RESUMO
Objetivo:
Levantar informações sobre situações
direta ou indiretamente relacionadas ao uso indevido de substâncias
psicoativas nas escolas municipais de ensino fundamental da cidade
de São Paulo, bem como os correspondentes comportamentos,
atitudes e conhecimentos sobre o tema dos coordenadores pedagógicos.
Método: Estudo etnográfico com informações
colhidas com informantes-chave, selecionados pela técnica
do “snow-ball”, entre os educadores da rede municipal de ensino
locados no setor administrativo da Secretaria Municipal de Educação.
Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas, focando a formação
média, as condições de trabalho e as situações
comumente vividas pelos Coordenadores Pedagógicos das escolas
municipais de São Paulo. Este estudo foi realizado com base
no referencial etnográfico e as entrevistas, depois de transcritas,
passaram pela análise por meio da técnica de lógica
categorial de conteúdo, procurando fixar-se ao fenômeno
descrito, sem entrar na interpretação da forma do
discurso. Resultados: Entre as dificuldades cotidianas relacionadas ao
corpo discente citadas, boa parte guarda relação direta
ou indireta com a questão das drogas. A maioria dos entrevistados
mostra tranqüilidade na identificação de alunos
com problemas de atenção, comportamento ou com problemas
familiares, fatores de risco para futuro uso abusivo de substâncias.
Em geral, as intervenções relatadas primaram pela
compreensão e inclusão do aluno, o que resulta indiretamente
numa ação preventiva do uso indevido de drogas. Apesar
do discurso teórico predominantemente pautado pelos princípios
da “guerra às drogas”, muitas ações inclusivas,
coerentes com o movimento de “redução de danos”, foram
relatadas, especialmente quando a situação não
tinha relação direta ou aparente com o uso de drogas.
Quando a questão da droga era explícita, a atitude
tendia à maior intolerância e ao preconceito. Em geral,
as intervenções visando a inclusão de alunos
em situação vulnerável não foram reconhecidas
como ações de prevenção. O discurso
geral dos entrevistados enfatiza o despreparo e a insegurança
da equipe docente para lidar com o problema. A idéia da transmissão
de conhecimentos como base da prevenção permeia a
maioria dos discursos. A forma de intervenção preventiva
mais citada foi palestra. Discussão: Entre os fatores que
podem estar associados à relutância dos educadores
em apropriar-se do papel de mediador de intervenções
preventivas estão: os problemas relativos à formação
e informação e o lugar social ocupado pela droga na
sociedade atual, além da sobrecarrega do corpo docente. O fato intervenções
características da “redução de danos” serem
realizadas mesmo por entrevistados que não demonstraram um
conhecimento mais sistematizado sobre esta corrente teórica
não chega a surpreender, pois a “redução de
danos” é um movimento internacional que surgiu da práxis
para depois se transformar em conhecimento acadêmico. A profusão
de relatos da convocação ou presença da Guarda
Civil Metropolitana nas escolas provavelmente se deve à aproximação
entre o uso de drogas e a marginalidade no ideário do educador,
como na sociedade. Conclusão: O Coordenador Pedagógico
pode ser visto como o profissional de eleição para
protagonizar a reflexão sobre o uso indevido de drogas nas
escolas e sua prevenção. Faz-se necessário
não somente a capacitação, mas a valorização
profissional do educador. A atitude mais próxima da política
da redução de danos parece bastante compatível
com a prática do educador aberto à realidade social
da escola e sensível às necessidades dos alunos. Os
obstáculos a esta prática incluem a conotação
moral das drogas, colocadas no lugar de bode expiatório da
sociedade atual, associada a baixas condições de trabalho
de nossos docentes. Neste sentido, a capacitação teórica
dos educadores teria a função de ratificar uma prática
desenvolvida a partir da vivência na escola, tornando-os mais
seguros nas suas intervenções. |