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O Brasil no contexto do mundo

Pesquisa investiga a adequação do conceito de “longo século XIX” à história do país, cercado pelo escravismo apenas abolido em 1888

Bianca Benfatti

Fotografia de homens negros escravizados - um grupo de dezenas de pessoas, eles estão muito magros

Diáspora africana: entre 1808 (chegada da família real ao Brasil) e 1850 entraram mais escravos do que nos 200 anos de colonização

O “longo século XIX” descreve um período inaugurado com os processos característicos do final dos setecentos, sobretudo a Revolução Francesa (1789), e que terão o seu momento de condensação máxima na Primeira Guerra Mundial, terminando em 1918. Se pudéssemos agrupar um conjunto de palavras-chave para descrever os grandes eventos associados ao período, bem como os debates e conceitos a eles associados, seriam algo como: “monarquia constitucional”, “república”, “escravidão”, “liberdade”, “cidadania”, “progresso”, “revolução”, “democracia”, “liberalismo”, “independência”. 

Como o Brasil se insere nesse contexto? Configurou-se, em nosso país, a unidade política, social, econômica e ideológica iluminada pelo conceito de “longo século XIX”? Essa é a questão enfrentada pela coordenadora do programa de pós-graduação em História da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Unifesp, em Guarulhos, Wilma Costa, responsável pela pesquisa temática “Um tempo entre crises: o Brasil no longo século XIX”. A pesquisa é desenvolvida em conjunto com pesquisadores das faculdades de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) e de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O projeto está em fase de desenvolvimento e deverá ser apresentado à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) até o final do semestre. 

Uma das grandes novidades da pesquisa, segundo Wilma, é a tentativa de analisar o Brasil, não voltado para si mesmo, mas inserido no grande contexto mundial do século XIX. Com esse objetivo no horizonte, o projeto tentará integrar vários campos da história (história política, social, econômica, da medicina, do direito e da educação). Isso determina o seu caráter múltiplo e interdisciplinar. A proposta faz um recorte temporal delimitado por duas crises do sistema: a primeira ocorreu entre 1763 e 1826, causada pelas independências ibero-americanas, portanto a crise do Antigo Regime e do colonialismo, e, a segunda (1870 a 1918), acometida pela revolução industrial, seguido das inovações tecnológicas, do imperialismo e da Primeira Guerra. Ambas provocaram mudanças profundas na economia-mundo, possibilitando a construção de uma ordem capitalista internacional. 

Wilma relatou que o projeto em questão é novo, porém a ideia possui uma história anterior. “Algumas pessoas que participam de nosso grupo já faziam parte do projeto temático realizado na USP, entre 2004 e 2009, intitulado Brasil a Formação do Estado e da Nação ”, disse. A revista eletrônica Almanack foi criada a partir desse grupo de professores, dando continuidade ao projeto original, mas, ao mesmo tempo, ampliando-o. 

O que se destaca na periodização escolhida é uma questão que perpassa o século XIX nas suas duas pontas: a construção do Estado-nação. “O essencial é pensar como o Brasil se encaixa nesse processo, na formação das nações latino-americanas como territórios, construções de sistemas de poder, de unificação”, completou a professora. O objetivo é demonstrar que as Américas, assim como a Europa, também se constituíram nos conflitos, incluindo a guerra civil nos Estados Unidos, a guerra no Pacífico e a do Paraguai. O projeto foi dividido em três eixos principais: espacialidade e mobilidade; controle e conflito; cultura escrita, expansão e diversificação dos campos. 

Fotogragia antiga, dois meninos pobres vendedores de jornais

Vendedores de jornais no Rio de Janeiro, em 1899

O primeiro deles abrange a formação das fronteiras no século XIX, tanto as “visíveis e conflitáveis (nas bacias do Prata e a Amazônica), quanto as “invisíveis”, estendidas até a África, movimentadas pelas navegações e pelos fluxos de mercado. “Ao mesmo tempo que estão formando os espaços, a mobilidade das populações é crescente, portanto há uma espécie de contraste entre fronteiras que se estabelecem e se solidificam com expulsão e atração de grandes contingentes populacionais”, observa Wilma. Compreende desde a chamada diáspora africana – o aumento do tráfico de escravos para o Brasil, após 1808, com a chegada da Família Real, até 1850; das classes dominantes – uma corte inteira que se muda; e, por fim, a imigração de alemães, italianos, mais tarde de asiáticos, causados pelas unificações (organizações dos territórios, que significou a desorganização dos povos dessa região). 

O segundo tema irá refletir sobre as consequências da formação das nações e com isso a criação de imigrantes e migrados, exigindo a construção de leis, de normas e fronteiras, significando a obtenção de passaportes, documentos de identidade, formas de regular a vida e a mobilidade das pessoas. Simultaneamente esse processo é gerador de conflitos, pois na tentativa de realizar um código civil, houve sempre uma tensão entre as necessidades reguladoras do Estado, censo, matrícula e os povos. O maior temor por parte dos posseiros era de perder suas terras para os próprios senhores, que não queriam regulamentar suas posses ou dos pequenos proprietários que tinham medo que uma lei resultesse na sua expulsão. “Portanto, havia um grande medo quando se falava em ter censo ou matrícula nos sertões”, afirma Wilma. 

Já o terceiro tópico trata de pensar como esse contexto influenciou a organização dos saberes e das ciências, que naquele momento estavam se configurando no plano internacional. Sociologia, Economia e a Antropologia estavam sendo concebidas pelo mundo. Porém esse processo ocorreu de maneiras diferentes em cada lugar. No Brasil, conforme relatou Wilma, a Economia e a Sociologia originaram-se do Direito; a Engenharia, das Forças Armadas; e, a Antropologia, da Medicina. “Analisar como essa historicidade do Brasil determina de alguma forma que, embora conectada com a ciência que está sendo produzida no mundo, se arranja aqui de uma forma específica”, conclui. 

O grupo quer transformar a pesquisa em portal, onde será colocada a sua produção integral, incluindo mapas históricos, cronologias e publicações de época. Além disso, pretendem elaborar um site com notícias da imprensa do período, com jornais do século XIX, e criar uma interface para a utilização nas escolas pelos professores. “A ideia é publicar a maior parte do trabalho na forma de e-books, também de livre aquisição”, explica a coordenadora. “A EFLCH é um campus novo e que pela primeira vez está sediando um projeto dessa envergadura”, completou Wilma.

Pesquisa:
Um tempo entre crises: o Brasil no longo século XIX
Coordenação: Wilma Costa

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