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Fórum de pesquisa e debate
Subdiagnóstico
de delirium no Hospital Geral Dr.
Eduardo Aliende Perin
Delirium,
uma das mais importantes síndromes
psiquiátricas no idoso, é freqüentemente
diagnosticado tardiamente pelos
médicos, o que contribui para
altas taxas de morbidade e mortalidade1.
Pacientes com delirium têm maior
risco de várias complicações,
como pneumonia, úlcera de decúbito
e complicações pós-cirúrgicas,
assim como internações mais
longas e pior prognóstico2.
Estudos sugerem que até 25%
dos pacientes com delirium morrem
nos 6 primeiros meses após a
alta hospitalar3.
O
objetivo deste fórum é discutir
sobre a dificuldade dos médicos
e profissionais da saúde em
diagnosticar delirium e os possíveis
problemas diagnósticos e terapêuticos
encontrados nestes casos. Para
tanto, escolhi apresentar dois
casos reais atendidos por mim
durante o estágio de interconsulta
em saúde mental da residência
médica em psiquiatria no Hospital
São Paulo, e fazer uma breve
revisão bibliográfica sobre
o assunto.
Caso
nº 1: Fui bipado numa enfermaria
clínica para avaliar um paciente
com hipótese diagnóstica de
depressão, feita pela médica
responsável. A médica me diz
que o Sr. J., 62 anos, estava
internado por ascite volumosa
e que não estava colaborando
com o tratamento, mostrando-se
muito querelante e apático.
Passava a maior parte das noites
acordado, perturbando a equipe
e os outros pacientes. Antes
da internação, o paciente fazia
acompanhamento no ambulatório
com diagnóstico de hepatopatia
crônica.
Ao
chegar ao quarto, deparei-me
com um senhor de sessenta e
poucos anos, sentado na cama,
bastante emagrecido, ictérico,
com abdome volumoso, bastante
ansioso ao contato. Estava sonolento,
e em alguns momentos, parecia
não prestar atenção ao que eu
perguntava. Estava orientado
no espaço, mas não sabia exatamente
há quantos dias estava internado,
e nem que dia era aquele. Tinha
sintomas depressivos, como apatia,
idéias de morte e ruína e chorava
muito durante a entrevista.
Ao
fazer uma revisão do prontuário
do doente, vi exames de enzimas
hepáticas bastante elevadas,
bilirrubinas também elevadas
e hipoalbuminemia, com atividade
protrombínica reduzida.
Conversando
novamente com a médica responsável,
disse-lhe que o paciente apresentava
rebaixamento do nível de consciência,
estava confuso e com déficit
de atenção. Disse que se tratava
de um caso de delirium, e perguntei-lhe
se não achava possível que ele
estivesse com encefalopatia
hepática. Respondeu-me que seria
possível e entrou com tratamento
para esta patologia. Apesar
disto, o paciente piorou na
semana seguinte e faleceu depois
de oito dias da minha primeira
visita.
Caso
nº 2: Fui bipado numa enfermaria
cirúrgica para avaliar um paciente
em seu terceiro dia após uma
cirurgia relativamente grande
para o qual havia uma hipótese
diagnóstica de delirium tremens.
O Sr. F., 45 anos, apresentara-se
agitado desde o dia anterior,
não dormiu durante a noite,
andando pelos corredores da
enfermaria, dizendo estar sendo
perseguido. Nesta ocasião, pediu
álcool à enfermagem, fato que
levou à suspeita diagnóstica.
Ao
avaliar Sr. F., este mostrava-se
bastante inquieto, com olhar
assustado, e ao perguntar-lhe
porque havia estado agitado
na noite anterior, fez sinal
de silêncio e pediu-me para
sair do quarto com ele. No corredor,
começou a chorar, dizendo que
“aquelas crianças querem tirar
o meu sangue”.
-
Que crianças?
-
As crianças que estão debaixo
da minha cama.
-
Quem são elas?
-
Não sei, elas aparecem de vez
em quando, tiram meu sangue
e correm pelo quarto.
-
Por que elas querem o seu sangue?
-
Para me perturbar.
Conversando
um pouco mais com o doente,
percebi que estava desorientado
no tempo e no espaço. Perguntei-lhe
se já havia consultado um psiquiatra
antes, disse-me que não. Perguntei-lhe
se fazia uso de bebidas alcoólicas,
respondeu-me que não, era evangélico.
-
Por que pediu álcool ontem para
a enfermeira?
-
Para tocar fogo nestas crianças
que não me deixam em paz.
Não
conseguia repetir um número
de 5 dígitos (déficit de atenção
voluntária), mas estava atento
a qualquer estímulo do ambiente
(aumento da atenção espontânea).
Não havia sinais autonômicos.
Os
últimos exames laboratoriais
haviam sido pedidos há dois
dias e estavam normais. Ele
estava usando opióides para
dor.
