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Compartilhando histórias de São Paulo

Plataforma digital permite localizar pontos de interesse histórico e promover integração entre pesquisadores e público em geral

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Imagem composta com camadas de mapas presentes na plataforma Paulicéia 2.0

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Luis Ferla, coordenador do projeto, e Cintia Rodrigues, uma das bolsistas do projeto

Texto: José Luiz Guerra

Imagine um espaço digital no qual você pode pesquisar e trocar informações sobre a história da cidade de São Paulo. Melhor ainda: um local onde é possível adicionar informações históricas sobre a maior cidade do Brasil, desde um edifício público até um estabelecimento familiar que funciona há décadas em um mesmo endereço. Isso tornou-se possível graças a um projeto de pesquisa da Unifesp, denominado Pauliceia 2.0.

O projeto surgiu por meio do Hímaco (Histórias, Mapas e Computadores), grupo de pesquisa da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos, que tem como objetivo explorar as possibilidades do uso das tecnologias no trabalho do historiador, discutir e experimentar essas possibilidades, particularmente as geotecnologias. Também participam da construção do Pauliceia 2.0 o Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) - Campus São José dos Campos, o Arquivo Público do Estado de São Paulo, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Emory University, dos Estados Unidos. A plataforma, coordenada por Luis Ferla, docente do curso de História da EFLCH/Unifesp, e por Karine Reis Ferreira, pesquisadora do Inpe, pretende fazer o mapeamento colaborativo da história de São Paulo entre os anos de 1870 a 1940.

Ferla, que também coordena o Hímaco, explica que este grupo de pesquisa criou um projeto piloto em 2013 para mapear as enchentes de São Paulo, utilizando o Sistema de Informações Geográficas (SIG), ação que encorajou o grupo a diversificar a pesquisa. “Como nós sempre trabalhamos com tecnologia livre e o software da SIG (gvSIG) era muito colaborativo, pensamos em algo com o mesmo perfil e surgiu a ideia do Pauliceia 2.0”.

Após uma primeira tentativa de financiamento do projeto, em 2015, que não foi aprovada, ocorreu uma nova tentativa no ano seguinte, dessa vez por meio do edital eScience/Fapesp, voltado para estimular projetos pioneiros de pesquisa que envolvam ciência da computação e outra área do conhecimento. Resultado: o Pauliceia 2.0 foi um dos cinco aprovados daquele ano e o único na área das Ciências Humanas. “Por sorte não conseguimos aprovar o projeto em 2015, pois ele não seria tão robusto quanto o atual, já que não teríamos a bordo todo o grupo da ciência da computação”, brinca o docente.

O uso de plataformas digitais em história ainda é pouco explorado no Brasil e no mundo. Ferla cita dois trabalhos semelhantes: um nacional e também colaborativo, denominado Atlas Digital da América Lusa, criado pela Universidade de Brasília e outro internacional, gerenciado pela Universidade de Sydney, que mostra os eventos ocorridos na cidade de Nova Iorque, mas é alimentado exclusivamente pela equipe da instituição. “Podemos dizer que o Pauliceia 2.0 é um dos pioneiros em história urbana colaborativa no mundo”, explica.

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Plataforma do Pauliceia 2.0 mostrando a camada Open Street Map (OSM), versão livre e colaborativa do Google Mapas, representando o mapa atual da cidade

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Endereço geolocalizado na plataforma do Pauliceia 2.0, representado pelo ponto verde, mostrado na camada referente ao ano de 1930

Como funciona?

A plataforma Pauliceia 2.0 pode ser utilizada basicamente de três maneiras diferentes: como uma ferramenta de geolocalização de endereços do passado, o mesmo que faz o Google Mapas, mas com endereços da São Paulo de 1870 a 1940; como repositório de pesquisas e informações da história da cidade naquele período, por meio da criação de “camadas”; ou apenas como local de consulta acerca do que foi alimentado ali. Somente para a segunda dessas funções há a necessidade da realização de um cadastro, que é bastante simples.

“O geolocalizador permite identificar um endereço do começo do século XX, que você não consegue encontrar na São Paulo do início do século XXI, pois numeração é outra, as ruas são outras ou ainda nem existiam”, pontua o coordenador. Ferla também dá um exemplo do uso da plataforma para criação de camadas: “Um dos estudantes está fazendo um trabalho sobre o percurso da passeata da greve de 1917. Ele pode desenhar uma linha sobre as ruas nas quais passaram as manifestações e fazer um upload do arquivo. E outras pessoas, por sua vez, podem analisar o que foi adicionado à plataforma, cruzar informações das diversas camadas, e tirar suas próprias conclusões”.

