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Conversando sobre o câncer: quanto é muito?
Renata Novaes Pinto

Comunicar e fornecer informação médica aos pacientes com câncer e seus familiares freqüentemente gera discussões, tanto entre os profissionais de saúde como na população em geral.

Entre os profissionais é possível definir dois grupos: os que “contam” e defendem o direito do indivíduo ao conhecimento da verdade, e informar o paciente e familiares significa transmitir esperança e credibilidade no tratamento, e os que “não contam” pois acreditam ser incompatível transmitir esperança junto com as más notícias. Assim, omitir a verdade, informando apenas aos familiares é um hábito comum.

Há muitas razões pelas quais os médicos evitam informar as más notícias e entre elas há o temor de que receber uma notícia desfavorável, precipitaria um estado depressivo, piorando a qualidade de vida do paciente. Não é incomum desconhecerem os próprios sentimentos em relação a adoecer gravemente e à experiência de morrer, e sentem-se pouco à vontade para discutir isso com o paciente. Muitas vezes, encontram na atribulação da rotina do dia-a-dia, o pouco tempo disponível para a consulta, para o encontro com as questões emocionais do paciente e com as quais não se sentem suficientemente treinados. O “bom paciente” passa a ser aquele que pergunta pouco e a comunicação deixa de ser prioridade, enfatizando-se os procedimentos clínicos ou cirúrgicos.

E o que pensa o paciente?

Diversos estudos relatam que os pacientes queixam-se de não terem sido informados corretamente do que acontecia com eles. (Fallowfield, 1986; Lind et al, 1989; Charlton, 1992; Meredith et al,1996)

Um importante fator a ser considerado é que quase sempre o paciente já sabe ou suspeita sobre o seu diagnóstico. - Afastá-lo dessa confirmação pode fazer com que ele passe a criar medos e fantasias bem mais temíveis do que os fatos. Alguns pacientes acreditam que o câncer é algo contagioso e que poderão contaminar seus filhos, ou então que sofrerão uma morte extremamente lenta e repleta de dor.

A prática mais comum de apenas informar os familiares faz com que os pacientes se sintam mais excluídos do convívio familiar e a comunicação entre eles passa a ser impossível. Com o temor de revelar algo, inconscientemente evitam o contato mais próximo, tornando-se distantes e frios.

A informação tem um papel importante na forma do paciente aceitar o tratamento desgastante, que usualmente envolve radioterapia, quimioterapia, cirurgia, associados ou não, e todos com consideráveis efeitos colaterais.

Ao ser informado do que está ocorrendo e participando da discussão sobre o tratamento, o paciente sente que ainda detém o controle da própria vida, aceita ou não o que está sendo proposto, altera seus projetos e se prepara para o que está por vir.

Em São Paulo foi realizado um estudo com pacientes em tratamento para câncer, com o objetivo conhecer como se comporta o paciente recém diagnosticado em relação a querer receber informação sobre a doença e o tratamento. Os resultados indicaram que a maioria destes pacientes considerava importante estar bem informado sobre sua doença, bem como conhecer o tratamento proposto; saber qual o prognóstico, os efeitos colaterais e quais eram suas chances de cura. (Novaes-Pinto,2001)

Uma crença bastante comum e que não foi confirmada nesse estudo, é a de que receber a informação da doença por um familiar seria mais “reconfortante” para o paciente. Na verdade a grande maioria dos pacientes gostaria de receber a informação pelo médico especialista, ou seja, aquele que detém o maior conhecimento da doença e melhor poderá responder as dúvidas que surgirem.

Atualmente, toda informação disponível nos meios de comunicação e que tratam sobre as doenças graves com menos estigmas do que ocorria até algum tempo atrás, permite aos pacientes mais bem informados, querer receber toda informação disponível.

Diante desses resultados é importante considerar a importância dos pacientes receberem informações sobre sua doença e tratamento e também identificar indivíduos mais vulneráveis, avaliando a necessidade de intervenção psicológica e psiquiátrica.

Tem sido objetivo do nosso trabalho estreitar o contato do profissional de saúde mental com os profissionais de saúde da instituição, capacitando-os para lidar com situações adversas, procurando assim aliviar as tensões resultantes de sua atividade profissional.

Referências

Fallowfield L, Baum M, Maguire P (1986): Effects of breast conservation on psychological morbidity associated with diagnoses and treatment of early breast cancer. BMJ 293: 1331-1334.

Meredith C, Symonds P, Webster L et al (1996): Information needs of cancer patients in West Scotland: cross sectional survey of patients' views. BMJ 313: 724-726.

Charlton R (1992) : Breaking bad news. Med.J.Aust. 157: 615-621.

Novaes-Pinto R (2001): A comunicação do diagnóstico em pacientes com câncer. Tese de mestrado apresentado à Universidade Federal de São Paulo.

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