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Fórum de pesquisa e debate
A
Saúde Mental dos profissionais de saúde – lidando com
a morte e o morrer
Dra
Thaís Macedo Porto
O
contato com a morte, mutilações, deformidades e limitações das doenças
crônicas irradia intensos estímulos emocionais gerando um ambiente
psiquicamente insalubre. Para que possamos lidar com tais emoções
devemos trabalhar os limites da atuação terapêutica.
Quando
o médico e a equipe de saúde defrontam-se com pacientes
que vão morrer, são mobilizados por idéias, sentimentos
e fantasias de variadas intensidades, predominando aquelas
com características terroríficas. Há fortes indícios
de que os médicos, provavelmente, têm mais medo da morte
que outros profissionais, ainda que de forma não-consciente,
podendo este medo ser um dos motivadores de sua escolha
profissional.
O
objetivo deste fórum é abrir um espaço para a discussão
do caráter ansiogênico inerente ao trabalho hospitalar.
Para ilustrar, trago o relato do meu primeiro atendimento
durante o estágio no serviço de interconsulta em saúde
mental da residência de psiquiatria do Hospital São
Paulo.
O
primeiro contato com a morte e o morrer No primeiro
dia em que recebi a responsabilidade de ficar com o
Bip no serviço de interconsulta recebi a seguinte mensagem:
Favor entrar em contato com o IOP, Dra. G. Por telefone,
G. me informou ter introduzido 5mg de fluoxetina para
a paciente C., de 18 anos, naquele mesmo dia, pois referia
nunca tê-la visto tão triste e disse que gostaria que
eu avaliasse a conduta. Agendamos uma entrevista para
a tarde do dia seguinte a nível ambulatorial.
No
dia seguinte procurei Dra. G. que me deu as seguintes
informações: em 2001, C. recebeu o diagnóstico de osteossarcoma
que foi ressecado na época, porém recidivou por 2 vezes.
No momento, com expectativa de sobrevida de um ano,
possuía metástases irresecáveis no pulmão e estava em
uso apenas de tramal para aliviar as dores, pois já
não responderia a radio ou quimioterapia. G. conta que
a paciente sempre se mostrou tranqüila, porém ultimamente
se mostrava mais apática, chorando com freqüência. Ao
questionar se a paciente havia mencionado ideação suicida,
G. me falou não ter tido coragem de perguntar por estar
muito envolvida com o caso. A paciente faz acompanhamento
ambulatorial mensal no IOP e, no momento, estava sendo
avaliada devido a uma infecção urinária.
Desde
o início do tratamento C. se recusou a conversar com
a psicologia e só aceitou em me ver por saber que eu
iria avaliar sua medicação (fluoxetina). O contato com
C. é fácil. Ela começa me pedindo para aumentar a dose
de seu medicamento por estar cansada de tanta dor. Ela
me conta que sua vida se limita muito à doença, dorme
e acorda em função dos horários da medicação, além de
acordar diversas vezes à noite com dor. Conta que vinha
chorando com facilidade por estar cansada de tanta dor,
mas nega ideação suicida: “pelo contrário eu gostaria
muito de viver, mas sei que minha doença não tem mais
cura e que vou morrer”. Ao final da entrevista, C. disse
que iria pensar na possibilidade de um acompanhamento
psicológico. Foi observada grande ansiedade não só presente
na médica assistente, como também ao conversar com a
mãe de C. que parecia estar negando os fatos com o discurso:
“você vai melhorar com a medicação, pois não pode desanimar.
Precisa de força para vencer a doença”.
Novo
contato foi agendado dentro de uma semana.