Existe a opção de o usuário escolher o plano de fundo de sua preferência, que remetem a mapas de diferentes épocas, de acordo com cada camada. Já a opção OSM (Open Street Map – versão livre e colaborativa do Google Mapas) representa o mapa atual da cidade. A escolha dos planos de fundo permite também observar a mudança da configuração das ruas da cidade. 

Cada uma das camadas já existentes ou criadas na plataforma funciona também como uma comunidade. Os usuários podem seguir uma ou mais camadas de seu interesse e recebem notificações sobre qualquer atualização feita, além de poderem trocar mensagens de interesse comum. O portal da plataforma também disponibiliza um tutorial bastante didático acerca do uso da ferramenta.

Mais do que um espaço para compartilhamento de informações, a ideia é a de que o Pauliceia 2.0 seja uma referência para pesquisas e para novos projetos. “Se o Rio de Janeiro quiser fazer um projeto nos mesmos moldes, não vai precisar começar do zero. Todos os códigos que o Inpe desenvolveu já estão disponíveis, são livres, e a metodologia também estará disponível”, completa.

Até março de 2019, a plataforma funcionava em uma versão beta, abrangendo apenas o centro da cidade, período inicial no qual a equipe do projeto estimulou toda e qualquer contribuição ou uso da plataforma, recebendo, inclusive, todas as críticas e sugestões decorrentes. Depois desse período, o projeto iniciou sua segunda fase, destinada a incorporar o restante da cidade. 

O trabalho dos bolsistas

O projeto conta com a participação de cerca de dez bolsistas, tanto ligados à Unifesp quanto ao Inpe. Uma delas é Cintia Rodrigues de Almeida, estudante do último ano do curso de História da EFLCH/Unifesp. Ela conta que era interessada em trabalhar com tecnologia no sentido integrador e decidiu entrar para o grupo de pesquisa Hímaco durante uma disciplina ministrada por Luis Ferla.

Ela acredita que o Pauliceia 2.0 poderá ajudá-la no seu trabalho de conclusão de curso. “Pretendo levantar fontes sobre homossexuais que vivam em condições de rua nos anos 1930. Uma das ideias é usar a plataforma para analisar a movimentação dessas pessoas e mapear esses caminhos para ver se há alguma congruência, se eles estavam indo para um mesmo lugar, se havia uma rede ou comunidade entre eles”, afirmou.

“O Brasil sempre foi apresentado como um país-rascunho”

Entreteses: O próprio nome do grupo de pesquisa que você coordena (Hímaco) sugere uma relação instigante, para dizer o mínimo, articulando em uma mesma operação histórias, mapas e computadores. Você pode explicar como surgiu essa proposta e qual o seu objetivo?

Luis Ferla: Ainda no final dos anos 1940, o padre jesuíta Roberto Busa fechou um acordo com a IBM para produzir um sistema computacional que abrigasse e manipulasse a produção de Tomás de Aquino, no que muitos consideram o nascimento das humanidades digitais. Isso demonstra que as humanidades já interagiam com os computadores desde muito cedo, praticamente quando do seu surgimento. Mas a relação entre a tecnologia e as humanidades, em geral, e a história em particular, sempre foi problemática. O mundo dos computadores é, por definição, avesso a ambiguidades e incompletudes, das quais os historiadores nunca estão livres. Apesar disso, os historiadores passaram a utilizar cada vez mais os computadores. Estamos falando dos anos 1960 e 1970, quando uma história quantitativa ganhava viabilidade tecnológica e impulsionava estudos de séries econômicas e demográficas em grande escala. Fernand Braudel, uma das maiores referências da área desde sempre, sintetizava então o novo paradigma: "fazer história é fazer medições". Mas, àquela época, os computadores eram máquinas muito caras, e apenas poucos centros de excelência tinham acesso a eles. Isso aprofundou uma clivagem geopolítica no sistema acadêmico internacional, opondo um centro capacitado tecnologicamente a uma periferia impotente e desconfiada. Além disso, o quantitativismo suportado por computadores gerava o temor frente a um conhecimento excessivamente preciso e objetivo, reavivando o fantasma do positivismo epistemológico. O que veio depois mudou dramaticamente esse quadro. O aparecimento do computador pessoal em fins da década de 1970, a difusão da internet desde então e a explosão da web nos anos 1990, passando pela sua reconfiguração nesse século, na chamada web 2.0, fizeram com que a tecnologia digital ganhasse enorme capilaridade e inegável onipresença no mundo atual. Entre os historiadores, a posição reticente e desconfiada se tornou crescentemente inviável. O ambiente de trabalho do historiador e os ecossistemas em que se movimentava já estavam irreversivelmente impregnados de cabos, monitores, impressoras, notebooks e desktops. Some-se a isso a questão geracional, que obrigou a universidade e seus professores a lidar com discentes cada vez mais afeitos às novas tecnologias. De uma forma geral, esse é o contexto que motivou a criação do grupo Hímaco, em agosto de 2010, na EFLCH/Unifesp - Campus Guarulhos, por mim e pelo meu colega Janes Jorge, também docente do Departamento de História. Dois objetivos relacionados entre si condicionam desde então as atividades do grupo: por um lado, discutir a presença das tecnologias digitais no ofício do historiador, incluindo seus impactos metodológicos e epistemológicos; por outro, explorar as possibilidades do uso dessas tecnologias na produção do conhecimento histórico. Esse segundo objetivo levou o grupo a trabalhar com geotecnologias. No concerto das humanidades digitais, é reconhecido que os historiadores têm maior atração pelas tecnologias que envolvem o tratamento da dimensão espacial em seus estudos, com destaque aos sistemas de informações geográficas (SIGs). Isso se explica pela importância central do espaço no estudo da história, ainda que nem sempre isso tenha sido devidamente admitido ao longo das várias flutuações paradigmáticas da disciplina. Assim nasceu o Hímaco e desde essa perspectiva foram desenvolvidos os seus projetos de pesquisa.