Ao
conversar com o médico, disse
que se tratava de um caso de
delirium, mas não secundário
à abstinência do álcool, porque
o paciente não tinha história
de alcoolismo e não havia sinais
autonômicos. Sugeri que solicitasse
uma lista de exames laboratoriais,
e, se possível, reduzir a dose
de opióides, já que estes poderiam
estar relacionados ao quadro.
Sugeri que fizesse medicação
sintomática (haloperidol em
dose baixa). Ao retornar no
dia seguinte, o colega me disse
que o paciente estava com sobrecarga
de água, com hiponatremia, que
já estava sendo corrigida. Deixei
então uma hipótese diagnóstica
de delirium por múltiplas causas.
O paciente evoluiu muito bem
durante a semana seguinte, não
necessitando mais do neuroléptico,
senão no primeiro dia.
Breve
Revisão de Literatura: As
taxas de prevalência de delirium
variam de acordo com o contexto
clínico. São mais baixas entre
os idosos na comunidade (0,4
a 1,1%), em comparação a idosos
hospitalizados (7 a 39%), ou
àqueles vistos na sala de emergência
(24%)4. Cerca de 30% dos pacientes
em unidades cirúrgicas de tratamento
intensivo e unidades cardíacas
de cuidados intensivos e 40
a 50% dos pacientes que estão
se recuperando de cirurgias
por fraturas de quadril têm
um episódio de delirium5.
Delirium
é uma síndrome clínica caracterizada
por rebaixamento súbito do nível
de consciência, comprometimento
da atenção, distúrbios da percepção
(distorções, ilusões e alucinações),
distúrbio da capacidade de compreensão
e abstração, delírios pouco
estruturados e fugazes, déficit
de memória de fixação e relativa
preservação da memória remota,
desorientação (mais comumente
no tempo), comprometimento da
atividade psicomotora (aumento
ou redução), alteração do ciclo
sono-vigília, transtornos emocionais
(p. ex., depressão, ansiedade,
medo, irritabilidade, euforia,
apatia, perplexidade), com início
abrupto dos sintomas e flutuação
ao longo do dia, tendendo a
piorar à noite (sundowning).
Tem duração limitada a até seis
meses (em geral, dias ou semanas).
A flutuação dos sintomas pode
dificultar muito o diagnóstico6.
McCusker
et al. (2002)7 estimaram a mortalidade
em 12 meses em pacientes com
delirium versus controles como
63% vs 17%, respectivamente.
Quando ajustaram seus dados
para excluir possíveis efeitos
de outras variáveis (p. ex.,
idade, perfil clínico, presença
de demência), os pacientes com
delirium mantiveram o dobro
da taxa de mortalidade em 1
ano em relação a seus controles.
Existem
três subtipos de delirium de
acordo principalmente com a
atividade psicomotora: o hipoativo-hipovigilante
(chamado estado confusional
agudo por alguns) ou sonolento,
em que o paciente tende a apresentar
apatia, pouca resposta a estímulos
ambientais e freqüentemente
sintomas depressivos; o hiperativo-hipervigilante,
em que o paciente apresenta-se
inquieto ou agitado e tem maior
probabilidade de ter sintomas
psicóticos; e o tipo misto8.
O
reconhecimento do subtipo de
delirium pode ter algum valor
diagnóstico. Por exemplo, na
encefalopatia hepática, geralmente
o paciente tem o subtipo hipoativo-hipovigilante;
o delirium tremens geralmente
se manifesta com hiperatividade-hipervigilância9.
Indivíduos
com déficits cognitivos pré-existentes
(demências), lesões cerebrais
prévias e idade avançada (ou
crianças) são muito vulneráveis
ao desenvolvimento de delirium.
Além disso, certas condições
se associam ao início de um
quadro de delirium: privação
de sono, déficit sensorial (em
especial, visual ou auditivo),
imobilização, desidratação,
desnutrição, inclusão de mais
de três drogas ao regime terapêutico
recentemente, e uso de cateteres
vesicais10.
Aproximadamente
30% dos casos de delirium são
devidos a toxicidade por drogas.
As drogas que comumente causam
delirium são as medicações anticolinérgicas,
as sedativo-hipnóticas, os analgésicos,
diuréticos, digitálicos, anti-hipertensivos,
antiarrítmicos, antagonistas
de H2, lítio, l-dopa, antiinflamatórios,
narcóticos, quimioterapia, anticonvulsivantes,
hipoglicemiantes e esteróides4.
Outras
causas muito importantes são
abstinência de álcool e drogas,
infecções, doenças cardiovasculares
(IAM, arritmias, TEP), doenças
do SNC (AVC, vasculites, TCE,
estado pós-ictal, encefalites,
tumor), distúrbios metabólicos
e endócrinos4.
