Informações aos Alunos, Residentes e Profissionais de Saúde

SUMÁRIO PARA ORIENTAR A OBSERVAÇÃO E A ENTREVISTA DO PROFISSIONAL DE SAÚDE

Mario Alfredo De Marco

Observação
A natureza daquilo que é observado depende da perspectiva a partir da qual observamos.

Modelo Biomédico
O discurso da medicina, via de regra, apóia suas observações e formulações, exclusivamente, a partir da perspectiva do modelo biomédico. Este modelo, refletindo o referencial técnico-instrumental das biociências, exclui o contexto psicossocial dos significados, dos quais uma compreensão plena e adequada dos pacientes e suas doenças depende. Uma efetividade mais abrangente da prática depende desta compreensão.

A formação  dos profissionais de saúde
A formação dos profissionais de saúde está, preponderantemente, ancorada no modelo biomédico. Esta situação favorece a construção de uma postura de desconsideração aos aspectos psicossociais tanto dele próprio, quanto dos pacientes.

O Modelo Biopsicossocial
A perspectiva que tem como referência o modelo biopsicossocial tem se afirmado progressivamente. Ela proporciona uma visão integral do ser e do adoecer que compreende as dimensões física, psicológica e social. Quando incorporada ao modelo de formação do médico coloca a  necessidade de que o profissional, além do aprendizado e evolução das habilidades técnico-instrumentais,  evolua, também, as capacidades relacionais que permitem o estabelecimento de um vínculo  adequado e uma comunicação efetiva.

Comunicação
A partir da perspectiva biopsicossocial é evidente a importância de uma comunicação efetiva, no sentido de  criar um vínculo adequado, assegurando que os problemas e preocupações dos pacientes são entendidos por aqueles que oferecem cuidados e que informação relevante, recomendações e tratamento sejam entendidos, lembrados e efetivados pelos pacientes.

Escutando os pacientes
Boa comunicação é um processo de duas vias:  requer tanto fala quanto escuta efetiva. Pacientes têm suas próprias crenças sobre seus corpos, saúde e doenças. Comunicação efetiva requer que os médicos percebam a perspectiva a partir da qual o paciente está se expressando e, quando necessário, tentem corrigir concepções distorcidas. Informações e recomendações devem ser fornecidas dentro do campo de conhecimento  e compreensão dos pacientes.

Comunicação verbal e não-verbal
O canal não-verbal é uma parte integral de toda comunicação.

Postura, gestos, contato visual, tom de voz e proximidade são componentes importantes da comunicação não-verbal.

Disponibilização de informações
Em geral, os pacientes querem mais informação do que lhes é fornecida. Uma vez que os pacientes variam em relação ao conhecimento que possuem, à quantidade e tipo de informação que querem e às suas expectativas em relação à consulta, é importante discutir isso com eles. É também essencial verificar a compreensão e a fixação de informação relevante com os pacientes a intervalos regulares. Um problema comum de comunicação é o uso de jargão e termos técnicos.

Informações sobre procedimentos
O estresse dos procedimentos em saúde pode ser reduzido pelo fornecimento de informações para reduzir a incerteza dos pacientes. Isto inclui informações sobre os vários procedimentos que têm lugar nos diferentes estágios e informações sobre o que poderá ser experimentado. Dor e desconforto são menos incômodos se são esperados. É útil, também, fornecer aos pacientes recomendações sobre comportamentos e procedimentos que possam reduzir as sensações desprazeirosas e aumentar o relaxamento. B

Comunicação de “más notícias”
A resposta dos pacientes às más notícias são altamente variáveis e imprevisíveis. Eles podem expressar sua ansiedade como raiva, que pode incluir raiva dirigida ao portador da notícia. Se isto acontece, a relação médico-paciente fica vulnerável e para  ser preservada é necessário paciência e compreensão da situação.

As principais razões que levam os profissionais de saúde a evitar lidar com os aspectos emocionais resultantes das más notícias são:

    - falta de treinamento

    - medo de aumentar o estresse do paciente

    - falta de suporte emocional e prático dos colegas

    - preocupação quanto à própria sobrevivência emocional.

Decisões sobre o tratamento
Os pacientes diferem na extensão pela qual querem ser envolvidos na decisões sobre o tratamento. Contudo, a maioria prefere uma interação colaborativa e, oferecer escolha de tratamento e seguir as preferências dos pacientes mostrou-se útil para reduzir ansiedade e depressão. Dessa forma, escolha informada e consentida não é um princípio abstrato mas está associada com boa evolução psicológica, tanto emocional como comportamental.