 

E: Você concorda com a avaliação de que o Brasil não tem o hábito de cultivar a sua própria memória histórica, e menos ainda a geográfica? Em caso positivo, quais os motivos e quais as implicações disso?

L.F.: O desprezo pelo conhecimento histórico é quase uma marca identitária de nossa sociedade. O Brasil sempre foi apresentado como um país-rascunho, sempre inacabado, incompleto e não realizado. Subjaz a essa perspectiva um profundo desprezo das classes poderosas pelo "povo brasileiro", sempre visto como ignorante, preguiçoso, ladino e incapaz. Daí que o Estado brasileiro, criado à sombra das elites do poder, seja um monstro burocrático, cercando o cidadão comum em todos os atos de sua vida social, desconfiando sistematicamente de sua boa fé. Esse preconceito tradicional vem de longe, e passa pelos quatro séculos de escravidão e pelos vários racismos científicos importados com entusiasmo da Europa após o fim do período de servidão. Ou seja, a história de um povo desprezível é uma história desprezível. Por outro lado, e isso infelizmente não é uma idiossincrasia nacional; uma concepção tecnocrática radical vem tomando conta das políticas públicas voltadas à educação e às universidades. Essas já não são consideradas centros de produção e reprodução do conhecimento, mas apenas formadores de mão de obra capacitada a um mercado de trabalho cada vez mais exigente e restrito. Os recentes ataques às humanidades e à sua utilidade social têm essa história. Por outro lado, as novas tecnologias vêm questionando o monopólio secular e quase absoluto da academia na produção do conhecimento. As fronteiras tradicionais entre a produção e o consumo do conhecimento estão em crise e se tornam cada vez mais difusas. Esse fenômeno, em si, é perturbador, pois explica a popularidade e a ascensão do anti-intelectualismo e de irracionalismos nos moldes do terraplanismo e afins. Mas, por outro lado, permite a articulação do conhecimento acadêmico com outros saberes do outro lado do muro da universidade. Por exemplo, as geotecnologias e o crescimento das alternativas colaborativas, livres e abertas têm possibilitado que grupos sociais subalternos, como trabalhadores sem terra, quilombolas e povos indígenas, produzam os seus próprios mapas e os mobilizem em suas lutas cotidianas. Essa é uma importante subversão, dado que os mapas sempre foram instrumentos de poder, cuja produção, por isso mesmo, era monopolizada pelo Estado e seus agentes. Aqui se insere o projeto atual do grupo Hímaco, o Pauliceia 2.0: mapeamento colaborativo da história de São Paulo (1870-1940), uma experiência do que vem sendo chamada de ciência aberta ou ciência cidadã. O papel dos pesquisadores e instituições envolvidas não é, por conseguinte, apenas o de produzir o conhecimento, mas buscar interlocuções e articulações com outros saberes sobre a cidade, produzidos por sindicatos, associação de moradores, coletivos ou pessoas comuns, além, obviamente, dos próprios pesquisadores reconhecidos da história da cidade. E o papel da academia ainda é imprescindível, pois se não detém mais o monopólio da produção do conhecimento, o seu lugar é privilegiado para estimular as articulações e as sinergias possíveis.

Plataforma Pauliceia 2.0 • www.pauliceia.dpi.inpe.br

Grupo de pesquisa Hímaco • www.unifesp.br/himaco

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