Ao
discutir o caso na supervisão pude verbalizar meus sentimentos
de raiva ao ver uma paciente tão jovem cuja vida foi
interrompida bruscamente por um diagnóstico terrível
e aquela menina que sonhava em casar e ter filhos, planejava
ser uma fisioterapeuta e adorava nadar e dançar, tem
seus últimos dias a girar em torno da doença. É, poderia
ser eu... e por que ela? Confessei ter sentido um nó
na garganta e ter ficado chocada ao ver seu braço amputado,
pois ainda não sabia desta informação. Fui orientada
a investigar com a médica assistente a questão da analgesia
para que aí sim, fosse possível investigar a hipótese
de depressão, lembrando que a dose da fluoxetina seria
insuficiente para tratá-la e a deixá-la falar sobre
a sua própria ansiedade com relação ao caso.
Durante
a semana me peguei por diversas vezes pensando no caso
de C. e, além da sensação de impotência, sentia uma
certa revolta. No dia do segundo atendimento C. estava
bem melhor. Estava fazendo Reiki e tomando florais e
me contou já não sentir tanta dor. Já em tratamento
para a infecção urinária, referia dormir bem e sentir-se
mais disposta e menos chorosa sem as dores: “eu chorava
porque sentia dor”. Estava planejando alguns passeios
e disse que não só iria procurar uma psicóloga, como
também mostrou ânimo para iniciar uma terapia ocupacional.
Por
fim, a fluoxetina foi suspensa, pois acredito que a
paciente já estava passando pela fase de aceitação e,
talvez nós, da equipe médica, estivéssemos deprimidos
diante da situação.
A
supervisão como elemento dissipador de angústia
O
trabalho em equipe serve como “válvula de escape” pelo
simples fato de estarmos lidando com um grupo (familiares,paciente,
outros profissionais de saúde) e podermos dividi-los
da mesma forma com um outro, como exemplo, a equipe
de interconsulta.O supervisor deve ser externo, não-“contaminado”
pela insalubridade emocional em que o grupo assistencial
trabalha e que o impede de perceber determinados fatos
e mecanismos tendo, portanto, maior facilidade para
identificá-los e assinalá-los.
Ao
lidarmos com as emoções em nós despertadas, por vezes
observei que tal experiência pode ser levada inclusive
para o dia-a-dia fora do serviço de interconsulta. Por
exemplo, ao trabalhar com pacientes com doenças crônicas
no hospital e, ao discutir em supervisão as dificuldades
de se haver com tais diagnósticos até que se atinja
um processo de aceitação da doença, comecei a observar
o paciente de uma forma mais empática. Isto me levou
a compreender melhor certas atitudes de pessoas do meu
convívio pessoal que também possuem doenças crônicas.
Conclusão Sem
dúvida o tempo de reflexão e elaboração que é priorizado
nas supervisões do serviço de interconsulta do Hospital
São Paulo é imprescindível para que se trabalhem certos
conteúdos e a interconsulta possa fluir mais leve e
mais livre de nossas interferências pessoais. Dessa
forma, pude ir trabalhando e encontrando um equilíbrio
para os dois extremos dentro de mim: a impotência e
a onipotência. A onipotência esteve presente inclusive
na escolha do estágio no Hospital São Paulo, devido
à fantasia heróica de estar em um lugar onde nada faltaria
para prestar a melhor assistência possível, porém as
dificuldades se fazem presentes em qualquer lugar. Já
diante da minha sensação de impotência, percebi que
a presença do interconsultor muitas vezes é essencial
mesmo diante da morte. A simples presença de uma força
externa já apazigua os ânimos do ambiente supostamente
“contaminado” pela emoção.
O
profissional de saúde deve portanto, estar sempre alerta,
sabendo cuidar-se em relação a envolvimentos exagerados,
por vezes desnecessários, e questionar-se constantemente
sobre os motivos que o levam a essa atividade e em que
grau. Conhecer-se a si mesmo será indispensável e isso
poderá ser efetuado em terapias pessoais.
Em
resumo, há evidências sugestivas de que uma parcela
da população médica - cerca de 8% a 10% - seja um grupo
de risco em relação a distúrbios emocionais. Este grupo
apresenta, portanto, uma maior vulnerabilidade psicológica.
