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A pós-graduação sob o ponto de vista do pós-graduando

Natanael P. Leitão Júnior
Presidente da APG - Unifesp - Gestão Acolligere
Aluno de doutorado do programa de pós-graduação em Microbiologia e Imunologia

Pode ser maçante para muitos leitores desta publicação discutir, mais uma vez, sobre como a educação é negligenciada no país e sobre a falta de valorização dos pesquisadores e dos estudantes de pós-graduação. Afinal, todos sabemos disso: não se trata de uma revista destinada ao público geral, e sim de uma revista universitária lida por intelectuais com conhecimento de causa. Mas acredito que alguns, há muito tempo, não veem esse problema sob a ótica do pós-graduando. Outros, ainda, poderão ter seus anseios profissionais externados neste texto.

Diante de estudos técnicos que avaliam o cenário da educação do Brasil e suas perspectivas, a opinião de um leigo que está dentro do turbilhão, sem saber direito como vai sair dele, pode fornecer uma visão realista e muito preocupante. Vejamos.

É comum que os estágios iniciais da educação sejam tratados como prioridade pela mídia e por estudiosos. Com as discussões sobre cotas raciais em evidência, o ensino superior tem sido alvo de interesse recente, e políticas que o contemplem foram frequentes nos últimos anos. Nesse cenário a pós-graduação é continuamente relegada a segundo plano, tanto pelos estudiosos quanto pela mídia e políticas governamentais – ao menos é isso o que percebo.

Formulei três perguntas que guiam este texto e toda a discussão a seguir. Com elas tentei focar a discussão na pós-graduação sob o ponto de vista do pós-graduando: a) O que leva o indivíduo a fazer pós-graduação? b) Qual a perspectiva do pós-graduando no Brasil? c) Qual a importância da pós-graduação para a sociedade?

Em relação à primeira pergunta faço uma importante distinção entre a pós-graduação lato sensu e stricto sensu. Jornais e revistas de grande circulação anunciam que um curso de pós-graduação pode até duplicar o salário do funcionário, conforme a função exercida. Também ressaltam a possibilidade de promoção de cargo e até mesmo de mudança de emprego. Mas, em geral, os textos referem-se à pós-graduação lato sensu, cursos para os quais o estudante dedica parte de suas noites ou finais de semana, com o objetivo de aprofundar conhecimentos já adquiridos.

A pós-graduação stricto sensu demanda ao menos 40 horas semanais, dedicadas ao estudo de assuntos muitas vezes inéditos. É nesse pós-graduando que pretendo me deter. O que leva hoje, no Brasil, um indivíduo a fazer um curso de pós-graduação stricto sensu? Boa parte daqueles que entram nessa carreira o faz por aptidão e paixão, sem imaginar o que lhe espera no futuro. O que nos encaminha para a segunda pergunta.

Dentro do turbilhão referido, é difícil enxergar perspectivas. Mesmo visto de fora, o panorama não é dos mais animadores para o estudante de pós-graduação. Diante de um Estado sem política alguma de captação da especializadíssima mão de obra formada, o cenário pode ser ainda pior. Utilizando centros de pesquisa sem condições estruturais e tecnológicas adequadas, com salários defasados e cada vez mais insuficientes para viver nas grandes cidades, os profissionais da pós-graduação dependem de automotivação e amor ao trabalho.

Indivíduos com 30 anos de idade não têm garantia de estabilidade, plano de aposentadoria, benefício por tempo de trabalho e décimo terceiro salário, dentre outras vantagens mínimas conseguidas ainda durante os períodos iniciais de formação na maioria das profissões. O futuro do pós-graduando é incerto, não há garantia de que ocupará o tão almejado cargo de pesquisador no renomado instituto de pesquisa ou universidade. 

É comum ver dezenas de pessoas com diploma de doutorado submetendo-se a receber salários e a ocupar cargos inferiores ao nível que sua capacitação proporciona. É desesperador ver tantos bons pesquisadores – como os que estiveram comigo nos últimos anos – abandonarem a profissão eleita, por falta de um plano organizado e decente que contemple homens e mulheres em sua capacidade máxima de produção, ou oferecerem seus projetos e habilitações a outros países. Por que o governo investe tanto na formação dessas pessoas se não tem capacidade para assimilá-las e colocá-las em cargos condizentes com seu nível intelectual? Parece que nosso país tornou-se expert em capacitar profissionais para enviá-los a outros países ou descartá-los. 

A pós-graduação hoje é a força motriz geradora de ciência e tecnologia. Evidentemente, professores e pesquisadores dirigem todo o processo, e os servidores técnico-administrativos são peças fundamentais dessa engrenagem; os estudantes de pós-graduação, por sua vez, participam de todas as etapas da produção científica do país, desde o preparo de meios e soluções, incluindo-se a limpeza de laboratórios, até a preparação de projetos de pesquisa e redação de artigos científicos. 

São os futuros pesquisadores, as futuras “cabeças pensantes”, um excelente caminho para alavancar de fato o desenvolvimento econômico e social do país. Entretanto, aquele tem sido o tratamento recebido durante décadas. E esta é sua perspectiva profissional: a incerteza.

A pesquisa científica e a tecnologia são as grandes responsáveis pelo desenvolvimento da sociedade. Eu ocuparia a revista inteira falando apenas de alguns benefícios trazidos pelo avanço de ambas. Apenas para ilustrar, foram elas que desenvolveram os mais velozes meios de transporte e comunicação, que aumentaram a expectativa de vida da população, que aproximaram pessoas e nações e expuseram para o mundo as barbáries que acontecem nos confins. 

Precisamos de políticas que contemplem o indivíduo cujo objetivo é tornar-se pesquisador, que se dedica à pós-graduação profissionalmente, mesmo que seja por um período de estudos. Reconhecimento financeiro e melhoria da infraestrutura para a pesquisa é o mínimo necessário, além de um planejamento que possibilite realocação imediata após o término do doutorado. É insensato deixar à própria sorte quem poderá cuidar da sorte de todos.

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