaliza.

Resultado: Dentre as tapiocas funcionais, a tapioca adicionada com sementes de chia foi a que apresentou melhor aceitação, com maior intenção para “possivelmente compraria”. Dessa forma, é possível afirmar que a chia, como ingrediente funcional da tapioca, apresenta maior aceitação pelos provadores.

Ingrediente funcional Concentração
Sementes de chia 10%
Farinha de chia 5%
Sementes de chia + farinha de chia 5%
Sementes de linhaça 5%
Farinha de linhaça 5%
Sementes de linhaça + farinha de linhaça 5%


 

Resultado: Os espetinhos de kafta funcional (com 6% de aveia e 0,3% de cúrcuma) e controle (sem aveia e sem cúrcuma) não apresentaram diferenças significativas com relação à aceitação a aparência, aroma, cor, sabor, textura e impressão global.

Formulação da kafta funcional (com 6% de aveia e 0,3% de cúrcuma) e controle (sem aveia e sem cúrcuma).

Ingrediente

Padrão

Funcional

Carne moída

100 g

100 g

Aveia (flocos finos)

-

6,0 g

Cúrcuma

-

0,3 g

Sal

1,3 g

1,3 g

Óleo

2,5 g

2,5 g

Alho/Cebola

5,0 g

5,0 g

Pimenta do reino

0,1 g

0,1 g

 
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