Essa vulnerabilidade psicológica deve ser considerada
no âmbito do planejamento das atividades médicas na
graduação e pós-graduação. Considerando esses aspectos
e os fatores ocupacionais - o estresse da tarefa médica
- torna-se necessário, em nosso meio:
- desenvolver
estudos e pesquisas sobre a saúde psicológica
do estudante de medicina e do médico, visando
detectar precocemente os grupos de risco;
- realizar
trabalhos objetivando identificar os fatores
estressantes nos anos de formação médica (graduação
e residência médica);
- implantar
programas de qualidade visando aperfeiçoar o
sistema de capacitação profissional
- criar
serviços de assistência médica e psicológica
para estudantes e residentes
- sensibilizar
os estudantes, residentes e profissionais em
atividade quanto aos riscos de desenvolver distúrbios
emocionais e disfunções profissionais, que podem
trazer conseqüências dolorosas para o seu bem
estar, para os seus familiares e para os pacientes.
Nesse
sentido, merecem ser destacadas várias iniciativas do
Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP),
como a promulgação de uma resolução (090/2000) que normatiza
preceitos para a melhoria das condições de saúde ocupacional
dos médicos, a criação de uma rede de apoio para médicos
com dependência química e a recente edição de um Guia
da relação médico-paciente objetivando atenuar a crescente
desconfiança recíproca que vem ocorrendo no relacionamento
entre médicos e pacientes.
No
âmbito do aparelho formador, as boas escolas médicas
têm, cada vez mais, procurado conscientizar o jovem
estudante em relação ao estresse inerente à formação
durante o curso médico e às vicissitudes do exercício
profissional; vários serviços de assistência à saúde
dos estudantes e médicos têm sido criados nas escolas.
Na Residência Médica e na Pós-Graduação são de extrema
importância a adoção de medidas que contribuam para
a redução do estresse do treinamento e a criação de
serviços de atenção à saúde mental de residentes e pós-graduandos
que promovam e facilitem o crescimento profissional
e pessoal dos residentes e pós-graduandos. Na UNIFESP
temos um exemplo desse tipo de serviço: é o Núcleo de
Assistência e Pesquisa em Residência Médica (NAPREME)
da Universidade Federal de São Paulo. O NAPREME tem
como objetivos: contribuir para a redução do estresse
do treinamento, promover o crescimento profissional
e pessoal dos residentes, prevenir disfunções profissionais
e distúrbios emocionais, oferecer atendimento psicológico,
assessorar os preceptores dos Programas de Residência
Médica e desenvolver projetos de pesquisa que identifiquem
as dificuldades emocionais que ocorrem durante o treinamento.
O objetivo final é aperfeiçoar o sistema de capacitação
profissional na Residência Médica, aprimorando a assistência
prestada aos pacientes e a qualidade de vida dos profissionais
encarregados dessa assistência.
A
implantação de grupos de discussão e reflexão sobre
a tarefa assistencial na Residência Médica , onde os
residentes possam expor suas dificuldades, angústias
e temores ligados ao exercício profissional, tem se
revelado um eficiente instrumento psicopedagógico de
natureza preventiva.
Bibliografia 1-
Botega NJ. Psiquiatria no hospital geral: histórico
e tendências. In: Botega NJ, ed. Prática psiquiátrica
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3-
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Terap, 20:355-364.
4-
Nogueira-Martins, L. A Saúde Mental do Médico e do Estudante
de Medicina. Psychiatry On-line (1) julho 1996
5-
NOGUEIRA-MARTINS, L. A.; STELLA, R. C. R.; NOGUEIRA,
H. E. A Pioneering experience in Brazil: the creation
of a center for assistance and research for medical
residents (NAPREME) at the Escola Paulista de Medicina,
Federal University of São Paulo. São Paulo Medical Journal
/RPM, 115(6):1569-1572, 1997.
6-
Nogueira-Martins LA. In De Marco (2003). A face humana
da Medicina. São Paulo: Casa do Psicólogo.
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