INTRODUÇÃO
Características de
personalidade associadas à escolha da Medicina como profissão tem sido objeto de
investigações há várias décadas. Historicamente as primeiras pesquisas utilizaram-se
de referencial psicanalítico, porém mais recentemente a construção de instrumentos de
avaliação psiquiátrico-psicológica tem permitido a pesquisa empírica de atitudes e
traços de personalidade, ou mesmo de conceitos psicanalíticos propriamente ditos como,
por exemplo, os mecanismos de defesa do ego, o que é o caso do DSQ, desenvolvido por
Michael Bond no Canadá em 1984. O DSQ é um questionário autoaplicável com 88 itens que
indicam a autopercepção que se pode ter da utilização preferencial de determinados
mecanismos de defesa. O agrupamento de defesas específicas pode vir a constituir estilos
defensivos que podem refletir traços diferenciais da personalidade, por sua vez
OBJETIVOS
- Identificar as principais defesas psíquicas
(mecanismos de defesa do ego) utilizados por uma amostra de estudantes no momento de sua
admissão ao curso de Medicina (área de Ciência Biológicas) através do DSQ (Defense
Style Questionnaire) correlacionando-as com aquelas apresentadas por outros estudantes no
momento da admissão em outros cursos universitários: uma amostra de estudantes de
Direito (área de Ciências Humanas) e outra de estudantes de Engenharia (área de
Ciências Exatas).
- Diferenciar estilos de personalidade
correspondentes a motivações psicológicas possivelmente associadas a uma escolha
profissional específica.
- Investigar eventuais diferenças entre estilos
defensivos presentes em estudantes ingressantes do curso médico e médicos residentes.
MATERIAIS E MÉTODOS
A versão portuguesa do
DEFENSE STYLE QUESTIONNAIRE (Bond, 1984; Andrade, 1996) foi aplicada a 241 estudantes
ingressantes da Universidade Federal de Uberlândia, sendo 93 do curso de Medicina, 78 do
curso de Direito e 70 do curso de Engenharia. O questionário aplicado consiste de 88
itens e depois de excluídos os 10 itens de tipo "lie" ou aceitabilidade social,
os 78 restantes agrupam-se para medir 25 defesas definidas pelo idealizador do
instrumento. Apurados os escores e verificada a normalidade das distribuições, foi
efetuada uma análise de variância (ANOVA) comparando-se as médias dos escores obtidos
em cada defesa pelos sujeitos distribuídos quanto aos cursos escolhidos, sexo e faixa
etária. Encontramos diferenças estatisticamente significantes relativas ao uso de
defesas psíquicas evidenciadas em cada grupo através do questionário utilizado. Estas
diferenças permitiram o agrupamento das defesas de forma a constituir estilos ou perfis
específicos para estudantes de cada curso, permitindo a correlação entre possíveis
características de personalidade e as diferentes escolhas profissionais.
Tendo aplicado o mesmo
procedimento a uma amostra de 90 residentes do Hospital de Clínicas da Universidade
Federal de Uberlândia encontramos também diferença estatisticamente significante entre
os resultados do DSQ obtidos desta, em relação ao grupo de ingressantes no curso médico
caracterizando possível influencia do período de formação médica sobre o perfil de
defesas psíquica dos estudantes.
CONCLUSÕES
A aplicação do DSQ em
diferentes grupos de estudantes ingressantes em cursos universitários permitiu detectar
defesas psíquicas cuja organização nesta amostra conseguiu diferenciar estilos de
comportamento defensivo que tem respaldo teórico e que corroboram algumas investigações
anteriores, tanto psicanalíticas quanto empíricas. Este trabalho evidenciou com
significativa distinção, que os estudantes de Medicina desta amostra utilizam conjuntos
de processos defensivos que representam estilos específicos, diferenciados daqueles
usados pelos estudantes de Engenharia e Direito, constituindo este perfil uma possível
determinação de sua escolha profissional com eventual repercussão sobre a conduta
profissional futura. A pesquisa sugeriu também uma possível modificação no perfil
psicológico que ocorreria durante o curso de Medicina ao indicar diferença significante
nas defesas utilizadas pelos estudantes ingressantes e os médicos residentes, oriundos da
mesma escola. Acreditamos que estes achados poderão contribuir para posteriores estudos
sobre a formação médica e as relações interpessoais no âmbito da escola de medicina,
que procurem identificar meios de reforçar estilos mais adequados ao exercício da
profissão médica.
ABSTRACT
INTRODUCTION
Psychological determinants of
a medical career choice have been investigated for decades. From a historical point of
view one finds that most papers apply a psychoanalytical approach to that matter. More
recently, the increasing availability of psychiatric and psychological assessment scales
has made it possible to empirically study attitudes, personality traits or even strictly
psychoanalytical concepts such as ego mechanisms of defense. That is the case of the
Defense Style Questionnaire (DSQ) developed in 1984 by Michael Bond in Canada. The DSQ is
a self-administered 88 items questionnaire that taps possible conscious derivatives of ego
defense mechanisms. The clustering of defense mechanisms thus observed might yield
defensive styles which may reflect distinct personality traits that can be correlated to
various professional career choices.
OBJECTIVES
- To identify the predominant ego defense
mechanisms used by a sample of students at the moment of their admission to medical school
as compared to those chosen by students admitted to other courses such as Law and
Engineering.
- To distinguish different personality styles
corresponding to psychological motivations possibly associated to certain specific career
choices.
- To investigate eventual differences between
defensive styles observed for medical school freshmen as compared to medical residents.
METHODS
The Portuguese version of the
DSQ was administered to 241 freshmen at the Universidade Federal de Uberlândia: 93 in
Medical School, 78 in Law School and 70 in the School of Engineering. A variance analysis
(ANOVA) was carried out in order to determine detailed differences in the use of the ego
defense mechanisms tapped by the questionnaire for the groups taken separately according
to the career for which they had been admitted, gender and age range. Significant
differences were found in the use of defenses among the three groups. These differences
allowed the grouping of such mechanisms so as to form specific styles or profiles which
may be associated to possible personality traits to be correlated to different career
choices. Analogously, a significant difference emerged between the DSQ scores of the
medical school freshmen sample and those of a 90 medical residents sample. That finding
could indicate possible influences of the medical school environment over the choice of
defense mechanisms by the students in this sample.
CONCLUSIONS
The administration of the DSQ
to three different groups of students newly admitted to Medical, Law and Engineering
professional schools revealed defense patterns which allowed the characterization of
personality profiles that make theoretical sense and confirm earlier findings, both
empirically and psychoanalitically investigated. The medical school freshmen in this
sample use groups of defensive processes that represent specific behavioral styles
different from those observed for Engineering or Law freshmen. This profile may possibly
determine their career choice as well as reflect on their future attitudes towards the
medical profession. This study also suggests a probable influence of medical school on the
psychological ways of coping evidenced by the students, as it showed significant
differences between the defense mechanisms used by freshmen and residents from the same
medical school. We believe that these findings may contribute to further investigations on
medical school environment and interpersonal relationships therein. It should also be
possible thereafter to look for new means of reinforcing defense styles more adequate to
the practice of Medicine. Additional longitudinal studies evaluating the medical school
influence on students attitudes towards profession are required.