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A ruptura do cotidiano na internação hospitalar: as contribuições da Terapia Ocupacional no serviço de interconsulta em saúde mental

Fernanda de Almeida Pimentel

“... mas o relógio não desiste. Continuará a nos chamar à sabedoria: quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza do único momento que nunca mais será...” Rubem Alves

Introdução
O paciente no período de internação hospitalar vivencia um intenso sofrimento (físico, psíquico) e, diante do processo de doença, muitas vezes imobiliza-se, paralisa-se e a única saída encontrada é a passividade. O paciente se encontra em um momento de ruptura: ruptura das relações, da realização das atividades, ruptura do “estar” no social das formas conhecidas, costumeiras e singulares de cada sujeito, enfim, ruptura do cotidiano.
A Terapia Ocupacional, neste contexto, vem para diminuir os impactos gerados pela hospitalização, favorecendo uma melhora na relação do sujeito com sua internação, com a equipe e com o momento vivido (TEDESCO, 2003). Busca-se aproximar o sujeito de seu cotidiano, resgatando-se a possibilidade de “fazer”, de estar ativo na enfermaria, no tratamento e em suas escolhas.

A ruptura do cotidiano na internação hospitalar: um olhar da Terapia Ocupacional

O Cotidiano
Muitos autores discutem o que é o cotidiano, como este é conceituado, sua influência na vida dos sujeitos, sua forma. Escolho as conceituações de TAKATORI (2001) que, ao refletir sobre o cotidiano, considera que este é “a unidade de medida da sucessão da vida humana”. É a sucessão de acontecimentos vividos pelo homem em seu dia-a-dia, na diversidade do tempo, espaço e sujeitos envolvidos nessa dinâmica.
O cotidiano exerce na vida do sujeito a qualidade de dar forma, direção e rumo para essa vivência diária. Permite ao sujeito que neste caminho, exponha o seu estilo de ser, que ao mesmo tempo, é compartilhado e reconhecido pelo outro, construindo-se assim a história pessoal, que comporá a história social.
As atividades habitualmente realizadas fazem parte do cotidiano do homem e registram a sua passagem pela história. Essas atividades assumem diferentes papéis, dependendo do contexto em que são realizadas, da cultura, do social. Tem para cada sujeito um significado, contendo interesses, habilidades, potencialidades, necessidades, dificuldades, medos, capacidades...

A hospitalização e o cotidiano
O processo de hospitalização gera no sujeito inúmeras mudanças e rupturas de suas relações e de seu cotidiano. Experimenta-se o sofrimento em toda a sua amplitude, a solidão, a dependência dos outros, o medo, o encontro com as limitações, as incapacidades, com as regras e horários, com outros pacientes, muitas vezes que não agradam, profissionais da saúde pouco envolvidos, o abandono, o estar no mundo sem poder expor seu estilo de ser, sendo submetido a esse momento de hospitalização... entre tantas outras situações. Às vezes a única saída encontrada é a passividade.
Como nos diz BOTEGA “o impacto de uma doença imobiliza e congela a existência, e em conseqüência, sua relação como mundo. Há uma interrupção da continuidade existencial e da referencia temporal. É um tempo de suspensão: difícil ligá-lo à vida passada ou conectá-la ao futuro” (BOTEGA, 2002).
Ao sofrer uma internação hospitalar os pacientes parecem encontrar-se no momento de suspensão, no “entre”.... entre o antes e depois da internação, entre a espera para realizar um exame e obter seus resultados, entre o tempo para se recuperar e obter alta... Neste processo o paciente vive para o “quando sair do hospital”, “quando melhorar”, “quando estiver curado”, “depois que fizer a cirurgia”. Não é possível se ver na situação de internação hospitalar realizando atividades que não sejam da rotina do hospital. Esse é o espaço do vazio, da impotência, da paralisia.

A intervenção da Terapia Ocupacional
Ao oferecer ao paciente outra possibilidade de estar no hospital, evidenciando seu lado saudável, potente e criativo, outra postura e maneira de ver a hospitalização podem ser reconhecidas e vivenciadas.
Como nos diz FERIOTTI, a Terapia Ocupacional é “... uma profissão que se propõe ao desafio de conquistar e descobrir novos caminhos, enfrentando limites e criando possibilidades, a cada dia, com cada homem, a partir da transformação dos materiais, das relações, da própria vida”. (FERIOTTI, M.L. 2003).
Assim, o olhar volta-se para o saudável, para as potencialidades, para o que é possível, e não somente para as limitações e incapacidades. A experiência do fazer é significada, cria-se um sentido para o fazer, para se tratar, para viver, mesmo que seja somente o momento presente.
Ao “fazer” possibilita-se que o paciente se conecte ao momento vivido, pense sobre o que está acontecendo, fale de seus medos e simbólica e concretamente lida com essas questões. Assim, é possível favorecer uma inscrição e vivencia dos pacientes, no período de internação, menos sofrida, já que se busca aproximar o cotidiano destes sujeitos para o período da internação. O tempo torna-se não somente algo a ser esperado passar, mas é utilizado com sentido, significado. É possível ser criativo, expressar-se, produzir.
Resgatar a possibilidade de fazer é resgatar no sujeito a sua autonomia, a liberdade de escolher, não o que lhe é dado, mas sim o que se deseja construir. Apesar das limitações, verifica-se o que é possível. Na relação dos sujeitos com os materiais, com a terapeuta, com o ambiente, através do fazer compartilhado, possibilita-se que habilidades sejam descobertas e dificuldades possam ser reconhecidas, na busca de superá-las.

Conclusão
As intervenções da Terapia Ocupacional neste contexto são possíveis facilitadoras da criação de um contorno de tempo e espaço para o paciente internado onde, pela manutenção do fazer, criam-se condições para este manter-se ativo, não somente na realização das atividades, mas também em seu tratamento e escolhas, ressignificando vivências e trilhando caminhos possíveis.

Bibliografia

    ALVES, R. Tempus Fugit São Paulo: Paulus, 1990

    BOTEGA, N.J. Prática Psiquiátrica no Hospital Geral: interconsulta e emergência. Porto Alegre: Artmed, 2002.

    DE MARCO, M. A., O serviço de Interconsulta da EPM-Unifesp In: DE MARCO, M. A (org.), A face humana da medicina. São Paulo: Casa do psicólogo, 2003.

    FERIOTTI, M.L. Terapia Ocupacional: teoria e prática Campinas: Papirus, 2004

    NOGUEIRA MARTINS, L. A. A formação do interconsultor In: DE MARCO, M. A (org.), A face humana da medicina. São Paulo: Casa do psicólogo, 2003.

    TAKATORI, M. A Terapia Ocupacional no processo de reabilitação: construção do cotidiano. In: O mundo da saúde. ano 25. vol. 25. nº 4. São Paulo: 2001.

    TEDESCO, S.; CECCATO, T.L.; NORI, A. M.; CITERO, V. A terapia ocupacional para o doente clínico: ampliação do cuidado com a saúde mental. In: DE MARCO, M. A (org.), A face humana da medicina. São Paulo: Casa do psicólogo, 2003.