BANCO DE TESES MATEUS PINHEIRO DE SOUZA
TRANSTORNOS DO SONO EM PACIENTES PSICÓTICOS:articulação teórica entre estudos experimentais e abordagem psicanalítica
Orientador: Profa. Dra Latife Yazigi
RESUMO Os transtornos de sono em pacientes com quadros psicóticos agudos são avaliados à luz de uma teoria psicossomática. Nela considera-se haver, nas psicoses agudas, o deslocamento do sonhar para a vigília, como forma de proteção para o impacto provocado por uma realidade interna conturbada. A mente geraria um delírio, por meio de um mecanismo psicossomático, para lidar com a realidade frustradora, insuportável. Com o delírio, tenta-se obter o mesmo tipo de gratificação que psicanalistas supõem ser obtida no sonhar noturno. Para desenvolver o tema, é feito inicialmente um apanhado abrangente das questões relativas ao sono, incluindo um breve histórico dos desenvolvimentos da pesquisa experimental nesta área. A seguir, os problemas de sono de origem psicológica são abordados. Comenta-se sobre hipóteses relativas às insônias nos quadros de ansiedade, nas quais a insônia é enfocada como um sintoma que visa proteger o indivíduo de perigos que, embora fantasiados, são subjetivamente vividos como reais. Aventa-se a possibilidade de que os distúrbios de sono nas psicoses também estariam relacionados às perturbações emocionais que acompanham tais estados. A seguir é enfocada a pesquisa experimental sobre os transtornos de sono nos quadros de psicose, sendo citados trabalhos que abordam o assunto de maneira, tanto direta, como indireta. Dá-se atenção especial ao estudo de Kupfer et al (1970), que avalia longitudinalmente o sono de seis pacientes com quadros de psicose aguda. O padrão de sono destes seis pacientes mostrou diferenças singulares daquele dos pacientes do grupo controle, composto por 15 indivíduos normais. Os achados mais significativos deste trabalho são a diminuição de sono REM no período inicial das crises, e a não reposição dele nas fases seguintes. A partir da ausência desta reposição, cogita-se que a necessidade de REM é de alguma maneira abrandada durante a crise de psicose aguda. É proposto pelo autor do presente trabalho que este tipo de alteração aconteça por haver nesses quadros a 'difusão' do sonhar na vigília. Como um pensamento semelhante ocorre no âmbito das teorias psicanalíticas, é feito um breve histórico dos desenvolvimentos da psicanálise sobre o assunto. É examinada a teoria de Freud (1900) a respeito do sonhar, que vê nele a satisfação de desejos reprimidos durante a vigília. É também feito um apanhado de como a psicanálise dirige o seu pensar sobre o tema das psicoses. O aspecto psicossomático que estabelece a articulação entre psicanálise e pesquisa experimental advém da hipótese de que na fase do sono em que ocorrem o sono REM e o sonhar, acontece um processo de organização neurofisiológica do mundo mental. Isto leva o autor a um paralelo do sono REM com o tratamento eletroconvulsoterápico (ECT), por considerar ele que o primeiro possa fazer naturalmente algo que o segundo faz de maneira artificial. Deste modo, os transtornos de sono na psicose aguda explicariam, em parte, a desorganização mental que é observada nesta condição, já que com a ausência do sono REM normal poderia estar havendo um prejuízo nessa função de organização mental. A questão é então enfocada por um outro ângulo, pelo qual se procura atribuir ao sonhar – e não apenas aos transtornos de sono REM – um papel significativo na geração de um quadro psicótico. São apresentadas algumas observações feitas por psicanalistas quanto à existência de uma característica oniróide no pensamento de pacientes psicóticos. Os estados oniróides explicariam em parte a convicção dos pacientes psicóticos em suas ideações delirantes, quando em crise. No episódio psicótico, embora em vigília, o paciente teria sua visão da realidade distorcida pela vivência subjetiva do sonhar. Por sua vez, a renitência de um paciente psicótico em entrar em contato com a realidade objetiva poderia estar sendo psicologicamente sustentada pelos mesmos motivos inconscientes que levam uma pessoa a entrar no episódio psicótico. A atenção é também chamada para uma teoria psicanalítica que considera a possibilidade do sonhar exercer um papel significativo na elaboração de emoções. Este seria o principal motivo para o paciente psicótico inconscientemente provocar um estado oniróide durante a vigília. São por fim avaliadas algumas teorias neurocientíficas sobre o funcionamento mental durante o sono e o sonhar, que permitem articular teoricamente a pesquisa experimental com as idéias psicanalíticas. Dois importantes aspectos nelas são considerados: 1) a existência de indícios funcionais e anatômicos de que o sonhar não esteja necessariamente associado ao sono REM – o que é consonante com a possibilidade de haver nas psicoses uma forma de sonho, mesmo estando o indivíduo em vigília; 2) a associação do sonhar com centros nervosos ligados ao desejo. Levantada é a hipótese de que nossa necessidade psicológica de sonhar participe da cascata de eventos bioquímicos que ocasionam o sono REM. PALAVRAS CHAVE: Transtornos do sono; Transtornos psicóticos; Sonhos; Psicanálise; Pesquisa.
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