Dilemas éticos
Tomar decisões pode envolver dilemas éticos que o profissional precisa estar preparado para enfrentar.

Educação Continuada
O processo de aquisição e evolução de conhecimentos e capacidades tanto dos profissionais como dos pacientes e seus familiares é um processo contínuo. Os conhecimentos crescem exponencialmente tornando impossível dominar inteiramente qualquer campo de atividade. As capacidades, por outro lado, necessitam do uso contínuo para sua evolução. Mais que ter conhecimentos é importante estar disponível e capacitado para a busca dos conhecimentos e a evolução das capacidades.

PREPARO PARA A ENTREVISTA
O modelo biopsicossocial exige que o profissional de saúde evolua, além das capacidades técnico-instrumentais, suas capacidades de contato e comunicação.

Quando você for realizar uma entrevista ou uma consulta é importante ter presente o que isto implica para você e para a pessoa entrevistada.

Encontrando com o outro.

    -Para que um encontro efetivo ocorra é importante manter a mente aberta – você não conhece a pessoa com a qual você está interagindo. É importante, portanto, não se deixar influenciar por imagens prévias ou preconceitos.

    -Cada pessoa é um universo muito amplo, desconhecido, em grande medida, para a própria pessoa. Você, da mesma forma, vai poder ter acesso somente a uma parte muito pequena desse ser.

Lembre-se:

    -Todo contato produz ansiedade, seja em quem está entrevistando, seja em quem está sendo entrevistado. É importante que isto seja levado em conta, aceito e observado.

    -É útil, então, que você respeite o fato que todo encontro entre pessoas desperta algum tipo de tensão. A tendência, quando não há uma percepção adequada das angústias  despertadas no encontro,  é a pessoa ficar “armada”.

    -Você sabia que o aperto de mão surgiu, ao que tudo indica, como manifestação que ocorria no encontro entre pessoas e era uma demonstração de que as pessoas estavam com as mãos livres, isto é, desarmadas?

    -Os níveis de ansiedade que surgem em cada encontro são variados e podem ser um indicador importante a ser considerado.

Observando

    -A observação exige, antes de tudo presença. Se você está presente fisicamente, mas sua atenção está ausente, voltada para seus pensamentos, lembranças etc., será impossível realizar uma observação adequada.

    -Todos estamos carregados de imagens prévias resultado de uma série de experiências e também de nossas fantasias. Temos imagens sobre tudo e todos. É importante, então, para realizar uma autêntica observação,  não confundir as imagens com a pessoa real que está à sua frente. Por exemplo, a imagem que você tem de um paciente pode ter muito pouca relação com o paciente que está na sua presença.

    -É útil quando você está realizando observações, deter-se a observar a forma como você está observando.

    -Observar o que acontece com você, também pode ser muito útil. As impressões, sensações  e emoções despertadas pelo contato podem ajudar, quando adequadamente interpretadas,  a perceber o que está se passando com a pessoa com a qual você está em contato e qual a natureza do vínculo que está se estabelecendo.

A comunicação

    -É importante ter presente que a  linguagem verbal é uma forma evoluída de comunicação, que funciona lado a lado com outras formas mais primitivas (gestos, expressões corporais etc.) ou de natureza distinta (escrita, pintura, música etc.).

    -A linguagem verbal é um instrumento que pode ser usado tanto para revelar quanto para encobrir os fatos.

    -A linguagem verbal tem um conteúdo e um corpo. Este é denominado paralinguagem e se refere ao som ou qualidade de voz que acompanha a fala (altura, tom e ritmo). A paralinguagem revela muito sobre a situação que a pessoa que fala se encontra.

    -Temos, ainda, a linguagem não-verbal que compreende as expressões, gestos, contato visual, posturas corporais etc.. Tanto a paralinguagem como a comunicação não-verbal  são cruciais no processo de comunicação. É importante perceber as inconsistências entre os dados verbais e os não-verbais. Estes costumam ser mais confiáveis. Por exemplo, um paciente que diz que tudo está bem, chorando ou com os olhos marejados, está lutando, tentando manter distantes as emoções que acabam por se manifestar através da linguagem não-verbal.

Características do vínculo

    -A qualidade da comunicação é conseqüência do vínculo que se estabelece.

    -As características do vinculo podem ter muitas descrições, dependendo da perspectiva enfatizada e dos aspectos destacados.

