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Departamento de Psiquiatria da Unifesp

 

Usuários de cocaína: seus perfis, padrões de uso e comportamentos de risco para transmissão do vírus HIV.

Orientador: Prof Dr. Ronaldo Laranjeira

 

O objetivo desta pesquisa foi criar uma entrevista estruturada que poderia ser utilizada para avaliar os perfis, as histórias de uso de drogas e os comportamentos de risco de transmitir o vírus HIV entre usuários de cocaína/crack. Depois de fazer uma revisão da literatura, principalmente de outros instrumentos que têm sido utilizados no Brasil e no exterior, criamos uma "agenda oculta" que seria usada para dirigir as entrevistas exploratórias. Essas entrevistas, com vinte usuários de cocaína, tinham o objetivo de ajudar o processo de conceituar e operacionalizar as perguntas que seriam empregadas no instrumento. Após as entrevistas exploratórias, criamos o primeiro rascunho da entrevista estruturada que seria usada no estudo piloto com mais 40 pacientes. A versão final do instrumento tinha 245 perguntas, dividido em treze seções: sociodemográfica, uso de drogas lícitas, uso de drogas ilícitas, o início do uso de cocaína, transições na via de administração da droga, o padrão de consumo, financiamento do uso, o uso mais recente, a história de injetar drogas, episódios de abstinência e tratamento, overdose, o uso de drogas na família e comportamentos de risco para a transmissão do vírus HIV.

Este instrumento foi então usado para entrevistar 294 usuários de cocaína provenientes de 15 serviços que ofereciam tratamento, assistência ou ajuda a usuários de drogas e pessoas infectadas com o vírus HIV. Foram entrevistados, apenas pacientes usuários ou ex-usuários de cocaína/crack. Os pacientes foram entrevistados em diversos settings, inclusive: enfermarias e ambulatórios; instituições públicas, privadas e de caridade; organizações não governamentais; e serviços de atendimento a pacientes HIV soropositivos.

Noventa porcento dos pacientes eram do sexo masculino, a idade média foi de 27 anos, 62% eram solteiros, 62% só estudaram até o primeiro grau (completo ou incompleto), 30% estavam trabalhando, 46% estavam desempregados, 34% ganhavam menos que um salário mínimo por mês, mas 21% ganhavam mais que 5 salários mínimos e a maioria ainda morava na casa dos pais (54%).

Durante suas vidas, a maioria tinha usado diversas substâncias, incluindo: tabaco (88%), álcool (88%), maconha (96%), solventes (54%), anfetaminas (24%), e tranqüilizantes (51%). Havia uma seqüência temporal na qual as drogas tinham sido usadas, começando com tabaco (em média 14,2 anos), seguido por álcool, solventes e maconha (em turno de 15 anos), depois anfetamina (17,6 anos), cocaína (18,9 anos) e finalmente, tranqüilizantes (22,3 anos). Os pacientes tinham passado em mediana 6,3 anos usando a cocaína.

Durante o pico de seu uso da droga, consumiam uma média de 5g de cocaína em pó ou 9,5 pedras de crack por dia e 63% usavam a droga todos os dias. Sessenta e quatro porcento relataram que geralmente tomavam bebida alcoólica enquanto usavam cocaína e 30% descreviam uso simultâneo de cocaína e maconha. O consumo de drogas foi muitas vezes financiado por intermédio de atividades criminosas, 39% já chegaram a vender objetos roubados da família, 38% tinham cometido furtos e roubos e 21% tinham roubado à mão armada. Tráfico de drogas também foi relatado com certa freqüência, 18% vendiam maconha, 16% vendiam cocaína e 12% vendiam crack. Cinqüenta e seis porcento tinham sido presos e 16% já passaram pelo presídio.

A maioria dos usuários de cocaína começou a usar a droga por via inalatória (cheirando) (87%), mas transições de via de administração da droga eram comuns (74%). Sessenta e oito porcento das transições foram para fumar crack, 20% para via endovenosa e 12% para cheirar a droga. Uma análise de regressão logística mostrou que transições de via de administração de cocaína foram relacionadas a: um início de uso de cocaína mais precoce, uso de múltiplas substâncias, uso de cocaína mais freqüente, baixa escolaridade e início de uso pelas vias inalatória ou endovenosa.

Trinta e dois porcento dos usuários tinham injetado uma droga durante suas vidas, pelo menos uma vez, dos quais 78% viraram injetores regulares. Sessenta e oito porcento dos injetores tinham pedido emprestado uma seringa previamente usada e 64% tinham emprestado uma seringa usada para alguém. O compartilhamento de apetrechos de injetar era comum, com 78% dos injetores tendo compartilhado as colheres ou tampinhas de garrafa (utilizadas para esquentar a droga) e 82% a água utilizada para enxaguar a seringa. Embora a maioria dos injetores tomava alguma providência para limpar as seringas, geralmente utilizava agentes com baixo poder anti-séptico, tais como, água da torneira (71%). Os pacientes que foram entrevistados nos serviços de atendimento a pessoas HIV soropositivas, apresentavam níveis muito baixos de contato prévio, ou atual com serviços de atendimento a usuários de drogas (24%).

A maioria dos homens (62%) relatou que tinha tido relações sexuais com prostitutas e 13% da amostra total tinha trocado sexo por droga ou dinheiro para comprar drogas. A freqüência de uso de preservativos com os parceiros fixos era baixa. Nos últimos seis meses, os pacientes HIV positivos tinham feito sexo com um número menor de pessoas, mas não usaram preservativos com os parceiros casuais com maior freqüência do que os pacientes HIV negativos.

Os dados desta tese dão a primeira descrição detalhada de usuários de cocaína brasileiros, fornecendo informações ricas e inéditas. Essas informações poderiam ser utilizadas para, pelo menos, quatro fins específicos: (i) capacitar os profissionais, que planejam e trabalham nos serviços de atendimento a usuários de drogas, favorecer a adequação das intervenções às necessidades dos pacientes; (ii) ajudar no desenvolvimento de programas de prevenção e redução de danos entre usuários de drogas; (iii) oferecer uma entrevista estruturada que pode ser aplicada em outras regiões do país para mapear as caraterísticas de usuários de drogas no Brasil e monitorizar mudanças nos padrões de consumo no futuro e; (iv) sugerir outras linhas de pesquisa.

 

mail103.gif (4196 bytes) Webmaster: Denise Razzouk

Data da última modificação: 26/03/99