Delirium
é muito comumente subdiagnosticado;
aproximadamente 70% dos casos
não são reconhecidos pelos médicos11,
levando a um aumento nas taxas
de mortalidade e morbidade,
declínio da capacidade funcional
e prolongamento das internações
hospitalares10.
É
importante suspeitar fortemente
de delirium sempre que um idoso
apresenta mudanças agudas no
comportamento ou na cognição,
principalmente se ele já tem
algum grau de comprometimento
cognitivo prévio. É importante
fazer e documentar um exame
do estado mental, focado não
apenas no comportamento, pensamento
e percepção, mas também em alguns
testes de função cognitiva,
como solicitar ao paciente que
diga os meses do ano em seqüência
inversa ou que repita um número
de até 7 dígitos4.
Reeves
et al (2000)12 sugeriram que
o fator isolado mais importante
no reconhecimento de delirium
é o exame do estado mental.
Os
principais diagnósticos diferenciais
de delirium são: (1) demência,
em que o curso é mais lento
e insidioso e não há rebaixamento
do nível de consciência: (2)
mania ou outro transtorno psicótico,
em que o paciente também apresenta
alucinações, delírios, pensamento
desorganizado e agitação, mas
não tem alteração da consciência;
e (3) depressão, que se confunde
sobretudo com o subtipo sonolento
de delirium4.
Quando se suspeita
de um diagnóstico de delirium, é essencial que se tente encontrar
e tratar a causa de base. Este deve ser o foco principal do manejo.
Deve-se fazer um exame físico completo, uma revisão de prontuário
(procurando principalmente por mudanças de comportamento, inclusão
de novas drogas ao regime e resultados de exames complementares)
e solicitar exames laboratoriais e de imagem adequados6.
O
screening geral para o paciente
com delirium deve incluir hemograma
completo, velocidade de hemossedimentação,
eletrólitos (sódio, potássio,
cálcio, fósforo e magnésio),
glicemia, uréia e creatinina,
albumina, enzimas e função hepática,
urina tipo I, raio X de tórax,
eletrocardiograma e oximetria
de pulso ou gasometria (se indicado).
Mais exames específicos devem
ser solicitados de acordo com
as alterações no exame físico
e hipótese diagnóstica6.
Reorientação
dos pacientes é muito importante
por meio de relógios, calendários,
fotos da família e outros objetos
pessoais. Deve-se também lembrar
os pacientes com déficits visuais
ou auditivos a usar seus óculos
ou aparelhos de audição. Membros
da família devem ser orientados
e encorajados a permanecer com
o paciente sempre que possível4.
Medicações
sintomáticas devem ser prescritas
apenas se o paciente apresentar
comportamento agressivo, agitação,
alucinações ou delírios e devem
ser usadas na menor dose eficaz.
Haloperidol em doses baixas
(iniciar com 0,5 a 1mg via oral
ou intramuscular e repetir dentro
de 30 minutos até sedação ou
desaparecimento dos sintomas-alvo)
continua sendo a droga de escolha
para a maior parte dos casos,
por seus mínimos efeitos anticolinérgicos
e hipotensores. Bons resultados
também tem sido relatados na
prática clínica com os neurolépticos
atípicos, mas ainda não existem
muitos estudos sobre seu uso
em pacientes com delirium. Os
benzodiazepínicos de vida curta
como o lorazepam são consideradas
as drogas de escolha para as
síndromes de abstinência, como
o delirium tremens. São contra-indicados
na encefalopatia hepática e
devem ser usados com cautela
na insuficiência respiratória4.
Discussão: Fazendo
uma reflexão sobre os casos
acima e os dados da literatura
apresentados, fazemos alguns
questionamentos: o médico é
preparado para realizar adequadamente
o exame psíquico dos pacientes?
Como se poderia melhorar o aprendizado
em saúde mental dos graduandos
em medicina e dos médicos já
formados? Cursos de educação
continuada que abordassem temas
de saúde mental ajudariam na
formação do médico? A interconsulta
em saúde mental auxilia os outros
médicos no aprendizado de psiquiatria?
Ainda há preconceito por parte
dos profissionais da saúde com
o paciente com sintomas psiquiátricos?
A sobrecarga de atividades do
médico pode contribuir para
possíveis enganos na avaliação
de pacientes? Que fatores podem
estar envolvidos com o subdiagnóstico
de delirium no hospital geral?
Em geral, quando o médico se
depara com um paciente com sintomas
psiquiátricos, ele pensa em
possíveis causas orgânicas?
Ele se atém a examinar o doente
com cautela como o faz quando
está diante de um paciente com
abdome agudo? A superespecialização
médica contribui para não termos
uma visão holística dos casos
que atendemos?
Bibliografia:
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Prospective versus retrospective
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with delirium. J Am Geriatr
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2.
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4.
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