    -Se você destacar, por exemplo, os aspectos de cooperação e competição, você pode observar se o que prevalece no vínculo é a cooperação ou a competição.

    -Há algumas classificações mais gerais que agrupam as qualidades do vínculo em categorias. Por exemplo: vínculo paternalista, no qual, os profissionais de saúde dominam  a agenda, objetivos e tomada de decisões a respeito tanto das informações quanto dos serviços. O pressuposto básico é que o profissional de saúde é o guardião, agindo no melhor interesse do paciente, a despeito das preferências deste (este costuma ser o modelo de vínculo mais típico e prevalente). vínculo mutualista, no qual existe um balanceamento do poder, respeitadas as peculiaridades de cada papel. Os objetivos, agenda e decisões relacionadas à consulta são resultado de negociação entre parceiros; paciente e profissional de saúde trabalham em associação e o diálogo é o veículo através do qual os valores do paciente são explicitamente articulados e explorados. Através deste processo o profissional de saúde atua como conselheiro ou orientador.  vínculo consumerista no qual o modelo mais típico de relação de poder entre profissional de saúde e paciente está invertido. O paciente é que dita a agenda e os objetivos e assume a responsabilidade pela tomada das decisões. Este tipo de vínculo redefine o encontro como uma transação de mercado.

O que perguntar?

    -As perguntas, evidentemente, são conseqüência do objetivo que você tem em mente. Se seu foco está voltado para a investigação da doença, você deve ter um roteiro e conhecimentos que possibilitem você relacionar sintomas que aparentemente podem parecer não relacionados.

    -Da mesma forma, quando o foco está voltado para a pessoa você precisa ter um roteiro que ajude você a focar características de personalidade e vivências significativas. Neste campo, há alguns conhecimentos que são intuitivos e experienciais, outros  dependem de um preparo prévio. Por exemplo, você, pela sua própria vivência sabe que quando uma pessoa adoece tende a ficar mais fragilizada emocionalmente. Você pode, então, fazer perguntas e observações para verificar o quanto a pessoa está fragilizada.

Como perguntar?

    -Quanto ao conteúdo, existem perguntas que induzem respostas ou perguntas muito amplas que levam a respostas formais.

    -Quanto ao modo como é formulada a pergunta. Lembre-se daquela piada que diz que chato é a pessoa que você pergunta como vai e ela,  realmente te responde. Ou seja, existem perguntas que são feitas formalmente e que não são para serem respondidas. É importante, então, você ter presente se está perguntando formalmente ou está perguntado de forma a estar de fato interessado na resposta. Isto vai influenciar a qualidade das respostas que você vai obter.

    -Procure evitar perguntas fechadas, pois, geralmente as respostas, não são significativas. Por exemplo, se você pergunta:  está em informado sobre sua doença? A resposta, seja afirmativa ou negativa vai fornecer informação irrelevante. É mais proveitoso perguntar, por exemplo: que informações você já tem sobre sua doença?

    -Perguntas sobre a vida pessoal, podem despertar angústias tanto nos pacientes como nos profissionais. Uma forma de defesa comum em relação a essa situação é “p’ra que ele está me perguntando isto?”

Porque é importante perguntar sobre a vida pessoal?
Você precisa conhecer a pessoa, pois o adoecer sempre tem a participação de fatores físicos, psico-emocionais e sociais. Da mesma forma, o modo como a pessoa vai lidar com a doença e com o tratamento depende de todos estes fatores.

ENTREVISTA
Não existe uma forma correta e determinada de realizar uma entrevista. É importante que você tenha seu estilo pessoal. A autenticidade é um grande facilitador do contato e da comunicação.

Os roteiros e indicações são muitos úteis desde que você os utilize de acordo com a sua preferência e  estilo.

O roteiro é para servir como guia e não para escravizar. Se você ficar muito preso ao roteiro você vai mecanizar o processo e prejudicar o contato e a relação. O roteiro é útil para ajudar você a ter presente  as informações relevantes que você precisa obter.

Existem algumas recomendações gerais que você pode considerar:

    -A ansiedade fica diminuída quando informação apropriada é fornecida. É importante que a pessoa saiba quem você é e ao que você está se propondo.

    -Pode ser útil, também, não entrar intempestivamente nos assuntos que você tem interesse em abordar, mas que você faça um pequeno “aquecimento” da relação.

    -Perguntas amplas, do tipo “É aí, como vão as coisas?” podem ser úteis para proporcionar esse “aquecimento” do contato.

 d

v