Fórum de pesquisa e debate

TRANSTORNOS MENTAIS ORGÂNICOS (TMO): CONFUSAO MENTAL (DELIRIUM)

Dra. Vanessa de Albuquerque Citero

O TMO é definido pela presença de sintomas mentais gerados por anomalias que podem ser primárias ou secundárias. Estas anomalias podem ser:

  • estruturais
  • neuroquímicas
  • neurofisiológicas

Clinicamente, o TMO se caracteriza por presença de prejuízo cognitivo (déficit de orientação, de memória, de compreensão de linguagem, de cálculo e de julgamento). Dependendo do quadro, podem estar associados outros sintomas, sendo os mais comuns: rebaixamento de nível de consciência, sintomas depressivos ou ansiosos.

Todos os tipos de TMO têm em comum o fato de serem secundários a alguma outra condição médica, sendo doença física e/ou decorrente do uso de alguma substância:

  • Confusão mental: síndrome mental de causa orgânica (conhecida ou não) decorrente de condição médica geral, induzida por substância ou ambas possibilidades, com prejuízo da consciência.
  • Demências: síndrome caracterizada por múltiplos prejuízos da cognição sem prejuízo da consciência.
  • Transtornos amnésicos: déficit predominante ou único da memória de evocação e/ou fixação, mais freqüentemente encontrada no dependente de álcool crônico, por deficiência de tiamina (síndrome de Korsakoff) ou por lesão de lobo frontal.
  • Alucinose orgânica: alucinações persistentes, repetitivas, em estado de vigília, decorrente do uso crônico de alucinógeno ou álcool.
  • Intoxicação ou abstinência por substância psicoativas.
  • Síndrome orgânica (sintoma único que surgiu após lesão cerebral):
    • delirante: delírios em estado de vigília
    • do humor: depressão ou mania
    • de ansiedade: generalizada ou pânico
    • de personalidade: alteração da personalidade pré-mórbida

Entre os TMOs, destacamos os estados confusionais:

  • Definição: Síndrome mental de causa orgânica, conhecida ou não, que pode ser uma condição médica geral, induzida por substâncias ou ambas causas, com prejuízo da consciência.
  • Epidemiologia: acomete em qualquer idade, mais em idoso e com doença cerebral degenerativa; tem prevalência média de 15% a 18% entre os pacientes clínico-cirúrgicos internados (grupos especiais: 85% em paciente terminais, 50% no pós-operatório de fratura de fêmur em idoso e 30% em pacientes coronarianos). Sabe-se que 32% a 67% dos quadros de confusão mental não são detectados.
  • Etiologia: pode ser primária (isto é, devido a alteração cerebral: estado pós-ictal, trauma crânio-encefálico, hipertensão intracraniana, acidente vascular cerebral, etc.) ou secundária (isto é, extracraniana: alteração metabólica ou endócrina; infecção pulmonar, urinária ou sepsis; toxicidade a anticolinérgicos*, lítio, corticoesteróides; multifatorial).

* Drogas anticolinérgicas comumente prescritas: Furosemida, Digoxina. Hidroclortiazida, Propranolol, Acido acetilsalicilico, Teofilina, Insulina, Warfarin, Prednisolona, Metildopa, Nifedipina, Ibuprofeno, Codeína, Cimetidina, Captopril, Atenolol, Timolol, Ranitidina.

  • Critérios diagnósticos (CID-10):
    • alteração da consciência, com diminuição da habilidade de focar, sustentar ou manter a atenção;
    • alteração na cognição ou o desenvolvimento de sintoma sensoperceptivo não decorrente de doença pré-existente;
    • a alteração foi desenvolvida em curto período de tempo (horas ou dias) e é flutuante no curso do dia;
    • existe evidencia no exame clinico ou subsidiário de uma patologia médica e/ou de abuso de substancia.Características clínicas:
    • prejuízo do funcionamento cognitivo, devido ao rebaixamento de consciência. Prejuízo da orientação temporal é comumente presente.
    • sempre de aparecimento agudo
    • disfunção cerebral difusa
    • curso flutuante e breve
    • alteração do pensamento e da sensopercepção é sempre secundária ao prejuízo de consciência, sendo comum o pensamento com frouxidão de laços associativos e conteúdos deliróides, e presença de ilusões e alucinações visuais.
  • Tratamento: o principal tratamento consiste em identificar a causa e tratá-la diretamente. Para isso, a hospitalização é quase sempre necessária. Durante investigação da causa, deve-se cuidar para manter o paciente em ambiente com menos estímulos sensoriais possíveis, no leito, com um familiar mais próximo como referencia para tranqüilizá-lo. A medicação psicotrópica será utilizada se agitação, com risco de fuga ou de autolesão. O antipsicótico é a medicação de escolha, por via intramuscular ou oral, em doses baixas e apenas para conter a crise. O benzodiazepínico não está indicado pois não alivia os sintomas e potencialmente piora o quadro confusional.
  • Prognóstico: o quadro confusional é reversível e por si só não deixa lesão anatômica. Qualquer lesão cerebral identificada após um quadro confusional é decorrente da causa que gerou o sintoma psiquiátrico (por exemplo, hipóxia cerebral) ou piora de uma lesão pré-existente. A taxa de mortalidade associada à confusão mental é de 10% a 65%, devido a causa primária. É comum que, após a remissão dos sintomas, o paciente não lembre do ocorrido ou o faça de forma fragmentada.

Leitura recomendada: Pitta JCN. Diagnóstico e Conduta dos Estados Confusionais. Mari JJ, Razzouk D, Peres MFT, Del Porto JA (eds). In: Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar UNIFESP/EPM - Psiquiatria.Ed. Manole, São Paulo, 2002, pg. 151-159.

 d

v